sexta-feira, 17 de julho de 2026

17 de Julho de 2026
MARCO MATOS

O que ganhei com a maratona

42.195 metros é só uma distância. Concluir uma maratona, porém, é algo muito maior do que simplesmente terminar de correr tudo isso.

A maratona nasce meses antes do dia da prova. São muitas semanas de preparação, de adaptação da rotina, de foco em hábitos saudáveis e de mudanças que vão muito além dos treinos. É preciso reconfigurar a alimentação, respeitar o descanso e preparar o corpo e a mente para encarar desafios cada vez maiores.

São horas e horas de dedicação. Alguns treinos passam de duas horas e meia. Organizar a vida para cumprir pelo menos quatro sessões de corrida por semana, além do fortalecimento na academia, exige disciplina, comprometimento e, acima de tudo, prioridade.

Ao longo dessa jornada, aprendi a abrir mão de tudo aquilo que não contribuía para o objetivo. Dormir tarde? Nem pensar. Trocar um treino pela cama quentinha? Sem chance. Cada escolha passou a ter um propósito claro. E foi justamente essa clareza que transformou não apenas minha preparação esportiva, mas também minha forma de enxergar a vida.

Semana após semana, a gente aprende a conhecer melhor o próprio corpo. Descobre sinais que antes passavam despercebidos, entende limites e, principalmente, percebe que muitos deles existem apenas na nossa cabeça. A maratona é uma experiência extraordinária porque ensina, na prática, que somos capazes de realizar muito mais do que imaginamos.

Durante a preparação, consegui alinhar diversas áreas da minha vida que estavam precisando de mais atenção. A maratona não permite improvisos. Não há atalhos. O planejamento é uma parte fundamental do processo, mas ele só tem valor quando é colocado em prática diariamente. Levar essa lição para além do esporte é um dos maiores presentes que essa experiência oferece.

No dia da corrida acordei ansioso. Nervoso mesmo. Por mais que os treinos indicassem que eu estava pronto, os questionamentos apareciam sem pedir licença. E se uma câimbra me tirasse da prova? E se eu não suportasse correr tanto tempo? E se precisasse caminhar? Foram muitas dúvidas que desapareceram assim que cruzei a linha de largada.

Os 42 quilômetros foram vencidos um de cada vez. Não existe outra maneira. Ninguém corre uma maratona pensando nos 42 quilômetros o tempo inteiro. Minha estratégia foi simples: sentir o corpo, encontrar o ritmo e continuar correndo. Um passo após o outro.

Foram 3 horas e 34 minutos sem parar. Ainda assim, ouvi cada incentivo. Por isso, deixo meu agradecimento a todos que gritaram meu nome ao me ver passar, aos amigos que suportaram meu assunto quase exclusivo nos últimos meses, a vocês que acompanharam aqui as colunas sobre essa preparação, aos parceiros de treino e aos profissionais que caminharam comigo nessa jornada: treinadores, fisioterapeuta e médicos.

Cruzar a linha de chegada não mudou quem eu sou. Mas mudou a forma como eu vejo aquilo de que sou capaz. Parece bobagem, mas, de um jeito difícil de explicar, tudo ficou diferente depois daquele momento. Porque a maior conquista da maratona não foi completar 42.195 metros. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

17 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Que a racionalidade volte a preponderar

O novo tarifaço imposto pelo governo norte-americano contra o Brasil demonstra outra vez que os fatores políticos preponderaram sobre a lógica econômica. É lamentável que diferenças dessa ordem, alimentadas por interesses que não são os dos dois povos, tenham levado a relação entre os países ao pior momento em mais de 200 anos de convivência diplomática.

Com o ruído entre os canais oficiais, resta persistir nas negociações via setor privado, com as empresas nacionais mantendo contato com clientes dos Estados Unidos e suas associações, para que esses continuem a tentar influenciar a Casa Branca na busca por ao menos ampliar a lista de bens que escaparam da oneração. O Rio Grande do Sul é um dos Estados mais afetados. Metade da pauta gaúcha, pela forte presença de produtos industriais acabados, como máquinas e calçados, deve ser impactada. É preciso insistir em demonstrar o quanto a medida prejudica importadores e consumidores. O eventual uso da Lei de Reciprocidade teria de ser muito bem calculado.

As taxas adicionais contra as exportações brasileiras, agora de 25% sobre uma série de itens, não têm respaldo nas justificativas utilizadas por Donald Trump para erguer barreiras tarifárias. O republicano sempre argumentou que o objetivo era combater o déficit nas trocas com os demais países. O Brasil é um dos poucos que mais compra do que vende para os EUA. Mesmo assim, agora é o segundo parceiro mais sobretaxado pela Casa Branca, atrás apenas da China, o grande rival geopolítico e econômico dos norte-americanos.

O componente político é patente desde o anúncio do primeiro tarifaço contra o Brasil, no ano passado, quando Trump divulgou uma carta vinculando a taxa proibitiva de 50% ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. À tentativa inicial de ingerência seguiram-se a reabertura do diálogo diplomático e contatos entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os capítulos recentes desse episódio e o desfecho desta semana põem em dúvida se de fato existia margem razoável de negociação, se havia disposição para transigir e mesmo sobre quais termos as tratativas eram conduzidas.

Em meio aos contatos empresariais e diplomáticos, a família Bolsonaro continuava a incitar a ala mais ideológica da Casa Branca a aplicar sanções contra o Brasil. O tarifaço de agora teve, por parte dos EUA, demandas inaceitáveis, como algum recuo ainda não bem explicado sobre o uso do Pix, e alegações baseadas em dados defasados, como os de desmatamento. As repetidas críticas públicas de Lula a Trump e ao governo norte-americano, mesmo que tenham fundo de razão, por certo não contribuíram para a Casa Branca ter maior boa vontade. O discurso da soberania brandido por Lula obedecia também a uma lógica eleitoral. A manifestação de ontem do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, dizendo que Lula e o governo brasileiro não negociaram de boa-fé e que o petista colocou à frente "o seu próprio ego" escancara ainda mais o viés político da desavença.

Conta-se que esse impasse seja apenas um momento transitório no histórico de vínculos econômicos e institucionais entre EUA e Brasil e que em um prazo não muito distante a racionalidade volte a preponderar. No futuro, esse episódio merece ser lembrado apenas como exemplo do potencial ruinoso do radicalismo. 

17 de Julho de 2026
RELAÇÕES COMERCIAIS

RELAÇÕES COMERCIAIS

Metade das exportações do Estado aos EUA será atingida por tarifaço

Levantamento técnico da Fiergs aponta que apenas 2% do volume financeiro comercializado com os Estados Unidos conseguiu escapar da

nova taxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Setores de calçados, metalurgia e máquinas são os mais afetados

A nova sobretaxa de 25% anunciada pelo governo dos Estados Unidos na noite de quarta-feira vai atingir em cheio o comércio exterior do Rio Grande do Sul. Segundo levantamento técnico da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), a barreira alfandegária impactará diretamente quase metade das vendas gaúchas (48,2%) ao mercado norte-americano, que é o segundo principal destino das exportações do Estado.

No caso do Brasil, segundo o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, a sobretaxa deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.

A medida da administração de Donald Trump passa a valer a partir do dia 22, com base em apurações feitas por Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês). A decisão norte-americana foi tomada no âmbito de investigação conduzida sob a seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

A apuração iniciada há um ano pelo USTR concluiu que certas práticas brasileiras são descabidas e oneram ou restringem o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores norte-americanos. Entre as medidas citadas pelo USTR, estão "práticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; interferência anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal". O governo rechaçou as alegações (leia mais na reportagem abaixo).

