terça-feira, 30 de junho de 2020


Competências e Habilidades Socioemocionais - Davos 2020


O que me credencia a escrever este artigo?

O propósito deste artigo é instruir de como proceder para que nossos filhos não participem das estatísticas da OMS – Organização Mundial de Saúde – sobre jovens em depressão ou ansiedade crônica. O artigo fundamentado em evidências recentes de pesquisas científicas. Algumas delas publicadas em outubro de 2019.

Além de pai de uma adolescente e uma criança, sou especialista em aprendizagem socioemocional – com mais de 10.000 horas dedicadas – treinamento de funcionários de empresas, pais, adolescentes e profissionais em geral. Estou focado em contribuir com pais de adolescentes que se veem em situação despreparada quando solicitados pelos filhos na escolha de uma carreira.

Está também no nosso foco profissional os que pensam ou, até mesmo, são forçados a mudar de profissão ou de ofício por exigência do mercado. Também visa as pessoas fora do mercado de trabalho que estão tentando retorno. Após longos anos de atividades empresarial em diversos setores, há 7 anos dedico exclusivamente a estudos, pesquisas e desenvolvimento do método MIDE, um programa de aprendizagem socioemocional (ASE) para jovens e adultos.

O MIDE faz parte de um movimento global nascido na Universidade Yale - Estados Unidos -, 1992, com o intuito de desenvolver competências e habilidades socioemocionais aos jovens em situação vulnerável da cidade de New Haven, cidade onde a Universidade está estabelecida. O conceito ganhou notoriedade e se tornou um movimento global, com centenas de programas já implementados em escolas do mundo todo.

O Mercado empresarial só despertou para as habilidades socioemocionais em 2014 quando o WEF - Fórum Econômico Mundial – publicou, alertando, que profissionais sem essas habilidades teriam dificuldades de manter seus empregos ou entrar no mercado de trabalho. Todos os anos o WEF atualiza e publica a relação das 10 competências e 10 habilidades socioemocionais pela ordem de demanda do mercado. (Em nosso Blog você encontra um artigo com relação atualizada, publicada pelo WEF em janeiro de 2020.)

Acompanho esse movimento antes mesmo dele fazer parte da agenda do WEF e observei que as competências sofreram significativas alteração de 2014 para 2020, enquanto as habilidades socioemocionais permaneceram praticamente as mesmas.

É fenômeno simples de explicar, desde que resolvemos viver em sociedade, somos demandados pelas habilidades socioemocionais. Nas últimas três décadas, os brasileiros passaram, em média, de 11 a 20 anos dentro de uma escola e universidade, mas formaram sem essas habilidades. Só agora, janeiro de 2020, a BNCC - Base Nacional Comum Curricular - introduziu habilidades socioemocionais nos currículos de todas as escolas públicas e privadas do Brasil. Com o advento da revolução industrial os sistemas educacionais se adequaram em cima de apenas duas das nove inteligências: lógico-matemática e linguística.

Habilidades Socioemocionais

É uma ampla gama de habilidades não acadêmicas desenvolvidas em programas de aprendizagem socioemocional (ASE) pelo qual as pessoas:

1. Entendem e gerenciam emoções.

2. Estabelecem e alcançam objetivos positivos.

3. Sentem e mostram empatia pelos outros.

4. Estabelecem e mantêm relacionamentos positivos.

5. Tomam decisões responsáveis.

Estas habilidades se desenvolvem ao longo de nossas vidas e são essenciais para o sucesso na escola, no trabalho, no lar e na comunidade, aumentando a capacidade das pessoas de integrar habilidades, atitudes e comportamentos para lidar de maneira eficaz e ética com as tarefas e os desafios diários.

Este é um aspecto muito importante, as habilidades socioemocionais são desenvolvidas, principalmente, no ambiente familiar reforçando uma crença popular de que a família é a base da sociedade.

O estudo científico do psicólogo norte-americano Howard Gardner, pesquisador e professor da Universidade de Harvard, denominado “As Mentes que Mudam”, reforça que nem mesmo a escola modela a mente de uma pessoa mais do que os próprios pais.

Gardner é precursor do movimento mundial ASE ao publicar sua teoria das Múltiplas Inteligências em 1984 pela Universidade de Harvard.

A teoria das MI foi utilizada em bases curriculares de países como Dinamarca, Noruega, Irlanda, Coréia do Sul, China, Singapura, etc.

Antes de pensar na carreira entenda competências e habilidades

Como orientar a escolha da carreira em águas tão turbulentas como as em que estamos navegando em 2020 e que prometem ficar assim pelo menos até 2030.

O que é uma competência?

Competência é a mobilização de: conhecimentos, habilidades práticas, habilidades cognitivas, habilidades socioemocionais, atitudes e valores, para resolver demandas complexas da vida cotidiana no pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

Veja a relação das competências relacionadas pelo WEF – 2020. As competências estão ordenadas pela análise de demanda:

Pensamento analítico e inovação;

Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem;

Criatividade, originalidade e iniciativa;

Projetos e programação de tecnologia;

Análise e pensamento crítico; 

Resolução de problemas complexos;

Liderança e influência social;

Inteligência emocional;

Raciocínio, resolução de problemas e ideação;

Análise e avaliação de sistemas.

Veja a relação das habilidades socioemocionais relacionadas pelo WEF – 2020.

As habilidades socioemocionais estão ordenadas pela análise de demanda:

1. Criatividade;

2. Originalidade;

3. Iniciativa;

4. Pensamento crítico;

5. Persuasão;

6. Negociação;

7. Atenção aos detalhes;

8. Resiliência;

9. Flexibilidade

10. Resolução de problemas complexos.


Normalmente, um pai ou os próprios jovens olham para essas duas relações e aumentam sua ansiedade que já está nas alturas. Começar por onde? Priorizar quais? Como conciliar com a educação formal que toma 110% do tempo disponível – 10% estão tirando da juventude - dos adolescentes em testes avaliativos e preparação para o vestibular?

Apresentamos essas duas relações à centenas de jovens do ensino médio de duas escolas renomadas, muitos sabiam o significado das palavras, mas menos de 3% souberam traduzir na prática.

Esse fenômeno é denominado de “Conhecimento inerte – está na memória, mas a pessoa não sabe como usá-lo -”.

Isto não nos surpreendeu, pois este é o ponto crítico dos sistemas educacionais, não só no Brasil, uma vez que os jovens estão recebendo uma sobrecarga de conhecimento inerte e não estão desenvolvendo a competência de criar um contexto para o conteúdo.

