segunda-feira, 11 de maio de 2026

 Bolsas da Ásia fecham majoritariamente em alta, com recorde em Seul, apesar do impasse EUA-Irã

Na contramão, o japonês Nikkei caiu 0,47% em Tóquio, a 62.417,88 pontos, pressionado por ações de tecnologia

Na contramão, o japonês Nikkei caiu 0,47% em Tóquio, a 62.417,88 pontos, pressionado por ações de tecnologia

Arte/Jc

Agências
As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em alta nesta segunda-feira, com novo recorde em Seul, apesar do persistente impasse nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. O índice sul-coreano Kospi saltou 4,32% em Seul, para o patamar inédito de 7.822,24 pontos, à medida que ações de chips e de robótica avançaram em meio ao entusiasmo com a forte expansão da inteligência artificial (IA).
Em outras partes da Ásia, o Hang Seng teve ganho marginal de 0,05% em Hong Kong, a 26.406,84 pontos, e o Taiex subiu 0,45% em Taiwan, a 41.790,06 pontos.
Na China continental, o Xangai Composto avançou 1,08%, a 4.225,02 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto registrou alta de 1,62%, a 2.922,37 pontos, após dados locais de inflação e de exportações mais fortes do que o esperado.
Na contramão, o japonês Nikkei caiu 0,47% em Tóquio, a 62.417,88 pontos, pressionado por ações de tecnologia. As tensões entre EUA e Irã seguem no radar. O presidente americano, Donald Trump, classificou ontem como "totalmente inaceitável" a resposta do Irã a uma proposta de paz elaborada por Washington. O entrave impulsiona os preços do petróleo pela segunda sessão consecutiva.
Na Oceania, a bolsa australiana encerrou o pregão em baixa: o S&P/ASX 200 recuou 0,49% em Sydney, a 8.701,80 pontos.

Casas centenárias no bairro Farroupilha abrigarão novo complexo da Fábrica de Gaiteiros

Projeto de vida do músico Renato Borghetti, iniciativa oferecerá ensino gratuito de gaita para crianças e contará com teatro para apresentações à comunidade

Projeto de vida do músico Renato Borghetti, iniciativa oferecerá ensino gratuito de gaita para crianças e contará com teatro para apresentações à comunidade

TÂNIA MEINERZ/JC

Adriana Lampert
Adriana LampertRepórterA Fábrica de Gaiteiros, projeto idealizado pelo músico Renato Borghetti há pouco mais de 15 anos, está com obras em andamento para estabelecer sua nova sede em Porto Alegre. O novo complexo cultural ocupará duas casas geminadas centenárias nos números 156 e 158 da rua Vieira de Castro, no bairro Farroupilha. A escolha do local possui um caráter emblemático para o acordeonista, que residiu em dois endereços na mesma via e destaca a relevância histórica da região. Segundo o músico, o objetivo é equilibrar a preservação das fachadas tombadas com um interior moderno, criando um espaço de difusão artística que reflete sua trajetória. "A Fábrica (de Gaiteiros) é meu projeto de vida, que não visa ao lucro e que acabou crescendo muito mais do que eu imaginava. Estamos dando um peitaço", pontua Borghetti.
De acordo com o artista, a motivação para o projeto remonta ao cenário industrial de décadas atrás, quando o Brasil abrigava fabricantes como a Universal, em Caxias do Sul, a Escala, em Bento Gonçalves, e a Hering, em Santa Catarina. Ele destaca que, com o fechamento dessas unidades e da Danielson, em Santa Rosa, o País ficou sem produção nacional de acordeons. "Eu achei um pouco perigoso não ter fábricas, ficar dependente de um instrumento importado muito caro ou de um instrumento recondicionado, consertado, mas que também não é um instrumento muito acessível. Isso me preocupou na continuidade do instrumento", explica Borghetti. Para suprir essa lacuna, ele decidiu retomar a produção, mas com um modelo institucional: "Eu não quero virar um industrial, um cara que vive de fabricação de instrumentos, eu vivo da música. Por isso o diferencial da nossa fábrica: nós confeccionamos, mas não vendemos o instrumento, toda a produção é destinada para as aulas gratuitas que oferecemos."
Ainda conforme o músico, a sede na Capital foi projetada para ser um vibrante espaço cultural multiuso, transcendendo a função de uma escola tradicional. O complexo abrigará salas de aula, um teatro (para apresentações oficiais, recitais dos alunos e eventos culturais abertos ao público), áreas para exposições e um acervo dedicado a preservar a história do projeto e do instrumento. Além de ser a nova casa da Rádio Fábrica de Gaiteiros, o local contará com o Buliço – um café e ponto de encontro planejado para a convivência entre alunos e visitantes. O músico enfatiza que, embora a sede concentre essas atividades de difusão, ensino e memória, a parte industrial pesada não será transferida para a Porto Alegre: "O que vai ter na Fábrica da rua Vieira de Castro são essas atividades, mas não a confecção completa com máquinas, com tudo. Isso não está previsto na obra em andamento".
O músico destaca que, na unidade da Barra do Ribeiro (que recentemente passou por uma reconstrução após as enchentes no Estado), o processo é autossuficiente. "Nós produzimos 100% da gaita de oito baixos, nós não terceirizamos nenhuma peça, nada. A gente compra matéria-prima bruta (madeira, zinco, aço, alumínio...) e o instrumento fica pronto lá mesmo", detalha. Os instrumentos são emprestados gratuitamente para os alunos do projeto: crianças de sete a 15 anos – faixa etária escolhida pelo peso do instrumento e pelo potencial de transformação social. "A gente quer que a música, que a gaita participe da vida dessas crianças até ficarem adultos. Porque é uma forma de inclusão; melhora a relação familiar, melhora o rendimento escolar, a relação com os amigos", afirma Borghetti, ressaltando que a profissionalização é uma "consequência bem-vinda", mas não a meta principal.

