segunda-feira, 27 de abril de 2026


Isadora Jacoby
Editora do GeraçãoE


Inspiração

Hub de empreendedorismo social projeta movimentar R$ 100 milhões em cinco anos em Porto Alegre

Com estúdios multimídias, escritórios e espaço para eventos, o Hub Atividade é uma iniciativa da Associação da Cultura Hip Hop de Esteio

Dando nova vida a um espaço de 200 m², o Hub Atividade se prepara para abrir as portas a partir do dia 8 de maio. O espaço, que tem como foco o empreendedorismo social, é uma iniciativa da Associação da Cultura Hip Hop de Esteio, que também administra o Museu da Cultura Hip Hop RS. Rafa Rafuagi, fundador e coordenador do hub, conta que a iniciativa surgiu a partir da escuta ativa sobre as necessidades dos empreendedores e empreendedoras que compõem a cadeia criativa
O hub ficará no antigo prédio Ibama, na Cidade Baixa, que estava desocupado desde as enchentes de 2024. A concessão do espaço aconteceu por meio do Programa Imóvel da Gente, do governo federal, que articulou a aproximação entre o Ibama e a Associação da Cultura Hip Hop de Esteio. "Ele estava totalmente parado e ocioso, então havia uma série de deficiências, não estruturais, mas na condição do uso desse espaço, e nas adaptações que teríamos que fazer. Era um prédio de repartição pública, e não um prédio projetado para ter um estúdio audiovisual como estamos fazendo", explica Rafuagi. 
O Hub Atividade contará com 33 escritórios para iniciativas que ficarão incubadas por lá, além de diversos espaços ofertados de forma gratuita. "Vamos ter uma loja, uma cafeteria, um espaço gourmet, um auditório para convenções para 100 pessoas, um estúdio multimídia que congrega podcast, videocast, ilha de edição, música, games, audiovisual, fotografia. Além disso tudo, teremos 33 escritórios que estarão disponibilizados para instituições a cada 18 meses num processo de incubação, que vai ter 250 horas de formação", pontua Rafuagi, destacando que esses projetos terão prioridade no uso do espaço. "O espaço vai funcionar em dias  de semana, fins de semana com eventos. Diariamente, vão estar abertos todos os serviços. Em especial os estúdios, que estarão abertos publicamente tanto para quem está incubado tanto para quem não está. Vai ser possível agendar para gravar um podcast, um conteúdo, para produzir um app para game, fazer uma sessão de fotos. Claro que a prioridade é inicialmente dos incubados, mas nós vamos oferecer gratuitamente esses serviços mediante agendamento", contextualiza. 
O Hub Atividade ficará na rua Miguel Teixeira, nº 126 | Hub Atividade/Divulgação/JC
O Hub Atividade ficará na rua Miguel Teixeira, nº 126 Hub Atividade/Divulgação/JC

Metologia e ensinamentos perpetuados

Rafuagi conta que a ideia do espaço surgiu a partir da necessidade de transmitir para mais iniciativas do terceiro setor a experiência adquirida na Associação da Cultura Hip Hop de Esteio. "A formação será ccom aulas semanais de três horas de duração que vão levar com efeito prático o compartilhamento das metodologias exitosas que nós da Associação de Cultura Hip Hop de Esteio criamos e fundamentamos a partir dos outros projetos que já realizamos, a exemplo do Museu da Cultura Hip Hop do RS, a Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, e também levando que essas metodologias sejam replicadas em seus territórios de acordo com a pegada de cada instituição. Não existe fórmula mágica, o que existe é trazer bons exemplos", acredita. 

A contribuição de outros espaços de inovação é destacada por Rafuagi como um passo importante para o desenvolvimento do hub. "A gente teve uma parceria intelectual com o Instituto Caldeira, com o Pedro Valério, que foi um grande parcerio, que nos inspirou no sentido prático. Eu já tinha uma ideia fundamentada, mas fiz inúmeras trocas, baseado na metodologia de funcionamento do Caldeira. Mas o Caldeira atende muitos interesses privados e de grandes empresas, e nós queríamos fazer o contrário, atendendo os interesses do terceiro setor e de entidades sociais que trabalham com todo tipo de público, jovens, adultos, idosos, mulheres, LGBTs, e que a gente pudesse fazer uma qualificação desse terceiro setor", ressalta sobre o papel do hub, que projeta captar investimentos importantes para as iniciativas incubadas. "O hub surge para difundir tecnologias sociais, gerar trabalho e renda, e gerar distribuição de renda, pensando em atrair ate R$ 100 milhões nos primeiros cinco anos e fazer com que as entidades tenham a possibilidade de levantar R$ 1 milhão para levar para os seus territórios."

