segunda-feira, 27 de julho de 2026

27 de Julho de 2026
CLAUDIA LAITANO

Espelho

Eu teria xingado muito na internet - se isso fosse uma possibilidade. Como alguém tinha conseguido transformar o livro perfeito em uma historinha boba e arrastada? Não, não sou eu odiando A Odisseia do Nolan, mas Claudinha, em março de 1977, reagindo ao primeiro episódio do Sítio do Picapau Amarelo na televisão. Eu tinha acabado de ler Os 12 trabalhos de Hércules e estava em estado de maravilhamento absoluto - com Monteiro Lobato, com a mitologia grega, com o livro perfeito. 

E talvez houvesse nessa rejeição inicial o gérmen da percepção de que há sempre três histórias correndo em paralelo em qualquer adaptação: a que o autor escreveu, a que alguém recriou e a versão insuperável, que é aquela que rola na cabeça do leitor. (Outras crianças devem ter tido a mesma reação decepcionada porque algum tempo depois o primeiro roteirista foi demitido, a trama ficou mais ágil, e o Sítio virou o fenômeno que marcou a minha geração.)

A estreia de A Odisseia arrasou nas bilheterias, mas foi especialmente bem-sucedida como geradora de pitacos aleatórios entre leitores e não leitores. Dos fãs da Marvel aos professores de cultura clássica, da machosfera aos decolonialistas, de quem cita Homero no original a quem nem sabia que havia gregos dentro do cavalo.

Eu gostei e quero ver de novo. Mas o pitaco que eu queria dar aqui não é exatamente sobre o filme (você já deve ter lido o suficiente e ainda vai ler mais até o Oscar de 2027), mas sobre adaptações em geral. Porque não existem apenas as boas e as ruins, mas as que apostam em uma leitura original e as que vão na onda da trama episódica, sem muita preocupação em construir uma nova camada de significados. 

Se você assistiu Troia (2004), de Wolfgang Petersen, conhece um ótimo exemplo de adaptação diet em inteligência e profundidade. Trata-se de uma leitura não apenas superficial de Homero, mas chocha em termos de ideias. Na minha classificação, essa é a típica adaptação falhada. Não porque deixou os deuses de lado ou porque Brad Pitt faz um Aquiles que é a cara do? Brad Pitt, mas porque não há élan vital na leitura de Petersen.

Você pode não ter gostado de A Odisseia porque é o melhor leitor de Homero desde a invenção do alfabeto grego ou porque acredita que uma superprodução hollywoodiana jamais teria "gravitas" suficiente para recriar um clássico, mas não pode negar que Christopher Nolan tem uma interpretação oportuna para oferecer. 

Partindo de uma obra que há séculos vem provocando reflexões sobre diferentes épocas e circunstâncias, o cineasta britânico queria narrar não apenas a jornada de Ulysses, mas a trágica história de um povo grandioso que ergue e destrói coisas belas - e guarda o péssimo hábito de achar feio tudo que não é espelho. _ As que apostam em uma

leitura original e as que vão na onda da trama episódica

CLAUDIA LAITANO

 

Percalços e horizontes

da agricultura familiar

Dois levantamentos divulgados na semana passada dão a dimensão da importância e dos desafios da agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo que o trabalho exercido em pequenas propriedades gera 42% do Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária gaúcha, cerca de R$ 47 bilhões, esse misto de atividade econômica com modo de vida tem o futuro turvado pela falta de sucessão e pelas dificuldades para se viabilizar financeiramente. É preciso encontrar caminhos para dar novas perspectivas a esses mais de 360 mil estabelecimentos existentes no Estado.

Um dado de uma pesquisa que constou no livro Agricultura Familiar em Transformação, lançado na quarta-feira, ilustra bem esse momento cercado de incertezas. Um levantamento com 662 produtores ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do RS (Fetraf-RS), de 34 municípios, concluiu que mais da metade dos entrevistados (53%) não tem a intenção de investir na propriedade nos próximos anos. É um sintoma claro do sentimento de que as melhorias não dariam retorno, talvez fruto das dificuldades atuais. 

O principal obstáculo apontado é o encarecimento dos insumos. Os eventos climáticos extremos e os preços não remuneratórios dos produtos que vendem também geram desânimo. São os fatores que levaram os produtores ao endividamento.

Mas, muito além de fatores conjunturais, as famílias que vivem, trabalham e empreendem no campo enfrentam a dúvida sobre quem tocará as propriedades no futuro. Dados apresentados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) escancaram o problema do envelhecimento no campo e da falta de jovens dispostos a seguir nas propriedades. A opção tem sido o êxodo para as cidades. A partir dos dados do IBGE, a entidade demonstra que, da população rural do Estado, apenas 10% tem idade entre 25 e 35 anos e somente 2% está na faixa abaixo de 25 anos.

A agricultura familiar é um ativo econômico e social do RS. Está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Estado. Entre elas, a do fumo, a da suinocultura, a da avicultura e a da vitivinicultura. Sem esquecer da produção diversificada dos hortigranjeiros que chegam todos os dias às mesas da população urbana. A agricultura familiar é, ainda, cada vez mais reconhecida pela qualidade das agroindústrias, onde agrega valor ao que extrai da terra.

É natural que uma parcela de jovens opte por outros tipos de trabalho e é positivo que busque a cidade para avançar na escolaridade. Ainda assim, a manutenção dessa tendência indica que milhares de pequenas propriedades, em um futuro nem tão distante, podem parar de produzir alimentos por inviabilidade e por não terem quem trabalhe nelas. Convém analisar se políticas de crédito, de seguro rural, de capacitação e de assistência técnica para enfrentar os desafios das mudanças climáticas estão adequadas a essa nova realidade. Ao mesmo tempo, é preciso viabilizar melhor infraestrutura no meio rural e pensar em formas de proporcionar maior mecanização e investimento em tecnologia para que morar no campo volte a ser atrativo para os jovens, em termos remuneratórios e de qualidade de vida. _

A atividade está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Rio Grande do Sul

27 de Julho de 2026
EM FOCO - Mathias Boni

Com baixo crescimento da população, atividade demanda maior eficiência e melhor ambiente de negócios

Estudo do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa sobre a economia gaúcha entre 2002 e 2023, quando PIB teve aumento inferior à média nacional, mostra caminhos para estimular o desenvolvimento. Analistas ouvidos destacam importância de investir em educação e infraestrutura, além de reduzir burocracia

Produtividade é a chave para RS acelerar economia

Entre 2002 e 2023, o RS registrou o menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país e viu a produtividade do trabalho avançar abaixo da média brasileira. Com o envelhecimento da população gaúcha, a melhoria na eficiência é o principal caminho para acelerar de forma sustentada a economia do Estado.

O diagnóstico faz parte da série Estudos em Crescimento Econômico e Produtividade, do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa (Ifep-RS), que, além de mapear fatores que limitaram o desempenho da economia gaúcha nas últimas duas décadas, mostra frentes estratégicas para reverter esse cenário. Educação, infraestrutura e melhoria no ambiente de negócios são os caminhos apontados.

No período analisado, o PIB gaúcho cresceu 34%, desempenho inferior à média nacional (58%) e aos demais Estados do Sul. No Paraná, o crescimento foi de 55%; em SC, de 65%.

- Nessas duas décadas analisadas no estudo, vimos o RS ficando pra trás no crescimento econômico, e o baixo índice de produtividade é fundamental para entender esse resultado. O reforço desse indicador é uma oportunidade de sustentarmos o nosso crescimento de forma mais consistente no longo prazo - diz o economista Lucas Schifino, gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS e diretor-executivo do Ifep-RS.

