quinta-feira, 2 de julho de 2026

02 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Quem é feliz, facilita

Quem é feliz, facilita. Facilita o dia, a conversa, o caminho, o convívio, a vida.

Nem tudo é disputa. Nem tudo é ter razão. Nem tudo é levar vantagem.

Aqueles que facilitam são mensageiros de boas vibrações. Transformam a energia de um lugar. Não precisam vencer discussões, provar ponto por ponto. Entendem que a convivência não é um tribunal.

Ainda que enfrentem contas, perdas, frustrações e despedidas, como qualquer um, não estacionam na amargura.

Não complicam o simples. Não demoram para responder. Agradecem. Pedem desculpas. Riem como forma de compreender. A leveza é o combustível para ir longe. Existem pessoas que chegam e todos ficam tensos. Existem pessoas que chegam e todos respiram.

Existem pessoas que carregam uma tempestade interna para a qual não há palavra que sirva de teto. Você se adapta e elas se apresentam insaciáveis. Nenhuma mudança as satisfaz. Não há o limite da gratidão ou do reconhecimento. Acham que é obrigação geral gravitar em torno de suas mágoas, suas reclamações, seus ressentimentos.

A felicidade, pelo contrário, produz generosidade. Produz espaço. Produz acolhimento. Não me refiro a quem nunca sofre. Não se é feliz o tempo inteiro. A alegria não é a ausência de adversidades, mas a capacidade de não converter copos d?água em maremotos, incômodos passageiros em irremovíveis obstáculos, aborrecimentos superficiais em fundas desavenças. A ansiedade ou a aflição prolongam um desconforto que tem hora para acabar.

Isso não significa que aceitem migalhas, que sejam passivas, que não expressem sua opinião, que não exponham sua personalidade ou que se mantenham em cima do muro. Apenas evitam conflitos desnecessários. Quando urge dizer não, dizem sem humilhar. Quando urge corrigir, corrigem sem diminuir o interlocutor.

São condutoras da esperança de que haverá um jeito, um conserto, uma maneira certa de falar, um momento adequado de intervir.

A comunicação é macia. Sua presença alivia o ambiente, impõe o carisma da confiança. Perguntam quando percebem um estremecimento. Oferecem uma segunda chance de esclarecimento e paciência para não deixar os enganos prosperarem.

Preferem interpretar bem antes de julgar mal. Dão ao outro o benefício da dúvida. Sabem que uma frase torta não define a retidão do caráter. Sempre partem do princípio de que podem ter escutado errado.

Não que se envaideçam como se fossem insubstituíveis, porém despertam o melhor de cada um, o melhor ao seu redor.

Essas lideranças do contentamento se destacam pelo despojamento, por uma humildade inclusiva, tratando os demais com respeito sem procurar privilégios. Não se condicionam ao sobrenome, à função ou à origem. A aparência sequer influencia sua postura. Agem de modo igual com os que exibem e os que não exibem posses.

Legam uma impressão rara: a de que o mundo é mais habitável depois de sua passagem. Quem é feliz, facilita. Não porque tenha tido facilidades, mas porque decidiu não dificultar para mais ninguém. 

CARPINEJAR

02 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

A farra das bondades com o chapéu alheio

Em uma era de crises institucionais recorrentes, em ao menos um aspecto os três poderes da República estão plenamente sintonizados. Não há preocupação do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em contribuir para a saúde das contas do país. O clima é de porteira aberta para distribuir bondades, benefícios e regalias por vantagens eleitorais e corporativas. O fato de a fonte dos recursos distribuídos para grupos localizados ou já privilegiados ser o contribuinte também parece importar pouco.

Foi frustrante a decisão desta semana do Supremo Tribunal Federal (STF) de flexibilizar regras para o pagamento dos chamados penduricalhos para categorias como juízes, promotores e procuradores. Ao fim, voltou atrás em parte do limite que a própria Corte havia colocado nesses desembolsos em março. O rompante moralizador arrefeceu rapidamente. A decisão do Supremo legitima contracheques que podem extrapolar em até 70% o teto constitucional de R$ 46 mil. Ou seja, R$ 32,4 mil extras.

A farra das bondades com o chapéu alheio é puxada pelo governo federal, que deveria ter a maior responsabilidade com as finanças do país. Mas, premido por uma batalha pela reeleição que deve ser renhida, devido à rejeição significativa à administração petista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não titubeia em abrir as torneiras dos gastos públicos, dos subsídios, da ampliação oportunista de programas sociais e de medidas de estímulo ao crédito.

Estima-se que o conjunto de programas e benefícios criados ou turbinados pelo Planalto alcance em torno de R$ 200 bilhões. São medidas que ampliam despesas ou impulsionam o consumo de forma artificial. O bem-estar que esse tipo de artifício gera entre os favorecidos é fugaz. Ao cabo, gera uma inflação mais resistente e ameaça o ciclo de corte de juro pelo Banco Central, com reflexo nos próprios níveis de endividamento e de inadimplência.

O Congresso, no mesmo embalo da gastança como se não houvesse um Brasil a administrar pós-eleição, tem o seu próprio cardápio de pautas-bomba com a ampliação da imunidade tributária para igrejas, aposentadoria especial para agentes de saúde e um projeto de lei para aumentar o piso de médicos e dentistas. O governo federal, que minimiza o impacto de seu pacote de bondades, mostra preocupação com as matérias que tramitam na Câmara e no Senado, que poderiam gerar gastos de mais de R$ 100 bilhões por ano. O Planalto ameaça judicializar esses temas e o ministro do STF Gilmar Mendes chegou a propor, no mês passado, uma súmula da Corte para conter pautas-bomba no Congresso. O freio de correção, portanto, viria do mesmo poder que nesta semana deu exemplo de pouco zelo com o dinheiro público quando estavam em jogo vantagens para quem já está no topo das carreiras mais bem pagas do país.

Enquanto isso, em virtude do crescimento das despesas acima das receitas, a Instituição Fiscal Independente (IFI) projetou na semana passada que a dívida bruta do governo, em trajetória explosiva, pode atingir 115% do PIB em 2036 - hoje está em 80,1%. O próximo governo terá que tomar decisões difíceis. Os sacrifícios terão de ser compartilhados pelos demais poderes. _

OPINIÃO RBS

02 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER

Política e poder - Henrique Ternus - (Interino)

Vídeos de Michelle não impactaram

Se levar em conta a pesquisa impugnada por apresentar os áudios de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, o pré-candidato do PL não desidratou desde o último levantamento AtlasIntel como previam os adversários - e alguns aliados.

