quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 

A encruzilhada histórica do STF

A confiança pública deve ser o ativo mais valioso da Corte que dá a última palavra sobre a Constituição e é acionada a todo momento para decidir sobre os temas mais candentes do país. O Supremo Tribunal Federal (STF) está neste momento em uma encruzilhada histórica. Um caminho resguarda a instituição, colocando-a acima de seus membros. Outro, o do corporativismo, corrói ainda mais a credibilidade perante a sociedade.

Está nas mãos do presidente do STF, Edson Fachin, a decisão que começa a delinear a direção a ser tomada. Cabe a ele marcar para logo a sessão em que o plenário deliberará sobre a abertura de inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes. O relatório da Polícia Federal (PF) cujo sigilo foi levantado na terça-feira escancarou a relação promíscua de Moraes com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, pivô da mais retumbante fraude financeira já vista no país.

De forma vaga, Fachin manifestou-se ontem e disse que, "nos próximos dias", anunciará "as medidas cabíveis e necessárias." Falou em "preservar a integridade do STF" e que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional". Não há margem para protelar essa sessão. Deve ser marcada para breve.

As mensagens enviadas pelo banqueiro ao ministro apontam para uma atuação de Moraes no sentido de proteger Vorcaro e o banco de investigações. E isso enquanto o escritório de advocacia de sua mulher e filhos usufruía de um contrato que, todos os meses, garantia generosos R$ 3,6 milhões à família. Tudo o que veio à luz indica a falta de condições, no mínimo morais, para Moraes continuar no STF. Deveria se afastar imediatamente de suas funções, por ato voluntário.

Caso o ministro resista, espera-se do próprio Supremo a compreensão de que, para preservar a instituição, deve proceder sem que o instinto de autoproteção prepondere. É mandatório investigar o colega. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também teria a missão de agir, mas é citado no caso e ainda na terça-feira agarrou-se ao formalismo para ignorar a gravidade dos fatos e se manifestar pela nulidade do relatório da PF. Outro caminho constitucional é o do impeachment, pelo Senado. Mas o gesto que amenizaria a crise reputacional seria os membros do STF aceitarem que Moraes tem de ser investigado.

A despeito da seriedade extrema das suspeitas sobre Moraes, o ministro está longe de ser um caso isolado de comportamento escuso. No episódio Master, há fatos sobre Dias Toffoli que mereceriam elucidação e caíram no esquecimento. Situações que suscitam conflitos de interesse, agendas sem transparência e remuneração de palestras são alguns exemplos que demonstram a necessidade de um freio de arrumação que normatize e dê translucidez às condutas. A resistência de boa parte do STF à proposta de um código de ética é autoexplicativa.

A politização da Corte, com a identificação de ministros com alas que disputam o poder no país, também contribui para a erosão da credibilidade. Os acontecimentos dos últimos dias não estão desvinculados da polarização que divide o país. O caso Moraes deveria ser um ponto de inflexão a levar o STF, pilar do Estado de direito e da própria democracia brasileira, ao caminho da reconstrução da confiança. 

03 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A música do mundo

No último dia 25 de agosto, completaram-se 40 anos de lançamento de Graceland. O disco de Paul Simon ganhou o Grammy de melhor álbum, vendeu 16 milhões de cópias mundo afora, atraiu a atenção para a música sul-africana, colocou o cantor e compositor estadunidense em uma turnê planetária de cinco anos e rendeu-lhe a pecha de apropriador cultural. 

A história desse fenômeno e das polêmicas que o acompanham desde 1986 é contada no recém-editado Days of Miracle and Wonder (algo como "Dias de Milagre e Maravilha"), livro escrito pelo jornalista e historiador musical Ashley Kahn, cujo título pega emprestado um verso de The Boy in the Bubble, faixa que abre o disco.

A gênese de Graceland remonta a 1984. Escutando enquanto dirigia uma fita cassete - irônica e premonitoriamente pirata - de Township Jive, a música de rua da África do Sul, o artista empolgou-se: o som remeteu-lhe aos primórdios do rock?n?roll, "muito pra cima, muito alegre, soando familiar e estrangeira ao mesmo tempo". Determinado a conhecer mais a respeito dessas tradições musicais, viajou para Joanesburgo, encontrou-se com dezenas de músicos locais e gravou com eles.

Paul Simon comprou briga já na largada: a colaboração com artistas da África do Sul foi criticada por organizações internacionais, autoridades e músicos por furar boicotes econômicos e culturais ao país, então sob o regime racista do apartheid. Graceland também foi colocado na berlinda artisticamente: muitas vozes condenaram uma suposta vampirização. Kahn lembra em seu livro que Simon foi confrontado por um estudante durante uma conferência em uma universidade: "Como você justifica adonar-se dessa música? Por tempo demais, artistas têm roubado a África. Aconteceu com o jazz".

Lembro do impacto que Graceland causou em mim e nos meus amigos quando saiu há quatro décadas. Na época, a música estrangeira que tocava nas rádios e tevês vinha apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Para escutar qualquer sonoridade diferente, só comprando algum disco importado. Graceland ajudou a difundir a então chamada "world music" - um termo genérico e colonialista que inclui tudo e significa nada -, 

abrindo o mercado para gravadoras voltadas à diversidade sonora como a Luaka Bop, de David Byrne, e a Real World, de Peter Gabriel. Também propiciou iniciativas tipo o Buena Vista Social Club, projeto liderado pelo guitarrista Ry Cooder que tirou do ostracismo veteranos artistas cubanos.

Simon, Byrne, Gabriel, Cooder. Homens brancos do Norte global chancelando a música do mundo. Alguma coisa estava fora da ordem. 

ROGER LERINA

03 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Presidente do STF afirma que é preciso preservar instituição e que ações serão anunciadas "no tempo devido". Fala ocorre um dia após Mendonça ter retirado sigilo de inquérito que expõe mensagens de Vorcaro, ampliando cerco a Moraes

Fachin promete medidas e diz que cargo impõe limites

No dia seguinte à revelação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, disse que anunciará "medidas cabíveis e necessárias", sem especificar um prazo. Ao discursar na abertura de evento sobre direito constitucional, em Brasília, Fachin destacou que adotará ações "no tempo devido e sem precipitação".

- Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito as suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição - afirmou.

Em sua fala, o presidente do STF, sem citar Moraes, avaliou que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional", citando que "circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza".

- A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal. Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias - acrescentou Fachin.

Investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) encontraram mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. As citações ao nome de Moraes foram captadas a partir da quebra de sigilo do celular do banqueiro, alvo da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master. O sigilo do relatório foi retirado na terça-feira.

Conforme a PF, Vorcaro teria conversado diretamente com um contato salvo em nome do ministro. Parte das supostas conversas foi apagada porque o contato usava mensagens de visualização única e as escrevia no bloco de notas, mecanismo que impede a recuperação completa dos dados.