O estudo terá quatro publicações. Por enquanto, ZH teve acesso à primeira, que faz o diagnóstico da economia gaúcha. A partir dela, a reportagem ouviu especialistas para abordar questões apontadas e possíveis soluções. Outras partes vão abordar limites do crescimento populacional como alavanca de desenvolvimento, o gargalo de produtividade do Estado e como ele aparece na estrutura setorial da economia gaúcha. _

Diagnóstico apontado - População x produtividade

O levantamento mostra que fatores demográficos também ajudam a explicar o desempenho econômico do Estado. Entre 2002 e 2023, o RS teve o menor crescimento populacional proporcional do país, com alta de apenas 8%, menos da metade da média nacional (18%). No mesmo período, Santa Catarina cresceu 39% e o Paraná, 18%.

Segundo o professor do Programa de Mestrado Profissional de Economia da UFRGS Maurício Weiss, o envelhecimento da população e a dificuldade de reter profissionais tornam ainda mais importante aumentar a produtividade da economia: - O Rio Grande do Sul tem o problema do baixo crescimento populacional e do envelhecimento, além de enfrentar o desafio de reter profissionais. Uma população maior amplia a oferta de mão de obra e o mercado consumidor, contribuindo para o crescimento da economia.

Entre 2002 e 2023, a produtividade do trabalho cresceu, em média, 0,65% ao ano no Estado, abaixo da média nacional, de 0,94%. Weiss destaca que o aumento da produtividade amplia a capacidade de elevar a renda dos trabalhadores sem comprometer investimentos.

Educação como alavanca

Segundo especialistas, a melhoria da educação básica e da formação profissional é uma das principais oportunidades para acelerar a produtividade da economia gaúcha.

No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2023, o RS ficou atrás dos demais Estados da Região Sul nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental. No Ensino Médio, empatou com Santa Catarina. No Indicador Criança Alfabetizada de 2024, fortemente impactado pela enchente, o Estado registrou o quarto menor índice do país.

Para Ely José de Mattos, economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS, investir na formação dos estudantes e ampliar a qualificação profissional pode produzir efeitos diretos sobre a competitividade: - Resultados ruins na formação têm como consequência menor disponibilização de mão de obra qualificada para o mercado local, e esse fato afeta a produtividade na ponta final da cadeia. A qualificação do ensino de base e o reforço de complementação de formação profissional, além de maiores incentivos para a retenção e atração de talentos, são o caminho.

Ambiente de negócios

Outra frente destacada pelo levantamento envolve melhorias no ambiente de negócios. Segundo o economista Lucas Schifino, medidas voltadas à simplificação tributária, redução da burocracia e maior segurança para investimentos favorecem o aumento da produtividade ao estimular inovação e modernização das empresas.

Especialistas convergem na ideia de que o desafio do Rio Grande do Sul vai além de crescer mais rapidamente. Em um Estado marcado pelo envelhecimento da população e pelo baixo crescimento demográfico, aumentar a produtividade tende a ser o principal caminho para elevar a renda, ampliar a competitividade das empresas e sustentar o desenvolvimento econômico nas próximas décadas.

Infraestrutura e competitividade

Outro eixo avaliado pelo estudo é a infraestrutura logística. Segundo o presidente da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Câmara Log), Paulo Menzel, o RS ainda depende excessivamente do transporte rodoviário, enquanto possui baixa utilização de modais como hidrovias e ferrovias.

Na avaliação dele, ampliar essa diversificação e modernizar a infraestrutura logística pode reduzir custos e tornar as empresas gaúchas mais competitivas: - Hoje o Estado tem um custo logístico que é um dos maiores do país. Nossa dependência rodoviária é muito grande, praticamente não utilizamos outros modais.

 

27 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O futuro das capivaras do Arroio Dilúvio

No dia 19, final de manhã de domingo, quando se anunciava um temporal sobre Porto Alegre, fui até a foz do Arroio Dilúvio, na Avenida Ipiranga, ver como estava a situação das capivaras que ali habitam há cerca de dois anos. Aquela área, próxima à ponte sobre a Avenida Beira-Rio, se tornou ponto de observação de quem gosta de apreciar animais selvagens com relativa proximidade, ainda mais as simpáticas capivaras, ícones pop das redes sociais.

Por conhecer a região, não esperava limpeza total. Mas até me surpreendi com um dos lados da ponte, mais próxima às torres gêmeas, com grama aparada e sem sujeira. Do outro lado, a surpresa de contar 25 animais, entre eles muitos filhotes, deu lugar à desilusão - seguida da revolta: os bichos descansavam entre sacos plásticos, papel e todo o tipo de lixo. Alguns, mais afoitos, inclusive comiam o plástico, o que é, obviamente, prejudicial à sua saúde.

Procurei a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) de Porto Alegre, que informou que sua função é monitorar a saúde dos animais e que o tema está sendo coordenado pela vice-prefeita, Betina Worm, veterinária de formação.

Conversei longamente com ela, que atribuiu a sujeira a um fim de semana de fortes ventos.

- Tivemos alerta meteorológico, com rajadas de entre 40 km/h e 60 km/h. Temos mantido aquela área limpa, passo ali com frequência. A secretária do Gabinete da Causa Animal (Tatiana Guerra) mora perto, e todos os finais de semana vai ali para ver como estão - diz Betina.

Não se trata apenas de um tema de limpeza urbana, obviamente, embora esse tenha sido o motivo inicial da minha inquietação. Ao conversar com a vice, entendi que a situação é muito mais complexa. A questão precisa ser observada por diferentes ângulos, a começar pelo nosso, como seres humanos. Não são as capivaras que estão invadindo o espaço urbano. Elas só estão na cidade porque nós reduzimos o seu espaço.

Betina contou que os animais chegaram em 2024, com a enchente. A fêmea deu à luz cinco filhotes. Em maio de 2025, GZH mostrou que sete animais viviam ali. Hoje, são 25.

A vice afirma que tem buscado conversas com o governo do Estado e com o Ibama. Destacou que, por se tratar de animais silvestres, há riscos:

- São de difícil manejo, é um bicho rápido. Até mesmo ao se fazer uma sedação, com zarabatana, ou dardo tranquilizante, eles se jogam na água e morrem afogados. Podem se machucar e morrer.

Próximos passos

Há duas estratégias em vista pela prefeitura. A primeira deve ser monitorar os animais. Há duas semanas, foram feitos exames para que se verifique a presença de ectoparasitos:

- Não temos o carrapato-estrela, veículo da febre maculosa, que pega em gente e mata.

A segunda estratégia é o controle reprodutivo, com castração de fêmeas e vasectomia de machos.

- Por que não castração do macho? Porque, se a gente faz só a vasectomia, não exclui o fator macho alfa, liderança. Como são territorialistas, tendem a formar grupos e colônias em determinada área, e, se entra alguém de fora, eles brigam. Esse vai ser o nosso grupinho monitorado - diz.

Reflexão

O ideal é que as pessoas façam sua parte, que coloquem o lixo no lugar onde não é levado pelo vento. Motoristas devem ter atenção ao circular pela área. E curiosos, como eu, devem observar à distância, não tocá-los, não alimentá-los e, muito menos, assustá-los. De tempos em tempos, vale cobrarmos do poder público, estarmos atentos à saúde dos animais e à sujeira no entorno. Vamos aprender a conviver com os novos "cidadãos" de Porto Alegre, nossos simpáticos vizinhos. _

Passagens rodoviárias

O Shopping Total, em Porto Alegre, terá um totem de autoatendimento para a compra de passagens rodoviárias intermunicipais. A parceria foi firmada com a empresa Ouro e Prata, porém contemplará outras concessionárias de viagens do Estado, ampliando as opções de destinos e oferecendo acesso a deslocamentos para todas as regiões do Rio Grande do Sul. A operação teve início na semana passada, e o serviço está disponível no primeiro andar do shopping. _

Competências humanas e IA

O ex-diretor do LinkedIn para a Europa e América Latina, Borja Castelar, será um dos palestrantes do CongregarRH 2026. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos - seccional do Rio Grande do Sul (ABRH-RS), ocorrerá entre 30 de setembro e 2 de outubro, na PUCRS, em Porto Alegre.

