sábado, 3 de outubro de 2026

01/10/2026 - 09h33min
J. J. Camargo

Existem gestos que resumem a biografia de um grande homem

Havia no evento uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória do cirurgião Marcos Moraes

"O essencial é invisível aos olhos." (Antoine de Saint-Exupéry)

Há um tipo raro de luz que só acende quando estamos determinados não apenas a olhar o sofrimento do outro, mas a ver com o coração a intensidade da sua dor. 

Uma energia mútua e calorosa, que quase se pode palpar, circula entre essas pessoas dispostas a enxergar a dor do próximo não como um fardo, mas como um pedido de socorro. 

Provei dessa sensação maravilhosa na semana passada, convidado para uma conferência durante a comemoração dos 35 anos da Fundação do Câncer, no Rio.

Entre o convívio afetuoso com o doutor Paulo Niemeyer, presidente do Conselho Curador; o doutor Luiz Augusto Maltoni, diretor médico da fundação; a atriz e embaixadora Isabel Fillardis e a doutora Vivian Rumjanek, com seu tom maternal de contar a história da entidade, havia uma aura invisível dos melhores sentimentos que orbitavam em torno da memória de um homem extraordinário: o cirurgião Marcos Moraes.

Foi ali que reencontrei uma história, que ouvi no passado do próprio Marcos, agora resgatada pela jornalista Claudia Jurberg, que traduz com precisão mágica a essência dessa energia boa:

"Marta era empregada doméstica. Apenas uma semana depois de conseguir um emprego pelo qual batalhara por dois longos anos, ela percebeu que tinha um nódulo na mama. Mas como desgraçadamente acontece com os despossuídos, a fome não fica esperando a saúde. Então, entre tratar de si ou assegurar o pão na mesa, Marta priorizou o que comer. Só buscou socorro médico muito tempo depois, quando o tumor já lhe rompera a pele em um anúncio desolador e irreversível.

Ao ser admitida no Instituto Nacional de Câncer (Inca), o destino colocou Marta no caminho de uma revolução silenciosa. Naquela época, o doutor Marcos Moraes havia criado um programa pioneiro de cuidados paliativos domiciliares — uma rede que mantinha centenas de pacientes nas suas próprias casas, amparados por dezenas de voluntários, responsáveis por garantir a dignidade que depende do controle efetivo da dor.

Quando soube que poderia ser incluída no programa, Marta exultou. Ir para casa no limiar da existência carrega um significado sagrado que só quem avista a finitude consegue compreender. O serviço social, contudo, hesitou. O perfil familiar era trágico: dos quatro filhos, apenas uma filha trabalhava; um filho deficiente, um dependente químico e uma filha prostituta na favela completavam o quarteto incapaz de oferecer o mínimo de suporte.

Mas a comoção e o brilho nos olhos de Marta falaram mais alto. Movido pela empatia e compaixão, o doutor Marcos Moraes não apenas autorizou sua ida, como tomou para si a missão de visitá-la diariamente. O Serviço Social havia identificado a tragédia familiar, mas Marcos conseguiu ver a urgência do resgaste de tanto amor negligenciado.

Marta viveu apenas 47 dias depois que deixou o hospital. Na véspera de sua partida, em sua última visita, de mãos dadas com Marcos ela usou palavras que mal cabiam na sua humildade para agradecer:

— Doutor Marcos, o senhor não sabe o que significou permitir que os meus filhos cuidassem do meu fim. A minha vida inteira eu senti muita vergonha desses dois... E agora, por sua bondade, eu vou morrer cheia de orgulho deles."

Naquele gesto, o médico não havia apenas aliviado a dor do corpo. Ele devolvera àquela mãe o amor de seus filhos e, aos filhos, a dignidade de terem sido o derradeiro refúgio de quem, lá atrás, lhes dera a vida, sem pedir nada em troca.

A cerimônia continuou, outros discursos vieram, mas o meu coração permaneceu preso àquele encontro sublime na casa de Marta. Voltei do Rio com a convicção renovada de que existem gestos que resumem a biografia de um homem, um grande homem. E que não importa quantas homenagens se prestem à memória de Marcos Moraes: para aqueles que tiveram a ventura do convívio, sempre restará a certeza de que ele merecia mais. Muito mais.


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro. Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença

Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei.

Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

O cuidador que dá banho em um vencedor do prêmio Nobel, a ele se equivale. Remuneramos serviços, mas não compramos pessoas. A cada vez que falamos com elas sem enxergá-las, a cada vez que usamos um tom de voz afrontoso, a cada vez que não as escutamos, aumenta a fúria contida, que poderá retornar para nós em forma de violência. Se é paz que queremos, é bom lembrar que ela passa pela horizontalidade das relações. 

