terça-feira, 4 de agosto de 2026

Bagre

Quando uma figura pública se consagra com seu apelido, é que alcançou uma adoração afetiva destinada a poucos, tornando-se, ao mesmo tempo, alguém absolutamente famoso e íntimo: Pelé, Cazuza, Xuxa, Garrincha, Zico, Cartola.

Significa que, além de ser conhecido por todos, é amado como parte da família. Bagre Fagundes cumpriu essa proeza. Conseguiu reverter a rejeição de uma nominação e transformá-la em uma virtude. A ofensa servia antes para descrever um perna de pau e, no caso dele, passou a traduzir o apogeu do tradicionalismo. Um craque da canção.

Hoje, no Rio Grande do Sul, Bagre é sinônimo de uma pessoa talentosa. A alcunha dada na infância se perpetuou em sua trajetória por desígnios insondáveis. Quem disse que ele não era realmente um peixe que buscou ritmos e letras na fundura da bacia de nossas almas?

Ninguém o chamava de Euclides. Reza a lenda que o batismo popular surgiu depois que ele pescou um enorme jundiá no Rio Ibirapuitã. Há relatos de que se parecia a um "bagre que roncava". Não importa a origem: aprendemos a admirá-lo assim.

Bagre Fagundes faleceu no domingo, aos 86 anos, enquanto seu time de coração, o Inter, ganhava do Corinthians.

Mas o piá de Uruguaiana não tem como morrer. Reunia tantos que nem a morte soube a quem procurar. Foi advogado formado pela Universidade de Cruz Alta, vereador em Alegrete, bancário, jogador e árbitro de futebol. Também presidiu o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e atuou como colunista do jornal Diário Gaúcho.

Não existe jeito de embrulhar sua gaita enfeitiçada pelo som de sua gargalhada. Na música, brilhou para jamais voltar à sombra do nome próprio, para jamais se despedir de nós.

Ao lado de Nico Fagundes, compôs Canto Alegretense, capaz de expressar o apego ao pampa. Qualquer gaúcho o entoa de cor e salteado, quase como um hino rio-grandense alternativo. É o equivalente, para o sul do país, ao que Asa Branca, de Luiz Gonzaga, representa para o Nordeste.

"Não me perguntes onde fica o Alegrete, Segue o rumo do teu próprio coração. Cruzarás pela estrada algum ginete. E ouvirás toque de gaita e de violão."

Bagre se fez onipresente. Venceu nos nossos principais festivais: a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, a Ronda da Canção Nativa de Alegrete.

Participou do grupo Os Angueras e, mais tarde, criou o Inhanduy com Neto, Ernesto e Paulinho, seus filhos. Esse projeto deu a base para Os Fagundes, que culminou com cinco álbuns e especiais.

Se, na roda de chimarrão, havia o costume de contar mentiras e causos para atrair a atenção, ele silenciava os presentes com as suas verdades. Viveu sem temer as consequências, com uma coragem de, vendado, encilhar o cavalo.

Talvez a sua autenticidade tenha sido o segredo do seu sucesso. Ele tocava e cantava como se estivesse em casa. Nunca pisou de fato no palco, porque nunca saiu espiritualmente do seu lar. Derrubou as fronteiras entre a plateia e o artista. Não mudava de postura quando se apresentava. Continuava simples, espontâneo, acessível, brincalhão, acreditando que o rincão é um sentimento.

Só imagino o bochincho ao se reencontrar com seu irmão Nico (1934 - 2015), após uma década de saudade. Vão armar um galpão crioulo no céu e reeditar o dueto de Canto Alegretense, em uníssono para sempre.

"Ouve o canto gauchesco e brasileiro. Desta terra que eu amei desde guri. Flor de tuna, camoatim de mel campeiro

Pedra moura das quebradas do Inhanduí." 

CARPINEJAR 


04 de Agosto de 2026
NÍLSON SOUZA

PI do B

Estou pensando seriamente em fundar um partido político e já lanço aqui o convite para quem quiser aderir à nova agremiação. Não vamos cobrar contribuição partidária de ninguém, nem vamos meter a mão nesses fundos milionários de dinheiro público criados para beneficiar espertalhões de todos os matizes ideológicos. Nossa organização se chamará Partido dos Incrédulos do Brasil e seu único propósito será duvidar.

Duvidar saudavelmente, esclareço. Não seremos negacionistas, já tem muito disso por aí. Nossa missão consistirá em duvidar de tudo e de todos - mas somente até a comprovação do fato, da informação, da imagem ou do discurso questionados. Se for mentira, boca no trombone. Não lançaremos candidatos próprios nem vamos apoiar ninguém, mas talvez possamos impedir que alguns farsantes se elejam. Porém, quando depararmos com verdades inquestionáveis, seremos como São Tomé: depois do dedo na ferida, aceitação racional. Nosso lema, se me permitem uma sugestão, será Ceticismo Civilizado.

Por que duvidar? No âmbito da política, essa pergunta nem precisaria ser feita. Ocupantes do poder em todos os níveis da administração pública e desocupados que ambicionam o poder - com as exceções de sempre, é bom esclarecer - mostram todos os dias porque não merecem a nossa confiança. Basta acompanhar o noticiário produzido pelo jornalismo profissional e independente: é gastança desenfreada, desvio de verba para cá, penduricalho para lá, corrupção e fraudes de todos os calibres, apadrinhamentos, rachadinhas, empregos para parentes e amigos. Ou a atual propaganda eleitoral.

Com a popularização da inteligência artificial, duvidar de imagens e vídeos passa a ser um dever. Já tem gente falsificando até acontecimentos históricos, o que devolve atualidade à célebre frase de um ex-ministro da República: "No Brasil, até o passado é incerto". Não basta, portanto, desconfiar do presente ou das promessas para o futuro. Temos que ficar atentos, também, para identificar a reedição tendenciosa da nossa própria história.

Duvidemos, pois, caros futuros correligionários! Mas dúvida seguida de verificação: a quem interessa a informação ou a imagem? Quem é a fonte? Como foi feita? Qual o seu objetivo? _

NÍLSON SOUZA

 

04 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Ainda há tempo para o diálogo

É frustrante constatar que, até agora, não foi possível destravar o diálogo entre a chilena CMPC e o Ministério Público Federal (MPF) para solucionar o impasse em torno do licenciamento ambiental do investimento de R$ 27 bilhões que a empresa pretende fazer no Rio Grande do Sul. Diante da judicialização do caso, seria importante que as partes conversassem de boa-fé, em busca de um entendimento que destravasse o empreendimento. Ainda há tempo para uma conciliação.

A colunista Giane Guerra divulgou no fim de semana que uma tentativa de contato por parte da empresa para buscar um acordo fracassou, alegadamente porque o procurador federal que contesta o licenciamento, Ricardo Gralha Massia, não teria mostrado disposição para dialogar. O MPF contesta e diz que o agora ex-procurador-chefe do MPF-RS, Felipe Müller, foi procurado, mas não teria existido busca por contatar Massia. E sustenta que há espaço para discutir uma proposta apresentada pela CMPC. Diante desse compromisso, é preciso crer que, em breve, a transigência ganhará uma nova chance.