No LinkedIn, Castelar comandou a área de Soluções de Talentos por quase uma década. Ao longo da carreira, realizou mais de 700 palestras em 25 países e publicou três livros sobre liderança, persuasão e habilidades humanas. No CongregarRH, o especialista abordará o papel das competências humanas em um cenário corporativo cada vez mais impactado pela inteligência artificial. 

Apoio para a Defesa Civil

Para auxiliar nos trabalhos de assistência às pessoas afetadas pelas cheias registradas nos últimos dias no Estado, o Instituto Cultural Floresta (ICF) cedeu antenas Starlink para as Defesas Civis do RS e de Porto Alegre.

Na última semana, o órgão estadual recebeu 10 equipamentos; já o da Capital acessou três unidades. Os aparelhos já estão em campo com as equipes enviadas para as regiões Central, Ilhas e Vale do Taquari. Os dispositivos garantem acesso à internet em localidades isoladas. As antenas pertencem ao acervo do ICF, entidade que, na enchente de 2024, adquiriu e cedeu mais de 330 unidades para o uso de equipes de resposta. 

Empresa gaúcha e a moda circular

A Lojas Renner e a Aalto University - uma das mais reconhecidas instituições de ensino da Finlândia e do mundo nas áreas de design, moda, inovação e sustentabilidade - desenvolveram, no primeiro semestre, uma parceria para fomentar a moda circular. A iniciativa reuniu profissionais das áreas de produto, estilo, matérias-primas e sustentabilidade da empresa gaúcha, além de estudantes e docentes do curso de Mestrado em Fashion, Clothing and Textile Design da universidade.

A equipe da Renner participou de atividades e visitas a laboratórios e oficinas da Aalto, incluindo espaços dedicados ao estudo de biomateriais e à experimentação de novas tecnologias têxteis. 

Democracia "relativa"

Em 29 de junho de 2023, o presidente Lula, em sua primeira entrevista à Rádio Gaúcha, respondeu ao questionamento deste colunista sobre por que não considerava Venezuela e Nicarágua ditaduras, afirmando que "democracia é um conceito relativo". Na semana passada, em resposta à fraca posição do Brasil sobre o fim do voto na Nicarágua, o ditador Daniel Ortega declarou: "Nossa democracia, nossas eleições". _

INFORME ESPECIAL

sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O sagrado resto

Adorava quando meus pais voltavam da feira com aquelas redinhas coloridas que acondicionavam limões, laranjas, melões, tangerinas, batatas. Recolhia teias para confeccionar a fantasia de Homem-Aranha.

Com restos de pano, minha irmã costurava um enxoval para suas bonecas. Com sacos de Pastelina, estourávamos bolhas de ar, assustando os que se mostravam distraídos. Com os papéis das balas, assoviávamos longe.

Com o embrulho do pão, criávamos rabiolas para pipas. Preparávamos telefone sem fio com copos de iogurte. Simulávamos a montaria de cavalo com cabos de vassoura.

Construíamos pontes em maquetes com palitos de picolé. Dobrávamos jornais velhos para formar chapéus e cantar: "Marcha soldado, cabeça de papel".

Empregávamos latas de Nescau como casinhas no jogo de taco. Rolos de papel higiênico viravam binóculos ou lunetas. Tampinhas de garrafa originavam peças de dama. Espigas de milho secas se transformavam em pequenos espantalhos.

Lençóis esgarçados, presos entre cadeiras, erguiam cabanas no meio da sala. Pregadores de roupa assumiam olhos e boca. Carretéis de linha cumpriam a função de rodas em carrinhos improvisados. Caixinhas de remédio e de pasta de dente constituíam prédios e arranha-céus nas cidades em miniatura.

Embalagens de ovos se convertiam em paletas de tinta nas aulas de artes. Os trastes, os refugos da civilização, os materiais abandonados nos davam conforto e ideias.

Quem da minha geração não patenteou uma televisão com caixa de papelão? Recortava-se nela uma janela, como se fosse a tela, que logo ganhava uma folha de papel celofane (azul, vermelho, amarelo ou verde). Entre dois rolinhos, passava uma tira de figuras destacadas de revistas. Bastava girá-los pelas laterais para dar a impressão de um filme ou noticiário. Intimávamos a família a acompanhar a programação caseira, em sessão particular com venda de ingressos.

A engenharia das inutilidades, a fábrica do faz de conta, alcançava ainda mais visibilidade com o programa de Daniel Azulay, que permaneceu à frente da TV Criança e da Turma do Lambe-Lambe. Ele nos ensinava a desenhar, a observar a simetria por trás do traço, a realizar trabalhos manuais com argila, a elaborar origamis perfeitos, a descobrir diversão com sucata.

Produzíamos pioneira reciclagem com a nossa poderosa imaginação. A criatividade começava quando a serventia do objeto terminava. Os adultos nos concediam, sem perceber, farta matéria-prima de graça.

Só entendi o quanto fui feliz - inventando a minha felicidade, e não a recebendo pronta - ao ler Manoel de Barros: "As coisas jogadas fora têm grande importância".

Assim não joguei fora a minha infância. 

CARPINEJAR

25 de Julho de 2026
PAULO GERMANO

O futuro, normalmente, é o território dos sonhos, certo? Digo sonhos no sentido de projetos: o crescimento dos filhos, a casa quitada, as férias de verão, uma velhice tranquila. Aqui não. Para o gaúcho, o futuro virou o lugar da próxima enchente. O futuro é uma ameaça, o futuro dá medo, o futuro é o El Niño chegando em setembro.

O que ocorreu nesta semana, nos vales do Caí e do Taquari, com famílias novamente empacotando a dignidade em sacos de lixo, não teve o gigantismo apocalíptico de 2024. Mas teve algo igualmente insuportável - não só para os desabrigados, mas para qualquer cidadão do Rio Grande do Sul: a sensação de ver tudo outra vez. Parece um fantasma que entrou debaixo da nossa cama e se recusa a ir embora.

E os números mostram esse pavor. Dois em cada três gaúchos, segundo uma pesquisa do IBGE divulgada no início do mês, admitem estar mentalmente abalados, até hoje, por conta das enchentes de dois anos atrás. E como não estariam? O psicanalista Donald Winnicott dizia que a sanidade depende, antes de tudo, de um ambiente minimamente confiável. Ele chamava isso de holding - a capacidade que o mundo à nossa volta tem de nos sustentar, de oferecer alguma segurança para a gente poder existir.

Por exemplo: você dorme porque acredita que a sua casa vai protegê-lo; sai para trabalhar porque supõe que conseguirá voltar; compra um sofá grande porque nunca vai precisar içá-lo até o telhado. É essa confiança banal, quase invisível, que nos permite gastar energia vivendo, e não pensando o tempo todo em estratégias para escapar do horror. Foi essa confiança que a água levou. Centenas de milhares de gaúchos passaram a experimentar uma modalidade perversa de tortura psicológica: sofrer por um luto que ainda não aconteceu, mas que parece inevitável.

A pessoa olha para os móveis que recém comprou e imagina a lama. Olha para o carro e pensa onde poderá deixá-lo. Olha para o cachorro e calcula como vai retirá-lo. Olha para o pai idoso e teme não conseguir carregá-lo. A vida virou um ensaio para catástrofe, um plano permanente de evacuação. Não há quem aguente uma existência assim.

