quinta-feira, 29 de outubro de 2026

29 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

O melhor dos comentaristas

O jornalista Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, ícone da RBS, morreu na madrugada de ontem, aos 70 anos, em Porto Alegre, na capital em que nasceu. Ele estava internado desde domingo no Instituto de Cardiologia, devido a uma infecção pulmonar.

Partiu antes de os galos cantarem. Antes de seus fãs acordarem. Antes de o mundo conseguir protestar. Como se acostumar com sua ausência? Como suportar seu microfone calado no programa Sala de Redação, sua cadeira vazia, o silêncio no ar?

Que abstinência é essa, para a qual nunca nos preparamos e que nunca acreditamos que aconteceria?

Ficaremos ainda esperando seus comentários durante a transmissão dos jogos, sua coluna no digital, feita no calor da hora, expressando nossa esperança ou nossa raiva com o clube do coração?

Dependíamos de sua opinião para formar a nossa. Seremos agora menos informados. Não virá mais sua risadinha sarcástica depois de uma frase de efeito, não virão suas sentenças que cortavam nossos suspiros.

Parece que foi embora um parente, de intimidade conquistada dia a dia: um hábito dos gaúchos, certo e irreversível como o chimarrão.

Guerrinha se despede sem sósias, sem clones, sem substitutos. É a orfandade da dor. Não haverá mais um exemplar humano como ele: intenso, irresistível, mundano, divertido, apaixonado por turfe e por uma prosa inteligente.

Até seus defeitos se convertiam em virtudes, pois o aproximavam dos ouvintes. Ele não se isolava em redomas. Se estava mal, confessava: "Estou numa fase de beber a água da salsicha".

Colorados o amavam, gremistas o adoravam. Ele pairava acima da rivalidade, mesmo com a torcida declarada para o Inter. Não recebeu nenhum processo. Não precisou se justificar num banco de réus, uma proeza diante da longevidade pública e de sua língua ferina.

Transformou-se em nosso meme favorito no fim das rodadas, nosso coringa para as gargalhadas. GIFs com suas poses circulavam no WhatsApp, nossas figurinhas prediletas nos grupos de futebol para começar um assunto ou terminá-lo.

O adeus é no auge da festa, justamente quando celebrava sete décadas de vida e cinco de carreira com a publicação de seu primeiro livro, por tantas vezes adiado: As Mortas do Guerrinha (BesouroBox), uma seleta com mais de 250 aforismos. O lançamento virou testamento.

Ele não vai realizar seu sonho de dar autógrafos na Feira do Livro - sua sessão estava marcada para a tarde de 7 de novembro. Teria sido a fila mais concorrida de todos os tempos na Praça da Alfândega.

Não sei se ele era um comunicador, um poeta ou um filósofo. Talvez muito dos três. Suas pérolas integram o repertório popular: "Não se pode ir à guerra com escova de dentes", "Restaurante com ventilador no teto não serve farofa", "Se beleza fosse crime, eu seria inocente".

Com ele, entendemos que um time motivado é capaz de perder, que um técnico gosta de mudar a escalação quando está ganhando.

Enquanto a maioria refletia o cotidiano com suas ideias, ele encarava os fatos e olhava com os olhos, não com hipóteses. Enquanto os outros se confundiam na abstração dos próprios devaneios, ele tinha a vantagem de enxergar a realidade nua e crua. Dizia a verdade, doesse a quem mentia. Não encolhia os ombros. Não permanecia no muro.

Filho de peixe, do locutor Adroaldo Guerra, Guerrinha se tornou um oceano de histórias. Deixa a esposa Kathia, as filhas Michelle e Karine, seus três netos e o Rio Grande inteiro de luto.

Jamais descansará em paz. Vamos viver falando dele. 

CARPINEJAR

29 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Flávio, entre o delírio e a desfaçatez

São delirantes do início ao fim as manifestações do senador Flávio Bolsonaro divulgadas nesta quarta-feira, dia em que chegou fugido aos Estados Unidos. Em uma primeira versão, mais insolente, autoproclamou-se "o verdadeiro presidente eleito do Brasil". Em outra, com um leve recuo, mas em que pouco diminuiu o grau de desfaçatez, considera-se apenas "o líder do Brasil".

A intitulada Carta à Nação Brasileira é desconectada da realidade e de extrema gravidade pelo incitamento à agitação política e social no país que ele deixou às escondidas na noite de terça-feira. Espera-se que seus aliados demonstrem responsabilidade e se dissociem da desestabilização que o senador quer criar no Brasil ao teimar em não admitir a derrota limpa no segundo turno da eleição presidencial, no último domingo.

Aguarda-se também que seus eleitores de boa-fé repudiem a manobra do senador. Convém lembrar o infame 8 de janeiro de 2023, quando a invasão e a depredação dos prédios dos três poderes, em Brasília, levaram à prisão milhares de brasileiros comuns que acreditaram nas teorias conspiratórias criadas pelo bolsonarismo.

A atitude de Flávio apenas confirma a vocação golpista da família Bolsonaro. Ao que parece, não foi suficiente a condenação e a prisão do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentar uma ruptura institucional no país após perder a eleição para o Planalto em 2022. O clã segue a dobrar a aposta, pouco importando os fatos e evidências. Para a família, apenas os pleitos que vence são válidos. O próprio PL, o seu partido, reconheceu o resultado. O governador reconduzido de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também disse nesta quarta que a eleição é página virada.

São totalmente falsas as alegações do senador de que viu no domingo uma fraude eleitoral se materializar diante de seus olhos. O resultado foi certificado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro para o STF por articulação protagonizada pelo próprio senador. Já foi demonstrado, de forma transparente, que o prolongamento do horário de funcionamento das seções eleitorais acrescentou apenas 34 mil votos, 0,03% do total.

Se é verdade que o ministro do STF Alexandre de Moraes agiu mal ao deferir pedido da Polícia Federal ainda no domingo para apreender o passaporte do senador e proibi-lo de deixar o país, também se torna cada vez mais cristalino que a decisão foi a desculpa perfeita para Flávio pôr em marcha um plano para se evadir do Brasil em caso de derrota. Ao fim, a barbeiragem veio a calhar para comportar-se de forma pusilânime. O homem que poucas horas antes bradava corajosamente que lideraria a oposição e negava a intenção de fugir escapou do Brasil na primeira oportunidade. Abandonou seus quase 60 milhões de eleitores.

Flávio Bolsonaro foi embora às pressas não por se considerar um perseguido político, como sustenta, mas por saber que em breve não teria a proteção da imunidade parlamentar, enquanto avançam investigações contra ele por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. São suspeitas graves, amparadas por indícios fortes. Se firmeza fosse uma de suas virtudes, permaneceria no Brasil para esclarecer os fatos nos quais está implicado e para se defender. Voltou a ser valente - para os incautos - apenas bem longe do país, na companhia do irmão, Eduardo Bolsonaro, que pelos interesses da família bateu em retirada antes para conspirar contra a economia brasileira. 

29 de Outubro de 2026
PÓS-ELEIÇÃO - Anderson Aires

Listas de boicote se proliferam; prática é considerada criminosa

Após o resultado das eleições presidenciais, as redes sociais viraram instrumento para propagação de listas e campanhas contra pessoas e empresas supostamente alinhadas à esquerda. Parte das publicações reúne cards com nomes de negócios apontados como de esquerda ou que teriam adotado posicionamentos nesse sentido. Também circulam mensagens que incentivam a demissão de funcionários identificados com esse espectro político.