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro.

Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.

03 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Amar é mediunidade

Não sei o que me faz escrever. Não sei quem murmura o assunto nos meus ouvidos. Todo dia é uma decisão. Eu me informo, eu leio as notícias, eu estudo os temas do momento, mas no fim escuto a minha intuição. Sou do sexto sentido. Amar é mediunidade: para mim, não há diferença.

Somos sensíveis para nos comunicar com os outros. Orquestro as palavras para despertar silêncios e corrigir omissões. Algo me toca e preciso colocar no papel. O tempo não prevalece. Não há fronteiras entre os mortos e os vivos. A inspiração vem de um eco do inconsciente coletivo. Apenas deixo entrar o sussurro do vento. Abro as cortinas dos olhos.

Na quarta-feira, resolvi falar sobre o meu medo de marquises, que guardo desde a tragédia das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores: a cobertura veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam naquela tarde de 6 de outubro de 1988. Nove pessoas morreram soterradas, sendo duas crianças.

Jamais me esqueci. Eu me encontrava no centro. O acidente mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre. O que me pôs a evocar, do nada, um fato de trinta e oito anos atrás, sem nenhum gancho aparente com a atualidade?

Nas minhas redes sociais, escolhi uma canção de Zé Ramalho como trilha da chamada para a coluna. Entre tantas melodias, foi a que senti necessidade de publicar. Mas nunca são só casualidades, existe uma sincronicidade secreta definindo nossas atitudes. Eu desconhecia os motivos que me levaram para a crônica e para a música até receber esta mensagem.

"Querido Carpinejar,

Foi com surpresa que recebi hoje, no grupo de WhatsApp da minha família, a tua coluna ?Medo de marquises?. Minha tia - que à época tinha apenas 28 anos - e minha prima, sua filha, de (é até difícil dizer) apenas 4 anos, estavam lá. Minha tia teria ido mostrar o Arapinho para minha prima.

Eu era muito pequena quando tudo aconteceu. A única lembrança que tenho é de meu pai chorando copiosamente ao telefone, no momento em que recebeu a notícia. Eu não entendi o que havia se passado. Não me explicaram, o que poderia até ser compreensível: uma tentativa de poupar uma criança de algo que lhe fugiria ao entendimento.

Ocorre que os anos se passaram e muito pouco eu ouvia falar sobre isso. O assombro diante dessa dor inominável acabou por gerar um silenciamento coletivo em minha família. Até mesmo meu pai, que era fortemente ligado a ela, evitava o assunto. Entendo que foi um movimento autoprotetivo da parte de todos, porém a consequência foi um apagamento da memória delas.

Recentemente, no caminho para o trabalho, tocou ?Avôhai?, do Zé Ramalho, enquanto eu via o sol nascer. Aquilo foi um soco no meu estômago. Lembrei de minha mãe contar que minha tia adorava essa música e que tinha colocado o nome do meu primo em homenagem à música (Juan Avohai). Juan morreu no ano anterior, em 87 (sim, ela havia perdido o filho no ano anterior).

Uma espécie de revolta me tomou: como uma família pôde ser dizimada assim? Minha tia era tão linda, tão única? A partir daí, algo passou a clamar dentro de mim: era a necessidade de senti-los, de sabê-los. Minha irmã uniu-se a mim e, desde então, temos tentado trazer de volta à tona a memória deles.

E foi em meio a isso que veio a tua coluna, como uma confirmação, uma sincronicidade, um sopro sobre a poeira do apagamento. E veio com a voz de Zé Ramalho também. Ele, que cantou ?Avôhai?.

Obrigada por isso. Procurarei, da forma que eu puder, honrá-los, porque sempre é tempo.

Carinhosamente,

Fernanda." 

CARPINEJAR

03 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Tudo pelo almoço grátis

Depois de acompanhar de perto eleições há 46 anos, me dei conta de que não entendo nada de aritmética primária. Deve ser por isso que não compreendo como muitos candidatos conseguirão, sem revelar o truque mágico, cumprir as promessas de não elevar impostos, reduzir voluntariamente receitas e aumentar despesas, tudo ao mesmo tempo.

Eu supunha que nem na Suíça seria recomendável engordar despesas e ceifar impostos simultaneamente. O que dizer então destes trópicos, onde a União caminha na borda do abismo fiscal e os Estados vivem uma penúria de dar dó? Na minha modesta compreensão, no Brasil de orçamentos públicos esgualepados só haveria duas formas de gastar mais sem contrapartida em mais impostos. A primeira seria uma insólita arrancada no crescimento econômico, uma hipótese que, diante da inércia sobre as causas do travamento, tem chance similar à de enriquecer com o jogo do tigrinho. 

