domingo, 21 de julho de 2013

FERREIRA GULLAR

Beleza ainda põe mesa'

Como a vida, a arte também não basta: tem que mudar para nos suscitar novas sensações e descobertas

Arte sempre teve a ver com beleza, mesmo quando, aparentemente, mostra o feio, o horrível, o abjeto.

Não é fácil explicar o que acabo de afirmar. Para dizer a verdade, não sei ainda como explicá-lo, mas sei que o que disse é certo: a arte sempre teve (e tem) a ver com a beleza, porque, do contrário, não nos daria prazer. E não venham agora me dizer que arte não é para dar prazer. E seria para que, então? Para nos fazer sofrer é que não é, porque sofrimento já há demais na vida e ninguém gosta de sofrer, a não ser os masoquistas, que são doentes.

Inventei uma frase que o pessoal aí adotou e repete: "A arte existe porque a vida não basta". E é verdade. Não pretendo com isso dizer que a vida é só chatice e sofrimento. Não, a vida tem muita coisa boa e bela, mas, por mais que tenha, não nos basta. É que nós, seres humanos, sempre queremos mais. Mais alegria, mais felicidade, mais beleza.

Ao longo dos milênios, a arte mudou muito. Claro que, como a vida, a arte também não basta: tem que mudar para nos suscitar novas sensações, novas descobertas, novas alegrias. Por isso, ela muda. E vem mudando desde que surgiu nas paredes das cavernas, sem se saber que aquilo era arte. Sim, porque arte é apenas o nome que se dá a essa necessidade de inventar a vida.

Também por isso o conceito de beleza muda, como se vê através da história, até chegar à época moderna, quando sofre uma mudança radical, como nunca houvera antes.

E essa mudança radical fez supor que arte não tem nada a ver com beleza e, pior, que beleza é coisa ultrapassada. De fato, se você comparar uma pintura de Caravaggio com a "Guernica" de Pablo Picasso, a impressão que terá é a de que o feio tomou o lugar do belo. Terá essa impressão, sim, mas não é verdade.

Vou ver se explico. Caso esteja certo, o que aconteceu foi que, por razões que desconheço (talvez o refinamento da experiência estética), o artista plástico descobriu --pelo apuro mesmo da linguagem pictórica e gráfica-- que, não apenas a figura, criada pelas linhas e cores, tem expressão, mas as próprias linhas e cores, independentemente do que figuram, são expressões em si mesmas.

Essa descoberta conduziria, inevitavelmente, a uma subversão da linguagem figurativa da pintura, uma vez que os elementos que a compõem ganharam progressiva autonomia, passando a ser expressões em si mesmos, como linha, como cor, independentemente do que representassem.

Essa descoberta veio enriquecer a experiência dos artistas e dos amantes da arte, que passaram a se deslumbrar, extasiados, já com quadros prontos, mas com os estudos para realizá-los, já que, nestes, as figuras inacabadas tinham a expressividade que, na obra acabada, sumia.

Foi aberto, assim, outro caminho para a arte abstrata, não figurativa, chegando-se em alguns casos a desenhos que eram meros traços nada representando e pinturas que eram apenas manchas. Isso não significa, porém, que essas expressões sejam carentes de beleza: há, sim, ali, uma outra beleza que, em alguns casos --como no da citada "Guernica"-- ainda é figurativa, uma feiura (das figuras) que na verdade faz ressaltar a autonomia das linhas, a sua expressão, a sua beleza.

A exploração da expressividade da forma inacabada deu origem também a uma das tendências estéticas que marcaram a pintura do século 20, como o tachismo.

Outra consequência desse tipo de expressão foi uma maior presença do fator acaso na realização do quadro, de que é exemplo a pintura do norte-americano Jackson Pollock, feita de respingos de tinta lançados sobre a tela aleatoriamente.

O acaso é, sem dúvida, um fator presente na realização de qualquer obra de arte mas, a partir da Renascença, quando os pintores buscaram a execução cada vez mais perfeita, esse fator foi sendo quase anulado. Na época moderna, chegou-se ao extremo oposto mas, num caso como noutro, o que se buscava era a beleza.


Isso é diferente de certo tipo de manifestação artística contemporânea, em que não há qualquer preocupação com o apuro da linguagem utilizada. Em alguns casos, pelo contrário, o autor parece buscar o primarismo e o mau gosto, como a nos dizer que arte e beleza são coisas velhas, ultrapassadas.

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