Inovação como ferramenta social

Nos últimos anos, a temática da inovação ganhou espaço no Estado com a chegada e consolidação de eventos e espaços sobre o tema. Rafuagi ressalta, no entanto, que ainda há um distanciamento de uma parcela de empreendedores em relação ao tema. "Eu também fui, de certo modo, não incluso nesse processo de inovação que está acontecendo no Estado e que atende uma parcela da sociedade, que tem muita grande e infelizmente pouco devolve para o setor social. Nós nunca fomos inclusos como um processo de inovação. Nós inauguramos o primeiro Museu do Hip Hop da América Latina, e nunca nos chamaram para relatar esse case de sucesso, que é uma referência internacional", lamenta. 
A partir dessa perspectiva, a ideia é que o Hub Atividade opere como esse espaço aberto para conexões com empreendedores de diferentes contextos. "Quando pensamos o Museu do Hip Hop, foi por nunca termos visto, pelo menos aqui, nenhuma iniciativa que projetou a cultura hip hop no âmbito da memória e do patrimônio. E agora o hub também é reflexo de não termos tido essa oportunidade em relação à inovação. A inovação não é apenas tecnológica, mas social. Ela inova na criação de soluções para os problemas comuns à sociedade, ela inova projetando metodologias que são de fácil replicação em outros territórios e diferentes contextos, e ela inova principalmente por ser solidária e por difundir gratuitamente seus conceitos que levaram anos a serem materializados e teorizados, e de forma prática induz, no sentido positivo da palavra, as entidades a acelerarem seus rolês, seus negócios e causarem mais impacto e atraírem mais investimento", acredita. 

Festival marca o início do Hub Atividade

Nos dias 8 e 9 de maio, o Hub Atividade abre as portas com um festival, marcando o início das atividades do espaço. "As atrações e a programação são de peso. Vão ter rodadas de negócios, com compradores de três áreas afins de hip hop, audiovisual e música. Estamos trazendo os grandes players da música e do hip hop da América Latina. Estaremos fazendo rodadas de negócios com oportunidades para até 250 vendedores que tenham produtos e projetos. Teremos painéis de mercado com MV Bill, com a Eliane Dias, da Boogie Naipe, e também com o MC Guimê, do Instituto MC Guimê. Teremos painéis com players de mercado, como a Cufa, Instituto Caldeira, Banco do Brasil, e também o governo federal. Além disso, teremos shows e keynotes da Paula Lima, shows com o rapper BK, Ajuliacosta, além de shows locais com Chimarruts, Da Guedes, e outros nomes", adianta Rafuagi, destacando que o objetivo é que o evento entre para o calendário anual de eventos do Rio Grande do Sul. "A proposta é que o evento de inauguração do hub em maio se torne um calendário anual da inovação e da tecnologia social aqui no Estado."
p> Golpes no Imposto de Renda usam medo da malha fina para atrair vítimas

Acesso a informações fiscais deve ser feito exclusivamente pelos canais oficiais, como o site da Receita Federal, o portal e-CAC ou o aplicativo Meu Imposto de Renda

Acesso a informações fiscais deve ser feito exclusivamente pelos canais oficiais, como o site da Receita Federal, o portal e-CAC ou o aplicativo Meu Imposto de Renda