Como é de amplo conhecimento, não se trata de um projeto qualquer, mas do maior desembolso de recursos da história do Estado em um plano produtivo. A companhia chilena prevê uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro e um terminal portuário em Rio Grande, além da expansão da base florestal, em parceria com produtores rurais.

O ponto central é a discordância quanto à consulta às comunidades indígenas que vivem nas áreas impactadas pelo projeto. A CMPC afirma que cumpriu as exigências apresentadas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), mas o procurador entende que seria necessário ouvir um contingente maior de indígenas, além de quilombolas e pescadores. A empresa sustenta que essa possibilidade é inviável.

O processo de licenciamento continua na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), mas o órgão estadual aguarda uma posição formal da Funai, que em junho sinalizou não ter objeções ao rito adotado pela empresa. Mas é indispensável que a Funai se pronuncie de maneira clara e cabal. Aliás, a demora para essa manifestação definitiva é inexplicável. Os próprios líderes indígenas da região já disseram ser favoráveis ao licenciamento.

A ação civil pública na Justiça Federal prossegue, o que alimenta a insegurança jurídica, atrasa a licença ambiental prévia e eleva o risco de o projeto não ser viabilizado. Essa seria uma hipótese trágica para os gaúchos. Tanto pelas consequências diretas quanto pelo abalo na reputação do Estado, que precisa recuperar o dinamismo, mostrar-se atrativo a grandes investimentos e ser um lugar onde os jovens encontrem perspectivas de futuro profissional. Há poucos dias, novos dados econômicos demonstraram que o RS ocupou a lanterna do crescimento do PIB entre 2002 e 2023.

No início da década passada, a CMPC investiu R$ 5 bilhões em Guaíba e, em uma articulação com a seção gaúcha da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), fornecedores locais abocanharam R$ 2,1 bilhões em contratos. É um exemplo do efeito multiplicador benéfico que o novo projeto, muito mais ousado, pode trazer à economia do Estado. 

Aliados prejudicam Flávio ao ressuscitar temas como a covid

Fica difícil acreditar que a intenção do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) seja ajudar o candidato do seu partido à Presidência, Flávio Bolsonaro, quando grava um vídeo usando informações distorcidas sobre o conteúdo do diário de Anthony Fauci, responsável pela estratégia de enfrentamento à covid-19.

A quem interessa ressuscitar um tema que, fora da bolha, só traz desgaste para o bolsonarismo? Para se eleger presidente, Flávio precisa conquistar os votos do centro, que não será convencido de que Jair Bolsonaro estava certo quando receitava cloroquina, até porque não há confirmação científica de que funcione. Vacinas, sim, salvaram vidas.

Nikolas pode estar querendo apenas mobilizar sua base de seguidores, sabedor do efeito que seus vídeos provocam. O problema é que os convertidos não precisam tentar desmoralizar Fauci, o que parece ser o objetivo dos republicanos nos Estados Unidos.

Convém lembrar que à época da covid ele e o presidente Donald Trump viviam às turras, porque o epidemiologista defendia o isolamento social, o uso de máscaras e as vacinas.

Boa parte dos que estão cheios de certeza nas redes sociais sequer leram o diário de Fauci. Ontem, o site O Antagonista publicou uma reportagem do jornalista Rodolfo Borges com o título "Ninguém leu o diário de Fauci". No texto, Rodolfo conta o que o epidemiologista realmente disse - e não tem nada a ver com o que vem sendo disseminado nas redes numa corrente que lembra a antiga brincadeira do "telefone sem fio".

Opção pelo silêncio

Fauci não quis falar ao Senado americano pela convicção de que senadores ligados a Trump estão tentando pegá-lo numa armadilha. À época da pandemia, Trump pressionou Fauci para que desse aval ao uso da cloroquina, como forma de "dar esperança aos pacientes".

No diário, Fauci registra que há relatos de pessoas que teriam sido curadas, mas ressalva que são "estudos não controlados". Ou seja, estudos sem o rigor científico exigido nas pesquisas clínicas. _

TRE abre urna eletrônica para combater fake news

Para que não haja dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral inaugurou ontem a Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. Entre as atividades realizadas em todo o Brasil, está a abertura física de uma urna eletrônica, processo conduzido simultaneamente nos tribunais regionais eleitorais.

No TRE-RS, o ato foi conduzido pelo secretário de Tecnologia da Informação da Corte, Daniel Wobeto, acompanhado de Luís Fernando Schauren, assessor de orientação tecnológica, e Vanderlei Santos, assistente da administração de urnas. Uma urna foi desmontada enquanto os técnicos explicavam as dezenas de processos e mecanismos de criptografia e segurança do equipamento, tanto no sistema digital quanto no dispositivo físico, que garantem a lisura do processo e a auditabilidade.

- Não há dúvida que o processo é melhor com a urna eletrônica, porque temos certeza de que quem é eleito foi efetivamente votado. Urna é o tema com maior índice de desinformação porque as pessoas não compreendem como funciona a urna eletrônica - avaliou Wobeto.

O evento foi um dos primeiros que serão realizados até o pleito pelo TRE para reforçar a confiabilidade das urnas e do processo eleitoral. Os processos de verificação são abertos aos candidatos e partidos políticos - ontem, nenhum representante partidário compareceu. _

Maria do Rosário ganha ação contra blogueiro bolsonarista

O blogueiro Paulo Figueiredo foi condenado a remover trechos de uma live em que replica e repete ofensas feitas por Jair Bolsonaro à deputada Maria do Rosário (PT). A decisão, publicada no domingo pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS), determina multa de R$ 5 mil para cada dia de descumprimento da medida.

Em 21 de julho, o neto do ex- presidente João Figueiredo sustentou que a campanha de Flávio Bolsonaro não tem gerado repercussão orgânica nas redes sociais, a partir, principalmente, de memes de internet. Para dizer que a atual estratégia parece ensaiada, ele apresenta vídeos virais de Jair Bolsonaro e de Donald Trump. Um deles é o que Bolsonaro ofende Maria do Rosário no saguão da Câmara dos Deputados, em 2003. No vídeo, o blogueiro dá risada do momento e repete a frase usada pelo ex-presidente.

Na decisão, a desembargadora federal Vânia Hack de Almeida argumenta que a reprodução do vídeo na live não constitui "referência neutra" a episódio passado, mas "integra narrativa de estratégia de comunicação fundada em ataques pessoais a mulheres na política". Ela determinou que só o trecho em que a deputada é citada seja removido, permitindo que o restante do vídeo seja mantido no ar. _

Os primeiros a pedir registro na Corte eleitoral

Nem terminou o prazo para a realização de convenções e dois candidatos ao governo do Estado e quatro ao Senado já encaminharam o pedido de registro junto ao TRE-RS. São eles: a governador, Maranata (PSDB/Cidadania) e Priscila Voigt, da Unidade Popular (UP); ao Senado, Manuela D?Ávila e Paulo Pimenta, da aliança PDT/PSB/Avante/Federação PT- PCdoB/Federação PSOL-Rede, e Luciano do MLB e Tânia Schaeffer (UP).

Seus pedidos de registro já constavam na plataforma DivulgaCand, que concentra as informações sobre dados biográficos, nome completo e nome de urna, número, bens, plano de governo e previsão de gastos na campanha. Embora o status apareça como "aguardando julgamento", esses já podem ser chamados de "candidatos".

