quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 

André Ávila / Grupo RBS
Casa chama a atenção pelos detalhes decorativos da fachada.

Um contraste entre a Porto Alegre do início do século passado e a arquitetura contemporânea chama a atenção de quem passa pela Avenida Getúlio Vargas, no Menino Deus. Um casarão de 1915, com fachada ornamentada, destaca-se em meio aos prédios altos que hoje o cercam. Inventariado pela prefeitura de Porto Alegre, o imóvel é uma das construções remanescentes mais antigas da avenida.

Ao lado do casarão imponente, um empreendimento residencial de 61 metros de altura está sendo erguido. Os terrenos no entorno também pertenciam aos proprietários, que negociaram essas áreas para viabilizar o novo prédio, mas mantiveram a propriedade da construção centenária. A intenção agora é revitalizar a fachada e colocá-lo para alugar. Segundo Gustavo Hoffmann, 57 anos, um dos donos, já há interessados.

Temos de resgatar a história e preservar, mas também dar um sentido de acordo com uma nova época. Vamos fazer com que a pessoa que ocupe o espaço mantenha esse nosso mesmo interesse de dar uso ao local

GUSTAVO HOFFMANN

Um dos proprietários do imóvel no Menino Deus

Um endereço ligado à história do bairro

Oficialmente chamado de Solar dos Noronha, o casarão de dois pavimentos fica no número 1.526 da Avenida Getúlio Vargas e chama a atenção pelos detalhes decorativos da fachada e pelas esculturas. No topo da construção, está a estátua da Fortuna, atribuída ao escultor espanhol Jesús María Corona, que migrou para o Brasil em 1912.los artísticos.

Residência era conhecida como Solar dos Noronha.
André Ávila / Grupo RBS

As características e a história da casa foram analisadas em um estudo encomendado pela família Hoffmann a arquitetos. No documento, os profissionais destacam o contraste da construção com os prédios altos que hoje ocupam a avenida: “Apesar da verticalização do seu entorno, o imóvel mantém-se como uma surpresa agradável para o observador, por sua singularidade arquitetônica.”

A trajetória da residência está ligada à ocupação do antigo Arraial do Menino Deus. A Avenida Getúlio Vargas ocupa parte da área onde ficavam residências de segmentos mais tradicionais da sociedade porto-alegrense. No século 19, a região abrigava a chácara das famílias Mariante e Noronha. Foi nesse terreno que os Noronha mandaram erguer o imóvel, em 1915, com projeto atribuído ao arquiteto Hermann Otto Menschen.

Da ameaça de demolição à preservação

Em 1979, o casarão passou a fazer parte da história da família Hoffmann, quando Hugo Hoffmann, pai de Gustavo, comprou a propriedade, que estava ameaçada de demolição. Antes da aquisição, o local teria funcionado como uma espécie de espaço de acolhimento mantido por freiras para pessoas que vinham de outras cidades estudar em Porto Alegre.

Segundo o atual proprietário, a construção já havia sido adquirida pela Caixa Econômica Federal e tinha licença para ser demolida. Hugo conseguiu negociar a compra, e a instituição financeira passou a funcionar em um endereço na Rua José de Alencar. Depois, restaurou o imóvel e instalou ali a Mercur Publicidade, empresa da qual era dono.

Nas décadas seguintes, a estrutura também abrigou a Editora Centaurus, responsável pela publicação da revista A Granja, uma das mais tradicionais do setor de agronegócio no Brasil. A empresa funcionou no endereço por 36 anos, entre 1987 e 2023.

Os terrenos vizinhos foram negociados com a Cyrela Goldsztein, construtora responsável pelo novo empreendimento residencial ao lado do casarão. A área inclui também um terreno nos fundos do imóvel, que faz divisa com a Praça Cinquentenário da Rádio Gaúcha, na Rua Gonçalves Dias, esquina com a Rua Saldanha Marinho. Segundo Gustavo, a empresa chegou a demonstrar interesse em adquirir também a casa, mas a família preferiu manter a propriedade.

