terça-feira, 20 de outubro de 2026


20 de Outubro de 2026
INVESTIMENTOS - Anderson Aires

Estudo indica cidades do RS com potencial para novos empreendimentos imobiliários

Levantamento do Secovi-RS considera fatores econômicos e de desenvolvimento social e ajuda a identificar municípios com características favoráveis em várias regiões. Porém, conversão em obras depende de critérios como infraestrutura e renda, apontam especialistas. 

Em um cenário em que o mercado imobiliário enfrenta gargalos como juros altos, crédito restrito e endividamento da classe média, estudar o comportamento das economias locais ganha ainda mais peso na tomada de decisão do setor. Pesquisa do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) aponta que a atratividade imobiliária está espraiada pelo RS, com destaque para Serra, Região Metropolitana, Sul e Região Central.

O estudo mostra que os municípios de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo ocupam o top 5 em atratividade imobiliária. O estudo do Secovi-RS leva em conta 15 variáveis divididas entre dimensões econômicas, demográficas, educacionais e habitacionais, além do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese). O raio X passa por 496 dos 497 municípios do RS - a Capital ficou de fora por ser alvo de investimentos em todos os padrões.

- Quando há uma região que tem uma organização no sentido de ter a iniciativa privada buscando empreender, atraindo investimentos, que tem um PIB mais relevante, onde a infraestrutura e a gestão pública conversam melhor, isso faz com que algumas regiões despontem nessa questão de desenvolvimento econômico. E a construção civil está intrinsecamente ligada nisso. Esse contexto movimenta uma cadeia - explica o vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê.

O professor da Faculdade de Arquitetura e da pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eber Pires Marzulo destaca que a atratividade imobiliária gaúcha é impulsionada por uma rede de infraestrutura, educação e outros serviços públicos essenciais.

Enquanto a Região Metropolitana e os polos regionais concentram a produção para moradia e investimento alavancada, outras regiões sofrem com o déficit de infraestrutura urbana consolidada e a ausência de grandes centros atratores. _

Capacidade por padrão imobiliário

Um segundo indicador exposto na pesquisa do Secovi-RS é a capacidade e potencial dos municípios de receber empreendimentos por padrão construtivo (baixo, médio ou alto). Nessa análise, leva-se em conta o potencial de investimento de cada município, e a dimensão utilizada para essa classificação são as faixas de rendimento. Por exemplo, são classificados com potencial "forte" os municípios que apresentam resultados mais expressivos proporcionalmente nas faixas de rendimento correspondentes a esse padrão.

Nesse recorte, quando olhamos o segmento de alto padrão, o levantamento coloca no mesmo campo grandes cidades e municípios com número menor de habitantes. Por exemplo, estão no grupo de potencial forte para esse segmento cidades como Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria, mas também Nova Ramada e Ipiranga do Sul.

- O investidor que queira focar em um perfil de imóvel de classe A, de alto padrão, também vai ser mais certeiro quando investir nessas regiões, que é uma coisa que já acontece no âmbito nacional. Então, é a mesma coisa que a gente tem que aplicar no âmbito regional - destaca o vice- presidente de Comercialização do Secovi-RS sobre como esse tipo de dado pode ser usado por empresários da construção civil.

Essa classificação não significa que o município necessariamente receberá imóveis de determinado padrão, mas, sim, que a cidade apresenta características de renda que podem favorecer a existência de público consumidor para esse tipo de imóvel.

O professor da UFRGS Eber Pires Marzulo afirma que, para converter a atratividade urbana em construção de novos empreendimentos, os municípios precisam dispor de uma boa base econômica e de infraestrutura: - Quando o mercado imobiliário chega, ele não tende a ser ponta de lança no sentido de puxar os outros setores. Ele vai atrás do que já tem: é atraído para onde já existe uma economia mais pujante.

No ramo de baixo e médio padrão, são fundamentais a demanda demográfica e o potencial de geração de empregos, além de serviços básicos bem estabelecidos. Já no alto padrão, o perfil muda:

- O alto padrão é um imóvel basicamente voltado para o investimento. Por isso, depende da existência de estoque de terra, legislação urbana e conexões viárias consolidadas com os grandes centros.

Na prática, o levantamento pode ajudar a identificar municípios com características favoráveis ao desenvolvimento imobiliário, mas não garante que novos empreendimentos serão viáveis. A conversão desse potencial em obras, segundo especialistas, depende de fatores como demanda, renda, infraestrutura, disponibilidade de terrenos e regras de ocupação urbana. 

Em um cenário de crédito caro e juro básico estacionado em dois dígitos, esses elementos são decisivos para que a atratividade apontada pelos indicadores se converta em investimentos efetivos. 


20 de Outubro de 2026
NÍLSON SOUZA

As cortinas do espetáculo

Sei que o país está explodindo de tensão política e que os clubes gaúchos agonizam na beira do precipício, mas, até para distrair um pouco meus leitores de pressentimentos apocalípticos, convido-os para uma breve incursão ao país da infância a partir deste episódio que testemunhei recentemente.

Cenário: o menino, a bola e a parede: - Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto.

- Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! - acrescenta com igual agilidade verbal.

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. - Prrriiiii! Retorna para o locutor improvisado: - Penalidade máxima! - grita.

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: - Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

- Isolou! Isolou! - grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo.

- Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair:

- Craque! Esse é craque! - diz para si mesmo. Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora:

- No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego.

- Fim de jogo! - exclama, desapontado. Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: - Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

NÍLSON SOUZA

20 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Incentivo a mais divisão social

O confronto entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite de domingo, na Band, desalenta não apenas pela frustração com o baixíssimo nível do encontro entre os dois candidatos à Presidência da República. Tão desanimador quanto a falta de disposição para uma discussão séria sobre os grandes desafios do país é a constatação de que o tom do embate prenuncia a continuidade da profunda fratura na base da sociedade brasileira.

Na prática, não houve debate, no sentido de confronto de ideias e proposições, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas. Flávio e Lula protagonizaram quase dois monólogos. Quando não estavam se engalfinhando em trocas virulentas de acusações, falavam apenas sobre o que lhes interessava. Flávio abusou da fuga aos questionamentos do adversário e Lula mostrou dificuldade de formular suas argumentações. É possível que tenha sido o debate presidencial televisionado mais deprimente e dominado por baixarias já visto no país.

As performances pareceram pensadas mais para gerar cortes para as redes sociais e elevar a rejeição do oponente do que inspirar esperança. Em vez de tentarem convencer os eleitores de que têm os melhores projetos para desenvolver o Brasil, se esforçaram para tirar votos do antagonista e energizar as suas bolhas virtuais.

Não foi à toa que os telespectadores acompanhados em grupos focais de pesquisas qualitativas durante o encontro demonstraram, de forma predominante, desencanto com os candidatos e o resultado do embate. Vergonhoso, triste e decepcionante foram algumas definições desses eleitores para o debate e o comportamento dos candidatos. Não será surpresa se a consequência for o aumento da apatia e uma ausência maior das urnas no próximo domingo, pelo desencanto justificado de quem não é bolsonarista nem lulista convicto ou então antipetista e antibolsonarista empedernido.

A incapacidade de Flávio e de Lula de oferecer aos eleitores um choque de ideias minimamente civilizado e respeitoso é combustível para dar prosseguimento à polarização radicalizada dos cidadãos comuns que convivem nas ruas, no trabalho e nos ambientes familiares. A preferência dos candidatos por fustigar o adversário, em vez de debater de forma racional, vai se refletir no comportamento da população. O acirramento dos ânimos na reta final da campanha realimenta o estímulo à manutenção da divisão social, à desconsideração da opinião de quem pensa diferente e à cristalização de posturas refratárias ao diálogo. A agressividade do debate reforça a conclusão de que o país sairá da eleição sem perspectivas de conciliação e de convivência pacífica de ideias.