Por isso, é quase um insulto continuar chamando essa gente de "guerreira" ou "resiliente". Ninguém quer esse troféu da resistência eterna. Ninguém quer a obrigação de reconstruir indefinidamente. O que as pessoas querem é o direito de baixar a guarda - e só vão tê-lo quando o ambiente se provar confiável na prática. Quando o sistema de contenção segurar a enxurrada. Quando a casa de bombas funcionar na inundação. Quando o alerta chegar a tempo e o cidadão sentir, com segurança, que não está jogado à própria sorte.

Só então o futuro voltará a ser um lugar onde vale a pena morar. _

Paulo Germano

25 de Julho de 2026
MARCELO RECH

Por sua história, não se pode dizer que Lula já tenha ameaçado a democracia. Nunca planejou golpe, não questionou a lisura das urnas eletrônicas e não foi alcoviteiro de quartéis. Reconhecida sua trajetória, é de espantar a omissão de Lula quanto aos ímpetos antidemocráticos de movimentos de esquerda em países latino-americanos que buscam solapar eleições legítimas de candidatos da direita.

A última onda de silêncio começou pela Bolívia, onde partidários de Evo Morales bloquearam estradas e estrangularam a economia boliviana para exigir a deposição do centro-direitista Rodrigo Paz Pereira, assim como tentaram fazer no Brasil caminhoneiros inconformados com a eleição de Lula. Em um gesto humanitário, Lula despachou para a Bolívia um avião da FAB com alimentos, mas do brasileiro não se ouviu condenação veemente à tentativa de destituição de um governante eleito democraticamente.

A tradição brasileira é de não interferência, justificarão fiéis soldados de Lula. É, pode ser. Mas em junho de 2024 Lula foi às redes sociais para se solidarizar com o esquerdista Luís Roberto Arce (herdeiro político de Evo Morales, com quem romperia durante o governo), ameaçado de derrubada por militares. "A posição do Brasil é clara. Sou um amante da democracia e quero que ela prevaleça em toda a América Latina. Condenamos qualquer forma de golpe de Estado na Bolívia", proclamou Lula.

Seria bom que a posição também fosse clara quando esquerdistas inconformados com a vitória da direita, seja na Bolívia, na Colômbia ou no Peru, se recusam a aceitar a vitória dos adversários. Pode ser que a voz de Lula não tenha lá tanto eco no Oriente Médio, na África ou na Ásia. Mas nos trópicos latino-americanos a postura do presidente do Brasil ajudaria a fazer a diferença entre legitimar ou não tentações antidemocráticas.

Num gesto de descortesia à la Javier Milei, Lula não dará o ar da graça nas posses de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia, assim como já tinha se ausentado na do também direitista José Antonio Kast, no Chile. A seletividade política de suas relações contribui para a estratégia da Casa Branca de isolar ainda mais o governo de Lula - e, consequentemente, o Brasil - na América do Sul. Ao agir conforme a cartilha trumpista de dividir o mundo entre amigos e inimigos, Lula cai numa armadilha ideológica que só empurra ainda mais os vizinhos à direita para os braços dos EUA. Quem sai perdendo com essa postura? 

Marcelo Rech

Não há brasileiro com posse de um telefone celular que não perceba, talvez diariamente, tentativas de golpes de toda ordem. Chegam por ligações de números desconhecidos, mensagens em aplicativos de conversas, SMS e redes sociais. Os estelionatos, impulsionados pela digitalização financeira e das atividades cotidianas, tornaram-se uma praga. Seguem a crescer, mesmo com a maior conscientização da população. O país tarda em encontrar estratégias mais eficientes de contenção desse delito, que se tornou o principal crime patrimonial no Brasil. Mesmo sem violência física, também deixa traumas e grandes perdas materiais.

As informações compiladas no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta-feira, demonstram a gravidade da situação. Não apenas pelas estatísticas. As conclusões demonstram a maior organização dos golpistas. Os registros de estelionatos cresceram 429,8% de 2018 a 2025. No ano passado, foram 2.261.055 queixas formalizadas, alta de 3% sobre 2024. É o equivalente a 258 casos por hora. Mas o próprio Anuário, de responsabilidade do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSB), atesta uma brutal subnotificação.

O crescimento dos golpes ocorre em sentido inverso de outros crimes, como furtos e roubos, em queda. A tendência segue a mudança de hábitos da população. Os delinquentes adaptaram-se rapidamente. Preocupa ainda mais a constatação de que a epidemia de fraudes não é fruto de ações de criminosos dispersos. O FBSP mostra evidências de organizações que se estruturam de forma sofisticada, com divisões de tarefas, metas de faturamento e uso de infraestrutura tecnológica que permite dar escala às tentativas de golpe.

O quadro se agrava com a constatação de que as grandes facções cada vez mais investem neste segmento criminoso, que garante arrecadação alta, sem o perigo de se envolverem em confronto com a polícia enquanto agem, ao contrário do que ocorre com roubos e tráfico. A relação entre o risco e o benefício torna os golpes atraentes. Enquanto mais de 2,2 milhões de casos foram registrados no país no ano passado, os Ministérios Públicos estaduais instauraram apenas 63,7 mil ações penais e só 4,8 mil pessoas foram presas.

Trata-se de um crime que não se resolve com polícia nas ruas ou aquisição de viaturas e armas. O combate passa por aperfeiçoamentos legislativos e por uma maior capacidade investigativa, o que depende de instrumentos tecnológicos e capacitação.

Há experiências internacionais com resultados promissores. O Brasil poderia olhar para esses exemplos. Segundo o FBSP, Singapura foi o primeiro país a encontrar uma fórmula que levou à queda de casos. Foi criado um centro operacional onde atuam policiais e representantes de bancos e de plataformas digitais, que agem com rapidez a cada denúncia, bloqueando a consumação do golpe. A parte que falha é responsabilizada. A Austrália é outro modelo. Além de uma estrutura integrada, concebeu um marco legal que elevou os deveres das redes sociais e buscadores. A mensagem é clara. É preciso responsabilizar quem se omite e permite ser meio para os golpes chegarem até as potenciais vítimas. _

OPINIÃO RBS

25 de Julho de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Prevenção

O que falhou e o que pode ser melhorado na previsão de cheias

Horas após avaliações indicarem cenário sem maiores riscos nos rios gaúchos depois de chuva intensa, cidades viram a água avançar. O episódio levou especialistas a discutir ajustes e formas de comunicar incertezas à população

Na última terça-feira, ainda traumatizados pela enchente de 2024, os gaúchos respiraram mais aliviados quando o governo gaúcho divulgou que, até aquele momento, não havia previsão de os rios subirem, apesar da chuva registrada desde o final da semana anterior. O cenário mudou rapidamente nas horas seguintes, e a água de cursos como o Taquari ultrapassou a cota de inundação em diferentes municípios.

A dificuldade de antever as cheias foi provocada por uma combinação entre incertezas na previsão do tempo ampliadas pelo El Niño, limitações do sistema utilizado pelos órgãos oficiais para projetar a subida dos rios e deficiências no modo de informar a população sobre os possíveis cenários.

O episódio deixa lições que deverão ser incorporadas por entidades como a Defesa Civil estadual e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), de âmbito federal.

Zero Hora conversou com oito servidores da Defesa Civil, dois do SGB, um do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para avaliar as imperfeições da estrutura de alerta e o que deve ser melhorado para o futuro.

O monitoramento e a previsão da Defesa Civil se baseiam no chamado Modelo de Grandes Bacias (MGB), que processa três variáveis fundamentais: previsão de chuva para um horizonte de até 15 dias, chuva já observada e vazão atual dos rios obtida por meio de estações de medição.