À Justiça Eleitoral, Maranata informou que seu patrimônio soma R$ 249.805,00. Priscila, somente R$ 1 mil (dinheiro em espécie).

Pimenta declarou patrimônio de R$ 1.871.110,97 e Manuela de R$ 1.376.384,43. Tânia informou que tem apenas um apartamento no valor de R$ 129.917,48 e Luciano apenas R$ 3.300,00 (dinheiro em espécie). _

O que leva um candidato a cargo eletivo a guardar dinheiro em espécie, em vez de manter no banco, rendendo juro? Será falta de confiança no sistema financeiro ou dificuldade para explicar a origem?

Mais um prefeito do PP declara voto à chapa de Gabriel e Polo

Eleito pelo PP, o prefeito de Espumoso, Gerson Machado, é mais um dissidente no partido em relação à eleição para governador. Em manifestação gravada, Machado declarou apoio à candidatura de Gabriel Souza (MDB) ao governo do Estado, apesar de o PP estar coligado com Luciano Zucco (PL).

Gabriel e Ernani Polo contabilizam cerca de duas dezenas de prefeitos do PP que já prometeram votar na dupla - uns em declarações públicas, outros em conversas privadas -, mas 92% deles assinaram um documento de compromisso com a candidatura de Luciano Zucco (PL) e sua vice, Silvana Covatti (PP). 

POLÍTICA E PODER 

 
04 de Agosto de 2026
REPORTAGEM - Anderson Aires

REPORTAGEM

Em meio ao avanço dos automóveis eletrificados, veículos antigos resistem no Rio Grande do Sul. Fusca e Opala lideram o interesse dos apaixonados, que preservam histórias de família, amizades e tradições ligadas ao automobilismo

Um passeio pelo universo possante dos carros clássicos

O estacionamento de um shop- ping da zona norte de Porto Alegre, no dia a dia ocupado por carros modernos, aos poucos, parece voltar no tempo. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente e o silêncio noturno é quebrado por roncos graves de motores.

Um Fusca da década de 1970 cruza a cancela. O som que sai do escapamento chega antes de o veículo aparecer. A cena se repete, com outros carros. Em poucas horas, o local está cheio de veículos antigos, perfilados.

Trata-se de um dos tantos encontros de carros clássicos espalhados pelo Estado. Nesses ambientes, entusiastas e apaixonados por essas máquinas trocam ideias, experiências e fazem até negócios. Além desse tipo de reunião, o amor por carburadores, cheiro de combustível e escapamento trepidando a cada pé mais pesado no acelerador invade garagens, ruas e outros espaços.

- A contaminação começou quando eu ainda era criança. O primeiro carro que eu dirigi, com oito anos de idade, foi um Dodge Charger RT, que era do meu tio. Na adolescência, comecei a correr arrancada no Interior com o Opala dos outros. A ferrugem entrou na veia e eu disse: "Se Deus quiser, vou comprar um Opala". Em 2008, graças a Deus, esse Opala aqui se ajeitou num negócio e deu para eu comprar - resume Vilson Cleber Ferreira dos Santos, 52 anos.

Santos é um dos tantos entusiastas de carros clássicos no Estado e guarda na garagem um dos modelos mais desejados pelos gaúchos. O Chevrolet Opala foi o segundo carro clássico mais vendido no RS em 2026, até abril, segundo pesquisa da OLX. O primeiro lugar é do Volkswagen Fusca. Da terceira à quinta posição aparecem Volkswagen Gol, Chevrolet Chevette e Ford F-75, mostram dados da plataforma. A empresa considera veículos clássicos aqueles com ano de fabricação até 1990.

Até abril deste ano, o Rio Grande do Sul contava com 1,1 milhão de veículos com ano de fabricação até 1990 em circulação, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS). Esse número representa cerca de 14% do total da frota do Estado (8,1 milhões). O levantamento do Detran-RS abrange todos os tipos de veículos, incluindo motos e caminhões, por exemplo, mas os carros são a maior fatia.

Com o avanço dos carros com injeção eletrônica, motores flex e maior tecnologia embarcada, além da entrada dos eletrificados, a tendência natural é que os veículos mais antigos comecem a cair na obsolescência. No entanto, um misto de saudosismo e memória afetiva dá a alguns modelos o status de clássico e mantém o espaço deles entre colecionadores e admiradores. _

Na Quinta Noturna, é o som dos motores que domina a cena

O encontro de veículos clássicos Quinta Noturna é organizado pelo Auto Clássico Clube, em Porto Alegre, há cerca de 10 anos. O evento ocorre todas as segundas quintas-feiras do mês, no Boulevard Assis Brasil, na Zona Norte. O clube também realiza o passeio On The Road, que percorre estradas gaúchas.

Um dos fundadores do grupo, o fotógrafo Marco Escada afirma que o encontro nasceu de uma tentativa de negócio, baseada na reunião de carros clássicos para produzir fotos por meio da empresa dele, a 1ponto8 Fotografia Automotiva. O negócio com foco exclusivamente na produção de imagens dos possantes acabou evoluindo para amizades e laços que seguem crescendo. Hoje, a Quinta Noturna reúne, em média, 70 veículos a cada edição, chegando até 300 em datas festivas, e o 1ponto8 virou um canal automotivo no YouTube. Durante os eventos, o Auto Clássico Clube também estimula ações sociais.

Escada avalia que a paixão por carros antigos, que demanda dinheiro, tempo e disposição dos donos, está muito ligada à nostalgia:

- A gente viu esses carros serem lançados e, na época, eram considerados caros e sofisticados. Hoje, são ultrapassados do ponto de vista tecnológico e, por isso, algumas vezes, acessíveis. Mas continuam carregando aquele saudosismo, aquele glamour, aquela aura de objeto desejado.

Além da nostalgia por uma época em que os carros eram mais mecânicos do que eletrônicos, o apego aos clássicos também passa por questões familiares. As lembranças dos carros dos avôs, pais e tios, por exemplo, ainda dominam parte dos pensamentos desse público, que tenta resgatar essas vivências na aquisição e manutenção desses modelos.

- A gente vê muito aqui no clube. O cara chega com um Vectra e perguntamos: "Mas por que tu comprou um Vectra?". Ele responde que comprou porque o pai dele teve um - destaca Evandro Scholles, vice-presidente do Veteran Car Club, de Novo Hamburgo.

O clube liderado por Scholles é responsável pela Expoclassic, um dos maiores eventos de carros clássicos do Estado, realizado nos pavilhões da Fenac. _

Uma paixão que ultrapassa gerações

Como destacou no começo da reportagem, Vilson dos Santos, 52 anos, alimenta a paixão por carros clássicos desde a época em que esses veículos ainda nem carregavam a alcunha.

Em 2008, 26 anos após guiar pela primeira vez um carro do estilo que se tornaria seu favorito, viu a chance de ter o próprio. Ao vender uma casa, surgiu a oportunidade de receber um Chevrolet Opala Comodoro SL/E 1988 como parte do pagamento. Conversou com a esposa e decidiu ficar com o carro, inicialmente alegando que seria "para vender", mas acabou mantendo-o para si.