Nas mensagens recuperadas, Vorcaro, antes de ser preso, pediu ao ministro proteção e orientação sobre sair do país. Além disso, o magistrado avaliou o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci, e o Master, ampliando as suspeitas de que o magistrado seria um conselheiro do banqueiro.

Na noite de terça-feira, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade da investigação da PF. Na manifestação enviada à Corte, Gonet disse que o relator do caso, Mendonça, investigou Moraes ilegalmente ao determinar o aprofundamento sobre o Master para esmiuçar as conversas envolvendo o magistrado e o banqueiro.

No entendimento do procurador, isso só poderia ocorrer após autorização do plenário da Corte.Para Gonet, eventual investigação contra Moraes deveria ser direcionada ao presidente da Corte, que levaria o caso ao plenário, e não diretamente para execução da PF.

Gonet também aparece no relatório policial, com arranjo de viagens internacionais custeadas pelo banco. Em março de 2025, por exemplo, Ciro Soares, intermediário de Vorcaro, avisa o banqueiro do pedido do procurador-geral para incluir o filho em uma viagem para a Inglaterra.

Ontem, na primeira sessão plenária no STF após a exposição das mensagens de Vorcaro, nenhum dos envolvidos presentes se manifestou sobre o tema. _

Segundo a Polícia Federal, Vorcaro escrevia a Moraes textos no bloco de notas do celular, tirava prints e os enviava como mensagens de visualização única pelo WhatsApp.

"Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você."

Mensagem de Vorcaro no dia 14 de novembro, antes de estourar a operação contra o Master

"Acha que segunda já tenho que estar fora?"

Questão de Vorcaro a Moraes em 15 de novembro de 2025, antes da prisão, sobre deixar o país

"Não conseguimos reverter isso com Paulo (procurador- geral da República, Paulo Gonet) ou Andrei (Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF)?

No dia 15, Vorcaro indica que precisa de proteção do procurador-geral e do diretor-geral da PF. Na terça, Gonet pediu nulidade da apuração

"Podemos nos ver amanhã rapidamente, algum horário?"

Mensagem encaminhada por Vorcaro no dia 16 de novembro. Ele foi preso no dia 17 no aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país em uma aeronave particular

"Às 14h então. Passo na sua casa ou prefere na minha?"

No mesmo dia 16 de novembro, 20 minutos depois, indicando que o encontro havia sido marcado

Encontros com Vorcaro

Gabinete do ministro André Mendonça confirmou ontem duas reuniões com o banqueiro. Confira as circunstâncias

Semana passada

Vorcaro prestou depoimento em caráter de urgência ao gabinete de Mendonça na semana passada, a pedido da defesa do banqueiro, que relatou que estaria sofrendo "graves intimidações".

Segundo nota do gabinete, o depoimento, conduzido por um juiz auxiliar, ocorreu sem a presença de agentes da Polícia Federal (PF) e teve apenas a participação de representantes do Ministério Público. "Trata-se de ato processual regular", afirmou o comunicado.

O conteúdo do depoimento foi mantido em sigilo. Segundo o gabinete de Mendonça, a relação entre Vorcaro e Moraes não foi mencionada na oitiva.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Vorcaro afirmou no depoimento que quer delatar integrantes do "atual governo" e citar na delação a realização de viagem com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Vorcaro, no entanto, não forneceu detalhes nem indicou provas dessa relação.

Início de 2025

Antes de se tornar relator do caso Master, em fevereiro deste ano, Mendonça admitiu que recebeu Vorcaro em março de 2025.

O encontro durou entre 20 e 30 minutos e foi na sede do instituto educacional que o ministro mantém em São Paulo (SP).

O assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do STF. O caso discutia créditos de precatórios de interesse do Master, mas se encontrava, na data da reunião, sob pedido de vista.

"O ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo", diz a nota divulgada ontem pelo ministro.

"No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro", afirma o comunicado, acrescentando que a atuação do ministro "é pautada pela legalidade e pela impessoalidade".

Procuradoria assina acordo de delação com fundador da gestora Reag

A Procuradoria-Geral da República (PGR) assinou acordo de delação premiada com o fundador da gestora Reag, João Carlos Mansur. Nos depoimentos já prestados e nas informações entregues aos investigadores, Mansur deu novos detalhes sobre os crimes financeiros de Daniel Vorcaro e do Banco Master, além de ter delatado outros personagens envolvidos no esquema.

Trata-se da primeira delação firmada pela PGR dentro das investigações da Operação Compliance Zero. Procurada, a defesa de Mansur não se manifestou.

O acordo de delação já foi enviado pela PGR ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Nos próximos dias, o magistrado deve marcar uma audiência para ouvir o colaborador sobre a espontaneidade de sua colaboração e analisar se o acordo atende aos critérios legais.

Depois disso, o ministro decide se homologa a delação, o que significa aval jurídico para que o acordo possa ser utilizado como meio de prova. Com isso, Mansur se tornaria efetivamente um colaborador. A proposta de delação apresentada por Mansur contemplava ao menos 17 temas diferentes e uma multa de R$ 40 milhões.

O acordo de Mansur torna ainda mais difícil a perspectiva de avançar uma terceira proposta de delação premiada do próprio Vorcaro. O banqueiro mudou sua equipe de defesa para tentar retomar as conversas, mas os investigadores não têm demonstrado interesse no assunto.

Os investigadores consideraram que Mansur entregou detalhes mais inéditos e mais relevantes sobre o caminho dos recursos desviados no esquema do Master. A gestora Reag operou diversos fundos de investimentos usados por Vorcaro para a retirada de recursos do sistema financeiro para seu patrimônio pessoal ou para pagamentos de propina. _

O que ocorre com inquéritos sob Moraes se houver afastamento

O possível afastamento do cargo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pode acarretar numa longa demora para análise dos casos dos quais hoje ele é o encarregado. A análise é de especialistas em direito consultados pela reportagem. É que o regimento interno do STF prevê, para caso de saída definitiva de ministro, que o acervo processual dele seja herdado pelo colega que vier a ser nomeado no seu lugar, explica o advogado criminalista gaúcho Andrei Schmidt.

O afastamento de Moraes é cogitado pelo envolvimento dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso, suspeito de corrupção. O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi contratado, por valores milionários, para atuar na defesa do Banco Master, pertencente a Vorcaro.

O afastamento do ministro do STF poderia ser decidido por seus colegas (em votação interna) ou pelo Senado, que votaria seu impeachment (a perda do cargo). Seja qual for o encaminhamento, a escolha de um novo ministro não é rápida.