Bruno Peres/Agência Brasil/JC

Gabriel Margonar
Gabriel MargonarEm meio ao calendário do Imposto de Renda, cresce também um outro movimento, silencioso e cada vez mais sofisticado: o de golpes digitais que usam o nome da Receita Federal para enganar contribuintes. Mensagens por e-mail, SMS e aplicativos de conversa simulam comunicações oficiais, com alertas de pendências, dívidas ou risco de bloqueio do CPF. O objetivo é sempre o mesmo: induzir a vítima a clicar em links falsos, fornecer dados sensíveis ou até realizar pagamentos indevidos.
O fenômeno não é novo, mas se intensifica justamente neste período. A própria Receita Federal informou,  no início deste mês, ter recebido relatos de mensagens fraudulentas com tom alarmante, indicando supostas irregularidades na declaração e ameaçando consequências como restrições bancárias, bloqueio de Pix ou inclusão em cadastros de inadimplência. O órgão reforça que não envia links para regularização nem solicita dados pessoais por mensagens.
Para a diretora de Ensino e Educação do Sescon-RS, Caroline Oliveira, o principal equívoco dos contribuintes é acreditar que esse tipo de comunicação pode ser verdadeiro. “A Receita Federal nunca manda e-mail, nunca manda SMS. Mesmo assim, as pessoas recebem mensagens dizendo que a declaração caiu em malha fina e acabam clicando”, afirma.
Segundo ela, os golpes mais comuns exploram exatamente esse momento de insegurança. “Vêm mensagens dizendo ‘sua declaração está em malha, clique aqui’, ou ‘você ainda não entregou o Imposto de Renda’. O contribuinte, com pressa para resolver, acaba confiando no link”, explica. A orientação, reforça, é nunca informar dados fora dos canais oficiais. “A senha do Gov.br é de uso pessoal. Jamais deve ser informada a partir de um link recebido”.
O comportamento das vítimas, muitas vezes, é influenciado pela urgência. “A pressa faz com que a pessoa nem entre no site da Receita para conferir. Ela acredita no e-mail e acaba caindo no golpe”, diz Caroline. Segundo ela, no dia a dia dos escritórios contábeis, é comum que clientes encaminhem essas mensagens para validação. “A gente sempre orienta: não clique, não abra, porque pode ser vírus.”
No ambiente empresarial, os golpes assumem outras formas. A vice-presidente técnica do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS), Eliane Soares, relata aumento de fraudes envolvendo boletos falsos, especialmente de guias do Simples Nacional e Darfs. “Os clientes recebem por e-mail documentos que parecem oficiais, muitas vezes até com o nome do escritório de contabilidade. Só depois percebem que o pagamento iria para outra empresa”, afirma.
Conforme ela, há casos em que os documentos apresentam o nome da Receita Federal, mas trazem CNPJs de terceiros. “Quando vamos verificar, às vezes está em nome de empresas completamente diferentes. Isso dificulta para o empresário identificar o golpe”, diz. Outro tipo recorrente envolve mensagens por SMS ou WhatsApp alertando sobre dívidas inexistentes. “Principalmente para MEIs, dizendo que vão ser excluídos ou desenquadrados.”

Criminosos utilizam engenharia social

Apesar do avanço da Reforma Tributária no debate público, ainda não há registro significativo de golpes diretamente associados ao tema. Tanto Caroline quanto Eliane afirmam não ter identificado fraudes recorrentes usando a reforma como isca. Ainda assim, especialistas alertam que temas complexos e em evidência podem ser facilmente incorporados por criminosos.
O professor Jeferson Campos Nobre, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), explica que esse tipo de golpe se baseia em engenharia social - estratégia que explora aspectos psicológicos das vítimas. “Períodos como o do Imposto de Renda concentram golpes porque as pessoas estão mais suscetíveis. Elas já estão preocupadas com prazos, documentos e possíveis pendências”, afirma.
Segundo ele, os criminosos utilizam tanto a promessa de ganho quanto o medo de punição. “Pode ser uma mensagem oferecendo antecipação de restituição ou alertando sobre malha fina. Em ambos os casos, há um estímulo emocional que leva a uma decisão mais impulsiva”, explica.
A linguagem também é parte da estratégia. “Eles usam termos técnicos, falam de legislação, de faixa de isenção, até de mudanças como a Reforma Tributária, para dar mais credibilidade. Isso sobrecarrega cognitivamente o usuário e aumenta a chance de ele acreditar”, acrescenta.
Outro elemento comum é o senso de urgência. Mensagens que exigem ação imediata - “regularize agora”, “evite bloqueio”, “responda em até 24 horas” - reduzem o tempo de reflexão e favorecem o erro. “A pessoa já está sobrecarregada de informações e acaba reagindo de forma automática”, diz Nobre.
Diante desse cenário, a principal recomendação é simples: desconfiar. Qualquer mensagem que peça dados pessoais, ofereça facilidades ou ameace penalidades deve ser tratada com cautela. O acesso a informações fiscais deve ser feito exclusivamente pelos canais oficiais, como o site da Receita Federal, o portal e-CAC ou o aplicativo Meu Imposto de Renda.
Caroline reforça que, mesmo com a existência de um campo de e-mail na declaração, a Receita não utiliza esse meio para notificação de malha fina. “Se houver problema, o contribuinte deve consultar diretamente o sistema ou receber uma correspondência em casa. Nunca por link enviado”, finaliza.