Flávio pontuou 36,6% na simulação de primeiro turno divulgada ontem, que não exibe os resultados da pesquisa anterior, de maio, pois foi suspensa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Naquele levantamento, Flávio atingiu 34,3% e constatou queda de 5,4% em relação a abril.

Isso significa que o vídeo de 24 minutos da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em que critica os enteados Flávio e Eduardo, não impactou a candidatura do filho mais velho de Jair Bolsonaro. Não foi por falta de conhecimento do eleitor: a AtlasIntel fez nove perguntas sobre o caso, depois de aplicar as tradicionais questões sobre em quem o eleitor pretende votar.

O instituto questionou os eleitores sobre quem é mais fiel a Bolsonaro, listando uma série de nomes, entre os quais os de Flávio, Eduardo e Michelle. Depois perguntou se o entrevistado ficou sabendo e assistiu ao vídeo de Michelle e se acha que ela está certa. Essas respostas, entretanto, não foram publicizadas.

No segundo turno, Flávio não conseguiu recuperar o baque sofrido na pesquisa suspensa, e manteve a diferença para Lula. O candidato do PL pontuou 42,3% contra 48,8% do presidente. Em abril, os dois estavam empatados em praticamente 48%. Depois do vazamento do pedido de dinheiro para o dono do Master, Flávio caiu para 41,8%, enquanto Lula ficou estacionado.

O petista, inclusive, tem mais motivos a comemorar. A pesquisa também questionou sobre o envolvimento de Jaques Wagner com Vorcaro e sua saída da liderança do governo no Senado. Lula, entretanto, manteve o patamar das últimas rodadas.

Já a avaliação do governo sofreu um pequeno impacto. Em maio, 42,9% dos eleitores consideravam o governo Lula bom ou ótimo. Um mês e meio depois, 39,7% do público questionado manteve o entendimento.

A nova pesquisa ouviu 5 mil eleitores com 16 anos ou mais, entre 25 e 30 de junho. O levantamento tem nível de confiança de 95% e margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos. O registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é BR-04582/2026. _

MEIs poderão ocupar Pop Center

Será sancionada na segunda-feira a lei que permite que microempreendedores individuais (MEIs) e microempresários ocupem lojas vagas no Pop Center, no Centro Histórico de Porto Alegre. O prefeito Sebastião Melo fará a assinatura das novas regras em cerimônia no local.

Até agora, a ocupação estava restrita a comerciantes populares, anteriormente chamados de "camelôs", que continuam com a preferência.

Atualmente, o Pop Center registra índice de vacância de 32,5%, com 251 espaços desocupados de um total de 772. _

Gilberto Kassab é confirmado como vice na chapa de Caiado

O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) confirmou ontem que sua chapa contará com Gilberto Kassab como vice.

Presidente nacional do PSD e um dos fundadores do partido, Kassab foi prefeito de São Paulo e ministro no governo Dilma Rousseff. Mais recentemente, atuou como secretário na gestão de Tarcísio de Freitas.

Em discurso no ato, Kassab afirmou que o PSD "está preparado para dar à sociedade as respostas que ela precisa" e que uma das bandeiras da frente será a redução da carga tributária.

- Temos uma convicção de que a República está podre. Os poderes estão contaminados - disse Kassab. _

Em ato com mulheres, Flávio diz que Michelle está "desinformada"

Numa tentativa de contenção de crise após o vídeo de Michelle Bolsonaro e a reação do aliado Paulo Figueiredo - que fez críticas à ex-primeira-dama e disse que "mulher não sabe votar" -, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, fez um encontro com líderes femininas da direita ontem, em Brasília. Sem as senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF), muito menos Michelle, Flávio tratou de pautas ligadas às mulheres que estarão no plano de governo.

Durante discurso, Flávio disse que fica desconfortável em falar da situação envolvendo a madrasta, por quem diz manter "respeito demais". Entretanto, o filho mais velho de Jair Bolsonaro afirmou que Michelle está "desinformada" por insinuar que ele foi à suposta festa sexual "noite das astronautas", organizada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. _

evitar derrota

A deputada Luciana Genro (PSOL) explicou à coluna que pediu vista da PEC da data-base em acordo com os sindicatos para evitar derrota na CCJ. Naquele momento, havia seis votos contrários a um, e são necessários sete votos favoráveis para aprovação do relatório e autorizar que a medida avance ao plenário. Além disso, segundo a deputada, a medida não estabelece percentuais de reajuste, apenas consolida uma data para a revisão.

POLÍTICA E PODER

quarta-feira, 1 de julho de 2026


01 de Julho de 2026
CARPINEJAR

A Majestade, a bola

A bola oficial da Copa do Mundo é tão completa que só falta falar. Ou apitar o jogo. Desfruta de um sensor que envia dados em tempo real para a arbitragem no VAR. Aquela discussão sobre se ela atravessou a linha do gol ou não acabou por ser extinta.

Eu tive contato com bolas pré-históricas, estilo pneu que murchava. Nem parece que foi nesta vida.

Nas peladas, na várzea, na baba, no rachão da minha infância, nos anos 1970 e 1980, qualquer objeto vagamente esférico nos servia. Já joguei com pedra, com pinha, com bolinha de meia, com novelo de lã.

Experimentávamos um confronto de natureza totalmente livre e selvagem. Escolhíamos os times, um sem camisa e o outro com camisa. Delimitávamos o campo, que podia ser na rua ou num terreno de areia. Improvisávamos goleiras com chinelos, tijolos ou nas portas de garagem.

Em grande parte das vezes, atuávamos descalços. Aceitávamos impedimentos, marcávamos as faltas de acordo com o grau de violência, de modo consensual entre quem agredia e quem apanhava, e o tempo se resolvia pelo placar: até cinco virava, até 10 terminava.

Quando contávamos com uma bola de verdade, achávamo-nos profissionais. Números definiam o seu tamanho: 1, 2, 3, 4 e 5.

Enfrentávamos a missão de fazer a bola durar. Esfregávamos sebo no couro para não rachar. Mas ela morria cedo, antes dos 10 meses. Sua morte acontecia lentamente, estourando ao chocar em cercas, espinhos de árvores e muros pontiagudos.

Ela ia descascando pelo uso, soltando os gomos. Diferentemente da atual, em que os painéis são colados a quente, formando uma barreira impermeável, a nossa majestade na meninice abria fendas na superfície. Na chuva, a água entrava por esses buracos, encharcava o interior da estrutura e a deixava muito mais pesada.