Nós acreditamos que o melhor caminho seja focar nas habilidades, veja a definição de competência de forma mais analítica.

Competência é a mobilização de:

Conhecimentos

Nesse quesito acredito que nossos currículos estão bem orientados pela BNCC – Base Nacional Comum Curricular -.

Como as escolas optam por passar o conteúdo estabelecido é o que as diferencia.

Habilidades práticas

As escolas e pais não conseguem focar nessas habilidades devido à sobrecarga de conteúdo e pressão por resultados no vestibular. Essas habilidades dependem muito dos estágios nas empresas ou das empresas júnior e incubadoras das universidades.

O Brasil está travado exatamente nesse ponto.

Os jovens brasileiros estão sendo os mais afetados pela deterioração do mercado de trabalho. No último trimestre de 2019, 41,8% da população de 18 a 24 anos fazia parte do grupo dos subutilizados — ou seja, estavam desempregados, desistiram de procurar emprego ou tinham disponibilidade para trabalhar por mais horas na semana.

A ABRES - Associação Brasileira de Estágio - vêm alertando para esse problema a mais de uma década. De todos os alunos que estão no ensino médio hoje, só 22% irão ingressar em uma Universidade.

A evasão está em 64%, ou seja, apenas 8 alunos que estão no ensino médio irão se graduar. O mercado de estágios só absorve 4 formandos, sendo que 2 seguirão carreiras diferentes daquelas para as quais se formaram.

Em vez de irem para a faculdade a fim de se habilitar a bom emprego, os alunos vão, cada vez mais, a procura de emprego para obter diploma universitário.

O que isso significa, exatamente?

O caminho sempre foi assumido na ordem: primeiro, vá para a faculdade e depois faça um bom trabalho.

Hoje, a principal razão pela qual os brasileiros valorizam e buscam o ensino superior é "conseguir um bom emprego".
Se houvesse caminho para conseguir um bom emprego primeiro. Emprego que viria.

Essa alternância de valores será problema para as universidades e faculdades no que diz respeito à qualidade do ensino superior.

com o diploma universitário. Num futuro próximo, um número substancial de estudantes (incluindo muitos dos mais talentosos) trabalhariam diretamente para empregadores que oferecessem um bom trabalho. Além do diploma universitário , o estudante teria, também, o caminho para uma grande carreira.O ensino superior não será eliminado do modelo; diplomas e outras credenciais permaneceram valiosos e desejados. O mercado e as empresas, com suas exigências, serão os grandes motivadores. Um número crescente de jovens conseguirão empregos indo diretamente às empresas e ao mercado.

Veja a opinião da Universidade de Harvard:

"Ainda não surgiu uma alternativa clara para as universidades e, embora não exista um caminho claro para interromper o ensino superior, existem pontos problemáticos que aqueles de nós, no campo da educação e além, poderiam estar enfrentando.

Em algum momento, uma alternativa viável provavelmente surgirá e vemos seis razões que justificam a exigência de algo diferente:

Os empregadores precisam de habilidades, não apenas conhecimento ou títulos;

Os estudantes querem empregos, não conhecimento ou títulos;

Os estudantes estão pagando cada vez mais para obter cada vez menos;

Os alunos têm expectativas irreais (compreensivelmente) sobre a faculdade;

Muitas universidades de elite priorizam a pesquisa, geralmente à custa do ensino;

Em vez de aumentar a meritocracia, as universidades reforçam a desigualdade."

Habilidades cognitivas

Esta é a segunda habilidade mais importante, ficando atrás das habilidades socioemocionais. Mas jovens, e profissionais, que desenvolverem suas habilidades socioemocionais passarão a depender para o resto de suas vidas das habilidades cognitivas.

A realidade no mundo digital de hoje é que precisamos ensinar todas as gerações a aprender, desaprender e reaprender - rapidamente - para que possam transformar o futuro do trabalho, em vez de serem transformadas por ele.

Aparentemente, as universidades são uma boa ideia. Você entra, escolhe um assunto que gosta, aprende com os especialistas e não está preparado para o trabalho e o futuro.  É por isso que tantas pessoas (cerca de  40% nos países ricos) decidem fazer faculdade, mesmo que isso signifique fazer grandes sacrifícios financeiros e pessoais.

No entanto, apenas porque muitas pessoas estão fazendo isso não significa que é necessariamente uma coisa boa a fazer. De fato, embora geralmente exista um custo - em termos de perspectiva de emprego de não ter um diploma universitário, nem sempre há vantagens competitivas claras em ter um diploma, especialmente se quase metade da população tiver um.

Esta habilidade significa sua capacidade de estudar e criar um contexto de aprendizagem, ou a capacidade de aprender – desaprender – aprender novamente.

Ainda, capacidade de pensar sistemicamente, em um mundo cada vez mais complexo o pensamento sistêmico deveria ser introduzido já no ensino médio.

Existe um estudo do psicólogo norte-americano Howard Gardner – Harvard – sobre as cinco mentes que um profissional precisa desenvolver para sobreviver no século XXI:

1. Mente disciplinada: aquela que entendeu que precisa buscar conhecimento todos os dias; uma mente apaixonada pelo aprender.

2. Mente sintetizadora: com o volume de conteúdo dobrando a cada 48 horas, esta mente complementa a primeira.

3. Mente criativa: a mente que buscou o conhecimento (Mente disciplinada), sintetizou a essência (Mente sintetizadora) e cria um novo contexto de aprendizagem; pesquisas apontam que os maiores avanços e descobertas da humanidade saíram de uma tentativa de síntese de um estudo de outra pessoa; quando estamos tentando sintetizar um estudo abrimos nossa mente para novos insights.

4. Mente Ética e Mente Respeitosa: como trabalhamos que respeito é um dos princípios pilares da ética, estas duas mentes poderão ser trabalhadas juntas; podemos traduzir essas mentes como aprender a tomar decisões responsáveis, pensando no bem comum e exercendo a excelência em todos os trabalhos que nos dispormos a fazer.

Habilidades socioemocionais

É o que um programa de aprendizagem socioemocional (ASE) deve proporcionar aos seus alunos.

Habilidades socioemocionais representa uma ampla gama de habilidades não acadêmicas de que os indivíduos precisam para estabelecer metas, gerenciar comportamentos, construir relacionamentos e processar/lembrar informações.

Essas habilidades e competências se desenvolvem ao longo de nossas vidas e são essenciais para o sucesso na escola, no trabalho, no lar e na comunidade.