Brasil pode ser líder na área ambiental, projeta Carlos Nobre

"Brasil tem um enorme potencial para acelerar muito rapidamente a transição energética", avalia cientista Carlos Nobre

"Brasil tem um enorme potencial para acelerar muito rapidamente a transição energética", avalia cientista Carlos Nobre

Fotos: FABIOLA CORREA/JC

Marcus Meneghetti
Uma das referências mundiais na pesquisa das mudanças climáticas, o cientista Carlos Nobre acredita que o Brasil tem condições de ser um líder global na redução das emissões de gases do efeito estufa e na transição energética dos combustíveis fósseis para as energias renováveis.
“Se o País zerar o desmatamento – principalmente na Amazônia e no Cerrado –, isso deve diminuir até 45% das emissões do País”, projeta. Além disso, as fontes de energia limpa são abundantes no território brasileiro, com destaque à geração eólica e fotovoltaica. Segundo Nobre, o Brasil produz 70% dos materiais utilizados na energia eólica, mas importa praticamente todos os painéis fotovoltaicos para a energia solar. A solução seriam acordos comerciais com a China para trazer as fábricas ao Brasil, assim como o dragão asiático fez com a maior fábrica de carros elétricos, a BYD – que instalou uma planta na Bahia. Ele também comentou que a redução de emissões de gases poluentes na atmosfera deve aumentar de dois a quatro anos a expectativa de vida da população urbana no mundo. Além disso, pode evitar a morte de cerca de sete milhões de pessoas por ano no planeta.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Nobre também avaliou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao voltar a investir em combustíveis fósseis, deve gerar retrocessos no processo de transição energética em nível global. O cientista brasileiro também revelou que ficou decepcionado com a China na COP30 de Belém, porque os chineses apresentaram uma meta de apenas 10% de redução das emissões de gases do efeito estufa até 2035. Também comentou a nomeação para ser conselheiro do Papa Leão XIV em assuntos ambientais.
Jornal do Comércio - O senhor esteve na COP 30 realizada em Belém, que foi um momento importante para o Brasil e o mundo no quesito ambiental. Qual a sua avaliação?
Carlos Nobre - Houve alguns aspectos bem positivos. Simbolicamente, foi a primeira vez que a COP reconheceu e valorizou os povos quilombolas. Isso foi colocado na declaração final. Essa COP também avançou bastante na questão de adaptação, criando um setor no conselho (Conselho Científico sobre o Clima) para monitorar todas as necessidades de adaptação de todo mundo. Além disso, todos os países concordaram não só em formar um fundo para acelerar a adaptação (às mudanças climáticas), mas também concordaram que esse fundo tem que ser de, pelo menos, US$ 300 bilhões por ano. O problema é que, até agora, as doações foram pequenas.
JC – Apesar dos avanços, alguns ativistas ficaram frustrados com o resultado. A COP deixou a desejar em algum aspecto?
Nobre - Onde a COP30 não avançou? O Brasil levou duas coisas muito importantes ao evento, os chamados “mapas do caminho”. Um deles previa zerar o desmatamento de todos os biomas do mundo, principalmente das florestas tropicais, até 2030. Ao mesmo tempo, acelerar a regeneração dos biomas degradados. Como a COP precisa de consenso, essa medida não passou...
JC – E qual foi o segundo ponto sem encaminhamento?
Nobre – O mais preocupante foi que não houve consenso para a redução do uso de combustíveis fósseis. A meta era zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis, visto que representam 75% das emissões dos gases de efeito estufa. Só que, até 2025, houve aumento no uso dessa matriz energética. Então, a COP30 não teve avanços em pontos importantes, ainda que o embaixador André Corrêa do Lago tenha deixado muito claro que isso seria muito importante para avançar nos mapas do caminho.
JC - Uma das primeiras coisas que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez, ao assumir a Casa Branca, foi revogar o pacote de transição energética aprovado durante a gestão do ex-presidente Joe Biden. Além de cortar os investimentos em energia limpa, o governo Trump tem investido nos combustíveis fósseis, com diversos projetos de extração de petróleo no Alasca e outros lugares. Na medida que a maior economia global volta a investir em combustível fóssil, isso gera um retrocesso no resto do mundo?