Ao somar a nova alíquota às restrições setoriais que já vigoravam para o aço e o alumínio (sob a seção 232), 85,1% de tudo o que o Rio Grande do Sul vende aos EUA passará a sofrer algum tipo de taxação extra.

Nichos

Apenas 2% do volume financeiro exportado pelo RS conseguiu escapar da nova tarifa - com isenções restritas a nichos muito específicos, como alguns tipos de pescados e itens de couro.

O presidente da Fiergs, Claudio Bier, avalia que o aumento do custo de acesso ao mercado americano coloca as empresas gaúchas em severa desvantagem frente a concorrentes internacionais.

- A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China - analisa Bier.

Com a nova tarifa, a Abicalçados, por exemplo, revisou sua projeção para as exportações totais de calçados em 2026, estimando queda média de 7,1%, piora de 3,5 pontos porcentuais em relação à previsão anterior, de retração de 3,6%.

O USTR publicou lista com mais de 2 mil produtos que ficaram isentos da taxação. Além de carne bovina, café, laranja e suco de laranja, que já constavam de rol divulgado pelo órgão em junho, itens como mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e de aço, peixes e frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos foram excluídos da taxa. Entre os 50 produtos brasileiros mais exportados para os EUA em 2025, ficam de fora da nova cobrança petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.

O governo americano disse que rejeitou solicitações de pedidos de isenção para outros produtos, como vestuário, calçados e máquinas agrícolas e industriais. Os EUA justificam a isenção afirmando que os insumos são matérias-primas que poderiam levar à indisponibilidade de oferta doméstica e causar "perturbações" na economia do país caso fossem submetidas à nova tarifa. _

A situação

Os setores produtivos gaúchos mais expostos

Máquinas e equipamentos

Calçados e metalurgia

Equipamentos elétricos, móveis e tabaco

Cronograma de transição

22 de julho de 2026: início da vigência da nova tarifa de 25%.

29 de julho de 2026: prazo-limite para a entrada de mercadorias isentas nos EUA, desde que o embarque tenha ocorrido antes da data de início da vigência.

Governo Lula repudia sobretaxa e avalia uso da Lei de Reciprocidade

O governo brasileiro divulgou nota repudiando a sobretaxa de 25% sobre produtos nacionais. O comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República e compartilhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em rede social, destaca que o Brasil não reconhece a legitimidade das investigações dos EUA, que não teriam amparo nas regras multilaterais de comércio. E acrescenta que não há justificativa para medidas unilaterais norte-americanas contra o Brasil.

O comunicado diz que a Lei de Reciprocidade brasileira será acionada imediatamente, além de instrumentos para solução de conflitos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). "O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável", diz a nota.

Ontem, Lula reuniu vários ministros para tratar do assunto. Após o encontro, o titular das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o novo tarifaço teve "motivação política" e "não tem lastro na realidade". E afirmou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atacou o chefe de Estado de um país amigo "de forma grosseira". Na madrugada de quinta-feira, Rubio disse que Lula e o governo brasileiro "não negociaram de boa-fé", que o chefe do Executivo "colocou seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro" e que as políticas econômicas adotadas pelo presidente são "ruins para os americanos e ruins para os brasileiros".

Para Vieira, o que incomoda os norte-americanos é o fato de o Brasil "não ter se curvado" a demandas da gestão Trump, como a abertura total e exclusiva de setores da economia nacional aos interesses dos EUA:

- Em outras palavras, exigiam capitulação.

Em outra entrevista, o vice­presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, disseram que as empresas afetadas pelo tarifaço poderão contar com ajuda do governo federal. Alckmin contestou as alegações norte-americanas para justificar a sobretaxa e disse que a medida é "injusta e descabida". Ao lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou a decisão como "interferência indevida externa".

Conforme a nota brasileira, nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, houve 78 intervenções de representantes do setor privado dos dois países, das quais 63 foram contrárias ao tarifaço. O comunicado ressalta que nos últimos 15 anos os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil. "Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%", diz a nota. 

17 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Resposta dura, mas de manual

O Brasil decidiu responder dentro do protocolo diplomático clássico. Não entrou na lógica de Donald Trump de personalizar conflitos. Não transformou a crise comercial em uma disputa entre Lula e Trump. Não respondeu postagem por postagem em redes sociais. Ou seja, optou pelo caminho institucional.

A reação, ao menos até agora, segue a cartilha da Casa de Rio Branco, ao preservar interlocutores, respeitar a hierarquia, produzir registros formais e demonstrar que a negociação ocorreu antes de qualquer medida de retaliação.

O discurso adotado pelo ministro Mauro Vieira, o porta-voz do governo na reação ao tarifaço, chama atenção pelo tom duro dirigido ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Mas, repare, foi uma resposta de chanceler para chanceler, preservando a hierarquia institucional e evitando transformar uma crise comercial em um embate pessoal entre chefes de Estado.

Reação madura

O governo poderia ter escolhido outro caminho. Lula poderia ter convocado cadeia de rádio e TV para responder diretamente a Trump ou elevar o confronto retórico. Não o fez. Ao colocar na mão de Vieira, o Brasil envia uma mensagem adulta, de que trata o episódio como uma questão de Estado, não como um duelo entre presidentes - a ver até quando esse tom será mantido, especialmente a partir de falas de improviso do presidente brasileiro a partir de hoje e à medida que a campanha eleitoral avançar.

Trump aparece apenas duas vezes no discurso, ao referir tentativa de interferência no Judiciário. Mas, em vez de atacar o presidente americano, concentra críticas na investigação da Seção 301, no caráter unilateral das tarifas e na ausência de fundamento econômico.

Isso é relevante porque, ao medir palavras, o Itamaraty procura manter aberta a possibilidade de negociação. Não fecha portas. Mais: procura construir um histórico:

Vieira faz questão de listar as mais de 30 reuniões entre os dois lados, 11 contatos diretos com Rubio, duas defesas técnicas, viagens a Washington e conversas entre os presidentes.

O Brasil tenta construir uma narrativa para mostrar à comunidade internacional - e eventualmente à OMC - que negociou de boa-fé e esgotou os canais diplomáticos antes da escalada comercial. Em vez de dizer que Trump "está errado", ele demonstrou por que os argumentos americanos são pouco consistentes. _

Rei Charles vai afogar as mágoas

"Talvez seja um bom dia para afogar algumas mágoas". Foi o que disse o rei Charles III, acompanhado da rainha Camila, ontem, ao tomar algumas cervejas na cervejaria Hall & Woodhouse Badger em Blandford, Dorset. O fato ocorre um dia após a Inglaterra perder, de virada, para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo de 2026, na quarta-feira.

Entrevista - Diego Pautasso

Doutor em Ciência Política, graduado em Geografia e professor da rede federal

"Vilanizar a China serve para que os EUA não enfrentem seus problemas internos"

Nas últimas décadas, a ascensão da China foi acompanhada por uma avalanche de narrativas antichinesas. Para o governo dos Estados Unidos, o país seria uma ameaça à democracia liberal, uma nação que compete de maneira desigual e uma potência neoimperial. Mas como esse discurso é produzido e a quem serve? Esse é o tema do livro Quem Tem Medo da China? A Construção da Ameaça Chinesa (Editora de Cultura), de Diego Pautasso e Isis Paris Maia. Pautasso conversou com a coluna.