A outra é colocar mais dívida na dívida, que, aliás, é o que vem ocorrendo. Como o governo gasta além da conta e deve cada vez mais, os juros ficam nas alturas, o que, por sua vez, represa o crescimento, em um círculo vicioso que só será quebrado quando houver consecutivos e robustos superávits fiscais.

À exceção de alguns poucos candidatos em andrajos nas pesquisas, ninguém arrisca falar em sacrifícios ou perda de benefícios e privilégios. Nada de novo. Sinceramente, a falta de sinceridade é compreensível. Desviar do assunto quando as candidaturas são cobradas sobre suas magias fiscais é uma demagogia aceita passivamente pela imensa maioria dos eleitores. Eleição após eleição, quer-se acreditar, no Brasil, que existe almoço grátis. O candidato que disser o contrário, bau-baus.

Como o eleitorado vai na linha do me engana que eu gosto, é sintomático que um singular governador a passar a navalha em ano eleitoral não seja político. Ocupante do Palácio Guanabara desde março, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, assumiu a função no vácuo criado pela renúncia do governador Cláudio Castro, da vacância do vice e do impedimento do presidente da Assembleia. 

Dedica-se, desde então, a cancelar contratos estapafúrdios, a fechar secretarias e a demitir funcionários fantasmas e milhares de comissionados inúteis. Com o freio na roubalheira e nos desperdícios, o governador interino pretende economizar R$ 5 bilhões até o fim do ano.

No primeiro semestre, a arrecadação de ICMS do Rio saltou 17,2%, de longe a melhor performance do país. O desembargador fez, sim, a mágica: cortou despesas e elevou receitas, combatendo principalmente a sonegação dos combustíveis. Sua sorte é que não precisa distribuir afagos e nem engabelar os eleitores. 

MARCELO RECH

03 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO

O candidato ruim

Aceito ser governado por um idiota. A democracia me obriga a suportar esse risco - e, analisando a nossa história, convém reconhecer que ele existe. Aceito perder para quem considero pior. Aceito engolir quatro anos de decisões que me revoltam e aceito assistir a milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento. Faz parte.

O que eu não aceito é entregar, junto com a derrota, o direito de tentar vencer da próxima vez. Disso eu não abro mão.

E esse é o motivo que me fará votar, no domingo, num candidato que considero ruim. Não vou fingir que os defeitos dele ficaram menores porque o adversário me parece pior. Mas existem defeitos que fazem parte da má política - demagogia, incompetência, irresponsabilidade, corrupção. E existem defeitos que destroem as condições que tornam a própria política possível. Essa diferença, para mim, é determinante.

Não saber perder é o pior dos defeitos. Porque quem aceita governar uma democracia aceita também ser demitido por ela. Não importa se você pensa que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo que disputa o poder é um desastre. Você recebe a chave sabendo que a casa não é sua. E, se não for reeleito, entrega a chave para o próximo, enfia o rabinho entre as pernas e tchau.

Outra coisa: a maioria tem o direito de governar; não tem o direito de decidir quem merece direitos. Nenhum presidente escolhe qual família é família de verdade, que tipo de amor merece respeito, qual pronome você deveria usar, que religião é a mais correta. Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar o Brasil - porque talvez não seja a escolha de 200 milhões. Maioria manda nos rumos do país, não nos rumos da vida dos outros.

E não quero governante forte demais, pelo contrário: quero alguém fraco o bastante para não conseguir fazer tudo o que gostaria. É justamente para isso, para torná-lo mais fraco, que existem Congresso, Justiça, imprensa, oposição, órgãos de controle - todos podem ser imperfeitos, alguns até repugnantes, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo. O mandatário é livre para discordar, recorrer, enfrentar, mas não para arrancar desses contrapesos o poder de contrariá-lo.

Quanto ao meu candidato, seus defeitos seguirão lá se ele vencer - e não esperem que eu me cale sobre eles. Não admito esse contrato maluco de lealdade total a quem recebe meu voto. Sinto pena de quem atravessa quatro anos violentando a própria consciência para defender cada desatino do sujeito que elegeu. É o contrário: se o ajudei a chegar lá, a dívida é dele comigo. A minha é com a próxima eleição. 

PAULO GERMANO

03 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de o povo falar nas urnas

Os brasileiros vão às urnas neste domingo sob o impacto de uma crise institucional e moral aguda que atinge a política e acerta em cheio a cúpula do Judiciário, o que torna o momento mais inquietante. O poder que deveria ser garantidor do equilíbrio e fiador do cumprimento da lei passou a ser a principal fonte de instabilidade. 

