sexta-feira, 21 de agosto de 2026

21 de Agosto de 2026
EDITORIAL

Até mais

Eu era uma assídua navegadora do antigo site do Destemperados, onde era possível filtrar restaurantes de acordo com a cidade e a culinária desejada. Nono Ludovico, Koh Pee Pee, Peppo Cucina, Barranco, Le Bateau Ivre. Nomes como esses sempre apareciam nas minhas buscas.

Não tenho religião, sou politeísta por convicção. Acredito que não há sonho ou desejo à toa: se esteve no coração lá atrás, uma hora ou outra será realidade. Deus, universo, orixá, física quântica, destino, não importa: um dia tive o sonho de visitar esses lugares e, então, como quiseram os astros, os signos, os búzios, a Anahís Vargas me ligou naquela segunda-feira avisando que eu havia sido aprovada para a vaga de conteúdo. Uma das minhas tarefas era visitar restaurantes, provar sua culinária e escrever sobre a vivência.

Eu sei, parece brincadeira, mas é real: há 20 anos, o Diogo Carvalho e a Lela Zaniol criaram uma plataforma para movimentar o mercado gastronômico através de conteúdo, experiências e pessoas. Muitas. Muitas antes de mim e muitas depois de mim. E muitas que estiveram comigo nesses últimos quatro anos (completados no dia 15 deste mês).

E são as pessoas que ditaram a minha trajetória aqui: do Mapa Destemperados ao Comida de Estádio, dos Planetas Premium aos Food Talks, dos Cook Shows aos eventos, pub crawls, vindimas, palestras, descobertas, viagens... Nada disso teria sido vivido sozinha.

Hoje, no meu caderno de "até mais", trago o maior ensinamento que os quase 1.500 dias de Destemperados me trouxeram: tudo é sobre as pessoas ao redor da mesa. Seja aqui, em Uruguaiana, na Barra do Chuí, em Frederico Westphalen, no Alegrete, em Santa Maria, na Serra, em Cambará do Sul, no Litoral ou em Uberaba, que é onde fui à minha última viagem pela marca.

Por sorte (ou por ter convencido Diogo e Lela naquela entrevista em julho de 2022 com meu carisma), conheci todos os lugares que citei no começo (do confit de pato ao molho de laranja do Le Bateau à pizza de javali da Nono Ludovico), além de tantos outros.

Até mais, Destemps! Boa leitura, pessoal.

Viva a gastronomia! 

Milene Magnus - e Analista de Conteúdo

21 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Temas climáticos são centrais na campanha

Traz alento constatar que os principais candidatos ao Palácio Piratini colocam os temas climáticos e ambientais como eixos centrais de seus planos de governo. O colunista Rodrigo Lopes publicou ontem em Zero Hora algumas das ideias mais relevantes dos quatro postulantes mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto e cujos partidos contam com representação no Congresso Nacional - Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola, Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB). Era imperioso que, na primeira eleição para governador após a tragédia de 2024, pautas relacionadas às mudanças do clima e suas consequências estivessem no topo das prioridades.

Entre os itens abordados, estão o fortalecimento da Defesa Civil, infraestrutura resiliente, sistemas de monitoramento e alerta, oportunidades da transição energética, licenciamento, saneamento, recuperação de mata ciliar, segurança hídrica e grandes sistemas anticheias, entre vários outros tópicos. Não é o caso, aqui, de listar todos os pontos, mas sim de observar que, de uma forma geral, os elementos mais importantes estão contemplados.

Caberá aos candidatos, ao longo das próximas semanas, explicar melhor aos gaúchos como as suas ideias poderão ser implementadas, com quais recursos e em que prazo. A enchente de 2024 e as sucessivas estiagens que assolam o Estado demonstram que não há mais espaço para promessas vazias. O Estado precisa de projetos consistentes e exequíveis. Deve-se lembrar da existência do Plano Rio Grande, uma espinha dorsal robusta para avanços em termos de prevenção, mitigação e adaptação. Trata-se de uma proposta que foi aprovada pela Assembleia Legislativa e, portanto, é lei. Deve nortear as ações nos próximos anos do Executivo.

A nova sequência de eventos climáticos extremos que atinge o Rio Grande do Sul nas últimas semanas, em meio à formação de um El Niño potente, é o lembrete de que o tema exige convicção e persistência em um plano de Estado, que atravesse diferentes gestões e seja imune à natural alternância de poder. Preparar o Estado para essa nova realidade, afinal, requer ações de longo prazo. Descontinuidades e guinadas podem significar desperdício de recursos e perda de um tempo precioso. Ainda assim, é legítimo que o novo governo dê atenção especial a aspectos que considere mais importantes ou urgentes.

Convém registrar ainda que, além da prevenção dos efeitos das mudanças climáticas na vida dos gaúchos, há aspectos econômicos relevantes envolvidos. Junto aos desafios, há oportunidades, como a possibilidade de o Rio Grande do Sul se tornar referência em infraestrutura resiliente e ser protagonista em projetos ligados à transição climática.

Não faltam razões para essa questão ser central na campanha para o Piratini que está em seus primeiros dias. E exatamente por ser uma pauta vital para o Rio Grande do Sul, é essencial que o eleitor gaúcho conheça as propostas de cada candidato, compare-as, tire suas conclusões e, a partir delas, também defina seu voto. Quem vai às urnas em outubro é corresponsável pelo futuro do Estado. 