Esses dados são integrados para gerar tendências de vazão que, para 60 municípios prioritários, alimentam um modelo hidrodinâmico capaz de desenhar as prováveis manchas de inundação e permitir a visualização de quais áreas serão atingidas.

Previsão regional

- Isso deverá ser incorporado em breve. É que a plataforma da Defesa Civil foi inicialmente implantada com o objetivo de ter um horizonte de previsão mais longo, de 15 dias, dos modelos globais, enquanto o regional tem um horizonte de 72 horas. Mas, realmente, precisaremos colocar a previsão regional - diz a hidróloga do Centro de Monitoramento da Defesa Civil Vanderleia Schmitz.

Sistema recente Diretora do Departamento de Gestão de Riscos da Defesa Civil, a tenente-coronel Ana Maria Hermes argumenta que esse sistema ainda é recente, tendo começado a operar no início deste ano, e garante que a experiência dos últimos dias será utilizada para aprimoramentos.

- Esse foi o primeiro evento (severo) que a gente enfrentou com esse sistema. Tudo na área de desastre vai estar em permanente melhoria, em permanente qualificação - afirma Ana Maria.

Nem todas as possíveis melhorias no sistema da Defesa Civil poderão ser executadas em pouco tempo. O governo gaúcho está concluindo a implantação da última de 130 novas estações que monitoram bacias hidrográficas e fornecem dados que subsidiam previsões. Porém, essa rede robusta ainda não é utilizada para alimentar os prognósticos.

- Contratamos 130 estações que hoje nos permitem o nowcasting (previsão de curtíssimo prazo) hidrológico. Só que essas estações ainda não conseguem alimentar esses modelos, e elas ficam em locais-chave. Para serem incluídas, precisamos ter uma série de dados histórica, e isso só pode ser obtido com tempo - argumenta a hidróloga Vanderleia.

Responsável pela operação do MGB, Stefano Boeira afirma que serão necessários cerca de quatro anos para formar esses bancos de dados e incorporar a nova rede de estações aos cálculos de resposta das bacias. _

Efeito de deslizamentos de terra será analisado

Há uma avaliação interna na Defesa Civil gaúcha de que os milhares de deslizamentos em morros de locais como o Vale do Taquari durante a tragédia de 2024 podem ter alterado a dinâmica dos rios. Estudos indicam que as "cicatrizes" deixadas no solo pela derrubada da vegetação e pela movimentação da terra podem atuar como "córregos" que concentram a água da chuva e a escoam para os rios vizinhos em velocidade superior à de um terreno preservado.

- Um levantamento da UFRGS mapeou cerca de 17 mil movimentos de massa no Estado. Só na bacia do Taquari-Antas temos 8,9 mil, e cerca de 50% dessas cicatrizes estão conectadas a corpos hídricos. Isso pode alterar a dinâmica da bacia, podendo diminuir o tempo de resposta dos rios (à chuva) e aumentar a velocidade com que a água chega até eles - afirma o geólogo da Defesa Civil Marcelo Ávila.

Na prática, isso pode fazer com que os rios subam mais rapidamente. Deverá ser realizado um estudo para verificar se essas alterações na geografia regional modificaram o comportamento dos mananciais em períodos de tempo severo. _

SGB deve rever terminologia de boletim

Como o SGB não faz previsão de tempo, utiliza as análises de órgãos internacionais e nacionais, a exemplo do Inmet. Essa é uma inovação implantada após a cheia de 2024. Até então, a entidade federal lançava apenas avisos de mais curto prazo, com menos tempo para prevenção, mas mais certeiros.

- Acredito que o termo "previsão" utilizado nesse tipo de boletim, que é mais de cenário, deverá ser trocado por outro daqui para frente. É um boletim inicial que apresenta possíveis cenários, mas ainda traz muita incerteza. O problema é quando isso é tomado como uma situação definitiva - argumenta a chefe do Departamento de Hidrologia do SGB, Andréa Germano.

À meia-noite, o órgão emitiu novo comunicado - já com caráter de alerta - prevendo que às 6h o Taquari já teria ultrapassado a cota de inundação (o que ocorreu). Esse segundo aviso já considerava a precipitação registrada de fato nas cabeceiras.

- Conseguimos fazer prognóstico, de fato, com no máximo 12 horas de antecedência para as partes mais baixas do Taquari, e de quatro a seis horas nas mais altas, porque é um rio de resposta rápida. Na bacia do Amazonas, boletins são divulgados com até 75 dias de antecedência - compara o chefe da Divisão de Hidrologia Aplicada do SGB, Emanuel Duarte.

Prudência nos prognósticos Procurado por ZH, o Inmet argumenta que emitiu 18 "avisos de tempo severo relacionados à chuva" entre os dias 17 e 21. Esses alertas previam possibilidade de precipitação "acima de cem milímetros ao dia" e possível "transbordamento de rios". Conforme o SGB, porém, houve pontos muito localizados onde a chuva oscilou ao redor de 200mm ao longo de um dia.

Em bacias de resposta rápida, pequenas diferenças na localização ou no volume da chuva sobre as cabeceiras podem alterar significativamente a projeção do nível dos rios poucas horas depois.

Para o professor do IPH Rodrigo Paiva, o episódio também deve servir de lição sobre como interpretar e divulgar as informações sobre possíveis cheias:

- Acho que uma das principais dificuldades foi fazer uma previsão dando a entender que existia uma certa certeza de que não aconteceria inundação antes de esperar o evento de chuva terminar. Nesses casos de bacias que respondem mais rapidamente, deve-se fazer uma interpretação mais prudente dos dados ou esperar mais. _

Sábado tem sol, mas temporais voltam ao longo da semana

Mas o fim de semana começa com um sábado ainda agradável, de sol entre nuvens na maior parte do Estado. As temperaturas mínimas variam entre 7°C e 14°C, e as máximas oscilam entre 16°C e 25°C.

Na Região Metropolitana, nos Vales e no Litoral, o tempo permanece estável e sem expectativa de chuva significativa. No entanto, o avanço gradual de instabilidades pelo Oeste, Missões, Noroeste e trechos do Sul provocará aumento da nebulosidade, com alguma precipitação ocasional entre a tarde e a noite. Apesar do tempo seco na Capital e na Região Metropolitana no sábado, a água que escoa das bacias do Interior - Taquari, Caí e Jacuí - continua chegando ao Guaíba.

Avanço nas Ilhas

A elevação, que começou de forma gradual na sexta-feira, já provocou avanços na Região das Ilhas. A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba na medição do Cais Mauá deve atingir 2m70cm até este sábado. Com isso, supera a cota de alerta (2m50cm) e se aproxima da cota de inundação (3m).

Prefeitura da Capital constrói dique provisório na Zona Sul

Leonardo Martins

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) construiu, nesta sexta-feira, dique provisório na orla do Guaíba, no bairro Guarujá, na zona sul de Porto Alegre. Com retroescavadeiras, a prefeitura ergueu barreira de terra em frente ao rio para conter eventual cheia.

A obra dá sequência a uma medida iniciada na última quinta-feira, na vizinha Praça Zeno Simon. No local, o Dmae instalou sacos de areia para bloquear o canal que liga a Rua Jacipuia ao Guaíba e posicionou uma bomba móvel, que retira a água da chuva acumulada e a devolve ao rio. O objetivo é impedir que o Guaíba avance pelo sistema de drenagem e provoque alagamentos nas ruas do entorno.

O Guarujá é um dos bairros da Zona Sul que ainda não conta com sistema de proteção contra cheias. Sem diques e comportas, a drenagem da chuva depende da diferença de nível entre a rede pluvial e o Guaíba. Quando o rio sobe, a água pode fazer o caminho inverso, voltar pelos canos e provocar alagamentos.