De um modo geral, esse conjunto de habilidades pode ser organizado em três áreas inter-relacionadas: cognitiva, social e emocional.

É importante ressaltar que essas habilidades e competências se desenvolvem e estão em interação dinâmica com atitudes, crenças e mentalidades, além de caráter e valores, os quais estão fundamentalmente ligados às características dos ambientes.

Há um equívoco comum de que todos precisaremos desenvolver habilidades altamente tecnológicas ou científicas para ter sucesso.

No entanto, embora seja necessário que as pessoas trabalhem com a tecnologia, também estamos vendo  necessidades crescente de desenvolver habilidades especializadas para com que elas se interagem.

Atitudes e Valores

Estes dois quesitos de uma competência interagem diretamente com as habilidades socioemocionais.

Não tem como desenvolver plenamente as habilidades socioemocionais sem envolver atitude e principalmente valores.

Atitude e valores é a tradução para as cinco competências essenciais da aprendizagem socioemocional (ASE): autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisões responsável.

Por isto não tem como desassociar “Habilidades Socioemocionais” de “Atitudes e Valores”.

Capa da edição brasileira de O Ponto de Mutação - Ed. Cultrix
Créditos da foto: Capa da edição brasileira de O Ponto de Mutação - Ed. Cultrix
“Em O Tao da Física, Fritjof Capra desafiou a sabedoria convencional ao demonstrar os surpreendentes paralelos existentes entre as mais antigas tradições místicas e as descobertas da Física do século XX. Em O Ponto de Mutação, ele mostra como a revolução da Física moderna prenuncia uma revolução iminente em todas as ciências e uma transformação da nossa visão do mundo e dos nossos valores.

Com uma aguda crítica ao pensamento cartesiano na Biologia, na Medicina, na Psicologia e na Economia, Capra explica como a nossa abordagem, limitada aos problemas orgânicos, nos levou a um impasse perigoso, ao mesmo tempo em que antevê boas perspectivas para o futuro e traz uma nova visão da realidade, que envolve mudanças radicais em nossos pensamentos, percepções e valores.

Essa nova visão inclui novos conceitos de espaço, de tempo e de matéria, desenvolvidos pela Física subatômica; a visão de sistemas emergentes de vida, de mente, de consciência e de evolução; a correspondente abordagem holística da Saúde e da Medicina; a integração entre as abordagens ocidental e oriental da Psicologia e da Psicoterapia; uma nova estrutura conceitual para a Economia e a Tecnologia; e uma perspectiva ecológica e feminista.

Citando o I Ching – “Depois de uma época de decadência chega o ponto de mutação” – Capra argumenta que os movimentos sociais dos anos 60 e 70 representam uma nova cultura em ascensão, destinada a substituir nossas rígidas instituições e suas tecnologias obsoletas. Ao delinear pormenorizadamente, pela primeira vez, uma nova visão da realidade, ele espera dotar os vários movimentos com uma estrutura conceitual comum, de modo a permitir que eles fluam conjuntamente para forma uma força poderosa de mudança social.”
(da orelha da edição brasileira – ed. Cultrix – de O Ponto de Mutação)

Veja, de O Ponto de Mutação, a transcrição de um trecho do prefácio escrito por Capra em 1981. Impressionante notar como é atual e urgente o texto que já completou 21 anos. Eis o convite ao leitor que ainda não teve a oportunidade de ler esta obra fundamental:

“Meu principal interesse profissional durante a década de 70 concentrou-se na drástica mudança de conceitos e idéias que ocorreu na física durante os primeiros trinta anos do século e que ainda está sendo elaborada nas atuais teorias da matéria. Os novos conceitos em física provocaram uma profunda mudança em nossa visão do mundo, passou-se da concepção mecanicista de Descarte e Newton para uma visão holística e ecológica, que reputo semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições.

A nova concepção do universo físico não foi facilmente aceita, em absoluto, pelos cientistas do começo do século. A exploração do mundo atômico e subatômico colocou-os em contato com uma estranha e inesperada realidade que parecia desafiar qualquer descrição coerente. Em seu esforço de apreensão dessa nova realidade, os cientistas tornaram-se irremediavelmente conscientes de que seus conceitos básicos, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais; remontavam ao significado de uma intensa crise emocional e, poderíamos dizer, até mesmo existencial. Foi preciso muito tempo para que superassem essa crise, mas, no final, foram recompensados por profundos insights sobre a natureza da matéria e sua relação com a mente humana.

Estou convicto de que, hoje, nossa sociedade como um todo encontra-se numa crise análoga. Podemos ler acerca de suas numerosas manifestações todos os dias nos jornais. Temos taxas elevadas de inflação e desemprego, temos uma crise energética, uma crise na assistência à saúde, poluição e outros desastres ambientais, uma onde crescente de violência e crimes, e assim por diante. A tese básica do presente livro é de que tudo isso são facetas diferentes de uma só crise, que é, essencialmente, uma crise de percepção. Tal como a crise da física na década de 20, ela deriva do fato de estarmos tentando aplicar os conceitos de uma visão de mundo obsoleta – a visão de mundo mecanicista da ciência cartesiana-newtoniana – a uma realidade que já não pode ser entendida em função desses conceitos. Vivemos hoje num mundo globalmente interligado, no qual os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos interdependentes. Para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva ecológica que a visão de mundo cartesiana não nos oferece.

Precisamos, pois, de um novo “paradigma” – uma visão da realidade, uma mudança fundamental em nossos pensamentos, percepções e valores. Os primórdios dessa mudança, da transferência da concepção mecanicista para a holística da realidade, já são visíveis em todos os campos e suscetíveis de dominar a década atual. As várias manifestações e implicações dessa “mudança de paradigma” constituem o tema deste livro. Os anos 60 e 70 geraram uma série de movimentos sociais que parecem caminhar, todos, na mesma direção, enfatizando diferentes aspectos da nova visão da realidade. 

Até agora, a maioria desses movimentos ainda opera separadamente, eles ainda não reconheceram que suas intenções se inter-relacionam. A finalidade deste livro é fornecer uma estrutura conceitual coerente que ajude esses movimentos a reconhecer as características comuns de suas finalidades. Assim que isso acontecer, podemos esperar que os vários movimentos fluam juntos e formem uma poderosa força de mudança social. A gravidade e a extensão global de nossa crise atual indicam que essa mudança é suscetível de resultar numa transformação de dimensões sem precedentes, um momento decisivo para o planeta como um todo.”