Entidades empresariais repudiaram esse movimento, enquanto especialistas da área do direito alertam para possíveis consequências jurídicas que autores desse tipo de postagem podem sofrer.

Nas redes sociais, empresários incluídos nessas listas relatam desde cancelamento de pedidos até ataques e ameaças por mensagens. Outros evitam repercutir o assunto, por receio de ampliar a exposição.

Entre os ouvidos pela reportagem, os relatos revelam tensão, indignação e temor de dar ainda mais visibilidade ao que classificam como uma espécie de caça às bruxas. Já entre os responsáveis por publicações desse tipo, alguns moderaram o discurso, alegando excessos, caráter pessoal das manifestações ou distorções de seus posicionamentos.

Alvo de uma dessas listas, a Varal, empresa de cama, mesa e banho de Porto Alegre, publicou esclarecimento nas redes sociais para negar que seja de esquerda. A sócia-proprietária Martina Zabaleta Rodrigues afirma que a empresa sempre manteve neutralidade política e que seus proprietários são de direita.

Segundo Martina, o nome da Varal já havia aparecido em uma lista semelhante nas eleições de 2022. Desta vez, porém, a repercussão foi maior. A empresária critica esse tipo de iniciativa e defende que as pessoas tenham liberdade para seguir suas convicções sem sofrer sanções pessoais ou comerciais. Ela afirmou que, por ora, não percebeu efeitos na operação, mas contou ter recebido mensagens com xingamentos e cobranças por posicionamento político.

Registros em delegacia

Em Nova Petrópolis, pelo menos 30 pessoas registraram boletins de ocorrência, confirmou o delegado Fábio Idalgo Peres. A prefeitura de Nova Petrópolis, a Associação Comercial e Industrial de Nova Petrópolis, a Câmara de Dirigentes Lojistas e a Associação das Malharias de Nova Petrópolis e Picada Café emitiram nota dizendo que repudiam qualquer ato de discriminação.

Em Nova Prata, o delegado Juliano Goelzer confirma que também há boletins de ocorrência registrados por donos de estabelecimentos incluídos em listas de boicote. O presidente da Câmara de Vereadores do município, Felipe Paese (PL), publicou nota negando autoria da lista e afirmando que está tomando medidas legais para apurar quem o associou ao conteúdo. _

Colaborou Marcos Cardoso

29 de Outubro de 2026
EM FOCO

Carta com teor golpista marca a chegada de Flávio aos EUA

A manifestação divulgada logo após o desembarque no Exterior adiciona um novo elemento à crise envolvendo o candidato derrotado. No texto, ele chegou a se apresentar como "verdadeiro presidente eleito", mas removeu o trecho

Menos de um dia após sair do Brasil em fuga para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL) divulgou uma carta com teor golpista. Depois de desembarcar em solo americano com a esposa e duas filhas por volta das 10h30min de ontem, o candidato derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais no domingo fez à tarde sua primeira manifestação após deixar o país, na qual reivindicou o posto de "verdadeiro presidente eleito do Brasil". O trecho foi posteriormente retirado.

O documento já tem três versões. As duas primeiras circularam por meio de aliados. A primeira trazia um brasão escrito "Estados Unidos do Brazil", com o nome do país escrito com "z". Cerca de 15 minutos depois, uma versão com novo brasão, com o nome do país escrito de forma correta, passou a circular.

Flávio postou o conteúdo em sua conta no X. Pouco tempo depois, no entanto, editou a postagem e republicou o conteúdo, mudando o trecho "verdadeiro presidente eleito do Brasil" para a expressão "líder do Brasil".

O que não mudou em nenhum dos documentos distribuídos foi a alegação de existência de fraude eleitoral, sem apresentar provas, e os agradecimentos aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump. No pronunciamento, Flávio também afirma que não pretendia deixar o país, mas que decidiu viajar para escapar do que descreveu como perseguição política.

Dos rumores à confirmação

Flávio deixou o Brasil após ser intimado a entregar os seus passaportes. Os rumores de que o senador havia fugido do país começaram na manhã de terça-feira, embora não houvesse confirmação de que ele havia cruzado a fronteira.

O governo da Argentina informou na madrugada de ontem que ele entrou no país vizinho na noite de terça-feira e embarcou ao Equador em um avião particular cerca de 40 minutos depois, junto da família, onde fez breve escala rumo a Miami, nos EUA. Segundo informações da Direção Nacional de Migrações da Argentina, a viagem foi em uma aeronave LV-JQW, um jatinho particular Gulfstream G400.

A informação sobre a fuga de Flávio Bolsonaro foi inicialmente publicada pelo site argentino Infobae na terça-feira. Embora o Departamento de Migração argentino tenha informado que Flávio e a família deixaram o país rumo aos Estados Unidos somente na noite de terça-feira, o governo norte-americano já havia confirmado, no mesmo dia, a chegada do senador ao território dos Estados Unidos com a mulher e as duas filhas.

Ainda segundo o Departamento de Migração argentino, a família só teria chegado ao país às 22h50min da terça, quando "ingressaram pelo passo fronteiriço da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones", informação que ainda é apurada pela Polícia Federal. Eles "o fizeram com documentação hábil de viagem sem nenhum impedimento legal para o ingresso no país", alega o departamento.

Para entrar na Argentina, Flávio usou o passaporte italiano, enquanto, para entrar nos EUA, utilizou o passaporte diplomático cancelado. Conforme apurou o jornal O Globo, Flávio recebeu visto humanitário quando chegou ao território americano.

Entrega de passaporte

No domingo, após as eleições, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse o passaporte à Polícia Federal. Na segunda-feira, Flávio foi abordado por agentes da PF ao deixar a residência de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Na ocasião, ele foi intimado a entregar os passaportes em até 24 horas e ficou proibido de deixar o país. O prazo para cumprir a determinação encerrou-se no fim da manhã de terça-feira, mas o senador não compareceu para entregar os documentos.

A ordem judicial faz parte do processo em que Flávio e o advogado Willer Tomaz são investigados no STF. Na semana passada, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro relacionado a negócios envolvendo bets.

Conforme a apuração preliminar da Polícia Federal, Flávio seria beneficiário de recursos da Alcazar Holdings, uma empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e que também é investigada pela PF.

A ordem de Moraes foi tomada por pedido da PF, em razão de registros de e-mails encontrados em que Flávio é citado como operador de uma conta no Exterior vinculada ao Tomaz, o que, na avaliação da investigação, poderia representar risco de fuga para uso de recursos fora do país. _

Passo a passo

Flávio e a família teriam cruzado a fronteira com a Argentina às 22h50min de terça, por meio da Ponte Internacional Tancredo Neves, em Misiones, informação ainda apurada pela PF.

Às 23h30min, embarcaram em avião privado a partir do Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú, em Misiones.

Segundo o rastreamento de aeronave FlightAware, o avião pousou no Aeroporto Internacional de Guayaquil, no Equador, às 5h25min.

Depois, decolou novamente com destino a Miami às 6h22min

Por volta das 10h30min, a família desembarcou no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami.

O voo não cruzou espaço aéreo brasileiro - sobrevoou Paraguai, Bolívia e Peru, segundo o FlightAware.

