sábado, 18 de julho de 2026

Depois de quase 50 dias sem jogos oficiais, time de Luís Castro foi derrotado por 2 a 1 pelo Mirassol na retomada do Brasileirão. Equipe repetiu atuações ruins de antes da paralisação para o Mundial e fica em situação delicada na tabela antes de voltar a atenção para o playoff da Sul-Americana

Depois das férias, treinos e amistosos, a decepção. Na noite de sexta-feira, pela 19ª rodada do Brasileirão, o Grêmio perdeu por 2 a 1 para o Mirassol. Bruno Santos e Edson marcaram para os donos da casa. Carlos Vinícius descontou. A derrota no Maião manteve a equipe na beira do Z-4.

O Tricolor ficou em 16º lugar, com 21 pontos, apenas um à frente do Vasco. E para tornar ainda pior o resultado, construído com outra péssima atuação, a equipe paulista ficou apenas dois pontos atrás do Tricolor na tabela. Com um jogo ainda a recuperar.

Depois de quase 50 dias de preparação, o resultado em campo lembrou os piores momentos do primeiro semestre.

Na frente

Os paulistas assustaram aos 10 minutos. Edson recebeu na área e finalizou. A bola cruzou a pequena área, mas o centroavante Bruno Santos não chegou a tempo para empurrar para o fundo do gol. Na segunda chance, o centroavante do Mirassol alcançou. O Grêmio perdeu a bola com Caio Paulista. Igor Formiga avançou e acertou o cruzamento para Bruno Santos completar de carrinho. Villasanti não acompanhou o adversário, que teve tempo para chutar caído depois de errar na primeira tentativa.

Aos 35 minutos, o Tricolor ficou em vantagem numérica por alguns segundos. Gabriel Mec driblou Denilson e o último recurso do marcador foi o puxão. O árbitro Bruno Arleu marcou falta e expulsou o jogador, mas trocou a cor do cartão após revisão no VAR.

Após péssima cobrança de falta de Amuzu, o Mirassol ampliou. Kannemann desarmou na área. Pavon tentou tirar a bola de calcanhar e devolveu a posse para os paulistas. Villasanti não conseguiu recuperar, Caio Paulista demorou para fechar o espaço e Edson tocou na saída de Weverton: 2 a 0.

Quatro trocas

O Grêmio voltou com quatro mudanças para o segundo tempo. Amuzu, pelo protocolo de concussão, saiu e liberou uma substituição extra. Pedro Gabriel, Braithwaite, Willian e Leonel Pérez entraram. Caio Paulista, Gabriel Mec, Amuzu e Villasanti saíram.

A pressão tricolor para descontar deu resposta aos 31 minutos. Tetê deu início ao ataque pelo lado direito após lançamento de Braithwaite. O atacante acionou Pavon, que achou Carlos Vinícius. O chute de pé direito não deu chances para Walter. Pouco para um time que se preparou durante quase 50 dias para voltar ao Brasileirão. Uma derrota para assustar, antes da viagem a La Paz para enfrentar o Bolívar pela Copa Sul-Americana.

Após a partida, Amuzu saiu de ambulância do estádio por conta de choque sofrido na cabeça. _

Brasileirão

19ª rodada - 17/7/2026

Mirassol

2

grêmio

1

Mirassol: Walter, Igor Formiga, João Vitor, Gabriel Knesowitsch e Reinaldo; Aldo Filho, Denilson (Chico Kim, 37?/2ºT) e Japa (Shaylon, 30?/2ºT); Alesson (Fernandino, 37?/2ºT), Edson (Carlos Eduardo, 26?/2ºT) e Bruno Santos (André Luis, 30?/2ºT)

Técnico: Rafael Guanaes

Grêmio: Weverton; Pavon, Gustavo Martins, Kannemann e Caio Paulista (Pedro Gabriel, INT); Villasanti (Leonel Pérez, INT), Nardoni (Riquelme, 34?/2ºT), Tetê (Marcos Rocha, 40?/2ºT), Gabriel Mec (Braithwaite, INT) e Amuzu (Willian, INT); Carlos Vinícius

Técnico: Luís Castro

GOLS: Bruno Santos (M), aos 15min, e Edson (M), aos 38min do 1º tempo; Carlos Vinícius (G), aos 31min do 2º tempo

CARTÕES AMARELOS: Denilson (M); Kannemann, Gustavo Martins, Leonel Pérez (G)

ARBITRAGEM: Bruno Arleu, auxiliado por Carlos Henrique Alves e Thayse Fonseca

VAR: Paulo Renato Coelho (quarteto do RJ)