O projeto arquitetônico da sede em Porto Alegre é assinado pela filha do acordeonista, a arquiteta e bailarina Emily Borghetti, que buscou unir funcionalidade artística e preservação histórica. No térreo, exposições permanentes mostrarão a história do projeto e a técnica de fabricação das gaitas. Um diferencial será a ala de hospedagem para visitantes e músicos, inspirada em centros culturais europeus. "Se vier um professor de fora, um músico para fazer um workshop ou uma apresentação no nosso teatro, ele pode ficar alojado ali mesmo. Isso cria uma vivência dentro da Fábrica que é muito comum lá no exterior e que a gente quer trazer para cá", explica. "O teatro será aberto à comunidade, para apresentações de outros artistas, de outros músicos, para artes cênicas, para cinema... enfim, para o que a cidade precisar", pontua o idealizador do projeto. "A ideia é que aquele complexo ali na Vieira de Castro seja um ponto de cultura vivo em Porto Alegre, onde a gaita é a anfitriã, mas que todos os artistas possam ocupar", reforça.
Atualmente, o projeto conta com 26 centros de ensino (que incluem cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e até uma unidade no Uruguai), atendendo entre 600 e 700 crianças e adolescentes, e utiliza o conhecimento de antigos mestres das fábricas extintas para treinar novos profissionais. "A gente buscou o pessoal que trabalhava nas antigas fábricas, que tinha aquele conhecimento que estava se perdendo. E o mais bonito é que atualmente contamos com ex-alunos que aprenderam a tocar lá atrás e hoje são monitores ou professores nas nossas unidades", ressalta Borghetti. De acordo com o artista, a obra na rua Vieira de Castro depende de expandir sua sustentabilidade financeira via leis de incentivo para manter o ensino gratuito e a preservação do fole no Rio Grande do Sul. "Essa obra é um desafio... a gente está sempre buscando parceiros, porque o projeto é gratuito para as crianças, mas ele tem um custo alto. Por isso não dou uma data cravada de inauguração, porque depende desse fluxo de recursos."

Envelhecimento da população eleva abstenção eleitoral no Brasil, observa pesquisadora

Socióloga e diretora de pesquisa do Instituto Amostra, Margrid Sauer, em entrevista ao Jornal do Comércio

Socióloga e diretora de pesquisa do Instituto Amostra, Margrid Sauer, em entrevista ao Jornal do Comércio