A suposta ameaça chinesa é real ou construída?

Do ponto de vista do livro, ela foi construída como uma narrativa para contê-la (a ameaça). Agora, só faz sentido se construir uma narrativa para contê-la, uma vez que essa seja uma ameaça real aos Estados Unidos ou a determinadas elites do Ocidente. Porém, a ameaça chinesa não é sobre o poder do Partido Comunista ou a pretensão de destruir a civilização ocidental. Não há uma coincidência entre o que se vocifera como narrativa e aquilo no qual a China é realmente competitiva. A China se apresenta como uma alternativa sistêmica que faz um contraponto estratégico e decisivo à liderança que os EUA até então vinham exercendo.

Essa vilanização da China não é algo novo na história. Em outros momentos, rivais do Ocidente foram também tratados como inimigos.

Exato, trata-se da construção de inimigos como forma de legitimidade. Essa produção de legitimidade passa, por um lado, por vender a ideia de que estou oferecendo o melhor: a responsabilidade de proteger, a democracia, o livre mercado, e uma série de coisas que são vendidas como um pacote de bondades. Mas, por outro lado, isso é combinado com uma estratégia de vilanização de todos aqueles que não querem esse pacote de bondades, que resistem ou que propõem algo alternativo. Nesse caso, a ameaça pode ser os nazistas, os soviéticos, o perigo amarelo, o fundamentalismo islâmico ou o terrorismo na América Latina, que está na ordem do dia.

Costuma-se chamar a disputa entre EUA e China de uma nova Guerra Fria. O senhor concorda com essa expressão?

Os EUA estão procurando dar o mesmo remédio, ou seja, a Guerra Fria, usar a mesma estratégia, a mesma construção de ameaças (da época da Guerra Fria). Porém, e aí que está o equívoco americano: o mesmo remédio para uma doença diferente. A China do século 21 não tem absolutamente nada a ver com a União Soviética do século 20. Enquanto a União Soviética estava contida e restrita a um bloco, a China tem uma projeção global.

Ao acusar a China de autoritarismo e violação de direitos humanos, os EUA ocultam seus próprios erros, como torturas no Iraque e no Afeganistão?

As pessoas falam: "Olha o Tibete, Xinjiang". Não é que não haja contradição. Um país com 1,3 bilhão de habitantes, com 56 etnias, com desigualdades sociais e regionais, tem contradições sociais e étnicas. A questão não é a existência ou não disso, que é importante. Primeiro, isso é colocado de maneira seletiva com o objetivo de atacar a China, de cercá-la. Isso também serve para, seletivamente, não falar de outros casos que não são convenientes: a Arábia Saudita, as petromonarquias. Também serve para não enfrentar, tal como no caso da competição econômica, os seus problemas internos: os EUA têm uma população carcerária, uma drogadição em expansão, que, aliás, também tentam atribuir à China ou à América Latina a responsabilidade. Eles têm de olhar no próprio espelho.

E o Brasil, como deve se equilibrar entre a China e os Estados Unidos?

Parece relativamente óbvio que o alinhamento automático não interessa ao Brasil. Mas aí entra o ponto: a gente não vai casar com ninguém na festa, vai barganhar as melhores condições. Mas tu não entras em um jogo da Libertadores se tu não quiser bola dividida. Vai ter bola dividida, esse é o ponto fundamental: não querer alinhamento automático e querer barganha é muito bom até o momento que começa o jogo. Na hora que começa o jogo, a gente vai ter de fazer uma leitura objetiva dos custos da tomada de decisão e de qual a maior ou quais as maiores janelas de oportunidades. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 16 de julho de 2026

16 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Diante do Alzheimer

Cuidar de alguém com Alzheimer é um desafio ensandecido. Os familiares perdem também a sua identidade, sendo confrontados com o apagão do seu ente querido. É comum se perceber desvalorizado, humilhado, rejeitado. Afinal, você não ganha nenhuma recompensa, agradecimento, reconhecimento. O elogio, quando feito, não dura para a manhã seguinte. É um trabalho de Sísifo, de transportar a pedra para o topo da montanha e vê-la deslizar de volta para a sua origem. Não há permanência dos dados, registro, livrinho dos diálogos, mesmo os mais marcantes e sublimes.

É um monólogo, uma doação unilateral, como amar presencialmente uma ausência. A autora argentina Julieta Correa costuma dizer que é quando as palavras viram as costas. Estima-se que 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais enfrente o drama. A taxa aumenta drasticamente com a idade, indo de cerca de 2% (na faixa de 65 a 69 anos) para 36% (acima de 90 anos).

Os números, já alarmantes, são mascarados pela subnotificação. Aproximadamente 80% dos idosos com demência não possuem diagnóstico formal, devido à normalização cultural da amnésia.

Aqueles que fornecem apoio descrevem um tipo de luto que começa antes da morte. A pessoa conserva a aparência intacta, mas a sua mente distorce os fatos, salteia cronologicamente os acontecimentos, confunde os interlocutores e se distancia de quem era. É uma despedida sem data, sem cerimônia e sem intervalos.

Não existe mais a reciprocidade tradicional. O cuidador continua oferecendo amor, mas deixa de receber retorno. Vigora o estresse de uma vigilância vitalícia. É preciso conferir se tomou os remédios, se fechou a porta, se saiu de casa, se caiu, se acordou de madrugada. O sono é entrecortado de sobressaltos, e o enfermeiro familiar adoece junto, com dores lombares, hipertensão, queda da imunidade.

Mergulha-se num looping de agulha arranhada no vinil, numa adaptação desfalcada de futuro, mobilizando-se a responder a uma pergunta 20, 30, 50 vezes num só turno, repetindo dilemas de pesar e constrangimento ao explicar onde está um indivíduo que morreu décadas atrás.

É inútil apresentar documentos e fotografias, na busca desesperada de remontar o quebra-cabeça e salvar fragmentos da personalidade.

Surge a culpa por não se considerar suficiente, por não conseguir manter a calma, por sentir vontade de fugir, por pensar em uma instituição, por desejar, com todas as forças restantes, um par de horas sozinho.

Convites rareiam, romances se tornam inviáveis, viagens são quase impossíveis no plantão emocional, no esgotamento silencioso. Amigos se afastam, frequentemente por não saberem como colaborar. A vida encolhe até parar por completo.

O filho passa a ser pai dos pais, encarregando-se da higiene, trocando as roupas, levando a comida à boca, improvisando colo.

A parte mais difícil, no meio de tantas adversidades monstruosas, é ser repositório da agressividade. Alguns com a moléstia são paranoicos. Acusam os mais íntimos de roubo, perseguição, abandono. Recusam banho, alimentação, medicação. É um trauma ouvir insultos de um perfil anteriormente carinhoso.

Uma leitora me contou o que vem experimentando ao lado de seu pai. Ele não entende que ela é sua filha, não recorda nada. E ela me falou algo tão bonito dentro das limitações brutais da convivência: se não pode dar para o pai a alegria de ser filha, pode ainda dar para ele a alegria de ser uma visita. Se ele esquece que ela é sua filha, ela jamais esquecerá que ele é seu pai.

Uma visita muda a cor do dia. Você não tem como devolver a memória, mas tem como melhorar o presente, o instante, o agora.