Luís Roberto Barroso, por exemplo, se aposentou em outubro do ano passado e até agora não foi substituído. A indicação e a aprovação de um novo integrante do STF seguem pendentes no Senado, por onde passa o crivo dos nomes apontados pelo presidente da República.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha indicado Jorge Messias para a cadeira, mas os senadores recusaram a escolha, o que provocou um impasse.

Há possibilidade, porém, de redistribuir casos urgentes (ou importantes), prevista no artigo 68 do regimento do STF.

- O artigo 68 foi aplicado no caso do Barroso, que se aposentou e a vaga dele segue aberta. Os casos mais urgentes que estavam para análise desse ministro, como uma ação direta de inconstitucionalidade, foram repassados a colegas dele - ilustra Schmidt.

Outros casos aguardam parecer, enquanto o novo ministro não é escolhido.

- Quando o ministro Teori Zavascki morreu, os principais casos dele foram redistribuídos - ilustra outro criminalista, Alexandre Wünderlich.

Entre os casos polêmicos que tramitam hoje com Moraes como relator, está o da tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023 e o inquérito das fake news (que apura notícias falsas, ameaças e ataques contra a Corte, seus ministros e familiares). Os advogados consultados pela reportagem acham provável que esses casos sejam redistribuídos, sem aguardar nomeação de novo ministro para as vagas abertas. 

03 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Os riscos de um Supremo fragilizado

Os críticos passionais do Supremo Tribunal Federal (STF) tendem a enxergar, na crise deflagrada pelas relações suspeitas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, apenas mais um capítulo da mesma história que sempre pregaram: a suposta parcialidade da mais alta Corte do país no episódio do 8 de Janeiro e na responsabilização dos envolvidos na tentativa de ruptura democrática.

Um olhar menos contaminado pelas paixões políticas exige separar as coisas. A atuação de Moraes e do STF na defesa do processo eleitoral de 2022 e na resposta aos ataques às sedes dos Três Poderes foi fundamental para a preservação da democracia em seu momento mais grave desde a redemocratização. E reconhecer isso não significa conceder ao Supremo - e muito menos a qualquer de seus ministros - um salvo-conduto para ações futuras.

Ao contrário. A trajetória recente da Corte acumula episódios que alimentaram a erosão de sua credibilidade: o controverso inquérito das fake news e a concentração de papéis nas mãos do STF desde 2019; decisões de Dias Toffoli relacionadas à Lava-Jato e aos acordos de leniência; questionamentos sobre relações privadas de ministros, viagens e participação em eventos patrocinados; a crescente personalização do tribunal; e, agora, o caso Moraes-Vorcaro. 

São episódios de natureza e gravidade distintas e, portanto, não podem ser colocados no mesmo escaninho. Mas, somados, ajudam a explicar por que uma instituição que depende essencialmente de sua autoridade jurídica e moral precisa levar a sério qualquer sinal de perda de confiança.

A literatura acadêmica e jornalística é pródiga em mostrar como líderes autoritários procuram capturar e instrumentalizar supremas cortes em benefício de seus projetos de poder. Foi assim, em diferentes graus e circunstâncias, na Venezuela de Nicolás Maduro, na Hungria de Viktor Orbán e em outras democracias submetidas a processos de erosão institucional. 

Mas o que acontece quando os mecanismos de controle sobre os próprios integrantes de uma suprema corte se mostram insuficientes? A ameaça à legitimidade de um tribunal não vem só de fora. Ela também pode nascer de dentro.

Apurar as responsabilidades

A despeito do desejo de revanchismo daqueles que jamais aceitaram a atuação do Supremo nos episódios de ataques à democracia, a apuração da responsabilidade dos magistrados no caso Moraes-Vorcaro é necessária - não contra o próprio STF, mas sim na defesa da ideia de suposta parcialidade da Corte.

Se nada houve de irregular, a transparência permitirá demonstrá- lo. Se houver, os mecanismos institucionais precisam ser capazes de identificá-lo e estabelecer responsabilidades. É justamente assim que funciona o sistema de freios e contrapesos: nenhuma autoridade pode estar acima dos controles impostos às demais.

Um Supremo fragilizado interessa sobretudo a quem pretende testar os limites da democracia. Instituições não enfrentam rupturas apenas com os poderes inscritos na Constituição. Precisam também de legitimidade para exercê-los. Arrisco dizer que, no ambiente atual, o STF encontraria muito mais dificuldade para reunir o mesmo respaldo institucional e social diante de uma nova intentona como a de 8 de Janeiro.

O escândalo que agora se apresenta, portanto, é maior do que Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro ou as paixões políticas que cercam ambos. É uma questão republicana. Diz respeito à capacidade do sistema brasileiro de fiscalizar também aqueles encarregados de fiscalizar os demais poderes. _

Relações suspeitas em outras democracias

Quanto maior o poder de um magistrado, maior precisa ser a distância entre suas relações privadas e os interesses submetidos ao sistema de Justiça. Outras democracias já viveram crises envolvendo relações impróprias entre integrantes das mais altas Cortes e pessoas suspeitas. Os casos deflagraram abalos institucionais e levaram à condenação dos magistrados. _

Como será o desfile de 7 de Setembro em Porto Alegre

O tradicional desfile da Independência do Brasil, na segunda-feira, em Porto Alegre, contará com a participação de 6.250 pessoas. Entre elas estão dois ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira: o 2º tenente José Negri e o 2º tenente João da Silva Augustinho, ambos com 104 anos.

O evento, na Avenida Edvaldo Pereira Paiva, terá início às 10h. Além de Marinha, Exército e Aeronáutica, participam a PRF, a PF, a Brigada Militar, o Corpo de Bombeiros Militar, a Polícia Civil, a Polícia Penal, o IGP e a EPTC.

Veteranos das Forças Armadas e representantes de entidades civis também irão desfilar, assim como alunos do Colégio Militar de Porto Alegre, do Colégio Tiradentes e outros de escolas civis.

O desfile motorizado terá aproximadamente 250 veículos, incluindo motocicletas, viaturas e blindados das Forças Armadas, além de automóveis dos órgãos de segurança pública. Em torno de 350 cavalos comporão a tropa hipomóvel, que encerrará o evento.

A apresentação aérea contará com dois caças e três helicópteros da Força Aérea, além de aeronaves da PRF, da Brigada Militar e da Polícia Civil, que farão sobrevoos durante a solenidade. Ao fim do desfile, o Fogo Simbólico da Pátria será transformado em Chama Crioula. A cerimônia será conduzida até o Acampamento Farroupilha da Capital. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

02 de Setembro de 2026
MÁRIO CORSO

"A Indústria do Sono"

A insônia, esse mal silencioso que corrói a saúde física e mental, tornou-se um dos grandes negócios do século 21. A "Indústria do Sono" cresce vendendo a promessa de noites tranquilas em forma de colchões tecnológicos, aplicativos de meditação e diversas pílulas. Mas, como aponta o psicanalista Darian Leader em Why Can?t We Sleep?, o problema talvez não esteja no seu travesseiro, mas no mundo que o mantém acordado.

