sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Novo romance da fenomenal Carla Madeira

quando

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EDITORA RECORD/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti

A mineira Carla Madeira, 61 anos, autora dos romances Tudo é rio; A natureza da mordida e Véspera, fenômeno editorial, é hoje a autora mais lida do Brasil, com 1.4 milhão de exemplares vendidos. Há poucas semanas Carla lançou seu novo romance, Quando (Editora Record, 280 p., R$ 69.90), que já encabeça a lista de mais vendidos da revista VEJA.


Narrando cenas familiares e cotidianas com linguagem intensa, carregadas de imagens fortes, neste novo romance a autora traz um pano de fundo mais amplo da história e realidade brasileiras. Depois de três grandes sucessos editoriais com seus romances, Carla pretendia parar de escrever por um tempo, para viajar, ler e respirar. Atropelada por uma sequência de lutos, viu que era impossível não escrever.


Quando é a história da família de Viridiana, que ficou viúva cedo com três filhos para criar. A trama se passa no Brasil da década de 1980 e aborda temas como a ditadura, a maternidade, machismo, feminismo e homofobia. Viridiana precisou contornar valores discutíveis deixados pelo marido, Afonso. 


A filha Margarida se casou com Otávio, tão machista como o pai. Valquíria empedrou o coração depois de uma tristeza e , no intervalo dos plantões de enfermagem, cuida da mãe idosa e doente. Tito, o outro filho, sumiu há vinte anos. As irmãs e o sobrinho Francisco esperam por sua visita.


No calor de um acontecimento trágico, Viridiana será capaz de um ato impensado: denunciar o próprio filho à polícia, abrindo um abismo entre eles. Depois dos vinte anos de ausência , quando o tempo parecia ter dissolvido as possibilidades, Carla Madeira nos colocará diante da extraordinária força dos afetos.

Bem recebido pela crítica, o livro está sendo considerado o melhor de Carla, que enfrentou muito bem a circunstância de seguir trabalhando com criatividade depois do enorme sucesso de Tudo é rio.

Lançamentos

vendas movem o mundo

vendas movem o mundo

DVS EDITORA/DIVULGAÇÃO/JC

A cor que nos separa - A origem (Avec, 216 pág.), oitavo livro do advogado e escritor Daniel Tonetto, é um romance que inicia com Ndala, arrancada de Angola em 1837 e lançada num navio negreiro rumo ao Brasil. No sul do País, em meio a frio, charqueadas e sonhos de liberdade nasce o velho Becca, herdeiro de uma África imortal. Depois virão os italianos e eles conviverão com o sombrio Isidoro, ex-capitão do mato.


Banda Municipal de Porto Alegre (Libretos, 376 pág, R$ 100,00), de Álvaro Santi, músico, escritor e gestor cultural, é uma obra instrutiva e instigante para as pessoas que vivem em Porto Alegre, que amam a música e a cidade. Inícios e primeiros tempos da Banda (1912-1931), da redução à dissolução (1932-1963) e a Banda atual (1975-2025) são as três grandes partes da bela obra de Santi, que nasce referencial sobre o tema.


Vendas que movem o mundo- Como treinar equipes de vendas para transformar potencial em impacto (DVS Editora, 280 pág, R$ 84,00), de Carol Manciola, empreendedora, palestrante e escritora, questiona os modelos tradicionais de treinamento e enfatiza a capacidade de aprender. Verdadeiro guia para quem acredita no potencial humano como motor de transformação.

O Brasilino enlouqueceu

Quase não acreditei quando me disseram que o Brasilino tinha pirado e que estava internado numa clínica psiquiátrica da zona sul de Porto Alegre. Brasilino, aposentado do Banco do Brasil, sempre penteado, arrumadinho e elegante como um soneto parnasiano numa clínica? Essa tinha que conferir. Fui lá e ele estava sentado no belo jardim, olhando para os patos que nadavam no laguinho.