O empreendimento imobiliário prevê 19 andares e 287 apartamentos no formato estúdio, com 25 metros quadrados cada. O investimento informado pela empresa é de R$ 75 milhões. As obras começaram em 2024, com previsão de conclusão no início de 2027.



04 de Novembro de 2026
MÁRIO CORSO

Terceirização cognitiva

Minha bisavó não sabia o que era academia. Ela caminhava até o armazém, carregava as compras na sacola de pano. Depois cozinhava durante horas, varria o chão, lavava roupa no tanque, torcia lençol no varal, rachava lenha, subia escada. A vida era o treino. Ninguém pagava mensalidade para malhar, o suor vinha embutido no dia, como o café vem com leite.

Depois vieram o elevador, o carro, a máquina de lavar, o controle remoto. O corpo foi ficando cada vez menos exigido. E aí, num movimento curioso, inventamos a academia: um lugar para onde a gente vai fazer força, e paga, pelo que antes a vida exigia de graça. Corremos na esteira sem sair do lugar, levantamos peso para nada, subimos escada que não leva a andar nenhum. A academia é a simulação do cotidiano que perdemos, um parque temático do esforço.

Agora olho para o outro lado e vejo o mesmo filme passando, só que na cabeça. A calculadora chegou e paramos de fazer contas. O cartão de crédito chegou e ninguém mais precisa calcular troco. Antes isso era reflexo, hoje nem lembramos que fazíamos. O GPS chegou e desaprendemos o caminho. O corretor ortográfico chegou e esquecemos como se escreve "exceção". O telefone guarda os números que a memória guardava. Se isso já era preocupante, eis que agora chegou a inteligência artificial, fazendo mil coisas que antes pediam que a gente pensasse: resumir, traduzir, calcular, organizar, lembrar, redigir.

E aí uma pergunta que se impõe: qual vai ser a palavra para sedentarismo mental? Nomeamos o corpo sedentário através do latim: sedere, sentar. Mas o "sentar" da cabeça ainda não tem nome. E qual será a academia do cérebro? Vamos fazer palavras-cruzadas como quem corre na esteira? Vamos fazer sudoku como quem levanta haltere?

Só que a esteira não devolve a caminhada. Simula. E simulação tem seu valor, mas não é a mesma coisa que a vida pedindo esforço de nós sem aviso. O cérebro que fazia conta de troco no balcão não precisava de app. O esforço era parte do dia, não uma sessão marcada.

E a principal pergunta: qual é o preço que pagamos pela "terceirização cognitiva"? Com o cérebro, o risco é maior do que com o corpo. O sedentarismo é visível, a atrofia mental não. _

MÁRIO CORSO

04 de Novembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

A missão contínua de avançar na educação

É unânime que, para ter um futuro mais próspero, o Rio Grande do Sul precisa evoluir na qualidade da educação pública e ter melhores índices de aprendizagem. Trata-se de um desafio contínuo, que a partir de janeiro será uma das tarefas prioritárias do governo Luciano Zucco (PL).

Os esforços nesse sentido sofreram os reveses recentes da pandemia e da enchente de 2024. Ainda assim, alguns avanços passaram a ser percebidos, como os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, divulgado em agosto. O desempenho cresceu em todas as etapas de ensino em relação a 2023. O governo Eduardo Leite, com a pasta da Educação sob o comando da secretária Raquel Teixeira, formatou uma série de programas que deixam bases sólidas sobre as quais será possível obter melhores desempenhos nos próximos anos.

Mas é natural e legítimo que a nova gestão imprima sua marca. Ao longo da campanha, Zucco se posicionou de forma clara, por exemplo, contra o modelo de progressão parcial, em que o aluno passa de série mesmo reprovado em parte das disciplinas, precisando reforçar o estudo nessas áreas no ano seguinte. Os defensores da fórmula alegam que ela evita o pior, que seria a evasão escolar.