O afeto talvez fique na pele, e não esmoreça com a doença nem com o tempo. 

CARPINEJAR

16 de Julho de 2026
ROGER LERINA

Argentinidade

É como se fosse um sonho perturbador: ando pelas ruas cercado de bandeiras da Argentina nas janelas das casas, vitrinas das lojas, para-brisas dos carros; todos os aparelhos de televisão exibem entrevistas com jogadores da seleção enquanto comentaristas papagueiam seus prognósticos; como o Grande Irmão de 1984, Lionel Messi me vigia em qualquer lugar estampando anúncios em que comemora um gol ou vende algum produto. "Cerrado", informa na porta do café a plaquinha com o craque sorrindo e segurando um cartão de crédito. Em Buenos Aires por estes dias, a argentinidade é quase tóxica.

Estou em uma das cidades que mais amo por conta de um encontro familiar para comemorar o aniversário da minha sobrinha, nascida e criada na Argentina. Calhou de a celebração coincidir com o Mundial e, mais notável ainda, com o avanço heroico de La Albiceleste no campeonato. Como era de se esperar, a capital portenha está tomada pelo espírito da disputa futebolística e pelas vitórias que estão embalando o time rumo à final. 

Escrevo no dia do jogo da Argentina contra a Inglaterra, que vai definir o adversário da Espanha na final e que carrega, para além da rivalidade esportiva, as cicatrizes históricas, políticas e sociais deixadas pela Guerra das Malvinas em 1982, quando mais de 600 argentinos morreram defendendo as ilhas que os britânicos chamam de Falklands. (Vou assistir à partida em um bar. Aguardem a coluna da semana que vem para saber se sobrevivi.)

Penso como estariam Porto Alegre e outras grandes cidades brasileiras hoje se a nossa seleção não tivesse naufragado. Certamente também estaríamos tomados pelo sentimento de triunfo - creio, porém, que essa manifestação seria diferente daquela dos argentinos. Cada povo tem uma forma própria de expressar seu amor pátrio, e mesmo no seio das nações as identidades são várias e não raro antagônicas entre si. 

O argentino é um tipo culto, cosmopolita e europeizado como Jorge Luis Borges, mas também é um sujeito do campo, ligado à terra e aferrado às tradições, qual tantos personagens dos contos do grande escritor; pode ir de Buenos Aires a Paris em um pulo como Horacio Oliveira em O Jogo da Amarelinha, romance de Julio Cortázar, ou permanecer afundado na miséria latino-americana como o pequeno Juanito Laguna dos quadros do pintor Antonio Berni.

Mas é melhor interromper essas divagações por aqui: Messi já está me olhando com aquela cara feia que fez para o atacante holandês logo após a partida das quartas de final da Copa no Qatar, em 2022, dizendo "¿Qué mirás, bobo? ¡Andá pa? allá!". _

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

16 de Julho de 2026
OPINIÃO - Douglas Martello

A Grande Porto Alegre no centro do debate

Presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal) e prefeito de Alvorada

Pela primeira vez em seus 41 anos de história, a Associação dos Municípios da Grande Porto Alegre (Granpal) reuniu pré-candidatos ao governo do Rio Grande do Sul e ao Senado Federal para discutir as pautas de interesse da Região Metropolitana. Foram dois debates realizados no Instituto Caldeira, com presença expressiva de lideranças políticas, autoridades e imprensa. Duas tardes ricas em propostas e ideias para a região mais populosa do Estado e uma das maiores do país.

Os números explicam por que essa conversa precisava acontecer. A Grande Porto Alegre soma hoje mais de 3,8 milhões de habitantes em 27 municípios e responde por 40% do PIB gaúcho. É a região que concentra a maior parte do comércio, da indústria e dos serviços do Rio Grande do Sul. Quem gerir o Estado a partir de 2027 vai governar, na prática, o cotidiano dessa população. Daí a importância de que o próximo governador e os dois senadores eleitos assumam compromissos claros com a região.

O manifesto que a entidade entregou aos pré-candidatos nas duas ocasiões reúne as principais angústias dos prefeitos, e cada uma delas tem endereço na vida do morador. O sistema de proteção contra cheias, prioridade absoluta depois de tudo o que a região viveu em 2024, decide se uma família dorme tranquila quando a chuva se intensifica. A integração do transporte metropolitano define quanto tempo o trabalhador que cruza municípios todos os dias passa dentro do ônibus, longe de casa. E a aplicação de pelo menos 12% do orçamento em saúde se traduz em fila menor no posto e atendimento mais ágil no hospital.

O que aperta o sapato dos prefeitos é o mesmo problema que bate à porta do cidadão. Ao colocar a questão metropolitana no centro da campanha, a Granpal cumpriu seu papel. As luzes, desta vez, se voltaram para as nossas cidades. Os pré-candidatos ouviram, apresentaram propostas e assumiram posições públicas. Cabe agora aos prefeitos e a cada eleitor da região fiscalizar e cobrar que os compromissos de hoje virem ação de quem for eleito. 

Pirataria de sementes: um risco adicional para a agricultura
Catharina Pires - Diretora de Biotecnologia e Germoplasma da CropLife Brasil

As enchentes de 2024, maior catástrofe climática da história recente do Rio Grande do Sul (RS), destruíram 110,3 mil hectares de soja e impactaram mais de 48 mil produtores de grãos, reduzindo a safra em 2,71 milhões de toneladas, cerca de 12,2% da produção estimada para o Estado, segundo dados do Ipea e governo local. Os gaúchos conhecem bem o peso de uma safra perdida.

Por isso, riscos evitáveis precisam ser eliminados, e a pirataria de sementes é um deles. No Brasil, cerca de 11% do mercado de sementes de soja é de origem ilegal, com prejuízos de R$ 10 bilhões ao ano, segundo estudo da Consultoria Céleres/CropLife Brasil. No RS, o índice chega a 28% da área plantada, quase o triplo da média nacional. O quadro é ainda mais preocupante porque o Estado enfrenta estiagens, excesso hídrico, doenças e variações de temperatura.

A semente é o ponto de partida da produtividade agrícola. Na soja, ela carrega o potencial genético da planta e anos de pesquisa e desenvolvimento, testes em campo, controle de qualidade, rastreabilidade e tecnologia. O uso de insumos ilícitos não oferece nenhuma dessas garantias e compromete a produtividade, a segurança fitossanitária, a inovação e a sustentabilidade da agricultura.

A pirataria adiciona risco a um sistema pressionado por clima, custos, crédito, seguro rural, logística e volatilidade de preços. Produzido à margem da lei, o material não tem garantia fisiológica, nem documento fiscal. Também não remunera a cadeia de produção de sementes, desestimulando investimentos em P&D, melhoramento genético e biotecnologia. Na lavoura, compromete o desenvolvimento, reduz o vigor e aumenta a exposição a pragas e plantas daninhas.

Combater a pirataria de sementes é defender a propriedade intelectual, proteger a eficiência produtiva, a renda do agricultor, a sanidade da lavoura e a capacidade do Brasil de continuar inovando em agricultura tropical. No RS, onde o campo já enfrenta grandes desafios, proteger a legalidade é também defender a recuperação, a competitividade e o futuro do agro gaúcho. _

Direto da Redação
Tulio Milman - O voto grisalho

Existe uma força política crescendo no Rio Grande do Sul sem fazer barulho. Está em toda parte, aumenta de eleição para eleição e já representa mais de um quinto do eleitorado gaúcho: são as pessoas com mais de 60 anos.