Após a aterrissagem em Miami, Flávio e a família entraram em um carro que os aguardava na saída do aeroporto. O destino da família era desconhecido.

PF apura se avião usado para ir até a Argentina era de Willer Tomaz

A Polícia Federal ainda tenta compor o quebra-cabeça da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. O que está confirmado é que ele usou o jato Gulfstream G400 de prefixo LV-JQW, com capacidade para 14 passageiros, para se deslocar até Miami partindo desde Puerto Iguazú (cidade argentina situada na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná).

Teria usado essa rota, menos frequentada, para escapar da vigilância nos grandes aeroportos do Brasil, já que seu passaporte brasileiro está cancelado por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Foi nesse Gulfstream que Flávio desceu com a família em Miami (EUA), ontem, após escala no Equador. A rota foi usada para passar longe do território brasileiro. A aeronave tinha se deslocado na segunda-feira de Buenos Aires a Puerto Iguazú e ficou parada nessa cidade argentina, à espera de passageiros. O plano de voo intercontinental dela era até Miami, o que se confirmou.

Pistas seguidas

O que a PF ainda não sabe é como Flávio se deslocou de Brasília (onde visitou o pai, Jair Bolsonaro, segunda-feira) até a Argentina. Uma pista seguida é uma aeronave que decolou da Capital Federal às 5h05min da manhã de terça-feira e aterrissou em San Fernando, nas cercanias de Buenos Aires, na Argentina, às 8h40m do mesmo dia. O jato, o Cessna 560XL Citation Excel de prefixo PR-AAA, estava abrigado no hangar de uma empresa pertencente a Willer Tomaz. A suspeita da PF é de que a aeronave também pertença ao advogado.

Uma coincidência e tanto, já que o advogado é investigado por lavagem de dinheiro no mesmo processo que motivou a fuga de Flávio para os EUA. Os dois, amigos de longa data, são suspeitos de formar sociedade para aplicar milhões de reais em empresas de apostas. A Polícia Federal investiga se o esquema é disfarce de lucros obtidos por Tomaz com desvios da Previdência Social.

Choque de informações

A suspeita da PF é de que Flávio Bolsonaro e seus familiares podem ter trocado de avião em San Fernando, embarcando do Gulfstream para Puerto Iguazú e, dali, para Miami. O avião é maior do que o Citation e capaz de viagens transcontinentais. Não teriam seguido viagem direto aos EUA porque um site argentino de notícias (o Infobae) publicou a informação de que o político brasileiro estava na lista de passageiros do jato, atrapalhando a jornada que deveria ser secreta.

Só que a hipótese se choca com uma informação: a Dirección Nacional de Migraciones argentina informou que Flávio e seus familiares ingressaram em território argentino por Puerto Iguazú, numa ponte que liga essa cidade ao Brasil, às 22h50min de terça-feira. Ou seja, não teriam vindo de Buenos Aires. Ou esse informe oficial é um despiste ou a Polícia Federal precisa investigar um pouco mais para esclarecer o mistério. _ Humberto Trezzi

humberto.trezzi@zerohora.com.br

Meus sentimentos

Juca Kfouri é um mestre da crônica esportiva. Um dos últimos bastiões da escrita limpa, da clareza impecável e do humor literário. Conserva o legado de Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Antônio Maria, Sérgio Porto. Traduz nossa louca torcida, nossas dúvidas, nossas incertezas, além dos esquemas táticos e das escalações.

Aos 76 anos, vô coruja de duas netas, corintiano da velha guarda, nunca aposentou a pena. Permanece escrevendo no UOL e na Folha de S.Paulo, em colunas virais que mudam opiniões, dissipam enganos e metem pau na cartolagem - a Máfia da Loteria Esportiva foi derrubada por suas mãos.

Mas eu venho aqui para prestar meus pêsames. Sua dor é incomunicável. Morreu sua filha, Camila Kfouri, de 48 anos, na segunda-feira, uma dos quatro filhos.

Costumo dizer que, quando nasce um filho, você tem medo de morrer e, quando morre um filho, numa inversão abrupta do ciclo da existência, você tem medo de viver. Nem ouso profanar o santuário de seu sofrimento com minhas defectíveis palavras, só desejo que ele saiba que eu me importo.

Conhecida carinhosamente como Camiloca, Cam e Joaninha no círculo íntimo, Camila era psicoterapeuta. Atuou também como produtora na Conspiração Filmes e como DJ de música brasileira.

Aos seis anos, ela presenciou o avô paterno ser baleado durante um assalto em frente à casa da família. Segundo Juca, Camila arcou com doenças e sequelas desde então. Não há sentido nesta hora aguda. Até para aqueles que trabalham diariamente para nos dar sentido, como meu amigo Juca.

Eu me lembro dos versos cortantes do maranhense Odylo Costa, do livro Cantiga Incompleta, após o jovem filho ser assassinado no bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro:

"Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te

me tire o gosto do terreno barro

e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,

entre rastros de estrelas, a lembrança

dos teus humanos olhos deslumbrados".

Difícil manter a consciência ou o arrebatamento, porque é normal que a saudade faça com que não andemos adiante, e sim recuemos a um lugar imemorial em que todos os afetos ainda estão vivos, na possibilidade imaginária de encontrar um colo ou uma frase completa.

O luto de um filho, de nossa criança interior fora de nós, é o maior flagelo do mundo. Tanto que não existe nome para quem você se torna, tanto que não há como alfabetizar o rasgo no peito. Quem perde um marido ou esposa é viúvo ou viúva. Quem perde os pais é órfão.

Na morte de seu filho, você se mistura ao nada com tudo febril por dentro, sangrando sem parar, sem chance de cicatriz. É a única ferida que jamais se fechará na pele.

Amarga-se o purgatório de não contar com batismo para aquilo que se sente. Não se explica uma ausência. Juca desabafa:

"Perdi hoje uma das paixões de minha vida. Sinto na carne a dor que imaginava ser a maior de todas".

Em seguida, ele confessa que não enxerga mais a estrada, somente sua bagagem:

"Não faço ideia de como será daqui para frente diante de tamanha agressão ao ciclo natural da vida. Só sei que a levarei comigo até o fim". Juca, ofereço meu silêncio próximo e atento. 

CARPINEJAR 


A eleição e o coach

Não foi desta vez que veremos Pablo Marçal como ministro da Prosperidade. Nem no STF, onde prometeu "tocar o terror". Na reta final, o coach virou reforço da campanha de Flávio Bolsonaro e, em vez de somar, fez o que sabe: ofender. Chamou os eleitores de Renan Santos de esquisitos, enfeitiçados por uma seita, e sugeriu que fizessem do voto o que quisessem.

O currículo é longo. Começou aos 18 anos, preso por participar de uma quadrilha que fazia fraude bancária pela internet. Em 2024, candidato a prefeito de São Paulo, levou uma cadeirada de Datena e divulgou um laudo falso contra Boulos na véspera da votação, dizendo que era usuário de cocaína. Saiu inelegível. Agora em outubro, precisou ser resgatado do rio Paraná, para não se afogar, por entrar em uma prova da qual se orgulhou ter feito pouca preparação.