Quando nada mais parecia surpreender, uma sequência de decisões monocráticas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corrompeu a tal ponto a configuração do debate entre os candidatos à Presidência da República que seria realizado na quinta-feira à noite pela Rede Globo que acabou por inviabilizar o confronto às vésperas do primeiro turno. Foi um desserviço à democracia.

A culpa por o eleitor ver frustradas as expectativas de assistir ao embate de ideias e comparar as propostas dos postulantes ao mais importante cargo do país, no entanto, também é dos dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Embora cada um de sua forma e em seu tempo, ambos fugiram do confronto. Lula oficializou a decisão um dia antes. 

Temia ser o alvo dos demais candidatos, de campos políticos opostos ao seu. Flávio desistiu a poucas horas do debate, tudo indica que pelo receio de ser fustigado por Renan Santos (Missão), incluído no encontro por uma decisão individual sem fundamento jurídico proferida pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

A população já demonstrava cansaço da radicalização política. A sucessão de escândalos que envolvem altas figuras dos três poderes da República gera desencanto e revolta na base da sociedade. O episódio da quinta-feira, por certo, piora a sensação de mal-estar e de repulsa. Mas o desânimo não pode se transformar em abstenção e a raiva não deve ser convertida em voto guiado pela ojeriza. 

Neste momento, a responsabilidade do eleitor aumenta. É hora de uma profunda reflexão para escolhas cuidadosas e conscientes para cada um dos cargos em disputa - e de comparecer às seções eleitorais. O voto é o meio mais poderoso de expressão dos brasileiros.

A eleição para o Planalto tem ainda um aspecto de efeméride. Será a 10ª vez, após a redemocratização do país, que os brasileiros exercem o direito reconquistado de definir o presidente. Cabe ao próprio eleitor, como agente das transformações que espera para o país, valorizar o voto como instrumento de soberania popular e depositar nele a esperança de um futuro melhor.

A despeito de correções necessárias, a democracia brasileira é digna de orgulho. Em meio aos solavancos, as regras do jogo, ao cabo, se sobrepõem. No Executivo, o vencedor assume e governa. Os derrotados vão para a oposição. Reorganizam-se e se reapresentam como alternativa quatro anos depois. 

As eleições têm periodicidade regular, quando pode haver a continuidade ou a alternância de poder. Eis a beleza da democracia. Se um caminho traçado pelo eleitor não traz os resultados esperados, o novo pleito é a possibilidade de a maioria corrigir caminhos e de renovar seus representantes.

Nesse contexto, reforça-se a relevância das escolhas para o Congresso. São votos que pedem maior análise do eleitor devido ao desvirtuamento do papel do Legislativo na última década. A farra das emendas impositivas alterou a dinâmica política. Deputados e senadores ganharam mais peso na correlação de forças com o Executivo. Cabe ao eleitor buscar informações sobre os candidatos e analisá-las de maneira atenta, como forma de fazer escolhas lúcidas.

O voto para o Senado, pelas atribuições da Casa, adquire importância ainda maior em 2026. Neste domingo, cada eleitor poderá sufragar dois nomes. Senadores têm a prerrogativa de aprovar a indicação de ministros do STF e de impor punições previstas na Constituição em caso de condutas incompatíveis com o cargo . São tarefas que também exigem juízo e discernimento. 

O exame dos nomes designados pelo presidente da República precisa ser mais criterioso. A recuperação da confiança do STF passa pela despolitização dos membros da Corte. Eventuais penalizações de ministros não podem ter motivação ideológica. Devem ser baseadas em fatos e na lei.

A definição sobre quem estará no Palácio Piratini entre 2027 e 2030, pelo momento decisivo em que se encontra o Rio Grande do Sul, também requer exame apurado. Em um conjunto de oito reportagens publicadas nas últimas semanas, o Grupo RBS trouxe à discussão os grandes desafios do Estado e os possíveis caminhos para superá-los. 

Todo esse conteúdo de fôlego será reunido em um dossiê que, após a definição de todos os cargos em disputa, será entregue aos deputados estaduais e federais, aos senadores e ao governador ou à governadora eleitos pelos gaúchos. O propósito é contribuir para um plano de desenvolvimento do Estado que atravesse diferentes governos.

Este 4 de outubro é o momento de os brasileiros se expressarem, com a força invencível do voto, na defesa do fortalecimento da democracia. 

03 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Campanha presidencial termina de forma melancólica

Chegou ao fim uma das campanhas presidenciais mais dramáticas da história recente do Brasil. Os dois candidatos com possibilidade de chegar ao segundo turno ou até de vencer no primeiro são rejeitados por metade dos eleitores, de acordo com todas as pesquisas de intenção de voto. Quem ganhar terá de creditar a vitória à parcela do eleitorado que, por medo de um, votou no outro.