FABIOLA CORREA/JC

Bolívar Cavalar
Bolívar CavalarRepórterA pirâmide etária brasileira está invertendo, com cada vez menos nascimentos e mais pessoas idosas no País. No contexto político, se observa o crescimento da abstenção nas últimas eleições. Diante deste cenário, a socióloga e diretora de Pesquisa do Instituto Amostra, Margrid Sauer, realizou estudos e percebeu uma correlação: quanto maior o registro de idosos em uma região, maior o índice de abstenção. 
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Margrid aborda as observações que colheu a partir das pesquisas realizadas. No sentido da relação entre envelhecimento e abstenção, a socióloga avalia que faltam campanhas da Justiça Eleitoral para chamar e conscientizar este público a comparecer às urnas, assim como é feito com os jovens entre 16 e 18 anos, para quem, como os idosos com mais de 70 anos, o voto é facultativo. 
Jornal do Comércio - O perfil do eleitorado brasileiro está mudando. De que forma isso ocorre? 
Margrid Sauer - Sim, porque o perfil do eleitorado brasileiro, na verdade, está envelhecendo. E me chamou a atenção em 2024, quando no final da eleição, mais uma vez, teve um número bastante expressivo de pessoas que deixaram de votar. E aí eu comecei um pouco com essa coisa de pesquisadora: por que as pessoas não estão indo votar? Qual a razão disso? Porque quando a gente pergunta na pesquisa, a gente faz esse questionamento. E a gente não encontra esse número de abstenção, que deveria ser tão grande, porque as pessoas, via de regra, se envolvem com a eleição e elas querem votar, elas querem participar. Aí eu comecei com Porto Alegre: 'deixa eu ver como é que está esse eleitorado de Porto Alegre, o mais velho'. Era Porto Alegre e Rio (de Janeiro, as maiores abstenções do Brasil), as duas. Daí eu encontrei uma correlação. Existe uma correlação nas duas capitais. E aí eu comecei a pegar outras capitais. E ao fazer isso, eu percebi que havia uma correlação realmente. A gente foi indo pelo ranking: onde havia maior número de abstenção, havia maior número de idosos registrados dentro do sistema eleitoral.  
JC - Pesquisa do TSE aponta que a população com mais de 60 anos cresceu cinco vezes mais que o eleitorado geral nos últimos 16 anos. Como isso impacta o processo eleitoral? 
Margrid - A gente tem visto isso na nossa distribuição amostral, que antes a gente tinha quase que uma curva normal do envelhecimento. Tinha a base, daí o ápice ali em uns 40, 30 anos, e daí depois uma queda natural. E hoje, nós cortamos em 45, 55 anos, e a gente já tem 65 anos; as barras já estão se igualando. Há um número menor de nascimentos, que se vem percebendo desde o último Censo, e um número maior de pessoas idosas sobrevivendo até os 90, 100 anos. Então, é natural que esse perfil vai se alterar, e o que eu não percebo é uma preocupação do TSE nesse sentido, de olhar para esse fenômeno - e ele vai se agravar - e de buscar soluções. Informar essa população, porque ela talvez não saiba que um filho pode entrar no TSE, no TRE, no site, e pedir, por exemplo, para alterar a urna, o local de votação. Trazer para mais perto de casa, porque a gente se muda tanto ao longo da vida, e tu acabas, muitas vezes, ficando lá no teu bairro de sempre, que tu votavas já. Então, tu podes fazer essas mudanças para facilitar, pode dizer que a pessoa tem condições especiais, que ela precisa que a urna esteja em um lugar acessível, enfim. Coisas que não me parece que o TSE vem se preocupando.  
JC - Além do envelhecimento da população e falta de políticas para que este público compareça às urnas, há outros fatores que observa para o aumento da abstenção? 
Margrid - Eu penso que o envelhecimento é o mais gritante. Não é que é o mais gritante, mas é aquele que eu consigo fazer uma correlação estatística. Aumentou o envelhecimento, aumentou a abstenção. Enfim, existe uma correlação, é real. O que nós, com pesquisas, percebemos, e que o eleitor verbaliza para nós, é um certo 'nojo' - não sei se essa seria a palavra -, mas uma aversão a essa polarização tão extremada como a gente viveu na eleição passada (de 2022). Nessa eleição (de 2026) a polarização está aí, mas ela me parece abrandada. Não sei se eu já me acostumei, mas ela não me parece que está ainda naquela questão Bolsonaro versus Lula. Um cara que era presidente e um outro que sai da cadeia para concorrer. E isso, as pessoas nos diziam: 'nenhum desses dois me representa, principalmente no segundo turno, e eu não vou votar; ou, se for, eu vou anular, porque eu não me sinto representada por esses dois polos tão extremos'. Então isso também é um fator que a gente observa. 