O coach vende a ideia de que a vida é questão de atitude: se você não prosperou, faltou mentalidade. É o negócio perfeito. O cliente paga para aprender a vencer e, se não vence, a culpa é dele. Ilusão é mercadoria sem devolução, porque o defeito está sempre no comprador. Some-se o gozo de estar ao lado de um mestre que parece saber. Em tempos de precariedade, é um alívio acreditar que o desamparo é falta de método.

Ouvi duas piadas sobre Marçal. Na primeira, ele vê uma estrela cadente e ela lhe faz um pedido. Está tudo ali sobre o ego. Na segunda, quando criança, ele primeiro levava os pais ao trabalho e depois ia sozinho para a creche. Está tudo ali sobre o individualismo: não deve nada a ninguém, nem aos pais, nem à escola, nem aos professores, ele se fez sozinho, o coletivo que o rodeou e moldou nunca conta.

A psicanálise tem pouca simpatia pela autoajuda. Freud ensinou que o eu não é senhor em sua própria casa. O coach faz o contrário. Trata o sujeito como gerente de si mesmo, a quem bastaria querer com força. Só que ninguém sabe ao certo o que quer, e o que quer costuma sabotar o que diz querer. O sintoma é uma mensagem que pede escuta, para o coach, é falta de disciplina que pede ordem. O analista recusa o lugar de mestre que lhe oferecem, enquanto o coach faz desse lugar o seu negócio. Quem chega pedindo uma resposta recebe uma, e nunca é a sua. 

MÁRIO CORSO 

28 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Fuga de Flávio gera nova crise

A sucessão de sobressaltos na política brasileira ganhou um novo capítulo nesta terça-feira, com a decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos, junto com a mulher e as duas filhas. Ainda há muito a ser explicado quanto às circunstâncias da viagem e às alegações do candidato derrotado na disputa à Presidência para abandonar o país menos de 48 horas depois de ser batido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O caso cria uma nova crise, no momento em que as energias deveriam estar canalizadas para o enfrentamento dos desafios reais do país.

Um dia antes, o senador havia se dirigido aos seus apoiadores, assegurando que lideraria a oposição. Disse que não desistiria do Brasil e garantiu nunca ter pensado em fugir. A coragem política que afirmava possuir não era verdadeira ou durou poucas horas. Mesmo derrotado, o senador obteve 59,8 milhões de votos. Tinha capital político suficiente para permanecer à frente do campo oposicionista, ainda que, a partir do próximo ano, sem mandato.

O senador já demonstrou não possuir as melhores credenciais democráticas no domingo, ao se negar a aceitar o resultado legítimo das urnas. A fuga empreendida nesta terça-feira, surpreendendo correligionários, permite concluir que, para o senador, o receio justificado ou não de uma eventual condenação ou prisão pelos casos nos quais é investigado se sobrepunha ao papel de líder de um grupo político expressivo. Deveria permanecer no Brasil para se defender de forma altiva.

É preciso dizer, porém, que pareciam frágeis as justificativas da Polícia Federal (PF) para pedir a apreensão do passaporte do senador e a proibição de que deixasse o país. A solicitação foi feita minutos após a definição do pleito. Pelo que se sabe, a PF embasou o pedido na declaração do irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, de que Flávio deveria abandonar o Brasil caso fosse derrotado, pois seria alvo de perseguição. Considerou ainda a existência de uma rede de apoio nos EUA, inclusive financeira, que poderia recebê-lo. Ainda no domingo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes atendeu ao pedido da PF, decisão que caiu como uma luva para a versão de que Flávio seria vítima de caçada judicial.

Seria necessário a PF esclarecer se havia outras informações que dessem base mais sólida à medida, como a descoberta de um plano de fuga pronto para ser executado. E se esse planejamento teria como objetivo fazer com que Flávio escapasse dos inquéritos nos quais é investigado no STF por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Os casos se referem ao filme Dark Horse, que recebeu recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e a uma sociedade mal explicada com o advogado e amigo Willer Tomaz.

As suspeitas que recaem sobre Flávio são sérias, mas a decisão de Moraes parece ter sido precipitada e gerado uma tensão desnecessária. O ministro é o inimigo número 1 do bolsonarismo. Além disso, até agora não explicou as relações obscuras com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o que coloca em xeque as suas condições morais de permanecer na Corte. São elementos que ajudam a sustentar a versão de que Flávio seria alvo de perseguição. O resultado é que a crise política no país ganhou novo fôlego e as desavenças entre os governos do Brasil e dos EUA tendem a se agravar. _

OPINIÃO RBS

28 de Outubro de 2026
ECONOMIA - Anderson Aires

Especialistas avaliam como o governo pode acalmar o mercado

Entre as opções para diminuir a volatilidade dos ativos estão o anúncio da equipe econômica para o próximo mandato de Lula e a apresentação de um plano de reformas das contas públicas. Mas escolhas não podem ser feitas pensando só em medidas de austeridade, apontam analistas

Após a forte turbulência provocada pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado financeiro apresenta sinais de recuperação, mas ainda longe de reverter as perdas do dia anterior. Na segunda-feira, o dólar subiu 8,21%, para R$ 5,403, enquanto a bolsa caiu 13,88%. Ontem, o dólar fechou com queda de 0,97%, a R$ 5,350. E o Ibovespa, principal indicador da B3, encerrou em queda de 0,51%, a 175.705 pontos.

O desempenho dos ativos ocorre em meio a sinais divergentes de Brasília. Ontem, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo discutirá com representantes do mercado financeiro e do setor privado medidas de ajuste para favorecer o cumprimento da meta fiscal. Já o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse que o ajuste fiscal não é prioridade até o fim do ano.

Especialistas afirmam que maior clareza sobre a composição da equipe econômica e o plano de reequilíbrio fiscal para os próximos anos pode ajudar a acalmar o mercado e reduzir a volatilidade dos ativos.

Uma das principais medidas de curto prazo apontadas é o anúncio da equipe econômica do próximo mandato, especialmente do nome que comandará o Ministério da Fazenda. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, são os principais nomes especulados.

O economista, cientista político e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos afirma que esse anúncio é essencial para conter a volatilidade do mercado, pois a indecisão sobre os nomes para a Fazenda pressiona diretamente o preço dos ativos.

Bastos ressalta que a escolha não deve ser guiada apenas pelo pânico imediato nem se limitar à tentativa de acalmar o mercado com medidas de austeridade. Para o economista, o indicado precisa ter capacidade de articulação política com o Congresso para construir um planejamento fiscal sustentável, que preserve os investimentos públicos e amplie a arrecadação sobre as faixas mais altas de renda, sem abandonar o programa eleito nas urnas.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, entende que o anúncio de um titular da Fazenda com perfil técnico, com boa capacidade de articulação política para aprovar medidas e firmeza para suportar pressões internas passa um bom recado no campo do controle de gastos.

Tiago Sbardelotto, economista da XP, afirma que o anúncio da nova equipe econômica e a apresentação de um plano de reformas das contas públicas podem produzir efeitos positivos no mercado. Segundo ele, medidas que moderem o crescimento das despesas, como a desvinculação dos benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, poderiam contribuir para esse movimento. Esses temas, porém, provocam polêmica. _

Necessidade de clareza no ajuste fiscal e de indicações para o BC

Economistas citam a importância de a equipe econômica dar transparência ao ajuste fiscal. Detalhar o tamanho exato do ajuste previsto para o próximo ano aumenta a previsibilidade e diminui as incertezas, auxiliando na reacomodação dos ativos.