Esse país partido ao meio não foi capaz de produzir uma alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo, duas correntes nascidas da adoração a uma personalidade e não aos princípios de um partido político.

As legendas, de um modo geral, vivem um processo de degeneração, com seus dirigentes mais preocupados em eleger bancadas numerosas para ganhar mais dinheiro dos fundos partidário e eleitoral, sem apresentar um projeto de país.

Faltou profundidade

O que mais se discutiu na campanha presidencial foram os escândalos nos quais os candidatos se envolveram e as intervenções indevidas do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral no processo. Isso explica a apatia do eleitor médio, aquele que não morre de paixão por Lula ou pela família Bolsonaro e que votará sem entusiasmo no que considera o menos pior.

Como as eleições de presidente, governador e senador catalisam as atenções, milhões de eleitores chegam a 4 de outubro sem saber em quem votar para deputado estadual e federal. São eleições relegadas a segundo plano, mas que deveriam merecer mais atenção, pela importância de eleger uma bancada ativa, comprometida com as questões que dizem respeito ao presente e ao futuro do Estado e do país.

Com pouco espaço no rádio e na TV, as campanhas de deputado estadual e federal se limitaram às redes sociais, aos wind banners espalhados por quem tem dinheiro (em geral os que disputam a reeleição). No rádio e na TV, a lembrança que fica é de um desfile de rostos dizendo seu nome, número e palavras vazias. E são esses que farão as leis, fiscalizarão o Executivo, discutirão orçamentos - e distribuirão emendas, porque acabar com essa aberração não está nos planos de ninguém. _

Postulantes ao governo do RS miram indecisos a poucas horas do primeiro turno

Candidatos que mais arrecadaram

A despeito do resultado das pesquisas, que mostram Luciano Zucco (PL) e Juliana Brizola (PDT) à frente, é com cautela que os candidatos ao governo do RS chegam para o primeiro turno. Cientes de que um quarto do eleitorado gaúcho ainda está indeciso, segundo a última pesquisa Quaest, Zucco e Juliana usarão as últimas horas antes da votação para campanha nas ruas da Região Metropolitana - onde fica a maior concentração de eleitores do Estado.

A mesma estratégia será adotada por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB), ainda esperançosos com a possibilidade de uma surpresa de última hora.

Leite foi escalado e percorrerá ruas de Porto Alegre neste sábado em um caminhão de som ao lado de Gabriel, assim como o prefeito Sebastião Melo.

Juliana e Edegar Pretto (PT), seu vice, fizeram ato na Esquina Democrática na sexta, e no sábado se dividem em duas carreatas pela Região Metropolitana. As duas mobilizações se encontram no Largo Zumbi dos Palmares, no fim do dia, para o encerramento da campanha.

A Capital também será palco para a campanha de Zucco, que ainda dará um pulo em Viamão no sábado. No fim da tarde, o candidato do PL comanda ato de encerramento da campanha no Parcão.

Maranata concentra apoiadores em carreatas que vão percorrer Porto Alegre e Guaíba neste sábado, mesmo roteiro escolhido para a sexta. _

Além das pesquisas, Luciano Zucco e Juliana Brizola lideram também o ranking dos candidatos ao governo do RS que mais receberam recursos para a campanha.

Zucco recebeu R$ 11,57 milhões do PL, do PP e do Podemos, além de pessoas físicas. Juliana captou R$ 11,51 milhões, quase tudo do PDT.

Confira a lista de quanto entrou nas contas dos candidatos ao governo e ao Senado. _

Luciano Zucco (PL) R$ 11.570.005,00

Juliana Brizola (PDT) R$ 11.512.400,00

Gabriel Souza (MDB) R$ 8.167.550,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 2.255.000,00

Senado

Ubiratan Sanderson (PL) R$ 4.718.497,00

Paulo Pimenta (PT) R$ 4.709.770,77

Manuela d?Ávila (PSOL) R$ 4.580.199,16

Marcel van Hattem (Novo) R$ 4.381.069,35

Germano Rigotto (MDB) R$ 3.873.000,00

Frederico Antunes (PSD) R$ 2.994.271,60

Renato Jaguarão (Cidadania) R$ 102.000,00

Milton Cardoso (PSDB) R$ 24.914,09

POLÍTICA E PODER

03 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Ameaça, risco à segurança ou teoria da conspiração?

Em um cenário de tensão pré-eleitoral, o fechamento dos consulados dos Estados Unidos no Brasil alimenta teorias da conspiração sobre uma eventual interferência americana nas eleições brasileiras ou até uma possível intervenção.

Tudo isso é reforçado pelo contexto: guerra comercial em torno do tarifaço, a aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump e informações, nos últimos dias, sobre um suposto financiamento do governo dos EUA a ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF), que levaram a Advocacia-Geral da União (AGU) a acionar a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar o tema.