Nos últimos cinco anos, dedicou-se à restauração do veículo, batizado de Mafioso em referência à pintura preta e ao visual imponente. Hoje, calcula que gastou perto dos R$ 50 mil. Brinca que parou de contar nos R$ 36 mil.

- No meu caso, particularmente, o que explica é a nostalgia pelos carros da década de 1970, 1980. Claro, eu sou apaixonado por tudo que é carro antigo, mas a paixão por Opalas vem da adolescência. É um custo alto manter. Não é fácil, mas, como muita gente gosta de futebol, de pescaria, a nossa paixão é carro antigo - argumenta Santos, que hoje também tem um Vectra 1996/1997, usado no dia a dia, e um Fusca, salvo do desmanche.

Ele também passou, como gosta de dizer, o "gosto pela ferrugem" para os filhos. O mais velho, de 26 anos, tem um Audi Turbo, ano 2001. A filha, Andriellen, de 23, tem um Fusca 1980, apelidado de Esmeralda.

Fuscas que representam herança e preservação do legado familiar também são encontrados com frequência em encontros como o Quinta Noturna. Orgulhosos, os donos dos veículos se emocionam ao contar como mantêm a história dos antepassados e pretendem passar adiante essa paixão. É o caso do empresário Marcelo Machado, 51 anos, atual dono do Fusca 1974 que era de seu avô.

Depois de conseguir passar o carro para seu nome, após abrir o inventário dos avós, ele planeja iniciar um projeto para ir até Ushuaia, em fevereiro de 2028. E a aventura não para por aí.

- Esse Fusca era do meu avô, ele tirou zero na revenda e ficou com ele por 20 e poucos anos. Passou para o meu tio, que, em 2010, passou para mim. Pulou a geração do meu filho, que não gosta de carro antigo, e a ideia agora é passar para a quinta geração: meu neto, que mora em Nova York - conta Machado. _

"Cada carro feito é um filho que o cara faz"

Alguns felizardos conseguem unir a paixão pelos carros clássicos com a profissão. Quando criança, o empresário e mecânico Atila Israel Machado Fontoura, 54 anos, se escorava no portão de casa e admirava os carros que passavam, principalmente os Fuscas. Na adolescência, viu a oportunidade de se aproximar dos veículos ao ir trabalhar na oficina do tio, especializada na manutenção de Volkswagen e DKW. Não teve jeito, a paixão, principalmente pelo Fusca, cresceu ainda mais

Anos depois, após atuar em outras áreas do setor automotivo, conseguiu realizar o sonho de fundar a sua própria oficina, especializada em veículos Volkswagen refrigerados a ar - categoria que inclui, além do Fusca, modelos como Kombi, Variant e Brasília. Fundada há oito anos, a Air Blower Garage, na zona norte de Porto Alegre, é referência na manutenção desses veículos.

- É fazer o sonho virar realidade. Meu sócio hoje é meu filho mais velho, que se criou comigo dentro do Fusca. Eu criei o meu trabalho, criei um caminho. Isso para mim é motivo de muito orgulho. Cada carro que a gente faz é um filho que o cara faz. Hoje, não somos só uma oficina, somos uma grande família. O pessoal entra sorrindo, toma um café, porque aquilo ali mexe com eles - explica.

Duas gerações

Sócio do pai, Atila Israel da Rosa Fontoura, 35 anos, o Atilinha, também virou um apaixonado por Fuscas:

- Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, andava de Fusca com meu pai. Com oito anos, ele me deixou desmontar o primeiro motor. Com 12 anos, eu ajudei a montar. Então, ali já deu aquela coisa no coração, de gostar do motor. E trabalhar com o meu pai é um privilégio.

Na oficina dos Fontoura, em meio a Fuscas, Brasílias, Kombis e Gols BX, o barulho das ferramentas é interrompido, vez ou outra, pelo ronco grave e cadenciado que parece reverberar pela oficina como pequenas batidas metálicas ritmadas. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente, completando um cenário que remete a décadas passadas, quando os Fuscas dominavam as ruas, eram táxis, viaturas e transportavam famílias e suas histórias. _

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

03 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

O vento aqui é uma pessoa

Ficamos preocupados se a janela está aberta, se a porta está encostada, se há algum parente na rua no momento do torvelinho.

Decidimos se vamos caminhar ou pedalar de acordo com sua intensidade. Palpitamos com naturalidade: "O vento virou", "o vento não veio", "o vento não dá trégua". Chegamos ao preciosismo de medir sua velocidade como se fosse um carro na Freeway, pego por um radar.

Se, no restante do país, a meteorologia se concentra em saber se o tempo será aberto ou fechado, seco ou chuvoso, azul ou violáceo com pancadas de água, no Sul demonstramos mais interesse em opinar e perguntar a respeito da força da corrente de ar.

Somos filhos do vento. Na tragédia e na graça. Há a mania de identificar quem está entre nós: o Minuano, o Nordestão, o Vento Sul, o Vento Norte. Cléo Kuhn, nosso galo da temperatura, explica a genealogia de cada um:

? O Minuano é conhecido como o vento da limpeza. Quando surge, parece que varre o excesso de umidade. É proveniente do Centro da Argentina, que tem estiagem no inverno. Costuma aumentar rapidamente por aqui, com um frio seco que permanece de 3 a 5 dias.

? O Nordestão é o vento quente, chato, insistente, famoso no Litoral. Recebe a culpa por nos deixar inquietos, irritados ou com enxaqueca. Ocorre a formação de nuvens entre o mar e a serra, que depois de três dias se converte em chuva.

? O Vento Sul, o Pampeano, traz a umidade da bacia do Prata para boa parte do RS, com a proliferação de nuvens acumuladas de 4 a 5 dias. É o aviso da hora de recolher. ? O Vento Norte, entre o Planalto, o Centro e a Campanha, é sinal de estufa, de abafamento, de excesso de umidade, da iminência de borrascas duradouras. Põe a todos em alerta.

Talvez o hábito de vasculhar os ventos, muito presente na vida urbana, tenha começado nas estâncias do Pampa, já que a sua aparição determinava o trabalho no campo e a lida com o rebanho.

Até o nosso figurino tradicional - o poncho, o lenço e o chapéu - é uma armadura contra as frentes frias, contra as imprevisíveis rajadas que balançam as figueiras e desenham ondas na grama do descampado.

Não é coincidência que o nosso grande clássico seja O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O vento, no romance, indica o nosso lugar de origem e também expressa a resiliência e a continuidade da luta, mesmo após o declínio da família Terra-Cambará. Erico usou os elementos da natureza para descrever a nossa geografia, tanto física quanto emocional e psicológica.

Na própria trama, o comentário de Ana Terra se eternizou: "Noite de vento, noite dos mortos". Nas superstições, o vento ruidoso batia nas frestas das casas de madeira e sussurrava o nome dos que iam morrer ou dos antepassados.

Realmente, o nosso vento é uma pessoa. Chora, geme, ri, grita, derruba, levanta, bagunça os papéis, embaralha as roupas no varal. No imaginário dos antigos tropeiros, quando se agitava o capim das coxilhas durante a noite, dizia-se que era o Negrinho do Pastoreio cruzando o campo a galope, conduzindo a sua tropilha invisível.