21 de Agosto de 2026
EM FOCO

EM FOCO

A abertura de três inquéritos contra o empresário e a divulgação de mensagens de pessoas ligadas a ele obtidas pela Polícia Federal ampliaram, nas últimas semanas, as suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na largada do período eleitoral, o caso pressiona a campanha pela reeleição do petista.

Após ter o nome associado ao escândalo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no ano passado, a partir de desdobramentos da Operação Sem Desconto, Lulinha passou a ser investigado por supostamente atuar, em conjunto com aliados, para favorecer empresas junto a órgãos federais. As suspeitas já levaram ao afastamento de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, da coordenação da campanha.

A Operação Sem Desconto, que apura esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), já estava sob supervisão do STF.

Segundo a PGR, no entanto, nas investigações que envolvem o nome de Lulinha não há indícios de envolvimento de pessoas com foro privilegiado e nem relação com as investigações da Operação Sem Desconto, e por isso não deveriam estar a cargo do STF.

Os dois inquéritos apuram suspeitas relacionadas à Dataprev e a uma tentativa de vender medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.

Crítica da defesa

Lula disse que Lulinha deve se apresentar à Justiça para prestar esclarecimentos. A defesa de Lulinha aponta "vazamentos seletivos e criminosos", por parte da Polícia Federal, com objetivos eleitorais.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tende a negar o pedido da PGR. Com isso, os inquéritos devem ser mantidos na Corte até a conclusão.

Dos três inquéritos tramitando no STF para investigar o filho do presidente, dois primeiros que foram abertos estão no gabinete de Mendonça. Um terceiro está sob a relatoria de Flávio Dino. Interlocutores de Dino afirmam que, até o momento, não houve pedido da PGR para que o inquérito mais recente também seja transferido para a primeira instância.

Pessoas próximas de Mendonça desconfiaram do tratamento diferenciado e suspeitam que o verdadeiro interesse por trás do pedido seja retirar o caso das mãos do ministro. Hoje, existe um clima conflagrado entre Mendonça e parte da Polícia Federal, que realiza as investigações. _

Quem é quem na investigação

Fábio LuÍs Lula da Silva

Conhecido como Lulinha, é empresário, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alvo de três inquéritos na Polícia Federal. É suspeito de ter sido beneficiário do esquema milionário que desviou recursos do INSS por meio de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões e de ter praticado tráfico de influência junto a órgãos federais.

Antônio Carlos Camilo Antunes

Conhecido como Careca do INSS, o empresário e lobista é apontado pela PF como principal operador financeiro do escândalo do INSS. Está preso desde setembro do ano passado.

Roberta Luchsinger

Herdeira de um ex-acionista do banco Credit Suisse, a empresária é amiga de Lulinha e próxima ao PT. Foi alvo de busca e apreensão em dezembro passado. A PF identificou transferências que somaram R$ 1,5 milhão do Careca do INSS para ela, com base em contrato de consultoria.

Marco Aurélio Santana Ribeiro

Conhecido como Marcola, era chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até julho, quando deixou o cargo para assumir a coordenação da campanha à reeleição. Próximo a Lula, o cientista político foi um dos principais interlocutores no período em que o presidente esteve preso em Curitiba (PR), entre abril de 2018 e novembro de 2019. No início de agosto, Marcola deixou a equipe da campanha de Lula após admitir que recebeu pagamentos da empresária Roberta Luchsinger. Ele afirma que foi um empréstimo.

Os três inquéritos

Lulinha também é investigado, em um segundo inquérito, de 31 de julho, por suposta atuação junto à Dataprev para favorecer o empresário Cleber Ribas de Oliveira, sócio da empresa de tecnologia 3Structure It.

Já o terceiro inquérito, aberto em 4 de agosto, apura a atuação de pessoas ligadas a Lulinha junto a outros órgãos federais para favorecer empresas.

"Eu sou o Fábio"

A PF também descobriu que, em 2024, Roberta repassou R$ 249 mil a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e chegou a presentear o então chefe de gabinete de Lula com joias de diamantes.

Além disso, a empresária enviou a Marcola a minuta de um contrato que previa a venda de 1,2 milhão de frascos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde por R$ 626 milhões. Marcola confirmou o repasse, alegando se tratar de empréstimo pessoal, e o recebimento da minuta, que afirmou não ter repassado a ninguém do governo. As revelações reforçam a suspeita de tráfico de influência por parte do grupo junto ao governo. _

21 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL

A obrigatoriedade do diploma de jornalista

Em junho de 2009, a própria Suprema Corte derrubou a exigência do diploma de nível superior por oito votos a um, considerando inconstitucional a regra estabelecida pelo Decreto-Lei nº 972, de 1969, editado durante a ditadura militar.

É uma pena que o tema tenha voltado à discussão em hora aleatória - por que não antes, em meio ao inquérito das "fake news", já que a desinformação é um assunto que nos é caro, como jornalistas? - e como mero diversionismo dos magistrados da mais alta Corte brasileira. Mas a história não é linear e, afora a inadequação do timing, cabe o debate.

Ninguém aprende a escrever na faculdade. Um bom texto é resultado de técnica, que qualquer curso pode ensinar; talento, algo em boa medida inato; e repertório, adquirido com a vida e a leitura. Experiência também ajuda. Quando releio meus primeiros trabalhos premiados, ainda como jornalista recém-formado e repórter em formação, identifico fragilidades e, por vezes, certa pobreza textual. O texto, assim como os seres humanos, amadurece.