Você passava a conduzir um coco verde. A bola dobrava de peso, chegando a 800 gramas, quase um quilo. Talvez isso explique a força maior de nossos chutes.

Existia uma pele adicional que rapidamente se desfazia pelos paralelepípedos ou campinhos de terra batida.

Ao longo das semanas, a bola perdia o formato redondo original e se tornava um ovo, ocasionando quiques imprevisíveis para o goleiro ou dificultando os passes e arremates. Tentávamos protelar o seu fim o máximo possível, mas a partida ficava praticamente inviável. Você empurrava para a esquerda e ela rolava para a direita.

A câmara de ar interna (de borracha ou látex) expandia mais para os lados onde a costura estava frouxa, criando calombos.

Sua bexiga saltava para fora. Testemunhávamos uma cena horrível, cheia de barulhos estridentes e gemidos a cada novo toque com a sola dos nossos pés.

Ela agonizava com o abscesso, com a hérnia externa, com a válvula dilatada.

Um sentimento de luto dominava os meninos quando a bola adoecia. Transformava-se numa paciente terminal, incurável. Diminuíamos o ritmo da refrega, das divididas, dos encontrões. Evitávamos o atrito passional. A iminência do adeus despertava uma compaixão, um cuidado, um receio de ser o último algoz a furá-la.

Despedíamo-nos de nossa amiga de tantas alegrias. A bola era profundamente humana. 

CARPINEJAR

01 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

Por que amamos os gatos?

Estou bem acompanhado no meu amor pelas minhas duas gatas, o fã clube do gato é imenso. Não só dentro de casa, o gato virou ícone na internet, há uma saturação imagética dele na cultura digital. O que nele captura a tantos? O homem sempre usou animais para pensar relações sociais, emoções, virtudes e vícios. A raposa é astuta, o leão é corajoso, o cão é fiel, e o gato, o que é?

O gato surgiu como antagonista do rato, isso o marcou arquetipicamente como um colaborador nosso e como oposto do inimigo em comum. O rato é um ser sujo, por viver perto do lixo, no esgoto, impuro; no contraponto o gato é limpo e se é limpo é puro. O rato é noturno, do escuro; nossa imagem de gato é dele deitado ao sol, um ser da luz. O rato é por excelência o animal da contaminação, da peste, e o gato o guardião dessa fronteira. Temos asco pelo rato e atração pelo gato.

O gato é um animal selvagem dentro de casa, predador domesticado mas que nunca foi completamente domado. Isso cria uma tensão: ele é perigoso sem ser ameaçador, próximo sem ser submisso. O cachorro ama você. O gato suporta que você exista. Essa assimetria nos é sedutora.

O gato é um animal que performa o corpo, espreguiça, arqueia, ronrona e lambe-se. É quase exibicionista involuntário. Nós enxergamos sensualidade na sua ioga natural. Não é coincidência que "gatinha" tenha se tornando sinônimo erótico em tantas línguas.

A independência, como valor moderno, também explica o seu sucesso contemporâneo. O gato é o animal do indivíduo urbano hipermoderno, não exige horário, não exige passeio, não exige reciprocidade emocional imediata. É um companheiro que respeita a solidão e sabe esperar.

O mistério é outro engate. O gato é ilegível, a persistência de seu enigma é um obstáculo para que tentemos projetar nele nossos pensamentos, apesar disso, é presente o suficiente para criar vínculo.

Agora que os gatos de rua estão desaparecendo, os gatos tornaram-se aristocratas. Eles levam a vida que gostaríamos de ter. Com todo tempo do mundo para dormir e fruir a existência. Eles são uma oração e um elogio ao silêncio. Eles são o avesso da nossa ansiedade, a pausa da nossa correria, a paz que não encontramos. 

MÁRIO CORSO

01 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Uma eleição negligenciada

Não chega a surpreender, mas preocupa. Uma pesquisa do Instituto Datafolha publicada na segunda-feira mostrou que 67% dos eleitores entrevistados não lembram em quem votaram para deputado federal em 2022. O nível de esquecimento em relação aos senadores e deputados estaduais escolhidos quatro anos atrás é semelhante: 66%.

Sabe-se há muito que as eleições para os Legislativos no Brasil despertam menor atenção dos eleitores em relação aos postos no Executivo. As disputas para presidente da República, governador e prefeito costumam gerar maior mobilização entre os votantes por expressarem de forma mais patente e personalizada o confronto entre grupos políticos antagônicos. O engajamento é ainda maior quando líderes carismáticos estão nas cabeças de chapa e vão para o embate direto nas urnas. 

Persiste também a percepção solidificada pela tradição presidencialista brasileira de que o governante é a figura forte que personifica o poder e tem o condão de comandar o destino da sociedade que o elegeu. A mesma pesquisa Datafolha aponta que apenas 7% dos ouvidos não lembram em quem votaram para o Palácio do Planalto em 2022. Para governador, o percentual sobe para 38%. Mais alto, mas ainda assim muito distante em relação às taxas dos Legislativos.

A imagem em especial de um presidente da República com grandes prerrogativas de mando, no entanto, ficou no passado. O poder do Congresso é crescente. Desde meados da década anterior está em curso um processo de fortalecimento do parlamento ante o Executivo, notadamente pela apropriação gradual de fatias cada vez maiores do orçamento da União por meio das emendas impositivas. O Congresso ficou mais independente em relação ao Planalto. Move-se por conta própria, por interesses corporativos, patrimonialistas ou dos grupos que representa.

Essas razões fazem com que o eleitor precise dar maior importância à eleição para o Congresso, mas também para os demais Legislativos. Deputados e senadores, de maneira mais visível, passaram a ter maior influência sobre os rumos da política do país e, por isso, mereceriam ser escolhidos com critério pela população que vai às urnas. Seria necessária maior conscientização sobre o papel e a importância da função parlamentar, essencial para uma democracia sadia. 

Prestar atenção às propostas, trajetória política e conduta pessoal dos candidatos certamente contribuiria para a formação de um Congresso mais sintonizado com as prioridades do país e ciente de suas funções precípuas de legislar e fiscalizar o Executivo, e não de distribuir dinheiro via emendas.

As pesquisas de opinião atestam que a imagem do Congresso é péssima. Outra sondagem do Datafolha, de agosto do ano passado, mostrou 78% dos entrevistados apontando que os parlamentares atuavam principalmente em busca de interesses próprios. Somente o próprio eleitor dispõe do poder de alterar essa realidade que lembra a advertência, atribuída ao ex-deputado Ulysses Guimarães, de que a tendência era a qualidade do conjunto de deputados e senadores piorar a cada legislatura. Quem não lembra o nome do deputado ou senador em quem votou tem parcela de responsabilidade pelo quadro vigente. 