Na nossa galeria histórica, existe uma cena de cinema: na Revolução Farroupilha, Giuseppe Garibaldi liderou a épica travessia dos lanchões Seival e Farroupilha por terra. Para burlar o bloqueio naval imperial na Lagoa dos Patos, os barcos foram colocados sobre imensas carretas com rodas de 3,5 m, e puxados por cem juntas de bois por cerca de 80 km.

Somos como navegadores no seco. Seguimos por onde o vento sopra. 

CARPINEJAR

03 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Nós e as máquinas

Parece que não se fala de outra coisa - mas o que se sabe, com certeza lavrada em cartório, não recheia uma empada. IA: duas letrinhas cercadas de dúvidas por todos os lados. Para que mares nunca dantes navegados estamos nos dirigindo? Vai ter lugar para todos nesse transatlântico mecatrônico ou vamos precisar disputar a tapa uma vaguinha nos botes infláveis da terceira classe?

Os entusiastas (ou "boomers") estão convencidos de que o futuro será tão espetacular que gostariam de estar nascendo agora, em agosto de 2026, para aproveitar todas as delícias desse Shangri-la sem doenças, sem miséria e sem trabalho chato que a nova revolução tecnológica promete. Já os fatalistas ("doomers") chegam a duvidar que as crianças de hoje vão ter tempo de chegar à idade adulta antes do cataclismo final.

Se você está com a sensação de que a tecnologia anda mais rápido do que a sua capacidade de assimilar novas angústias, bem-vindo ao clube. A boa notícia é que o gênero "IA para leigos" vai de vento em popa. Deixo aqui duas sugestões para quem quer mergulhar no assunto da maneira menos árida possível.

A primeira é o documentário The AI Doc: Or how I became an apocaloptimist, de Charlie Tyrell e Daniel Roher, que estreou este ano no Sundance. O mérito do filme é colocar um sujeito que entende pouco ou nada de tecnologia para conversar com "boomers", como Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic), e "doomers", como o historiador Yuval Harari e Tristan Harris (ex-Google), entre outros, fazendo as mesmas perguntas tolas e urgentes que a gente faria, se pudesse.

A segunda sugestão é o livro A máquina e nós (Todavia), de Tatiana Roque. Professora titular do Instituto de Matemática da UFRJ, a autora começa explicando como a IA funciona e a situa na grande história da relação dos homens com as máquinas. O livro prossegue discutindo temas como o impacto da IA no ambiente e no mercado de trabalho e os desafios que o Brasil vai ter que enfrentar para não comer mosca. Tudo isso sem perder a graça e o estilo, com referências que vão de Machado de Assis e Clarice Lispector a Mad Men e Scooby-Doo.

Sobre a nossa inteligência em relação à das máquinas, olha o que ela nos diz: "Todas as palavras podem ser aprendidas pelas máquinas um dia, com treinamento adequado, desde que registradas, transformadas em números e incorporadas num espaço matemático. O que o aprendizado artificial não capta é a infinita capacidade humana de seguir inventando coisas novas, cujos nomes e significados remetem a experiências singulares".

Para os "apocaloptimistas", o jogo ainda não está perdido. _

CLÁUDIA LAITANO

03 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Ampliação de acordos comerciais é salutar

Entrou em vigor no sábado o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e Singapura. Apesar de o país ter uma população pequena em números absolutos, de cerca de 6 milhões de habitantes, é uma cidade-Estado densamente povoada e um importante centro financeiro, logístico e industrial do Sudeste Asiático, uma das regiões de crescimento mais acelerado do mundo. Em meio à onda protecionista global puxada pelos EUA, a implementação de um novo tratado que vai na direção contrária do isolacionismo merece ser saudada. Mostra que permanece o interesse entre nações e blocos por maior integração econômica.

O Brasil, um dos principais alvos da investida tarifária da Casa Branca, tem especial interesse em ampliar mercados. No ano passado, exportou US$ 7,4 bilhões para Singapura. Óleos combustíveis, máquinas, equipamentos e carnes são os principais itens embarcados. No caso do Rio Grande do Sul, foram US$ 349 milhões, montante que tende a ser incrementado com a facilitação do comércio não só de bens, mas de serviços também.

É salutar que o Mercosul amplie parcerias. Em setembro do ano passado, começou a valer o acordo de livre-comércio com a Efta, associação formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Em maio, mesmo que de forma precária, foi a vez de dar a largada ao tratado com a União Europeia (UE), após 25 anos de negociações. Assim, em menos de um ano, o percentual da corrente de comércio do Brasil sob tarifas reduzidas passou de 12% para 31%, conforme o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

São ainda promissoras as sinalizações de novas negociações, em diversos estágios. Em junho, foi anunciado o início das tratativas para um acordo de parceria econômica entre o bloco e o Japão. Na semana passada, durante visita ao Brasil, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, tratou com o governo federal da aceleração das conversas para um tratado com o Mercosul. Há a mesma intenção com a China, reforçada em ligação recente entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o homólogo chinês, Xi Jinping. Faz sentido o olhar especial para a Ásia, continente que mais cresce economicamente, tem a maior população e quase metade do PIB global. Há conversas em curso com outros países, como os Emirados Árabes Unidos e o Canadá.

Ao Brasil e ao Mercosul convém ser pragmáticos e manter diálogos nesse sentido com qualquer nação ou bloco que tenha o mesmo objetivo. Isso não significa abrir mão de continuar a tentar que os EUA aliviem o tarifaço contra o Brasil, que carece de lógica econômica. É preciso seguir na mesa de negociações.

Acordos do gênero, por serem vias de mão dupla, incluem adquirir mais bens e serviços do Exterior também. A maior abertura é benéfica ainda por forçar a busca pela competitividade no Brasil. Conforme o Banco Mundial, enquanto na média global a corrente comercial é equivalente a 56% do PIB, no Brasil a soma das importações e das exportações corresponde a somente 35,5% da geração de riquezas, uma das menores. Mesmo mantendo cuidado com setores sensíveis, como faz qualquer nação, o Brasil tarda em deixar de ser uma das economias mais fechadas do mundo. 

A busca por cargos mais altos redesenha o mapa político estadual. Siglas como MDB, PT, PSD, PP, Novo e Republicanos precisarão substituir políticos que estavam entre seus principais puxadores de votos. O desafio é evitar perdas de representação

Dez deputados estaduais do RS abrem espaço para novos nomes em 2026

O Rio Grande do Sul terá ao menos 10 novos deputados estaduais em 2027. A renovação se dará porque parlamentares de seis partidos não irão concorrer à reeleição, em busca de cargos mais altos em outubro.

Entre eles estão o campeão de votos para a Assembleia Legislativa em 2022, Gustavo Victorino (Republicanos), além dos mais votados de algumas das maiores bancadas, como Silvana Covatti (PP), Valdeci de Oliveira (PT) e Juvir Costella (MDB).

Completam o grupo Ernani Polo e Frederico Antunes, ambos do PSD, Felipe Camozzato (Novo), Laura Sito (PT), bem como Patrícia Alba e Vilmar Zanchin, do MDB. Juntos, estes 10 deputados obtiveram 602.488 votos em 2022.

Sete disputam uma cadeira na Câmara dos Deputados (veja no quadro). Silvana e Polo concorrem a vice-governador nas chapas de Luciano Zucco (PL) e Gabriel Souza (MDB), respectivamente. Já Antunes, o mais experiente de todos, com sete mandatos sucessivos na Assembleia, é candidato ao Senado.

