MEU PAI
Meu pai
cursou apenas a escola primária, mas tornou-se um homem de negócios dotado de
uma visão privilegiada. Compreendia as relações comerciais, percebia os
movimentos do mercado e cuidava da situação financeira com uma prudência que
parecia natural. Econômico em tudo, jamais dava um passo maior do que as
garantias lhe permitiam.
Começou como
empregado de um pequeno armazém no interior, próximo da casa de seus pais -
meus avós paternos. Depois de algum tempo, decidiu abrir o próprio negócio.
Começou modestamente, com os poucos recursos que recebeu ao deixar o emprego,
mas foi crescendo aos poucos, sem precipitação e sem aventuras.
Embora
houvesse poucos concorrentes naquela localidade, seus preços estavam sempre entre
os menores. Ele compreendia uma regra fundamental do comércio: para vender por
menos, era preciso saber comprar melhor.
Conhecia os
fornecedores, comparava preços e escolhia cuidadosamente as mercadorias. Não
havia grandes estudos por trás de suas decisões, mas experiência, observação e
um raro instinto para os negócios.
Com o passar
dos anos, ampliou os estoques e aumentou a variedade de produtos. Adquiriu
também os próprios veículos: primeiro, pequenas camionetes; depois, veículos
maiores, utilizados para transportar até a cooperativa mais próxima os produtos
recebidos dos agricultores. Mais tarde, tornou-se sócio daquela cooperativa.
Depois de
aproximadamente dez anos administrando o primeiro armazém, decidiu adquirir um
segundo estabelecimento, em outra localidade que também apresentava boas
possibilidades comerciais. Foi então que me vi diretamente envolvido em seus
negócios. Ele pediu que eu permanecesse administrando o primeiro armazém.
Eu já
conhecia a atividade, conhecia os moradores e residia na própria localidade.
Como as despesas eram reduzidas, não encontrei maiores dificuldades. Procurei
ampliar ainda mais o negócio, aumentando os estoques e oferecendo uma variedade
maior de mercadorias.
Em janeiro
de 1973, porém, decidi que não permaneceria ali. Meu pai precisou desfazer-se
do segundo armazém e retornar ao primeiro, onde ainda trabalhou por
aproximadamente três anos.
Naquele
período, começou a perceber que muitas pessoas procuravam novos horizontes.
Seus outros filhos, meus irmãos menores, também desejavam estudar e
necessitavam de oportunidades que a pequena localidade não oferecia. Por isso,
resolveu transferir os negócios e a família para Cruz Alta, cidade situada a
pouco mais de cem quilômetros dali.
Mais uma
vez, revelou-se o seu tino de negociante.
Embora
possuísse recursos para comprar um imóvel pronto, não comprometeu imediatamente
o dinheiro da família. Preferiu alugar um armazém de bairro que já funcionava
na entrada da cidade. Permaneceu ali durante dois anos, conhecendo a clientela,
observando o movimento e avaliando as possibilidades daquele novo lugar.
Sem pressa,
comprou terrenos e começou a construir o próprio estabelecimento. O prédio
teria dois pavimentos: no térreo funcionaria o mercado; no andar superior
ficaria a residência da família.
Na nova
fase, ampliou consideravelmente as atividades. Além do mercado, instalou
depósito de gás, açougue e padaria. Durante o dia, e muitas vezes até tarde da
noite, entregava os chamados “ranchos” nas casas dos clientes.
Também fazia
pagamentos, cuidava dos depósitos bancários, atendia os viajantes e vendedores
que chegavam durante o dia e recebia, logo cedo, os granjeiros que passavam
pelo mercado antes de seguir para suas propriedades.
Sua rotina
começava cedo e quase nunca tinha hora para terminar.
Dez anos
depois de chegar a Cruz Alta, em 1986, já havia adquirido uma chácara formada
por vários terrenos. Foi então que decidiu realizar um sonho antigo: construir
uma casa ampla, com um quarto para cada filho, para que todos tivessem onde
ficar quando fossem visitá-lo.
Como sempre
fazia, começou a preparar tudo com cautela. Aos poucos, comprava os materiais,
mas preferia deixá-los guardados nas próprias lojas até o momento da
utilização. Apenas os tijolos já estavam sendo armazenados no terreno onde a
casa seria construída.
No domingo,
dia 19 de janeiro, almoçamos juntos. No dia seguinte, segunda-feira, 20 de
janeiro, ele cumpriu sua rotina como sempre: atendeu clientes, entregou
ranchos, resolveu os compromissos bancários e cuidou do mercado. À noite, foi dormir
como fazia todos os dias.
Na manhã de
terça-feira, 21 de janeiro, estranhando a demora para que ele se levantasse,
minha mãe foi chamá-lo: - Homem, não vai levantar hoje? Somente então percebeu
que ele não se levantaria.
Meu pai havia esquecido de acordar.
Chamaram o
médico, realizaram os exames necessários e constataram que ele havia falecido
menos de uma hora antes. Não dera um gemido, não fizera qualquer movimento que
pudesse despertar minha mãe. Simplesmente partiu, aos 55 anos, silenciosamente,
deixando inacabado o sonho da casa que teria um quarto para cada filho.
Como ninguém
sabia exatamente onde os materiais haviam sido comprados, nem quais quantidades
já estavam pagas, quase tudo se perdeu. Os tijolos armazenados no terreno ainda
foram vendidos. A casa, porém, jamais chegou a ser construída.
Um de meus
irmãos assumiu o mercado e permanece lá até hoje. O prédio é o mesmo. As
antigas prateleiras também continuam ali. Mas nada mais é como antes.
Os clientes
mudaram. O bairro mudou. Grandes mercados se estabeleceram nas proximidades, e
as vendas diminuíram consideravelmente. O tempo transformou o comércio, os
costumes e a própria cidade.
Entretanto, algumas coisas permaneceram.
Ficaram o
exemplo de trabalho, a prudência, a persistência e aquele extraordinário faro
para os negócios. Ficou também a lembrança de um homem que, tendo frequentado
apenas a escola primária, soube construir uma trajetória respeitável com
inteligência, coragem e responsabilidade. Essas foram as heranças que ele nos
deixou - e que jamais serão esquecidas.
Minha mãe
ainda vive ali perto. Hoje, aos 95 anos, tem a companhia de uma Alexa, por meio
da qual ouve suas músicas. De vez em quando, irrita-se e até xinga a pequena
máquina quando ela não toca aquilo que lhe foi pedido.
Talvez seja
também uma imagem do tempo: no mesmo lugar onde meu pai fazia contas à mão,
negociava mercadorias, atendia viajantes e preparava o futuro dos filhos, minha
mãe conversa agora com uma voz que vem de um aparelho.
Quase tudo mudou.
Mas, entre o
antigo mercado, as mesmas prateleiras e as lembranças que ainda habitam aquela
casa, a presença de meu pai permanece - silenciosa, firme e indispensável, como
sempre foi.