Por que tu veio parar aqui, meu amigo? O que houve? Brasilino tomou uns goles de chimarrão, me olhou sem pressa e disse: Nunca pensei estar num lugar desses. Vivia quieto no meu canto, com meus pensamentos de centro-direita, e aí a Dora, minha mulher, professora estadual aposentada, passou a falar do Lula e do PT desde que acordava até dormir. No início tentei ficar quieto e democraticamente aceitar a polarização conjugal, mas aí ela queria me doutrinar e fazer eu votar no cara e aí eu achei demais e saía de casa toda hora.


Um dos meus genros é PT, professor da Ufrgs e outro é empresário, bolsonarista raiz. No almoço de domingo não era servida paz alguma junto com o churrasco. Uma das filhas acha que os militares têm que voltar e botar ordem e a outra, esquerda-caviar-beluga, acha que a esquerda é o caminho, desde que se caminhe para Paris na primavera, com um monte de euros para tomar cafezinho no Flore e sorvete de cereja na ilê Saint-Louis.


Quando eu ficava quieto ou tentava apartar ou impor democracia e civilidade me chamavam carinhosamente de isentão e diziam que eu tinha que me atualizar. Aí larguei de mão, passei a desligar meu aparelho auditivo e ouvir o som do silêncio. De repente melhor deprê ou meio gagá do que ficar estonteado com aquelas confusões que não iam a lugar nenhum.


Para tentar me acalmar até arrumei uma "amiga" jornalista, que conheci no Bar do Beto. No início conversas amenas sobre comida, futebol, música e causos de pessoas, mas adiante ela, que foi diretora do CPERS, começou a me patrulhar antes, durante e depois dos jogos na hora da sesta. Não aguentei e nem ela. Um para cada lado, com sequelas tristes de amor invernal. Ela era viúva de um coronel do exército e tinha lembranças "complicadas e ambivalentes".


Fui fazer terapia e tomar uns remédios para ver se conseguia "elaborar" minhas ideias mais enroladas que namoro de cobra. O terapeuta me ouvia pacientemente, sem dizer quase nada, e um dia falou que vivemos no meio de relações líquidas, conflituadas, num mundo de conectados-desconectados, intoxicados digitalmente, narcisistas, individualistas e que o que poderíamos fazer era tentar preservar a paz interior e não se deixar levar pelas insanidades e depressões da contemporaneidade. 


Ele disse que o mel era doce, que a vida tem ganhos e perdas e que precisamos exercer a escuta interior e exterior. Acabei me desentendendo com o grupo do cafezinho no shopping. Um é bolsonarista, outra lulista , outro sonha com a terceira via utópica e outro é anarquista-romântico distópico. Eu tentava dar uma de pomba da paz, unir os impossíveis e acabei me dando mal. Disseram que eu era sem noção, que meu coração até era legal, mas minha cabeça confusa.

A propósito

Começaram a dizer que eu andava estranho, fora da casinha, que ficavam preocupados com meus silêncios e isolamentos. Pedi para meu terapeuta me internar. Ele não queria. Mas aí disse que ele podia me atender na clínica ou por vídeo e insisti na internação, inventando ideias suicidas e papos epiléticos. Disse para ele que tomava sopa com garfo, rasgava notas de dólar, dormia nos trilhos e que ia me amarrar num poste. 


Aí estou aqui. Não te assusta, que não estou tão louco. Meu negócio é ficar fora do caos, olhando os patos por algum tempo e pensando que é melhor não pensar muito. Tem duas camas no meu quarto, quer ficar aí, meu amigo? A comida até que é boa. Vais gostar. 

(Jaime Cimenti) 

04 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O recreio voltou

Não sei você, mas percebo um retorno saudável às práticas do passado. Ninguém mais aguenta ser digital. Sequer as crianças nativas das redes sociais. Veja o crescimento dos clubes de leitura. Minha esposa já participa de dois e se debruça no dever de casa, lendo clássicos e revisitando as estantes.

O número desses grupos de reflexão no país saltou 35% nas últimas duas décadas, reunindo 2 milhões de pessoas em torno de algum título - dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Nielsen BookData apontam alta de 7,7% no faturamento e de 6,5% no volume de livros vendidos.