Alerta até segunda

O trabalho de sexta-feira dá continuidade à ação da véspera. À tarde, as equipes atuaram na construção de um pequeno dique para proteger o canal, de modo a manter o nível da água mais baixo do que o do Guaíba. As estruturas devem permanecer no local ao menos enquanto durar o alerta de cheia para as regiões ribeirinhas das Ilhas, do Guarujá e do extremo sul da Capital. O aviso da Defesa Civil vale até segunda-feira.

A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que a cota de alerta na região, de 2m50cm (nível a partir do qual o monitoramento se intensifica), deve ser superada, com o Guaíba chegando a 2m70cm até sábado.

Na madrugada de sexta-feira, o rio subiu de forma gradual e começou a avançar na Região das Ilhas. A elevação ocorre por causa do escoamento das águas das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, que deságuam no Guaíba.

Solução definitiva

A alternativa definitiva para proteger o Guarujá ainda está em fase de estudos. Entre as opções analisadas pelo Dmae estão a construção de um muro de proteção, a elevação da Avenida Guaíba ou da própria Praça Zeno Simon. Os estudos de viabilidade técnica devem ficar prontos até o fim do ano, e a estimativa é de que a obra custe cerca de R$ 300 milhões. O projeto ainda exigiria o reassentamento de famílias, além de desapropriações e indenizações. 

25 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Falhas na rede do Inmet continuam

Os problemas na rede de estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Rio Grande do Sul não se limitam aos dias mais críticos que antecederam as tempestades desta semana no Estado. As discrepâncias continuam, segundo aponta o meteorologista Gabriel Cassol, um dos autores do estudo que demonstrou falhas nos equipamentos entre os dias 17 e 21 de julho, período crítico das tempestades recentes no Estado. O Inmet é um órgão do governo federal.

Nesta sexta-feira, por exemplo, a estação de Uruguaiana trazia dados irreais de temperatura, falha de dados e não apresentava estatísticas sobre medição de chuva. Enquanto todos os sensores mostravam temperatura que variava entre 16°C e 16,5°C, a estação do Inmet registrava 22,9°C, uma diferença de pelo menos 6,9°C. A estação de Lavras do Sul não tinha dados sobre umidade e ponto de orvalho. Também registrava dados irreais de temperatura, com uma discrepância de pelo menos 8°C.

A estação de São Lourenço do Sul mostrava a velocidade do vento de 80,3 km/h, enquanto equipamentos na região indicavam entre 43,5 km/h e 45,9 km/h. A estação de Palmeira das Missões também continua registrando valores absurdos de rajadas de vento. O equipamento registrou 88,9 km/h sendo que não havia nenhuma tempestade ou algum sistema meteorológico atuando no Rio Grande do Sul capaz de produzir essas rajadas. Outros equipamentos na área indicavam ao meio-dia rajadas de 25,7 km/h.

Em Porto Alegre, a principal estação da Capital, localizada no Jardim Botânico, seguia apresentando três problemas: nenhum registro de ventos (velocidade, rajadas e direção), em vários horários ela não apresentava dados e sensores registrando temperaturas fora do normal.

- Isso é problema de equipamento de baixa qualidade, a única solução para corrigir esse problema é fazer a troca dos equipamentos e colocar sensores de qualidade - avalia o meteorologista.

Conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pelo Inmet, as estações meteorológicas "estão passando por manutenção preventiva e corretiva, que inclui a atualização do programa utilizado em sua operação". O órgão diz ainda: "os serviços são executados periodicamente e a previsão de conclusão, para o RS, é no mês de agosto". _

Conforme a Defesa Civil do RS, as 129 estações de monitoramento hidrometeorológico compradas pelo governo do Estado operam normalmente. O órgão pondera que, apesar de todas as unidades funcionarem, os sensores ainda estão no processo de calibragem, etapa que serve para garantir a qualidade da informação.

Entrevista - Gabriel Cassol
Meteorologista

"Ocorre uma degradação da previsão do tempo"

O meteorologista Gabriel Cassol assina, junto com o professor da Unisinos Artur Jacobus, o levantamento que mostrou que apenas 16 das 98 estações meteorológicas do Inmet estavam plenamente funcionando entre 17 e 21 de julho, dias críticos para os temporais no Estado. Mestre pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o especialista está radicado em Santa Catarina, onde é proprietário da Sigma Meteorologia. Ele conversou com a coluna.

Em que momento vocês se deram conta de que havia discrepâncias?

Logo após a instalação das estações, entre março e abril, começamos, aos poucos, a observar esses problemas. Inclusive, a estação do Jardim Botânico, em Porto Alegre, já apresentava, nas primeiras semanas, algumas falhas, principalmente na medição do vento. Posteriormente, esses detalhes foram sendo corrigidos e ajustados, mas, à medida que as estações foram instaladas nas demais regiões do Estado, elas também começaram a apresentar problemas.

Quais são os erros mais comuns?

Há estações com problemas na medição do vento. Elas estão registrando, por várias horas consecutivas, rajadas muito fortes, o que não se justifica, porque não há nenhum sistema meteorológico capaz de provocar essas rajadas de vento por tantas horas seguidas. É um erro de medição do equipamento que não acontece somente em uma estação, mas em várias outras pelo Estado. Além disso, também observamos erros na medição da temperatura. 

Em algumas estações, já identificamos picos de temperatura muito altos entre uma hora e outra de medição. Poucas semanas atrás, tivemos uma tarde bastante gelada em toda a Campanha, com temperaturas em torno de 10°C. Na hora seguinte, a estação do Inmet de Santana do Livramento registrou uma temperatura de 40°C. Isso não faz o menor sentido. Na hora seguinte, a estação voltou a registrar 10°C. Observamos esse mesmo comportamento em outras estações.

Qual é o impacto desses erros?

Os países têm Centros Nacionais de Meteorologia. No caso do Brasil, esse órgão é o Inmet. Os dados gerados pelo instituto são oficiais, têm certificação e uma numeração da OMM. Esses dados são enviados diariamente para centros meteorológicos do mundo inteiro, a fim de inicializar os modelos de previsão do tempo. O modelo americano, por exemplo, é inicializado e mantido pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration). Já o modelo europeu é mantido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o ECMWF. 

Todos os dias, o próprio Inmet envia esses dados para esses centros, para que as informações abasteçam os modelos de previsão do tempo. A partir delas, é possível prever o comportamento da atmosfera para os próximos dias. A partir do momento em que se tem uma informação errada ou faltante no modelo, ocorre uma degradação da previsão. Esse impacto geralmente é maior nas primeiras 12 a 24 horas, podendo chegar, no máximo, a 36 horas. Depois disso, vai se reduzindo aos poucos. 

Se tivéssemos dados mais precisos do Inmet, poderíamos ter previsões mais assertivas, inclusive para o último evento ocorrido no Rio Grande do Sul. Houve erros nos modelos naquele primeiro cenário, em que se projetava muita chuva para a região de Santa Maria. A previsão acabou não se confirmando, e a chuva ficou mais deslocada para a região norte do Estado. A partir do momento em que se informa uma condição errada da atmosfera, esse erro vai se propagando nas horas seguintes de previsão dos modelos.

Há outros impactos?

O Rio Grande do Sul é a porta de entrada dessas frentes frias. Se já temos dados errados aqui, à medida que essas frentes avançam para as demais regiões do país, o erro também vai se propagando. Sempre prezamos pela excelente qualidade desses dados, principalmente porque são informações oficiais e alimentam os modelos de previsão. 

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 24 de julho de 2026

24 de Julho de 2026
MARCO MATOS

Rotina e amigos

Como é a rotina no teu trabalho? A resposta para essa pergunta é única. Mesmo profissionais que exercem exatamente a mesma função vivem dias completamente diferentes. Tudo depende do jeito de ser, das prioridades, das pequenas manias de organização e até da forma como cada um enxerga os desafios da profissão.

