segunda-feira, 26 de outubro de 2026


26 de Outubro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Musk

Elon Musk vale quatro horas do meu tempo? Fui assistir ao filme do premiado documentarista Alex Gibney sem ter muita certeza de que seria uma boa ideia. Afinal, um documentário chato de duas horas pode ser uma roubada, mas um documentário chato de 3h52min (seis minutos a menos do que ? E o Vento Levou) é uma sessão de tortura com ar-condicionado e poltronas reclináveis. Passou voando.

A grande pergunta do filme é aquela que muita gente já se fez algum dia: como o primeiro trilionário do mundo conquistou tanto poder e ganhou tanto dinheiro em tão pouco tempo? O filme não oferece uma única resposta, mas dá várias pistas. Musk nasceu rico, construiu uma reputação de gênio em Silicon Valley, comprou e vendeu empresas - e ganhou uma fortuna prometendo maravilhas tecnológicas que nunca seria capaz de entregar. Colou.

Em 2016, no lançamento do primeiro modelo comercial de um carro elétrico da Tesla, Musk ainda parecia um cara mais ou menos normal, vendendo seu peixe no mercado das ideias sensatas, mesmo que de olho nos próprios interesses: "É muito importante acelerar a transição para o transporte sustentável para o futuro do mundo". 

Ao longo da última década, Musk trocou a preocupação com o futuro do mundo pelas promessas de colonização de Marte. Durante a pandemia, abraçou o negacionismo e se radicalizou, tornando-se uma espécie de garoto-propaganda da extrema direita mundial (o apoio a Bolsonaro é mencionado no filme). Dono de empresas que controlam o acesso à internet, coordenam operações militares e desenvolvem projetos de inteligência artificial, Musk adquiriu um grau de influência na economia e na política globais que tem poucos paralelos na história.

O documentário de Alex Gibney abarca diferentes gêneros cinematográficos, o que talvez justifique a metragem excepcional. O avatar de Elon Musk criado por IA para substituir o personagem real, que recusou os pedidos de entrevista, lembra um vilão da Marvel, do tipo que dá gargalhadas malignas e promete conquistar o mundo - apenas para vê-lo explodir enquanto foge para Marte com seus 14 filhos. (Mas a destruição de agências humanitárias durante o período em que o empresário fez parte do governo Trump matou crianças de verdade, como mostra o filme.) 

A forma como Musk enriqueceu e tornou-se mais poderoso do que líderes eleitos soa como um conto moral sobre nossa relação disfuncional com as big techs e o capitalismo. Já sua radicalização política, seu esforço para influir na política interna de outros países (inclusive o Brasil) e no desfecho de uma guerra é um filme de terror que continua assombrando os espectadores muito depois de eles saírem do cinema. _

CLÁUDIA LAITANO

26 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A vitória de Lula e o desafio da pacificação

A 10ª eleição para o Palácio do Planalto desde a redemocratização levou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao quarto mandato como presidente da República. O petista fez história. Alcançou um feito inédito e se consagrou com uma vitória contundente de mais de 4 milhões de votos sobre o adversário. Pela primeira vez, um candidato que saiu atrás no primeiro turno reverteu a desvantagem e conseguiu triunfar. Lula foi reeleito ao conquistar 51,7% dos votos válidos ontem, contra 48,2% do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Tratou-se de um resultado surpreendente, especialmente após a frustração de 4 de outubro para a esquerda. Não há dúvida de que a virada de Lula, em números inesperados até para o mais otimista dos petistas, foi construída a partir da remobilização da militância, com grandes manifestações de rua após a derrota no primeiro turno, e da nova estratégia digital capitaneada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). É ilustrativa a queda da abstenção, de 21,08% no primeiro turno para 19,21% ontem.

O desfecho do segundo turno, porém, não esconde que o país permanece profundamente cindido. O tom virulento da campanha, repleto de ataques frontais entre os campos adversários, é indicativo de que a polarização continuará exacerbada. Do derrotado se aguardava a grandeza do reconhecimento da vitória de Lula, mas infelizmente Flávio optou por contestar o revés.

De Lula, reeleito, espera-se também que faça um chamamento à pacificação. O país tem uma série de desafios pela frente e, para vencê-los, será preciso obter consensos mínimos e conciliação. A capacidade de articulação do governo será colocada à prova diante de um Congresso com maior presença do PL. O partido de Flávio Bolsonaro conquistou 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e terá 28 dos 81 senadores. Oposição firme também pode ser feita com equilíbrio.

O episódio lamentável de domingo foi o novo vexame de membros da cúpula do Judiciário brasileiro, o que manchou o histórico de atuação dos tribunais como fiadores da confiança em uma eleição íntegra. As campanhas de Lula e de Flávio pediram, ao final da tarde, a prorrogação da votação em locais onde eleitores foram afetados por problemas de deslocamento. 

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, desde cedo conhecia essas dificuldades e nada decidiu. Diante da omissão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin atropelou Nunes Marques e, instantes antes das 17h, horário-limite, determinou, de forma desajuizada, o prolongamento da votação até as 19h. A interferência de Zanin criou uma inédita insegurança em todas as seções eleitorais do país, informadas quando a maioria das urnas já estava fechada. Ao fim, prevaleceu o entendimento de que o tempo adicional valeria apenas para as seções ainda abertas no momento da decisão.

Mas o fato é que uma parte relevante da sociedade ainda pode nutrir dúvidas sobre se há relação entre a intervenção de Zanin e o resultado. Cabe ao TSE esmiuçar todos os números e demonstrar, de forma didática e cabal, que não existe vínculo entre a decisão judicial e a vitória de Lula. Trata-se de uma explicação indispensável para a estabilidade do país. 

OPINIÃO RBS

26 de Outubro de 2026
EM FOCO - Humberto Trezzi

Lula é reeleito com virada histórica e recorde de votos

Candidato do PT conquista o quarto mandato como presidente do Brasil ao derrotar Flávio Bolsonaro, do PL, no segundo turno. Petista havia perdido o pleito do dia 4 de outubro por 2,2 milhões de votos. Ontem, venceu com vantagem de 4,4 milhões. Amanhã, vai festejar 81 anos de idade

A gangorra eleitoral pendeu para a esquerda, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil. Será a quarta vez que irá comandar os destinos do país - e esta foi a vitória mais espetacular, porque foi de virada. Nunca antes na história brasileira um candidato à Presidência havia perdido o primeiro turno e ganhado no segundo. E foi também a maior votação já obtida em uma eleição presidencial.

As outras eleições de Lula foram em 2002, 2006 e 2022, quando ele estabeleceu o recorde de 60.345.999. O veredito para o quarto mandato foi dado às 21h10min de ontem, surpreendendo grande parte da nação por ter conseguido reverter a derrota ocorrida no primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) somou 56.104.268 votos (47,03%), contra 53.876.617 (45,16%) do petista. No segundo turno, com 100% da apuração concluída, Lula fez 64.256.232 votos (51,79%) contra 59.826.041 votos (48,21%) do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A história de Lula, que amanhã completa 81 anos, se confunde com a do Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Nordestino que migrou para São Paulo, metalúrgico de profissão, ele surgiu para a política ao liderar as greves operárias no final dos anos 1970, durante o regime militar, quando chegou a ser preso. Foi deputado federal e acabou derrotado três vezes na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994 e 1998), antes de sua primeira vitória.

Lula permanece no cargo após uma eletrizante campanha contra os maiores adversários que a esquerda já teve em tempos democráticos no Brasil: a família Bolsonaro, herdeira da maioria dos votos da direita e admiradora confessa da ditadura que vigorou no país entre 1964 e 1985.