01 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que explica a indicação de Kassab como vice de Caiado

À primeira vista, a indicação de Gilberto Kassab como vice de Ronaldo Caiado nada acrescenta se partir da premissa de que o companheiro de chapa precisa ser bem diferente do titular para agregar votos que não teria. Em se tratando de Kassab, um homem que conhece as entranhas do poder e tem relações à esquerda e à direita, a indicação da velha guarda do PSD (para não dizer autoindicação) tem lógica. É a mesma que levou Kassab a escolher Caiado e não Eduardo Leite como candidato a presidente.

Kassab não acredita em terceira via. Tem convicção de que a eleição de 2026 será decidida entre a esquerda e a direita - e aqui está o pulo do gato, na expressão de gaúchos que conversaram com ele antes da escolha do candidato a presidente. O presidente do PSD acha que Flávio Bolsonaro (PL) é um concorrente frágil e que vai derreter durante a campanha. É o que também pensa a torcida do presidente Lula, mais por desejo do que por ter informação privilegiada.

Caiado foi escolhido por ser inequivocadamente um homem de direita, com possibilidades de herdar os votos do bolsonarismo caso Flávio se inviabilize. Por isso Caiado não critica os Bolsonaro, se compromete a anistiar o ex- presidente, faz olho branco para a briga entre a ex-primeira-dama Michelle e Flávio.

É possível que Kassab tenha informações privilegiadas sobre o que levou Michelle a chutar o balde na relação com os enteados. Ele mesmo disse a companheiros de partido que há coisas mais relevantes do que o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse e que podem enterrar a campanha de Flávio.

Um aliado de Kassab cogita uma hipótese mais elaborada. Que, morando na casa em que Bolsonaro mora, Michelle teria feito o vídeo calculando milimetricamente o impacto que causaria, deixando aberta a porta para ser candidata a presidente ou mesmo a vice.

Na segunda hipótese, Kassab poderia estar se lançando para "guardar lugar" e negociar a posição ali adiante, com o mantra de unificar a direita contra Lula em uma chapa Caiado- Michelle. São meras conjecturas porque Kassab é uma esfinge que até os mais próximos têm dificuldade para decifrar. _

Assembleia frustra servidores e adia votação da PEC da data-base

Os servidores públicos que se concentraram na Praça da Matriz ontem saíram frustrados com a decisão da Assembleia de não colocar em votação a PEC da data-base, do deputado Thiago Duarte (PDT). A proposta de emenda à Constituição Estadual prevê a revisão geral anual dos salários dos servidores, sempre no dia 1º de março, com base na variação do IPCA.

Foi o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Guilherme Pasin, quem deu início ao debate em sessão pela manhã. Como o partido integra a chapa de Luciano Zucco, o PP tirou do caminho dele uma "pauta-bomba".

No fim, quem barrou o avanço da pauta na CCJ foi a deputada Luciana Genro (PSOL), que pediu vista e adiou a análise pelo colegiado.

Não está em discussão se é justo - todos concordam que é. A questão é se cabe ou não cabe no orçamento. Para que Zucco, se for vitorioso, não precise começar o mandato descumprindo uma norma embutida na Constituição, Pasin apresentou o parecer contrário.

A discussão será retomada na próxima semana. 

Zucco recebe medalha do Mérito Farroupilha

Briga se agrava na família Bolsonaro

A postagem ocorreu no momento em que ela, Michelle, sofre ataques nas redes sociais bolsonaristas por outro vídeo, o do desabafo contra Flávio e seus irmãos, da semana passada.

A pergunta é: quem Michelle pretende atingir ao divulgar o vídeo de um desqualificado como Garotinho? _

Acordo vai ampliar telemedicina

Um acordo assinado ontem amplia os serviços de telemedicina nas unidades de pronto atendimento de Porto Alegre. A parceria foi firmada entre a Secretaria Municipal de Saúde e o Hospital Moinhos de Vento.

A iniciativa utilizará o serviço de telemedicina para atender pacientes com casos de menor gravidade nos horários de maior demanda. _

mirante

Após postar o vídeo de Anthony Garotinho, Michelle Bolsonaro acertou, em reunião com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, a saída da presidência do PL Mulher. Ela também estaria inclinada a desistir de concorrer a senadora pelo DF.

Pelos próximos 15 dias, em razão das férias da titular, a coluna ficará sob responsabilidade dos jornalistas Henrique Ternus e Gabriel Jacobsen.

POLÍTICA E PODER

01 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Cúpula do Mercosul, o palanque eleitoral de Lula

A menos de cem dias da eleição, o presidente Lula transformou a Cúpula do Mercosul, em Assunção, em palco de comício.

Após o discurso lido, ele falou de improviso, defendendo o quarto mandato em meio a um bloco mais heterogêneo do que em outros momentos históricos do ponto de vista ideológico.

Ao citar as eleições presidenciais, Lula comentou que, se reeleito, será o único político da história brasileira a governar em um regime democrático por quatro vezes. Sobraram alfinetadas ao ausente Javier Milei, da Argentina, que, na véspera, divulgou foto com Flávio Bolsonaro:

- E faço isso (tentativa de reeleição) por uma única razão: primeiro, porque eu peguei o país destroçado em 2002 e o reconstruímos. Em 2010, quando entreguei a Presidência, a nossa economia crescia a 7,5%. Tínhamos 54 milhões de pessoas que passavam fome em 2003 e terminamos com a fome em 2014. Quando voltei, em 2023, tínhamos outra vez 33 milhões de pessoas passando fome. Em dois anos e meio, acabamos com a fome outra vez. O Brasil hoje vive a menor inflação acumulada em quatro anos da sua história, a melhor massa salarial da sua história, o menor desemprego.

Segundo Lula, o seu objetivo na disputa eleitoral é evitar que "irresponsáveis" assumam o comando:

- Vou concorrer para poder garantir que o Brasil se mantenha como um país democrático, porque não é possível a gente imaginar irresponsáveis governando um país de 215 milhões de habitantes.

O presidente pintou um cenário de "terra arrasada" em 2023:

- Quando voltei em 2023, peguei um país com 87 mil residências paralisadas, que haviam sido começadas pelo governo Dilma. Encontrei um país sem Ministério do Trabalho, da Mulher, dos Direitos Humanos, da Igualdade Racial, dos Povos Indígenas. Um país em que o Ibama, que é o instituto do meio ambiente, tinha 800 funcionários a menos em 2023 do que eu deixei em 2010. Era um país de terra arrasada.