A solidão do hábito virou solidariedade. As rodas de análise de textos mexem no sobe-desce da lista dos best-sellers e se destacam pelos encontros presenciais, pelo confronto dos mais diferentes pontos de vista e pelo prazer de conversar sobre afinidades. Não são organizadas apenas por escritores, mas também por diletantes da literatura.

Um ano e meio após a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em escolas de educação básica, 97% dos gestores escolares relatam que a norma aumentou o engajamento dos estudantes nas atividades pedagógicas.

Houve, inclusive, um movimento de ressocialização nos recreios. Agora estão na moda os lanchinhos entre as mesas de fórmica e os jogos como cartas, pingue-pongue, vôlei e futebol. Vários alunos até se esquecem da existência do aparelho nas caixas coletoras e precisam regressar à instituição para buscar.

Passamos, aos poucos, a recuperar o domínio das mãos, deixando- as livres para brincar e interagir, para escrever bilhetes, não mais destinando a atenção exclusivamente para as telas.

A ansiedade diminui, assim como a sensação de estar perdendo um acontecimento importante no mundo e a competição pelos melhores modelos de smartphone. A abstinência migra para a alegria, com a redescoberta de brincadeiras e de antigos suportes. A biblioteca é mais frequentada, e o barulho do falatório nos minutos sem aula eleva consideravelmente seus decibéis.

Além disso, adolescentes vêm resgatando câmeras velhas, iPods, Walkmen, fones com fio e vinis. Registrou-se uma demanda de quase 50% a mais na aquisição de iPods e Walkmen pelo eBay no Reino Unido em 2025. Tira-se uma foto sem poder conferir imediatamente se ficou boa, suportando a espera e o erro de foco.

Cansada da hiperconectividade, a Geração Z espanou o pó do MP3 player, procurando a ausência de notificações, algoritmos e feeds infinitos na hora de treinar ou de ouvir música em paz.

O site de vendas Enjoei revelou que o valor total de dispositivos comercializados na plataforma no primeiro trimestre deste ano (janeiro, fevereiro e março) foi 47% maior do que no mesmo período de 2025.

Na contramão da modernidade, os jovens querem novamente os fios, querem uma âncora, uma experiência particular, só sua, que não seja imposta por tendências do momento ou playlists do streaming. É menos tecnologia para mais pessoalidade e privacidade, tendo que lidar com o nó no bolso, com um lado que para de funcionar, com ajuste no plugue para normalizar o som.

O trabalho ou o esforço são insignificantes perto da reserva e da discrição. Ainda se abre a perspectiva gentil de dividir um fone com alguém e mostrar uma canção predileta. A vibe saudosista é uma forma de reaver o controle da vida, que só a simplicidade, cheia de ruídos, possibilita.

A igreja analógica tem cada vez mais adeptos. O recreio voltou com a bênção das sinetas. _

CARPINEJAR

04 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Safra entre a crise e a esperança

A próxima safra de verão do Rio Grande do Sul tem a marca da crise no campo, mas também se inicia com perspectivas que podem ser consideradas animadoras, embora a incerteza seja eterna companheira de jornada de uma atividade a céu aberto como a agricultura. O quadro de dificuldades, sequela das várias estiagens e do alto endividamento, se reflete no recuo da área cultivada com soja, a locomotiva do agronegócio gaúcho.

Conforme a Emater, que divulgou as projeções para o ciclo 2026/2027 nesta semana, na Expointer, a cultura terá uma extensão cultivada de 6,65 milhões de hectares, queda de 0,9% em relação à safra anterior. Parece uma redução insignificante, mas é o segundo ano consecutivo de retração, na contramão do histórico de avanços constantes das lavouras de soja no Estado. É consequência da descapitalização, dos obstáculos para acessar crédito, do juro extorsivo e das cotações recentes pouco alentadoras.

Mas há fatores que trazem alguma esperança. O prognóstico climático é um deles. A ocorrência do El Niño indica que a falta de chuva não será problema. Assim, espera-se elevação da produtividade. A Emater estima que a colheita de soja pode superar 21 milhões de toneladas, ante os 18,3 milhões de toneladas retiradas das lavouras neste ano. Seria a maior marca já registrada pelo Estado. 