Durante muito tempo, esse segmento foi tratado pelo poder público como destinatário de favores. Um banco na praça, uma fila preferencial, uma homenagem no mês de outubro. É pouco. E é também uma forma disfarçada de paternalismo e de preconceito. Pessoas maduras não precisam de condescendência. Precisam de cidades nas quais consigam viver com autonomia.

O Rio Grande do Sul chegou ao ponto de inflexão demográfica. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que, em 2026, começou a queda no crescimento populacional do Estado. Ao mesmo tempo, a população envelhece. Essa combinação mudará quase tudo, mas um dos impactos mais visíveis estará na mobilidade urbana.

Será preciso rever o tempo dos semáforos, os locais de travessia, os degraus, o acesso aos ônibus, a altura das plataformas e a distância entre os pontos de transporte. E, sobretudo, será preciso enfrentar o escândalo das calçadas de Porto Alegre. Muitas delas são um atentado cotidiano contra idosos, pessoas com deficiência e qualquer cidadão com dificuldade de locomoção. Buracos, desníveis, pedras soltas e obstáculos transformam uma caminhada simples numa prova de risco.

Essas mudanças podem ser feitas por inteligência, planejamento e respeito. Ou serão impostas pela pressão política. Quando os gaúchos com mais de 60 anos perceberem que não formam um grupo frágil, mas uma potência eleitoral, a relação com prefeitos, governadores, presidentes, deputados e senadores mudará.

Quem entender isso antes poderá melhorar as cidades e será reconhecido por isso. Quem continuar tratando envelhecimento como assunto de assistência social, e não de infraestrutura, autonomia e cidadania, pagará nas urnas. O voto grisalho ainda fala baixo. O futuro já começou a cobrar. Mas já tem força para varrer muita gente do mapa. 

OPINIÃO

16 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Henrique Ternus

Segurança climática no foco de Maranata

Acabar com o medo das pessoas em relação ao clima será o cerne do plano de governo de Marcelo Maranata, que concorrerá ao Palácio Piratini pelo PSDB. Com o texto do programa já finalizado, o pré-candidato diz ter percorrido mais de 25 mil quilômetros nas últimas semanas e avalia que, sem garantir segurança às pessoas, não será possível avançar no desenvolvimento econômico do Estado.

Sob coordenação do jornalista Gustavo Ferenci, atual secretário de Transparência e Controladoria na prefeitura de Canoas, o programa tucano foi baseado em experiências observadas na Catalunha, na Espanha, e em Medellín, na Colômbia. A construção levou em conta os anseios da comunidade relatados ao próprio Maranata, que fez questão de estar na rua conversando com as pessoas.

O plano reúne cerca de 200 propostas a serem executadas a curto, médio e longo prazos, oferecendo desde medidas imediatas até ações pensadas para 2050. São 17 eixos de atuação, com foco em três estratégias principais: o RS que cuida das pessoas, que engloba medidas de saúde, educação e desenvolvimento econômico; o RS competitivo, inovador e seguro, com foco em ampliar o uso de tecnologia no policiamento; e o RS eficiente e transparente, garantindo um processo de governança, ajuste fiscal e combate ao desperdício de dinheiro público.

A estratégia planeja criar um ambiente para que as pessoas fiquem no Estado e para que as empresas tenham confiança de investir no Rio Grande do Sul. Para isso, Ferenci reuniu o material que Maranata coletou nos diálogos com a população e as demandas das entidades setoriais.

- Se as pessoas têm medo pela sua segurança pessoal, o empresário tem medo de investir, e isso vira um ciclo vicioso complexo - avalia o coordenador.

Mesmo com o texto finalizado, a coordenação do plano vai esperar mais alguns dias até apresentar as propostas. A ideia é poder agregar eventuais mudanças e novas contribuições mesmo após a convenção do PSDB, marcada para 31 de julho.

Os planos de governo têm de ser registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como pré-requisito para que as candidaturas sejam validadas. O documento funciona como a primeira oportunidade de os candidatos apresentarem suas propostas e prioridades ao eleitor.

Nos últimos dias, a coluna apresentou detalhes dos planos de governo de Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL), contemplando os principais candidatos na disputa pelo governo do Estado. _

TCE suspende PPP da educação

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) decidiu suspender a licitação do governo do Estado para qualificar 98 escolas da rede estadual. O leilão estava marcado para o dia 23 de julho, na B3, em São Paulo.

Na medida cautelar publicada ontem, o conselheiro Estilac Xavier pontua uma série de falhas no texto do edital para justificar a suspensão do certame. A decisão dá prazo de 30 dias para a Secretaria da Educação esclarecer os itens.

A Secretaria de Reconstrução, responsável pelas PPPs do Estado, confirmou a suspensão e afirmou que avalia as ações que irá adotar sobre a cautelar. _

Aldo Rebelo trava briga judicial com o próprio partido

Reintegrado ao Democracia Cristã após divergências internas, o ex-ministro Aldo Rebelo mantém esperança de que será confirmado como candidato à Presidência na convenção do partido. Há cerca de dois meses, Rebelo entrou em rota de colisão com a legenda após o convite para Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, concorrer no seu lugar.

Rebelo criticou a condução do presidente do DC, João Caldas da Silva, no convite feito a Barbosa. Em resposta, a direção executiva do partido resolveu expulsá-lo por unanimidade. Rebelo levou a situação para a Justiça e conseguiu voltar à sigla para participar da convenção.

- Eu judicializei, ganhei na Justiça o direito de ir para a convenção e continuo fazendo minha pré-campanha - explicou ontem Rebelo, palestrante do Tá Na Mesa da Federasul, em Porto Alegre. _

Fernando Lemos será cidadão de Porto Alegre

O presidente do Banrisul, Fernando Lemos, receberá hoje, às 17h, o título de cidadão de Porto Alegre. Natural de Vacaria, ele será homenageado pelas três décadas de atuação na gestão pública. A indicação é do vereador Idenir Cecchim (MDB).

Formado em Direito pela Universidade de Brasília, Lemos foi presidente da extinta Caixa Econômica Estadual nos anos 1990 antes de se tornar diretor do Banrisul, no final da mesma década. De 2003 a 2010 foi presidente do banco estadual e liderou o processo de capitalização e a ampliação do parque tecnológico da instituição.

Nos anos seguintes, atuou como desembargador do Tribunal de Justiça Militar do RS até ser indicado novamente para a presidência do Banrisul em 2023, pelo governador Eduardo Leite. _

POLÍTICA E PODER

16 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Aprendizados da Holanda para Porto Alegre

Como se sabe, a prefeitura de Porto Alegre fez um acordo com os holandeses sobre como tornar a Capital mais resiliente às mudanças climáticas. Mas o que, afinal, foi incorporado a partir da contratação pelo Executivo da cooperação técnica internacional com Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), da Holanda, intermediado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)?

Lembrando: o objetivo da cooperação era a elaboração do Plano Urbanístico Ambiental para o Desenvolvimento Sustentável do bairro Arquipélago (Região das Ilhas), uma das áreas mais afetadas pelas enchentes.

À coluna, o secretário do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade da Capital, Germano Bremm, afirma que a área fica fora do sistema de proteção da cidade e na qual há uma população que deseja ali permanecer. É preciso, portanto, desenvolver um plano de ação e realizar obras para a convivência com a subida das águas. É uma área sensível. As intervenções propostas são no sentido de mitigar os efeitos de quando subirem as águas e, após isso, a ideia de retirada e posterior retorno dessas pessoas.