Apesar do tom eleitoral, o presidente encerrou defendendo a blindagem do bloco regional, argumentando que a integração deve avançar independentemente dos resultados das urnas.

- O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente, senão a gente nunca vai ter um bloco realmente forte funcionando. Então, eu queria dizer para vocês uma coisa: acreditem, independentemente de quem seja eleito no Brasil, o Mercosul continuará sendo prioridade para o país.

Além de Lula (esquerda) e Milei (direita, libertário), governam os países do bloco Santiago Peña, no Paraguai (direita), Yamandú Orsi, do Uruguai (esquerda) e Rodrigo Paz, da Bolívia (direita). A Venezuela continua suspensa do bloco. _

Pix para os hermanos

A poucos dias de o Brasil sofrer a aplicação de novas tarifas de 25% pelos EUA por causa do Pix, Lula destacou a ferramenta comercial como uma experiência nacional bem-sucedida e sugeriu a expansão do modelo para os países do Mercosul.

- Experiências nacionais bem-sucedidas devem ser compartilhadas entre os países do bloco. O Pix, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital. Sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos que beneficiará todos os cidadãos do Mercosul. A integração financeira reduzirá custos, fortalecerá o comércio intrabloco, ampliará o uso de moedas locais e aumentará nossa resiliência frente a choques externos - afirmou Lula em discurso na Cúpula de Líderes do bloco.

A declaração do brasileiro ocorre na véspera do prazo final, hoje, para o início das tentativas de reverter as sanções que o governo americano ameaça impor. Até hoje, o governo deve enviar seus comentários por escrito sobre as medidas propostas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Na segunda-feira, o órgão realizará uma audiência pública para debater o tema. O desfecho ocorre no dia 15, prazo legal para a definição e a eventual aplicação das retaliações contra o Brasil. _

Um recado para Trump

Mesmo sem citar nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente Lula mandou um recado ao americano durante seu discurso na Cúpula de Líderes do Mercosul, em Assunção, no Paraguai:

- Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses - afirmou Lula. _

Fisioterapeuta gaúcho em premiação internacional

A criação e adaptação de bonecos lúdicos a partir de objetos hospitalares para o atendimento de crianças internadas no Hospital Criança Conceição (HCC), em Porto Alegre, garantiu ao fisioterapeuta Diego Kurtz um lugar entre os finalistas de um prêmio internacional.

Trata-se do IDEA Awards. A distinção reconhece iniciativas que utilizam práticas cênicas na humanização do ambiente hospitalar pediátrico.

Diante das barreiras sanitárias da UTI pediátrica que impediam a entrada de brinquedos e bonecos tradicionais no setor hospitalar, o profissional passou, ainda em 2005, a transformar objetos do cotidiano hospitalar em ferramentas de interação, como luvas, estetoscópios e esparadrapos, entre outros utensílios.

O anúncio dos vencedores ocorrerá em novembro e a cerimônia de premiação em julho de 2027, nos EUA. _

Figurinhas do Brasil no álbum da ONU

Em ritmo de Copa do Mundo, o braço da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil fez um álbum de figurinhas virtual com os brasileiros que ajudaram a construir a história da entidade.

O órgão completou 80 anos em 2025. As "figurinhas" são:

Sergio Vieira de Mello

Dedicou sua vida à promoção da paz e da cooperação internacional

Bertha Lutz

Advogou pelos direitos das mulheres na elaboração da Carta da ONU

Oscar Niemeyer

Ajudou a projetar a sede da ONU em Nova York

Oswaldo Aranha

O gaúcho do Alegrete presidiu a primeira sessão especial da Assembleia Geral da ONU

Márcia Andrade Braga

Premiada pela ONU por promover a igualdade de gênero nas forças de paz

José Graziano da Silva

Líder global da FAO de 2012 a 2019

Nicole Bergener Guimarães

Atuou em missões de paz da ONU em Kosovo, Congo e Haiti

José Augusto Linggren Alves

Liderou as delegações brasileiras nas conferências da ONU nos anos 1990

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 30 de junho de 2026

30 de Junho de 2026
CARPINEJAR

O medo de perto

Foi nos últimos minutos. Foi de virada. Foi épico. Foi dramático. A Copa enfim começou para o Brasil. E, por pouco, não terminou precocemente.

O Japão achou um gol no primeiro tempo, a partir de um passe bisonho de Danilo. E não ameaçou mais. Passou a partida inteira se defendendo, num ferrolho, numa fortaleza medieval.

O triunfo canarinho veio no sufoco, na adrenalina, no desespero, nos acréscimos, com um arremate chorado de Martinelli.

Aliás, Casemiro e Martinelli juntaram os elos de duas gerações. Um veterano recolocou o time no páreo com uma cabeçada, um atacante mais jovem decidiu a classificação. A experiência e a renovação se completaram.

A torcida deixou a sua voz na tarde de ontem, em Houston, e tem até as oitavas de final, no domingo, para se recuperar da emoção afônica.

Diante de um elenco japonês fabril, organizado e operário, a Seleção Brasileira se mostrou raçuda. A superioridade se originou exclusivamente da superação, não resultou da técnica ou do talento individual.

Não desmoronamos psicologicamente com o golpe. Se não houve beleza, a sobrevivência acabou premiada. Talvez tenha sido a primeira vez que o Brasil apresentou espírito coletivo na competição. Não me refiro a entrosamento, mas ânimo para correr atrás de uma desvantagem que abortaria o sonho do hexa.

Fazia tempo que não revertíamos um placar adverso no mata-mata. Isso não acontecia desde a vitória sobre a Inglaterra, nas quartas de final de 2002. O destino novamente interveio a nosso favor e colaborou com o técnico Carlo Ancelotti. O meio-campista Paquetá se machucou, cedendo espaço para Endrick.

Rayan e Vinícius Júnior ficaram bem abertos, para dar profundidade pelos lados. Bruno Guimarães voltou a brilhar como garçom. Para uma formação atípica em sua história, sem laterais abastecendo ofensivamente, a estratégia vingou, cancelando as tentativas inúteis pelos ataques frontais.

Do que nos lembraremos desses dezesseis avos é do quase gol de placa de Vinícius Júnior. Assim como os famosos gols não feitos de Pelé na Copa - a meia-lua no goleiro uruguaio e o chute do meio de campo em cima da Tchecoslováquia.

Vini, num lampejo de Ronaldinho Gaúcho, pôs caprichosamente a bola entre as pernas do capitão do Japão, Takehiro Tomiyasu, humilhando o zagueiro do Arsenal. Na sequência, entortou mais um defensor e finalizou cruzado.