O fenômeno também traz transtornos, como atraso na semeadura e maior risco de doenças. Em 2024, causou prejuízos pontuais em lavouras prontas para a colheita. Áreas de várzea têm mais risco. Mas as precipitações acima da média costumam elevar o rendimento por hectare.

O mercado está em alta nos últimos meses. O indicador Cepea/Esalq mostra que, neste início de setembro, a saca de 60 quilos no Porto de Paranaguá (PR) chegou à casa dos R$ 160, patamar que não era praticado desde o começo de 2023. As cotações são alavancadas pela demanda internacional firme e pelas incertezas climáticas relacionadas ao El Niño em outras áreas produtoras, onde os efeitos não são os mesmos observados no Estado.

Uma colheita farta e a preços mais remuneradores, além de dar tração ao PIB do RS, significaria a possibilidade de os produtores começarem a sair do sufoco financeiro. Mas muito desse horizonte otimista depende do avanço da renegociação das dívidas dos produtores, que transcorre com lentidão e sem as condições ideais.

As projeções do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) também indicam um recuo na área da orizicultura. Seria da ordem de 3,4%, caindo para 861,7 mil hectares. O preço, por outro lado, tem mostrado reação. O milho produzido para grão destoa das demais culturas. A estimativa é de que a extensão plantada suba 7,4%, para 896,4 mil hectares. É outra lavoura beneficiada pelo aumento da precipitação.

Somadas, as principais culturas de verão - soja, arroz, milho e feijão - devem ocupar 8,42 milhões de hectares, uma leve retração de 0,37% ante o ciclo 2025/2026. Mas as projeções de rendimento maior indicam uma produção total de grãos de 35,6 milhões de toneladas, crescimento de 8,64% sobre o volume obtido neste ano. Seria uma supersafra, puxada pela soja, capaz de melhorar o ânimo no campo. 

04 de Setembro de 2026
CONEXÃO BRASÍLIA - Matheus Schuch

Como o caso Moraes-Vorcaro ajuda Flávio

Flávio Bolsonaro (PL), Cláudio Castro (PL), Ciro Nogueira (PP), Jaques Wagner (PT) e todos os demais investigados no caso Master respiram um pouco mais aliviados eleitoralmente desde que vieram à tona as mensagens escandalosas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

A revelação dos tentáculos do Banco Master no Poder Judiciário, a um mês das eleições, muda de direção, ao menos temporariamente, os holofotes e ajuda eleitoralmente os políticos de partidos que também têm contra si suspeitas graves envolvendo Vorcaro.

Flávio Bolsonaro, por exemplo, visitou Vorcaro em sua casa após a prisão do banqueiro, trocou mensagens de visualização única com o pivô do escândalo bilionário e aparece em diálogos cobrando repasses de dinheiro.

Nada disso impede Flávio, neste momento, de apontar o dedo para o escândalo envolvendo Moraes e fazer eco aos pedidos de afastamento do ministro. Este movimento de deslocamento do foco do escândalo é precisamente o que pode aliviar o peso do caso Master sobre os ombros de Flávio e gerar danos eleitorais para Lula (PT).

Moraes não foi indicado pelo petista nem tem relações diretas com o governo Lula. Contudo, como foi o relator do processo que culminou na prisão de Jair Bolsonaro, Moraes foi taxado de aliado da esquerda na narrativa bolsonarista.

Claramente, até o momento, o escândalo Moraes-Vorcaro favorece Flávio e a demanda de outros candidatos bolsonaristas que pregam uma limpeza no STF. O tamanho do benefício eleitoral para esse grupo, contudo, ainda é incerto e dependerá das próximas cenas de um escândalo que atravessa a República e abraça diariamente novos agentes públicos. 

*Participou Gabriel Jacobsen

CONEXÃO BRASÍLIA

04 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Minerais críticos e terras raras: o que propõem os candidatos à Presidência

O Senado aprovou na quarta-feira a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com investimentos de até R$ 7 bilhões em incentivos a projetos de mineração e processamento no país. O projeto de lei aponta o Brasil como um dos países com as maiores reservas mundiais das chamadas terras raras, minerais indispensáveis para a transição energética e para tecnologias de ponta para a produção de painéis solares, carros elétricos, smartphones e até equipamentos militares.