Ponto de Mutação

Em Ponto de Mutação, Fritjof Capra nos traz uma obra de sensibilidade e reflexão sobre as bases da existência e da integração do pensamento e das ações humanas no contexto do desenvolvimento, na busca da equação da vida e do progresso equilibrado e sustentado.

Partindo da paradisíaca ilha de Saint Mitchel, onde existe uma fortaleza medieval que com seu isolamento temporário, pelas marés, nos traz do subconsciente a imagem do isolamento do pensamento, com suas ruelas e salas, com seus cheiros e sabores, com suas masmorras e aposentos.

O político e o poeta se v

em em um dilema, cada qual preso em seu mundo, procurando nele o sucesso sua direção, tal qual uma solitária ilha. O terceiro personagem busca o caminho, se transformar no isolamento, na fuga o perdão pelos resultados de suas ações e criações.

Ao se prenderem ao seu mundo próximo e com limites claros e estruturados, dentro das muralhas do conhecido, eles tendem a aplicar de certa maneira o cinismo que apregoam como básico: a convivência com pessoas menos inteligentes ou que podem ser conduzidas, seja na política, na ciência ou na vida, como turistas sem conhecimento ao encontrarem o novo.

Na discussão sobre o papel dos mecanismos que regem o mundo, abordam a evolução do pensamento humano, passando por Descartes e chegando aos nossos dias, onde vemos os líderes, as pessoas socialmente aceitas como condutores, pensando unicamente de forma mecanicista, aplicando a forma mais simples de conduzir: o modelo cartesiano, onde dividimos o todo em partes, para estudando e entendendo cada uma, procurar entender o todo. Este entender para os políticos seria controlar, induzir, prever.

Nesta ânsia, não poupam o custo do sacrifício da vida, da existência, aplicada a uma parcela da humanidade presa pelas quatro paredes dos modelos econômicos mecanicistas, que independente do custo social, só pensam na validação econômica de suas teorias e negociações. Os sistemas existentes não encorajam a prevenção, só a intervenção, que não consideram que só se constrói um modelo de sucesso no presente, se estimularmos o futuro. Chega-se a dedução de que precisamos adotar o modelo de intervenção colocado como feminino, nutriente, construtor, ao contraposto do modelo masculino basicamente dominador.

Para o desenvolvimento de uma condição de perpetuidade e oportunidades para o futuro, dentro deste conceito de nutriente, devemos aplicar um raciocínio ecológico, em contraponto ao pensamento cartesiano clássico, pensando em um mundo de recursos exauríveis, orgânicos e espirituais, sejam da natureza ou da capacidade de absorver as injustiças sociais.

Para poder entender e aplicar este pensamento, se faz crucial ativar a percepção, sendo que se somente as bordas da percepção aparecessem, tudo se desvendaria como realmente é.

Nesta forma sistêmica de pensar, identificamos os pilares como sendo as conexões, tudo se interconecta, formando mesmo com seus vazios e sem condições de definições exatas, a solidez da matéria, do pensamento e da estrutura do universo tangível. O que não vemos, o que não entendemos, necessariamente não pode ser abominado, relegado, sob pena de nossa cegueira estar baseada somente na miopia da falta de abertura para o novo.

Somos todos uma parte da teia imensurável e inseparável da relações, é nossa responsabilidade perceber as possibilidades do amanhã, pois antes de tudo somos os únicos responsáveis por nossas descobertas, nossas palavras, nossas ações, e os reflexos das mesmas no universo em que estamos inseridos.

Devemos entender e abrir nosso horizonte, para modelos sistêmicos, escapando do conforto dos processos, onde temos o controle, mas muitas vezes não a compreensão. Cabe dentro deste preceito teorizar sobre os sistemas vivos, onde temos o exemplo do homem que mirava uma árvore, mais do que caule, raízes, galhos e folhas, descobria vida, insetos, oxigênio, nutrientes, alimento, sombra, proteção, energia, uma síntese de integração.

O princípio para esta abertura é ver o todo, e antes de fracioná-lo entender sua conexão, interatividade, integração. Devemos ver o impacto global de nossa existência individual, nunca esquecendo que vivemos ciclos contínuos, renovação.

Um obstáculo para a expansão este pensamento é a clara e objetiva descoberta da interdependência, do fato de que mesmo sem o controle por parte de nossas ações, que nosso planeta flui em um processo vivo, se adaptando, transcendendo, progredindo, transgredindo padrões, evoluindo.

O pensamento voltado aos processos e não as estruturas, nos dá a ferramenta essencial para poder entender o princípio, os porquês e o caminho possível para esta evolução, conseguindo assim delinear a tênue e interlaçada margem entre o pensamento clássico cartesiano e o sistêmico totalmente integrativo, plotando o objetivo mestre das sociedades modernas, das mentes que buscam a perpetuidade no futuro: o desenvolvimento sustentável, a busca do equilíbrio.

Autoria: Cléber Agnaldo Arantes


30 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Quanto custa uma consciência

Um dos tesouros da história do Brasil é a gravação da reunião em que foi decidida a instauração do AI-5, em dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras, sede do governo do Rio.

É uma preciosidade. Pode-se ouvir com clareza a manifestação de cada um dos ministros presentes. Como se sabe, o único que se opôs ao ato foi o vice-presidente Pedro Aleixo. Alguém perguntou se ele não concordava com o AI-5 por não confiar "nas mãos honradas do presidente Costa e Silva". Aleixo respondeu:

"No presidente eu confio, eu não confio é no guarda da esquina".

Um visionário.

Os outros presentes, todos, chamaram o ato pelo que era: a instituição da ditadura. Mas não a lamentaram. Ao contrário, aplaudiram-na. Delfim Netto, da Fazenda, chegou a dizer que as medidas não eram suficientemente duras. E o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, pronunciou a grande frase do encontro, uma espécie de resumo do Brasil. Ele disse:

"Às favas, neste momento, todos os escrúpulos de consciência!".

Se a reunião ministerial fosse do atual governo, os escrúpulos não seriam mandados "às favas"; seriam mandados para um lugar mais sujo. Aliás, eis algo interessante a fazer: uma comparação formal entre duas reuniões ministeriais gravadas, a de 13 de dezembro de 1968 e a de 22 de abril de 2020. Em ambas, os presidentes são militares, em ambas os temas debatidos são antidemocráticos, mas o nível da de 1968 é de general, e o da de 2020 é de capitão reformado.

"Às favas todos os escrúpulos de consciência!", gorjeou o Passarinho. Uma sentença perfeita não só para o momento como para o lugar. Essa máxima poderia ser a divisa da bandeira brasileira, em vez daquele tão pouco praticado lema positivista, "ordem e progresso".