Exceção no mundo

A vitória de Lula contraria uma tendência global de voto contra o governante, o voto anti-incumbente. Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, analisou 21 eleições recentes mundo afora e observou que 17 delas tiveram vitória da oposição. São como plebiscitos que reprovam o gestor. O candidato do PT foi uma exceção nesse panorama.

O oponente de Lula, Flávio Bolsonaro, é mais elegante e menos controverso do que o pai, Jair Bolsonaro, que foi eleito presidente da República em 2018 e hoje está condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A derrota de Flávio dificulta a concretização de uma das suas principais promessas de campanha: encaminhar projeto de anistia para o pai e mais de 1,4 mil outros condenados pelos episódios do 8 de Janeiro de 2023.

O próprio Lula já esteve preso, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi em 2018, no auge da Operação Lava-Jato, que apurava desvios de dinheiro na Petrobras e subornos pagos por empreiteiras a políticos. Ele ficou 580 dias numa cela da Polícia Federal. Em 2021, o STF anulou os processos criminais. Lula teve restabelecidos os direitos políticos e venceu a eleição de 2022.

Razões da vitória

Como Lula venceu a eleição? Como governante, ele soube usar o poder dos decretos e nomeações. Entre as medidas de impacto, incluiu o reajuste do piso do Bolsa Família e a antecipação do pagamento do benefício, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a reformulação do programa de renegociação de dívidas (Desenrola) e o início dos trâmites para a distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS.

Do primeiro para o segundo turno, também ocorreu uma multiplicação dos apoiadores do presidente, que tomaram as redes sociais e as ruas das principais metrópoles brasileiras nas vésperas do pleito. A mobilização, que envolveu inclusive ex-eleitores de Jair Bolsonaro, foi fundamental.

Conforme especialistas consultados por Zero Hora, os indecisos (um percentual que variava de 10% a 20% na reta final da campanha) se direcionaram a Lula. E também foram para ele os votos de parte de um contingente de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e quase 6 milhões que não escolheram nenhum dos candidatos no primeiro turno.

A eleição de Lula veio após uma série de desgastes de Flávio Bolsonaro. Ao longo do ano, o STF abriu contra ele uma investigação por possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção na produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. 

O filme teve a maior parte do financiamento bancada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso por corrupção e crime organizado. Ele teria enviado R$ 62,9 milhões para a produção. A suspeita da Polícia Federal é de que parte do dinheiro tenha ajudado a sustentar bolsonaristas hoje refugiados no Exterior, como o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e ex-policial federal, cassado por faltar ao serviço.

Lula venceu apesar da intensa campanha que enfrentou pelo fato de seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, responder a três investigações da PF. As apurações miram o suposto tráfico de influência de Lulinha e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal. Outro contratempo importante foi a descoberta de que o magistrado responsável pela condenação dos implicados na tentativa de golpe de 2023, Alexandre de Moraes, tem telhado de vidro. 

Ele é suspeito de fazer tráfico de influência, porque sua esposa atuou como contratada no Banco Master, pertencente a Daniel Vorcaro. A advogada teria firmado contrato de R$ 131 milhões para defender causas do banqueiro, e os bolsonaristas acusam Moraes de atuar em prol de Vorcaro no STF. Lula não tem nada a ver diretamente com o caso, mas Moraes é visto como algoz do bolsonarismo e aliado do presidente.

- Insinuações sobre corrupção não parecem comover o eleitor. As acusações pesam apenas para apoiadores. Cada um crê no seu candidato e acha que o outro é culpado. Dificilmente muda voto, pois em geral as acusações não são novas - pondera Rodrigo Gonzalez, professor de pós-graduação do Departamento de Ciência Política da UFRGS.

Desafio no Congresso

O maior desafio de Lula será governar com minoria no Congresso. Contará com apoio garantido de apenas 130 deputados federais (num universo de 513) e 15 senadores (dentre 81). Entre os 27 governadores eleitos, pode ter de cinco a oito aliados. Por outro lado, a vitória abre possibilidade para que o petista mantenha ministros no STF mais simpáticos à sua linha ideológica.

E o perdedor aceitará a derrota? Ontem à noite, Flávio Bolsonaro disse que vai pedir a anulação da eleição devido à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender até as 19h de ontem a votação, em resposta a pedidos do PT e do PL por causa de problemas no transporte público (leia mais na página 14).

O filósofo e cientista político do Insper Fernando Schüler lembra que as alegações de fraudes nas urnas e outros assuntos que mobilizaram o eleitor em 2022 estão fora da pauta agora:

- Pode ajudar o fato de Flávio Bolsonaro parecer mais moderado do que o pai dele. O que se espera é que os candidatos respeitem as liturgias republicanas, voltem a ser educados com os adversários. Que o perdedor aceite e que o ganhador se dirija a todos os brasileiros, não apenas à metade que o elegeu. Que a transição seja tranquila, enfim.

Rodrigo González também não acredita em badernaço:

- Podem ocorrer protestos, mas creio que menores, pois os militares deixaram claro que não vão embarcar em aventura. Com as condenações do 8 de janeiro, haverá um cálculo de risco que atua contra mobilizações massivas.

Gaudêncio Torquato, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e consultor de política, diz que sempre há uma plateia interessada em briga, e parte dos apoiadores cobra agressividade como prova de fidelidade. O dirigente que pondera pode ser acusado de fraco. Aquele que reconhece um acerto do outro lado corre o risco de parecer traidor.

- Forma-se um círculo de exigências recíprocas: o político oferece hostilidade, os seguidores a recompensam, e a próxima cena precisa subir o tom. A conta desse espetáculo de horrores chega depois. A eleição termina, mas permanecem as filas, a insegurança, o orçamento apertado e a escola que não ensina o suficiente. O governante descobre que os problemas não obedecem às palavras de ordem. Administrar exige escolhas, negociação e capacidade de execução. O bordão que inflamou o comício não informa de onde virá o dinheiro nem o prazo da entrega - ressalta.

Torquato diz que recuperar o plano das ideias exige perguntas concretas:

- Quanto custa a proposta? Quem será atendido primeiro? Qual receita a sustentará? Que resultado poderá ser cobrado? O vencedor precisa explicar consequências e limites. A clareza é uma obrigação de quem pede poder, não um favor concedido ao eleitor. 

26 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Passada a euforia, será hora de reconstruir pontes

Foi uma virada histórica, sem precedentes. Nunca na jornada da Nova República, um candidato à Presidência havia perdido no primeiro turno e revertido o jogo no segundo. A onda lulista que varreu o país nas últimas três semanas se deveu às ruas e às redes. E foi graças à estratégia que Lula atinge um inédito quarto mandato, com virada em Minas Gerais, onde venceu Flávio Bolsonaro por 0,78 ponto percentual. No primeiro turno, havia perdido por 4,91 ponto percentual. A redução da margem no Rio de Janeiro (de 13,6 pontos para 6,2) e em São Paulo (de 13,7 pontos para 7,7) também garantiram a vitória.

Agora, passada a euforia da eleição, será hora de, primeiro, garantir a governabilidade. Lula enfrentará um Congresso mais hostil, majoritariamente conservador - ainda que o centrão normalmente fareje para onde o vento sopra. Terá também um Supremo Tribunal Federal (STF) em crise de legitimidade, mas com direito a mais quatro indicações possíveis para ministros, ou seja, ao final de seu mandato, a Suprema Corte será dominada por nomes alinhados a seu campo político.

O segundo desafio será reconstruir pontes: passado o dia 25 de outubro, o Brasil segue dividido. São fissuras difíceis de serem costuradas. Mas o mapa do caminho do desenvolvimento passa por tentar. Não haverá paz nem prosperidade sem diálogo. Lula venceu com mais de 64 milhões de votos, mas terá obrigação de governar para todos, inclusive para os mais de 59 milhões que optaram por Flávio.