Aprendizado diferente

Estão aí também os diferentes gêneros literários, os espaços de opinião dos jornais, os blogs e as redes sociais para comprovar - ou não - o talento para a escrita.

O que se aprende na faculdade é diferente. Não é apenas texto. Aprende-se rigor científico, método jornalístico, apuração, história, humanismo, pensamento crítico, olhar diverso, responsabilidade profissional, ética.

Uma reportagem reúne tudo isso e um pouco mais. Um jornalista pode ter um blog, mas não é blogueiro. Pode influenciar em uma rede social, mas não é "influencer". A comparação é batida, mas continua válida: você levaria seu filho doente a um médico sem diploma? Imagino que não. Por que, então, confiaria em uma informação que não foi produzida por um jornalista?

Caso a exigência do diploma retorne, outros profissionais - gestores, políticos, médicos, advogados, economistas - continuarão tendo espaço, cada vez mais, felizmente, para se expressar. Seja nas redes sociais, em entrevistas, no rádio e na TV ou nos espaços de opinião, em artigos e crônicas nos jornais. Mas reportagem é feita por jornalistas que, preferencialmente, dedicaram parte de suas vidas ao aprendizado do ofício nas universidades.

Por isso, embora o debate tenha sido levantado em hora estranha e por motivos tortos e oportunistas, defendo a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. _

Rodrigo Lopes

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DO MURO

Autoria não identificada — transcrição de recorte jornalístico

 

Olha o muro.

 

Está assim de gente em cima dele. Gente que subiu às suas próprias custas, o que é que há, e gente, até, que subiu nos outros para chegar lá. De cima do muro a vista é melhor, embora grossa. Do alto do muro quarenta cegos vos contemplam. As pessoas equilibradas estão à vontade em cima do muro. O muro é confortável, o muro é estável, o muro é agradável.

 

Olha o muro.

 

Atrás do muro também tem gente. Gritando que “tem gente! ”. E gente assaltando gente. Matando gente. Ou fazendo gente. Atrás do muro estão todas as bolas de futebol de rua que a gurizada jamais recuperou. Atrás do muro há um mistério fazendo o capim crescer e secar.

 

Atrás do muro o medo e o lixo se amontoam. De trás do muro o verbo espreitar é conjugado por olhos de não sei quem. Atrás do muro a propriedade está cercada de garantias até o dono pular a cerca. Atrás do muro late o tempo.

 

Olha o muro.

 

À frente do muro: picharam o muro, depois calaram o muro. Calaram o muro. O muro entrou na moda: o muro era a mensagem. Agora o muro é mudo. Mudaram o muro. Agora o muro é um outdoor acomodado à paisagem. O muro mexeu com a massa, estava à frente do movimento. Mas o muro morreu, metido a painel. O muro consome toda a atenção comercial. O muro se apagou da memória.

 

Olha o muro.

 

Tem coisa embaixo do muro. Um pote de barro cheio de moedas de ouro do tempo da escravidão. Tem coisa embaixo do muro, senão ele não seria tão torto assim, ameaçando desabar para o terreno do vizinho. Tem coisa embaixo do muro, e não é metáfora.

 

Olha o muro.

 

Dentro do muro - quantos foram emparedados vivos? Como é a vida dentro do muro? Quem manda dentro do muro?

 

Olha o muro.

 

É proibido se encostar no muro. Mas podem pôr caco de vidro no alto do muro. Olha o muro, dividindo as armas, separando as almas, fronteira entre o cá e o lá, entre o meu e o teu. Olha o muro se erguendo e se esgueirando firme entre as casas e as coisas.

 

Mira o muro.

 

MEU PAI

Meu pai cursou apenas a escola primária, mas tornou-se um homem de negócios dotado de uma visão privilegiada. Compreendia as relações comerciais, percebia os movimentos do mercado e cuidava da situação financeira com uma prudência que parecia natural. Econômico em tudo, jamais dava um passo maior do que as garantias lhe permitiam.

Começou como empregado de um pequeno armazém no interior, próximo da casa de seus pais - meus avós paternos. Depois de algum tempo, decidiu abrir o próprio negócio. Começou modestamente, com os poucos recursos que recebeu ao deixar o emprego, mas foi crescendo aos poucos, sem precipitação e sem aventuras.

Embora houvesse poucos concorrentes naquela localidade, seus preços estavam sempre entre os menores. Ele compreendia uma regra fundamental do comércio: para vender por menos, era preciso saber comprar melhor.

Conhecia os fornecedores, comparava preços e escolhia cuidadosamente as mercadorias. Não havia grandes estudos por trás de suas decisões, mas experiência, observação e um raro instinto para os negócios.

Com o passar dos anos, ampliou os estoques e aumentou a variedade de produtos. Adquiriu também os próprios veículos: primeiro, pequenas camionetes; depois, veículos maiores, utilizados para transportar até a cooperativa mais próxima os produtos recebidos dos agricultores. Mais tarde, tornou-se sócio daquela cooperativa.

Depois de aproximadamente dez anos administrando o primeiro armazém, decidiu adquirir um segundo estabelecimento, em outra localidade que também apresentava boas possibilidades comerciais. Foi então que me vi diretamente envolvido em seus negócios. Ele pediu que eu permanecesse administrando o primeiro armazém.

Eu já conhecia a atividade, conhecia os moradores e residia na própria localidade. Como as despesas eram reduzidas, não encontrei maiores dificuldades. Procurei ampliar ainda mais o negócio, aumentando os estoques e oferecendo uma variedade maior de mercadorias.