A coluna analisou o que dizem os planos de governo dos principais candidatos à Presidência com base na última pesquisa Quaest e nos partidos que têm representação no Congresso. A seguir um resumo. _

Duas iniciativas ligadas ao Sistema Tribunais de Contas foram vencedoras do Prêmio Transparência e Fiscalização Pública 2026, promovido pela Câmara dos Deputados. Trata-se do Reporta+, um mecanismo de controle e transparência desenvolvido pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), e do Escuta Cidadã, desenvolvido pela Ouvidoria do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS).

Mutirão para endividados

A Defensoria Pública do Estado realiza hoje um mutirão de informações contra o superendividamento. A ação ocorre das 13h às 17h30min, no ônibus do órgão, localizado próximo à entrada de pedestres do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

A iniciativa conta com atendimento especializado da Câmara de Conciliação Cível da DPE/RS, que prestará orientações à população sobre direitos relacionados ao superendividamento e possíveis caminhos para a solução de conflitos financeiros. _

Personagens gaúchos

Quem entra na Expointer 2026 pelo portão principal do Parque de Exposições Assis Brasil é recepcionado pelo estande da Secretaria de Turismo do RS. No local, cinco personagens que representam a cultura gaúcha são as atrações principais, do primeiro ao último dia de evento. São eles o Laçador, um gaúcho e três prendas. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 

A encruzilhada histórica do STF

A confiança pública deve ser o ativo mais valioso da Corte que dá a última palavra sobre a Constituição e é acionada a todo momento para decidir sobre os temas mais candentes do país. O Supremo Tribunal Federal (STF) está neste momento em uma encruzilhada histórica. Um caminho resguarda a instituição, colocando-a acima de seus membros. Outro, o do corporativismo, corrói ainda mais a credibilidade perante a sociedade.

Está nas mãos do presidente do STF, Edson Fachin, a decisão que começa a delinear a direção a ser tomada. Cabe a ele marcar para logo a sessão em que o plenário deliberará sobre a abertura de inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes. O relatório da Polícia Federal (PF) cujo sigilo foi levantado na terça-feira escancarou a relação promíscua de Moraes com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, pivô da mais retumbante fraude financeira já vista no país.

De forma vaga, Fachin manifestou-se ontem e disse que, "nos próximos dias", anunciará "as medidas cabíveis e necessárias." Falou em "preservar a integridade do STF" e que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional". Não há margem para protelar essa sessão. Deve ser marcada para breve.

As mensagens enviadas pelo banqueiro ao ministro apontam para uma atuação de Moraes no sentido de proteger Vorcaro e o banco de investigações. E isso enquanto o escritório de advocacia de sua mulher e filhos usufruía de um contrato que, todos os meses, garantia generosos R$ 3,6 milhões à família. Tudo o que veio à luz indica a falta de condições, no mínimo morais, para Moraes continuar no STF. Deveria se afastar imediatamente de suas funções, por ato voluntário.

Caso o ministro resista, espera-se do próprio Supremo a compreensão de que, para preservar a instituição, deve proceder sem que o instinto de autoproteção prepondere. É mandatório investigar o colega. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também teria a missão de agir, mas é citado no caso e ainda na terça-feira agarrou-se ao formalismo para ignorar a gravidade dos fatos e se manifestar pela nulidade do relatório da PF. Outro caminho constitucional é o do impeachment, pelo Senado. Mas o gesto que amenizaria a crise reputacional seria os membros do STF aceitarem que Moraes tem de ser investigado.

A despeito da seriedade extrema das suspeitas sobre Moraes, o ministro está longe de ser um caso isolado de comportamento escuso. No episódio Master, há fatos sobre Dias Toffoli que mereceriam elucidação e caíram no esquecimento. Situações que suscitam conflitos de interesse, agendas sem transparência e remuneração de palestras são alguns exemplos que demonstram a necessidade de um freio de arrumação que normatize e dê translucidez às condutas. A resistência de boa parte do STF à proposta de um código de ética é autoexplicativa.