Flávio e Lula têm um novo encontro marcado na sexta-feira à noite, no debate da Rede Globo, antevéspera do dia da eleição. São escassas as perspectivas de um encontro em termos mais elevados. Mas, em respeito ao eleitor, as campanhas bem que fariam se reavaliassem suas estratégias e não prestassem um novo desserviço à relevância dos debates como um dos símbolos da saúde e da vitalidade da democracia brasileira. 


20 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Primeiro confronto entre Lula e Flávio foi vazio de ideias

Foi por um debate desses que esperamos tanto? O nível do confronto a que os brasileiros assistiram na noite deste domingo, na Band, foi um dos mais lamentáveis da história do Brasil.

Frente a frente, Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram um debate cansativo, chato e inútil. É improvável que tenham conseguido alguma troca de voto. No máximo, os dois candidatos conseguiram aumentar o contingente de eleitores dispostos a votar branco ou nulo ou ficar em casa no dia 25 de outubro.

Em vez de propostas factíveis, baseadas na realidade do Brasil, o que preponderou foram os ataques de parte a parte, com um candidato acusando o outro de mentir - e ignorando as perguntas do adversário.

A batalha de rejeições, já verificada no primeiro turno, se intensificou com os dois querendo mostrar que o outro é pior. Lula perdeu tempo demais tentando arrancar de Flávio uma resposta comprometedora sobre sua relação com Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 134 milhões. Flávio, da mesma forma, insistiu em arrancar de Lula uma resposta comprometedora sobre Roberta Luchsinger, a amiga lobista de seu filho Lulinha. 

O presidente disse que Roberta é assunto para a Polícia Federal e Flávio seguiu no assunto como se todos os espectadores tivessem assistido à entrevista de Roberta à CNN na noite de sábado. Quem não assistiu, ficou boiando, mas ele conseguiu desestabilizar o adversário.

Faltou educação, respeito e civilidade

Mesmo nas perguntas da produção, as respostas foram vagas e sem fundamento. Teve momento 5ª série, deboche, cara de mau, tentativa de atrapalhar o concorrente. E o eleitor em casa? Foi tratado como um tolo, em generalizações que desconsideraram o Brasil real.

Flávio atingiu o objetivo de atrapalhar o adversário, caminhando atrás de Lula e fazendo caras e bocas enquanto o presidente falava. Passou uma imagem de arrogante e, ao mesmo tempo, infantil. A plateia contribuiu para piorar o que já estava ruim, fazendo manifestações que obrigaram os mediadores a intervir, pedindo silêncio. Faltou educação, faltou civilidade, faltou respeito. _

Presidente faz bravata com quebra de sigilos bancário e telefônico

A autorização para a quebra do sigilo telefônico e bancário dele e dos cinco filhos, anunciada pelo presidente Lula ao chegar ao Largo dos Açorianos, ontem, é bravata. Um ato meramente político, continuação de uma provocação feita ao adversário Flávio Bolsonaro no debate da Band (domingo à noite).

No confronto, Lula desafiou Flávio a abrir mão dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. Flávio não respondeu se abriria, só riu e disse que Lula "nem tem celular".

Se alguém quer expor seus dados pode pedir extratos aos bancos, à Receita Federal e à companhia telefônica e colocar na internet. A Justiça não quebra sigilos a pedido de uma pessoa que deseja provar honestidade.

Lula trouxe impressa uma cópia da autorização e a entregou ao ex-governador Tarso Genro. Sob aplausos de militantes do PT e do PSOL, Lula atacou o adversário e disse que não admitia ser chamado de corrupto por um miliciano que não consegue explicar como comprou uma casa de R$ 10 milhões, ganhando o mesmo salário dele, o presidente. 

Juliana veste camiseta vermelha na manifestação

Derrotada no primeiro turno da eleição, Juliana Brizola (PDT) chamou atenção ao aparecer no Largo dos Açorianos vestindo uma camiseta vermelha com a foto de Lula. É que na campanha ela evitou a cor vermelha e a associação ao PT, com medo de perder votos.

A estratégia não deu certo. Lula fez 2.294.959 votos no Rio Grande do Sul e Juliana, 1.917.374.

Mesmo que ela tivesse acompanhado a votação do presidente, teria ficado mais de 1 milhão de votos atrás de Luciano Zucco (PL), eleito governador no primeiro turno. Zucco fez 3.516.048 votos.

Ontem, Lula se confundiu e chamou a candidata de Júlia. _

Prefeituras temem rombo de R$ 35 bi

Promulgada na semana passada, a emenda à Constituição que acabou com a escala de trabalho 6x1 e reduziu a jornada semanal para 40 horas preocupa prefeitos. O principal temor é com o fechamento das contas, já que, segundo estudo contratado pela Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas (FNP), o impacto negativo poderá alcançar até R$ 34,7 bilhões no orçamento das cidades.

A estimativa é ainda mais pessimista do que o estudo realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que calcula prejuízo de R$ 6,6 bilhões. Realizado pela Finance Consultoria, o levantamento da FNP obteve resposta de 28 municípios, que representam 16,5% da população brasileira e mais de 22% do PIB nacional. 

Uma baixa na hora decisiva

Responsável pela criação do Exército do Lula, que sacudiu as redes sociais até então dominadas pelos influenciadores do PL, o deputado federal André Janones foi parar na UTI depois do debate na Band.

Janones teve uma arritmia cardíaca grave e foi levado às pressas para o Hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Foi dele a ideia de sugerir aos seguidores que inundassem o Google, buscando termos como "Flávio miliciano". 

PGR dá aval a ação de Mendonça

O ministro Alexandre de Moraes sofreu mais uma derrota ontem na queda de braço com o colega André Mendonça, relator do caso Master.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contra a abertura de uma investigação por abuso de autoridade por parte de André Mendonça.

A representação tinha sido apresentada por Moraes, que pedia para ser julgado junto com o colega. 

POLÍTICA E PODER

Resultados das atuais eleições já projetam sinalizações para o pleito de 2028. Em Caxias do Sul, o fim do ciclo de Adiló Didomenico abre espaço para disputa polarizada. Já o prefeito em Canoas, Airton Souza, deverá tentar reeleição, mas o grupo político poderá rachar, diante do distanciamento do vice, Rodrigo Busato

O que as urnas indicam para as principais prefeituras do Interior

O resultado das eleições em 4 de outubro ensaia o cenário para a disputa das prefeituras em alguns dos maiores municípios do RS além de Porto Alegre. Em Caxias do Sul, Canoas, Pelotas e Santa Maria, parlamentares bem votados e até mesmo quem não obteve êxito nas urnas projetam candidaturas em 2028.

Com 342 mil eleitores, Caxias do Sul é o segundo maior colégio eleitoral gaúcho. O fim do ciclo do prefeito Adiló Didomenico (PSD), que exerce o segundo mandato, abre espaço para uma disputa polarizada na principal cidade da Serra. Mais votado na bancada gaúcha, com 379 mil votos, o deputado federal reeleito Maurício Marcon (PL) desponta como um expoente da direita. Com ele também emerge Maurício Scalco (PL), que perdeu o segundo turno para Adiló em 2024 por apenas 6 mil votos e agora se elegeu deputado estadual também com expressiva votação na cidade.