Mais do que isso, terá de mudar radicalmente sua política econômica, com desafios das contas públicas, da dívida, do juro alto, uma conta que pesa sobretudo graças ao pacote de benesses dos últimos meses.

Quando falo em diálogo, essa necessidade recai também sobre a oposição. Principalmente no caso do Rio Grande do Sul, que terá um governador alinhado ao bolsonarismo, Luciano Zucco. Os interesses dos gaúchos, como a renegociação da dívida, a prorrogação do Funrigs e os desafios da reconstrução, passam, fundamentalmente, pela conexão com Brasília. Mais do que nunca, interesses de Estado precisarão ser colocados acima de vaidades pessoais e planos de poder. _

Esperava-se que a diferença entre Lula e Flávio fosse mais apertada do que em 2022 entre o petista e Jair Bolsonaro, quando o total foi de 2,1 milhões. Em 2026, a margem passou de 4 milhões.

Balança de forças na região

A reeleição de Lula mantém o mesmo equilíbrio de forças na balança de poder entre a direita e a esquerda na América do Sul. O Brasil segue como a principal força de esquerda do subcontinente, ao lado do Uruguai de Yamandú Orsi. Ainda há a Venezuela de Delcy Rodríguez - apesar de sua aproximação recente com Donald Trump -, a Guiana de Irfaan Ali e o Suriname de Jennifer Simons.

Do lado da direita, seguem no comando a Colômbia com Abelardo de la Espriella, o Equador com Daniel Noboa, o Peru com Keiko Fujimori, a Bolívia com Rodrigo Paz, o Chile com José Antonio Kast, o Paraguai com Santiago Peña e a Argentina com Javier Milei. _

A política externa do novo mandato

O Brasil é o maior país da América Latina, sétimo mais populoso do mundo e a décima maior economia do planeta. A nação é integrante dos Brics, do G20 e de outras organizações multilaterais. A coluna reúne, abaixo, as principais propostas do presidente reeleito Lula para a política internacional de acordo com o seu plano de governo. _

Aos 96 anos, exercendo o voto

Aos 96 anos, o ex-presidente José Sarney votou ontem. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele chegou à seção eleitoral em São Luís, no Maranhão, de cadeira de rodas e acessando a cabine de votação. Na gravação, Sarney também tirou fotos com eleitores e usou um adesivo do candidato Lula.

- Recordo que as eleições diretas no Brasil foram realizadas por mim, como presidente da República. Restaurei as eleições diretas e mandei ao Congresso Nacional a emenda que possibilitou isso. E hoje estamos vendo, depois de 40 anos, o quanto a nossa transição foi efetiva, foi forte, garantindo ao povo brasileiro a continuidade, para que sejamos, como somos, a segunda maior democracia do mundo ocidental - disse em vídeo. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 24 de outubro de 2026



24 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

A guitarra silenciada

Eu confessei, nesta coluna, que não me dou bem com encomendas. O trauma é justificado. Com a minha filha, cometi uma gafe irreparável.

Aos 17 anos, Mariana se mudou de Brasília para Porto Alegre e me confiou uma missão: trazer sua guitarra. Eu iria palestrar na capital federal.

Falei, claro, que contasse comigo. Mesmo sabendo que minha estada seria apertada, de um dia para o outro. Mesmo sabendo que eu não retornaria diretamente para Porto Alegre, ainda faria uma apresentação em Maceió.

Desprovido de experiência com um instrumento, sequer tinha noção se deveria despachar ou não - minha vida de artista no microfone se resume à palavra. Eu jurei que se tratava de uma chance de ganhar alguns pontos na paternidade, no meio da contestação da adolescência. Substituiria o débil discurso pela veemência do gesto.

Para não errar, eu me programei para recuperar o seu tesouro antes do evento. Assim não correria riscos de deixar para a última hora e arcar com imprevistos. Levei a guitarra para o hotel. Ela dormiu ao meu lado. Transportei a guitarra a bordo. Cuidava para que ninguém a danificasse em seu estojo. Eu a embalava nos braços.

Carregava a minha filha novamente no colo - era essa a minha sensação. Nunca me preocupei tanto com um objeto, para não estragá-lo, para não perdê-lo de vista.

Eu me tornei um guardião implacável. Ao extremo de almoçar e jantar no quarto. Ao extremo de conversar com a Fender Stratocaster como se fosse meu cupido: que entoasse depois para Mariana, com suas cordas, com suas canções, o amor que sinto por ela. Que me ajudasse a ser um pai mais próximo, afinado e presente.

Fiquei antissocial na viagem. Só desejava ir para casa e entregar a incumbência sã e salva. Na verdade, ansiava receber um abraço e um beijo de recompensa, talvez um "eu te amo" que a gratidão arranca do mais fundo da palpitação.

Quando pousei em Porto Alegre, finalmente relaxei. Nada mais me tiraria os méritos. Eu me dirigi até o carro. Abri o porta-malas, coloquei minha bagagem e parti para o lar, para rever minha filha com o sacerdócio do resgate cumprido.

Eu ria sozinho, eu cantava as músicas do rádio, eu vibrava com o sucesso da operação. Ao desembarcar na garagem, acabei tomado de um pânico: cadê a guitarra? Minhas malas se encontravam ali, mas a guitarra não.

Tonteei de nervoso. Numa velocidade impressionante de raciocínio, rebobinei os pormenores da minha chegada, quadro a quadro.

Já passaram mais de quinze anos e não sei explicar o que aconteceu. Eu observei Mariana me esperando na janela. Sem comentar coisa alguma, entrei no veículo, engatei a ré e voei de volta para o aeroporto.

Havia esquecido a guitarra no alambrado do estacionamento, perto de uma lixeira. Não a pus no bagageiro. Simplesmente permaneceu de pé, encostada na grade. Não estava mais lá. Alguém pegou. Alguém acreditou num estranho descarte. Nem posso chamar de furto.

Meu coração é que foi roubado. Mariana me perdoou, eu jamais. _

CARPINEJAR

24 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

A segunda-feira é decisiva

É manhã de segunda-feira, 26 de outubro de 2026. O vencedor da eleição de domingo entrou pela noite em comemorações. Por isso, o presidente que tomará posse em 5 de janeiro acordou mais tarde, mas já não terá um segundo de descanso. A campanha foi tão disputada, e tão repleta de promessas mirabolantes, que o vencedor será cobrado, questionado e contestado a partir desta segunda-feira.

Sua primeira missão é mais complexa ainda do que arrumar dinheiro para fazer valer a promessalhada de palanque. Sua tarefa prioritária é juntar os cacos da nação. O fosso entre as duas metades - a esquerda e a direita - apenas se aprofundou nos últimos anos. As torcidas de Lula e dos Bolsonaro veem os apoiadores do outro lado como iludidos, na melhor das hipóteses, ou degradados morais, no mais das vezes. Nestes termos, não há entendimento possível se o presidente e suas forças políticas não absorverem as motivações alheias para detestá-los com tanto ardor.

O racha do país em blocos antagônicos vai bem além do problema político. Ele separa famílias, destrói amizades e apaga consensos mínimos em torno de agendas primárias, como a convivência em harmonia e o fato de que a nação deveria estar acima de questões eleitorais transformadas em batalhas de vida ou morte. Se não houver racionalidade, o futuro é sombrio. Seja quem for o vencedor, a partir de 6 de janeiro o governo tem tudo para dar errado do ponto de vista econômico, porque os dois candidatos prometeram o céu enquanto flertavam com o inferno fiscal. Quando essa conta não fecha, impopularidade, frustração popular e crises sociais são apostas certeiras.