A politização da Corte, com a identificação de ministros com alas que disputam o poder no país, também contribui para a erosão da credibilidade. Os acontecimentos dos últimos dias não estão desvinculados da polarização que divide o país. O caso Moraes deveria ser um ponto de inflexão a levar o STF, pilar do Estado de direito e da própria democracia brasileira, ao caminho da reconstrução da confiança. 

03 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A música do mundo

No último dia 25 de agosto, completaram-se 40 anos de lançamento de Graceland. O disco de Paul Simon ganhou o Grammy de melhor álbum, vendeu 16 milhões de cópias mundo afora, atraiu a atenção para a música sul-africana, colocou o cantor e compositor estadunidense em uma turnê planetária de cinco anos e rendeu-lhe a pecha de apropriador cultural. 

A história desse fenômeno e das polêmicas que o acompanham desde 1986 é contada no recém-editado Days of Miracle and Wonder (algo como "Dias de Milagre e Maravilha"), livro escrito pelo jornalista e historiador musical Ashley Kahn, cujo título pega emprestado um verso de The Boy in the Bubble, faixa que abre o disco.

A gênese de Graceland remonta a 1984. Escutando enquanto dirigia uma fita cassete - irônica e premonitoriamente pirata - de Township Jive, a música de rua da África do Sul, o artista empolgou-se: o som remeteu-lhe aos primórdios do rock?n?roll, "muito pra cima, muito alegre, soando familiar e estrangeira ao mesmo tempo". Determinado a conhecer mais a respeito dessas tradições musicais, viajou para Joanesburgo, encontrou-se com dezenas de músicos locais e gravou com eles.

Paul Simon comprou briga já na largada: a colaboração com artistas da África do Sul foi criticada por organizações internacionais, autoridades e músicos por furar boicotes econômicos e culturais ao país, então sob o regime racista do apartheid. Graceland também foi colocado na berlinda artisticamente: muitas vozes condenaram uma suposta vampirização. Kahn lembra em seu livro que Simon foi confrontado por um estudante durante uma conferência em uma universidade: "Como você justifica adonar-se dessa música? Por tempo demais, artistas têm roubado a África. Aconteceu com o jazz".

Lembro do impacto que Graceland causou em mim e nos meus amigos quando saiu há quatro décadas. Na época, a música estrangeira que tocava nas rádios e tevês vinha apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Para escutar qualquer sonoridade diferente, só comprando algum disco importado. Graceland ajudou a difundir a então chamada "world music" - um termo genérico e colonialista que inclui tudo e significa nada -, 

abrindo o mercado para gravadoras voltadas à diversidade sonora como a Luaka Bop, de David Byrne, e a Real World, de Peter Gabriel. Também propiciou iniciativas tipo o Buena Vista Social Club, projeto liderado pelo guitarrista Ry Cooder que tirou do ostracismo veteranos artistas cubanos.

Simon, Byrne, Gabriel, Cooder. Homens brancos do Norte global chancelando a música do mundo. Alguma coisa estava fora da ordem. 

ROGER LERINA

03 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Presidente do STF afirma que é preciso preservar instituição e que ações serão anunciadas "no tempo devido". Fala ocorre um dia após Mendonça ter retirado sigilo de inquérito que expõe mensagens de Vorcaro, ampliando cerco a Moraes

Fachin promete medidas e diz que cargo impõe limites

No dia seguinte à revelação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, disse que anunciará "medidas cabíveis e necessárias", sem especificar um prazo. Ao discursar na abertura de evento sobre direito constitucional, em Brasília, Fachin destacou que adotará ações "no tempo devido e sem precipitação".

- Em momentos de especial gravidade, é dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito as suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição - afirmou.

Em sua fala, o presidente do STF, sem citar Moraes, avaliou que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional", citando que "circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza".

- A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal. Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias - acrescentou Fachin.

Investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) encontraram mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. As citações ao nome de Moraes foram captadas a partir da quebra de sigilo do celular do banqueiro, alvo da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master. O sigilo do relatório foi retirado na terça-feira.