Outros dois nomes cotados no PL são a vereadora Daiane Mello, forte liderança comunitária do bairro Fátima e eleita para a Assembleia Legislativa, e o deputado estadual reeleito Claudio Branchieri, apontado como favorito para assumir a Secretaria da Fazenda do governo Luciano Zucco.

Na esquerda, a deputada federal Denise Pessôa se consolidou como principal nome do PT ao conquistar o segundo mandato na Câmara, agora como a terceira mais votada do partido, quase metade em Caxias. Em 2024, ela havia ficado de fora do segundo turno por uma diferença de 2,8 mil votos.

Mais tradicional partido local, pelo qual três caxienses se elegeram governadores (Pedro Simon, Germano Rigotto e José Sartori), o MDB não tem um candidato natural. A crise vem desde 2024, quando a sigla não conseguiu eleger nenhum vereador.

No governo, Adiló não tem um candidato natural. O atual vice, Edson Néspolo (UB), e a vice no primeiro mandato, Paula Ioris, que concorreu a suplente de senador na chapa derrotada de Frederico Antunes (PSD), são dois nomes cogitados.

Prestígio do pai

Em Canoas, na Região Metropolitana, o prefeito Airton Souza (PL) está em primeiro mandato e deve tentar a reeleição. Seu grupo político, porém, começa a se dividir. Nos últimos meses, houve um distanciamento do vice, Rodrigo Busato (União).

Filho do deputado federal reeleito e ex-prefeito Luiz Carlos Busato, Rodrigo tem pretensão de apresentar seu nome à sucessão municipal, escorado no prestígio do pai, o segundo mais votado no município para a Câmara dos Deputados, com 10 mil votos. O partido também abriga Eric Douglas, vereador que obteve 23 mil votos para deputado estadual, mais do que o dobro de Busato. Todavia, Douglas esbarra no domínio que a família Busato tem sobre o partido na cidade.

Considerado um dos políticos mais populares de Canoas, o ex- prefeito Jairo Jorge anunciou em julho sua saída da vida pública, abrindo caminho para novos nomes ligados à esquerda. No PT, o vereador Gabriel Constantino, de 26 anos, é aposta de renovação, enquanto a ex-vereadora Maria Eunice, vice de Jairo Jorge na última eleição, perdeu força nas urnas após obter só 3 mil votos no município ao concorrer a deputada estadual. Nomes como Jonas Dalagna (PP) e Alexandre Gonçalves (PDT) correm por fora. _

Os concorrentes em Santa Maria

Em Santa Maria, na Região Central, o atual prefeito Rodrigo Décimo (PSD) é postulante natural à reeleição. Eleito com o apoio do ex-prefeito Jorge Pozzobom (PSD), de quem era vice, Décimo enfrenta desgastes locais, com a tentativa de aprovação de uma reforma da previdência dos servidores municipais.

Agora ele vive sob a sombra de Pozzobom, que é cotado para tentar um novo mandato à frente do Executivo após tentativa frustrada de se eleger deputado estadual. Duas vezes prefeito e secretário do governo Leite, Pozzobom ficou apenas na sétima suplência do PSD, com 22 mil votos, mas 17 mil deles em Santa Maria. No governo, outro nome que desponta é Lúcia Madruga, vice de Décimo e que foi secretária de Educação de 2018 a 2024.

Cogitações

Na direita, Roberta Leitão surge como principal nome do PL. Presidente do partido no município e ex-vereadora, ficou em terceiro lugar na eleição passada à prefeitura. Agora ela tentou uma cadeira na Assembleia legislativa, mas obteve somente 18 mil votos, 14 mil em Santa Maria, e ficou de sexta suplente. Giuseppe Riesgo e Ricardo Jobim, ambos do Novo, também podem concorrer. Riesgo não conseguiu se eleger deputado estadual e Jobim é suplente de Marcel van Hattem no Senado.

Na esquerda, a derrota de Paulo Pimenta ao Senado suscita cogitações de que ele possa concorrer a prefeito, sobretudo se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perder a eleição. Deputado federal mais votado da história do PT, Pimenta fez 60 mil votos na cidade e é o maior nome de seu campo político. Outro expoente do partido é Valdeci Oliveira, duas vezes prefeito e agora eleito deputado federal. Por fora, corre o nome do vereador Sidi Cardoso, segundo suplente do PT à Assembleia Legislativa. _

Disputa entre PT e PL em Pelotas

Ao Sul, em Pelotas, as urnas projetam nova disputa entre o prefeito Fernando Marroni (PT) e o deputado federal eleito Marciano Perondi (PL). Eleito em 2024, Marroni é nome certo à reeleição. Ele governou a cidade entre 2000 e 2004 e exerceu mandatos de deputado federal e estadual antes de voltar ao comando do município.

Na última disputa pela prefeitura, ele venceu Perondi no segundo turno numa das mais acirradas disputas do país. Marroni teve 50,36% dos votos, ante 49,64% de Perondi, uma diferença de 1.236 votos. Sem nomes fortes de centro, a tendência é de que eles voltem a se enfrentar, ainda mais agora que Perondi conquistou 73,9 mil votos para a Câmara, 51,7 mil deles em Pelotas.

Alternativas

Uma alternativa a Perondi seria o deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB), que não conseguiu renovar o mandato. Em 2024, Daniel não seguiu a orientação do PSDB de apoiar Marroni no segundo turno e fez campanha para Perondi.

Na época, ele foi alertado de que poderia estar dando suporte a um candidato que poderia lhe tirar o mandato na eleição seguinte. Abertas as urnas, Daniel colheu 29 mil votos na cidade, uma redução significativa perto dos 43 mil obtidos em 2022. Agora ele deve trocar de partido e já falou em postular uma candidatura a prefeito.

No PSD, a ex-prefeita Paula Mascarenhas também é citada como possível candidata. Ela tentou uma vaga na Assembleia Legislativa, mas ficou na segunda suplência, com 35 mil votos - 24 mil em Pelotas.

Nos bastidores, porém, PT e PSD já começaram as primeiras conversas em torno de uma eventual aliança para enfrentar a direita no município em 2028. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O homem para quem todos os dias são sábado

Uma reflexão sobre aposentadoria, voluntariado e a arte de continuar vivendo. Há uma pergunta que costuma acompanhar quem se aposenta: o que você faz com tanto tempo livre?

A pergunta parece simples, mas carrega uma curiosa suposição. A de que, encerrada a vida profissional, o tempo passa a sobrar. Como se os compromissos, os sonhos, as responsabilidades e a vontade de participar da sociedade estivessem vinculados exclusivamente ao contracheque recebido no final do mês.

Nunca consegui enxergar a aposentadoria dessa maneira. Durante mais de três décadas, minha vida esteve organizada em torno de horários, responsabilidades, reuniões, viagens, decisões e compromissos profissionais. Havia segundas-feiras que começavam antes de o sol nascer e sextas-feiras que terminavam quando o expediente já havia ficado para trás.

Os sábados eram aguardados com aquela sensação de liberdade que somente quem cumpre uma rotina profissional conhece. Eram dias de fazer o que não coubera durante a semana, de encontrar pessoas, resolver assuntos particulares ou simplesmente descansar.

Até que chegou o dia da aposentadoria. E, com ele, uma descoberta: todos os dias poderiam ser sábado. Não porque as responsabilidades tivessem desaparecido, mas porque eu havia conquistado a possibilidade de escolher como ocupar minhas horas.

A liberdade, entretanto, trouxe uma surpresa. Em vez de diminuir, meus compromissos se multiplicaram. Vieram as atividades voluntárias, as avaliações de organizações, as oficinas de gestão, os estudos, as pesquisas, os livros e os artigos. Vieram também novas amizades, reencontros inesperados e oportunidades que jamais estiveram previstas em qualquer planejamento de carreira.