Ao andar por qualquer avenida, é impossível ignorar a profusão de lojas de colchões. Elas se multiplicam como farmácias e, não por acaso, vendem uma ideia semelhante: a de que o seu sofrimento é solucionável por um produto. Você não dorme mal porque está ansioso, sobrecarregado ou vivendo numa sociedade que exige produtividade constante, você dorme mal porque ainda não comprou o colchão certo.

Leader nos lembra que o mau sono é pintado como um assassino silencioso. Está associado a doenças cardíacas, obesidade, depressão e demência. Essa medicalização do sono cumpre uma função precisa: transformar um sintoma social em um problema individual. Se você não dorme, a culpa é sua, da sua falta de disciplina, da sua higiene do sono falha. Nunca da jornada de trabalho extenuante, da luz azul dos dispositivos que nos mantêm conectados ao trabalho 24 horas por dia, ou da ansiedade generalizada de viver numa economia instável.

Antes da revolução industrial, o tempo era algo que passava, um rio no qual se navegava. Hoje, o tempo é algo que se gasta, um recurso que se esgota. Cada minuto acordado à noite é vivido como falha. Não sabemos mais o que fazer com a vigília noturna, exceto temê-la. O silêncio da madrugada antes era um convite à reflexão. Tornou-se um vazio a ser preenchido com telas, rolagens infinitas e a culpa de não estar dormindo.

O sono não é um problema individual, é um sintoma social. Enquanto vivermos numa sociedade que glorifica a produtividade até a exaustão, que apaga as fronteiras entre trabalho e descanso, que monetiza cada hora do dia e que mede o valor humano pela sua utilidade, a insônia continuará sendo a epidemia silenciosa que ninguém pode curar, porque curá-la exigiria questionar as estruturas que nos mantêm acordados. 

MÁRIO CORSO

02 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Investigar Moraes é obrigação

Chegou a hora de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ser pela primeira vez formalmente investigado no exercício do cargo. As novas revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, são de extrema gravidade. Tornam obrigatório que se apurem as suspeitas de interferência do ministro para frear as investigações sobre as fraudes do banco e o cerco a Vorcaro, hoje preso. 

Mensagens extraídas do celular do banqueiro divulgadas ontem dão margem à conclusão de que Moraes informava o dono do Master sobre a preparação da Operação Compliance Zero. A situação do ministro se complica com a descoberta de que ele editou o contrato de R$ 130 milhões do banco com sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.

São indícios alarmantes demais para serem relativizados ou esquecidos com o passar do tempo. Integrantes do Supremo só podem ser investigados com a autorização do plenário. O corporativismo seria desmoralizador. A seriedade do momento exige que a Corte se mostre leal em primeiro lugar ao princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, base da ordem jurídica e da democracia. A Constituição prevê o rito. 

Que se cumpra, sob pena da definitiva perda da confiança da sociedade no STF, instituição que deve ser esteio da República. E investigar, deve-se ressaltar, não significa condenação prévia. Prevê ampla defesa, o que aliás Moraes poderia fazer com maior dignidade afastando-se do cargo.

São estarrecedoras as mensagens em que Vorcaro pede para o magistrado intervir junto ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em outro momento dos diálogos, pergunta a Moraes se ele "acha que segunda já tenho que estar fora?", referindo-se à data em que acabou preso pela primeira vez, a noite de 17 de novembro de 2025, em Guarulhos, quando estava prestes a tomar um voo para Dubai, possivelmente em fuga.

Moraes e Vorcaro trocavam mensagens de visualização única, passadas após capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular. Assim, os investigadores recuperaram apenas o que foi enviado pelo banqueiro. O estratagema é indício de que a conversa continha imoralidades, se não crimes, como advocacia administrativa por parte de Moraes. O ministro deve essa explicação aos brasileiros.

Gonet e Rodrigues, da mesma forma, precisam se manifestar e esclarecer se receberam algum pedido de Moraes e, em caso de resposta positiva, como procederam. Gonet também teria a prerrogativa e até o dever de pedir a abertura de inquérito, mas as citações a ele no material coletado pela PF na investigação sob relatoria do ministro André Mendonça tornam a sua situação no caso confusa. Ontem à noite, Gonet pediu a nulidade do relatório da PF.

O turbilhão de informações surgido nesta terça-feira forma mais um capítulo revelador da teia de influências e de favorecimentos que Vorcaro teceu para se proteger, enquanto perpetrava a maior fraude financeira da história do país. Soube-se também ontem, por reportagem da revista Piauí, que o banqueiro fez ao menos mais um repasse, até então desconhecido, de US$ 1,6 milhão para o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro é investigado no caso. O escândalo do Master atinge figurões de todos os poderes e matizes ideológicas. É preciso passar a limpo a conduta de todos os envolvidos, sem seletividade, e não admitir que essa abrangência ecumênica contribua para um acordão pela impunidade. 

02 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Fim da linha para Alexandre de Moraes no Supremo

Já não é mais uma questão de pedido de licença. O ministro Alexandre de Moraes perdeu as condições para continuar no Supremo Tribunal Federal. Só a renúncia evitará que seja submetido a um processo de impeachment no Senado, fazendo sangrar a instituição que integra desde 2017, quando foi indicado pelo então presidente Michel Temer para substituir o saudoso Teori Zavascki. Xandão chegou ao fim da linha, e nem a proteção dos senadores amigos pode salvá-lo da desonra.

A avalanche produzida pela derrubada do sigilo do inquérito do Banco Master pôs a nu a natureza das relações do ministro com o banqueiro falido e ampliou as proporções do escândalo que abala a Suprema Corte desde que Dias Toffoli tentou barrar as investigações.

Das mensagens extraídas dos celulares de Vorcaro, fica subentendido que Moraes atuou como consultor de um bandido que lesou o Fundo Garantidor de Crédito e pessoas físicas e jurídicas que puseram suas economias no Master. Se estava sendo pago ou agiu por amizade, a investigação que inevitavelmente o STF terá de autorizar vai dizer.

São consistentes os indícios de que era o ministro o verdadeiro contratado por Vorcaro por R$ 131 milhões e não sua esposa, Viviane Barci de Moraes, que responde pelo escritório da família. Foi do computador dele que saiu a última versão da minuta encaminhada a Vorcaro para ser assinada pelo banqueiro e por Viviane.

A justificativa do escritório, de que foi uma medida corriqueira, para que o ministro avaliasse eventual conflito de interesse, não cola. Como não haver conflito de interesse na contratação da esposa do ministro por um banco privado que se relaciona com entes públicos?