Em janeiro de 1973, porém, decidi que não permaneceria ali. Meu pai precisou desfazer-se do segundo armazém e retornar ao primeiro, onde ainda trabalhou por aproximadamente três anos.

Naquele período, começou a perceber que muitas pessoas procuravam novos horizontes. Seus outros filhos, meus irmãos menores, também desejavam estudar e necessitavam de oportunidades que a pequena localidade não oferecia. Por isso, resolveu transferir os negócios e a família para Cruz Alta, cidade situada a pouco mais de cem quilômetros dali.

Mais uma vez, revelou-se o seu tino de negociante.

Embora possuísse recursos para comprar um imóvel pronto, não comprometeu imediatamente o dinheiro da família. Preferiu alugar um armazém de bairro que já funcionava na entrada da cidade. Permaneceu ali durante dois anos, conhecendo a clientela, observando o movimento e avaliando as possibilidades daquele novo lugar.

Sem pressa, comprou terrenos e começou a construir o próprio estabelecimento. O prédio teria dois pavimentos: no térreo funcionaria o mercado; no andar superior ficaria a residência da família.

Na nova fase, ampliou consideravelmente as atividades. Além do mercado, instalou depósito de gás, açougue e padaria. Durante o dia, e muitas vezes até tarde da noite, entregava os chamados “ranchos” nas casas dos clientes.

Também fazia pagamentos, cuidava dos depósitos bancários, atendia os viajantes e vendedores que chegavam durante o dia e recebia, logo cedo, os granjeiros que passavam pelo mercado antes de seguir para suas propriedades.

Sua rotina começava cedo e quase nunca tinha hora para terminar.

Dez anos depois de chegar a Cruz Alta, em 1986, já havia adquirido uma chácara formada por vários terrenos. Foi então que decidiu realizar um sonho antigo: construir uma casa ampla, com um quarto para cada filho, para que todos tivessem onde ficar quando fossem visitá-lo.

Como sempre fazia, começou a preparar tudo com cautela. Aos poucos, comprava os materiais, mas preferia deixá-los guardados nas próprias lojas até o momento da utilização. Apenas os tijolos já estavam sendo armazenados no terreno onde a casa seria construída.

No domingo, dia 19 de janeiro, almoçamos juntos. No dia seguinte, segunda-feira, 20 de janeiro, ele cumpriu sua rotina como sempre: atendeu clientes, entregou ranchos, resolveu os compromissos bancários e cuidou do mercado. À noite, foi dormir como fazia todos os dias.

Na manhã de terça-feira, 21 de janeiro, estranhando a demora para que ele se levantasse, minha mãe foi chamá-lo: - Homem, não vai levantar hoje? Somente então percebeu que ele não se levantaria.

Meu pai havia esquecido de acordar.

Chamaram o médico, realizaram os exames necessários e constataram que ele havia falecido menos de uma hora antes. Não dera um gemido, não fizera qualquer movimento que pudesse despertar minha mãe. Simplesmente partiu, aos 55 anos, silenciosamente, deixando inacabado o sonho da casa que teria um quarto para cada filho.

Como ninguém sabia exatamente onde os materiais haviam sido comprados, nem quais quantidades já estavam pagas, quase tudo se perdeu. Os tijolos armazenados no terreno ainda foram vendidos. A casa, porém, jamais chegou a ser construída.

Um de meus irmãos assumiu o mercado e permanece lá até hoje. O prédio é o mesmo. As antigas prateleiras também continuam ali. Mas nada mais é como antes.

Os clientes mudaram. O bairro mudou. Grandes mercados se estabeleceram nas proximidades, e as vendas diminuíram consideravelmente. O tempo transformou o comércio, os costumes e a própria cidade.

Entretanto, algumas coisas permaneceram.

Ficaram o exemplo de trabalho, a prudência, a persistência e aquele extraordinário faro para os negócios. Ficou também a lembrança de um homem que, tendo frequentado apenas a escola primária, soube construir uma trajetória respeitável com inteligência, coragem e responsabilidade. Essas foram as heranças que ele nos deixou - e que jamais serão esquecidas.

Minha mãe ainda vive ali perto. Hoje, aos 95 anos, tem a companhia de uma Alexa, por meio da qual ouve suas músicas. De vez em quando, irrita-se e até xinga a pequena máquina quando ela não toca aquilo que lhe foi pedido.

Talvez seja também uma imagem do tempo: no mesmo lugar onde meu pai fazia contas à mão, negociava mercadorias, atendia viajantes e preparava o futuro dos filhos, minha mãe conversa agora com uma voz que vem de um aparelho.

Quase tudo mudou.

Mas, entre o antigo mercado, as mesmas prateleiras e as lembranças que ainda habitam aquela casa, a presença de meu pai permanece - silenciosa, firme e indispensável, como sempre foi.


 

20 de Agosto de 2026 
CARPINEJAR

Fiscal de churrasco

Como é bom fazer churrasco para quem não entende nada de churrasco e quer tão somente saborear. Um fato raro no Rio Grande do Sul.

Assim como todo torcedor se considera um técnico de futebol, todo gaúcho se acha o melhor assador. Assumir a churrasqueira só atrai palpiteiros de plantão. É uma praga de especialistas ao redor.

Você se sente fiscalizado, vigiado, como se estivesse em período de experiência num fogo de chão.

Alguém irá se aproximar e vistoriar seu preparo com perguntas: - Não se põe álcool no carvão! Por que não usa a garrafa com jornal?