Porque é isso que nós fazemos a todo instante, nós brasileiros: nós estamos sempre mandando os escrúpulos de consciência às favas. Muitos criticam Bolsonaro por incentivar aglomerações durante a pandemia, outros já criticaram Lula por aliar-se afetuosamente a Maluf, deputados são criticados por trocar votos por cargos, prefeitos, governadores, juízes, todas as autoridades são criticadas a todo momento, e quase sempre com razão, porque, volta e meia, elas estão mandando os escrúpulos às favas.

Mas a população brasileira, o povo trabalhador, o pagador de impostos, esse que protesta contra a corrupção e que pragueja contra as elites, o que ele faz, em meio à crise produzida pela peste? Ele não precisa, mas ele toma o auxílio emergencial que o Estado oferece para os necessitados. Não foram centenas de brasileiros que fizeram isso, não foram milhares; foram centenas de milhares. Pessoas perdendo empregos, empresas fechando, o país passando por dificuldades, e o que eles dizem?

"Às favas todos os escrúpulos de consciência!".

Veja como os preços caem a cada ano no Brasil: hoje, você compra uma consciência com R$ 600.

DAVID COIMBRA


30 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

AUXÍLIO PARA QUEM PRECISA

São assustadoras as conclusões do relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) que apontam um enorme número de pessoas no Brasil que não teriam direito ao auxílio emergencial mas mesmo assim conseguiram o benefício de forma indevida. O recurso de R$ 600, que deveria ser uma ajuda destinada apenas aos mais necessitados, que perderam grande parte de sua pequena renda devido à pandemia, acabou no bolso de cidadãos que estão longe de passar qualquer dificuldade e, pelo contrário, em alguns casos até ostentam certos luxos inalcançáveis para a esmagadora maioria da população. Pelo levantamento do TCU, cerca de 620 mil benefícios foram concedidos de maneira irregular para empresários, familiares de políticos e até mortos, um desvio que, se não for interrompido, pode gerar prejuízo de R$ 1 bilhão aos cofres públicos.

O relatório que embasou a reportagem que foi ao ar no domingo à noite no programa Fantástico e publicada em GaúchaZH revela o descontrole na concessão do benefício. Uma lástima para uma iniciativa que, em si, é altamente meritória. As fraudes explicitam uma falta de controle gritante e liberalidade demasiada dos filtros que deveriam fazer a seleção de quem tem direito à verba e quem não tem. Compreende-se o desafio que foi colocar rapidamente para funcionar um programa que vem garantindo um amparo essencial a cerca de 50 milhões de brasileiros. Mas isso não significa que não seja necessário acelerar o aperfeiçoamento dos mecanismos de inspeção, uma vez que, infelizmente, ficou provado ser ingenuidade esperar que somente a consciência individual assegure que parte dos recursos deixe de ser canalizada para brasileiros que não necessitam do dinheiro, enquanto outros que estariam enquadrados como possíveis beneficiários relatam grande dificuldade para conseguir o auxílio emergencial.

A reportagem, apesar do comprovado interesse público, ainda foi alvo de censura prévia que postergou sua divulgação, mas que acabou revertida. Cabe agora às autoridades responsáveis pelo programa encontrar meios para que todos os recursos pagos indevidamente sejam devolvidos, enquanto também é imperioso trabalhar para aprimorar os crivos de definição dos benefi- ciários, uma forma de evitar um desperdício ainda maior de dinheiro do contribuinte que, por exemplo, chegou às mãos de mais de 230 mil empresários que não se encaixam nos critérios definidos e outras 15,8 mil pessoas com renda acima da mínima estabelecida para terem acesso à ajuda. Afinal, o auxílio será prorrogado, conforme anunciou o governo federal, o que impõe ter um controle mais rígido para evitar novas fraudes.

Apesar do grande avanço em algumas frentes ligadas à tecnologia, como a urna eletrônica, em que o país é vanguarda mundial, o Brasil ainda deixa a desejar em sistemas de identificação e cadastro da população. Enquanto na Índia, com 1,3 bilhão de residentes, quase todos os habitantes foram recadastrados de forma biométrica pela íris e pela face, criando uma espécie de carteira de identidade digital, o Brasil descobriu em 2020, com a chegada da crise sanitária, a existência de mais de 40 milhões de desvalidos invisíveis aos olhos do Estado por não terem CPF regular, conta em banco ou acesso à internet. É uma situação que escancara o quanto o país precisa conhecer melhor seus cidadãos.



30 DE JUNHO DE 2020
INCONSISTÊNCIAS NOS TÍTULOS

Currículo desgasta ministro da Educação

As revelações de que o novo ministro da Educação, Carlos Decotelli, incluiu informações equivocadas em seu currículo geraram incertezas sobre a permanência dele no Ministério da Educação (MEC).

A nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial na quinta-feira, após anúncio feito pelo presidente Jair Bolsonaro. O governo planejava solenidade de posse para hoje, mas a realização do evento não estava confirmada até o fechamento desta edição.

"Em nenhum momento a Secom (Secretaria de Comunicação) confirmou o evento à imprensa e, até agora, não há previsão para essa cerimônia", informou ontem o Planalto sobre a posse.

Aliados de Bolsonaro relataram que o mais provável é que a cerimônia ocorra só na semana que vem, após pente-fino no currículo do novo ministro. Segundo relatos à agência de notícias Folhapress, Bolsonaro ficou incomodado com a repercussão negativa de erros no currículo de Decotelli e de acusações de plágio. A nova análise no histórico do ministro, ordenada pelo presidente, serve para apurar se há mais inconsistências. A ala militar também criticou os erros, uma vez que foi fiadora de sua indicação. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) entrou com representação pedindo apuração do órgão de possíveis prejuízos ao erário da nomeação do novo ministro.

Declaração

Constava no currículo de Decotelli um doutorado pela Universidade Nacional de Rosario, da Argentina, mas o próprio reitor da instituição, Franco Bartolacci, negou que ele tenha obtido o título. Há ainda sinais de plágio na sua dissertação de mestrado, e a Universidade de Wuppertal, na Alemanha, informou que o novo ministro não possui título da instituição, ao contrário do que constava em seu currículo.

À noite, Decotteli falou com a imprensa na porta do ministério e afirmou que se reuniu com Bolsonaro, ontem, e que, no encontro, foi questionado sobre o currículo. Perguntado se seguirá no cargo, respondeu que sim.