O contrato, desde que revelado pela jornalista Malu Gaspar, sempre despertou suspeitas de que havia boi na linha. Não era preço de serviços advocatícios de uma advogada sem currículo para tantos milhões. Advogados experientes diziam que o valor milionário no contrato só era compatível com serviços de consultoria.

Eis a palavra mágica. As mensagens resgatadas pela Polícia Federal sugerem que Moraes era consultor de Vorcaro. E que foi consultado sobre a conveniência de o banqueiro fugir antes de ser preso. Se isso não é obstrução de Justiça, o que seria? Está claro que Vorcaro tinha informantes infiltrados em diferentes instituições e sabia previamente do que pesava contra ele. Foi preso no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para fugir.

Não se sabe que tipo de conselho o banqueiro recebeu de Moraes, pois suas respostas aos apelos e consultas foram dadas em mensagens de visualização única, que vão pelos ares depois de lidas. Como as câmeras corporais usadas por policiais, as mensagens poderiam livrar Moraes das suspeitas - ou incriminá-lo. Sem elas, fica a dúvida. E mesmo que o Direito consagre a expressão in dubio pro reo, um ministro do Supremo não pode seguir no cargo com uma suspeita tão grave nas costas.

O mesmo Xandão que ganhou admiradores pela firmeza com que conduziu o processo dos acusados pela tentativa de golpe em 2022 produziu uma crise institucional sem precedentes. O Supremo, que está com 10 ministros desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, poderá ficar com nove nos próximos dias - ou menos, se a crise arrastar outro colega para o lodo. 

Na Expointer, Augusto Cury fala sobre crescimento nas pesquisas

O candidato do Avante à Presidência da República, Augusto Cury, visitou ontem a Expointer, em Esteio. Afirmou que os produtores enfrentam dificuldades financeiras e criticou a falta de conhecimento de parte da classe política sobre a realidade do campo.

A visita ocorreu um dia após duas pesquisas apontarem seu crescimento na disputa. No BTG/Nexus, ele chegou a 11% das intenções de voto, alta de nove pontos, e ficou em terceiro lugar, atrás de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na AtlasIntel, passou de 1,6% para 7,8%. Cury atribui a alta a um cansaço do eleitorado com a polarização. 

Toffoli libera campanha digital de Renan Santos à Presidência

O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revogou ontem a decisão de suspender a campanha digital de Renan Santos, candidato a presidente da República pelo Missão. Em nova decisão, ele liberou a realização de propaganda eleitoral da chapa em endereços eletrônicos e redes sociais que já estejam registradas na Justiça Eleitoral.

Toffoli também liberou repasses de recursos do fundo eleitoral para a candidatura e a realização de gastos com os eventuais recursos já repassados. Renan também poderá participar de debates. Por fim, Toffoli concedeu prazo adicional de 72 horas para que o candidato informe a data de criação de cada perfil e de início de utilização deles para fins de propaganda eleitoral. _

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) faz hoje a primeira visita ao RS da campanha. Vai à Expointer, em Esteio, almoça com lideranças do agro, faz fotos com candidatos e segue para comício no Parcão, na Capital

POLÍTICA E PODER

02 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Os desempenhos da agropecuária e da indústria extrativa contribuíram para o resultado positivo, informou ontem o IBGE. Os investimentos e o consumo do governo também avançaram. Por outro lado, o consumo das famílias teve recuo, impactado pela taxa básica de juro em patamar elevado e pelo endividamento das empresas e das pessoas físicas

PIB do Brasil desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre

O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, frente ao período imediatamente anterior. O resultado, que corresponde a R$ 3,4 trilhões, foi divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado representa uma desaceleração em relação ao primeiro trimestre, quando havia subido 1,1%. No acumulado de quatro trimestres, o PIB nacional teve expansão de 1,9%.

O crescimento no segundo trimestre foi puxado pelo setor da agropecuária, seguido de serviços e indústria. Ao mesmo tempo, também chamou a atenção o recuo no consumo das famílias. De acordo com a agência de classificação de risco Austin Rating, o Brasil teve o quinto melhor desempenho no segundo trimestre dentro de um ranking de crescimento considerando as informações de 50 países.

- O crescimento da agropecuária foi o principal destaque do trimestre. Os serviços e a indústria também cresceram, mas em ritmo mais moderado - afirmou o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes.

Impacto da Selic

O principal motivo da desaceleração da economia brasileira é o patamar elevado da taxa básica de juros (Selic) - atualmente em 14% ao ano - por um longo período. Os juros altos, além de afetarem o investimento das companhias e encarecerem o consumo das famílias, têm levado a um endividamento das empresas e das pessoas físicas.

O PIB pode ser calculado pela ótica da produção (análise do desempenho das atividades econômicas) ou do consumo (gastos e investimentos). Pela ótica da produção, a agropecuária foi destaque, com variação positiva de 2,8% na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Em 12 meses, a alta chega a 6,2%.

A indústria variou positivamente 0,1% do primeiro para o segundo trimestre e 1,4% em 12 meses. Dentro da indústria, o principal motor foi a indústria extrativa, que saltou 3,4% entre os trimestres seguidos.

Variação nos serviços

O setor de serviços, que mais emprega na economia, cresceu 0,2% entre os trimestres seguidos e 1,7% no acumulado de 12 meses.

Detalhando os dados do setor, os segmentos de serviços que mais cresceram foram informação e comunicação (2,1%), transporte, armazenagem e correio (1,1%) e atividades imobiliárias (0,2%). O comércio ficou estável, ou seja, variação nula (0%).

Houve variação negativa no segmento administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (-0,4%) e em atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (-0,3%).

Pela ótica da demanda, o consumo do governo subiu 0,4%, enquanto o das famílias recuou (-0,4%). No setor externo, as exportações caíram (-0,8%), e as importações subiram 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2026. A formação bruta de capital fixo, indicador que representa os investimentos, cresceu 1,2% no trimestre.

O PIB é o conjunto de todos os bens e serviços produzidos em uma localidade em determinado período. Com o dado, é possível traçar o comportamento da economia do país, Estado ou cidade, assim como fazer comparações internacionais. O PIB ajuda a compreender a realidade de um país, mas não expressa fatores como distribuição de renda e condição de vida. É possível, por exemplo, um país ter PIB alto e padrão de vida relativamente baixo, assim como pode haver nação com PIB baixo e altíssima qualidade de vida. _

Os dados

Principais índices do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2026 em relação ao primeiro trimestre deste ano

Agropecuária +2,8%

Serviços +0,2%

Indústria +0,1%

Consumo do governo +0,4%

Consumo das famílias -0,4%

Investimentos +1,2%

Exportações -0,8%

Importações +1,8%

Evolução do PIB nos últimos trimestres em relação ao período imediatamente anterior

1º trim./2024 0,7%

2º trim. 1,7%

3º trim. 0,9%

4º trim. 0,1%

1º trim./2025 1,3%

2º trim. 0,4%

3º trim. 0,1%

4º trim. 0,2%

1º trim./2026 1,1%

2º trim. 0,5%

Fonte: IBGE

Emater estima safra de verão maior no RS - Caroline Souza

A produção gaúcha de grãos deve chegar a 35,6 milhões de toneladas na safra de verão 2026/2027, conforme estimativa da Emater apresentada ontem, durante a 49ª Expointer, em Esteio. O volume representa alta de 8,6% em relação ao ciclo anterior, quando foram colhidas 32,8 milhões de toneladas.