Necessidade de adaptação

Bremm destaca a necessidade de adaptação climática. O primeiro objetivo do Plano Diretor, em geral das cidades, era no sentido da redução das emissões de gases do efeito estufa. Mas, a partir da enchente, surgiu a necessidade de a cidade se adaptar. Esse é o objetivo principal do Plano Diretor.

A Holanda é um país adaptado àquela realidade, de uma nação onde 26% do território está abaixo do nível do mar.

- Isso é um aprendizado. Tanto nossa ida lá (a viagem da delegação, em 2025) quanto a gente trazer isso na regra como comando geral no Plano Diretor. E ele traz comandos gerais. A figura da adaptação climática prevista no objetivo número 1 é um aprendizado que a gente consegue extrair a partir deles - diz Bremm. _

O que ficou definido

A prefeitura contratou com a TU Delft as seguintes soluções:

1 | Termos de referência para infraestrutura emergencial, envolvendo Ilha da Pintada e Ilha Grande dos Marinheiros:

abrigo temporário (Ilha da Pintada).

2 | Termos de referência para infraestrutura de água potável, saneamento e drenagem (geral).

3 | Termos de referência para a implantação dos projetos urbanísticos completos, envolvendo todos os complementares de engenharia.

4 | Soluções construtivas adaptadas para as edificações.

5 | Atualização do plano de contingência pós-projeto.

Alerta para os temporais

Diante da previsão de tempo severo nos próximos dias, a Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs) notificou, ontem, concessionárias dos setores de energia elétrica, saneamento e rodovias para que apresentem seus planos de ação para o enfrentamento dos temporais.

Nos ofícios encaminhados às empresas, a agência solicita informações sobre o número de equipes que serão mobilizadas, as regiões consideradas mais vulneráveis e as ações previstas para minimizar os impactos dos eventos climáticos. A Agergs também requisitou detalhes sobre outras medidas preventivas que estejam sendo adotadas pelas concessionárias. _

Um desafio para o próximo governador

A Lei de Diretrizes Orçamentárias, a LDO, foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado na terça-feira. O projeto, que vai agora à sanção do governador Eduardo Leite, define as metas e prioridades para o orçamento do ano seguinte.

Ou seja, é uma espécie de guia para o Executivo construir o orçamento, que é levado ao Legislativo em novembro/dezembro.

Comparando a LDO para 2026, que foi aprovada em julho de 2025, a notícia é boa. Havia uma previsão de déficit de R$ 5,2 bilhões. Agora, a previsão é de R$ 4,8 bilhões.

O que significa isso: que a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta será menor. Diferença de R$ 400 milhões, cerca de 8%.

No ano passado, o debate central era sobre despesas de reconstrução pós-enchente e o uso do Fundo da Reconstrução (Funrigs). Neste ano, temos fatores estruturais em questão: transporte, educação e saúde, por exemplo.

Resumo da ópera: em tempos de pré-campanha, o eleitor deve ficar de olho em promessas que virão de candidatos ao governo do Estado. Haverá promessas que não param de pé, porque não terão lastro financeiro. Será um ano muito desafiador, até porque três elementos colidirão: o fim da suspensão da dívida, em maio, com retomada dos pagamentos à União, a assinatura efetiva do contrato Propag (na mesma data), e será um ano de transição, com posse em janeiro. _

Emendas importantes aprovadas

1 | ) A LDO prevê recursos para a duplicação da RS-118 entre Gravataí e Viamão. É uma obra urgente em um trecho muito perigoso de uma rodovia fundamental durante a tragédia da enchente e que acabou ficando de fora do projeto inicial (anterior à enchente).

2 | Aplicação de 0,5% da receita de impostos no desenvolvimento do Ensino Superior público.

3 | Preferência na destinação de R$ 3 bilhões do Fundo de Reconstrução para obras em rodovias dos blocos 1 e 2 - vias da Região Metropolitana, Litoral Norte e Serra e Vale do Taquari e norte do Estado.

Biden anuncia lançamento de livro

O ex-presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou o lançamento, marcado para 17 de novembro, de um livro de memórias sobre os seus anos na presidência americana. Na mesma ocasião, ele atualizou seus seguidores sobre o tratamento de um câncer de próstata. A obra leva o nome Promise Me, America ("Prometa-me, América", em tradução livre).

- Desde que deixei a presidência, muitas pessoas me perguntam o que estou fazendo. Tenho passado muito tempo com a minha família. Estou lidando com o diagnóstico de um câncer, recebendo tratamento, e as coisas estão correndo muito bem - afirmou Biden em um vídeo publicado ontem em suas redes sociais.

Entre os assuntos tratados no livro, conforme Biden, estão a pandemia de covid-19, a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, a retirada das tropas do Afeganistão, as parcerias com a Otan e o apoio à Ucrânia. O ex- presidente também aborda um dos temas mais delicados para o Partido Democrata: a última eleição presidencial, que resultou na vitória de Donald Trump.

- É sobre o motivo pelo qual escolhi concorrer à reeleição e por que decidi dar um passo atrás. Mais do que tudo, é sobre a minha fé na promessa da América. _

Padre do DF é excomungado

O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF) - membro da Fraternidade São Pio X, um grupo católico dissidente e ultraconservador -, foi excomungado pela Arquidiocese de Brasília.

Na segunda-feira, a entidade divulgou uma nota confirmando a excomunhão do padre e da capela. Segundo o documento, assinado pelo arcebispo metropolitano de Brasília, cardeal Paulo Cezar Costa, a medida segue uma orientação do Vaticano de 2 de julho, quando a Santa Sé excomungou seis bispos do grupo conservador.

Na ocasião, a nota explicativa do Dicastério para a Doutrina da Fé, a principal autoridade de supervisão da Igreja, afirmava: "Os ministros sagrados pertencentes à Fraternidade Sacerdotal de São Pio X estão em cisma e, portanto, devem ser considerados cismáticos".

A Arquidiocese de Brasília seguiu a decisão: "A situação do Revdo. Padre Françoá Costa, que desde 5 de abril de 2025 considera-se aderente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, é, a partir destes acontecimentos, de cisma e excomunhão".

Entenda

A Fraternidade São Pio X é um grupo católico dissidente e tradicionalista sediado em Écône, na Suíça. Os membros também são conhecidos como lefebvrianos, nome que vem de seu fundador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre. O termo refere-se aos seguidores do arcebispo, cujo movimento rejeita as reformas instauradas pelo Concílio Vaticano II, mantendo a celebração da missa em latim e de costas para os fiéis, entre outros costumes.

No Código de Direito Canônico atual, o cisma é classificado como um delito contra a religião e a unidade da Igreja. No âmbito penal da Igreja, o crime de cisma resulta em excomunhão. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 15 de julho de 2026


15 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

Metamorfose

Gregor Samsa acordou e deu-se conta que era um dia especial. Seu corpo já não era o mesmo. Olha-se no espelho e contempla maravilhado a transformação. Agora está mais completo, tem seis patas para se apoiar no chão. Sente mais estabilidade. Sente firmeza para subir pelas paredes.

A suprema felicidade é saber que tem asas. Embaixo de um estojo, que também serve de exoesqueleto, saem duas asas transparentes e funcionais. Voar torna-se uma possibilidade.