O curioso é que, mesmo sem precisar trabalhar, continuei acordando cedo. E muitas vezes, quando percebo, já passei horas diante do computador, investigando algum assunto que começou com uma pergunta aparentemente simples e terminou abrindo uma dezena de outras. Talvez a curiosidade seja uma das poucas coisas que não deveriam se aposentar.

Nesta segunda-feira de outubro, vivi mais um desses episódios que nos fazem refletir sobre o tempo. Participei de uma entrevista para integrar o voluntariado da Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027, que será realizada no Brasil.

Não era minha primeira experiência dessa natureza. Em 2014, também havia participado como voluntário da Copa do Mundo, atuando em atividades relacionadas à recepção e ao deslocamento de pessoas envolvidas na competição.

Doze anos se passaram. Na entrevista, conduzida por duas pessoas do Rio de Janeiro, éramos onze candidatos. Entre eles, apenas dois de Porto Alegre. E aconteceu algo inesperado. 

O outro participante gaúcho lembrou-se de que, em 2014, havia sido ele quem me entregara os uniformes daquela Copa. Uma lembrança aparentemente pequena, perdida entre milhares de pessoas e acontecimentos, atravessou doze anos para reaparecer numa reunião virtual.

Há reencontros que parecem ter sido organizados pela própria memória. Durante a conversa, os entrevistadores procuraram conhecer nossas motivações, experiências e disponibilidade para o trabalho voluntário.

Foi então que mencionei uma condição muito particular da minha vida atual: tenho disponibilidade de tempo, porque, para mim, todos os dias são sábado. A frase saiu naturalmente. Talvez tenha provocado algum sorriso. Mas traduzia exatamente o que eu desejava expressar.

Não preciso solicitar férias, negociar folgas ou reorganizar compromissos profissionais. Posso dedicar meu tempo a uma atividade que considero interessante e socialmente relevante. Isso não significa que meus dias estejam vazios.

Muito pelo contrário. A agenda de quem se aposenta pode ser surpreendentemente movimentada, especialmente quando ainda existem assuntos a pesquisar, histórias a escrever, pessoas a encontrar e conhecimentos a compartilhar.

Durante a entrevista, soubemos que aproximadamente 160 mil pessoas haviam se inscrito para o voluntariado. Dessas, cerca de 20 mil chegaram à etapa atual. Ao final, serão escolhidas aproximadamente seis mil. Os números impressionam.

Cento e quarenta mil candidatos já ficaram pelo caminho. Outros catorze mil ainda não chegarão à seleção definitiva.  Não sei se estarei entre os escolhidos.

A resposta deverá chegar somente em fevereiro de 2027, quando a organização também pretende confirmar nossas preferências de atuação e a disponibilidade para atividades que poderão começar antes dos jogos.

Naturalmente, gostaria de participar.Mas percebi que a experiência já havia me proporcionado alguma coisa importante: a oportunidade de continuar me apresentando ao mundo, sem considerar que a idade ou a aposentadoria tenham encerrado minhas possibilidades.

Há quem imagine a aposentadoria como uma longa temporada de descanso. E não há nada de errado nisso. Depois de décadas de trabalho, cada pessoa merece escolher seu próprio caminho.

Alguns encontram satisfação nas viagens. Outros, na convivência familiar, na jardinagem, na leitura ou no prazer de não precisar olhar para o relógio. Eu continuo encontrando satisfação em aprender, escrever, pesquisar e participar.

Não por obrigação. Por escolha. Talvez essa seja a grande diferença entre os sábados de antigamente e os sábados de agora. Antes, o sábado representava uma pausa nas obrigações.

Hoje, representa a liberdade de assumir novos compromissos. E há algo profundamente reconfortante em descobrir que ainda podemos ser úteis, que nossas experiências continuam tendo valor e que o futuro, mesmo depois de tantas décadas vividas, permanece capaz de oferecer surpresas.

Não ignoro que o tempo passou. O espelho se encarrega de lembrar, e o calendário não costuma cometer enganos. Mas também aprendi que envelhecer não significa necessariamente perder o interesse pelo que acontece ao nosso redor.

Podemos perder a pressa, sem perder a curiosidade. Podemos abandonar a obrigação de competir, sem abandonar a vontade de participar. Podemos encerrar uma carreira, sem encerrar nossa contribuição à sociedade.

Talvez o segredo esteja em compreender que a vida não termina quando deixamos de cumprir horários impostos pelos outros. Ela pode, inclusive, ganhar novos significados quando passamos a escolher os nossos próprios horários.

E assim sigo, entre pesquisas, livros, artigos, lembranças e novos projetos, aguardando fevereiro para saber se haverá mais uma Copa do Mundo em minha história.

Se vier a convocação, será uma alegria. Se não vier, haverá outros caminhos, outras experiências e, certamente, muitas histórias esperando para ser contadas. Afinal, o que realmente importa não é ter todos os dias livres. É continuar encontrando razões para preenchê-los. E amanhã? Amanhã também será sábado.

Mesmo que o calendário insista em dizer que é terça-feira.


19 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Gente estranha é tão legal

Se eu via alguém excluído na escola, já me tornava amigo. O sofrimento é o cupido das amizades.

Vivia me aproximando dos nerds, dos repetentes, dos novatos, dos retraídos, dos baixinhos, dos altos demais, dos de óculos de fundo de garrafa, dos de aparelho, dos de orelhas de abano, dos de língua presa, dos últimos escolhidos no futebol, dos que gaguejavam, dos que não sabiam dançar, dos que levavam lanche de casa, dos que usavam tênis sem marca, dos que herdavam o uniforme do irmão, dos que não contavam com dinheiro para a excursão, dos que não eram convidados para os aniversários, dos que mergulhavam em livros na biblioteca, dos que se escondiam no recreio.

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver. Pessoas intensas, que não se deixam para depois. Que correm enquanto os outros andam, que voam enquanto os outros correm.

Pessoas que não fazem jogo quando apreciam uma companhia. Que confessam o amor de cara. Que não seduzem: são. Que não esperam a aceitação para confirmar o que sentem. Que não se acomodam naquilo que recebem. Pessoas que experimentam, que se aventuram, que ousam. Que tomam a iniciativa, que recalculam a rota. Que não opinam para agradar, que não mentem por educação. Que assumem as suas decisões pelo tempo que precisarem.

Pessoas sinceras como se fosse uma partida. Pessoas afetivas como se fosse uma chegada. Pessoas temperamentais que não se fixam nas aparências. Que não se diminuem para encaixar. Que não se apequenam para corresponder às expectativas.

Pessoas que são consideradas intransigentes e, paradoxalmente, não temem as dúvidas. Pessoas que despertam ódio, à primeira vista, em muitos que gostariam de ser iguais a elas. Pessoas que parecem fora do normal, mas são as mais humanas: mostram seus defeitos.

Pessoas estranhas que logo se convertem em nossas favoritas. Que nunca largam nossa mão. Que escutam as aflições alheias como um espelho, que acolhem a alegria de alhures como sua.

Pessoas com a valentia da solidão, com a coragem da saudade, com a bravura de suportar a falta e se despedir quando se fecha um ciclo. Pessoas que demoram para acordar, demoram para dormir, tamanha a adrenalina. O corpo deita, a cabeça continua de pé.

Pessoas de verdade, que gargalham com vontade, que bailam com os braços, que amam loucamente, que entregam a alma na hora de falar. Pessoas que enfrentam a tempestade como se estivessem diante de um dia de sol. Que conseguem passear no caos e se posicionar na paz.

