A farmácia decide o que vou almoçar
O bairro foi o meu primeiro mundo. Frequentávamos sapataria, ferragem, ateliê de costura, armazém. Uma portinha levava a outra. Como um jogo de tabuleiro até a escola.
Nem sempre íamos para solicitar um serviço ou consumar uma compra. Geralmente, apenas cumprimentávamos e conversávamos com os donos, amigos da vizinhança.
Tanto que eu conservo um hábito antigo, que não prescreveu ao longo das décadas: o de me pesar na balança da farmácia. É o momento em que não preciso de receita.
Tiro os sapatos, os objetos do bolso e subo suspirando na prancha. É um ato solitário. Ninguém deve estar atrás de mim, ninguém deve ver. No instante em que identifico os meus quilos, se eles correspondem às minhas expectativas, falo para os mais próximos. Em caso contrário, digo que ela está desregulada ou finjo que não estive ali. Não tem quem não esconda o visor. Não se tenta de novo para não dar chance aos bisbilhoteiros de plantão.
Nunca adquiri o aparelho para o meu controle. Eu somente entro em farmácia que conte com a balança perto da porta.
Muitas vezes, sequer busco medicamentos. Só visito o estabelecimento para a pesagem. Os funcionários já toleram a minha presença invisível. Dos ponteiros, migrei para o visor digital. Da euforia infantil, migrei para o constrangimento adulto.
Faço isso desde pequeno, desde que a minha mãe me iniciou em uma conferida casual.
Para uma criança, o pódio representava o ponto máximo do dia. Como um passeio. Como um brinquedo. Anunciava-se o número em voz altissonante, diante dos fregueses. A informação íntima acabava sendo exposta ao público. Eu ainda não me sentia desrespeitado.
Naquela época, eu queria engordar. Era franzino, uma taquara, um par de gambitos. Esperava crescer, esperava ganhar músculos. Comemorava cada acréscimo. Sonhava em dispor de um tórax de nadador, ilusão da qual desisti pela minha incompetência na piscina. A natação me curou da asma, mas não alargou o peitoral e os ombros.
Invejava os meninos da minha turma que pareciam de uma série mais avançada. As meninas preferiam os mais altos e fortes. Eu só servia para o futebol - pois voava arrastado pelo vento. Agora rezo para, pelo menos, manter o mesmo peso, que oscila entre 76 e 80 quilos. Se extrapolo o limite, começo uma dieta. A farmácia decide o que vou almoçar.
O gesto muda meu humor. Posso ficar otimista ou pessimista de acordo com a contagem. Quando me encontro junto de minha esposa, ela não questiona o resultado. Não invade a privacidade. Pisamos no degrau com providencial distância. Não olho o display dela, ela não olha o meu. Assim seguimos o casamento em paz, sem sobressaltos. Repetimos o padrão de comportamento de qualquer atendente na hora de o cliente pôr a senha na máquina de cartão: viramos o rosto.
Jamais cansamos dessas aparições silenciosas. A drogaria é uma extensão de nossa casa. É onde meu corpo se observa por alguns minutos. Não deixa de ser meu espelho mais fiel. _