Sobre articulação com o Congresso, o economista da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos entende que seria importante o governo aproveitar a atual composição do Congresso para apresentar o desenho fiscal e aprovar o pacote de receitas ainda neste ano.

Isso porque o Congresso que tomará posse em fevereiro será mais hostil ao governo e tenderá a impor a agenda derrotada nas urnas, focada em cortes drásticos de despesas.

Além disso, a definição de nomes para outras pastas do próximo governo também pode reduzir as incertezas. O economista Gustavo Sung cita ainda as futuras indicações para a diretoria do Banco Central (BC), que podem influenciar a percepção do mercado sobre a condução da política monetária:

- É um ponto que as pessoas não comentam muito, mas são vagas que precisam ser preenchidas. Acho que, a depender também do direcionamento e de qual for o perfil a ser indicado, também pode dar uma sinalização positiva.

Bastos também entende que as indicações para o BC podem ajudar a reduzir o estresse e a volatilidade do mercado, mas avalia que não é o caso de fazer uma antecipação apressada. _

E as promessas de campanha?

Uma possibilidade para ampliar o controle das contas, embora pouco discutida, seria rever ou adiar algumas promessas de campanha que impliquem aumento de gastos, como a ampliação de benefícios sociais. A medida poderia sinalizar disposição para controlar as despesas, mas sua implementação enfrenta obstáculos políticos, segundo parte dos economistas. Gustavo Sung acha difícil o governo seguir por esse caminho.

Tiago Sbardelotto, da XP, afirma que rever algumas propostas, como a expansão do Pé-de-Meia para universitários, poderia ser melhor avaliada em termos de custo e benefício da política pública. Se for positiva, deve ser implementada de forma a compor o gasto mínimo de educação, reduzindo o impacto fiscal, segundo ele.

Outra ala de especialistas avalia que rever promessas de campanha contrariaria os eleitores que votaram confiando nesses compromissos. O economista Zahluth Bastos entende que o pânico momentâneo do mercado não pode definir a política fiscal de quatro anos nem anular o programa aprovado nas urnas.


28 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Por que a Flórida se tornou reduto do bolsonarismo

Não é pelo Mickey nem pelas belas praias que a Flórida tornou-se um reduto bolsonarista.

Nos últimos anos, o Estado americano para onde Flávio Bolsonaro (PL) fugiu consolidou seu papel de farol para a direita populista nas Américas, inspirando lideranças pró-Donald Trump no continente. Devido às poderosas e conservadoras diásporas cubana e venezuelana, os dois senadores da Flórida, Marco Rubio e Rick Scott, do Partido Republicano, têm enorme influência sobre a política externa americana quando o assunto é América Latina.

Rubio é hoje secretário de Estado e principal artífice da agenda Trump de contenção do "comunismo" (leia-se China e aliados) na América Latina.

Na política doméstica, depois de anos sendo considerado um importante "Estado pêndulo", a Flórida firmou-se como reduto conservador, a partir da vitória de Trump em 2016. Depois de eleito, transferiu sua residência oficial, Mar-a-Lago, a "Casa Branca de Inverno", para Palm Beach.

Mas a história "conservadora" da Flórida começa especialmente com a Revolução Cubana de 1959. Com a chegada de Fidel Castro ao poder, milhares de cubanos emigraram para os EUA, particularmente para Miami. Muitos eram opositores do governo revolucionário, empresários e famílias que perderam propriedades ou deixaram o país.

Essa comunidade ajudou a consolidar uma cultura política anticomunista, que se aproximou do Partido Republicano, durante a Guerra Fria.

Lar de mais de 110 mil brasileiros, a Flórida é uma das principais comunidades brasileiras nos EUA. Muitos cidadãos de alto poder aquisitivo são atraídos pelo mercado imobiliário do Estado, com investimentos e residências em Miami ou Orlando. Há também a proximidade cultural e o senso de comunidade.

Vida dos brasileiros nos EUA

A presença brasileira tornou possível formar redes de empresas, igrejas, associações e meios de comunicação em português. Essas estruturas também permitem mobilização eleitoral e circulação de mensagens políticas - Eduardo Bolsonaro e, agora, Flávio, só conseguem atenção da mídia e reverberar seu discurso de perseguição graças à imprensa que transmite para a comunidade brasileira no Estado e a influenciadores de direita que ali vivem - muitos, inclusive, ligados ao movimento Maga (Make America Great Again), de Trump. Jair Bolsonaro também foi para a Flórida para não passar a Presidência a Lula, em 2022. E é de lá que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro tem articulado com interlocutores do governo Trump críticas ao STF e ao Planalto.

O trumpismo contribuiu para essa transformação por meio da mobilização de eleitores conservadores, especialmente em torno de imigração, religião, economia e críticas à esquerda.

Os resultados eleitorais de domingo mostram a força do bolsonarismo por lá. Flávio obteve mais de 18 mil votos em Orlando e Miami, contra cerca de 5 mil de Lula no segundo turno. _

A ida do senador para os Estados Unidos abre cenário para que ele possa solicitar a medida diplomática em solo americano.

1 | O QUE É ASILO POLÍTICO?

O asilo político é uma proteção jurídica concedida por um Estado a um indivíduo que sofre perseguição política em seu país de origem. Trata-se de um ato facultativo e soberano: o país receptor não tem a obrigação de concedê-lo. A perseguição deve ter caráter estritamente individual ou ser direcionada especificamente àquela pessoa.

2 | Qual a diferença entre asilo e refúgio?

Refúgio destina-se a grupos ou indivíduos que fogem de perseguição por raça, religião, nacionalidade, pertencimento a grupo social ou opiniões políticas, além de situações de guerra ou violação de direitos humanos. Já o asilo político é focado estritamente em crimes ou perseguições políticas.

3 | Qualquer pessoa pode pedir asilo político?

Qualquer pessoa que se considere perseguida politicamente pode solicitar a proteção. Cabe ao requerente comprovar documentalmente a perseguição.

4 | DE QUEM É A DECISÃO?

A decisão de conceder ou negar é exclusiva e soberana do país receptor, independentemente da oposição ou de eventuais protestos do país de origem.

Roteiro Zambelli

Há semelhanças e diferenças entre as fugas do senador Flávio Bolsonaro e da ex-deputada federal Carla Zambelli. Ambos buscaram fugir do alcance judicial brasileiro, usando como rota a Argentina e, depois, os Estados Unidos.

Mas há diferenças nos casos. Flávio é investigado (não há condenação criminal) por suspeitas por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.

Sobre Zambelli pesava uma condenação judicial e pena prevista de 10 anos de prisão por invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e falsidade ideológica. Depois dos EUA, Zambelli seguiu para a Itália. Ela foi presa em Roma, mas aguarda pedido de extradição em liberdade. _

Manual para entender a eleição em Israel

A primeira eleição em Israel desde os atentados de 2023, realizada ontem, é um referendo para Benjamin Netanyahu. Se deve ou não permanecer no poder. Ele é o mais longevo primeiro-ministro do país e acumula 19 anos em três ocasiões diferentes. A última eleição ocorreu em 2022.

O processo é diferente do Brasil. O voto é em cédula e a apuração deve seguir até sexta-feira.