- Ele queria saber detalhes sobre a minha vida de 50 anos como professor em todas as entidades do Brasil - disse Decotelli à Globonews.

Segundo o ministro, o presidente quis saber o "lastro de vida" dele.

- Ele perguntou: Como é essa questão de detalhe acadêmico e doutorado, pós-doutorado, pesquisa de mestrado? Como é essa estrutura de inconsistência? Então, expliquei - acrescentou o ministro.

Segundo Decotelli, o assunto do doutorado está "resolvido". A respeito da denúncia de plágio no mestrado, o titular foi questionado:

- Não houve plágio, então, ministro?

E respondeu: - Não. O plágio é considerado quando o senhor faz control C, control V. E não foi isso.

Após a entrevista, Bolsonaro se manifestou em rede social: "Desde quando anunciei o nome do Professor Decotelli para o Ministério da Educação só recebi mensagens de trabalho e honradez. Por inadequações curriculares o professor vem enfrentando todas as formas de deslegitimação para o Ministério. O senhor Decotelli não pretende ser problema para a sua pasta (Governo), bem como está ciente de seu equívoco. Todos aqueles que conviveram com ele comprovam sua capacidade para construir Educação inclusiva e de oportunidades para todos", escreveu o presidente.

30 DE JUNHO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Renascimento pós-pandemia

Sei que meu otimismo beira a ingenuidade, mas estou a cada dia mais convencido de que a pandemia, em paralelo ao sofrimento que causa, também está fazendo a Terra ficar redonda novamente e colocando o obscurantismo no seu devido lugar. Acuada pelo inimigo comum, parcela expressiva da humanidade volta-se para a ciência, para a colaboração e para a valorização da democracia - ainda que persistam no mundo preocupantes focos de negacionismo, autoritarismo e falta de compaixão.

É inquestionável que sairemos quebrados desta crise, pois a paralisação das atividades econômicas e o desemprego certamente condenarão milhões de indivíduos a um período prolongado de privações. Já há, porém, sinais visíveis de adaptação aos novos e desafiadores tempos que virão. Isoladas pelo medo do contágio, as pessoas estão se descobrindo menos egoístas e consumistas, e ao mesmo tempo mais cooperativas, criativas e fraternas.

Não me arrisco a dizer que sairemos dessa encrenca muito melhores como seres humanos, pois a história da nossa espécie mostra o quanto somos suscetíveis a recaídas. Mas creio firmemente que, depois da catástrofe, ingressaremos num período de renascimento moral e cultural, caracterizado pelo amor à vida e à natureza, pela busca do conhecimento e pelo respeito ao outro.

Como o vírus não faz distinção entre povos ricos e pobres, nem entre nacionalidades, raças e religiões, fica escancarado que somos todos parentes e que estamos no mesmo barco. Só nos resta, portanto, remar juntos (por enquanto, com o devido distanciamento social) para sairmos da tormenta e voltarmos a águas tranquilas.

Está bem, barco talvez seja uma imagem demasiado reducionista. Segundo o Woldometers, um site perturbador que atualiza dados mundiais em tempo real, éramos 7.794.469.895 humanos no exato momento em que digitei esta linha. Mesmo com a pandemia, os algoritmos mostravam mais do que o dobro de nascimentos por segundo em relação às mortes. Em breve seremos 8 bilhões de sobreviventes - a maioria conscientes de que a saúde é a nossa maior fortuna.

NÍLSON SOUZA

30 DE JUNHO DE 2020
CHAMOU ATENÇÃO

Menino salva a vida da bisavó

Passava das 8h do dia 21 deste mês, um domingo, quando Júnior Nunes Wagner, 13 anos, foi acordado pela movimentação atípica em casa. Desceu as escadas rapidamente e levou um susto ao encontrar a bisavó Carlina Haas Scharnberg, 91, deitada no chão da cozinha. Pensou que ela havia morrido ali, dentro da residência, localizada no município de Vale Verde, no Vale do Rio Pardo. Sem ter muita noção do tempo despendido naquele momento, o menino recorda que atendeu o pedido da mãe, a assistente social Juliana Lopes Nunes Scharnberg, para iniciar as manobras de massagem cardíaca na idosa.

- Fui lá, fiz, e ela começou a respirar - afirma o adolescente, acrescentando que levou poucos minutos até reanimar a bisavó, que foi encaminhada para um hospital de Venâncio Aires, onde recebeu o diagnóstico de infarto, segundo informação da família.

O procedimento de reanimação do qual Júnior lançou mão e que salvou a idosa foi aprendido durante o curso de bombeiro mirim oferecido pelos Bombeiros Voluntários do município vizinho de Passo do Sobrado. Iniciadas ainda em 2019, as aulas foram incentivadas por Juliana.

- No começo, ele não estava muito empolgado com o curso, mas o ato de ajudar a bisavó o fez perceber quão importante é ter conhecimento. Tive muito orgulho de ver a postura dele naquele momento - emociona-se a mãe.

Se, no início, o curso não empolgou muito Júnior, depois do ocorrido em casa o adolescente se animou. Agora, garante que, apesar da suspensão temporária dos encontros mensais do grupo mirim, por conta da pandemia, tudo o que aprendeu foi de grande valor:

- Aprendi uma pequena lição: ensinamentos certos na hora certa podem salvar vidas.

Um dia após a internação, Carlina passou por um cateterismo. No último fim de semana, a idosa retornou para casa e, ontem, foi ao hospital para uma revisão, de acordo com a família.

CAMILA KOSACHENCO

segunda-feira, 29 de junho de 2020


29 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

BONS EXEMPLOS NA EDUCAÇÃO GAÚCHA

Encurtar a distância entre o discurso eleitoral, que invariavelmente coloca a educação como prioridade, e a realidade, que nos revela escolas degradadas, professores desmotivados e alunos despreparados, é um desafio constante. A presença de Carlos Barbosa, Farroupilha e Ijuí entre as 104 cidades brasileiras que receberam o selo Bom Percurso na pesquisa Educação que Faz a Diferença é um sinal de que existem soluções possíveis, especialmente no ensino público, ainda mais deprimido na comparação com o setor privado.