Nobre - É um retrocesso enorme, porque, historicamente, os Estados Unidos foram o país que mais emitiu gás de efeito estufa. De 1850 até o presente, 25% das emissões de gás de efeito estufa foram emitidas de lá. Na época do presidente Biden, e antes até, durante a gestão do presidente Barack Obama, os Estados Unidos tinham a meta de reduzir alguns pontos percentuais das emissões anuais. Isso aconteceria, principalmente, através da diminuição do uso de combustíveis fósseis. O presidente Obama, mas principalmente o presidente Biden, criou mecanismos para acelerar a transição energética. Eles criaram um fundo público de US$ 4 bilhões ou US$ 5 bilhões para acelerar a transição energética.
JC – Isso foi revogado pelo presidente Trump...
Nobre - No seu primeiro mandato (2017-2021), esse novo presidente já tinha sido negacionista, já tinha saído do Acordo de Paris. Agora ele fez de novo. E as emissões aumentaram 2,5% nos Estados Unidos em 2025 em relação a 2024. Em um discurso no Fórum Econômico Mundial na cidade de Davos, ele falou com todo orgulho que tinha aumentado o consumo de petróleo em 830 mil barris por dia nos Estados Unidos. E também falou dos planos de aumentar a produção de gás natural, a reativação de minas de carvão que estavam paradas há muito tempo. Isso é um enorme risco, porque, se os Estados Unidos não acelerarem a redução (das emissões de gases do efeito estufa), será muito difícil zerar as emissões no prazo necessário. Além disso, também tem o risco de outros países desacelerarem a transição por causa disso. Então, é um retrocesso gigantesco.
JC – Apesar disso, a União Europeia continua com o plano de transição energética para fontes renováveis. A China também tem investido bastante nisso. A posição dos Estados Unidos ela vai atrasar a transição energética ou pode cancelar esse plano?
Nobre - É difícil prever. Mas sabe uma coisa que eu não esperava na COP30? Foi a posição da China...
JC – Eles decepcionaram ou surpreenderam positivamente?
Nobre – Veja, por coincidência, eu passei oito dias em setembro (de 2025) na China. Fui dar seis palestras lá. Em todas as palestras, eu falava: “Olha, os Estados Unidos está fora do Acordo de Paris e não vai estar na COP30. Desde 2000, vocês passaram os Estados Unidos nas emissões (de gases do efeito estufa). Mas vocês também são o país que mais tem energia renovável, solar, eólica. Tem mais de 800 mil ônibus elétricos, 140 milhões de motocicletas elétricas. É o país que mais exporta material (para fontes de energia limpa). Ainda assim, vocês são o país que mais emite, 23% a 24% das emissões hoje.” Aí eu sugeri: “Cheguem na COP30 e liderem tudo. Vocês serão um grande líder.”
JC – E como a sugestão foi recebida?
Nobre - Todo mundo concordou. Aí o que que aconteceu na COP30 foi um enorme desapontamento. Todos os países tinham que colocar suas metas voluntárias para redução das emissões. E tinham que colocar, no mínimo, 50% de redução das emissões até 2035 em relação às emissões de 2019. A União Europeia colocou metas até mais ambiciosas: reduzir 67%. O Brasil colocou a sua em 50%. Mas a China definiu que ela vai reduzir apenas 10% das emissões até 2035. Isso dá uma média de 1% ao ano. E outros países também fizeram isso.
JC - O Brasil sempre teve um papel de liderança nas questões ambientais. Se perdeu um pouco desse protagonismo durante o governo Jair Bolsonaro (PL), porque diversos membros da administração negavam as mudanças climáticas publicamente. Como o senhor enxerga o papel do Brasil hoje no cenário global?
Nobre - O Brasil tem toda a condição de liderar globalmente a busca por soluções na questão das emissões de gases do efeito estufa. O Brasil tem sido, na média, o sexto maior emissor. No Brasil - diferente da China, Europa e Estados Unidos - 70% das emissões são oriundas dos usos da terra. Entre 40% e 45 vêm do desmatamento, principalmente da Amazônia e do Cerrado. Algo entre 22% e 23%, são emitidos pela agropecuária, principalmente a pecuária. E de 20% a 23%, são emissões dos combustíveis fósseis. Então, é muito importante zerar o desmatamento no Brasil.
JC - Com isso, a gente já reduziria quase metade das emissões de gases do efeito estufa no Brasil...
Nobre - Em 2025, o País teve uma grande redução do desmatamento, quando todos os biomas registraram queda no desmatamento, principalmente os dois mais atingidos: o amazônico e o Cerrado. Além disso, o Brasil tem a meta de zerar o desmatamento até 2030. Então, até 2030, a gente já reduziria até 45% das emissões.
JC - Mas, ao lado disso, o Brasil precisaria tomar outras medidas para zerar as emissões...