Como estamos falando de uma eleição parlamentar, os eleitores votam em lista para o parlamento, a Knesset. O Legislativo tem 120 cadeiras. Para ter o direito de indicar o primeiro-ministro, um partido deve conquistar pelo menos 61 cadeiras, algo bastante raro, especialmente devido à fragmentação política - o arco ideológico de Israel, única democracia do Oriente Médio, é largo, com legendas que representam da extrema esquerda à extrema direita, passando por ultraortodoxos, árabes e centro. Logo, são necessárias coalizões.

Essa dificuldade para formar maioria fez com que Israel realizasse cinco eleições em três anos, até que Netanyahu conseguisse formar uma aliança que lhe deu uma pequena maioria.

Há duas forças com chances de vitória. Netanyahu, do Likud, e a oposição do ex-chefe do Estado- Maior das Forças de Defesa de Israel Gadi Eisenkot, do recém-formado Yashar. _

Guerras recentes

Em resposta aos atentados de 2023, Netanyahu iniciou uma guerra total contra o Hamas na Faixa de Gaza. O governo diz ter neutralizado o grupo, mas a facção extremista, ainda que tenha sofrido baixas e reduzida sua capacidade militar, continua operacional. O mesmo ocorre com o Hezbollah no Líbano. No Irã, os ataques de EUA e Israel levaram à redução da capacidade nuclear do país, mas não tiraram os aiatolás do poder.

7 de Outubro

Gadi Eisenkot, o candidato anti-Netanyahu, perdeu seu filho em dezembro de 2023, na guerra, e dois sobrinhos. Seu discurso está marcado pelo luto dos israelenses no pós-atentado. Exige que haja investigação sobre falhas na inteligência que facilitaram o 7 de Outubro. Acredita que Netanyahu deva responder por essas falhas.

Serviço militar

O tema é sensível em Israel, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres. Os ultraortodoxos são dispensados de servir, posição que Netanyahu defende. Eisenkot defende que essa regra seja alterada.

QUESTÃO PALestina

Ganhe quem ganhar, a chamada solução de dois Estados seguirá enterrada. Não há qualquer perspectiva de formação de um Estado Palestino. O que há são nuances de abordagem.

Futuro de Netanyahu

Se Netanyahu perder e deixar o poder, corre o risco de, em breve, ser preso. Ele é réu em três casos de corrupção e fraude. Externamente, há um mandado de prisão internacional que pesa sobre o primeiro-ministro por crimes de guerra e contra a humanidade.

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 27 de outubro de 2026


27 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Não troque uma amizade por um santinho

A eleição foi absolutamente traumática para os afetos. Há uma ressaca que atinge a todos, um fosso que separa vencedores e derrotados. Milhões de pessoas perderam suas amizades por ideologia.

Milhões de pessoas afundaram na solidão dos laços por defender seus políticos de estimação.

Milhões de pessoas deixaram de falar com quem pensa de modo distinto. Desligaram o telefone na cara. Bloquearam o contato. Discutiram aos berros. Ofenderam com palavras sujas e inomináveis. Vazaram segredos, pisaram nos pontos fracos. Entenderam a alegria do outro como chacota, entenderam a raiva do outro como desfeita. Não houve comunicação possível num país monotemático, cindido entre dois extremos com razões passionais.

Gente que até então se amava, se respeitava, se admirava, apesar das divergências que sempre existiram, decidiu romper a intimidade. Padrinhos de casamento, pais, filhos, irmãos, companhias unha e carne, caíram no feitiço diabólico das urnas e se tornaram subitamente estranhos e hostis, simplesmente porque seus números não coincidiam nos adesivos de campanha.

Enquanto prosperar o ódio, jamais alcançaremos o melhor da democracia. Não seremos civilizados. A intolerância inviabiliza a convivência.

Não dá para levar para o lado pessoal a torcida eleitoral, que tem sido mais litigiosa do que a futebolística. Se alguém votou no seu rival, não significa que é seu inimigo, não significa que de repente não presta, não significa que tudo o que viveram juntos deve ser abolido.

Quantas vezes se ajudaram, quantas vezes secaram as lágrimas mutuamente? Quantas vezes se deram a mão para se levantar do chão do desânimo e dos desastres? Quantas vezes comemoraram aos prantos, reeditando o grito do nascimento?

Isso vai desaparecer por um candidato que você nem conhece fora da virtualidade, que sequer entrou na sua casa, que nem sabe quem é a sua família, onde você mora, o que penou, com o que trabalha, o que custou o seu suor? Um indivíduo que não se envolveu diretamente com os seus problemas, que não arrancou a sua mais espontânea e infantil gargalhada?

Esquecerá o essencial da existência? Uma bandeira não abraça ninguém. Não é uma roupa que veste o seu cotidiano, nem a encontrará entre as peças no varal.

Se selecionarmos os nossos confidentes por semelhança partidária, não sairemos de dentro do espelho. Não absorveremos o contraponto. Não abandonaremos o ego. Não iremos evoluir com os nossos erros. Correremos o risco de confundir amigos com bajuladores, conselheiros com cupinchas, de procurar em cada conversa apenas a confirmação eterna das nossas certezas provisórias.

Um leitor me escreveu consternado. Reproduzo a sua mensagem: "O meu amigo de infância me trocou por um santinho. Ele me trocou por alguém que nunca apertou a mão, olhou nos olhos, e nunca me viu chorar.

Restou o santinho. O meu amigo, não conheço mais". Está na hora de recuperar nossas amizades com a mesma militância apaixonada. Pacificar o coração numa lenta reconstrução. _

CARPINEJAR

 
27 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Tarefas que se impõem para Lula 4

A façanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de vencer uma eleição improvável justifica as comemorações efusivas do vitorioso e de seus apoiadores. Mas, diante da premência de medidas que sinalizem como será o seu quarto mandato, convém que o incumbente reconduzido arregace as mangas desde já. O fato de estar no poder faz com que Lula deva agir logo para enfrentar os grandes desafios postos ao país, alguns deles agravados pelo próprio governo.

A prioridade de Lula 4, ainda que o presidente resista em admitir, deve ser acenar com maior disciplina fiscal para estabilizar a dívida pública, hoje em trajetória de alta e em nível equivalente a 82,2% do PIB. Caso insista em negar o problema, crescem as chances de se materializar um cenário de manutenção do juro em patamar asfixiante, de inflação pressionada e de risco de recessão. A busca por uma solução será mais espinhosa pela gastança promovida por Lula para se reeleger. O saco de bondades tornará necessário remanejar quase R$ 40 bilhões apenas no orçamento de 2027.

O resultado de domingo pegou o mercado financeiro no contrapé. A consequência, ontem, foi a disparada do juro futuro e a alta de 8% do dólar. O derretimento do índice Ibovespa levou a B3 a acionar circuit breaker pela primeira vez desde 2020. É dever do governo acalmar os investidores, indicando maior responsabilidade no quarto mandato, ainda que controle de gastos leve a frustrar promessas que fez. A alta do juro e do dólar impacta diretamente a saúde financeira das famílias e das empresas.

São muitas as tarefas à frente. Entre elas, a contribuição para uma reforma do Judiciário e a maior participação federal no combate à criminalidade.

Lula terá ainda a última chance de fazer gestos pela pacificação política e social. Fica a expectativa de que o petista honre o compromisso assumido ainda no domingo de governar para todos os brasileiros e não apenas para os que o escolheram. Para isso, é preciso a humildade de compreender as razões de ter sido reeleito. Lula venceu mais pela rejeição maior ao adversário do que pelas virtudes do seu governo, mal avaliado pela população ao longo dos últimos quatro anos.