- Vai salgar agora? - Vai cortar contra a fibra, né? - Cadê o coraçãozinho? Esqueceu o pão com alho? - Não é cedo para acelerar o fogo? - Não vê que está passando do ponto?

- Não vai virar ainda? Não encontrará tranquilidade, sendo obrigado a explicar o seu método, a justificar as escolhas mais triviais.

Receberá o olho gordo na sua tábua ou gamela. O enxerido irá conferir a altura dos espetos, o estilo do corte, como posicionou as carnes.

Não é por mal, pretende ajudar, mas permanece por perto quase como um suplente de churrasqueiro, pronto para vestir o avental se você fracassar no ofício. A avaliação de uma banca de doutorado seria menos cansativa.

Há grandes riscos de ser chamado de vegano se largar beterraba, batata-doce, pimentão e cogumelos junto ao fogo. Sempre haverá um engraçadinho insinuando que talvez você prefira uma air fryer, ou decretando que esse é o primeiro passo para a sua aposentadoria por invalidez.

Não ouse pensar em filé mignon como item do repertório, confundindo a churrasqueira com panela de fondue, pois não será perdoado nem com o tempo.

Quando o churrasco é comunitário, com cada um levando a sua parte, detectamos a generosidade ou a avareza da parceria. Aqueles que vêm com entrecot, picanha, maminha e vazio não economizaram. A costela, dependendo da quantidade de osso, indica um grupo disposto a gastar numa faixa intermediária. Já os que aparecem com acém ou linguiça demonstram ser mão de vaca, determinados a comer o máximo e pagar pelo mínimo.

No fim das contas, o que não dá para admitir é que mexam no seu espeto, na espada do vivente. Isso é imperdoável na nossa tradição. Causará entrevero na certa, inimizade eterna, caso de pretear o olho da gateada. Que fiquem restritos aos conselhos, sem meter a mão na massa.

Aliás, o churrasqueiro de verdade tem a sua faca. Não usa outra emprestada. Cuida do seu fio na pedra de amolar. Chega ao extremo de colocar nome nela, como se fosse uma terceira pessoa com ideias próprias. Conheço gente que a apelidou de Viúva Negra e Vingança da Rainha.

A minha traz uma frase de minha autoria: "Não peço desculpas pela minha intensidade". Ela antecipa tudo ao meu respeito. Dispensa comentários. _

CARPINEJAR

Infância agredida

A informação até aqui extraoficial de exames periciais de que a menina Samylle Valentina Borba Ramiro, de quatro anos, morreu em decorrência de politraumatismos, se insere no contexto demonstrado na mais recente edição do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, divulgada em julho, de agravamento de quase todas as práticas de violência contra crianças e adolescentes no Brasil. 

Chamam atenção os crimes vinculados a relações de cuidado e parentalidade. Praticamente dobraram entre 2021 e 2025. Entre esses delitos estão maus-tratos, abandono de incapaz e abandono material. Registros de lesão corporal em violência doméstica subiram 15%. Mesmo em ritmo mais modesto, seguem em alta.

Samylle chegou sem vida a uma UPA na Capital, no domingo, com lesões pelo corpo. A Polícia Civil investiga maus-tratos e agressões. Conforme apurou a repórter Adriana Irion, os indícios apontam que a menina teria apanhado do companheiro de sua tia por uma razão banal. Foi o casal que levou Samylle à UPA, com uma versão pouco crível do que teria acontecido. O homem não tinha paradeiro conhecido até ontem no final da tarde.

A menina vivia com a tia com a anuência do Conselho Tutelar, embora, conforme Justiça, a guarda fosse da mãe. A situação é confusa e ainda requer esclarecimentos. Mas a mãe seria usuária de drogas e teria outros problemas pessoais. Não reuniria condições de zelar pela filha. Circunstâncias que unem dificuldades materiais, desestruturação familiar e vício em entorpecentes e que desembocam em situações de vulnerabilidade para menores não são novidade no Brasil.

A tragédia se completa com a persistência de uma certa naturalização da violência contra crianças no ambiente doméstico. Perdura em parcela da sociedade a ideia de que bater pode ser parte do processo de educação. Ainda está viva na memória a morte do garoto Oliver Grayson, de três anos, em Viamão, no início de julho. Conforme a Polícia Civil, o menino foi espancado pelo pai por não lhe ter dado "bom dia". O homem foi preso em flagrante. Os casos de Samylle e Oliver ilustram o quanto agressões contra crianças perpetradas por quem deveria cuidar delas podem ter desfechos trágicos.

Essa permissividade ainda enraizada apareceu em uma pesquisa do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, divulgada mês passado. O trabalho mostrou que 56% dos entrevistados consideravam aceitável bater em crianças quando "desobedecem aos pais e passam dos limites".

Mas é preciso reconhecer que, embora a violência contra a infância ainda seja de alguma forma culturalmente tolerada, é crescente a conscientização quanto à importância da proteção dos pequenos e indefesos. O país teve avanços com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e com a rede de proteção formada para amparar menores em risco. 

O próprio anuário cogita que ao menos parte da alta de registros de violência seja reflexo da menor subnotificação e da reação da sociedade e das instituições. Espera-se que essa conjectura mostre-se verdadeira e seja comprovada no futuro, com a queda de casos de maus-tratos e de agressões e, por consequência, dos desenlaces fatais, como os de Samylle e Oliver. 

