sábado, 9 de maio de 2026

Fundos patrimoniais avançam nas universidades gaúchas, mas ainda operam em fase inicial

Movimento é puxado principalmente por iniciativas independentes, organizadas por ex-alunos e entidades privadas ligadas às instituições

Movimento é puxado principalmente por iniciativas independentes, organizadas por ex-alunos e entidades privadas ligadas às instituições

Montagem sobre fotos de Marco Quintana/Arquivo/Jc e Pucrs/Divulgação/JC
Gabriel Margonar
Gabriel MargonarEm um cenário de restrições orçamentárias e busca por maior autonomia financeira, universidades do Rio Grande do Sul começam a estruturar - ainda que de forma incipiente - fundos patrimoniais, conhecidos como endowments. O modelo, consolidado em países como os Estados Unidos e Inglaterra, ganhou espaço no Brasil desde a regulamentação pela Lei 13.800/2019, mas segue distante de representar uma fonte relevante de financiamento para o ensino superior.
Na prática, os endowments são fundos formados por doações privadas, cujo patrimônio é investido para gerar rendimentos. Apenas esses rendimentos são utilizados para financiar atividades das instituições, garantindo uma fonte contínua de recursos ao longo do tempo.
“A principal característica é a perenidade. O principal é preservado, enquanto os rendimentos sustentam as atividades”, explica Andrea Hanai, gerente de projetos do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).
O modelo, embora ainda pouco disseminado no País, vem ganhando tração. Segundo o Monitor de Fundos Patrimoniais, do Idis, o Brasil conta hoje com cerca de 128 fundos ativos. Quase metade deles foi criada a partir de 2019, após a regulamentação do instrumento. Ainda assim, o universo segue restrito, especialmente no ensino superior: são cerca de 30 fundos universitários, com patrimônio aproximado de R$ 200 milhões.
A distância em relação a países como os Estados Unidos é significativa. Lá, mais de 650 universidades mantêm endowments, que somam cerca de US$ 944 bilhões em ativos. Em 2025, por exemplo, esses fundos destinaram US$ 33,4 bilhões para financiar atividades acadêmicas, incluindo bolsas, pesquisa e manutenção de campus.
“Estamos no início da trajetória. O Brasil está ‘acordando’ para os endowments como instrumento de sustentabilidade de longo prazo e, quanto mais conseguirmos demonstrar o impacto deles, maior será o engajamento. Mas é difícil comparar, porque os EUA contam com fundos já centenários - como o de Harvard, analisa Andrea.

Iniciativas no RS partem de ex-alunos e associações

No Rio Grande do Sul, o movimento é puxado principalmente por iniciativas independentes, organizadas por ex-alunos e entidades privadas ligadas às universidades - e não necessariamente pelas instituições em si. Atualmente, apenas a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) possuem ligação com fundos patrimoniais monitorados pelo IDIS; no ensino privado, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) vêm avançando na estruturização do próprio projeto.
Na Ufrgs, há três fundos patrimoniais ativos, vinculados às áreas de Administração, Direito e Engenharia. Eles funcionam como associações privadas, sem vínculo jurídico formal com a universidade. “Os fundos são criados por ex-alunos ou pessoas ligadas às unidades. A universidade não institui esses fundos”, explica o vice-reitor Pedro Costa.
No entanto, apesar da ausência de vínculo formal, há colaboração institucional. Os recursos captados são destinados às unidades acadêmicas, com aplicação em melhorias de infraestrutura, compra de equipamentos, concessão de bolsas e apoio emergencial - como ocorreu após as enchentes que atingiram o Estado.
O Fundo Amanhã, ligado à Escola de Administração, por exemplo, já impactou mais de 1,9 mil estudantes, com concessão de bolsas e auxílios. O Fundo Centenário, da Engenharia, por outro lado, já financiou dezenas de projetos e bolsas. Ambos acumulam patrimônios próximos de R$ 2,8 milhões.
Segundo o vice-reitor, além do impacto financeiro - ainda limitado -, os fundos cumprem papel estratégico. “Eles trazem mais flexibilidade e agilidade na aplicação dos recursos e fortalecem a cultura de doação e o vínculo dos ex-alunos com a universidade”, afirma.

No ensino privado, a Pucrs também avança na estruturação de seu fundo patrimonial. Criada em 2020, a Associação Irmão Norberto Rauch é responsável por liderar o processo de captação e gestão de recursos.