A soja, principal cultura da agricultura gaúcha, deve responder por 21,15 milhões de toneladas da produção, o que representaria alta de 15,3% em relação à safra passada, quando foram colhidas 18,34 milhões de toneladas. A recuperação ocorre mesmo com redução de 0,9% na área plantada, que deve passar de 6,7 milhões para 6,65 milhões de hectares.

No conjunto das quatro principais culturas consideradas pela Emater (soja, milho, arroz e feijão 1ª safra), a área plantada deve permanecer praticamente estável, com redução de 0,37%, de 8,46 milhões para 8,43 milhões de hectares. A expectativa de aumento da produção, portanto, está relacionada principalmente à perspectiva de melhores resultados por hectare.

O milho aparece como outro destaque positivo. A área plantada deve chegar a 896,4 mil hectares, alta de 7,4% em relação aos 834,4 mil hectares do ciclo anterior. A produção projetada é de 6,91 milhões de toneladas, crescimento de 7,2%.

No arroz, por outro lado, a Emater projeta redução tanto na área quanto na produção. O cultivo deve ocupar 861,8 mil hectares, queda de 3,4%, enquanto a colheita estimada é de 7,53 milhões de toneladas, 5,5% abaixo do ciclo anterior. A primeira safra de feijão também deve ter redução na área plantada, de 6,4%, para 24,6 mil hectares. Mesmo assim, a produção deve crescer 1,2%, para 43,2 mil toneladas.

Segundo Mateus Soares da Rocha, diretor técnico da Emater/RS e superintendente técnico da Ascar, a projeção atual reflete um ciclo positivo.

- Estamos entrando numa terceira safra favorável, o que é muito positivo para o caminho da autossuficiência do Rio Grande do Sul. Na soja, temos diminuição de área, mas aumento de produtividade. O cenário do El Niño nos preocupa, mas traz a vantagem da disponibilidade hídrica. Apesar disso, ele nos traz a necessidade de pensarmos no manejo de solo e de água na propriedade. Ter um solo adequado e preparado é essencial para qualquer cultura - avaliou Rocha. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

01 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Uma trilha sonora diferente.

Quem se forma conta com o direito de escolher uma música de sua preferência, que ocupará o fundo sonoro para a entrega do capelo e do diploma e para os cumprimentos da Reitoria.

A melodia e a letra ocupam o lugar do discurso e dos ideais; produzem o efeito contagiante de transmitir uma mensagem, de realizar um protesto, de marcar a noite com um grito de insubordinação ou de ovação.

Vale tudo: hinos de clubes, gospel, samba, rock, MPB, pagode. É aquilo que faz a cabeça do universitário que dedicou anos ao estudo de uma área, embalando a gravação de seu ponto de partida profissional.

Unicamente os oradores se pronunciam pela turma no microfone. Então, cada um se expressa pelo seu hit favorito. Uma formanda da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 8/8, inovou na escolha da trilha para o instante em que seu nome fosse anunciado na colação de grau.

Não sei como ninguém pensou nisso, mas Manoela, 23 anos, natural de Tupanciretã, alcançou um insight da mais pura sensibilidade e gratidão. Com seu gesto, mudou a tradição para sempre.

Em vez de optar por uma canção famosa, reuniu áudios de WhatsApp de seus familiares. As palavras cotidianas, cheias de sotaque e do calor do cuidado, ditas espontaneamente e enviadas no dia a dia, ilustraram a jornada de Manoela para receber o canudo de Zootecnia.

"Mimosa do vovô" "Coisa mais linda" "O coração não cabe no peito" O timbre não deixa de ser a mais íntima fotografia, porque devolve a presença: contém respiração, humor, carinho.

Transformou a rotina mais banal no acervo de sua conquista. Há quem acelere as conversas em 1,5x ou 2x; a jovem imortalizou-as na lentidão inesquecível da saudade, contemplando a retaguarda do vestibular, das avaliações, do cansaço, do medo de reprovação, do estágio, das contas, das viagens diárias, das madrugadas sem dormir.

Na seleta, reuniu seis vozes de seu repertório de apoio. A montagem começa com sua mãe e, em seguida, traz as falas do pai, das avós, do avô paterno e do irmão.

Um dos trechos mais marcantes e pessoais é da avó Fátima: "vem dormir uma noite aqui para coçar tuas costas". - Desde a minha infância, ela coça as minhas costas. É o nosso código de visita. Tenho um apego a esse ato de proteção - explica Manoela.

As palmas e os assobios da plateia foram substituídos pelo silêncio da comoção. Lágrimas selaram os rostos, pois o que era para ser um momento exclusivo de uma só aluna serviu para todos.

Antes de uma profissão, Manoela já tinha uma torcida. Ela não subiu sozinha ao palco. Levou consigo os apelos que a ajudaram a chegar até ali: os degraus da sua motivação. Incluiu implicitamente, no seu documento afetivo, as caronas, os telefonemas, o dinheirinho para os livros, a comida pronta, o incentivo, as preocupações, o "como foi a prova?", o "vai dar certo".

Nenhum artista seria capaz de traduzir melhor quem ela é do que aqueles que a chamam pelo apelido.

Ela aplaudiu a família sem esperar pelo próprio aplauso. Por fim, encontrou um jeito de diplomar a família inteira junto. Ao atingir seu destino, reverenciou sua origem. Nossas raízes são nossas asas. _

CARPINEJAR

 

01 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Açodamento eleitoreiro

O esforço concentrado do Congresso nesta semana, com uma série de sessões e votações sobre temas relevantes e de interesse do governo, prevê para amanhã a apreciação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Ávido pelos ganhos eleitorais prometidos pela pauta, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pressiona para que o texto seja votado ainda nesta semana pelo plenário da Casa. A matéria foi aprovada em maio pela Câmara. O relator no Senado, Omar Aziz (PSD-AM), manteve o mesmo conteúdo e rejeitou emendas para evitar a possibilidade de a PEC ter de ser reanalisada pelos deputados federais.

Apesar do propósito meritório, a redução da jornada de trabalho, da forma como está indicada na PEC, pode ter um impacto significativo na economia e na saúde de empresas intensivas em mão de obra. Trata-se de um tema que, pelas repercussões na competitividade e na sustentabilidade financeira das companhias, deveria ser discutido com mais cautela, com base em evidências, amplo diálogo com todas as partes interessadas e análise aprofundada das peculiaridades setoriais.

