Candidato do PL, Flávio Bolsonaro fez 47,03% dos votos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsonarista e petista disputam o segundo turno no dia 25. Direita também conquista vitórias expressivas no Senado, na Câmara dos Deputados e nas eleições governamentais
Por que o Brasil deu uma guinada à direita
Conforme estava previsto pelas pesquisas de intenção de voto, o Brasil adiou a escolha do presidente da República para o segundo turno das eleições, que acontece no dia 25 deste mês. No primeiro turno, disputado ontem, o candidato Flávio Bolsonaro (PL), de direita, saiu na frente, com 47,03% dos votos válidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de esquerda e que tenta se reeleger, veio atrás, com 45,16%. Os demais candidatos, somados, não chegaram a 8%.
O que a maioria das pesquisas não previu é que Flávio, 45 anos, hoje senador pelo Rio de Janeiro, sairia na frente de Lula no primeiro turno. Quase todas apostavam na situação inversa. Mas o candidato do PL disparou na contagem dos votos e em nenhum momento sua liderança foi ameaçada pelo atual presidente.
Segundo especialistas consultados por Zero Hora, os indecisos já tinham, de fato, feito sua escolha - só não queriam expor sua opinião. As pesquisas de intenção de voto estimavam que o contingente de eleitores que ainda não tinham decidido a quem apoiar ficavam entre 10% e 20% dos consultados, na última semana da corrida eleitoral. E a maioria desses que deixaram para a última hora escolheu Flávio.
O sociólogo Rodrigo Prando, professor da Universidade Mackenzie, considera Flávio Bolsonaro o grande favorito para vencer a eleição e diz que Lula está em situação dificílima.
- Primeiro, porque a distância dele em relação a Flávio Bolsonaro é bem maior do que mensurada pelas pesquisas. Segundo, porque todos os candidatos que saíram à frente no primeiro turno foram eleitos, desde 1989. São sete casos. E no Senado e na Câmara as bancadas eleitas são majoritariamente de direita, o que dificulta a posição de Lula e facilita o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) - analisa Prando.
O sociólogo vai além e aponta um fenômeno curioso: a maioria dos jovens parece ter se inclinado por apoio a Flávio Bolsonaro, um candidato assumidamente conservador. Sinal dos tempos e de uma mudança cultural dos brasileiros, talvez.
O cientista político e filósofo Fernando Schuler, professor do Insper (instituição de Ensino Superior), considera decisivo que muitos jovens votaram em Flávio Bolsonaro "por cansaço da retórica paternalista de governantes que pouco valorizam o mérito". Ele lembra que o Brasil tem mais de 15 milhões de microempresas (MEI), criados numa economia digital e em novas formas de trabalho.
- E a esquerda tem dificuldade de dialogar com eles, que não atuam no velho modelo sindical - comenta Schuler.
Sobrenome e slogan
Flávio carrega um sobrenome que se confunde com a história recente do conservadorismo brasileiro - ou extrema-direita, como preferem designar seus adversários. Chega ao poder embalado no slogan Deus, Família e Propriedade que caracterizara o governo do seu pai, Jair Bolsonaro, eleito presidente da República em 2018 e hoje condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.
Essa é a terceira vez seguida em que lulismo e bolsonarismo disputam o destino da nação. Conforme especalistas, Flávio Bolsonaro foi beneficiado pelo voto útil do eleitor de direita, que deixou de apoiar outras candidaturas antipetistas que se apresentavam como alternativa à polarização e tampouco procurou uma terceira via.
- Essa vitória parcial da direita e extrema-direita se expressa por diversos elementos, entre eles algumas reversões de resultados impressionantes, como é o caso do Rio de Janeiro (onde o favorito para governador, Eduardo Paes, apoiador de Lula, saiu atrás na disputa). Ou no RS, onde o bolsonarismo ganhou em primeiro turno.
O número de senadores eleitos pelo PL é extremamente significativo. Teremos um segundo turno dificílimo para Lula, porque existe um movimento em direção à direita por parte do eleitorado brasileiro - diz Leonardo Avritzer, professor visitante do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
Será o páreo mais duro da trajetória política de Lula, 80 anos, que disputa sua sétima eleição presidencial. O seu oponente, Bolsonaro, venceu não apenas o primeiro turno, mas também montou uma base de apoio sólida país afora. Terá apoio da maioria dos governadores eleitos neste domingo e viu seu partido fazer a bancada majoritária no Senado (o PL elegeu 19 senadores e agora soma 28) e também na Câmara Federal (121 parlamentares).