No discurso da vitória, o presidente enalteceu seu vice, Geraldo Alckmin, que se mostrou leal ao petista no mandato que se encerra e competente como ministro do Desenvolvimento, área em que cumpriu papel relevante de interlocução com o setor produtivo. Merece ser mais valorizado.

Será trabalhoso ainda para o Planalto formar uma base estável no Congresso. As grandes bancadas eleitas pelo PL apontam para uma oposição empoderada. Caberá a Lula a habilidade de articular algum tipo de aliança com o centrão. O desafio será assegurar a governabilidade em termos republicanos, sem apelar apenas para o toma lá dá cá.

Seria importante também que o presidente compreendesse as novas aspirações dos brasileiros, especialmente os jovens. Os nativos digitais, ao contrário da geração de Lula, valorizam mais o empreendedorismo e a liberdade profissional e menos o emprego tradicional com carteira. Lula ganhou a oportunidade de corrigir os erros que quase o levaram à derrota e formar um novo governo mais arejado, politicamente amplo e que olhe para o futuro. Ganha o Brasil se o presidente não desperdiçar o último voto de confiança que recebeu. 


27 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco terá de recalcular a rota com vitória de Lula

Na campanha de primeiro turno e mesmo depois de eleito, o futuro governador Luciano Zucco sempre apontou o governo federal como fonte de financiamento para suas promessas, baseado na premissa de que Flávio Bolsonaro seria o próximo presidente. Com a vitória de Lula, Zucco terá de rever a rota. Porque nem Lula e nem Flávio, se fosse eleito, conseguiriam renegociar a dívida do Estado fora dos parâmetros do já aprovado Propag, ou criar o sonhado Fundo Constitucional de Desenvolvimento das Regiões Sul e Sudeste.

No caso da renegociação da dívida, a realidade é muito diferente do discurso de campanha de Flávio. Não basta vontade política do presidente. É um longo processo que envolve não apenas um Estado, mas todos os endividados. O Propag é fruto de longa negociação e traz vantagens para os Estados, mas implica retomar o pagamento das dívidas e destinar a parcela equivalente ao juro para projetos estratégicos, especialmente na área de educação.

O fundo constitucional é outra conversa de difícil transformação em realidade. Mesmo que o Rio Grande do Sul preencha os critérios para ter direito a benefícios que Estados do Nordeste têm, outros Estados da região não se enquadram. 

A pergunta crucial é de onde sairia o dinheiro para bancá-lo. O mais factível para Zucco é focar na demanda já encaminhada pelo governador Eduardo Leite, pela prorrogação, por mais um ano, da suspensão do pagamento da dívida, aprovada pelo governo Lula na enchente de 2024. É esse dinheiro que forma o Funrigs e financia obras de infraestrutura afetadas pela enchente e projetos de resiliência.

Leite queria a prorrogação para financiar um projeto de irrigação e recuperação de solos, capaz de impedir os sucessivos prejuízos ao agronegócio decorrentes das estiagens. Mesmo essa não é uma demanda simples em quadro de ajuste fiscal obrigatório. Lula terá de cortar gastos a qualquer custo, sob pena de não conseguir reduzir os juros nos próximos quatro anos de mandato.

Por isso, não pode abrir mão de receita. E o que o Rio Grande do Sul deixa de pagar mensalmente é dinheiro que falta no caixa da União, mesmo que seja incorporado ao total da dívida e seja pago no futuro.

Para além dessas macrodemandas, o governador precisa se relacionar rotineiramente com o governo federal. Mesmo que os interlocutores de Lula digam que ele não discrimina os adversários, não é saudável para o Estado um governador tratar o presidente reeleito como adversário. Zucco já deveria ter telefonado para cumprimentar Lula pela reeleição, mesmo que isso fira os sentimentos de Flávio Bolsonaro. É da liturgia do cargo, para usar uma expressão de José Sarney.

Necessidade de aparar as arestas

Ontem, o governador divulgou uma nota dúbia, que começa torta, colocando em dúvida a lisura do pleito. Não é a melhor forma de iniciar uma relação produtiva com o presidente que venceu a eleição. Horas depois, o líder da bancada do PT na Assembleia, Miguel Rossetto, deu uma resposta que mostra a necessidade de aparar arestas em nome dos interesses do Rio Grande do Sul. _

De volta à "estaca zero"

A virada histórica que reelegeu o presidente Lula (PT) foi inesperada para a equipe econômica do governador eleito Luciano Zucco. Desde o primeiro turno, a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) alimentou as esperanças do grupo de transição na vitória do senador, com quem já tratavam de pautas prioritárias para o Rio Grande do Sul - e agora admitem uma volta à "estaca zero" do planejamento.

Cotado para assumir a Fazenda no Estado, o deputado Claudio Branchieri projeta uma relação de "enormes dificuldades" com o governo federal, de quem os aliados de Zucco têm visões divergentes sobre a gestão econômica do país.

- Lula fez muitas promessas e o governo vai precisar catar moeda, por isso não vão estar tão dispostos a renegociar a dívida - lamenta o deputado. _

Hora de prestar atenção em Danielle Calazans

Depois de levar a secretária da Fazenda de Eduardo Leite, Pricilla Maria Santana, não será surpresa se o governador eleito do Paraná, Sergio Moro, convidar a secretária de Planejamento, Governança e Gestão, Danielle Calazans. Ela é uma técnica reconhecida em Brasília e tem o perfil que Zucco diz buscar para montar a sua equipe.

Funcionária de carreira da Caixa, Danielle domina orçamento, projetos estratégicos, gestão dos servidores públicos, licitações e contratos e o uso da tecnologia da informação na modernização de processos. _

Alckmin terá papel fundamental a partir de 2027

Na primeira manifestação após a confirmação da vitória, o presidente Lula passou a palavra ao vice-presidente Geraldo Alckmin, para que falasse antes dele. Mais do que um gesto de cortesia, foi um sinal de valorização do papel do vice, que o ajudou a ganhar as duas eleições e sempre se manteve leal.

Alckmin é cotado para o Ministério da Fazenda, por ser um fator de estabilidade no governo. No Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, conquistou a confiança dos empresários pela serenidade em momentos de crise. 

Presidente recebe Motta e Alcolumbre no Alvorada em aceno ao centrão

Um dia após a reeleição, o presidente Lula já começa a pensar na governabilidade do quarto mandato. Em um primeiro aceno, o petista recebeu no Palácio do Alvorada, na tarde de ontem, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Lula sabe que precisará mais do que nunca do centrão para garantir a votação de medidas do governo no Congresso no quarto e último mandato. A tendência é que ofereça espaços generosos a PSD, PP, MDB, Republicanos, Podemos e União Brasil.

Além disso, o presidente quer garantir a votação da PEC da tarifa zero, que prevê gratuidade no transporte público aos finais de semana - medida anunciada após a aprovação do fim da escala 6x1 -, ainda em 2026.

Aliados de Lula na articulação de pautas do governo no Congresso e defensores da reeleição do petista, Motta e Alcolumbre têm a pretensão de renovarem seus mandatos nas presidências das casas legislativas. Para isso, contam com o apoio do presidente - o que está para ser anunciado nos próximos dias. O PT tem interesse em impedir que o comando passe para o PL, que terá maioria na Câmara e no Senado. 