Lá fora, embora as campanhas se mantivessem à margem do que ocorre no Exterior, a situação não ajuda. O mundo desenvolvido está atolado em dívidas, o extremismo avança, protestos violentos explodem em razão do desalento dos jovens e as guerras ameaçam se conectar para desembocar em conflito de alcance internacional. O Brasil pode tirar proveito da instabilidade ou ser tragado por ela. Depende de como o vencedor se portar.

Ele precisa agir rápido para desmontar rancores e lidar com os previsíveis desencantos. Terá de construir pontes e não alijar os adversários em um desterro moral sem saída. Para esfriar o ânimo bélico, ajudaria refrescar a memória do país dividido que o inimigo de hoje muitas vezes é o aliado de amanhã, como demonstram as forças que se uniram em torno de Lula e Flávio neste segundo turno. O discurso da vitória, ainda no domingo, será um prenúncio, mas é pelo comportamento do vencedor a partir desta segunda-feira que saberemos o que nos espera ali na frente. 

MARCELO RECH

OPINIÃO RBS

O vencedor e o vencido

O eleitor volta às urnas neste domingo para decidir pela continuidade na Presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou pela alternância de poder, com Flávio Bolsonaro (PL). Por ser uma escolha que selará o destino do país pelos próximos quatro anos, espera-se que cada voto neste segundo turno resulte de uma profunda ponderação sobre os candidatos, suas propostas conhecidas, contradições e os projetos políticos que representam.

Flávio e Lula personificam duas visões inconciliáveis de país. Tamanhas diferenças, que se expressam em igual medida no tecido social brasileiro, ajudaram a criar o ambiente de uma campanha eleitoral que será lembrada como uma das mais rasteiras e rasas desde a redemocratização. Não apenas pela postura das candidaturas, mas pelo contexto da disputa, em meio ao escândalo do Banco Master e à crise moral do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Propostas inverossímeis, abuso do populismo, profusão de acusações para elevar a rejeição do adversário, escassez de debates, uso da desinformação, contestações a ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), arroubos censórios na Corte e suspeitas de interferência de big techs ajudaram a tumultuar e a degradar a qualidade da corrida ao Planalto. De positivo, até aqui, deve-se registrar a ausência de teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas, que outra vez, no primeiro turno, tiveram desempenho modelar.

Os principais desafios do país, como a situação das finanças públicas, não foram discutidos de forma honesta. Se o festival de bondades prometidas à população for cumprido, o país seguirá com juros sufocantes para as famílias e para as empresas e a inflação permanecerá pressionada. Mas o choque de realidade está próximo. As áreas em que a população mais necessita do poder público, como saúde, educação e segurança, tampouco mereceram a atenção necessária dos candidatos.

Neste domingo, serão conhecidos o vencedor e o vencido. Ambos terão responsabilidades.

O acirramento dos ânimos na reta final da campanha aponta, infelizmente, para a manutenção da divisão profunda da sociedade. Diante desse cenário, seria extremamente salutar se, de certa forma contrariando as expectativas, existissem dos dois lados acenos ao apaziguamento. Ao vitorioso, cabe também saber vencer. No sentido de ter uma postura de incentivo à convivência civilizada entre os cidadãos que pensam diferente, de afirmar que governará para todos e de dar garantias de respeito à Constituição, aos valores democráticos e aos princípios da harmonia e da independência entre os poderes. Dar o exemplo confere maior força à liderança.

Do derrotado, aguarda-se uma postura de grandeza e de aceitação do resultado. Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro não passou a faixa a Lula. Há duas eleições presidenciais o perdedor não faz a tradicional ligação telefônica para o vencedor, para reconhecer o desfecho do pleito e cumprimentá-lo. Espera-se que esses gestos da liturgia republicana voltem a ser prática no país.

Os solavancos da democracia brasileira e os momentos tensos desta campanha e dos últimos anos, de qualquer forma, não sobrepujam o principal: haverá a certeza de que o veredito das urnas, seja qual for, será a materialização da vontade soberana da maioria dos eleitores.  


JUSTIÇA ELEITORAL

Ministro decide que canal pró-Lula só pode ser suspenso com aval do plenário

Decisão de Floriano de Azevedo Marques, do TSE, impede o próprio presidente da Corte, Nunes Marques, de tirar o grupo Exército do Lula do ar. Medida chega junto de outras questões envolvendo as campanhas na internet, entre elas, a moderação das big techs sobre conteúdo eleitoral

O ministro Floriano de Azevedo Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), barrou a suspensão do canal Exército do Lula, operado pelo deputado federal André Janones (REDE- MG) no WhatsApp. Na decisão monocrática, tomada na sexta-feira, ele proíbe a Meta, dona da plataforma digital, de retirar o canal do ar mesmo se houver determinação judicial de outras ações que tramitam na Corte.

Também estabeleceu multa de R$ 50 mil diários à companhia em caso de descumprimento. O magistrado ainda impede que qualquer outro membro do TSE, inclusive o presidente, ministro Kassio Nunes Marques, tome decisão em sentido oposto até o fim do mandado de segurança.

A medida atende a pedido da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, na prática, anula os efeitos de processos abertos por seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), para derrubar o canal. O petista entrou com mandado de segurança contra a iniciativa. A chapa de oposição sustenta que Janones praticaria uso abusivo da ferramenta para difundir informações falsas e passar "missões" a apoiadores do presidente, o que violaria a legislação eleitoral.

Na sexta-feira, Kassio Nunes Marques havia atendido ao pedido feito pela campanha de Flávio e determinou um pente-fino nas publicações do canal, que tem quase cerca de 10 milhões de inscritos. Já Azevedo Marques argumentou na decisão que a intenção de Flávio seria suspender as atividades do canal, embora o pedido não seja expresso na petição em que solicitou o pente-fino.

Para Azevedo Marques, o presidente do TSE não pode determinar a eventual suspensão do canal ao analisar administrativamente se o acordo de integridade do processo eleitoral está sendo cumprido. "Não há espaço interpretativo para que a atuação administrativa de fiscalização do plano de conformidade resulte em sanções diretas a candidatos, partidos e coligação e muito menos a pessoas naturais não participantes do pleito", escreveu.

Reunião com a Meta

Mais cedo, em nota, o TSE negou ter ordenado a retirada do ar de canais no aplicativo de mensagens. O texto foi divulgado após Janones ter alertado sobre a possível suspensão iminente do canal Exército do Lula.

O deputado enviou um vídeo pelo canal alertando ter informações de que o mesmo poderia ser retirado do ar pelo TSE após a Corte receber da Meta um relatório esmiuçando a atividade do Exército do Lula. A suspeita veio à tona após Nunes Marques ter dado 24 horas para a Meta apresentar um relatório técnico sobre o funcionamento do canal.

A nota foi divulgada após a cúpula do TSE ter se reunido, pela manhã, com representantes da Meta, dona também do Facebook e do Instagram, e de redes sociais como TikTok e Kwai. Na reunião, Nunes Marques pediu que as plataformas garantam o tratamento isonômico para as candidaturas. O TSE também requereu que as plataformas reforcem suas equipes na reta final da campanha e assegurem o cumprimento da legislação eleitoral. _

Pedidos mútuos de cassação

As duas campanhas encaminharam ao corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, pedidos de cassação do registro de candidatura dos respectivos oponentes. A de Lula cita suspeitas no caso do filme Dark Horse, obra biográfica do ex-presidente Jair Bolsonaro. A de Flávio acusa o petista de uso eleitoral da Rádio Nacional.

A campanha de Lula pede a cassação da candidatura do PL por financiamento eleitoral ilícito, com base em informações da investigação sobre o filme. Alega que um aporte de US$ 12 milhões feito pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, levanta suspeita sobre uso de recursos ilícitos na campanha eleitoral do oponente.