O que está proposto é que, no calor eleitoral, o Senado, a Casa revisora da República, apenas carimbe o texto aprovado na Câmara. O açodamento avilta o processo legislativo e impede uma discussão responsável, imprescindível para uma matéria de tamanha importância. O racional seria retomar o debate após o pleito de outubro, evitando-se a tendência natural do período de aprovar bondades sem medir as consequências.

A PEC propõe reduzir a carga horária máxima de trabalho semanal de 44 para 40 horas, sem redução de salário. Também garante dois dias de repouso remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos. O período de transição previsto é de 14 meses, considerado curto por diversos setores.

É fundada a reivindicação de trabalhadores por mais tempo para a convivência com a família, para o lazer e para a qualificação, com reflexos na qualidade de vida e na aquisição de conhecimento e competências. O perigo está em apressar esse passo, ignorando-se as condições necessárias para ser uma mudança sustentável. No Brasil, o custo de empregar está entre os mais elevados do mundo e a produtividade do trabalho não cresce de forma aceitável há décadas, ao contrário de outros países onde as jornadas foram reduzidas. A discussão sobre uma menor carga laboral deveria ser acompanhada pela busca por formas de reduzir encargos e de elevar a produtividade.

O risco, portanto, é o de um grande número de empresas não conseguir absorver esses custos. Uma saída será repassar gastos adicionais com mão de obra ao consumidor, provocando inflação. Não se descarta também o aumento da informalidade como reflexo. Outras empresas - e as vagas que geram - poderão ficar inviabilizadas pela pressão extra, em meio a um ambiente de alto endividamento e de sufoco provocado pelo juro extorsivo, cenário que já tem levado a uma onda de recuperações judiciais. O momento exigiria maior responsabilidade e contenção do ímpeto eleitoreiro. 

OPINIÃO RBS


01 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Como se explica a ascensão de Cury

Com a ressalva de que pesquisas precisam ser analisadas com cautela, especialmente neste ano em que novas formas de coleta de dados estão sendo usadas, é preciso reconhecer que há uma novidade no cenário eleitoral. É a ascensão do médico, escritor e palestrante Augusto Cury, do minúsculo Avante, um partido de escassa capilaridade no Brasil. Divulgadas ontem, as pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus mostram que Cury produziu um pequeno furo na bolha da polarização.

Antes de AtlasIntel e BTG/Nexus detectarem o crescimento de Cury nas intenções de voto, seu nome começou a aparecer em diferentes bolhas da internet - de empresários a jovens que se perguntavam "quem é esse cara do qual está todo mundo falando?". Todo mundo é um exagero, naturalmente, mas na semana passada Cury foi quem mais ganhou seguidores no Instagram, atrás apenas do perfil da cantora country Dolly Parton, que morreu no dia 25 de agosto.

O que dizem as pesquisas? A do BTG/Nexus coloca Cury com 11% das intenções de voto, salto de nove pontos em relação ao levantamento anterior. Na mesma sondagem, o presidente Lula caiu de 41% para 39% (dentro da margem de erro) e Flávio Bolsonaro perdeu quatro pontos (de 37% para 33%). Ronaldo Caiado (PSD) se manteve nos 5%, assim como Renan Santos (Missão) em 3%. Romeu Zema caiu de 3% para 1% e o resto ficou abaixo de 1%.

Na AtlasIntel, Lula tem 43,4%, Flávio, 33,7%, e Cury subiu para o terceiro lugar com 7,8%, empatado com Renan (7,6%). Caiado e Zema ficaram para trás.

Como explicar a ascensão de Cury? Não dá para atribuir à entrevista ao Jornal Nacional, feita na noite de sábado, quando a maioria das entrevistas já tinha sido feita. Mais provável que quedas de Lula e Flávio tenham relação com a entrevista.

A audiência do debate da Band (baixa) também é insuficiente para explicar o salto, se ele realmente ocorreu. A hipótese mais provável é subjetiva: parte dos brasileiros incomodados com a polarização entre Lula e Flávio encontrou um outsider para chamar de seu.

Mestre na autoajuda

Cury vive da palavra. É mestre na autoajuda. Natural, portanto, que consiga encantar plateias desencantadas com a política, mesmo que suas propostas sejam superficiais e, em alguns casos, flertem com a fantasia, como se viu no Jornal Nacional.

Falta pouco mais de um mês para a eleição. Lula e Flávio vão continuar se atacando - e o presidente sendo atacado por todos. As duas campanhas terão de encontrar uma estratégia para lidar com Cury, levando em conta a tradição de uma parte significativa do eleitorado brasileiro de votar no improvável, desde que diga o que ele quer ouvir. Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. _

Compromisso firmado com agendas ligadas às mulheres

No último dia de agosto, mês usado para conscientização e combate da violência doméstica, um trio de mulheres firmou 15 compromissos com os candidatos Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD). Valéria Leopoldino, primeira-dama de Porto Alegre e uma das coordenadoras da campanha, Talise Tiecher e Alessandra Polo - esposas de Gabriel e Polo - comandaram o ato ontem, no comitê central da campanha.

Junto de representantes das 59 candidatas da coligação, sendo 30 que concorrem a deputada estadual e 29 a federal, as mulheres apresentaram um documento que sintetiza ações voltadas ao eleitorado feminino em diversos setores.

O texto, assinado por todas elas, reforça medidas que integram o plano de governo da chapa, ligadas ao mercado de trabalho, qualificação profissional, independência econômica, saúde, proteção e acolhimento às vítimas de violência doméstica.

O movimento é uma tentativa de aproximar a chapa majoritária emedebista das mulheres, já que não inclui mulheres concorrendo. A ideia é fazer com que as candidatas a deputada divulguem as propostas do plano de governo de Gabriel para combate aos feminicídios e proteção das mulheres, além de incentivar as candidaturas femininas. _

Teste de popularidade

A visita de Augusto Cury à Expointer, em Esteio, hoje, será um teste de popularidade para quem deu um salto nas pesquisas. Cury chegou a anunciar que iria à Expointer ontem, mas acabou mudando a agenda e limitando as atividades do dia a um comício em Cachoeirinha, cidade administrada pelo Avante. Cury chega ao parque Assis Brasil pouco depois das 10h. 