As poucas explicações dadas pela própria embaixada dos EUA, em Brasília, sobre as razões da medida amplificam teorias conspiratórias.

No entanto, esse tipo de atitude faz parte dos protocolos adotados pelo Departamento de Estado ao redor do mundo, especialmente quando representações americanas podem se tornar alvo de protestos ou ameaças. Na eleição de 2022, a embaixada americana emitiu alertas, recomendando atenção a manifestações, protestos e possíveis bloqueios de vias. Na ocasião, porém, a própria representação dizia esperar que a votação transcorresse de maneira relativamente tranquila.

O que ocorre agora é mais forte, um grau a mais na escala do protocolo de segurança adotado em representações no Exterior: a missão dos EUA suspendeu o atendimento presencial na embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, orientando inclusive que americanos que necessitem de assistência emergencial não se dirijam às instalações.

A decisão ocorreu após uma ameaça contra a embaixada, que o Departamento de Estado levou a sério. Nesses casos, os EUA costumam "pecar pelo excesso".

A suspensão também ocorre em um ambiente de segurança mais sensível em Brasília. Na quinta-feira, uma suspeita de bomba nas proximidades do STF mobilizou a Polícia Militar e o Esquadrão Antibombas. Um homem de 28 anos foi detido depois de arremessar uma mochila nas proximidades da Corte. Após a inspeção, a presença de explosivos foi descartada.

Cenário de tensões

Além de ponderação, nesse cenário de tensões, é preciso separar as coisas. Não havia, até sexta-feira, informações que permitissem ligar o fechamento das representações diplomáticas com uma eventual tentativa de interferir na eleição. Mas também seria ingênuo analisar a decisão como se os EUA fossem um espectador distante deste processo eleitoral.

Washington sempre foi um ator presente no ambiente político brasileiro. Neste ano, ainda mais, seja pelas disputas comerciais e diplomáticas, seja por relações familiares, seja pelas acusações e suspeitas de interferência. Isso aumenta a exposição simbólica das representações americanas: para grupos descontentes com a atuação dos EUA, uma embaixada ou um consulado pode funcionar como representação física da Casa Branca no Brasil.

Quanto maior o envolvimento, concreto, real ou percebido pela população ou grupos de interesse, dos Estados Unidos no debate político brasileiro, maior tende a ser a preocupação americana com a segurança de suas próprias instalações.

Por terem se tornado um ator mais visível nesta eleição, é natural que os americanos se comportem também como um potencial alvo das tensões. _

Solicitantes de visto foram avisados

Quem tinha entrevistas marcadas na Capital foi avisado sobre a suspensão dos serviços. O Consulado dos EUA em Porto Alegre afirmou à coluna que as instruções sobre reagendamento do serviço serão enviadas aos solicitantes. _

Depois do anúncio dos EUA, a Austrália informou que sua embaixada em Brasília também ficaria fechada por questões de segurança. O governo do Canadá atualizou seu alerta de viagem para o Brasil e incluiu informações sobre a segurança no país durante o período eleitoral. O Reino Unido desaconselhou as viagens não essenciais durante as eleições.

Influência, interferência ou intervenção?

É importante diferenciar influência, interferência e intervenção quando se fala sobre até onde um país pode tentar alterar decisões que deveriam pertencer autonomamente a outra nação. Os termos ganharam destaque a partir de rumores sobre eventuais ações dos EUA para influenciar a eleição do Brasil. _

Influência

É o nível mais normal das relações. Um país tenta moldar comportamentos de outro por meio de diplomacia, comércio, declarações públicas ou aproximação com determinados grupos. Um presidente estrangeiro declarar preferência política, por exemplo, é influência. Pode ser controverso ou pouco diplomático, mas não é interferência. Países sempre tentam se influenciar entre si. O Brasil, por estar na zona geográfica dos EUA, sempre sofreu algum nível de influência.

Interferência

É quando outro país ultrapassa a persuasão e atua deliberadamente dentro de um processo doméstico para alterar seu funcionamento, como uma eleição, por exemplo. Pode ocorrer por meio de financiamento clandestino de grupos políticos, campanhas de desinformação, operações de inteligência, ataques cibernéticos ou utilização secreta de recursos estatais para favorecer ou prejudicar determinado campo político. Não há comprovações, até o momento, de interferência americana. Mas a AGU pediu à PF e à PGR que investiguem possível uso de dinheiro público dos EUA no financiamento de organizações e grupos que operam em território brasileiro.

Intervenção

É quando ocorre coerção, ou seja, uso da força: obrigar outro Estado a modificar uma decisão que pertence à sua soberania.