O MDB é o partido com mais postulantes a outros cargos. Para suprir as vagas de Costella, Patrícia e Zanchin, equivalente à metade da bancada, o partido aposta no ex-deputado Marco Alba, na presidente do MDB Mulher, Cris Lohmann, na ex- prefeita de Dois Irmãos Tânia Terezinha da Silva e nos suplentes que assumiram o mandato nesta legislatura: Carlos Búrigo, Rafael Braga e Tiago Simon.

No PSD, o desafio é manter as oito cadeiras. A legenda elegeu apenas um deputado em 2022, mas foi a que mais se beneficiou na janela partidária deste ano, recebendo quatro deputados do PSDB, dois do PP, um do União Brasil e um do PSB. Sem Polo e Antunes na próxima legislatura, confia no potencial do ex-prefeito de Santa Maria Jorge Pozzobom, e das ex-prefeitas de Pelotas Paula Mascarenhas, e de Santana do Livramento Ana Tarouco, além do ex-suplente Dimas Costa.

Compensar ausência

Maior bancada da Assembleia, com 11 deputados, o PT enfrenta uma situação inédita. Pela primeira vez desde sua fundação, não terá candidato ao governo do Estado. Para compensar a ausência do 13 na urna, o partido vai concentrar forças na campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os nomes considerados mais competitivos, estão o ex-prefeito de Taquari Maneco Hassem e os vereadores Alexandre Bublitz e Natasha Ferreira, de Porto Alegre, e Lelinho Lopes, de Bagé.

Novos nomes

Com três desfalques em relação aos eleitos em 2022 - Silvana, que concorre à majoritária, e Ernani e Antunes, que migraram para o PSD -, o PP trabalha para manter as sete cadeiras. No comando do partido, a família Covatti lança dois novos nomes: Sandro Covatti, irmão de Silvana, e Nicole Weber, esposa do presidente estadual, Covatti Filho. Os ex-prefeitos de Dom Pedrito (Mário Augusto Gonçalves) e Uruguaiana (Ronnie Mello), além da influencer rural Ronize Damassini, também são apostas.

Com seis deputados, o Republicanos tenta manter os 112 mil votos que fizeram de Victorino o mais votado em 2022. A expectativa é que grande parte desse espólio fique com os candidatos à reeleição, mas a legenda também espera eleger o ex-deputado federal João Derly, além dos políticos pelotenses Fernando Estima e Adriana Rodrigues.

No PL, a candidatura de Zucco ao Piratini é considerada um trunfo para ampliar a atual bancada de seis parlamentares. Nomes como o da vereadora Comandante Nádia, do ex-prefeito de Farroupilha Fabiano Feltrin, da advogada Ali Klemt e da presidente do PL Mulher, Adriana Cherini, são tidos como os mais fortes.

A situação é semelhante no PDT, cuja candidatura de Juliana Brizola ao governo espera alavancar a representação na Assembleia. Os ex-suplentes Airton Artus e Tiago Cadó são prioridade.

Entre as bancadas com dois deputados, o PSOL aposta em três vereadoras: Karen Santos, segunda mais votada na Capital; Fernanda Miranda, de Pelotas, e Alice Carvalho, de Santa Maria, campeãs de votos em 2024. Já o Podemos tem confiança na eleição do radialista Gugu Streit, do vereador Giovanni Byl, de Porto Alegre, e da empresária Deise Maranata, mulher do candidato do PSDB ao governo, Marcelo Maranata.

Menores bancadas

Nos partidos com apenas um parlamentar, o PSDB trabalha pelo presidente estadual da sigla, o vereador Moisés Barboza. O Novo aposta no vereador Ramiro Rosário e no ex-deputado Giuseppe Riesgo, e o União Brasil crê na eleição do vereador Eric Douglas, mais votado na história de Canoas, e da ex-suplente Bárbara Penna. No PSB, os principais nomes são João Pedro Grill, de Camaquã, e o vereador Cesinha Brisolara, de Pelotas. 

Entenda o cenário

Quem não concorre à reeleição para a ALRS

Disputam vaga na Câmara dos Deputados

Juvir Costella (MDB) 66.971 votos em 2022

Patrícia Alba (MDB) 44.871 votos em 2022

Vilmar Zanchin (MDB) 44.367 votos em 2022

Felipe Camozzato (Novo) 39.517 votos em 2022

Laura Sito (PT) 36.705 votos em 2022

Valdeci Oliveira (PT) 70.580 votos em 2022

Gustavo Victorino (Republicanos) 112.920 votos em 2022

Disputam vaga no Senado

Frederico Antunes (PSD) 36.325 votos em 2022

Concorrem como vice-governador(a)

Silvana Covatti (PP) 82.717 votos em 2022

Ernani Polo (PSD) 67.515 votos em 2022

Quem concorre à reeleição

Beto Fantinel (MDB)

Edivilson Brum (MDB)

Luciano Silveira (MDB)

Eduardo Loureiro (PDT)

Gerson Burmann (PDT)

Gilmar Sossella (PDT)

Luiz Marenco (PDT)

Thiago Duarte (PDT)

Adriana Lara (PL)

Claudio Branchieri (PL)

Cláudio Tatsch (PL)

Kelly Moraes (PL)

Paparico Bacchi (PL)

Kaká D?Ávila (Podemos)

Ronaldo Santini (Podemos)

Adolfo Brito (PP)

Gaúcho da Geral (PP)

Guilherme Pasin (PP)

Joel Wilhelm (PP)

Marcus Vinícius (PP)

Rodrigo Lorenzoni (PP)

Aloísio Classmann (PSD)

Elton Weber (PSD)

Nadine Anflor (PSD)

Neri, O Carteiro (PSD)

Pedro Pereira (PSD)

Valdir Bonatto (PSD)

Bruna Rodrigues (PSB)

Luciana Genro (PSOL)

Matheus Gomes (PSOL)

Adão Pretto Filho (PT)

Halley Lino (PT)

Jeferson Fernandes (PT)

Leonel Radde (PT)

Miguel Rossetto (PT)

Pepe Vargas (PT)

Sofia Cavedon (PT)

Stela Farias (PT)

Zé Nunes (PT)

Capitão Martim (Republicanos)

Eliana Bayer (Republicanos)

Elizandro Sabino (Republicanos)

Rodrigo Zucco (Republicanos)

Sérgio Peres (Republicanos)

Dirceu Franciscon (União Brasil) 


Alerta para a resposta ao HIV

Embora as novas infecções por HIV e as mortes relacionadas à AIDS tenham atingido os menores níveis dos últimos 30 anos no mundo, a resposta global à epidemia está fragilizada e corre o risco de retroceder. O alerta está no relatório anual divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids).

O documento aponta que, apesar da tendência de queda, o cenário não é homogêneo entre as diferentes regiões do mundo. Segundo o oficial de Igualdade e Direitos do Unaids Brasil, Gustavo Passos, outro ponto de atenção é a desaceleração do progresso rumo às metas globais de enfrentamento ao HIV - a estratégia do Unaids tem como objetivo acabar com a epidemia de AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, com foco na ampliação do diagnóstico, do tratamento, da supressão viral e na redução das desigualdades.