Já a defesa de Flávio acusa Lula de uso eleitoral da Rádio Nacional e pede que sejam coletadas gravações do programa Alô Alô Brasil, apresentado por Agostinho Luiz Teixeira. O documento lista série de ocasiões em que Teixeira teria replicado na rádio pública discurso similar ao da campanha de Lula. 


Por que o mundo olha para a eleição do Brasil

Maior país da América Latina, sétimo mais populoso do mundo e a décima economia do planeta, o Brasil, que irá às urnas, é observado com lupa pela chamada comunidade internacional. Na mão do eleito, seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT), estará o poder de desenhar uma política externa que irá impactar as relações políticas e comerciais para lados diferentes.

O Brasil é campo de batalha ideológica e geopolítica. A eventual eleição de Flávio será vista como uma vitória de forças anti-establishment (chamada de direita populista ou extrema direita a depender dos analistas), representada por Donald Trump, nos EUA, com aliados como Benjamin Netanyahu, em Israel, e partidos como Vox, na Espanha, Alternativa para a Alemanha (AfD), da Alemanha, Reunião Nacional, da França, e o Fidesz, da Hungria. São líderes que desqualificam as instituições multilaterais, como a ONU, a OMS e os acordos climáticos.

A eventual reeleição de Lula significará, aos olhos do mundo, a continuidade de uma política externa alinhada aos princípios do sistema multilateral.

Essas diferenças de pontos de vista se manifestam, na prática, em agendas também diversas na forma de abordar conflitos, disputas e questões geopolíticas. 

Principais tópicos

A coluna reúne os pontos que podem sofrer impactos a depender de quem for eleito neste domingo

EUA x China

O Brasil está no centro de uma disputa entre as duas potências que concorrem pela hegemonia da nova ordem global. A China é o maior parceiro comercial brasileiro. Os EUA são o segundo, mas o principal investidor estrangeiro no país. Por isso, o Brasil precisa preservar boas relações com as duas potências, mesmo diante da rivalidade entre Washington e Pequim.

Lula defende uma política externa de diversificação das alianças, com fortalecimento dos Brics e das relações com a China, sem romper com Washington.

Flávio propõe maior alinhamento político com os Estados Unidos de Donald Trump, especialmente em segurança e comércio, mas também reconhece a necessidade de preservar a relação econômica com os chineses.

O problema é que os interesses de Washington e Pequim estão em conflito. Aproximar-se politicamente de um lado pode provocar dificuldades com o outro. Manter a autonomia é desafio tanto para Flávio quanto para Lula.

América Latina

Os vizinhos estão de olho porque quem vencer vai manter um contrapeso de esquerda ou ampliar a maioria de governos de direita. Se a esquerda mantiver a presidência, o Brasil segue como principal governo de esquerda do continente, ao lado do Uruguai de Yamandú Orsi. Se passar para a direita, o Brasil se juntará a Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia em uma configuração regional amplamente comandada pela direita. Para Donald Trump, que vê a América Latina como zona de influência, a eleição é fundamental. Uma vitória de Flávio favorece sua agenda, reduzindo a ação da China e da Rússia na América Latina. A vitória de Lula oferece uma resistência.

Relações com o Mercosul

O bloco econômico do Cone Sul sempre foi refém do desalinhamento ideológico entre os presidentes de cada país. A eleição vai influenciar a maneira como o Brasil abre sua economia e negocia acordos comerciais. Um exemplo é o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja parte comercial começou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio de 2026. O próximo governo terá papel importante na implementação das regras e no aproveitamento das oportunidades de exportação. Lula defende o fortalecimento do Mercosul como plataforma de negociação internacional. Flávio propõe maior flexibilidade para o Brasil estabelecer acordos comerciais, inclusive bilaterais.

Mudanças climáticas

O Brasil abriga a maior parte da Floresta Amazônica, fundamental para a biodiversidade e regulação do clima. Também é uma potência agrícola e energética. Isso faz com que decisões sobre desmatamento, combustíveis fósseis, agricultura e transição energética repercutam no mundo. Lula colocou a agenda climática entre as prioridades de sua política externa. Flávio Bolsonaro enfatiza o aproveitamento econômico dos recursos naturais, do agronegócio e critica exigências ambientais consideradas excessivas. O mundo se pergunta se o Brasil continuará exercendo protagonismo nas negociações e como conciliará conservação ambiental e desenvolvimento.

O Brasil na ordem mundial

O Brasil é integrante dos Brics, do G20 e de outras organizações multilaterais. Sua relevância também decorre da capacidade de dialogar com líderes que estão em lados opostos. Lula procura ampliar a influência dos países emergentes, defendendo reformas na governança internacional e o fortalecimento das instituições multilaterais. Flávio Bolsonaro questiona a atual orientação política dos Brics e prefere dar mais ênfase a relações bilaterais, sobretudo com EUA, Israel e Argentina. Com Lula, o Brasil continuará atuando como interlocutor entre diferentes blocos. Com Flávio, haverá preferência por alinhamentos com posições adotadas pelos EUA.

Melhor nível de debate

Graças às regras, o debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, obrigou os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) a versarem sobre propostas e os constrangeu a não fazer ataques e se reduzirem à linguagem de 5ª série. O show de horrores visto na Band, no domingo, foi, senão evitado, diminuído em muito. Houve propostas desta vez.

Na apresentação do mediador, o jornalista César Tralli, Flávio foi mais "imagético", postando-se sorrindo tão logo seu nome foi anunciado. Lula estava de cabeça baixa. Em um debate televisivo, tudo importa, principalmente a imagem. Ao contrário do debate da Band, Flávio usou gravata, o que demonstra solenidade. Lula optou por não vestir o acessório, a fim de passar uma imagem próxima do "cidadão comum".

Mas voltemos ao formato: as regras da Globo impediam que o adversário aparecesse atrás do rival no momento de fala do segundo. Foi fundamental. Não só porque isso tira a concentração de quem está falando. A tática usada por Flávio na Band prejudicou, principalmente, quem assistia, Sua Excelência, o Eleitor, quem realmente deveria ser o foco de quem almeja governar o Brasil.

Lula estava mais focado do que no debate anterior, mas a idade pesa e houve problemas de dicção. Flávio estava mais imagético e preocupado com sua postura. Mas foi capacitista ao dizer "nove dedos", logo no primeiro bloco. Quando foi sorteada a Região Sul, o senador errou feio ao fazer referência "a Sarandi", o bairro porto-alegrense, um dos mais atingidos pela enchente de 2024, como se fosse uma cidade. Demonstrou não conhecer Porto Alegre. 

No mais, tentou passar a imagem de que um eventual governo com alinhamento direto com o governador eleito Luciano Zucco seria favorável ao Estado. Lula demonstrou conhecer mais o Brasil, surfou nos detalhes.

Lamentável que ambiente e sustentabilidade tenham aparecido pouco quando o Norte foi sorteado. Flávio ignorou. Lula puxou o assunto tardiamente. O formato e as regras da Globo salvaram o debate e os brasileiros da repetição do circo de horrores de uma semana atrás. _

Pantera Cor-de-Rosa nos protestos em Paris é IA

Desde o início das manifestações em Paris, uma série de imagens circula pela internet. Algumas, em especial, mostram supostamente uma pessoa fantasiada de Pantera Cor-de-Rosa participando dos protestos, vandalizando espaços públicos e até sendo presa.

Contudo, trata-se de imagens geradas por inteligência artificial.

A coluna utilizou três sistemas de identificação para checar se os arquivos de imagem foram criados ou alterados por inteligência artificial.

Segundo as três plataformas, a imagem da Pantera Cor-de- Rosa sendo presa por dois policiais foi gerada por IA. Uma delas identificou até que a peça foi criada pela OpenAI. Já os outros dois sistemas mostraram que a foto contava com índices superiores a 99% de chances de serem geradas pela tecnologia.