Não precisa necessariamente haver tropas. Pressões econômicas ou políticas podem entrar nessa discussão. No caso dos EUA, seria intervenção se Donald Trump condicionasse explicitamente a retirada de tarifas ou sanções à adoção pelo Brasil de determinada decisão política interna.

O voto como instrumento

No RS, tivemos uma campanha ponderada, muito menos tensa do que em nível nacional, em que praticamente não foram debatidas ideias, em meio a disputas jurídicas e de ego no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

No Estado, o clima foi tranquilo, sem agressões ou outros tipos de violência. É esse o espírito que devemos perseguir até este domingo e no eventual segundo turno.

Fica, no entanto, o sentimento de que o eleitor merecia mais: um debate de ideias com propostas claras e concretas e menos cortes para as redes.

O Rio Grande do Sul tem desafios enormes em vários setores: continuidade de obras estruturais, reforço dos sistemas contra enchentes, melhorias na educação, valorização dos professores, apoio a produtores endividados, estratégias para qualificação de mão de obra, infraestrutura, inovação e cultura. Na segurança pública, os índices estão melhores, mas o feminicídio é uma chaga aberta na sociedade.

Há muito tempo, o RS perdeu força em Brasília. Por isso, uma recomendação ao eleitor: preste atenção não só em quem você vota para governador e presidente. Deputados federais e senadores definem alguns dos temas que mais dizem respeito às nossas vidas.

Entendo a descrença de muitos eleitores na política. Mas o voto é ainda o instrumento mais forte para mudar a realidade. _

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Vidas, mortes, cultura e memória dos cemitérios

alguém caminha sobre o seu túmulo

alguém caminha sobre o seu túmulo

/EDITORA INTRÍNSECA/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti
Hoje mais do que antes poucos vão a cemitérios e poucos de nós somos lembrados após a morte. A consagrada e premiada escritora argentina Mariana Enriquez, autora dos romances Nossa parte de noite ( Prêmio Herralde de Novela, 2019) e Esse é o mar e de coletâneas de contos como Um lugar ensolarado para gente sombria , todos publicados no Brasil pela Editora Intrínseca, acaba de lançar Alguém caminha sobre o seu túmulo ( Editora Intrínseca, 376 p., R$ 89,90) , obra que se originou da fascinação que a autora tem, desde muito jovem, pela beleza assombrosa dos cemitérios.

Mariana viajou por cemitérios famosos e historicamente ricos das Américas do Sul e do Norte, Europa e Austrália . O Montparnasse de Paris, o Highgate em Londres e o antigo Cemitério Judaico em Praga são alguns que aparecem ao lado de outros escondidos, dilapidados, remotos e secretamente belos. Mariana descreve e analisa túmulos de famosos como Elvis Presley ( Memphis) e Karl Marx ( Londres) e sepulturas de anônimos de várias idades, bem como aponta epitáfios extravagantes, esculturas melancólicas, anjos sensuais, vestígios de vodu em Nova Orleans, criptas góticas, catacumbas, esqueletos, vampiros, fantasmas e uma infinidade de lendas.

Utilizando técnicas jornalísticas ao incorporar depoimentos de coveiros, guardas , visitantes, historiadores e moradores, Mariana constrói uma narrativa plural com relatos inspirados em lendas urbanas, biografias, acontecimentos históricos e memórias coletivas.
Mesmo quem não gosta do macabro certamente será cativado pelo entusiasmo contagiante da escritora, nesse livro altamente original, como escreveu o Financial Times.

Autora fundamental da literatura de terror do século XXI , professora, jornalista e professora, nessa obra ambientada em 24 cemitérios espalhados pelo mundo, Mariana mergulha em seu universo literário e mostra que seu entusiasmo pelo macabro é expresso em prosa efervescente, como disse o The Economist.

Lançamentos

A festa (Arquipélago Editorial, 296 pág, R$ 89,90), romance clássico moderno, best-seller do consagrado jornalista e escritor Ivan Angelo, em edição especial de 50 anos, traz a inovadora narrativa fragmentada sobre uma Festa em BH em 1970, com muitos personagens cujas vidas se entrelaçam com o passado, o presente e o futuro do Brasil. Obra seminal, essencial para tentar entender o Brasil que temos atualmente.

Union Distillery (Legado, 170 pág, R$ 120,00) traz a vitoriosa história da pioneira Union Distillery Maltwhisky do Brasil (1948), entrelaçada na imigração italiana no RS. Saberes centenários, inovação, persistência, trabalho e afeto marcam a trajetória dos sócios Marcello Borsato, Lidio Ziero e Luciano Borsato. Belíssimas fotos em cores, ilustrações e a evolução da logomarca estão na obra que mostra o sonho engarrafado realizado.