Iniciativa do Instituto Rui Barbosa, que congrega os tribunais de contas brasileiros, o reconhecimento ganha importância ainda maior no momento em que tanto se discute a relação entre educação, saúde e economia. Não há dúvida de que a educação, sempre integrada aos outros processos, é a base de tudo, meio insubstituível pelo qual o indivíduo e a sociedade conquistam o acesso à dignidade e ao bem-estar. Por isso, compartilhar referências de boas práticas é um serviço inestimável, pelas possibilidades de reprodução dos modelos vitoriosos e construídos, muitas vezes, sem recursos financeiros e humanos abundantes. Mesmo em contextos desafiadores e complexos, a evolução dos alunos e as boas práticas de gestão ajudaram a colocar os três municípios gaúchos na lista dos que têm lições a oferecer.

Se o reconhecimento da qualidade das escolas de Carlos Barbosa, Farroupilha e Ijuí é motivo para celebrar, por outro lado nos oferece a oportunidade de refletir sobre os gigantescos desafios de educar cidadãos em um mundo em acelerada transformação, no qual o saber se abre em frentes multidisciplinares, permeadas pela tecnologia e pela mudança radical no papel do professor, que deixa de ser propagador vertical de conhecimento para se transformar em moderador e organizador da avalanche de informações disponíveis aos estudantes.

A educação é um processo bem mais amplo do que a interação em sala de aula, seja ela física ou virtual. Mas não resta dúvida de que, justamente por isso, as definições contemporâneas do papel da escola necessitam de mais debate e de menos embate. Só uma visão construtiva, agregadora e focada no aluno e na sociedade garantirão a eficácia de uma vacina essencial, a que nos protege contra a desinformação e contra os arroubos autoritários que hoje, infelizmente, ocupam o vácuo deixado pela falta de educação, no sentido mais amplo possível da palavra. Também por isso, apontar os bons exemplos é um dever democrático e uma contribuição a ser aplaudida.



29 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Prazeres adiados

Um dos textos de que mais gosto do Machado de Assis é O Alienista. É um conto. Tenho-o em um volume intitulado Papéis Avulsos. Não é bom nome de livro, mas, bem, o que interessa é o autor, o nosso "Bruxo do Cosme Velho".

Nesse conto, Machado está no auge da sua narrativa irônica. A história flui fácil desde o início, não dá vontade de parar de ler. O leitor é capturado já na abertura do primeiro capítulo, "De como Itaguaí ganhou uma casa de orates". "Orate" é um desusado sinônimo para louco. Casa de orates, portanto, é aquilo que depois se chamou de "hospício" ou "manicômio".

O alienista é o médico Simão Bacamarte, um homem para quem só a ciência importa. Confira esse trecho do qual a malícia machadiana escorre por entre as vogais:

"Aos 40 anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de 25 anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista; estava assim apta a dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas - únicas dignas da preocupação de um sábio - D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte".

Não é uma delícia?

Queria indicar O Alienista como leitura de isolamento social, mas farei mais: indicarei não um, e sim DOIS alienistas. Porque há outro O Alienista que pede leitura. É o romance do americano Caleb Carr. Não se trata de um livro novo, é dos anos 1990. A novidade é que a Netflix lançou, tempos atrás, uma série sobre esse O Alienista. Assisti, agora, nos meus dias de confinamento, e gostei demais. É uma história de mistério, sombria e densa, que se passa na Nova York do  século 19.

Então, temos aqui três indicações: um conto, um romance e uma série, todos com alienistas oitocentistas.

No texto de Machado, seu alienista fica em Itaguaí. No de Carr, o alienista vai para Boston, onde morei, e de lá segue para uma cidade próxima, Newton, a fim de proceder a uma investigação.

"Enquanto passávamos pelas ruas de Newton, uma comunidade tão pitoresca e monótona quanto qualquer uma que se podia encontrar na Nova Inglaterra, comecei a experimentar a sensação desconcertante e familiar de estar acuado por ruas estreitas e mentes tacanhas, uma ansiedade que me consumira com frequência durante o tempo que passara em Harvard", relatou o narrador da história de Caleb Carr.

Conheci Newton. Fica perto de onde eu morava. É uma cidadezinha pitoresca, como descreveu Caleb Carr, mas não monótona. Pacífica, talvez. Monótona, eu não diria. As ruas são limpas e bonitas, as casas são elegantes. Os moradores, educados e sorridentes. Lá, no número 22 da Newton Center, ainda funciona o Tartufo, um dos meus restaurantes favoritos. É um italiano genuíno, que serve pratos que aproveitam os produtos típicos da região. O meu preferido era o ravióli de lagosta, que comia entre suspiros.

Eis, portanto, a quarta dica dessa crônica. Vá a Newton, conheça uma autêntica comunidade da Nova Inglaterra e jante no Tartufo. Mas esse, claro, é um prazer para depois da peste. Que estranho tempo, este nosso, de temores presentes e prazeres adiados.

DAVID COIMBRA

29 DE JUNHO DE 2020
ARTIGOS

UM "NOVO NORMAL" PARA NOS PROTEGER DE PANDEMIAS


Somos 7,8 bilhões de pessoas vivendo em um mundo globalizado. Apesar da desigualdade social abissal de nossas sociedades, somos todos iguais, compartilhamos e dependemos da mesma arca chamada Terra. Porém, o crescimento explosivo da nossa população nas últimas décadas tem provocado uma exploração insustentável da natureza. Entre as inúmeras agressões ambientais que cometemos, a degradação dos ecossistemas naturais e a caça, captura, aprisionamento, venda, uso como pets e consumo de animais selvagens nos põem em contato com vírus e bactérias que viviam em harmonia com seus hospedeiros silvestres. 

Como o nosso corpo não foi treinado para lidar com esses microrganismos estranhos, corremos o risco de que eles sejam bastante agressivos para nós. Vírus que atacam o aparelho respiratório e que são transmitidos de uma pessoa para outra podem ser espalhados rapidamente pelo globo terrestre por viajantes infectados. É exatamente isso que está acontecendo com o coronavírus causador da covid-19.

Assim como adoecemos ao entrarmos em contato com esses novos microrganismos, também levamos a morte para os animais silvestres quando deixamos os nossos patógenos nos ecossistemas naturais que invadimos. Esse é um sério problema, inclusive, dentro da nossa própria espécie. Indígenas que nunca tiveram contato com a maioria das nossas doenças são muito mais sensíveis do que as pessoas de nossa cultura. Infelizmente, a história da humanidade está repleta de exemplos de culturas tradicionais dizimadas ao redor do mundo por doenças levadas pelos "colonizadores".

A covid-19 nos ensina muitas lições. Uma delas é que a única maneira de reduzirmos o risco de novas pandemias é a construção de uma sociedade que respeite a natureza acima de tudo e na qual todo ser humano tenha uma vida digna. Como quase sempre somos os únicos responsáveis pelos nossos problemas de saúde, está na hora de vivermos um "novo normal" e escrevermos uma história que, finalmente, faça jus ao Homo sapiens ("homens sábios"). 