Nobre - Lógico, o país também precisa acelerar a transição energética. O Brasil tem toda a condição para isso, porque é um país tropical, tem muito sol. O Nordeste tem uma gigantesca quantidade de energia eólica, do vento. Tem várias formas de energia renovável que vem dos oceanos também. O Brasil tem um enorme potencial para acelerar muito rapidamente a transição energética. Inclusive, lançamos na Academia Brasileira de Ciência, depois relançamos na COP 30, um estudo que mostra como o Brasil pode zerar as emissões de gases do efeito estufa até 2040. Podemos ser um grande líder mundial nesse setor.
JC – Como é a indústria brasileira dos insumos para a transição energética? O País produz, por exemplo, os painéis fotovoltaicos e outras tecnologias para as energias limpas?
Nobre – Todos os painéis fotovoltaicos são importados da China, que é o maior produtor. A China, nos últimos anos, fez o custo do painel solar cair bastante. Um país desenvolvido é um país industrializado. Acredito que o Brasil tem que buscar fazer negociações com a China. Por exemplo, tem um bom exemplo dos carros elétricos dessa empresa chinesa BYD, que é a maior produtora de carros elétricos. Inclusive, ela tem um acordo com o Brasil para produzir os veículos na Bahia, onde a planta já está montando um grande número de carros elétricos em território brasileiro. Julgo que o Brasil deve buscar esse tipo de parcerias e trazer para cá as empresas de painéis solares.
JC – Essa indústria de materiais para as fontes de energia renováveis pode garantir viabilidade econômica para a transição energética?
Nobre - Hoje, o custo da energia renovável eólica e solar caiu tanto que, aqui no Brasil, elas custam um terço e um quarto da geração em termelétricas e gás natural (respectivamente). Isso traz uma enorme economia ao País, porque a energia é importante em todos os setores. Então, isso melhora demais a economia do País. Isso é importantíssimo. Mas tem uma coisa que me chama atenção, que é o impacto na saúde...
JC – Muitas pessoas não percebem isso claramente...
Nobre – As pessoas não prestam atenção nisso. Veja, a maior fonte de emissões globais no mundo vem da queima de combustíveis fósseis. Petróleo, carvão, diesel e outros geram micropartículas, sulfatos (na atmosfera). Essa é a maior fonte de poluição urbana do mundo. E a poluição urbana leva à morte sete milhões de pessoas por ano. Além disso, reduz de dois a quatro anos a expectativa de vida das populações das cidades. Então, além de combater a emergência climática, hoje as energias renováveis salvam milhões de vidas ao melhorar a qualidade do ar. E são economicamente mais baratas.
JC – O senhor foi nomeado como um dos conselheiros do Papa Leão XIV para assuntos ambientais. Como recebeu a notícia?
Nobre - Foi uma surpresa No dia 30 de março, o setor de comunicações (da Igreja Católica) entrou em contato comigo pelo WhatsApp, para avisar que o Papa tinha criado esse novo conselho para discutir o desenvolvimento humano. Constavam 11 nomes e o meu nome estava lá. Sou o único cientista ambiental da Amazônia. Alguém me falou que o Vaticano me escolheu, porque, em 2019, eu fui pro Sínodo da Amazônia, que foi um belíssimo projeto do Papa Francisco. Estive lá durante três dias maravilhosos, participando de uma discussão muito boa. Em 2018, o Papa Francisco esteve na Amazônia e no Peru, onde se reuniu com um gigantesco número de líderes, povos indígenas. Na ocasião, levei ao Papa Francisco a urgência de salvar a Amazônia. Agora vou levar ao Papa Leão os temas relacionados à Amazônia e aos biomas brasileiros e, claro, o combate à emergência climática.

Perfil

Carlos Afonso Nobre nasceu na cidade de São Paulo em 27 de março de 1951. Graduou-se em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica em 1974. No seguinte, mudou-se para Manaus para trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Fez o doutorado em Meteorologia no Massachusetts Institute of Technology, onde permaneceu até concluir os estudos em 1982. Foi pesquisador visitante na Universidade de Maryland em 1988, tornando-se um dos pioneiros na análise dos impactos do desmatamento no clima. Coordenou diversos projetos científicos na Amazônia, como o Experimento Anglo-Brasileiro de Observações do Clima Amazônico de 1990 a 1996, e o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia de 1993 a 2000. É membro do conselho científico da Secretaria-Geral da ONU, da Academia Brasileira de Ciência e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento. Foi eleito membro da Royal Society britânica em maio de 2022. Em 2026, foi nomeado pelo Papa Leão XIV membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.