JC - Não está observando tanta polarização em 2026 quanto em 2022? 
Margrid - Ainda... Não que a intenção de voto não esteja polarizada. O que eu não percebo é o embate entre eleitores e esta discussão ainda não tão polarizada. Flávio (Bolsonaro) não é uma pessoa que me parece tão conhecida e que desperte tanto amor e ódio quanto (Jair) Bolsonaro. Então falamos, óbvio, desses dados que a gente tem até o momento. Não que a polarização não se mostre na intenção de voto. Sim, ela se mostra na intenção de voto. O posicionamento mais à direita ou mais à esquerda do eleitor se mostra nessa intenção de voto. Mas o que me parece é que não tem esse 'ranço' tão grande assim. Essas brigas, essas discussões tão acaloradas em defesa de (Jair) Bolsonaro como a gente tinha. Sempre com a ressalva de que 'ainda' (não percebe isso). São coisas que a gente observa nas nossas pesquisas, nas nossas discussões com o eleitor. São traços que a gente vem notando. Uma coisa que a gente também percebe é que a gente tem um número de eleitores jovens mais posicionados à direita. Isso até digo que me causa estranheza, porque eu era tão acostumada a ver o contrário. É uma inversão. O nosso jovem hoje tem um posicionamento de centro à direita. E o número de jovens na esquerda diminuiu. Onde ele ainda se concentra (o eleitor de esquerda)? Naquele tradicional cara que viveu na sua adolescência e hoje está lá com 50 anos, com 60 anos, que ali a gente ainda tem um bolsão maior da esquerda no Estado. A esquerda está indo para essa faixa etária e eu acho que é uma preocupação da esquerda, me parece, em trazer esses jovens, e eles não estão conseguindo conversar com esses jovens, porque ele é um jovem de rede social e quem conversa na rede social é a direita.  
JC - Então faz uma relação entre o aumento dos jovens de direita com a maior capacidade deste campo se comunicar por estes meios digitais? 
Margrid - Faço. Ele (o jovem) é capturado pela discussão muito mais pela direita do que pela esquerda.  
JC - Voltando à questão da abstenção, que políticas públicas avalia como necessárias para mudar esta curva de aumento do não comparecimento às urnas? 
Margrid - Penso que existem campanhas do TSE, assim como ele faz no engajamento de jovens de 16 anos ou mais, eu penso que agora é olhar para quem é idoso. Se não está conseguindo ir votar, então peça para trocar o seu local de votação. Já tem transporte gratuito, mas às vezes, dependendo das pessoas, não têm acesso a esse transporte. Então eu penso que tem que alertar as pessoas de maior idade, fazer esse convite para que elas venham a participar dessa eleição, que é um direito dela até ela morrer. Óbvio, é facultativo a partir de 70 anos. Só que hoje o pessoal que tem 70 anos começa a representar muita gente. Então, se começa a pensar: 'tá, mas essa pessoa não vai ir votar?'. E ele também vai representar (índice de abstenção), porque o TSE não vai classificar ele (como voto facultativo) e dizer assim: 'não, mas olha só, desse número de abstenção, quando nós olhamos para nossa base, X% são de pessoas com 70 anos ou mais'. Ele (o TSE) não faz isso, ele te dá um dado final: X% que compareceram, e X% que não compareceram. Mas quem são os X% que não compareceram? Eu preciso olhar para eles. E aí sim, a partir disso, pensar políticas públicas que possam ajudá-los.
JC - Então acredita que há um foco maior da Justiça Eleitoral em atrair os jovens, e é necessário dar mais atenção aos idosos? 
Margrid - Penso que seriam duas campanhas. 
JC - Em 2022, a eleição de Lula foi muito apertada - venceu por menos de 2 milhões de votos. Pode-se dizer que o comparecimento deste público idoso nas urnas pode decidir uma eleição? 
Margrid - Eles (políticos) têm essa preocupação, poderia ser. Desde agora a gente passa a monitorar se ele foi votar na eleição passada e se ele pretende ir (na próxima), porque a gente pode fazer duas análises. Onde que isso impacta, e o voto de quem no possível não comparecimento impacta. Mas sim, eu penso que pode ter impactado. Não sei se seriam 2 milhões de votos, porque não são todos de um só espectro político, mas são eleitores que certamente, em uma margem pequena, podem fazer a diferença na votação. Então essa é uma preocupação de quem trabalha com pesquisa, de olhar para isso, e de candidatos que trabalham com pesquisa.  
JC - Além do envelhecimento do eleitorado, se observa que os líderes mundiais estão ficando mais velhos. Compartilha desta avaliação? 