Suzuki espalmou com as pontas dos dedos, e recebeu a bênção aliada da trave. Por um detalhe, aquela caneta perfeita não escreveu o mais inesquecível verso de suas chuteiras. Kento Shiogai, dos samurais azuis, polemizou dizendo que o Brasil não era como o de antigamente. Não metia medo como outrora. Realmente, ele estava certo. Mas ainda é melhor do que o Japão.

Seguimos com aproveitamento de 100% em confrontos com equipes asiáticas.

O que esperamos é que o sacolejo produza união, que a tensão acirre a coragem, que o ensaio de uma despedida fermente confiança no grupo. Conhecemos o fim de perto, e que seja o nosso promissor início. _

CARPINEJAR



30 DE JUNHO DE 2026
NILSON SOUZA

A glória e a desgraça

O que realmente encanta e comove no esporte mais popular da Terra são os heróis e vilões improváveis. Nessa condição, pelo lado positivo, despontou o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, que ajudou a seleção de seu país a alcançar o feito histórico de, na condição de estreante, alcançar a fase eliminatória do Mundial. Aos 40 anos, o cabo-verdiano Josimar José Évora Dias consagra-se como herói nacional ao mesmo tempo em que se torna símbolo de resistência ao etarismo e de superação a adversidades, por seu passado de menino pobre criado pela avó.

Do lado ruim da moeda do destino ficou seu colega de posição, o uruguaio Fernando Muslera, também de 40 anos, que cometeu falhas em jogos importantes e acabou sendo apontado por torcedores e cronistas esportivos como principal responsável pela eliminação da seleção do seu país. 

Muslera, que nasceu na Argentina, mas iniciou sua carreira exitosa em clubes uruguaios, entrou na sua quinta Copa como ídolo de três continentes (foi campeão também pela Lázio da Itália e pelo Galatasaray da Turquia) e saiu amaldiçoado por seus patrícios. Foi substituído no intervalo do jogo decisivo sem estar lesionado, quase uma condenação sumária.

Seu drama me fez lembrar outro Fernando, o Pessoa, que sentenciou num de seus poemas mais célebres: "Os deuses vendem quando dão,/ compra-se a glória com desgraça." Penso que os deuses do futebol foram demasiado cruéis com Muslera, mas acredito que ele conseguirá superar esse momento de desamparo porque, no futebol, só os mais corajosos escolhem jogar numa posição que não tolera erros. 

NÍLSON SOUZA

30 de Junho de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Resposta a surto de execuções

Tem de ser contundente a resposta do Estado ao surto de execuções que eclodiu na semana passada em Porto Alegre. Sete mortes entre terça e sexta-feira teriam sido causadas por desavenças entre facções criminosas. A origem da onda de violência ainda é investigada pela Polícia Civil. A principal hipótese é de que o fato detonador tenha sido uma traição amorosa, mas não é descartada a motivação financeira. O essencial, agora, é estancar a barbárie, chegar aos executores e punir lideranças que possam ter dado as ordens para os assassinatos. A reação dura das forças da lei e do sistema de Justiça também é relevante para inibir episódios semelhantes no futuro.

A resposta categórica deve demonstrar que não há a menor hipótese de o poder público tolerar que possa voltar a ocorrer algo minimamente parecido com o que foi observado notadamente em 2016 e 2017, quando os números de homicídios pela guerra entre facções atingiram o auge. Desde então o Estado vem conseguindo diminuir o ciclo de ataques e retaliações entre bandidos, apesar de episódios ocasionais de rompantes de violência, sempre contidos.

É equivocada a percepção de que a matança entre grupos criminosos tem menor importância. Não são raros os casos em que o ciclo de homicídios e retaliações transborda, chega a áreas centrais das cidades e vitima inocentes. As comunidades onde essas facções atuam, formadas na esmagadora maioria por trabalhadores e cidadãos que só querem viver em paz, também têm as suas rotinas transformadas pelo medo. Ontem, em um caso que não teria relação com as execuções da semana passada, um homem ligado a uma facção foi abatido com 25 disparos no bairro Santana. É preciso restabelecer a ordem e a segurança.

O surto de mortes violentas fez a Secretaria de Segurança Pública ativar o protocolo de sete medidas contra homicídios, baseado na teoria da dissuasão focalizada, criada décadas atrás por um professor de Criminologia da Universidade de Nova York, que foi utilizado em cidades norte-americanas. Um de seus princípios é o de saturar com policiais as zonas conflagradas, inibindo atividades criminosas e forçando a paralisação dos atos de hostilidade. A ação deflagrada ainda na semana passada já resultou em uma série de detenções. A presença ostensiva também tenta restaurar a sensação de segurança.

As medidas do protocolo incluem ainda a intensificação das investigações, operações especiais, a responsabilização das lideranças criminosas, ainda que já presas, revistas nos presídios e asfixia financeira dessas organizações. Por isso, além da Brigada Militar e das polícias Penal e Civil, dependem também de uma coordenação com o Judiciário e do Ministério Público. O receituário foi adotado na Capital após a constatação de que 80% dos homicídios na cidade eram cometidos pelo crime organizado, em um ciclo de ataques e represálias, e em seguida começou a ser levado para o Interior. Espera-se agora que as demais providências previstas - como as que preveem o bloqueio de bens e capitais e a transferência e o isolamento de líderes das facções envolvidas - sejam aplicadas com firmeza. _

30 de Junho de 2026
INFORME ESPECIAL

Não pode haver recuo

O oitavo homicídio em sete dias, em Porto Alegre, é um teste à vigência do protocolo contra homicídios, aplicado no Estado desde novembro de 2024. A técnica foi criada pelo professor de Criminologia da Universidade de Nova York David Kennedy e trazida para o Rio Grande do Sul pelo delegado Mario Souza, diretor do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa.

Souza é um aficionado pela teoria aplicada em sua pesquisa de doutorado em Direito, iniciada em 2023. A base da reflexão é que a maior parte dos crimes é provocada por uma minoria de criminosos. E, como o próprio delegado costuma explicar em entrevistas, essas pessoas devem receber a atenção máxima do Estado.

Em termos técnicos, no campo policial, essa aplicação concentrada do arsenal do Estado chama-se "dissuasão focada". Envolve, além de Polícia Civil e Brigada Militar, Polícia Penal, Ministério Público e Poder Judiciário.