JÚLIO CÉSAR BICCA-MARQUES, PROFESSOR DA ESCOLA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE E DA VIDA DA PUCRS


29 DE JUNHO DE 2020
POLÊMICA

Ministro da Educação nega plágio

Titular do MEC disse que revisará dissertação e explicou os motivos de não ter defendido doutorado em universidade argentina
O Ministério da Educação (MEC) divulgou nota na noite de sábado nota na qual afirma que o novo ministro, Carlos Alberto Decotelli, nega as acusações de que teria cometido plágio em sua dissertação de mestrado e afirmou que revisará o trabalho. Ele também sustentou o curso de doutorado que fez na Argentina, com tese que não chegou a defender, de modo que não obteve o título de doutor.

Reportagem do site UOL publicada no sábado sugere que o ministro teria copiado ao menos quatro trechos de outras dissertações de mestrado e textos acadêmicos na introdução de seu trabalho de mestrado, apresentado em 2008 para a FGV Rio de Janeiro, com o título "Banrisul: do PROES ao IPO com governança corporativa".

Os trechos não são colocados entre aspas, o que é obrigatório em trabalhos acadêmicos quando há citações de outros textos. Também não há referência ao autor logo quando termina a frase. Ao final da o texto, Decotelli faz referência apenas a dois dos quatro trabalhos com trechos idênticos.

Na sexta-feira, o professor Thomas Conti, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), mostrou que a dissertação de Decotelli também tem trechos idênticos aos de um relatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do mesmo ano. O relatório também não foi citado por Decotelli nem sequer consta da bibliografia. Na nota emitida pelo governo federal, o MEC chama de "ilações" as afirmações de que o ministro cometeu plágio, e diz que pode ter havido falha técnica ou metodológica.

"O ministro destaca que, caso tenha cometido quaisquer omissões, estas se deveram a falhas técnicas ou metodológicas. Informa também que, ainda assim, por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados, revisará seu trabalho e que, caso sejam identificadas omissões, procurará viabilizar junto à FGV uma solução para promover as devidas correções."

Título

Quando anunciado como novo titular da pasta da Educação, Decotelli foi apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro como doutor pela Universidade de Rosário (UNR), na Argentina. O reitor da instituição, no entanto, afirmou na sequência que Decotelli "cursou o doutorado, mas não finalizou, portanto não completou os requisitos exigidos para obter a titulação de doutor".

Em nota, o MEC ressalta que Decotelli foi aprovado em todas as disciplinas e que, por compromissos no Brasil e falta de recursos financeiros, o agora ministro precisou retornar ao país sem o título. "Ao final do curso, apresentou uma tese de doutorado que, após avaliação preliminar pela banca designada, não teve sua defesa autorizada. Seria necessário, então, alterar a tese e submetê-la novamente à banca. Contudo, fruto de compromissos no Brasil e, principalmente, do esgotamento dos recursos financeiros pessoais, o ministro viu-se compelido a tomar a difícil decisão de regressar ao país sem o título de Doutor em Administração", diz o MEC.

Pós

Sem o título de doutor, Decotelli não poderia cursar o pós- doutorado na Alemanha, conforme foi dito pelo presidente no momento do anúncio.

Em nota, o ministério afirmou que o ministro desenvolveu uma pesquisa sobre sustentabilidade na automação de máquinas agrícolas na instituição estrangeira, pela qual não recebeu títulos.

"A universidade alemã aceitou apoiar o projeto, considerando a relevância do tema, a conclusão e a aprovação em todos os créditos obtidos no curso de Doutorado em Administração na Universidade de Rosário e seus 30 anos de atuação como conceituado professor no Brasil", afirma o ministério. "Em abril de 2017, recebeu documento que atesta o registro de seu trabalho. O ministro ressalta que não recebeu títulos em decorrência desta pesquisa", completa o texto do MEC.

Depois das acusações, o ministro alterou seu currículo acadêmico, "de forma a dirimir quaisquer dúvidas", de acordo com o ministério.

29 DE JUNHO DE 2020
CLÁUDIA LAITANO

Polifonia



Democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras. Nem mesmo o homem que tornou esse aforismo famoso, Sir Winston Churchill, escapou da recente onda iconoclasta. No início do mês, durante protestos em apoio ao movimento Black Lives Matter em Londres, a imponente estátua de Churchill instalada em frente ao Parlamento britânico foi vandalizada - e agora corre o risco de terminar seus dias guardada em um museu.

Churchill foi uma das figuras centrais na vitória dos Aliados durante a Segunda Guerra, mas, em quase 70 anos de vida pública, não se manteve imune a erros e contradições. Quando, no final da guerra, celebrou a vitória da democracia, certamente não estava pensando que todos os cidadãos do mundo eram iguais e desfrutavam dos mesmos direitos. Pelo menos não tão literalmente quanto é legítimo reivindicar em 2020. Qual seria sua posição em relação ao Brexit ou à crise migratória? Como enfrentaria os protestos contra o racismo?

Também não imagino como um político que nasceu no século 19 reagiria ao ver o avanço das teorias conspiratórias e dos "fatos alternativos" no espaço público. Uma cena que ilustra como a democracia tornou-se complexa - e penosa - aconteceu na semana passada, na Flórida, durante um debate em um conselho distrital a respeito do uso obrigatório de máscaras. Cidadãos que são contra a medida tiveram a chance de subir à tribuna para, democraticamente, exporem seus pontos de vista. O que se viu a seguir foi um desfile de teses delirantes, ora embasadas em inclinações políticas (o presidente americano, como o nosso, achou muito inteligente e razoável empurrar um problema de saúde pública para o terreno do embate ideológico), ora em fanatismo religioso.

O ataque às estátuas e a reivindicação do direito de negar a ciência estão entre os muitos desafios à democracia com os quais estamos tendo que aprender a lidar em tempos de "polifonia" (muitas vozes falando ao mesmo tempo) e "monologismo" (um lado negando a legitimidade do outro). Até onde vai o meu direito à liberdade quando ele ameaça o bem-estar coletivo? Como pontos de vista antagônicos podem conviver antes que se chegue a um consenso? Como ouvir alguém dizer ou fazer algo que você considera absurdo e continuar defendendo valores essenciais para a democracia?

Ninguém disse que era fácil. Ninguém avisou que seria tão difícil.

CLÁUDIA LAITANO