A cena do jato de água das forças de segurança também foi confirmada como IA, com índices de 86% e 95% de probabilidade de inteligência artificial. 

INFORME ESPECIAL 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

23 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Aniversário discreto

Deixe-me ser vulnerável. Eu falo para multidões. Eu faço palestra para milhares de pessoas. Mas não tenho um monte de amigos, como os outros acreditam. É comum imaginar que recebo convites sem parar para comemorações, matrimônios, shows, baladas. Necas.

Sou vip do meu sofá. Não me inveje. Não frequento altas rodas do poder. Não ando de jato ou avião particular. Você nunca me localizará em troca de mensagens com Vorcaro. Não participo de escândalos.

Sou feijão com arroz. Com bastante farofa.

Minha prosperidade é dedicação. Eu trabalho todos os dias da semana sem folga. Quem me conhece sabe.

Eu me mantenho reservado. Entendi que a maior solidão é a pública. Ninguém me chama, talvez porque não alimento aparências ou mesmo porque me consideram inacessível.

Não há nada de sofisticado em meu software. É mundano. Converso sobre futebol tanto quanto sobre livros e cinema. A banalidade me atinge. Paro quando alguém me aborda na rua, abraço, rio, escuto, ganho histórias de vida. Não me acho antipático dentro do convívio. Grite meu nome e vou atrás.

Mas, contrariando as expectativas, meus amigos enchem uma mão. Aqueles de telefonar diariamente, de reportar as novidades, de discutir os problemas, de surgir de repente no interfone do meu lar, de decorar a novela dos meus perrengues, de rir dos meus defeitos incorrigíveis, de me acompanhar no estádio: a esposa, os filhos, os pais, a irmã e cinco contatos.

No meu aniversário de hoje, adotei a discrição. Desisti de comemorações espalhafatosas. Prefiro sair para jantar e soprar as velas em casa. O bom é que sobra mais torta para mim.

Não conto com gente íntima para lotar uma festa de aniversário. Preciso pedir amigos e parentes emprestados para Beatriz. Ela engrossa a minha lista, salva o evento. Ela se preocupa comigo, com a minha felicidade.

No nosso casamento, eu parecia torcida adversária, ocupando 5% da capacidade do salão com os meus convidados. Não arda de pena de mim. Não estou triste. Sequer é um incômodo, ou algo para mudar. São contingências do destino. Eu me sinto amado na família e respeitado fora.

Minha sessão de autógrafos humilha minha festa de aniversário. Dá de relho. Inclusive, um de meus momentos prediletos é o encontro com meus conterrâneos na Feira do Livro de Porto Alegre (marcado, neste ano, para 7 de novembro, às 19h). Aliás, meus leitores são meus confidentes. Trato meus lançamentos de livros como a mais fiel celebração de meu nascimento.

E, se eu observar aos lados, existem sósias de minha alma. Muitos vivem como eu: sociáveis solitários. As redes sociais mascaram a verdade. Pode ser que me enviem relatos depois deste texto: "eu me vejo igual a você".

Possivelmente é uma triagem do tempo. Colegas desaparecem, amigos ficam. Amizade é antiguidade.

Ou é da minha natureza interior ser da montanha e dos silêncios, das visitas de Deus. _

CARPINEJAR

Visita de mãe

A vida adulta é mesmo engraçada. Viver como alguém independente, com mais de 30 anos, solteiro e morando sozinho carrega um misto de responsabilidade, rotina e preguiça. A fase da liberdade já ficou no passado. Imagino que aconteça com todo jovem que sai de casa na casa dos vinte e poucos anos e vê tudo como novidade.

Depois o tempo passa, as coisas se acomodam e a gente já não quer acordar tarde nem chegar virado de alguma festa. Não é só por causa da idade, nem das obrigações do trabalho ou dos relacionamentos que às vezes fracassam. O fato é que os hábitos mudam depois de alguns anos morando você com você mesmo.

A própria companhia deixa de ser solidão. Talvez a gente desenvolva inconscientemente um "eu" paralelo. É uma voz mental com quem conversamos, repassamos tarefas, verificamos compromissos e relembramos o dia. Eu adoro essas conversas que tenho comigo mesmo e até me pego rindo sozinho de alguma reação que tive, de alguma história que vivi ou de alguma tirada hilária que surge de uma lembrança aleatória.

Quando atingimos esse "flow" de morar sozinho, passamos a não gostar muito de sair do espaço que criamos para nós. É seguro, confortável, previsível e normalmente tem um sofá pronto para nos abraçar. Visitas são boas, claro. Mas não quando se alongam muito.

Mas toda regra tem uma exceção.

Visita de mãe faz a gente buscar uma reconfiguração instintiva. Até quem está acostumado a fazer tudo para si quer se sentir mimado mais um pouquinho. Basta minha mãe chegar à minha casa e, em poucos minutos, eu volto a ser criança ou adolescente.

Gosto de como ela pergunta se quero comer alguma coisa ou sai dobrando alguma roupa que deixei espalhada pela casa. Gosto de lembrar de como era quando morávamos na mesma casa. Gosto da companhia dela para ver novelas e filmes. Gosto de quando tomamos chimarrão juntos e ela pergunta algo sobre o meu trabalho. Gosto de ter minha mãe em casa comigo.

As visitas nunca duram muito, mas fico lembrando dela por vários dias. Na salada de frutas que ficou na geladeira, no jeito como ela deixou alguma coisa pela casa, na presença que segue comigo mesmo quando ela não está.

Os primeiros dias depois de ver alguém são sempre os de maior saudade para mim. Depois a gente se acostuma com a distância.

É assim a vida adulta. 

MARCO MATOS 

Sinal verde para megainvestimento

Após sete meses de impasse, enfim foi concedida ontem a licença ambiental prévia para o Projeto Natureza, da CMPC, simplesmente o maior investimento produtivo já programado para o Rio Grande do Sul. Apenas relembrar que o empreendimento mobilizará um aporte de R$ 27 bilhões é suficiente para dimensionar a importância do plano da companhia chilena para o Estado.

O planejamento contempla uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, a ampliação da base florestal com produtores rurais parceiros em diversos municípios e expansões portuárias em Rio Grande e Pelotas. Os benefícios, portanto, serão sentidos em várias regiões gaúchas. Pelos efeitos diretos e indiretos, tanto na fase de implantação quanto na operação, o Projeto Natureza tem o potencial de ser um marco na retomada do crescimento do RS. Colocá-lo em marcha, o que também depende da confirmação oficial da empresa, significará uma injeção de confiança para um Estado que está desafiado a lançar as bases de uma nova era de desenvolvimento econômico e social.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) emitiu a licença nesta quinta-feira, após manifestação favorável da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), aguardada desde março. O Ministério Público Federal (MPF) inicialmente recomendou que o licenciamento fosse paralisado, por considerar que não havia sido realizada consulta adequada às comunidades indígenas que vivem na área sob influência do projeto. O procurador responsável pelo caso ajuizou uma ação civil pública na Justiça Federal para obrigar que a consulta ocorresse nos moldes que considerava corretos. O posicionamento da Funai contraria o entendimento do MPF.

A ação prossegue. Mas, diante do parecer da Funai, órgão responsável por proteger os direitos das populações originárias, espera-se que em breve seja encerrada com uma decisão favorável à continuidade do projeto. Deve-se lembrar que as exigências cumpridas pela empresa seguiram as orientações da própria fundação.

É importante ainda ressaltar que a licença prévia é apenas o sinal verde inicial. A CMPC ainda terá de buscar a licença de instalação e, depois, a de operação. A própria Fepam, portanto, seguirá orientando e acompanhando as próximas etapas. O objetivo do licenciamento, convém sublinhar, é exatamente conciliar o progresso econômico com aspectos sociais e a proteção ao ambiente. É um instrumento para alcançar o desenvolvimento sustentável.