20 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que os candidatos ao Piratini propõem para a saúde no RS

Segunda maior preocupação dos eleitores gaúchos (a primeira é com as enchentes), de acordo com a pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho, a saúde mereceu destaque nos planos de governo dos quatro principais candidatos ao Piratini. Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) apresentaram compromissos detalhados, que poderão ser cobrados pelo eleitor daquele que se eleger.

Nos documentos entregues ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), há propostas concretas, outras genéricas, em alguns casos óbvias e, em outros ainda, utópicas. Todos prometem descentralizar o atendimento para evitar grandes deslocamentos de pacientes, para acabar com a conhecida ambulancioterapia.

A descentralização já existe, mas não há como multiplicar serviços de alta complexidade oferecidos nos grandes centros para cidades menores, seja por falta de dinheiro, seja pela carência de profissionais.

Corretamente, todos os planos identificam que o sistema de saúde está sobrecarregado, com esperas excessivas para consultas, exames ou procedimentos, sobretudo as cirurgias. Todos querem reduzir as filas - e seria estranho se dissessem o contrário -, mas divergem na forma de atingir esse objetivo.

Promessas para conferir

Por conhecer a máquina do Estado, Gabriel Souza parte de uma base já existente, a dos programas lançados nos dois governos de Eduardo Leite, prometendo aperfeiçoá-los.

Zucco se compromete com uma "profunda reorganização da saúde pública estadual" e apresenta 21 propostas para concretizar essa revolução.

Juliana detalha 13 tópicos sob o título de "diretrizes e ações", depois de escrever que a sua coligação "reafirma o compromisso de reconstruir e fortalecer o SUS no Rio Grande do Sul".

Maranata apresenta 12 propostas, começando por organizar a rede estadual em sete grandes polos regionais de saúde. _

Leite anuncia nomeação de 5,8 mil professores e homenageia escolas

Na celebração em que foram homenageados representantes de 73 escolas estaduais que se destacaram no último Ideb, o governador Eduardo Leite anunciou a nomeação de 5,8 mil professores aprovados em concurso público.

A expectativa do governo é começar a chamar os aprovados ainda no segundo semestre deste ano, de forma que esses professores possam começar a chegar à rede já para suprir as necessidades das escolas, inclusive para o planejamento do ano letivo de 2027.

Leite e a secretária da Educação, Raquel Teixeira, receberam no Palácio Piratini diretores e professores de escolas que tiveram as melhores notas e das que mais conseguiram avançar em relação à avaliação anterior. O objetivo, segundo Raquel, foi reconhecer quem está por trás desses resultados: professores, equipes pedagógicas e gestores "que fazem a escola acontecer todos os dias".

São escolas de diferentes regiões do Estado, algumas com resultados muito bons e outras que deram saltos importantes em relação ao que tinham antes. _

Banrisul Cultural ocupará casarão na Ramiro Barcelos

O instituto Banrisul Cultural terá casa própria até o final de 2027. O casarão da Rua Ramiro Barcelos que abrigava a Agência Bom Conselho está sendo reformado para se tornar sede do braço cultural do banco, criado em 2025.

O prédio histórico, no bairro Independência, será um novo endereço da cultura, da memória e do futuro do Banrisul, na definição do seu presidente, Fernando Lemos.

- A iniciativa reforça o compromisso do banco com a valorização de seu patrimônio histórico e cultural - ressalta Lemos, que anunciará outras novidades hoje pela manhã.

O projeto prevê a constituição de um espaço multiuso, apto a receber exposições, eventos culturais, atividades educativas, encontros institucionais, palestras, lançamentos, ações de relacionamento e iniciativas voltadas à preservação e divulgação da história da instituição. _

Lei que restringe propaganda de bets é inconstitucional

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, emitiu parecer contrário à lei que restringe a publicidade de casas de apostas esportivas, as chamadas bets, no Rio Grande do Sul. O procurador sustenta que é inconstitucional porque a competência de legislar sobre propaganda é federal.

A lei, de autoria do deputado Tiago Simon (MDB), foi sancionada em abril pelo governador Eduardo Leite.

A ação foi movida pela Associação Nacional de Jogos e Loterias e será relatada pela ministra Cármen Lúcia no Supremo Tribunal Federal (STF).

A lei gaúcha estabelece horários para a veiculação das propagandas das casas de apostas em veículos de comunicação e plataformas digitais, acrescenta exigências ao conteúdo dos anúncios e ainda veda comerciais em estádios, ginásios e praças esportivas. _

Sinuca para a base do governo Leite

A tradicional transferência dos trabalhos da Assembleia Legislativa para a Expointer, que ocorre anualmente, corre risco de não ocorrer em 2026. É que antes de validar a instalação das atividades no Parque Assis Brasil, os deputados vão precisar analisar o veto de Eduardo Leite ao projeto de lei que acaba com a taxa de licenciamento veicular. O governo tenta deixar a apreciação do veto para depois da eleição.

O projeto do deputado Rodrigo Lorenzoni (PP) extingue a taxa criada para custear a emissão do CRLV, que desde 2019 deixou de ser impresso em papel-moeda e só pode ser acessado em formato digital. Leite argumentou que a medida retiraria cerca de R$ 750 milhões dos cofres públicos. _

POLÍTICA E PODER

20 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Ambiente e ações contra cheias: os planos de governo do RS

Na primeira campanha ao governo do RS desde a tragédia climática de 2024, os quatro candidatos mais bem colocados nas pesquisas na disputa ao Piratini dedicam várias páginas de seus planos de governo para temas ambientais.