São muitas variáveis que ajudam a criar ambientes de trabalho distintos dentro de uma mesma equipe. E essa é uma das coisas mais interessantes de trabalhar em grupo. Não existem duas pessoas iguais. Cada colega carrega uma história, uma bagagem e uma maneira própria de encarar a vida.

Passar pelo menos um terço do dia no trabalho é tempo mais do que suficiente para estreitar relações. A gente conversa sobre pautas, metas e compromissos, mas também fala sobre a família, sobre os sonhos, as preocupações e os planos para o futuro. Compartilha alegrias, conquistas e, muitas vezes, momentos difíceis. Depois de anos dividindo a mesma rotina, é quase impossível não criar intimidade.

Quem nunca teve um colega que acabou se transformando em confidente? Aquela pessoa que sabe reconhecer pelo olhar quando alguma coisa não está bem. Ou que percebe na hora quando existe um motivo para comemorar. São vínculos que surgem de forma espontânea, construídos aos poucos, entre um café e outro.

Há alguns anos se fala muito sobre diversidade nos ambientes profissionais. Eu acredito profundamente nessa mistura como uma ferramenta para gerar resultados melhores. Mas não apenas resultados. Acho que ela também nos torna pessoas melhores.

No nosso time do Jornal do Almoço temos gente de todas as idades, experiências de vida diferentes, vivências únicas e personalidades bem contrastantes. Tem quem fale muito e quem observe mais. Tem quem seja extremamente organizado e quem funcione melhor no improviso. Tem quem esteja começando a carreira e quem já tenha décadas de experiência acumulada. E eu amo isso.

A afinidade nem sempre nasce de gostos em comum ou de opiniões parecidas. Muitas vezes ela surge justamente das diferenças. A convivência diária nos ensina a admirar características que não temos e a enxergar o mundo por perspectivas que talvez nunca conheceríamos sozinhos.

Nesta semana, no dia 20, celebramos o Dia do Amigo. E essa data me fez pensar em como a vida adulta muda a forma de construir amizades. Quando a escola e a faculdade ficam para trás, o trabalho passa a ser o principal lugar para conhecer gente nova. E, por consequência, para fazer novos amigos.

Talvez essa seja uma das partes mais bonitas da rotina profissional. No meio das obrigações, dos prazos e das responsabilidades, surgem laços que ultrapassam o expediente. Porque algumas das pessoas que chegam até nós como colegas acabam ficando para sempre como amigos. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

24 de Julho de 2026
Opinião RBS

O teste da nova enchente

O evento extremo que atingiu o Estado nos últimos dias pode ser uma amostra do que está por vir, em especial na primavera, estação que já é mais chuvosa no Rio Grande do Sul. Os prognósticos climáticos apontam para a formação de um El Niño de magnitude histórica, com efeitos espalhados entre este ano e 2027.

Diante dos alertas de tempo severo, era importante observar, como ressaltou este espaço na quinta-feira da semana passada, o quanto se evoluiu desde a grande cheia de 2024 em preparação e adaptação para tempestades, chuvas volumosas e possíveis enchentes. É preciso reconhecer os avanços. De forma geral, Estado, prefeituras e concessionárias de serviços públicos mostraram-se prontos para agir. Mas é dever registrar que há pontos importantes a serem revistos e aprimorados.

Em relação aos aspectos que precisam de melhor exame, sobressai o caso da previsão equivocada, na noite de terça-feira, de inexistência de risco de o Rio Taquari ultrapassar as cotas de inundação. As informações passadas pela Defesa Civil do Estado e pelo Serviço Geológico do Brasil descartavam essa possibilidade. A mensagem foi divulgada pelo próprio governador Eduardo Leite. Mas, já na madrugada de quarta, poucas horas depois, o cenário foi revisto e as prefeituras da região, instadas a acionar os planos de contingência. Deflagrar durante a madrugada uma mobilização que poderia ser iniciada antes cria dificuldades adicionais.

De forma transparente, o coordenador da Defesa Civil estadual, Luciano Boeira, admitiu que o volume de chuva que caiu nas cabeceiras do Taquari foi acima das previsões meteorológicas com que o órgão trabalhava. Referiu ainda que "os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios". Ou seja, não foi possível antecipar com acurácia o comportamento da bacia hidrográfica do Taquari. Ocorreu o mesmo com o Rio Caí. Aqui estão, portanto, dois pontos que devem ser analisados pelas instituições estaduais e federais envolvidas. A politização do tema é natural em um período pré-eleitoral, mas não traz nenhuma solução efetiva.

A região do Vale do Taquari é a mais traumatizada pelas enchentes de 2023 e 2024. É natural que a população e as autoridades locais esperassem previsões mais precisas e tempestivas, até pelos investimentos anunciados em sensores e estações para acompanhar o volume de chuva e o comportamento de mananciais. A antecipação é essencial para agilizar as decisões, como evacuar áreas de risco com maior rapidez e salvar pertences. A despeito dos sobressaltos, foi possível remover a tempo os moradores.

Até ontem à tarde, a Defesa Civil registrava 1.675 pessoas fora de suas casas. Quase 200 municípios contabilizaram estragos pelos temporais e pela chuva. O Guaíba deve chegar à cota de alerta, mas sem possibilidade de extravasamento na região central da Capital, embora a população das ilhas deva sofrer com inundações. Não deve ser subestimado o sofrimento de nenhuma pessoa atingida, até porque muitos já padeceram com cheias anteriores.

A enchente em curso é bem menos grave do que as de poucos anos atrás, mas serviu de teste. Resta diagnosticar as causas das falhas e corrigi-las. É parte do aprendizado de um Estado que não tem outro caminho senão o de reforçar a sua resiliência climática. 

OPINIÃO RBS

24 de Julho de 2026
EM FOCO

Temor

Atenção ao nível do Guaíba e dos rios

Apesar do retorno do sol ontem, alguns mananciais gaúchos seguem acima da cota de inundação. Com solo saturado, lago que banha a Capital deve atingir a cota de alerta amanhã. Além disso, novos temporais são aguardados na próxima semana

A quinta-feira foi marcada por chuva moderada no Rio Grande do Sul, mas de forte apreensão e novos alagamentos, especialmente no Vale do Jacuí. Embora a previsão para hoje indique a volta do sol e a melhora do tempo na maior parte do Estado, a atenção permanece totalmente voltada para a elevação dos rios e do Guaíba. O cenário exige cautela, pois a chuva deve retornar com força no final de domingo e se estender pelo início da próxima semana.

Os rios Caí, dos Sinos, Jacuí, Taquari e Uruguai seguem acima da cota de inundação em diversos municípios gaúchos em razão dos altos volumes acumulados desde o dia 17, há exatamente uma semana.

Segundo balanço divulgado pela Defesa Civil na noite de ontem, o número de cidades que registraram estragos subiu para 204 - contra 169 no levantamento do dia anterior. Às 19h havia 1.315 pessoas desabrigadas, mais de três quartos delas (76,5%) no Vale do Taquari. O município com mais desabrigados era Lajeado, com 540 pessoas abrigadas sobretudo no Parque do Imigrante.

Ontem, diante do grande volume de troncos de árvores, madeiras e entulhos no Guaíba, a CastSul suspendeu a travessia do catamarã, evitando a navegação à noite. O retorno da operação dependerá das condições do Guaíba, informou a empresa.

Trajetória ascendente

A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba manterá a trajetória de subida até amanhã, quando deverá atingir 2m70cm na medição do Cais Mauá, alcançando a cota de alerta. O nível de transbordamento no local é de 3m.