O projeto, no entanto, ainda está em fase inicial. “Até o momento, não houve captação efetiva. O foco tem sido estruturar o fundo e construir relacionamento com potenciais doadores”, explica Oziel Alves, da área de Relações Institucionais da reitoria.
A estratégia segue o padrão internacional: mobilizar principalmente ex-alunos e parceiros institucionais. O objetivo de longo prazo é ampliar o acesso à universidade, com financiamento de bolsas e apoio à permanência estudantil, além de investir em pesquisa, inovação e internacionalização.
“A lógica é simples: quanto maior o fundo, maior o impacto. Mas isso exige tempo e construção de cultura”, diz Oziel. Nesse contexto, a Universidade lançou, no fim de abril, o projeto Lideranças e Perspectivas, na Escola de Negócios. A iniciativa consiste em uma agenda mensal de talks que busca aproximar lideranças do mercado da comunidade acadêmica.
Mais recentemente, a UFPel, na Zona Sul do Estado, passou a integrar o movimento com a criação de um fundo patrimonial vinculado à Fundação Delfim Mendes Silveira (FDMS). A iniciativa, formalizada em 2024 após dois anos de estudos, busca apoiar projetos de ensino, pesquisa e desenvolvimento regional.
O modelo permite diferentes modalidades de doação - desde contribuições permanentes até aportes com finalidade específica definida pelo doador. A governança é estruturada com a participação de representantes da fundação, de doadores e de ex-alunos, buscando garantir transparência e independência. Atualmente, o Fundo dispõe de R$ 34.000,00.

Desafios ainda limitam expansão

Apesar do avanço institucional, especialistas apontam entraves estruturais para a expansão dos endowments no Brasil. Entre os principais estão a baixa cultura de doação, a escassez de incentivos fiscais e a falta de profissionalização na captação de recursos.
Outro fator relevante é o tema do planejamento sucessório. “Nos Estados Unidos, grande parte dos recursos vem de doações em testamentos. No Brasil, ainda há dificuldade de tratar esse assunto”, afirma Andrea Hanai.
Dados do IDIS mostram que, embora o patrimônio total dos fundos patrimoniais no Brasil ultrapasse R$ 130 bilhões, apenas cerca de R$ 200 milhões estão vinculados a universidades. Em 2024, os fundos distribuíram cerca de R$ 2,8 bilhões em rendimentos para causas diversas, indicando potencial de crescimento do modelo.
Ainda assim, mesmo em países onde os endowments são consolidados, o modelo não substitui o financiamento público ou as receitas tradicionais das universidades. Nos Estados Unidos, esses fundos respondem, em média, por 30% a 35% do orçamento das instituições.
No Brasil, a expectativa é que cumpram papel semelhante no longo prazo. “Os endowments devem ser uma fonte complementar. Eles não substituem o financiamento estatal, mas podem elevar a qualidade, a inovação e a excelência das universidades”, resume Andrea.

 Investimento em terminal renovado da CCGL em Rio Grande chegará a R$ 700 milhões

Ao todo, projeto deverá chegar a R$ 700 milhões em investimentos

Ao todo, projeto deverá chegar a R$ 700 milhões em investimentos

CCGL/DIVULGAçãO/arquivo/JC
Eduardo Torres
Eduardo TorresRepórter
São cinco frentes de trabalho ativas da cooperativa CCGL para concluir até outubro deste ano a reformulação do Termasa, um dos terminais operados pela cooperativa no Porto de Rio Grande, que sofreu sérios danos durante a cheia de 2024. De acordo com o presidente da CCGL, Caio Vianna, ao todo, o projeto deverá chegar a R$ 700 milhões em investimentos, dos quais, R$ 600 milhões em desembolsos ao longo deste ano.
"É o nosso único investimento significativo neste ano, e é estratégico para garantirmos mais competitividade ao produtor rural gaúcho, com a desvalorização dos grãos", explica Vianna.
A cooperativa, que centraliza operações de diversas outras entidades cooperativas, de acordo com o dirigente, responde por 70% de toda a soja exportada pelo Rio Grande do Sul, e por 52% de todas as exportações do agro gaúcho. Operação que atualmente está limitada ao terminal Tergrasa.
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  • Com o projeto de renovação do Termasa, a capacidade estática chegará a mil toneladas de grãos, mas os aportes vão além da infraestrutura de armazenagem. O píer passa por transformação, e também há aumento da capacidade operacional de carga e descarga de caminhões e trens, novas balanças e uma nova subestação de energia.
"Neste ano, teremos uma safra, depois de anos acumulados de quebras, considerado normal. Não é uma supersafra, mas a projeção pode ser considerada razoável. Nossa estimativa é receber até 20 milhões de toneladas", aponta Caio Vianna.
Representará uma alta de 43% em relação às 14 milhões de toneladas recebidas em 2025. O problema, explica o presidente da CCGL, está na baixa remuneração aos produtores.
"Há um achatamento que tem reduzido muito a possibilidade de investimento dos produtores. E na CCGL, temos muita preocupação com as pessoas em toda a nossa cadeia de produção", comenta.
Uma alternativa de renda extra, e principalmente de uma segunda safra com bom rendimento, tem sido a canola, considerada por Caio Vianna a "soja do inverno". A partir dos campos experimentais da CCGL, há o desenvolvimento de cultivares, a assessoria e a distribuição às cooperativas associadas.
A estimativa é de que a área cultivada com canola chegue a 500 mil hectares neste ano no Estado, mais do que o dobro do ano passado. Com rendimento bem superior ao da soja no fornecimento de óleo à indústria, especialmente com o aquecimento do mercado de biocombustíveis, a tendência é de que o grão veio para ficar.

FICHA TÉCNICA

Investimento: R$ 600 milhões
Estágio: Em execução
Empresa: Cooperativa CCGL
Cidade: Rio Grande
Área: Infraestrutura
Investimento em 2025: R$ 100 milhões