Mais 10 (quase) amores ou : eu seria romântica se não fosse o mundo (L&PM Editores, 136 pág, R$ 59.90), novo livro da publicitária e escritora Cláudia Tajes, tem novas histórias de Maria Ana, personagem de Dez (quase) amores (2000). Antes balzaca, agora quase cinquentona, segue se atrapalhando, mas agora com etarismo, objetificação feminina, sobrecarga de trabalho, crise no jornalismo e charlatanismo nas redes sociais.

Gre-Nais e Cia

Pensando bem, o Brasil e o RS poderiam ser menos grenalizados, mais unidos. Ao menos na política, na economia e no social. A gente fica aqui peleando entre nós e os de fora ficam se beneficiando. No futebol é meio difícil o fim da grenalização, mas, nessa pindaíba federal que andamos, camisa azul e vermelha, um time só, um estádio e um dirigente seria mais barato, e aí os "corrimãos" gaúchos unidos brigariam com os castelhanos , os de outros estados brasileiros e com os estrangeiros. Sonho louco, sei, mas pensei aí. Vou parar com esse papo que, senão, acabam me internando.


Nos Gre-Nais o Inter supera, com 166 vitórias. O ilustre "corrimão" tem 144 e empates são 144. Estatística favorável ao Inter, que tem muito a agradecer pela parceria do imortal mosqueteiro com sua elegante peninha. O Tricolor sempre valorizou, valoriza e valorizará nossas vitórias, mesmo contando por vezes com aqueles juízes azuis que dão uma forcinha. Obrigado, parceiro, por tudo, desculpe qualquer coisa. Ou muita coisa. Amigo oponente, tu nos inspira a novos feitos relevantes.


Meus primeiros Gre-Nais foram nos Eucaliptos. Ia a pé da Felipe Camarão, no Bom Fim Colorado, até lá. Carlos Gainete Filho, o Gainete, trocava "gentilezas" com o Alcindo. Ortunho na lateral esquerda era "meio" limitado, mas alto, forte e viril, dava uns encontrões e umas levantadas no Sapiranga, do Inter, que era magrinho, rápido e driblador na ponta.


Um dia a torcida vaiou o Gainete. Ele se estressou, foi até o alambrado e queria pular, para sair no braço, sozinho, contra a torcida toda. Ainda bem que o acalmaram, senão teríamos dezenas de torcedores no departamento médico.


Naqueles tempos queriam que Valdomiro fosse de volta para Criciúma. O técnico gordinho Daltro Menezes insistiu e o Valdoma foi o único imprescindível do Inter e o que mais colaborou.


No Beira-Rio, estádio mais lindo do mundo, templo sagrado da maior torcida do RS, os Gre-Nais passaram a ser de terno e gravata e o parceiro tricolor sempre foi bem recebido pelo Inter, o campeão de tudo, o único campeão nacional invicto depois de 1971. No Beira-Rio tem uma taça mundial de verdade, que todos podem apreciar, de graça, que o Inter é democrático, plural e generoso, sempre dividindo seus feitos com todos. O Inter não tem apenas um passado pela frente. Cabe lembrar dois fatos marcantes do passado de glórias.


No Gre-Nal 55, em 1938, Taça Martel, o Inter fez onze gols. O juiz Álvaro Silveira anulou 5. O presidente Meneghetti do Inter reclamou. O juiz disse "onze gols são demais para um Gre-Nal". A coisa já existia. Placar oficial ficou só nos 6 a 0, mas na memória afetiva e carinhosa o jogo sempre será o Gre-Nal dos 11 a 0.


Em 1956 o Inter, que já tinha pinta de seleção, foi a Seleção Brasileira. Oito jogadores do Inter vestindo a canarinho ganharam o Panamericano, no México, liderados por Teté, grande técnico colorado. Dos 14 gols da seleção, 12 foram de atletas do Inter. Odorico, Chinesinho, Oréco, Larry, Bodinho, Florindo e Luizinho brilharam.

A propósito

Muitas lembranças boas temos dos Gre-Nais, dessa cidade simpática de dois campeões do mundo, mas, recordando as décadas recentes, nós, colorados, temos que fazer justo e grande agradecimento e merecida homenagem ao torcedores do Grêmio pelo temor reverencial, respeito e admiração que sempre tiveram com El Gran Capitán Andrés D´Alessandro, que dava um upgrade geral nos jogos e oferecia a todos os torcedores ótimos espetáculos, auxiliando nas orientações técnicas, no comando do time, como jogador e contribuindo, com sugestões fundamentadas, para boasarbitragens. Gre-Nal é Gre-Nal, disse Ildo Meneghetti. Falei e disse, fui. Saudações esportivas. Gracias. 

Jaime Cimenti