A elevação no Guaíba decorre principalmente do escoamento das águas que descem das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, e não tanto da precipitação direta sobre a Capital. Na madrugada de ontem, o manancial atingiu 1m92cm às 3h e permaneceu em 1m90cm ao longo da manhã, dentro da cota de atenção. Ao longo do dia, não foi registrado vento vindo do quadrante sul - fator que, quando presente, dificulta o escoamento para a Lagoa dos Patos. Ainda na tarde de quinta, a operação do Catamarã no Guaíba foi suspensa por precaução. Às 18h30min, a medição no Cais Mauá indicava declínio temporário, marcando 1m27cm.

Abrigos

A Defesa Civil estadual emitiu alerta de risco alto para inundação nas Ilhas de Porto Alegre, válido até as 17h30min de hoje. A Defesa Civil municipal informou que não há necessidade de remoção imediata de moradores, mas já estruturou dois abrigos emergenciais e pontos avançados de atendimento no bairro Guarujá, na Região das Ilhas e no extremo sul da Capital.

Na Ilha da Pintada, a água avançou sobre vias públicas como a Rua Nossa Senhora da Boa Viagem. Moradores precisaram erguer móveis ou transferi-los para os andares superiores das residências. Relatos da comunidade indicam que a população da Ilha da Pintada encolheu drasticamente desde a enchente de 2024: de cerca de 6 mil para 1,2 mil habitantes, aproximadamente, reflexo das cheias e da adesão a programas como o Compra Assistida, do governo federal, voltados a realocar famílias que viviam em regiões de risco.

No município de São Jerônimo, na Região Carbonífera, o Rio Jacuí atingiu a cota de inundação no final da noite de quarta-feira e chegou a 5m78cm às 11h de ontem - mais de um metro acima do limite crítico de transbordamento, que é de 4m64cm.

A Defesa Civil municipal removeu 16 pessoas (sete famílias) nos bairros Centro, Beira-Rio e Cidade Baixa. Outros moradores optaram pela desocupação preventiva por conta própria. Também foram registrados bloqueios em vias de acesso nas áreas ribeirinhas. O RS já contava com abrigos ativos em 13 cidades: Arroio do Meio, Arroio dos Ratos, Bom Retiro do Sul, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Lajeado, Montenegro, Muçum, Roca Sales, Santa Cruz do Sul e São Sebastião do Caí. Os locais estão distribuídos em escolas, ginásios municipais, parques e salões. _

Participaram Airton Lemos, Caroline Batista, Leticia Mendes, Heloisa Gamero, Júlia Ozório e Paulo Rocha

Precipitações acima de 100mm semana que vem

Meteorologistas projetam volumes expressivos de chuva na próxima semana em diferentes regiões do RS. Os acumulados podem superar 100 milímetros entre segunda-feira e sábado. O primeiro seria entre segunda e quarta-feira, com volumes mais elevados principalmente na segunda e na terça. Após uma trégua na quinta-feira, a instabilidade deve retornar entre sexta-feira e sábado.

Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marcelo Schneider afirma que a chuva mais intensa deve atingir uma faixa que atravessa a Região Central e a Região Metropolitana, além de áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra.

- O problema maior dos próximos dias será de segunda a quarta-feira, principalmente segunda e terça, quando as expectativas são de acumulados de chuva mais elevados em grande parte do Estado, principalmente na faixa central, de Santa Maria até Porto Alegre. Pode atingir também áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra - explica.

O meteorologista acrescenta que a instabilidade será provocada por uma frente fria estacionária. O contraste entre o calor e a umidade no Norte e o ar frio represado no sul do Estado deve favorecer a formação de chuva.

- Ao norte do Estado vai fazer muito calor e haverá umidade. Ao sul, o ar frio vai ficar represado. Por isso, entre segunda e o início da quarta-feira, há previsão de pancadas de chuva, trovoadas, rajadas de vento e possibilidade de granizo - afirma Schneider. _

"As pessoas estão cansadas de perder tudo"

No início da manhã de ontem, quando empurrou o portão em frente à casa na Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada, o soldador aposentado Daniel Portilla, 64 anos, viu uma cena a qual está habituado. A água do Rio Jacuí avançando sobre a via.

Criado na Região das Ilhas, Portilla viu inúmeras vezes as águas tomarem as ruas. Na enchente de 2024, precisou deixar o segundo andar da casa pela rua dos fundos. Na da frente, a água já havia ultrapassado o portão.

- Já perdi muita coisa aqui. Sempre que começa a chuva lá para cima, a gente já começa a se preocupar. Levanta os móveis. Guarda o que pode no segundo andar - relata.

A Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, onde ele mora, é uma das primeiras a ser tomada pelas águas. A reportagem conversou com moradores e eles relataram que muitas pessoas já deixaram a área de forma preventiva.

O padre Rudimar DalAsta, uma liderança na comunidade da Pintada, relata que muitos moradores já deixaram as casas como forma de prevenção. Outros, como Portilla, optaram por erguer os móveis.

- As pessoas estão cansadas de perder tudo. É uma cena que vimos se repetir muitas vezes - diz.

Pelas ruas da Ilha da Pintada, é possível encontrar muitas casas demolidas. A maior parte são moradores que deixaram o local após a última enchente.

- Muitos saíram, aderiram ao Compra Assistida (programa do governo federal). A população da ilha diminuiu muito. Antes eram mais de 6 mil, agora são cerca de 1,2 mil - relata o padre. _

Segundo o professor Fernando Dornelles, do IPH/UFRGS, na ausência de novas chuvas, o nível do Guaíba leva cerca de três dias para apresentar queda significativa. No entanto, o solo saturado pela umidade reduz a capacidade de absorção, o que faz com que novas precipitações em curto intervalo provoquem repiques mais acentuados nos rios.

Hoje

O avanço de uma massa de ar seco garante tempo firme na Campanha, Fronteira Oeste, Centro, Sul, Serra e Região Metropolitana. Há chance de chuva rápida e isolada apenas no Norte e Noroeste, próximo à divisa com Santa Catarina. As mínimas oscilam entre 8ºC e 9ºC no Oeste, Campanha e Campos de Cima da Serra; as máximas podem atingir 21°C na Grande Porto Alegre e 24°C no Noroeste.

Amanhã

O tempo firme predomina na maior parte do Estado, com presença de muitas nuvens e períodos de sol. Chuvas fracas ficam restritas ao Oeste. O amanhecer será frio, com marcas mais baixas na Campanha, Serra e áreas elevadas, mas as temperaturas sobem gradualmente à tarde.

Domingo

A partir do domingo, uma nova mudança no cenário traz instabilidade para todo o território gaúcho, com risco de temporais no Norte, Oeste, Missões, Centro, Campanha e Vales. A previsão indica continuidade da chuva na segunda e na terça-feira.

Travessia do Rio Uruguai foi interrompida

A elevação do Rio Uruguai provocada pelo alto volume de chuva registrado nos últimos dias interrompeu as principais travessias por balsa entre o Brasil e a Argentina ontem. Uma das situações mais preocupantes foi registrada entre Tiradentes do Sul e El Soberbio, onde o rio atingiu 11m72cm durante a manhã, conforme informações da Defesa Civil.

Em Porto Mauá e Alba Posse, a elevação chegou a 9m39cm. Por medida de segurança, famílias ribeirinhas precisaram deixar suas residências em áreas consideradas vulneráveis ao avanço das águas.

As operações entre Porto Vera Cruz e Panambi e entre Porto Xavier e San Javier foram suspensas após o rio ultrapassar a marca de 6m . A paralisação impactou moradores, trabalhadores e o transporte de mercadorias que utilizam diariamente as balsas para cruzar a fronteira.

A operação da barca Aliança, responsável pela travessia entre Barra do Guarita e Itapiranga (SC), também precisou ser interrompida.