Em entrevista ontem ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, o futuro secretário da Educação, Roni Miranda Vieira, demonstrou ser favorável a um sistema intermediário entre o que está em vigor no Estado e o método tradicional de reprovação. A ideia é reforçar a aprendizagem nas áreas de maior deficiência do aluno ao longo do próprio ano letivo, com base nas avaliações trimestrais. Assim, se evitaria um vácuo de aprendizagem. Esse reforço ajudaria na aprovação e, ao mesmo tempo, diminuiria o risco de evasão.

O modelo defendido por Vieira é o utilizado no Paraná, onde foi secretário nos últimos quatro anos. Convém referir os resultados obtidos pelos paranaenses na área. No Ideb de 2025, o Estado foi, pela terceira edição consecutiva, líder nacional da Educação Básica. Também alcançou a primeira colocação entre as unidades da federação no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025. Os dados foram divulgados em setembro.

Na entrevista, Vieira também abordou a questão das escolas cívico-militares. Observou que a adoção do modelo dependerá exclusivamente da vontade da comunidade escolar. Propôs fortalecer o ensino técnico no turno integral do Ensino Médio, com currículos ligados às vocações econômicas regionais. Comprometeu-se a trabalhar o tema do combate à violência contra a mulher nas escolas. Defendeu ainda que as instituições de ensino e as direções tenham maior autonomia para contratar obras. Nesse ponto também há discordância em relação à diretriz do governo Leite, que delegou as tarefas de melhoria da infraestrutura da rede à Secretaria de Obras, pela maior especialização.

Mesmo expressando pontos de vista que podem despertar controvérsia, o futuro secretário deixa a impressão de ser um gestor público aberto ao diálogo e à conciliação. Além disso, traz as credenciais dos resultados conquistados no Paraná, o que cria a expectativa de a educação no RS também alcançar, nos próximos anos, uma performance à altura das necessidades do Estado. 


04 DE NOVEMBRO DE 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que Eduardo Leite fará ao deixar o governo em 2027

Sondado por empresas de diferentes setores para trabalhar a partir de 6 de janeiro de 2027, quando transferir o governo para Luciano Zucco, o governador Eduardo Leite decidiu fazer uma espécie de quarentena antes de aceitar qualquer oferta de emprego na iniciativa privada. Quarentena não significa dias de sol e mar, nem de viagens pelo mundo. O plano de Leite é fazer uma escala no terceiro setor, ajudando governos estaduais e municipais com sua experiência de oito anos no Palácio Piratini.

Leite não tem nada fechado, mas está disposto a compartilhar o que aprendeu na gestão das crises que enfrentou, como a enchente de 2024 e a pandemia de 2020 a 2022.

- Não acho correto estar no cargo de governador e negociar salário, bônus ou condições de trabalho - disse Leite à coluna ontem.

Aos 41 anos, sempre atuando na política, como vereador, prefeito de Pelotas e duas vezes governador, Leite precisa trabalhar para se sentir produtivo e porque precisa de salário para viver. Ele é o primeiro governador que não receberá pensão ao final do mandato e não acumulou patrimônio que lhe permita viver de renda.

Tudo o que tem é a metade de dois imóveis em São Paulo, um apartamento e um consultório ainda em construção, comprados em sociedade com o ex-marido Thalis Bolzan - os dois ainda não formalizaram a partilha. A ideia é se transferir para São Paulo, mas manter uma base em Porto Alegre.

Leite não tem sequer um plano de previdência privada. A ideia é começar a contribuir a partir do próximo ano, para não depender exclusivamente da aposentadoria do INSS na velhice.