Pessoas que não desaparecem na multidão. Que chamam atenção, com o carisma de uma faísca no breu da noite. Que incentivam quando ninguém mais acredita. Pessoas que transformam os que estão ao redor e se transformam junto. Que ensinam para aprender mais.

Pessoas que surgem como uma palavra nova, uma ideia estapafúrdia, um pressentimento bom. Pessoas que nem sempre são compreendidas. E, talvez por isso, sempre serão lembradas. As pessoas mais difíceis de entender são as mais inesquecíveis. 

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver

CARPINEJAR

19 de Outubro de 2026
CLAUDIA LAITANO

Mudança de regime

Com mais de 300 mil cópias vendidas apenas na primeira semana, um livro de quase 500 páginas sobre o governo Trump 2 tornou-se um dos maiores fenômenos editoriais deste ano nos Estados Unidos. Lançado em junho, Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump (Mudança de Regime: Por Dentro da Presidência Imperial de Donald Trump) foi escrito por Maggie Haberman e Jonathan Swan, dois jornalistas do The New York Times que tiveram acesso a fontes do círculo mais íntimo do presidente.

Espantoso até para quem não se espanta com mais nada, o livro narra os bastidores do interminável primeiro ano do segundo mandato. Não, não há nada tão rocambolesco quanto a noitada descrita pela revista Piauí na reportagem "Os Vestígios da Noite", que reconstitui a festinha pré-Carnaval que Daniel Vorcaro ofereceu ao ministro Kassio Nunes Marques em 2025, mas não faltam momentos igualmente pornográficos no sentido da exposição sem filtros da miséria moral alheia.

O título do livro guarda um duplo sentido. A expressão "regime change" é usada tradicionalmente para descrever a derrubada de um governo estrangeiro. Os autores subvertem o termo para sugerir que, desde a volta de Trump à Casa Branca, a verdadeira mudança de regime está acontecendo dentro dos Estados Unidos. 

A nova administração desmantelou de tal forma as amarras institucionais, argumentam os jornalistas, os freios democráticos do Congresso e a autonomia de órgãos como o Departamento de Justiça e as agências de inteligência que o sistema de governo se tornou irreconhecível. A democracia da qual os estadunidenses se orgulhavam tanto teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno dos caprichos de um único homem. Um sujeito narcisista, vingativo, inconsequente e que faz questão de viver cercado de lambe-botas.

Quem assistiu ao episódio Pátria Submissa da indispensável série jornalística Revelando (disponível no YouTube desde 16 de outubro) ou viu alguma bandeira com listras e estrelas tremulando nas passeatas de apoio a Flávio Bolsonaro sabe que existe apenas um candidato se voluntariando para o posto de vassalo de Donald Trump no Brasil. 

Não sou eu quem está dizendo. Nem mesmo o Wagner Moura, que apresenta o episódio. Quem diz é o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro. Segundo o general, o único jeito de os Estados Unidos sequestrarem a soberania do Brasil (e de quebra nossas maiores riquezas) é conquistar "apoio incondicional" dentro do governo.

Mas ainda dá tempo de evitar. A democracia teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno de um único homem

CLAUDIA LAITANO

Mais tempo para o Funrigs

Tem justificativas sólidas a solicitação do Palácio Piratini ao governo federal para que o prazo de execução financeira do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) seja prorrogado. O pedido foi levado na quinta-feira pelo governador Eduardo Leite à ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior. O limite legal hoje previsto é outubro de 2027 e a intenção é prolongá-lo para dezembro de 2028, diante da complexidade de algumas obras, fases que precisam ser respeitadas e atrasos decorrentes de intercorrências burocráticas que infelizmente são naturais em projetos públicos. É preciso crer que haverá sensibilidade política e a demanda será atendida.

Fez bem também Leite ao buscar antecipar essa discussão, ainda que esteja a dois meses e meio de passar o bastão. Se existir uma definição rápida, será uma questão a menos para o governador eleito Luciano Zucco (PL) se preocupar. Não há razão também para cogitar que o desfecho dependeria do resultado da eleição presidencial. Ambos os candidatos já se comprometeram com o auxílio para a continuidade do processo de reconstrução do Rio Grande do Sul após a enchente de 2024 e para a preparação para novos eventos climáticos extremos.

O Funrigs, como se sabe, é irrigado com as parcelas que o Estado deixa de repassar da dívida com a União. São planejados R$ 15,3 bilhões em investimentos. Conforme o governo gaúcho, há 79 projetos que ainda não tiveram a execução iniciada. Estão em andamento 139, e 15 já foram concluídos. Nestas duas fases, os desembolsos somam R$ 11 bilhões.

Mas há iniciativas de grande relevância que dependem dessa prorrogação. Um exemplo são os novos radares meteorológicos, essenciais para alertar a tempo a população sobre condições climáticas adversas. São R$ 150 milhões que já estão empenhados, mas o pagamento é condicionado à instalação e à calibragem dos equipamentos e sistemas, o que não é rápido. Projetos de habitações definitivas também são demorados. Há um conjunto de casas em loteamentos em diversos municípios, ao custo de R$ 423 milhões, que corre risco caso a prorrogação não ocorra. 

Existem ainda repasses fundo a fundo, mecanismo em que o Estado apoia iniciativas de municípios, que da mesma forma precisariam de um prazo mais dilatado. São R$ 257 milhões para obras como casas de bombas em Canoas, dique do Laranjal, em Pelotas, e macrodrenagem em Alvorada. Nessa mesma situação, com um orçamento de R$ 27 milhões, estão ginásios multiúso. São para a prática de esportes, mas com infraestrutura para operar como abrigos.

No total, cerca de R$ 1,28 bilhão em projetos ainda dependem, em alguma medida, da ampliação do prazo. Outras obras estruturais, como o sistema anticheias de Eldorado do Sul, que também será concluído apenas após 2030, não serão afetadas, mesmo recebendo R$ 300 milhões do Funrigs. Esses recursos serão aportados antes no Firece e, assim, tecnicamente consideram-se verbas executadas, segundo o Piratini. O Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece) é formado por recursos federais.

Observa-se que há um acervo importante de projetos que dependem dessa postergação. São iniciativas que beneficiarão gaúchos em diversas regiões e são essenciais para a resiliência climática do Rio Grande do Sul. 



19 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER -  Rosane de Oliveira

Na reta final, Lula e Flávio põem os blocos na rua

No derradeiro domingo da campanha eleitoral, os exércitos do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro deram demonstrações de força nas ruas, na tentativa de conquistar os poucos eleitores indecisos e de incentivar o voto no dia 25. As coordenações das duas campanhas sabem que dificilmente um tirará votos do outro, mas querem garantir que quem votou em 4 de outubro volte às urnas no próximo domingo e que quem se absteve ou votou nulo ou em branco compareça e influencie o resultado.

Lula optou por passar o dia se preparando para o debate na Band, enquanto seus apoiadores realizavam manifestações pela democracia nas principais capitais brasileiras, com a presença de artistas, líderes políticos e eleitores anônimos que vestiram a camiseta vermelha, desenrolaram as bandeiras e foram às ruas pedir voto no 13.

Flávio Bolsonaro optou por uma concentração na Avenida Paulista, batizada de Bloco do 22, reunindo governadores, senadores e deputados eleitos no primeiro turno. Entre os governadores, estavam Luciano Zucco (RS), Tarcísio Freitas (SP) e Jorginho Mello (SC). A representação gaúcha incluiu os senadores eleitos Marcel van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL). No sábado, Van Hattem participou de uma motociata em Florianópolis e de uma manifestação em Curitiba.