Conforme a PF, Vorcaro teria conversado diretamente com um contato salvo em nome do ministro. Parte das supostas conversas foi apagada porque o contato usava mensagens de visualização única e as escrevia no bloco de notas, mecanismo que impede a recuperação completa dos dados.

Nas mensagens recuperadas, Vorcaro, antes de ser preso, pediu ao ministro proteção e orientação sobre sair do país. Além disso, o magistrado avaliou o contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci, e o Master, ampliando as suspeitas de que o magistrado seria um conselheiro do banqueiro.

Na noite de terça-feira, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a nulidade da investigação da PF. Na manifestação enviada à Corte, Gonet disse que o relator do caso, Mendonça, investigou Moraes ilegalmente ao determinar o aprofundamento sobre o Master para esmiuçar as conversas envolvendo o magistrado e o banqueiro.

No entendimento do procurador, isso só poderia ocorrer após autorização do plenário da Corte.Para Gonet, eventual investigação contra Moraes deveria ser direcionada ao presidente da Corte, que levaria o caso ao plenário, e não diretamente para execução da PF.

Gonet também aparece no relatório policial, com arranjo de viagens internacionais custeadas pelo banco. Em março de 2025, por exemplo, Ciro Soares, intermediário de Vorcaro, avisa o banqueiro do pedido do procurador-geral para incluir o filho em uma viagem para a Inglaterra.

Ontem, na primeira sessão plenária no STF após a exposição das mensagens de Vorcaro, nenhum dos envolvidos presentes se manifestou sobre o tema. _

Segundo a Polícia Federal, Vorcaro escrevia a Moraes textos no bloco de notas do celular, tirava prints e os enviava como mensagens de visualização única pelo WhatsApp.

"Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você."

Mensagem de Vorcaro no dia 14 de novembro, antes de estourar a operação contra o Master

"Acha que segunda já tenho que estar fora?"

Questão de Vorcaro a Moraes em 15 de novembro de 2025, antes da prisão, sobre deixar o país

"Não conseguimos reverter isso com Paulo (procurador- geral da República, Paulo Gonet) ou Andrei (Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF)?

No dia 15, Vorcaro indica que precisa de proteção do procurador-geral e do diretor-geral da PF. Na terça, Gonet pediu nulidade da apuração

"Podemos nos ver amanhã rapidamente, algum horário?"

Mensagem encaminhada por Vorcaro no dia 16 de novembro. Ele foi preso no dia 17 no aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país em uma aeronave particular

"Às 14h então. Passo na sua casa ou prefere na minha?"

No mesmo dia 16 de novembro, 20 minutos depois, indicando que o encontro havia sido marcado

Encontros com Vorcaro

Gabinete do ministro André Mendonça confirmou ontem duas reuniões com o banqueiro. Confira as circunstâncias

Semana passada

Vorcaro prestou depoimento em caráter de urgência ao gabinete de Mendonça na semana passada, a pedido da defesa do banqueiro, que relatou que estaria sofrendo "graves intimidações".

Segundo nota do gabinete, o depoimento, conduzido por um juiz auxiliar, ocorreu sem a presença de agentes da Polícia Federal (PF) e teve apenas a participação de representantes do Ministério Público. "Trata-se de ato processual regular", afirmou o comunicado.

O conteúdo do depoimento foi mantido em sigilo. Segundo o gabinete de Mendonça, a relação entre Vorcaro e Moraes não foi mencionada na oitiva.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Vorcaro afirmou no depoimento que quer delatar integrantes do "atual governo" e citar na delação a realização de viagem com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Vorcaro, no entanto, não forneceu detalhes nem indicou provas dessa relação.

Início de 2025

Antes de se tornar relator do caso Master, em fevereiro deste ano, Mendonça admitiu que recebeu Vorcaro em março de 2025.

O encontro durou entre 20 e 30 minutos e foi na sede do instituto educacional que o ministro mantém em São Paulo (SP).

O assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do STF. O caso discutia créditos de precatórios de interesse do Master, mas se encontrava, na data da reunião, sob pedido de vista.

"O ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo", diz a nota divulgada ontem pelo ministro.