Agora possui duas magníficas antenas exploratórias, muito melhores que seu antigo tato. Seus olhos compostos enxergam tudo de outra perspectiva. Descobre como seu olfato era primitivo, tosco. Uma nova dimensão se abre, tudo exala cheiros, apenas ele não sentia.

Seu apetite mudou. Ele, que sempre foi chato para comer, agora tudo lhe parece apetitoso, surge uma volúpia por qualquer migalha. Respirando por espiráculos, nota a gambiarra do aparelho respiratório humano, servem-se do mesmo duto que usam para alimentação.

Sente a satisfação de pertencer a uma raça cascuda quase indestrutível. Que venha o apocalipse nuclear, estou preparado, pensou com satisfação.

Gregor não quer nem saber quem envernizou as baratas. Sabe que está pleno com a carapaça lustrosa da cor de conhaque. O único senão de sua potência é não se sentir à vontade na claridade e ter uma certa paranoia com chinelos.

Desse ângulo, Gregor se dá conta da aparência repugnante dos humanos: eles são como um macaco, que um demônio sádico barbeou o corpo e amputou a cauda. Sua cor é um de um branco mortiço, rosado, sem pelos. É como se viessem sem revestimento.

Como enxerga pela fresta por debaixo da porta, vê o pé da sua irmã Grete que pede para entrar. Os pés humanos são uma massa de carne disforme, com protuberâncias na frente, como salsichas mal cortadas.

Mais batidas na porta. É Grete que segue forçando entrar. Gregor sente pena por ela estar presa naquele corpo molengo e desajeitado. Mas ele está tomado pelo horror de conviver com seres nojentos. Sente arrepios só de pensar em tocar neles.

Sem mais dúvida, ele sobe pela fresta da janela, abre as asas e ganha o quintal, depois o mundo. Não olha para trás, família é coisa de vertebrado. _

MÁRIO CORSO


 

15 de Julho de 2026
OPINIÃO  - Hugo Muller - Presidente do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

250 anos de liberdade

Um dos acontecimentos mais marcantes da história moderna, os 250 anos da Independência dos Estados Unidos foram celebrados em 4 de julho. Mais do que a emancipação de uma nação, aquele movimento consolidou ideias que moldariam os séculos seguintes: a liberdade individual, o livre mercado e a convicção de que o governo deriva sua legitimidade do povo e de seus direitos inalienáveis.

A Revolução Americana estabeleceu princípios e institucionalizou a democracia liberal. Sob sua influência, o mundo, globalizado e livre, viveu uma expansão sem precedentes. A pobreza extrema caiu drasticamente, bilhões de pessoas melhoraram suas condições de vida e a liberdade avançou em grande parte do planeta.

Mas esses princípios continuam guiando o mundo? Nos últimos anos, assistimos ao fortalecimento de movimentos que passaram a questionar valores centrais da civilização ocidental. Em nome de diferentes causas, virtudes fundamentais do mundo livre passaram a ser enfrentadas de dentro. Ao mesmo tempo, governos que surgiram para servir ao povo ganharam proporções muito maiores do que as concebidas pelos pais fundadores.

Como ensinava Newton, toda ação provoca uma reação. Potencializada pelo aumento das disputas geopolíticas e da pressão sobre controle migratório, ela veio na forma da ascensão de movimentos nacionalistas e do enfraquecimento da globalização em busca de maior autonomia estratégica. O resultado foi a volta do protecionismo e um mundo cada vez mais fragmentado.

Não precisamos escolher entre esses extremos. O desafio é preservar os princípios que produziram os maiores avanços da história: sociedades abertas, instituições sólidas, liberdade econômica e respeito aos direitos fundamentais. A democracia liberal nunca prometeu perfeição, mas criou as condições para que pessoas livres construíssem inovação e prosperidade.

A melhor homenagem aos 250 anos da Revolução Americana não está em celebrar seu passado, mas em defender, no presente, os valores que fizeram da liberdade o maior instrumento de transformação da história humana. 

Depois da água, a escolha

Denise Dora - Advogada de direitos humanos, ativista feminista e conselheira diretora da Themis - Gênero, Justiça e Direitos Humanos

Há momentos em que uma cidade deixa de ser apenas um território e passa a representar uma pergunta para o seu tempo. Porto Alegre tornou-se um desses lugares. A enchente de 2024 colocou a capital gaúcha no centro da maior catástrofe climática da história do Brasil e evidenciou algo que o debate internacional já reconhece: a crise climática é, também, uma crise de direitos humanos.

Como advogada de direitos humanos e organizadora da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, acompanho discussões em diferentes países sobre os caminhos para enfrentar esse desafio. A pergunta já não é se precisaremos transformar nossos modelos de desenvolvimento, mas como faremos isso e quem participará dessa transformação. A resposta define o sentido da transição justa.

Os eventos extremos revelam as desigualdades que estruturam nossas sociedades. Expõem quem está mais protegido e quem permanece mais vulnerável, quem tem condições de reconstruir a vida e quem depende da capacidade coletiva de garantir direitos. Adaptar cidades, fortalecer instituições e reduzir emissões são objetivos inseparáveis da construção de sociedades mais democráticas.

É nesse contexto que a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, iniciativa que reúne dezenas de atividades voltadas ao enfrentamento da crise climática, ganha relevância. Além de reunir governos, universidades, empresas, movimentos sociais e comunidades, afirma que a reconstrução também é um exercício de imaginação política. Uma cidade que enfrentou uma tragédia dessa dimensão pode contribuir para o debate global não apenas pelo que sofreu, mas pelo que é capaz de construir.

Porto Alegre não escolheu ocupar esse lugar, mas pode escolher o legado que deixará. Transformar a experiência da perda em compromisso público, cooperação e justiça talvez seja a contribuição mais importante que a cidade possa oferecer ao Brasil e ao mundo. 

Direto da Redação - Antonio Carlos Macedo

Retrocesso contra as mulheres

Durante séculos, as mulheres precisaram pedir licença para existir na vida pública. O direito de votar, que hoje parece um princípio elementar da democracia, foi conquistado à custa de muita luta. A Nova Zelândia abriu o caminho em 1893. Os Estados Unidos só garantiram o voto feminino em 1920. No Reino Unido, as sufragistas enfrentaram décadas de resistência até conquistar a prerrogativa de forma plena em 1928. No Brasil, a Constituição de 1934 consolidou a participação política das mulheres, ainda de forma facultativa. A obrigatoriedade exigida dos homens só chegaria em 1965.

Em todos os casos, foi uma vitória arrancada daqueles que insistiam em tratar metade da população como incapaz de pensar, decidir ou participar dos rumos da própria vida. Por isso, causa espanto perceber que, em pleno século 21, surgem movimentos defendendo justamente o contrário.

Nos Estados Unidos, grupos de extrema direita ligados ao nacionalismo cristão e à chamada machosfera passaram a defender a criação do chamado "voto por lar". Na prática, cada família teria apenas um voto, exercido pelo marido. No Brasil, poucos ainda defendem abertamente a revogação do direito, mas aumentam os ataques à forma de exercê-lo. Casadas seriam apenas extensões da vontade do marido. Solteiras votariam movidas pela emoção, sem a racionalidade atribuída aos homens.

É uma tentativa de desqualificar a participação feminina sem assumir explicitamente o desejo de limitá-la. O mais preocupante é que esse discurso encontra apoio até entre mulheres, embalado por uma visão romantizada de um passado em que seu papel era ficar em casa, cuidando do bem-estar do marido e da educação dos filhos. A história mostra que nenhum direito é irreversível. Basta lembrar o Afeganistão, onde o Talibã suprimiu os direitos políticos femininos pela força.