Usando camiseta verde, Flávio discursou para a multidão de cima de um trio elétrico, ao lado do governador de São Paulo e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), campeão de votos em todo o Brasil e autor da ideia dos blocos do 22. O candidato do PL disse que receberá a faixa presidencial do pai, Jair Bolsonaro, que hoje está em prisão domiciliar, impedido de fazer manifestações políticas. Flávio já disse que, se eleito, vai anistiar o pai e outros condenados pela trama golpista e pelos atos violentos de 8 de janeiro de 2023.

Atos pela democracia

Em Porto Alegre, milhares de simpatizantes se concentraram no Parque da Redenção, com bandeiras e cartazes, e acompanharam shows de artistas locais. Entre os políticos presentes, estiveram integrantes da chapa da esquerda nas eleições deste ano, como Edegar Pretto, candidato a vice-governador, e Manuela d?Ávila, candidata ao Senado. O ex-governador Olívio Dutra também circulou pelo local durante a tarde.

Em Brasília, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo foram realizados atos semelhantes, que a campanha de Flávio tentou barrar, alegando que os showmícios são proibidos pela Legislação eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral liberou as manifestações por não contarem com a presença do candidato. _

aliás

Nesta segunda-feira, o presidente Lula virá a Porto Alegre para o segundo ato de campanha no Rio Grande do Sul.No primeiro turno, o presidente participou de comício no Largo Glênio Peres. Hoje, está prevista uma concentração no Largo dos Açorianos, de onde partirá a caminhada até o Glênio Peres, com a presença de Lula e da primeira-dama, Janja Lula da Silva, do governador reeleito do Piauí, Rafael Fontelles, e do senador Rui Costa, da Bahia.

Viralizou

Foi do deputado federal André Janones (Rede-MG) a ideia de "driblar o algoritmo da Meta com fotos de eleitores do presidente Lula vestindo a camiseta da Seleção e fazendo o "L" com o polegar e o indicador.

Ao longo do fim de semana, em uma ação coordenada, famosos e anônimos postaram fotos de verde e amarelo. Quem não tinha a camisa da Seleção apelou para montagem feita por inteligência artificial.

Até Lula postou foto vestindo a amarelinha. 

Hohlfeldt deixa o MDB por discordar de apoio a Flávio

Social-democrata por definição, embora tenha estreado na política como o primeiro vereador pelo recém-criado PT, o ex-vice-governador Antônio Hohlfeldt anunciou no fim de semana sua desfiliação do MDB. Inconformado com o apoio do partido ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno da eleição, Hohlfeldt divulgou manifesto no qual afirma que deixa o partido para não trair a si mesmo.

Depois de fazer um histórico da sua trajetória, Hohlfeldt critica a adesão de líderes do partido à candidatura de Flávio.

"A atual direção nacional e diferentes direções regionais rasgaram os documentos fundadores do MDB, viraram as costas para os seus compromissos com a democracia e aliaram-se a um conjunto de forças que se preparam para destruir os pilares básicos de nossa autonomia internacional, e as nossas bases de identidade democrática. O MDB, neste momento, está repetindo o processo vivido pela Alemanha, na década de 1930, que levaria ao nazismo, naquele país. Não quero e não posso calar ou me omitir", escreveu Hohlfeldt. _

mirante

O prefeito Sebastião Melo intensificou no fim de semana a mobilização em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) em Porto Alegre. Melo circulou em carro de som por bairros das zonas Norte, Sul e Central.

Não será surpresa se na eleição para prefeito de Porto Alegre, em 2028, o PL lançar o ex-prefeito de Esteio Leonardo Pascoal, coordenador da transição e homem de confiança tanto do governador eleito Luciano Zucco quanto do prefeito Sebastião Melo, de quem é secretário da Educação.

POLÍTICA E PODER

19 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL  Rodrigo Lopes

O mal-estar europeu

De novo, a banlieue francesa ruge. Em francês, banlieue significa periferia, subúrbio. São territórios que concentram tensões, como o desemprego, a discriminação racial, a relação entre jovens e policiais e as dificuldades de integração social. Não raro, os protestos começam com a morte de estudantes durante abordagens policiais. O estopim costuma fazer aflorar feridas relacionadas à imigração, à identidade nacional, à desigualdade e à integração.

As manifestações na França, que se estendem à Espanha, à Bélgica e à Itália, têm diferentes origens e atingem governos de distintas orientações políticas: o de Emmanuel Macron (centro), na França; o de Bart De Wever (direita), na Bélgica; o de Giorgia Meloni (direita), na Itália; e o de Pedro Sánchez (esquerda), na Espanha.

O contrato social europeu está sob pressão. Durante décadas, a Europa Ocidental erigiu sua estabilidade sobre a promessa de crescimento econômico, serviços públicos de qualidade, proteção social e perspectiva de melhoria de vida. Essa promessa, claramente, não está sendo cumprida - ou, ao menos, não para determinados grupos sociais. O resultado é a perda do poder de compra, a insegurança em relação ao futuro, a desconfiança das elites políticas, os conflitos sobre quem deve pagar pelas mudanças e a crise de representação.

A expectativa em relação ao futuro afeta principalmente os jovens, e por isso vemos tantos deles nas ruas europeias. Mais perigoso: qualquer um dos fatores mencionados acima, da perda do poder de compra às divergências sobre quem deve pagar pelas mudanças, é instrumentalizado tanto pela extrema direita quanto pela extrema esquerda. Em resumo, pelas forças anti-establishment.

Em época de eleições, é pior. A França, por exemplo, realizará o pleito presidencial em 2027. No plano interno, atuam forças como os Coletes Amarelos, a extrema esquerda da França Insubmissa (La France Insoumise), liderada por Jean-Luc Mélenchon, com capacidade real de chegar ao segundo turno, e a ultradireita do Reagrupamento Nacional (Rassemblement National), de Marine Le Pen, que mais uma vez beliscará o poder.

No plano externo, Donald Trump atua como quem joga gasolina na fogueira, incendiando ainda mais o ambiente político ao culpabilizar os imigrantes. Ao presidente americano interessa a expansão da ideologia anti-establishment e o enfraquecimento de uma Europa já amedrontada e em processo de militarização. O continente enfrenta pressões simultâneas, como a necessidade de ampliar os investimentos em defesa, em razão do enfraquecimento do guarda-chuva de proteção dos EUA e da ameaça russa, e os custos associados à insegurança energética. Como financiar a defesa e a transição energética e equilibrar as contas públicas sem comprometer moradia, educação e proteção social?

Resumi um pouco o fenômeno francês, mas a análise vale para a Espanha, a Bélgica e a Itália. Existe diferença entre uma população que enfrenta dificuldades econômicas e outra que passa a acreditar que seus filhos terão uma vida pior do que a de seus pais. Os europeus estão na segunda categoria. Esse sentimento provoca fissuras nas bases da legitimidade das democracias. Se não for agora, logo ali à frente. _

apoio ao hip hop

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou um apoio no valor de R$ 6,4 milhões para a Associação da Cultura Hip Hop de Esteio (ACHE), no Rio Grande do Sul, entidade que idealizou e gere o Museu da Cultura Hip Hop RS, em Porto Alegre. O aporte será executado entre 2026 e 2030. O espaço funcionará como plataforma para atividades de preservação de acervos, pesquisa, educação, produção cultural e difusão de conhecimento, servindo como ponto de articulação de iniciativas com alcance local, nacional e internacional.