"No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro", afirma o comunicado, acrescentando que a atuação do ministro "é pautada pela legalidade e pela impessoalidade".

Procuradoria assina acordo de delação com fundador da gestora Reag

A Procuradoria-Geral da República (PGR) assinou acordo de delação premiada com o fundador da gestora Reag, João Carlos Mansur. Nos depoimentos já prestados e nas informações entregues aos investigadores, Mansur deu novos detalhes sobre os crimes financeiros de Daniel Vorcaro e do Banco Master, além de ter delatado outros personagens envolvidos no esquema.

Trata-se da primeira delação firmada pela PGR dentro das investigações da Operação Compliance Zero. Procurada, a defesa de Mansur não se manifestou.

O acordo de delação já foi enviado pela PGR ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Nos próximos dias, o magistrado deve marcar uma audiência para ouvir o colaborador sobre a espontaneidade de sua colaboração e analisar se o acordo atende aos critérios legais.

Depois disso, o ministro decide se homologa a delação, o que significa aval jurídico para que o acordo possa ser utilizado como meio de prova. Com isso, Mansur se tornaria efetivamente um colaborador. A proposta de delação apresentada por Mansur contemplava ao menos 17 temas diferentes e uma multa de R$ 40 milhões.

O acordo de Mansur torna ainda mais difícil a perspectiva de avançar uma terceira proposta de delação premiada do próprio Vorcaro. O banqueiro mudou sua equipe de defesa para tentar retomar as conversas, mas os investigadores não têm demonstrado interesse no assunto.

Os investigadores consideraram que Mansur entregou detalhes mais inéditos e mais relevantes sobre o caminho dos recursos desviados no esquema do Master. A gestora Reag operou diversos fundos de investimentos usados por Vorcaro para a retirada de recursos do sistema financeiro para seu patrimônio pessoal ou para pagamentos de propina. _

O que ocorre com inquéritos sob Moraes se houver afastamento

O possível afastamento do cargo do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pode acarretar numa longa demora para análise dos casos dos quais hoje ele é o encarregado. A análise é de especialistas em direito consultados pela reportagem. É que o regimento interno do STF prevê, para caso de saída definitiva de ministro, que o acervo processual dele seja herdado pelo colega que vier a ser nomeado no seu lugar, explica o advogado criminalista gaúcho Andrei Schmidt.

O afastamento de Moraes é cogitado pelo envolvimento dele com o banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso, suspeito de corrupção. O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi contratado, por valores milionários, para atuar na defesa do Banco Master, pertencente a Vorcaro.

O afastamento do ministro do STF poderia ser decidido por seus colegas (em votação interna) ou pelo Senado, que votaria seu impeachment (a perda do cargo). Seja qual for o encaminhamento, a escolha de um novo ministro não é rápida.

Luís Roberto Barroso, por exemplo, se aposentou em outubro do ano passado e até agora não foi substituído. A indicação e a aprovação de um novo integrante do STF seguem pendentes no Senado, por onde passa o crivo dos nomes apontados pelo presidente da República.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha indicado Jorge Messias para a cadeira, mas os senadores recusaram a escolha, o que provocou um impasse.

Há possibilidade, porém, de redistribuir casos urgentes (ou importantes), prevista no artigo 68 do regimento do STF.

- O artigo 68 foi aplicado no caso do Barroso, que se aposentou e a vaga dele segue aberta. Os casos mais urgentes que estavam para análise desse ministro, como uma ação direta de inconstitucionalidade, foram repassados a colegas dele - ilustra Schmidt.

Outros casos aguardam parecer, enquanto o novo ministro não é escolhido.

- Quando o ministro Teori Zavascki morreu, os principais casos dele foram redistribuídos - ilustra outro criminalista, Alexandre Wünderlich.

Entre os casos polêmicos que tramitam hoje com Moraes como relator, está o da tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023 e o inquérito das fake news (que apura notícias falsas, ameaças e ataques contra a Corte, seus ministros e familiares). Os advogados consultados pela reportagem acham provável que esses casos sejam redistribuídos, sem aguardar nomeação de novo ministro para as vagas abertas.