Margrid - Compartilho e lamento. Eu lamento porque eu penso que, pelo menos olhando para o Brasil, tanta coisa mudou no mundo, e vejo por mim. Estou trabalhando aqui, e eu tenho 64 anos. Eu não consigo mais acompanhar o mundo digital e a rede social e tantas coisas que estão postas hoje, de possibilidades e de comunicação, enfim. Então, quando eu imagino alguém de 80 anos, eu penso a distância que ele está do eleitorado, da massa do eleitorado brasileiro. (Distância) de conversa, de prioridades, de enfrentamento de problemas, de empregabilidade, de uma série de coisas. De entender aquela população, de trazer novidades, de trazer, sei lá, empresas tecnológicas. O futuro está aí, e com o que eles vão trabalhar? Que país é esse que nós vamos ter daqui a 20 anos? Com líderes mais velhos, e também com projetos ainda olhando para um passado e não para um futuro, que é o que, de certa forma, o governo do PT fez. E atrasa o Brasil com algumas questões. Ao invés de se pensar em empregabilidade, em escolas técnicas e em engajar essa população que é jovem, que amanhã é no mercado de trabalho e, talvez, um possível eleitor, ele acaba de novo indo numa questão do assistencialismo, e a impressão que eu tenho é que ele anda na contramão daquilo que se imagina para um país se desenvolver.  
JC - E na questão da terceira via, acredita que seria necessário um nome com perfil diferente dos pré-candidatos que temos hoje para 'virar o jogo' da polarização? 
Margrid - O Eduardo Leite (PSD)seria a terceira via. Poderia virar o jogo. Porque a característica do voto do governador, quando eu meço entre os perfis, ele é o único que tem voto massivo do eleitor que se posiciona no centro, ele tem voto do eleitor que se posiciona na esquerda e ele tem voto do eleitor que se posiciona na direita. E isso eu não enxergo, por exemplo, quando eu cruzo com o Flávio Bolsonaro, ou com o presidente Lula, que tendem para um lado. E o governador Eduardo Leite é essa figura que transita, é fluido, porque ele tem ideias que compactuam com as minhas, com o eleitor mais jovem, com o eleitor mais moderno, mais atualizado.  
JC - Quais os motivos que observa para os líderes mundiais estarem cada vez mais velhos?  
Margrid - A política não atrai mais pessoas que têm essa capacidade de liderança, ela não é mais atrativa. Vamos olhar para trás:  nós tínhamos Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Mário Covas... Muita gente boa. No Senado, no Supremo Tribunal Federal... Mas à medida que a política ficou tão desgastada, ela ficou tão envolvida em escândalos, tão rasteira, e isso me faz pensar que pessoas que teriam toda a condição de estar ali, porque (o que) se vê (são) pessoas jovens que vêm de famílias que o pai era político. Mas novos nomes, novas pessoas, novas caras, eu não vejo. O (ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, Romeu) Zema é até uma exceção, o (ex-governador de São Paulo, João) Doria foi uma exceção. Mas acho que a política não atrai mais. 
JC - O Instituto Amostra pesquisou a proporção do eleitorado que lembra em quem votou para deputado estadual e federal. Que resultados colheram?
Margrid - Em quem votou para deputado estadual, 75,5% (dos gaúchos) não lembram. Três quartos não lembram. E não lembram em quem votou para deputado federal 78%. É maior ainda. Acho que o estadual, por exemplo, talvez em Porto Alegre e Região Metropolitana traga um pouco mais lembrança, porque ele está mais próximo. O federal perde o contato com o eleitor - com várias exceções. Ele (o deputado federal) fica na rede social, e tem os que têm um engajamento com a rede social. E tem uma coisa interessante, e isso é uma coisa que sempre acontece: 'Ah não, agora ele está montando a rede social dele...' Como se ele pudesse comprar pessoas. Engajamento ele até pode, mas isso não significa nada. Ainda há uma falta de compreensão, e aí talvez pela própria idade, de que ele precisa estar presente o tempo todo na rede. E presente realmente. Presente, atuando, fazendo recortes do que faz, enfim.

Perfil 

Margrid Sauer é sócia e diretora de Pesquisa do Instituto Amostra, que realiza pesquisas de opinião, mercado e política no Sul do Brasil. Socióloga de formação, atua há mais de 30 anos analisando dados, coordenando projetos de campo e assessorando campanhas políticas, com experiência no atendimento a governos estaduais e prefeituras da Região Sul. Possui graduação em Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1991), graduação em Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (1987), pós-graduação em metodologia de pesquisa pela Feevale (1993) e mestrado em Educação pela Universidade Luterana do Brasil (2017).