O imbróglio era grave não somente pela possibilidade de desistência da companhia. A frustração de um megaempreendimento como o da CMPC seria devastadora para a reputação do RS, Estado que precisa se mostrar receptivo e atrativo a investimentos produtivos. Insegurança jurídica costuma afastar capital. O risco também levou à mobilização de entidades empresariais e dos governos estadual e federal para solucionar o impasse.

Fica a expectativa, agora, de que o Projeto Natureza siga o seu curso. A previsão é abrir 12 mil postos de trabalho durante a fase de obras e 6 mil durante a operação. Mas, certamente, pelo efeito multiplicador, os reflexos positivos tendem a ser maiores, pela grande demanda de produtos e serviços gerada para outras empresas gaúchas.  


23 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Discussões irrelevantes afastam Lula e Flávio dos problemas reais

A campanha eleitoral de 2026 entrará para a história como aquela em que mais tempo se perdeu com irrelevâncias, poupando os candidatos de discutirem o que importa para o futuro do Brasil. No primeiro turno, o não assunto que mais mobilizou as redes sociais foi Nossa Senhora Aparecida, arrastada para a campanha a partir de uma fake news - a de que, se eleito, Flávio Bolsonaro a destituiria do "cargo" de padroeira do Brasil. 

A santa de devoção de milhões de brasileiros virou protagonista de uma campanha que deveria ser laica, mas está contaminada pela mistura entre religião e política, uma afronta ao segundo mandamento da lei de Deus - "não tomai Seu santo nome em vão". Enquanto se discutia se o posto de Nossa Senhora Aparecida estava ameaçado, os principais candidatos foram poupados de esclarecer o que farão, de fato, para melhorar a vida dos brasileiros. Neste segundo turno, a "santa" da vez é a quebra do sigilo bancário e telefônico dos candidatos. Nasceu de um desafio do presidente Lula no debate da Band, depois de ser chamado de ladrão por Flávio.

Desde o início estava claro para quem parasse um pouco para pensar que se tratava apenas de um recurso retórico de Lula para fustigar o adversário, que nunca explicou sua vida financeira incompatível com os bens e que carrega no histórico a compra de imóveis pagos com dinheiro vivo e a quitação antecipada de uma mansão em Brasília, financiada pelo BRB.

O mais incrível é que colou, até porque a imprensa tradicional, majoritariamente, acompanhou a toada das redes sociais e transformou em manchetes o que seria uma nota de rodapé (e aqui vale um mea culpa do jornalismo). O desafio de Lula foi entendido por seus militantes como a grande sacada do debate da Band. E como Flávio demorou três dias para "aceitar" o desafio, Lula conquistou a narrativa.

Ontem, as duas campanhas protocolaram no TSE um documento autorizando a dita quebra dos sigilos, estendendo o alcance a pessoas físicas e jurídicas ligadas aos dois candidatos. Se fosse sério, significaria entregar ali os telefones de todos os envolvidos (e a procuração assinada por todos eles para quebrar os sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático). Só que não.

Assinado o acordo, representantes da campanha de Flávio saíram reclamando que Lula apresentou "apenas" o requerimento e que o candidato só abriria o seu depois que Deltan Dallagnol analisasse com lupa toda a papelada do concorrente.

Blefe em cima de blefe. Quem tem de analisar o conteúdo de telefones são peritos habilitados a recuperar mensagens apagadas, como a Polícia Federal está fazendo com os celulares de Daniel Vorcaro. Isso demanda tempo, especialização, organização e cruzamento de dados, coisa que todos sabem ser impossível de produzir, até o dia da eleição, qualquer resultado que não seja marola.

Livres de cobranças

Pela perda de tempo com não assuntos, Lula não foi cobrado a explicar o que fará de diferente se conquistar o quarto mandato, nem como pagará as contas dos pacotes de bondades lançados nas últimas semanas. Flávio livrou-se de responder como fará para cumprir as promessas que sabe serem impagáveis, como a de fazer um tesouraço de R$ 250 bilhões no primeiro ano de governo e, ao mesmo tempo, manter e melhorar todos os programas sociais existentes.

Ficou na balela do "Ministério da Prosperidade", como se isso fosse capaz de reduzir as desigualdades sociais e, num passe de mágica, encher os carrinhos de supermercado que na propaganda aparecem vazios. 

Aliás

Era óbvio que o vice-presidente do TSE, André Mendonça, diria o que disse sobre a quebra de sigilo dos candidatos. Que não cabe à Justiça Eleitoral divulgar dados sigilosos de Lula e Flávio. E que cada um, se quiser, divulgue como e quando achar conveniente.

Leandro Sonne deve integrar futuro governo do Estado

Uma das premissas do governador eleito Luciano Zucco na montagem do secretariado é só indicar pessoas que "não precisem dar explicação sobre sua vida pregressa". A outra, que tenham conhecimento técnico. E uma terceira é que sejam da sua confiança.

Por isso, qualquer exercício sobre o futuro do secretariado não pode deixar de fora um jovem discreto, que integra a equipe de transição, trabalhou na coordenação da campanha e é uma das pessoas mais próximas do governador. Esse jovem é Leandro Sonne, funcionário de carreira do Estado, coordenador da bancada do Republicanos na Assembleia e quase uma sombra de Zucco na última campanha. Ele também desfruta da confiança do deputado Delegado Zucco, irmão do governador eleito.

No Piratini, foi subchefe legislativo quando Cleber Benvegnú chefiou a Casa Civil. Advogado, conhece os meandros dos dois lados da Rua Duque de Caxias, domina a legislação estadual e acompanha os bastidores da política, o que o credencia para chefiar a Casa Civil ou assumir outro papel relevante no governo. _

Leite apresenta plano de recuperação pós-enchente

Depois de passar a campanha criticando o governo de Eduardo Leite pela demora na execução das obras de prevenção às cheias, o governador eleito Luciano Zucco foi apresentado ontem ao Plano Rio Grande, que concentra os projetos em andamento.

Os técnicos do governo, cada um dentro da sua área de responsabilidade, detalharam como o Rio Grande do Sul se preparou para enfrentar futuros eventos climáticos, o que foi feito e o que ainda está por fazer.

Zucco e a vice-governadora eleita Silvana Covatti assistiram à apresentação acompanhados de integrantes da comissão de transição, que receberão de cada secretaria relatórios detalhados do andamento dos projetos e terão subsídios para o novo governo decidir o que será mantido e o que será modificado.

Também na campanha, Zucco disse que manterá o que estiver dando certo, mas quer acelerar o ritmo das obras. Insistiu também que seu Plano de Governo é um "Plano de Estado". Leite sempre disse o mesmo sobre o Plano Rio Grande, porque foi elaborado com visão de futuro, não só para o Estado recuperar as estruturas afetadas pela enchente de 2024, mas melhorá-las.

Elogios - Ao final do encontro, Zucco destacou o alto nível da transição:

- Quero agradecer pela condução desse processo, que tem sido muito positiva. Estamos tendo a oportunidade de conhecer os projetos, aprofundar os temas e dialogar com as equipes para construir uma transição organizada e responsável. _

Um curinga no baralho do secretariado de Zucco

Coordenador do plano de governo de Luciano Zucco, o secretário de Educação de Porto Alegre, Leonardo Pascoal, é tão certo no primeiro escalão que já está tratando da sua sucessão na equipe do prefeito Sebastião Melo. O que não está definido é qual secretaria ele vai ocupar. Na campanha, especulava-se que seria a da Educação, mas, tão logo saiu o resultado da eleição, o governador eleito convidou o atual secretário do Paraná, Roni Vieira.