O Ministério Público investiga os prefeitos de Tapejara e Machadinho que contrataram, com licitação dirigida, um lobista de costas quentes para intermediar a liberação de emendas parlamentares. Por pouco, o intermediário não conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa.

POLÍTICA E PODER

27 de Outubro de 2026
ANDRESSA XAVIER

Uma contestação feita para tumultuar

Flávio Bolsonaro deveria engolir o choro e reconhecer a derrota nas urnas. No entanto, fez valer o ditado antigo: a fruta não cai longe do pé.

Assim como o pai, Flávio não teve a grandeza de aceitar e parabenizar o vencedor, mesmo que fosse um ato protocolar. Usou a decisão errada do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin para declarar que vai pedir anulação da eleição.

Sim, o ministro do Supremo protagonizou mais uma lambança do Judiciário ao, em um canetaço, definir a prorrogação da votação por duas horas, depois de a maioria das urnas já estar fechada. Essa era uma decisão que deveria partir do chefe do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que também errou ao se omitir.

Urnas finalizadas não são reabertas. O sistema não permitiria, porque é uma medida de segurança. Com a decisão após as 17h e com a demora para que a informação fosse repassada aos mesários, muitos dos locais estavam fechados e assim permaneceram.

É importante lembrar que a campanha de Flávio também pediu mais tempo para os eleitores irem às urnas.

A atitude infantil de Flávio não chega a surpreender. Quando foi derrotado por Lula em 2022, Jair, o pai, foi para a Flórida e não passou a faixa adiante. Pior, tentou um golpe, malsucedido, foi condenado e cumpre prisão domiciliar. 

Esta coluna contém informação e opinião

ANDRESSA XAVIER

27 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Mais uma vez, Donald Trump mostra que não sabe perder

Donald Trump costuma ser um mau perdedor. E isso se estende a quem ele considera seus aliados. A derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno para Lula não foi digerida pela Casa Branca. Isso explica por que Trump demorou tanto para se manifestar sobre a eleição brasileira e, quando o fez, disse que houve fraude, sem apresentar qualquer prova.

Os Estados Unidos reconhecerem ou não o resultado das urnas brasileiras não muda nada na prática. Mas é um ato simbólico - e envia recados políticos.

O primeiro é uma quebra de tradição diplomática na relação entre os dois países, parceiros há mais de 200 anos.

Em seu primeiro mandato, Trump ligou para Jair Bolsonaro na mesma noite da vitória do brasileiro, em 2018. Mesmo em outros governos republicanos, como de George W. Bush, essa tradição se manteve. Bush filho ligou para Lula, em sua primeira eleição, em 2002.

Flávio perdeu. Trump perdeu. Essa é a leitura na Casa Branca. O republicano recebeu o brasileiro meses atrás, um dia antes de declarar Comando Vermelho e PCC organizações terroristas, como Flávio prometia fazer se fosse eleito.

Trump esperava, em caso de vitória de seu aliado, que o Brasil aderisse ao seu Escudo das Américas, a coalizão de nações em uma guerra contra o narcotráfico, que críticos veem como uma desculpa para interferência/intervenção em países sul-americanos. Mais: desejava maior acesso a empresas americanas às terras raras - o país tem a segunda maior reserva do planeta. Mas, sobretudo, enxergava na vitória de Flávio um afastamento da China.

O Brasil é encarado pelos falcões da Casa Branca como o último grande bastião da esquerda na América do Sul - além do país, apenas Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname mantêm governos dessa linha do espectro ideológico. Venezuela, como se sabe, já está se convertendo a fórceps, com a deposição de Nicolás Maduro, em um puxadinho de Washington.

Seu projeto de reeditar a Doutrina Monroe, em que a "América para os americanos" significa blindar o continente de atores externos - além da China, a Rússia -, perdeu força. E isso não é bom também para seu desempenho nas midterms, as eleições de meio de mandato, no dia 4, quando o americano também deverá perder a maioria na Câmara e no Senado. E Trump não sabe perder. _

O premier de Israel, Benjamin Netanyahu, irá hoje a escrutínio pela primeira vez desde os atentados de 2023. Há chances reais de a coalizão de direita e religiosos, liderada pelo Likud, perder a maioria no parlamento. Caso se confirmem as pesquisas, Bibi deixará o governo. Dados sugerem que a coalizão de oposição, liderada por Gadi Eisenkot, também não conseguirá a maioria.

Coronel uruguaio condenado por tortura é preso no RS

A Polícia Federal (PF) prendeu ontem, em Santana do Livramento, o coronel uruguaio Pedro Antonio Mato Narbondo. Ele foi condenado pela Justiça da Itália por sequestro, tortura e morte de quatro cidadãos de origem italiana durante a ditadura militar.

A prisão foi determinada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que homologou a sentença para o cumprimento da pena em território nacional, uma vez que Narbondo tem a condição de brasileiro nato e vive no país. A coluna acompanha o caso desde 2023, quando o STJ aceitou o pedido da Justiça italiana para analisar se ele deveria cumprir a pena no Brasil. Desde março, por determinação judicial e a pedido do Ministério Público Federal (MPF), Narbondo utilizava tornozeleira eletrônica e estava proibido de deixar Santana do Livramento.

Quem é

Conhecido pelo apelido de "El Burro", Narbondo nasceu em Rivera, no Uruguai, mas teve a cidadania como brasileiro nato reconhecida pela Justiça Federal em 2003, por ser filho de mãe brasileira. Na década de 1970, atuou como oficial do Serviço de Informações de Defesa (SID), órgão de repressão política do regime militar uruguaio.

Ele foi responsabilizado por prisões, assassinatos e desaparecimentos de quatro cidadãos italianos de origem uruguaia ocorridos em Buenos Aires, na Argentina, durante o ano de 1976. Os crimes foram cometidos no âmbito da Operação Condor, uma aliança entre os serviços de inteligência das ditaduras do Cone Sul (como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai) para perseguir, torturar e eliminar opositores políticos.

Na Itália, ele foi condenado em julho de 2019, em sentença que transitou em julgado em julho de 2021. Como a Constituição brasileira proíbe a extradição de brasileiros natos, o governo italiano solicitou a transferência da execução da pena para o Brasil.

O julgamento da homologação no STJ começou em abril. Como a legislação brasileira veda penas de caráter perpétuo, a condenação foi adequada ao limite máximo constitucional e fixada em 30 anos de reclusão. 

Modernização de espaços na Unisinos

A Unisinos está investindo R$ 4,1 milhões na requalificação e modernização dos laboratórios de Engenharia do campus de São Leopoldo. O aporte faz parte do investimento de mais de R$ 30 milhões previsto pelo Masterplan Unisinos para os campi de São Leopoldo e Porto Alegre. A conclusão das obras está prevista para março de 2027.

Os novos investimentos buscam ampliar a capacidade de pesquisa aplicada da universidade, criar oportunidades de desenvolvimento tecnológico em parceria com a indústria, requalificar os ambientes e modernizar equipamentos, com foco em prototipagem avançada, automação e soluções voltadas às necessidades do setor produtivo.

Os espaços poderão ser utilizados em atividades de ensino. A proposta prevê a integração entre laboratórios e salas de aula, qualificando as atividades práticas. _

INFORME ESPECIAL