- Se você olhar os gráficos, você percebe que, de fato, está caindo, mas a queda não está chegando próximo à meta que gostaríamos. Então, pode ser que alcancemos essa meta, mas vai demorar mais. E, nesse meio tempo, novas infecções por HIV serão registradas e casos de mortalidade relacionados à AIDS também.

Outro ponto de atenção é a redução do financiamento internacional e os cortes em programas de prevenção e serviços. Embora alguns países consigam sustentar seus programas com recursos próprios, outros dependem de organismos externos.

Brasil combina avanços e desafios

Apesar de estar entre os países que registraram crescimento de novas infecções, o Brasil é apontado como uma referência em diversos aspectos da resposta ao HIV. O SUS financia integralmente ações de prevenção, diagnóstico e tratamento.

- O Brasil alcançou duas das metas: a de diagnóstico e a de supressão viral. O tratamento ainda é um desafio, porque fala muito sobre a vinculação dessas pessoas ao serviço. Essa parte é fortemente atravessada por questões de estigma e discriminação.

O relatório também mostra avanços. O Brasil registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram a profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV pelo menos uma vez no último ano. O medicamento é distribuído pelo SUS, atuando na prevenção. Passos destaca que o país já ultrapassou um dos indicadores considerados favoráveis para reduzir a transmissão do vírus. _

Monumento de líder farroupilha será restaurado

O Monumento Bento Gonçalves, obra do escultor Antonio Caringi localizada entre as avenidas João Pessoa e Azenha, em Porto Alegre, será revitalizado. O restauro será de responsabilidade do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do RS (Sinduscon-RS), da Associação Sul-Riograndense da Construção Civil, da Secretaria da Cultura do RS e da prefeitura de Porto Alegre.

A iniciativa integra o Projeto Construção Cultural - Resgate do Patrimônio Histórico. O lançamento oficial do projeto ocorre hoje no Paço Municipal. _

Entrevista - Marcio Pimenta - 
Explorador

"Darwin hoje ficaria maravilhado com as descobertas"

Depois de fotografar a Patagônia, em um trabalho que percorreu a rota feita por Charles Darwin, entre 1831 e 1836, o explorador Marcio Pimenta lançou o livro Encontrando Darwin - Uma expedição pelos confins do mundo (Solisluna). A obra trata da viagem, feita em 2023 em uma expedição para a National Geographic Society.

Por que decidiu escrever este livro agora, depois da série de fotografias?

Percebi que as fotografias não eram suficientes para narrar a história. A foto tem uma limitação na contação de histórias, e somente a escrita poderia se sobrepor. O que me encorajou foi que, em maio de 2025, perdi meu pai. Ele dizia que eu escrevia melhor do que fotografava. Eu me senti na obrigação de escrevê-lo.

No início do projeto não era uma ideia?

Não. Fiz as anotações de viagem, como estou fazendo aqui, na Patagônia. Reuni todas essas notas para, finalmente, desenvolver o livro. Também precisei de um período de amadurecimento em relação ao que eu, de fato, tinha vivido na viagem.

Por que a Patagônia e a história do Darwin na região?

Sempre gostei muito de ler sobre os exploradores, e, no Brasil, sempre existiu uma carência muito grande de livros desse gênero, com narrativas de viagens. Durante a pandemia, fui buscando o que existia, e encontrei os diários de Darwin. Comecei a ler de forma despretensiosa e me dei conta de que grande parte de sua volta ao mundo, de cinco anos, ele passou na Patagônia. Escrevi para o maior biógrafo de Darwin, e ele me disse que, sem dúvidas, as maiores descobertas de Darwin haviam sido lá. Ela foi a escola de Darwin.

Como foi planejar a viagem? Era possível conectar os diários com o roteiro atual? Dava para visitar todos os locais. Eu fui colocando no Google Maps e destacando os pontos principais da narrativa. Percebi que todos eram visitáveis, fui percorrendo e percebendo que, entre um ponto e outro, existiam histórias, inclusive que Darwin adoraria ter conhecido, e que não teve oportunidade.

Por exemplo?

O dinossauro de Trelew (Patagotitan mayorum), o maior dinossauro já descoberto na Terra. Atualmente, os maiores dinossauros descobertos estão no RS e na Patagônia. Nem passava pela cabeça dele que existiam esses dinossauros. O Mylodon darwinii, em Punta Alta, a sudeste de Buenos Aires, foi a maior descoberta do Darwin, porque esse fóssil tinha 11 mil anos. E a Igreja dizia que a Terra tinha sido criada há 6 mil anos. Foi o primeiro choque dele.

Você dá um upgrade a Darwin, apontando coisas que ele não descobriu na época e que hoje a ciência permitiu que conhecêssemos. Darwin hoje ficaria maravilhado com as descobertas, que seguimos em frente. Ele abriu os caminhos, e, hoje, o que fazemos não é nada mais do que seguir os caminhos que ele trilhou.

No livro, você adota um tom contemplativo, de calma e reflexão. Fazer essa expedição exige reduzir a marcha? O olhar do explorador precisa de calma e, principalmente, de tempo, senão ele se torna um turista. Essa é a diferença entre o explorador e o turista. Um turista passa pelo caminho. No caso do explorador, o caminho passa por ele.

Quais os aprendizados ao fechar um ciclo de cinco anos estudando a Patagônia?

É sobre a nossa relação com o tempo e sobre como nos desenvolvemos como sociedade. Conheci os grupos étnicos da Patagônia, que tem todos os direitos garantidos, mas também tenho visto muito autoritarismo, que não provoca um diálogo. Hoje, temos criado barreiras. Graças ao tempo que Darwin viveu, ele teve mais tempo para desenvolver suas ideias. Ele leva 20 anos para escrever a teoria. Para isso, teve de superar diversos preconceitos que ele próprio tinha. O maior aprendizado é que só evoluímos com o benefício da dúvida, do tempo, ao permitir às pessoas que alcancem sua própria evolução no tempo de que elas precisam. _

INFORME ESPECIAL 

sábado, 1 de agosto de 2026

01 de Agosto de 2026
DRAUZIO VARELLA - Médico, cientista e escritor

A síndrome do coração partido

Existente desde a Grécia Antiga, metáfora literária só encontrou em 1990 amparo na fisiologia humana

Conheci dona Cândida muitos anos atrás. Era a matriarca de uma família com oito filhos. O marido, coronel nordestino à moda antiga, acostumado a dar ordens ríspidas aos empregados da fazenda, ficava na miúda nas querelas com esposa.

A dedicação da mãe aos filhos era a razão de seu viver. Ai de quem os tratasse mal, chegou a ir às vias de fato com uma professora que ousou dar uma reguada na mão do mais velho. Quando todos cresceram, ela não ia para a cama nem deixava os empregados jantar enquanto o último não voltasse para casa.

Embora jurasse amar todos com a mesma intensidade, seu xodó por Francisquinho, um dos mais novos, era indisfarçável. Quando ele entrou na faculdade de Medicina, na capital, então, a dona Cândida não coube em si de tanto orgulho. Para provocá-la, uma das filhas dizia que se o irmão se afogasse no açude, a mãe gritaria: "Socorro! Meu filho que é quase médico está se afogando".