Engana-se quem pensa que a política saiu do radar do governador. Leite é apaixonado por gestão pública e está convencido de que ficar quatro anos afastado de cargos não o impede de estar em futuras disputas, até porque é jovem o suficiente para disputar meia dúzia de eleições. O desejo de disputar a Presidência da República não morreu com a exclusão da disputa neste ano, quando foi preterido pelo PSD em favor de Ronaldo Caiado. _

O destino dos quatro cachorros do governador

Uma das perguntas que o governador Eduardo Leite mais ouve sobre sua vida ao deixar o Palácio Piratini é qual será o destino dos quatro cachorros da raça schnauzer que circulam pela ala residencial e pelos jardins. Bento, Chica, Gaia e Moa devem se mudar para São Paulo e, como crianças de pais separados, viver a experiência da guarda compartilhada. Sem a estrutura de funcionários do Piratini e precisando viajar eventualmente, Leite diz que a solução mais provável é dois morarem com ele e dois com Thalis, e os quatro frequentarem a mesma creche para continuarem convivendo. Como Leite e Thalis continuam amigos, a guarda dos cãezinhos não será problema. _

Fux defende, em audiência pública, "banir" bets

Em audiência pública ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux afirmou ter a percepção "de que as bets devem ser banidas", reforçando eventuais riscos à saúde pública e à economia. Fux é o relator das ações movidas contra a medida provisória do governo Lula que proibiu as apostas de cota fixa (as bets) e o cassino online.

O ministro rebateu críticas que recebeu por supostamente só ter convidado empresas, clubes de futebol e entidades favoráveis às bets para participar da audiência.

Disse que autorizou mais integrantes do governo e representantes de supermercados, diante das notícias recentes de que o consumo aumentou após a proibição das medidas.

A primeira-dama Janja entregou um relatório sobre o efeito nas mulheres das apostas esportivas.

Fux lembrou de uma audiência pública sobre apostas online que convocou em novembro de 2024, em que ouviu entidades contrárias à jogatina e da qual saiu convencido de que as bets são um problema de saúde pública. _

Só duas sessões

Desde 14 de julho, último encontro antes do recesso parlamentar, os deputados estaduais se reuniram apenas duas vezes no plenário para votar projetos - mas continuaram recebendo os salários normalmente no período. Até o final de outubro, o período eleitoral foi adotado como a principal justificativa para que não houvesse sessões. Houve alguns encontros das comissões temáticas, caso da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), dando andamento à tramitação de pautas.

Logo após o primeiro turno, em 6 de outubro, os líderes se reuniram e decidiram retomar as votações em plenário somente em 27 de outubro, após o segundo turno - o que não ocorreu.

De acordo com o portal da transparência do Estado, R$ 54.922.616,96 foram pagos em folha de pessoal entre agosto e novembro. Os valores são referentes à remuneração de agentes políticos, CCs, funções gratificadas e verba de representação.

O subsídio de deputado estadual no Rio Grande do Sul é de R$ 34.772,11. Além dos 55 parlamentares, a Assembleia tem hoje 1.265 cargos comissionados, lotados entre os gabinetes dos deputados e as bancadas. 

A ex-governadora Yeda Crusius lança amanhã o livro Fios Tecendo Vida - Crônicas de um Cotidiano Entre Séculos, sobre lembranças e experiências pessoais. O evento, com direito a sessão de autógrafos, será na Feira do Livro de Porto Alegre, às 19h.

Pedido de saída

O secretário de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Fabrício Peruchin, se antecipou ao fim da atual gestão e enviou carta ao governador Eduardo Leite colocando o cargo à disposição.

Resgatando sua trajetória no governo, do qual se diz orgulhoso e grato de ter feito parte, Peruchin diz que chegou ao fim do ciclo e que planeja retornar ao seu escritório de advocacia, que mantém há mais de 20 anos. O secretário ficará no cargo até que Leite defina um novo titular para os últimos dois meses de governo. Em 6 de janeiro, Luciano Zucco tomará posse como governador. _

POLÍTICA E PODER