Nas democracias ocidentais, o caminho é mais sofisticado. O ataque não vem por decretos nem por armas, mas por discursos, algoritmos e campanhas digitais que procuram transformar antigos preconceitos em ideias aceitáveis e necessárias. Assim, é preciso reafirmar que o voto feminino não é concessão, nem favor, muito menos privilégio. É um direito fundamental e inegociável. Foi-se o tempo em que metade da população era obrigada a permanecer em casa e calada. _

OPINIÃO

15 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Feridas abertas na relação entre argentinos e ingleses

Falar sobre Argentina e Inglaterra não significa tecer comentários só sobre futebol. É falar de história, reabrir feridas geopolíticas e mexer com os brios especialmente dos hermanos por conta da Guerra das Malvinas, o arquipélago que os britânicos chamam de Falkland Islands e que até hoje mobiliza a opinião pública ao sul do Rio da Prata.

Aquele foi o último suspiro da ditadura argentina. Em 1982, em um arroubo nacionalista, o general Leopoldo Galtieri desembarcou tropas nas ilhas e assumiu o controle da capital, Stanley, batizada de Puerto Argentino pelos rivais.

O governo britânico, na época sob o comando de Margaret Thatcher, a dama de ferro, enviou uma força-tarefa descomunal para o Atlântico sul.

A verdade é que os argentinos levaram uma surra. A guerra durou 74 dias, e o Reino Unido venceu.

Tão interessante quanto é como as Malvinas mobilizam tanto a direita quanto a esquerda. Aliás, esse é um dos poucos assuntos que, para os hermanos, é consenso. Para a esquerda, representa o combate ao neocolonialismo e ao imperialismo britânico na América Latina. Para a direita e os militares, trata-se da defesa da integridade territorial e da honra nacional. Essa reivindicação está, inclusive, consagrada na Constituição, logo é uma política de Estado que nenhum governo - seja peronista ou neoliberal - ousa abandonar. Inclusive o governo atual de Javier Milei mobiliza essa paixão.

Outra curiosidade é que na atual guerra do Irã, como Donald Trump estava magoado com a Otan, que o deixou sozinho no conflito, avaliou suspender ou revisar o apoio diplomático ao Reino Unido na disputa histórica pelas Ilhas.

Ok, mas, afinal, de quem são as Malvinas (ou as Falkland?). Oficialmente, as Nações Unidas reconhecem a disputa. As Ilhas estão na lista de Territórios Não Autônomos desde 1946, e o Reino Unido aparece como potência administradora. Em 1965, a ONU aprovou a Resolução 2065, reconhecendo formalmente o conflito de soberania e pedindo que os dois países buscassem uma solução pacífica.

A Argentina diz que herdou os direitos da Espanha depois de declarar sua independência, em 1816. Também garante que os britânicos expulsaram as autoridades argentinas em 1833 e passaram a ocupar ilegalmente o território. Já o Reino Unido diz que administra continuamente as ilhas desde 1833, com exceção da ocupação argentina durante a guerra de 1982. E apresenta outro argumento: o direito dos próprios moradores de decidir o futuro do arquipélago. Em 2013, foi realizado um referendo. O resultado foi esmagador: 99,8% dos votos válidos foram favoráveis à manutenção do vínculo com o Reino Unido. Para os britânicos, esse resultado comprova o direito à autodeterminação. A Argentina contesta esse argumento. Considera os moradores uma população implantada pelo processo de ocupação britânica e afirma que a questão principal não é autodeterminação, mas integridade territorial. O jogo de hoje vai terminar, um dos dois lados irá para a final e a rusga histórica vai sobreviver à Copa. _

01

Como foi a disputa pelas Ilhas em 1982

As Ilhas Malvinas eram administradas pelo Reino Unido desde 1833, mas a Argentina sempre reivindicou a soberania sobre o território, alegando proximidade geográfica e herança da colonização espanhola.

Em 1982, mesmo com o país enfrentando uma grave crise econômica, inflação recorde e protestos sociais contra os abusos de direitos humanos, a ditadura argentina enviou tropas ao arquipélago. A junta militar viu na invasão uma oportunidade de apelo nacionalista para unificar a população e desviar a atenção de problemas internos.

No dia 2 de abril daquele ano, soldados argentinos desembarcaram em Port Stanley, rendendo a pequena guarnição de fuzileiros navais britânicos sem causar mortes, em uma tentativa de evitar uma reação armada imediata de Londres.

A superioridade tecnológica, a inteligência de combate e o treinamento das tropas britânicas rapidamente superaram as forças armadas argentinas, formadas em grande parte por recrutas conscritos que sofriam com a falta de suprimentos e de agasalhos adequados para o frio extremo.

No dia 14 de junho de 1982, o comando argentino nas ilhas assinou a rendição.

Um dos marcos do conflito foi o afundamento do navio General Belgrano, joia da marinha argentina. O ditador Leopoldo Galtieri renunciou quatro dias depois do final da guerra. Os argentinos perderam 649 militares em combate. Os britânicos sofreram 255 baixas militares (além de três civis). O conflito durou de 2 de abril a 14 de junho de 1982.

Dias atuais

Atualmente, o arquipélago continua sob administração britânica, com o status de Território Ultramarino. Aliás, um referendo realizado em 2013 apontou que a população local votou esmagadoramente (99,8%) a favor de continuar sendo um território do Reino Unido. No entanto, o governo argentino não reconheceu a votação, argumentando que a população local foi implantada pelos ingleses. _

Tramontina doa 1,7 tonelada de utensílios para a Venezuela

A empresa gaúcha Tramontina, por meio de sua unidade na Colômbia, realizou a doação de um amplo conjunto de produtos para apoiar as comunidades afetadas pelos terremotos que atingiram a Venezuela no fim de junho. As remessas reúnem cerca de 2 mil itens, entre ferramentas e utensílios essenciais para as atividades de reconstrução e para o dia a dia das famílias. O lote inclui carrinhos de mão, pás, picaretas, enxadas, martelos, marretas, cavadeiras, facas, talheres, panelas, frigideiras e cadeiras, totalizando cerca de 1,7 tonelada de donativos. _

Gaúcho em MSF debate HIV

O epidemiologista gaúcho Antonio Flores, de Médicos Sem Fronteiras (MSF), participa no dia 30 de julho de uma das mesas da 26ª Conferência Internacional sobre a AIDS, o maior evento global dedicado ao tema, realizado no Rio de Janeiro no final deste mês. Em pauta, o acesso ao lenacapavir, tecnologia médica apontada como uma das maiores inovações na prevenção ao HIV nas últimas décadas. Antonio trabalha atualmente para MSF na África do Sul.

Embora tenha potencial para transformar a resposta à epidemia, a tecnologia permanece fora do alcance de milhões de pessoas devido a preços elevados, acordos restritivos de licenciamento e limitações na oferta. O debate propõe uma reflexão sobre quem tem acesso às inovações em saúde e quais barreiras ainda impedem que avanços científicos cheguem a quem mais precisa. _

correção

Uma das empresas americanas que pedem exclusão de itens brasileiros do tarifaço de Donald Trump é a Siemens Energy e não o Grupo Siemens como informado no texto principal da coluna de ontem. _

INFORME ESPECIAL