Dono de várias fazendas, o candidato vai disputar a simpatia dos produtores gaúchos com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que tem agenda confirmada para o dia seguinte. _

Prevenção ao feminicídio

Há um Espaço Lilás no Pavilhão da Agricultura Familiar da Expointer. Mais do que uma área física, é um espaço de reflexão sobre violência de gênero e orientação para as mulheres se prevenirem de relacionamentos abusivos. A iniciativa é da Secretaria da Mulher, em trabalho conjunto com a Emater e a Secretaria de Desenvolvimento Rural. Todos os dias, a partir das 10h, começa uma roda de conversa sobre prevenção e enfrentamento da violência de gênero. Com duração de uma hora e meia, os encontros abertos a quem quiser participar têm formato participativo, com dinâmicas de grupo, reflexão coletiva e orientação sobre a rede de proteção. _

Marjorie assume cargo no Sebrae-RS

Com o voto das 14 entidades que participaram da reunião do conselho, ontem, pelo Sistema Fecomércio-RS, a engenheira florestal Marjorie Kauffmann foi eleita por unanimidade nova diretora superintendente do Sebrae-RS, cargo que ocupará até meados de 2027. Ela completará o mandato de Joel Vieira Dadda e, depois, passará por nova eleição para continuar. Marjorie deixou a Secretaria do Meio Ambiente na semana passada. 

POLÍTICA E PODER

01 de Setembro de 2026
EM FOCO

Em foco

Rio Grande do Sul é o quinto com mais reclamações no país no período de 15 dias de campanha oficial. Até agora, foram 640. Nesse ritmo, volume poderá igualar quantidade constatada no pleito de 2022. Tipo de infração mais comum é nas vias públicas, seguida de abuso na internet

De olho na propaganda eleitoral irregular

Humberto Trezzi

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. Ao longo dessas duas semanas, a Justiça Eleitoral já recebeu 640 queixas de propaganda irregular no Rio Grande do Sul. Ao ritmo atual, o volume de suspeitas apontadas pode igualar o de 2022, último pleito de alcance federal, quando foram registradas 3.053 denúncias nos dois meses anteriores à eleição. O levantamento é do aplicativo Pardal.

Trata-se da ferramenta de recebimento de denúncias desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O canal foi criado para ações rápidas que façam cessar a irregularidade, explica o coordenador de assessoramento eleitoral do Ministério Público do Rio Grande do Sul, promotor de Justiça Rodrigo López Zilio.

- A ideia é que a denúncia parta do cidadão comum, para que o juiz tome uma medida de caráter administrativo, fazendo cessar a ilegalidade. Ela não tem contraditório, apenas manda parar o ilícito - explica Zilio.

A punição mais comum é a retirada imediata da propaganda. Existe um outro tipo de denúncia, menos frequente e mais elaborada, que se chama representação. É uma ação (geralmente, impetrada pelo MP), com direito a contraditório e ampla defesa, ajuizada e que pode resultar em multa de R$ 5 mil a R$ 25 mil. Em casos graves e de reiteração, pode levar à cassação do registro do candidato ou do eleito (se já diplomado).

Inteligência artificial

A legislação proíbe propagandas em bens públicos e de uso comum (inclusive parques e jardins), em outdoors e por meio de amplificadores de som nas proximidades de tribunais, quartéis, hospitais, entre outros locais públicos. O uso de inteligência artificial na internet deve ser mencionado pelo político.

As 640 queixas ocorreram em 80 municípios gaúchos. Mais da metade delas, 387, por propaganda ilegal em vias públicas. A seguir vêm irregularidades na internet (45), em bens públicos (41) e outdoors ilegais, inclusive eletrônicos (39). Os carros de som continuam perturbando e somam 31 relatos até agora.

O desembargador Luciano Losekan, presidente da Comissão de Combate à Desinformação do TRE-RS, saúda a chegada do sistema Pardal.

Ele lembra que todos os cidadãos têm um computador em mãos, que é o celular. Até por isso, foi montado um aplicativo que permite gravação de voz e envio de fotos para as autoridades.

- O que mais nos preocupa nas queixas é a questão das deepfakes (montagens pela internet) e o uso de inteligência artificial sem mencionar essa ferramenta (o que é exigido por lei). Felizmente, ainda não é a irregularidade mais comum, que continua sendo a das propagandas em vias públicas e outdoors - afirma Losekan.

Por cargos

A maioria das denúncias, 260, se refere a propagandas para deputado estadual. Outras 233, para deputado federal. As demais, distribuídas entre senador, governador e partidos, com apenas quatro referentes a candidatos a presidente da República.

Os municípios que registram mais queixas até o momento são Porto Alegre (204), Passo Fundo (30) e Pelotas (30). Tanto o promotor Zilio como o desembargador Losekan acreditam que o uso do aplicativo Pardal pode estar mais popularizado, o que facilita o aumento no número de queixas apresentadas.

No Brasil, foram registradas até a manhã de ontem 8.706 denúncias de irregularidades. O RS é o quinto colocado no ranking dos Estados com mais queixas protocoladas - embora seja o sexto em população. Perde em registros de suspeitas eleitorais para São Paulo (1.650), Bahia (1.067), Pernambuco (698) e Minas Gerais (661). _

Acordo para combater as manipulações digitais

Paulo Rocha

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) e o Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4) firmaram na sexta-feira acordo de cooperação voltado ao combate à manipulação digital nas eleições. A parceria, já editada em pleitos anteriores, possibilita que peritos do TRT4 façam exames especializados em processos eleitorais que envolvam ilícitos digitais.

Entre as apurações que poderão ser feitas, estão a verificação de adulteração de fotos, vídeos, áudios e documentos, a identificação de conteúdo gerado ou alterado por inteligência artificial (IA) e a análise de deepfakes e clonagem de voz.

- Recentemente, 200 servidores da Justiça Eleitoral participaram de um curso com o nosso setor de perícia digital porque, no período de eleições, se utiliza muito as redes sociais e há possibilidade das deepfakes. Esse ensinamento vai permitir que se possa verificar dentro dos processos que correm na Justiça Eleitoral se houve o cometimento de um ilícito ou não - destaca o desembargador Alexandre Corrêa da Cruz, presidente do TRT4.

Pelo acordo, os peritos do TRT4 farão apenas análise técnica, sem poder de decisão sobre questões eleitorais e de fiscalização de redes sociais. Os juízes eleitorais seguirão responsáveis pelos processos e decisões finais.

Recente levantamento do Tribunal Superior do Trabalho revelou que cinco Estados concentram o maior volume de ações de assédio eleitoral no trabalho. O estudo se debruçou sobre 738 processos ajuizados entre maio de 2023 e dezembro de 2025. São Paulo lidera, com cerca de 17,5% das ações. Em seguida vêm Paraná (14,6%) e Rio Grande do Sul (10,5%). Para o TRE-RS, o avanço de casos é motivo de preocupação.

- Até mesmo em função da facilidade da mídia, de meios de comunicação como o WhatsApp, esse tipo de ameaça é cada vez mais comum, mas esperamos que isso ocorra o mínimo possível - afirma a desembargadora Maria de Lourdes Galvão Braccini de Gonzalez, presidente do TRE-RS.