Quando o rapaz cursava o quarto ano, a mãe recebeu um telefonema, da faculdade. Em uma briga de trânsito, Francisquinho fora baleado.

O comércio da cidadezinha encerrou as portas para que todos acompanhassem o féretro. Eram tantas as flores que foi preciso uma caminhonete para acomodá-las.

Dona Cândida guardou luto em silêncio sepulcral, até a missa de sétimo dia. Sentada no banco em frente ao altar, queixou-se de tontura. Levada às pressas, faleceu no caminho do hospital. Na cidade, não houve quem não atribuísse o desfecho à perda do filho.

Histórias de alguém que caiu morto ao receber uma notícia terrível como essa povoam a literatura e o teatro desde os gregos.

O que talvez você não saiba é que somente em 1990 essa metáfora literária encontrou amparo na fisiologia humana. Aconteceu quando o médico japonês Hikaru Sato descreveu o quadro que ficaria conhecido como "síndrome do coração partido".

Trata-se de uma miocardiopatia induzida pelo estresse intenso, também chamada de síndrome de Takotsubo, nome dado pela semelhança entre o formato que o ventrículo esquerdo adquire na sístole, e um takotsubo, armadilha que os pescadores japoneses usam para capturar polvos.

Mais frequente em mulheres

A síndrome do coração partido costuma ocorrer em pessoas que, sem evidência de obstrução coronariana, quadro infeccioso ou outra agressão cardiológica que a justifique, sofrem uma perda seguida de descontrole, desespero e colapso emocional. Ela mostra que emoções intensas disparam uma cascata de mediadores que podem afetar o funcionamento do coração, a ponto de levá-lo à parada. Em oposição à morte súbita dos dramas teatrais, no entanto, o óbito ocorre dias ou semanas depois do acontecimento que o desencadeou.

Está longe de ser a condição benigna e transitória que se imaginava no passado. Ocorre com maior frequência em mulheres mais velhas que apresentam comorbidades, enlutadas pelo desaparecimento de um ente querido. O quadro evolui com insuficiência cardíaca e redução da contratilidade do ápice do ventrículo esquerdo que, muitas vezes, simula infarto do miocárdio.

Um estudo dinamarquês publicado na revista Frontiers, em 2025, avaliou 1,7 mil pessoas que viveram situações de luto. Sintomas intensos por meses persistiram em 6% delas; a demanda por visitas aos serviços de saúde cresceu; o uso de antidepressivos e de sedativos foi 5,6 vezes superior ao daqueles com sintomas leves; e o de ansiolíticos, 2,6 vezes maior. O risco de morte aumentou 88%, especialmente nas primeiras fases do luto, época em que a carga de estresse costuma ser mais elevada.

O papel do cérebro

A mortalidade a médio e longo prazo é semelhante à dos infartos do miocárdio.

A descrição da síndrome deu origem a diversos estudos sobre os mecanismos envolvidos nas conexões entre circuitos cerebrais e o funcionamento cardíaco: o eixo cérebro-coração.

Estresses emocionais intensos são capazes de ativar circuitos de neurônios envolvidos na regulação da resposta às emoções e no funcionamento do sistema nervoso simpático, com liberação de catecolaminas, entre as quais a adrenalina. Como consequência, a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam, acompanhadas de alterações dos marcadores inflamatórios em circulação e da resposta imunológica.

Exames de neuroimagem revelam desarranjo funcional na conectividade dos circuitos autonômicos/emocionais. A origem da síndrome não está no coração, mas no cérebro. _

DRAUZIO VARELLA

J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina

Existe alguém do lado de lá

Ao formular certa pergunta, o médico não está apenas interrogando o paciente: está auditando a própria consciência

"Quando o outro sofre, a última coisa de que ele precisa é uma explicação teórica para a sua dor. Ele precisa de uma presença que suporte o mistério do seu sofrimento."

(Viktor Frankl)

No consultório ou no hospital, sob o brilho frio do monitor e a exatidão dos exames, priorizamos com todo o rigor a técnica, porque disso dependerá o controle daquela doença que nos trouxe o paciente em busca de uma solução. Tudo o que for tecnicamente insuficiente implicará em perda para quem apostou na nossa competência. Ali, com toda precisão medimos a função pulmonar, reconstruímos imagens em 3D, calculamos volumes e nos socorremos da ajuda da tecnologia que nossos antecessores não dispuseram.

Talvez por isso tendemos a acreditar que somos os protagonistas absolutos daquele enredo. Uma pena que precisamos demorar um tempo para entender que há um outro lado, atento e angustiado, que será exposto com uma pergunta simples que desestabiliza essa pompa: "O que, dessa experiência sofrida, o senhor considerará inesquecível?".

Ao formulá-la, o médico não está apenas interrogando o paciente; está, no fundo, promovendo uma auditoria na própria consciência. E o choque que se segue, a descoberta de que o inesquecível para quem sofre habita uma sombra que a clínica não enxergou, é a prova cabal de que a medicina acontece em dois planos paralelos.

Para quem opera, o "inesquecível" é o sucesso da manobra ousada, o milagre da fisiologia restabelecida, a complexidade vencida na solidão do bloco cirúrgico. Para o paciente, o inesquecível é quase sempre algo ínfimo, invisível ao olhar puramente técnico: a mão que hesitou antes de tocar o ombro, aquela travada antes de responder uma pergunta, o tom com que uma notícia foi dada ou, dolorosamente, como ela foi omitida.

O paciente não habita o mesmo mapa que nós. Enquanto mapeamos a patologia, ele mapeia o medo, o desespero, a ameaça da morte tornada real. A autovigilância do cuidado médico é a expressão mais alta da Medicina da Pessoa: o reconhecimento de que, embora a técnica trate a doença, é a humanidade - essa coisa fugidia que só floresce no detalhe - que acolhe o espírito. O uso dessa estratégia manterá o médico alerta. Mas mesmo assim muitas vezes ele se surpreenderá ao descobrir que nem tinha percebido o que o paciente valorizou tanto a ponto de considerar inesquecível.

Impossível esquecer a lição de um paciente que, ao receber alta depois de um transplante fantástico que tinha sido contraindicado por alto risco, em outro centro, respondeu que inesquecível tinha sido o carinho da menina da portaria que, no meio da madrugada, foi capaz de perceber o seu medo e a sua solidão e que, depois de ajudá-lo com o carrinho do oxigênio até o elevador, lhe deu um beijo e prometeu rezar por ele.

Paradoxalmente, esse choque de percepção é a melhor notícia que um médico pode receber. Significa que ele não se tornou um autômato. Significa que, entre a tomografia e o bisturi, entre o protocolo e o transplante, existe um homem que entende que a competência técnica é apenas o palco; a peça real, aquela que ficará gravada na memória de quem sofre, é o encontro.

Se um dia formos esquecidos por tudo o que curamos, por todas as mortes que evitamos, seremos lembrados por aquilo que, sem notar, oferecemos sem medir: o olhar que viu, além do pulmão, a biografia de quem respira. Validar essa vivência é a maior lição de Medicina Narrativa que se pode dar a um médico jovem. É dizer ao paciente, sem palavras, que a dor dele tem o mesmo peso que a nossa ciência. 

J.J. CAMARGO