Um estudo realizado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa comprova a tese: a maior parte dos homicídios em Porto Alegre, cerca de 80%, é executada pelo crime organizado. Ou seja, um grupo pequeno que comete muitos crimes. Foco neles, até asfixiá-los, inclusive economicamente.

A teoria foi aplicada na prática pela primeira vez há quase 30 anos, na Operação Cessar-Fogo, em Boston, que levou à queda dos homicídios. Também foi adotada em Medellín, na Colômbia.

No RS, o protocolo foi assinado em 2024, em Porto Alegre e, depois, replicado para todo o território gaúcho. Já no início de 2025, ele foi usado na Operação Pecado Capital, com transferência de líderes com grau de liderança no crime organizado para isolamento nas penitenciárias. A lógica é que não apenas os autores dos crimes sejam punidos, mas também os mandantes, em geral, nas cadeias.

Funcionou até aqui e é o grande responsável pelo RS ter atingido os menores índices de criminalidade desde o início da série histórica - salvo feminicídios, uma chaga gaúcha. Os oito homicídios acendem uma luz amarela. A resposta do poder público precisa ser entendida pelos criminosos como um aviso de que não haverá recuo. _

A ajuda dos EUA à Venezuela

Os Estados Unidos estão mobilizando uma resposta de ajuda humanitária para os terremotos que atingiram a Venezuela. Foi enviada uma Equipe de Resposta e Assistência a Desastres (Dart) com mais de 250 profissionais, incluindo três equipes especializadas em Busca e Resgate Urbano (Usar), dos condados de Fairfax (Virgínia), Los Angeles (Califórnia) e Miami-Dade (Flórida). Além de homens e mulheres especializados em salvamento, os grupamentos são compostos por cães farejadores. Juntas, as equipes transportam mais de 90 toneladas de equipamentos especializados.

O governo também está trabalhando em parceria com a Starlink para fornecer serviço gratuito de internet via satélite. E está mobilizando US$ 150 milhões em assistência. _

Comunidade judaica em arrecadação

A campanha da comunidade judaica para arrecadar roupas de inverno, cobertores e calçados destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade social já está na rua. Desta vez, o Iom Mitzvah está com formato diferente.

Neste ano, a passagem dos caminhões pelos bairros será no dia 12 de julho. Mas, a fim de ampliar o alcance da iniciativa e facilitar a participação da população, haverá pontos de coleta espalhados pela cidade.

Condomínios, empresas e instituições podem se cadastrar para receber doações e fazer parte da campanha. Também estão sendo aceitos "embaixadores". Para se inscrever, acesse gzh.digital/pontocoleta. _

Moinhos recebe prêmio do MPRS

O Instituto Moinhos Social, braço do Hospital Moinhos de Vento voltado ao atendimento de populações em situação de vulnerabilidade, foi homenageado pelo Ministério Público do RS (MPRS) em reconhecimento ao Projeto Reparador.

A iniciativa recebeu o Prêmio Miguel Velasquez de Direitos Humanos, distinção concedida a pessoas ou instituições que se destacam na promoção da cidadania, na proteção da infância e da juventude e na realização de ações de impacto social.

Em parceria com o MP, o projeto disponibiliza cirurgias plásticas reparadoras gratuitas a vítimas de crimes - especialmente mulheres que sofreram violência doméstica. _

Neto de Jango lança novo livro

Depois do lançamento do livro biográfico E Manchado de Sangue Terás de Crescer, no qual conta a história do envolvimento de sua família com episódios determinantes da história política gaúcha e brasileira no século 20, o advogado e analista político Christopher Goulart, neto do ex-presidente João Goulart, está preparando o lançamento de uma nova obra literária.

Desta vez, trata-se de O Mistério da Casa 3 (Officio), um romance de ficção que trata de relações familiares, poder, ambição e redenção.

O livro tem previsão para o próximo ano, com tiragem inicial de 3 mil exemplares pela editora Officio. 

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Desculpe, Zico. Sei que o seu coração deve estar rachado pela lealdade, entre a gratidão e a pátria.

Entendo o quanto você contribuiu para o desenvolvimento do futebol no Japão, que só alcançou uma possibilidade real de título hoje porque você esteve lá antes. As cerejeiras floresceram nos gramados.

Você é o pai da profissionalização do futebol japonês. Ninguém assimilou a sua escolha. Abdicar do calor do Rio de Janeiro para atravessar os mares e atuar pelo inexpressivo Sumitomo Metals (que se sagrou como o multicampeão nacional Kashima Antlers). Você foi pioneiro, movendo o sol para um lugar inexplorado. Emprestou as asas para a Ásia. Ajudou a fundar a J.League em 1993, transformando um esporte então considerado amador e corporativo, que acontecia dentro de fábricas, numa potência.

Já era ídolo incontestável em 1991, e decidiu recomeçar a carreira sem vestiário, sem arquibancadas, sem holofotes. Coisa de gigante, de estadista.

Apenas Pelé, nos Estados Unidos, arcou com tamanho trabalho na popularização da nossa mentalidade competitiva.

Você é um bushi e merece o nosso respeito. Você ganhou estátua. Você ainda é conselheiro do Kashima, do qual foi diretor técnico. Comandou a Seleção Japonesa na Copa do Mundo de 2006. Virou estrela de mangá e anime e capa de games.

Mas não dá para facilitar. Não podemos deixar que o sonho do Mundial japonês se torne o nosso pesadelo.

Não será agora que a Associação Japonesa de Futebol (JFA) vai atingir o ápice de sua Visão 2050, conhecida internacionalmente como "Plano de 100 Anos". O documento estabeleceu metas ambiciosas, entre elas engajar 10 milhões de torcedores (o público já passou de 12,5 milhões nos estádios, somando suas divisões) e conquistar uma Copa do Mundo até 2050. Resta a margem de 24 anos. Não precisamos apressar a realização do grande objetivo.

O beisebol permanece como o esporte preferido entre os japoneses, porém se vê ameaçado. Culpa sua. Tudo culpa sua.

Os invictos samurais azuis enfrentam a invicta Seleção Brasileira na tarde de hoje. Alguém terá que perder no mata-mata, e que não sejamos nós. Alguém terá que dizer adeus, e que não sejamos nós.

Pena que houve o embate precoce, nos 16 avos. Desejávamos torcer para que o Japão batesse o recorde e estreasse nas quartas.

É uma geração que assusta: com Daichi Kamada, cabeça da equipe; com Ritsu Doan, líder das assistências; com Keito Nakamura, motor pelo lado esquerdo; com Ayase Ueda, homem-gol.

Assusta, mas não provoca pânico.