Estão expostos de duas formas: propostas amplas, como transição justa, investimentos em energias limpas, licenciamento, saneamento e proteção de biomas; e outras focadas em ações contra cheias, defesa civil e prevenção. Veja alguns projetos. _

Avançam as obras no Dom João Becker

A prefeitura de Gravataí deu início às obras da segunda fase da nova emergência do Hospital Dom João Becker, que disponibilizará 16 novos leitos e 12 poltronas para medicação.

Como 20 outros leitos já foram entregues na primeira etapa do projeto, ao final da segunda fase serão, no total, 36.

A nova emergência da estrutura terá acesso para ambulância, triagem, sala de exames, consultórios, farmácia satélite (que fica dentro dos hospitais) e ala pediátrica.

Vale lembrar: o aumento de vagas de leitos na Região Metropolitana ajuda a desafogar a rede na Capital. 

RS com foco na China

Rafael explicou à coluna que o escritório de representação via parceiros é um modelo adotado pela Apex Brasil em alguns países. O passo seguinte é um escritório próprio. Será contratada uma empresa especializada em representar governos e companhias no mercado chinês. A China é o principal parceiro comercial do Estado. _

Líder Marista em Porto Alegre

No Colégio Marista Rosário, Carroll se reunirá com educadores, gestores e representantes de grupos de lideranças estudantis e pastorais na próxima terça-feira. Na segunda-feira, um dia antes, ele visitará a PUCRS e o Hospital São Lucas, onde cumprirá agendas internas e visitas institucionais. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

19 de Agosto de 2026 
CARPINEJAR

O Inter não é como os outros

Como colorado, conto com um prodígio de indícios para me desesperar. Faltam 15 rodadas. Nas sete partidas recentes do Brasileirão, o Inter totalizou três pontos. Foram quatro derrotas e três empates. A última vitória aconteceu em maio. Trata-se de uma campanha de menos de 15% de aproveitamento durante o período. Se continuar assim, a queda será líquida, certa, antecipada.

Cansei de ouvir que a equipe cansa e não há banco. Desse modo, num recuo miserável com suplentes suspeitos, desperdiçamos pontuação.

É o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Minha mãe costumava me falar: "você não é como os outros". Eu replico a lição materna aqui: o Inter não é como os outros. Que se quebre a régua das estatísticas.

Somos mesmo estranhos, improváveis. Quem diria que um plantel de uma capital no Sul do país seria campeão mundial diante do galáctico Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, há vinte anos?

Ninguém. Somos do contra. Existe em nós uma raça imprevisível, uma garra inaudita, uma vontade insana de contrariar as expectativas, de negar as evidências.

Não se desiste no meio do combate. Ainda desfrutamos de boas chances de escapar do rebaixamento, com possibilidade de chegar a uma semifinal na Copa do Brasil no Gre-Nal da década.

Não podemos permitir que nosso emocional fique à mercê da zica, do inacreditável, da maldição. Não podemos parar de remar, de mirar o horizonte. Não podemos sucumbir à maré das adversidades. Não podemos nos resignar à escassez de recursos e esperar a tampa do caixão ser fechada.

Se estamos de pé, não estamos mortos. Que paremos de atrair o Z4, como se fosse uma fatalidade incontornável, como se fosse um castigo.

Nosso psicológico se encontra esmigalhado de tanto lembrar o jejum dos títulos, a valsa tocando, os gols perdidos, o revés nos acréscimos. Parece uma conspiração, um decreto divino nos impondo restrições. Porém, não é verdade: tudo se mostra felizmente em aberto.

O que vale é o agora. Estamos na Série A, precisamos agir como Série A e precisamos de arquibancadas cheias de Série A. Esqueçamos o Remo, foquemos no Atlético Mineiro.

Não serão apenas três pontos, mas sal grosso na nossa mentalidade agourenta. Temos que ganhar. Temos que ajeitar a casa no próximo sábado. Corresponderá ao marco de virada para não olhar mais para trás. Não dá para pensar diferente ou em algum eufemismo.

Em véspera de decisão, não é mais o momento de trocar de treinador ou de propor qualquer mudança sensível.

Resta oferecer o apoio incondicional. Dar as costas para as superstições e seguir em frente. Unir o grupo e converter a flauta em fúria. Deixar que os adversários nos menosprezem, que os comentaristas preguem nossa extinção, e somar as vaias para usá-las a nosso favor.

No fim de 2025, todos já nos colocavam como rebaixados, reféns de três resultados paralelos. Não caímos. No enfrentamento com o Corinthians, todos já nos botavam como eliminados. E nos classificamos.

Desde quando confiamos em profecias a nosso respeito? Somos azarões, não azarados. No ano passado, eu escrevi que a minha única alegria na infância era o Inter, a rara trégua do bullying. O escudo colorado me concedia a oportunidade de ser aceito. O Inter vencia por mim, enquanto a vida me derrotava. Hoje meu clube está mal, e estou bem: então vou carregá-lo, pois ele me segurou quando eu não dispunha de nenhum motivo para resistir.

Eu sofro porque me importo. Mas sei que há horas para criticar a família e horas para defender a família.

Meu amor pelo Inter sempre será maior do que ter razão.

Eu não me entrego. E você, colorado? 