O bolsonarismo é uma corrente ideológica que galvaniza os votos da direita e é admiradora da ditadura militar que vigorou no país entre 1964 e 1985. Flávio, no entanto, pouco bateu nessa tecla. Prefere se apresentar como uma versão menos estridente e menos controversa do que o pai, o ex-militar e ex-presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com a sentença aplicada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ele perdeu a tentativa de reeleição e, inconformado, teria conspirado para impedir a posse de Lula, vencedor das eleições em 2022.
E uma das principais promessas de Flávio é justamente encaminhar projeto de anistia para o pai, Jair, e mais de 1,4 mil outros condenados pela tentativa de golpe ocorrida entre o final de 2022 e o início de 2023. Seria a sequência de uma série de iniciativas que recentemente levou à aprovação, no Congresso Nacional, da possibilidade de redução das penas dos sentenciados pelo golpe.
Assim como Jair Bolsonaro, Lula também já esteve preso, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi em 2018, no auge da Operação Lava-Jato, que apurava desvios de dinheiro na Petrobras e subornos pagos por empreiteiras a políticos. Ele ficou 580 dias preso numa cela da Polícia Federal (PF). Em 2021, o STF anulou os processos criminais contra Lula, que teve restabelecidos os direitos políticos e venceu a eleição de 2022.
STF e Vorcaro
A eleição de 2026 foi caracterizada por desgastes na imagem dos dois candidatos. Lula sofreu alfinetadas na opinião pública depois que o STF abriu três investigações contra o filho mais velho dele, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. As apurações miram o suposto tráfico de influência e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal - situação que foi explorada em profundidade pela oposição.
Outro episódio que pesou contra foi a descoberta de que o magistrado responsável pela condenação dos implicados na tentativa de golpe de 2023, Alexandre de Moraes, tem telhado de vidro. Ele é suspeito de fazer tráfico de influência, porque sua esposa atuou como contratada no Banco Master, pertencente a Daniel Vorcaro, hoje preso por corrupção e crime organizado. A advogada teria firmado contrato de R$ 131 milhões para defender causas do banqueiro, e os bolsonaristas acusam Moraes de atuar em prol de Vorcaro no STF. A Polícia Federal investiga o caso.
Lula não tem nada a ver diretamente com isso, só que Moraes é visto como algoz do bolsonarismo e aliado do presidente, e os defensores de Bolsonaro espalharam nas redes sociais memes em que o magistrado e Lula são duas máscaras do mesmo personagem.
Outro fator que pode ter contribuído negativamente é a idade. O octogenário Lula aparenta cansaço para a maratona que os candidatos precisam correr nas eleições. A voz está cada vez mais rouca, e a agilidade nas redes sociais não é a mesma exibida por seus adversários.
Mas sobra experiência. Lula se confunde com a história do Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Foi deputado federal e foi derrotado três vezes na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994, 1998), mas também venceu três vezes (2002, 20026 e 2022). É candidato pela sétima vez até porque os petistas não têm um outro nome à sua imagem e semelhança. Nem aliados em potencial, enquanto seus adversários se uniram desde o início da corrida eleitoral.
Já Flávio é alvo de investigação no STF por possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção na produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. O filme teve a maior parte do financiamento custeada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Flávio negou inicialmente qualquer relação com Vorcaro, mas foi surpreendido pelo vazamento de telefonemas em que ele trata o banqueiro como "irmão" e acerta um financiamento de R$ 134 milhões.
O filme que incensa Bolsonaro chegou a receber R$ 61 milhões do banqueiro, antes de ele ser preso. Há uma investigação da PF a respeito. A suspeita é de que parte do dinheiro tenha ajudado a sustentar bolsonaristas hoje refugiados no Exterior, como o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e ex-policial federal, cassado por faltar ao serviço.
Flávio convive ainda com um boato de que o bolsonarismo quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Ele terá de lidar também com o "tarifaço" sobre as exportações brasileiras, decretado por Donald Trump. Como a família Bolsonaro é aliada incondicional do presidente dos EUA, colheu parte da repercussão negativa do prejuízo ao comércio exterior do Brasil. Quando a sobretaxa foi imposta, Lula chamou os bolsonaristas de "traidores da pátria", e parte da sociedade o apoiou, porque foi prejudicada pelo aumento das tarifas internacionais.
Lula conta ainda com boa vontade de grande parte da população pelo pacote de bondades que lançou neste ano. Entre as medidas, estão o reajuste do piso do Bolsa-Família, a ampliação da faixa de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil mensais e um programa de renegociação de dívidas (o Desenrola). Ele também iniciou trâmites para que as canetas-emagrecedoras sejam distribuídas pelo SUS e publicou Medida Provisória (MP) que proíbe bets e cassinos online.