Longe de representar um desprestígio para o ex-prefeito de Esteio, o movimento de Zucco mostrou que é ele o curinga no baralho da formação do secretariado. Pascoal cabe em diferentes caixinhas do organograma que está sendo montado a diferentes mãos. Eleito pelo PP em Esteio, migrou para o PL e conquistou a confiança do futuro governador.

Poderia ser a Casa Civil? Sim, mas não só ela. Por ter trabalhado no plano de governo e estar à frente da equipe de transição, ele também poderá ser o substituto de Danielle Calazans na Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão.

Com a experiência de prefeito, Pascoal também poderá acabar na Secretaria de Infraestrutura. _

POLÍTICA E PODER

Loja de Inconveniência

Entre livros, bancas e estandes, quem caminhar pela Feira do Livro de Porto Alegre, a partir do dia 30, irá deparar com um espaço diferenciado das edições anteriores.

Do lado de fora, o espaço de 42 metros quadrados lembra uma loja de conveniência, dessas de postos de combustíveis. Mas, quando se entra na instalação cenográfica, há um certo desconforto. No lugar de produtos convencionais, haverá informações, dados e orientações relacionados à prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o país registrou em 2025 mais de 61 mil vítimas de estupro e estupro de vulnerável entre crianças e adolescentes. A violência acontece, principalmente, dentro de casa (54,6%), sendo 59,2% dos autores familiares e 36,9% conhecidos da vítima.

Dadas a seriedade do tema e a realidade preocupante, a instalação na Feira do Livro é chamada de "Loja de Inconveniência".

O projeto "Vozes pela Proteção - Quebrando a Inconveniência" é uma mobilização nacional de conscientização e prevenção organizada pelo Movimento Violência Sexual Zero, iniciativa liderada pela Vibra, pela Childhood Brasil, pelo Instituto Liberta e pelo Grupo Mulheres do Brasil.

- É um tema sensível que estamos enfrentando com seriedade, responsabilidade e acolhimento. E trazer essa iniciativa para a Feira do Livro é uma maneira de aproximar o tema das famílias, dos educadores, das crianças e de toda a comunidade, fortalecendo a informação e a nossa rede de proteção. A prevenção começa quando deixamos de tratar o assunto como tabu e passamos a falar sobre ele - afirma a vice-prefeita da Capital, Betina Worm, uma das responsáveis pela articulação.

No espaço, haverá acolhimento, orientações sobre denúncia e apoio de psicólogos. A experiência terá acesso gratuito e permanecerá aberta durante os 17 dias da feira.

A programação também contará com o espetáculo Vozes Silenciadas. A apresentação acompanha a história de uma adolescente que encontra na música um caminho para enfrentar o trauma e romper o silêncio. A abordagem é sensível, sem cenas explícitas de violência, e será seguida por rodas de conversa destinadas a ampliar o diálogo e a orientação sobre o tema.

A Loja de Inconveniência será instalada na Praça da Alfândega, entre o Margs e o Banrisul.

A iniciativa é muito bem-vinda. E necessária! _

Um ciclone monstro a caminho da Ásia

Após alcançar a categoria 5 na escala Saffir-Simpson - sistema que avalia a intensidade de ventos e tempestades -, registrando ventos sustentados na casa dos 300 km/h e rajadas superiores a 306 km/h, segundo dados da Agência Meteorológica do Japão, o supertufão Champi tornou-se um dos ciclones tropicais mais intensos e devastadores do Oceano Pacífico Ocidental em 2026. Agora, o fenômeno avança representando ameaças climáticas para regiões da Ásia, como Taiwan.

A classificação de "supertufão" é atribuída a ciclones tropicais cujos ventos ultrapassam os 240 km/h. O fenômeno ganhou força devido à instabilidade atmosférica somada ao calor do oceano, que registrou temperaturas próximas de 30°C na região. Com isso, a água quente evapora, fornecendo a energia e a umidade necessárias para inflar a potência das tempestades.

Até o fechamento desta edição, o Champi já passou por Guam, nas Ilhas Marianas, com ventos e chuvas intensas, resultando em quedas na rede elétrica, danos a infraestruturas e árvores arrancadas. Na região das Filipinas, trouxe fortes ressacas marítimas, vendavais e chuva. Ao avançar em direção ao sul do Japão, o tufão fez com que companhias aéreas cancelassem e desviassem voos. _

A despedida de uma lenda

Existirá um jornalismo internacional antes e outro depois de Christiane Amanpour. A jornalista, que anunciou sua saída da rede CNN nesta semana, é a maior referência em coberturas de guerras e entrevistas com as mais altas autoridades da política global. Com 68 anos de vida e 43 de carreira, testemunhou os principais conflitos armados no final do século 20 e início do 21.

Tornou-se mundialmente famosa na Guerra do Golfo, em 1991, quando a própria CNN deixou de ser TV fechada e se tornou a principal rede de assuntos globais. Reportar guerras é "um senso de missão, de propósito, de poder contar uma história", disse ela.

Na Bósnia, cunhou uma das frases que marcariam uma geração de correspondentes. Ao ser criticada por sua suposta parcialidade em relação aos massacres, disse: "O jornalismo não deve ser neutro diante de genocídios". _

Entrevista - Jorge Chaloub

Cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

"Esta eleição concorre para ser a mais disputada da Nova República"

Cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Jorge Chaloub traçou um cenário de como Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) chegam ao segundo turno. A entrevista foi ao ar no programa Conversas Cruzadas de quarta-feira. Confira trechos.

Como os dois candidatos chegam ao segundo turno?

Quando olhamos para o primeiro turno, o cenário é de uma vitória muito expressiva do PL. O partido alcançou na Câmara a maior bancada, construiu uma maioria muito consolidada no Senado, teve um bom desempenho em governos estaduais. Então, me parece que essa eleição vai mudar a maneira pela qual passaremos a falar sobre bolsonarismo. 

Um segundo retrato é que esse crescimento do PL se dá fundamentalmente em cima de uma direita mais tradicional, a do centrão, que perdeu representantes. Pesquisa eleitoral, sobretudo para a presidência, deve ser olhada menos para o resultado e mais para o movimento. E os movimentos da eleição presidencial, com mais de 150 milhões de eleitores, são lentos. Isso deixa a eleição do próximo domingo muito em aberto. Temos uma eleição que concorre fortemente para ser a mais disputada da Nova República.

Em 2022, tivemos uma diferença estreita entre Lula e Jair Bolsonaro. Em 2026, é possível projetar que será ainda menor?

Hoje, se seguirmos a indicação da Quaest, a diferença seria menor. Ainda não temos dados de abstenção, há movimentos que podem ocorrer até a urna, mas a eleição de 2022 já foi a mais apertada. Há risco de que se aproxime de outros cenários latino-americanos, como Colômbia e Peru, que foram eleições muito apertadas, divididas. Podemos ter uma surpresa com o movimento para um lado e para o outro, mas a tendência é de ser muito apertada.

É possível Lula virar o jogo?

Continuo achando que Flávio é favorito, mas agora está muito aberto. O favoritismo que era mais evidente no final do primeiro turno, agora, é bem leve, porque, claramente, há um movimento que algumas pesquisas indicaram de redução da diferença. Os movimentos, quando ocorrem, por vezes são lentos, muito difíceis de se reverter. 

Quando você percebe, o movimento foi. Por isso, olhar pesquisa é olhar tendência. Esse tipo de movimento reduziu a rejeição, não ganhou voto. Mas, de repente, abre espaço para essa figura que rejeitava o Lula eventualmente votar nele por uma informação de última hora. É claro que você tem uma rejeição muito alta dos dois candidatos, há uma sensação de insatisfação geral com a política brasileira. 

INFORME ESPECIAL