CARPINEJAR

 

O alerta das recuperações judiciais

O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, uma das maiores e mais tradicionais varejistas do país, é apenas o mais recente exemplo a materializar as consequências nefastas na economia real do juro proibitivo que impera no Brasil. Ainda que a empresa enfrentasse problemas internos e as dificuldades e transformações que afetam todo o varejo, como a concorrência com o comércio eletrônico, a asfixia gerada pelo custo de capital foi fator decisivo para a busca pelo instrumento que permite a continuidade das operações, enquanto tenta reestruturar as dívidas. A Casas Bahia tem um passivo de R$ 17,3 bilhões. Anunciou ainda ter fechado quase 300 lojas e realizado 3 mil demissões.

A degradação do ambiente de negócios, com o juro sufocante como principal fator, tem legado números recordes de recuperações judiciais. Dados do Monitor RGF Bizdoc mostram que, ao final do primeiro semestre de 2026, o Brasil contabilizava 6.341 companhias nessa condição, alta de 6,2% ante o final do ano passado e de 21% em um intervalo de 12 meses. Comércio, indústria, agronegócio e construção são os segmentos mais afetados.

Inúmeras empresas conhecidas tiveram de recorrer ao instrumento que busca reorganizar os negócios sob o amparo do Judiciário. Entre elas estão Tok&Stok, Bombril, Coteminas, Grupo Unigel e Isdra. Há casos também de recuperação extrajudicial, situação do grupo Pão de Açúcar e da Raízen. No caso do agro, o quadro foi agravado pelo clima e pela queda dos preços das commodities.

O ciclo recente de corte a conta-gotas da Selic, de 15% ao ano em março para 14% no início deste mês, é insuficiente para reverter o processo de endividamento e de inadimplência crescente das pessoas físicas e jurídicas. O estrago na saúde financeira das famílias e das empresas já foi feito. É o resultado do esforço solitário do Banco Central (BC) para conter a inflação e a expectativa de pressão sobre preços, na contramão da incúria fiscal do governo federal, também seguida por parte significativa das administrações estaduais, diga-se de passagem.

Programas como o Desenrola são apenas paliativos, que ignoram a raiz da questão. Não haverá uma queda consistente do juro no país sem um ajuste fiscal robusto, que sinalize maior responsabilidade fiscal e ao menos a estabilização da dívida pública, hoje em trajetória explosiva. É preciso advertir que, em alguma medida, o cenário atual de gastança guarda semelhanças com o período pré-eleitoral de 2014, que levou à crise de 2015 e 2016. A despeito dos números bastante positivos até aqui do mercado de trabalho, a renda das famílias carcomida pelo juro e pela inflação diminui a margem para o consumo e o custo do capital elevado inibe investimentos produtivos, tornando a desaceleração da economia cada vez mais nítida. O El Niño e as incertezas sobre o conflito no Oriente Médio acrescentam pressão inflacionária no horizonte.

O crescimento do endividamento e da incapacidade de honrar compromissos, tanto de empresas como dos cidadãos, é sintoma eloquente de que a situação até aqui razoável da economia brasileira corre riscos sérios de uma reversão. O perigo à espreita, lamentavelmente, é negado ou tangenciado pelos principais candidatos ao Planalto. 


19 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Planos de governo: política externa

Em meio a um cenário atual complexo nas relações internacionais, os principais candidatos à Presidência dedicam amplos espaços, em seus planos de governo, à política externa. A reforma da ONU, o reforço do Mercosul e da liderança do Brasil no Sul Global, distanciamentos ou aproximações com EUA e palavras como "soberania", desenvolvimento econômico e turismo aparecem nos documentos.

Líderes nas pesquisas, Lula (PT), candidato à reeleição, utiliza o espaço para a defesa de uma "diplomacia ativa", e Flávio Bolsonaro (PL) dedica-se a criticar o que considera ideologização das relações exteriores do governo. Em muitos momentos, os documentos trazem a política internacional relacionada a ambiente, segurança e defesa. Esses assuntos serão abordados de forma individualizada nos próximos dias. 

Abaixo, estão propostas que abordam diplomacia, comércio exterior e geopolítica. A ordem obedece à posição de cada candidato na mais recente pesquisa Quaest, de 14 de agosto. Foram escolhidos os seis primeiros colocados. As propostas analisadas se restringem apenas ao texto escrito nos planos de governo, excetuando-se manifestações verbais ou postagens em redes sociais. _

Rotativo 4,5 vezes mais barato

Operando há uma semana, o sistema digital de estacionamento rotativo do Rio de Janeiro é 4,5 vezes mais barato do que o de Porto Alegre.

O aplicativo Jaé estreou na Lagoa Rodrigo de Freitas e foi ampliado para as orlas do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon.

No Rio, o custo é de R$ 2 por um período de duas horas. Em Porto Alegre, onde o sistema é operado pela empresa Digipare, o usuário desembolsa R$ 9 para permanecer estacionado pelo mesmo período. Ou seja, lá é 77,8% mais em conta. _

Saneamento básico em debate

O Instituto Latino Americano de Desenvolvimento Econômico Sustentável (Ilades) realiza na sexta-feira a primeira edição itinerante do Diálogos Sustentáveis. O tema será Agenda Positiva do Saneamento Básico, resíduos sólidos e drenagem urbana dos municípios.

O encontro terá como painelistas o prefeito de Agudo e presidente da Associação dos Municípios da Região Central, Luís Henrique Kittel, o coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias do MPE-RS, Cláudio Ari de Mello, o diretor de Relações Institucionais da Corsan, Cesar Faccioli, e o vice-presidente da Região Central da Federasul, Airton Leonardo Wilhelm.

Inscrições gratuitas pelo e-mail dialogosilades@gmail.com. 

INFORME ESPECIAL