Manual para sobreviver a esta semana

Porto Alegre, sexta-feira, 12h40min, esquina da Osvaldo Aranha com a Ramiro Barcelos: apoiadores de um candidato à Presidência, em meio a um bandeiraço, xingam um militante de outro postulante ao Planalto, depois que passa fazendo gestos de apoio ao seu escolhido. Há uma pequena perseguição, até que alguém mais sensato obriga os demais a recuar.

Mesma cidade, mesmo dia. Muda o horário e o bairro: 21h15min, no bairro Jardim Botânico. Tão logo um dos candidatos começa a responder às perguntas da sabatina da TV Globo, têm início os panelaços nas janelas.

O mesmo havia ocorrido na noite anterior, durante a entrevista do outro candidato. O barulho passa a ser produzido no interior do condomínio. Alguém, no grupo do WhatsApp, pede respeito ao horário de silêncio. Outro xinga. Um terceiro avisa: "Depois da eleição, a gente conversa".

Haja estômago para resistir até lá. Na eleição do "menos pior" (54% dos eleitores rejeitam Flávio Bolsonaro, e 53% rejeitam Lula, segundo a pesquisa Quaest), a convivência civilizada entrou em recesso.

Como manual de sobrevivência para a última semana até o segundo turno, vale lembrar:

1) Manifestações políticas, mesmo que contrárias às convicções de cada um, representam o pleno exercício da liberdade de expressão. Aliás, o Brasil lutou anos para poder fazer isso. No atual nível de insanidade, passou-se a medir a centimetragem da bandeira para o lado de fora da janela do prédio e os decibéis dos panelaços. Prints da convenção do condomínio e do artigo 5º da Constituição são utilizados como armas. A favor dos próprios interesses, claro.

2) Liberdade de expressão não significa liberdade para intimidar. É legítimo defender um candidato, vestir sua camiseta, carregar sua bandeira ou criticar o adversário. Perseguir alguém na rua, ameaçar um vizinho ou tentar impedir uma manifestação pacífica pode ser crime.

3) Não transforme o grupo da família em comitê. A tia que compartilha um "bom dia" com imagens de flores não precisa receber, como resposta, um vídeo de 12 minutos explicando por que o Brasil supostamente "acabará" na segunda-feira. Há vida depois da eleição. E haverá Natal, com os mesmos parentes à mesa.

4) Redobre a atenção com informações falsas. A inteligência artificial, que teve participação discreta no primeiro turno, ganhou espaço na reta final. Antes de compartilhar uma mensagem, procure confirmar se é verdadeira. Na dúvida, não encaminhe.

5) Se chegarem até você informações comprovadamente falsas, ameaças ou propaganda eleitoral irregular, denuncie à Justiça Eleitoral.

6) Poupem as crianças. Elas não precisam ser convocadas para as trincheiras ideológicas dos adultos. Tampouco precisam aprender que o vizinho é uma pessoa desprezível porque vota em outro candidato.

7) Prepare-se para o resultado. Seu candidato pode ganhar ou perder. Nenhuma das possibilidades autoriza perseguir quem fez outra escolha. A democracia não exige que todos saiam satisfeitos, mas que todos aceitem as regras do jogo.

Por fim, a coluna deseja uma boa semana a todos nós. Serenidade, por favor. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 17 de outubro de 2026


17 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Viver é se despedir

A partir de vídeo de Nanda Costa. 

Da mamadeira. Do bico. Do colo. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. Do uniforme da creche. Da toalha com capuz.

 Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização com assinatura para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão para atravessar a rua.

Do melhor amigo que se transferiu de escola. Da professora que não dava para repetir. Das lições na lousa. Dos materiais escolares. Dos cadernos pautados. Das espirais. Dos amores platônicos. Do nervosismo das provas-surpresa. Do telefone decorado dos responsáveis. Do recreio. Do sinal que mandava retornar para a sala. 

Da carteira com rabiscos e corações. Dos bilhetes escondidos. Da turma que prometeu nunca se separar. Das dedicatórias na camiseta no último dia de aula. Do portão de tantas idas e vindas. Das férias longas que produziam saudade de estudar. Do quarto dividido com os irmãos. Da mesada. Da carona. Do dinheiro contado para o cinema. Das viagens com a mochila nas costas. Dos doces dos avós. Da casa cheia.

Dos cartazes na parede e dos adesivos nas janelas. Do aparelho ortodôntico. Das espinhas. Da transformação do timbre. Dos pais esperando acordados no sofá. Da autoescola. Do cursinho pré-vestibular. Do nome na lista dos aprovados. 

Do trote com farinha no cabelo. Do troco destinado para o xerox. Dos calhamaços emprestados. Da carteirinha de estudante. Do passe no ônibus. Da foto de beca. Do currículo sem experiência. Do crachá pendurado no pescoço. Da roupa lavada no antigo lar. Das visitas demoradas. Do bairro da infância. 

Do colchão no chão. Da geladeira com dois ovos e uma garrafa de água. Do emprego que parecia para sempre. Da primeira vez que você morou com alguém. Do cobertor puxado no meio da madrugada. Da ilusão de romance eterno. Das caixas de mudança. Da marca da aliança no dedo. Do lado da cama vazio. Da volta por cima. Dos garçons que conheciam seu pedido. Das noites inteiras de sono até o meio-dia. Dos bares da sexta-feira. Do tempo de sobra.

Do teste de gravidez. Da mamadeira dele. Do bico dele. Do colo dele. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. 

Do uniforme da creche. Da toalha com capuz. Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite que agora é você quem dá antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização que agora é você quem assina para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão solta na hora de atravessar a rua. _

CARPINEJAR

"O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter"

Antes de ser uma aclamada escritora, Martha Batalha, 53 anos, era repórter dos principais jornais do Rio de Janeiro. Seu romance de estreia, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016), foi adaptado para o cinema em 2019, rendendo prêmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Autora de outros livros, ela mora em Santa Mônica, na Califórnia, e atua como cronista de O Globo desde 2020. 

Dessa experiência surgiu O Algoritmo Sou Eu, que reúne 58 crônicas sobre temas como feminismo, maternidade, imigração, tecnologia, cotidiano familiar, cultura e política. Na obra, Martha faz um trato com o leitor, garantindo que, enquanto escrever, nenhuma linha de suas crônicas será gerada por inteligência artificial.

Carlos Redel

Como foi o processo de selecionar as 58 crônicas que foram parar no livro? Por que estas foram as escolhidas?

Acho que o principal critério foi escolher crônicas que permanecessem. Procurei ter crônicas que pudessem ser lidas hoje e daqui a 10 anos, que não envelhecessem. Mesmo que falassem de algo pontual - por exemplo, tem umas que falam da pandemia -, que fossem crônicas que pudessem ser lidas como referência a uma época, mas que não parecessem datadas. Penso muito nisso, evito os temas que estão na moda.

O que torna uma crônica interessante no seu ponto de vista?

Gosto muito de falar que crônica é voz. Quando você pensa em voz, você pensa em música, e quando alguém canta ou toca um instrumento, você sabe quando afina e desafina. A crônica é a mesma coisa: você tem que encontrar uma sintonia para poder contar essa história. A crônica vem de você estar aberta para o mundo, estar sempre procurando, tentando descobrir algo a mais. Imagina que você tem a sua visão de frente, mas tem outras coisas que estão acontecendo pelo lado também. 

Então, a crônica está, às vezes, pelo lado. Por exemplo, fui com meu marido a um restaurante romântico, com aquelas comidas todas elaboradinhas e ele não estava conseguindo enxergar o cardápio. Então, pediu meus óculos para ver. Comemos e fomos para casa. Esse é um fato. Só que a crônica tratou sobre a primeira vez que ele pegou meus óculos de vista cansada para ver o menu. E eu entendi que a gente estava envelhecendo juntos.