Trago uma notícia alarmante: Ancelotti inventou um time em pouco tempo. O Brasil vem crescendo no torneio, vem melhorando, vem calando dissidências, vem derrubando apostas. Vini Júnior, criado no Ninho do Urubu como você, assumiu o protagonismo e frustrou a crença dos secadores de que não rende o mesmo com a camisa amarela.

Não somos favoritos a nada: isso é uma vantagem. Humildade gera atenção.

Desculpe, Zico, não queria percebê-lo triste neste dilema salomônico. Não há no mundo indivíduo mais tenso e dividido do que você.

De uma forma ou de outra, tentaremos fazer justiça para o nosso lendário 10.

Está no nosso sangue não aliviar nem com quem amamos. É um mal incurável. Compaixão não existe na guerra. 

CARPINEJAR

29 de Junho de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Friolência

Mudei eu ou mudou o frio? O minuano da razão sopra no meu ouvido que o inverno gaúcho é isso aí mesmo - e que ao contrário das chuvas de 2024 provavelmente não se pode colocar esse martírio invisível na conta das mudanças climáticas. Ou pode?

Mudei eu então. De idade, algumas dezenas de vezes, e de país, nos últimos cinco anos. O fato é que em algum momento, seja por falta de prática ou excesso de quilometragem nos ossos, desaprendi a invernar com o devido estoicismo em Porto Alegre. Dentro ou fora de casa, já não há japona que me acuda ou aquecedor que me baste.

Desde que me mudei para os Estados Unidos, em 2021, tenho voltado todos os anos para passar uma temporada na casa de cá. Essas visitas eram sempre em março, quando o verão ainda combate, e as cobertas só saem do armário para que os ácaros tomem banho de sol. 

Este ano, por motivos de verão texano (mais quente, mais abafado e mais longo do que o verão gaúcho, se é que vocês me acreditam) e Copa do Mundo (torcer com os amigos daqui sempre foi a melhor parte de qualquer Copa), decidi vir em junho e ficar até o final de julho. Afinal, que mal pode fazer um friozinho subtropical para quem já se acostumou com a neve na porta de casa? (Sim, também neva na parte do Texas onde eu moro.) Subestimei um fato empiricamente comprovado por todos os gaúchos expatriados: há invernos muito mais rigorosos, mas só o nosso rengueia o cusco.

O problema prático mais óbvio é a calefação insuficiente. Aquele split que salva da agonia as noites de Forno Alegre sente-se moralmente desobrigado de trabalhar com o mesmo empenho no inverno. Fica ali, preguiçoso, soprando um arzinho morno que não aquece direito o ambiente nem justifica o gasto extra na conta de luz. Poderia pensar que o problema é só comigo se todo mundo que eu encontro não reclamasse das mesmas coisas: as roupas que não secam, o ar que não aquece, os lugares públicos mais gelados do que o frigorífico do súper. 

Eu sabia de tudo isso, claro, mas perdi um pouco o traquejo. Precisei sair para comprar um par novo de pantufas, aceitar um convite para comer um mocotó e repetir 17 vezes por dia a palavra "encarangado" para começar a descongelar o modo "friolência gaúcha" no meu termostato particular. Torçam por mim.

Agora, enquanto escrevo, bate um solzinho na minha janela. É um dia gelado de um céu muito azul e luminoso. E só quem já encarangou muito por aqui sabe exatamente o que isso significa.

...

Faça frio ou faça chuva, vou estar com Kátia Suman, Luís Augusto Fischer e Diego Grando amanhã, às 20h, no Bar Ocidente (Osvaldo Aranha, 960), na abertura oficial das comemorações do aniversário do Sarau Elétrico - que, muito gauchamente, estreou em uma fria noite de inverno, há 27 anos. Passa lá! _

CLÁUDIA LAITANO


29 de Junho de 2026
OPINIÃO RBS

Conforme os dados do Censo Escolar de 2025, conhecidos na sexta-feira, a taxa de abandono no Ensino Médio da rede pública no Estado foi de 2,6%. O abandono ocorre quando um aluno deixa de frequentar as aulas ao longo do ano letivo, enquanto a evasão se refere a estudantes que não voltam à escola no ano seguinte. Em 2023, era de 8,9%. No ano retrasado, caiu para 5,2%. Em 2023, a taxa gaúcha era quase três vezes superior à brasileira. Agora, com a do país em 2,5%, ficaram semelhantes.

Um dos principais motivos a levar o jovem a abandonar o Ensino Médio é a necessidade de trabalhar precocemente para auxiliar no orçamento familiar. Foi por essa constatação que os governos do Estado e federal lançaram mão nos últimos anos de programas de auxílio financeiro a alunos em situação de vulnerabilidade social, para incentivar a conclusão dos estudos.

O Piratini criou, ainda em 2021, o Todo Jovem na Escola. Hoje, beneficia mais de 80 mil estudantes. Prevê R$ 150 mensais para matriculados no Ensino Médio regular e na Educação de Jovens e Adultos e R$ 225 para quem está em escolas de tempo integral ou em cursos técnicos integrados, além de auxílio para compra de material, valor extra por aprovação e prêmios por desempenho. Com o mesmo propósito, o governo federal deu início, em 2024, ao programa Pé-de-Meia, que basicamente garante R$ 200 por mês mais R$ 1 mil a cada ano concluído. O valor anual só pode ser retirado após a formatura no Médio. Um mesmo estudante pode ser favorecido pelas duas iniciativas. Ambas foram aprovadas pelos respectivos Legislativos e são agora ferramentas de Estado.

Merece registro, ainda, a Política de Proteção à Trajetória do Estudante, apresentada em maio do ano passado pelo Piratini. Com o uso de inteligência artificial, identifica alunos em situação de risco, para que passem a ser acompanhados de perto. As ações previstas incluem diálogo com a família, acolhimento e identificação de problemas de aprendizagem, entre outras medidas, para reter o estudante e levá-lo a concluir a jornada escolar.

Ainda que não exista a comprovação por estudos de fôlego de que os programas de bolsa estão diretamente relacionados à queda do abandono, é plausível que essa relação exista. De qualquer forma, a permanência de mais estudantes nas salas de aula, em especial no Rio Grande do Sul, é esperança de futuro melhor. Jovens que deixam a escola têm a vida profissional prejudicada. Tendem a perpetuar o ciclo da pobreza. Por outro lado, ter capital humano mais bem formado e produtivo é essencial para a competitividade da economia gaúcha. Para isso, também é primordial começar a avançar de forma robusta na aprendizagem. 

OPINIÃO RBS