No material de divulgação de O Algoritmo Sou Eu, consta que você, como cronista, é herdeira de nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. Como você enxerga o trabalho destes dois gênios gaúchos e como é ser comparada a eles?

Eu e todos os cronistas sempre tentamos fazer a nossa voz, o nosso texto, em cima do que a gente leu. Eu leio o Verissimo, o Rubem Braga, a Martha e falo: "Quem é agora a Martha Batalha? Qual é a voz que a Martha tem a partir dessas pessoas?". O que eu aprendi com a Martha é essa coisa da lucidez, tem muito afeto também nos textos dela. É uma mistura bastante interessante. 

Algo que aprendi com o Verissimo é que ele falava assim: "Cada crônica tem que ter pelo menos uma piada. Se você tem uma piada na crônica, você já fez o seu trabalho". Não é uma escolha muito consciente, mas quando estou escrevendo, sempre percebo que solto uma pitada de humor. E isso cria um mecanismo de aproximação com o leitor, porque ele está lendo e, em algum momento, vai ter aquela dose de dopamina e vai continuar lendo para ter outra. É uma mistura de consciência e intuição também. Você tem que saber quando você solta, o que você solta.

No primeiro texto do livro, você explica como nascem as crônicas e diz que uma escrita sua jamais vai ter uma linha sequer feita por inteligência artificial. Enquanto isso, a gente vê cada vez mais materiais feitos por IA. Como você enxerga o futuro para autores e qual o papel da criatividade humana?

Acho que é muito importante para nós, escritores, que a gente permaneça fiel ao que sabemos fazer, ao nosso ofício, e que é realmente feito de horas e mais horas em frente ao computador. Às vezes, ficamos todo esse tempo sem saber o que escrever, mas esperando que alguma coisa vá nascer de algum lugar e que, quando nascer, vai ser muito humano. 

A diferença da inteligência artificial para uma pessoa é o seguinte: a IA pensa em termos de probabilidades, é matemática. Os humanos pensam em termos de possibilidades: a gente tem esperança, tem criatividade, tem um passado que vai se associar cada vez de uma forma diferente para você poder criar um texto. O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter. Não posso dizer o que vai acontecer, mas tenho muita certeza de que a inteligência artificial nunca vai conseguir fazer um texto bem trabalhado como é um texto de um bom profissional da escrita, porque ela não é feita com um material humano para isso. 

Porque não é só o português perfeito, não são só as associações perfeitas, a lógica perfeita. Tem muitas outras pequenas particularidades do texto que são muito humanas e isso não pode ser reproduzido.

Você fala que os fracassos também são importantes para essa construção de bagagem que leva para os textos. Como você transforma frustrações em combustível?

O escritor tem que estar acostumado a fracassar porque é parte muito grande da nossa rotina. Às vezes, a gente está escrevendo um romance e joga capítulos fora. A gente tem que ter essa resiliência. Acho que a grande sabedoria é poder aprender com os seus erros, olhar um texto que escreveu e falar: "Isso aqui não está bom, eu vou jogar isso fora". É uma bênção você olhar uma coisa que não é boa que você escreveu e saber que não é bom e não se intimidar por isso, mas construir a partir daquele erro, a partir daquele fracasso e continuar tentando.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão está completando uma década. Como você avalia a trajetória do livro?

Me sinto muito feliz. Ele ainda é muito lido e acho que é uma grande dádiva para um escritor fazer um livro que permaneça e que tenha mexido na vida de tantas pessoas. Ainda recebo cartas de pessoas dizendo que se emocionaram com o livro, que se identificam. Então, é muito bonito. O A Vida Invisível começou quando não existia ainda todo esse movimento de vozes feministas e femininas na literatura brasileira. Era uma coisa que estava começando ali, foi um dos primeiros livros dessa nova leva.

Uma década depois do lançamento do livro e mais de 70 anos da história que ele retrata, como você enxerga essa a questão do machismo presente no dia a dia, que transforma, muitas vezes, histórias de mulheres extraordinárias em invisíveis?

Acho que existe, ainda hoje, uma escala de violências contra a mulher dependendo de onde você nasce, do seu status, da sua cor, da sua condição social, da sua condição financeira. Existem mulheres que estão batalhando para ter o mesmo salário que os homens. Existem meninas que, se tiverem sorte, não vão engravidar com 14 anos. Existem mulheres que estão começando a ter voz agora, reivindicando os seus direitos e estão sendo mortas. Então, ainda tem muito para se mudar. São várias lutas dentro de uma escala que atinge mulheres de modos diferentes. 

 


17 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Vestibular para populista

As torcidas de Lula e Flávio Bolsonaro gostam de apresentá-los como antagônicos em tudo. Não são tanto assim. Quando se trata de usar as burras públicas para perguntar quem quer dinheiro, há pouca diferença entre eles.

Desde março, Lula já anunciou cerca de 25 benesses eleitoreiras. É a reciclagem sofisticada da velha prática coronelista em que um candidato prometia um pé de sapato agora e o outro para depois da eleição. Quem não votar nele perderá os benefícios, ameaça Lula. 

Já Flávio não só não desautorizou nenhuma das benesses como foi além: prometeu baixar a prestação do Minha Casa, Minha Vida e outros que tais, como um tesouraço nos impostos. É uma disputa cabeça a cabeça sobre quem gasta mais sem fazer as contas sobre a realidade fiscal do país, com forte cheiro de estelionato eleitoral no ar.

Apesar da epidemia de gastança que contagia as duas candidaturas, o mercado reagiu favoravelmente à vitória de Flávio no primeiro turno. A expectativa de um freio de mão no populismo não reflete os compromissos de Flávio e nem a gestão pregressa do bolsonarismo. Em busca da reeleição, Jair Bolsonaro lançou a PEC Kamikaze e empurrou o pagamento de precatórios e repasses aos Estados para o governo seguinte, a fim de assegurar um superávit de araque no fim de mandato.

Até agora, os afagos eleitorais de Lula já custam cerca de R$ 290 bilhões adicionais aos contribuintes. Os de Flávio, que promete não revogar nada e ir além, sabe-se lá. Quem vai pagar a fatura? Todos nós, seja por meio de mais impostos, mais dívidas, mais juros, mais inflação, menos serviços e menos investimentos públicos ou, como é provável, tudo isso junto. Dinheiro que compra apoio político hoje é dinheiro que vai faltar amanhã para obras, segurança, saúde e ciência.

Na prática, a disputa presidencial virou uma peleja de promessas inexequíveis para um país cuja explosiva e crescente dívida pública já consome 82,9% do PIB. Em nome da vitória a qualquer custo, arquivou-se o debate sobre reformas capazes de fazer uma imensa massa de vulneráveis trocar de patamar de vida. No lugar de mudanças estruturais, estimula-se que grande parte do eleitorado permaneça no curral da dependência do Estado.

Fosse o esbanjamento redirecionado a uma crucial revolução na educação, ainda haveria esperança de transformações estruturais e de não ficarmos eternamente no segundo pelotão, como ocorre na inteligência artificial, para citar um exemplo.

 A IA está virando o planeta de cabeça para baixo, incluindo o mercado de trabalho e a renda. Na campanha, nem chegamos a roçar essa discussão, porque o país se tornou refém de um mero campeonato sobre qual candidato usa mais anabolizantes populistas para estimular seu tônus eleitoral. 

MARCELO RECH