PÚBLICO E RENDA: 4.593 pessoas (R$ 128.000)

LOCAL: Estádio Maião, em Mirassol (SP)

Cotação

GRÊMIO

Weverton: não teve culpa nos dois gols sofridos. 6

Pavon: a assistência para Carlos Vinícius não apaga o péssimo passe de calcanhar que deu origem ao lance do segundo gol do Mirassol. 5

Gustavo Martins: não conseguiu evitar o primeiro gol e foi discreto nas disputas mais físicas. 5

Kannemann: exposto pelos atacantes do Mirassol. Faltou velocidade e agilidade nos combates longe da área. 5

Caio Paulista: uma avenida aberta para o Mirassol explorar no lado esquerdo da defesa. Errou o bote em Edson no segundo gol. 4

Villasanti: claramente longe da melhor condição física. Sempre um pouco atrasado nas disputas. 4,5

Nardoni: novamente perdido entre a função de defender e depois ser parte da criação do time. 5

Tetê: dois chutes perigosos. Boa participação na jogada do gol gremista. 6

Gabriel Mec: sofreu uma falta perigosa. Muito preso na marcação do Mirassol. 5

Amuzu: pouca participação, até sair no intervalo devido ao protocolo de concussão. 5

Carlos Vinícius: uma chance e um gol. 6,5

Pedro Gabriel: algumas subidas perigosas ao ataque. 6

Leonel Pérez: deu mais vitalidade para a marcação no meio-campo. 5,5

Willian: deveria melhorar a produção do time. Baixou a rotação da equipe. 4,5

Braithwaite: tentou algumas combinações com Carlos Vinícius. 6

Riquelme: foi meia, atacante e ponta nos amistosos de intertemporada. Apareceu como volante no primeiro jogo após a parada. 5,5

Marcos Rocha: entrou no final. SEM NOTA

MIRASSOL

Edson Carioca teve espaço para jogar como quis. A marcação de Caio Paulista permitiu que ele fosse o principal destaque da vitória do Mirassol.

Próximo jogo

Quinta-feira, 23/7 - 19h

Bolívar x Grêmio

Estádio Hernando Siles - Copa Sul-Americana (playoffs, ida)

Bahia vence a Chapecoense em jogo da 4ª rodada

Em jogo atrasado da 4ª rodada do Brasileirão, o Bahia venceu, na noite de sexta-feira, a Chapecoense por 2 a 0. Rodrigo Nestor e Román Gómez marcaram os gols na Arena Fonte Nova.

Com o resultado, o time de Rogério Ceni chega aos 29 pontos e volta a encostar no G-5. O time catarinense se afundou ainda mais na lanterna.

Em Salvador, os donos da casa abriram o placar aos 12 minutos do primeiro tempo, com Rodrigo Nestor em cobrança de pênalti. Ainda na etapa inicial, o argentino Román Gómez ampliou, aos 33 minutos, de cabeça.

Também na sexta-feira, mas pela 19ª rodada, Fluminense e Bragantino empataram em 1 a 1. Eduardo Sasha abriu o placar e Ignácio marcou no fim do jogo. Sant?Anna e Fabinho, do lado paulista, e John Kennedy, do lado carioca, foram expulsos. 

Botafogo 2x1 Santos

Vitória 1x0 Vasco

Fluminense 1x1 Bragantino

Mirassol 2x1 Grêmio

Terça-feira

19h30min Atlético-MG x Bahia

Quarta-feira

19h30min Coritiba x Palmeiras

21h30min São Paulo x Athletico-PR

21h30min Inter x Cruzeiro

21h30min Chapecoense x Flamengo

Quinta-feira

19h30min Corinthians x Remo 

O prazer de ser um alienado

A Copa acaba neste fim de semana e já me sinto órfão da única coisa que parecia sustentar minha sanidade mental: a mais pura, cristalina e redentora alienação. Como é bom ser um idiota completo de vez em quando. Como é maravilhoso olhar para o abismo do mundo e responder com um sonoro "e eu com isso?".

Não que eu tenha abandonado minhas obrigações, que fique claro, mas meu projeto de vida, nas últimas semanas, foi basicamente derreter no sofá sob um cobertor marrom, engordando à base de pudim morno enquanto elaborava teses profundas sobre as tranças do Raphinha e a linha de cinco do Paraguai. Sempre que pude, ignorei o que importava. E foi a glória.

Alguém dirá que "enquanto você grita gol, o país desmorona", mas, em resposta, mencionarei um edificante meme que vi no TikTok, porque hoje não citarei Freud nem Hobbes nem qualquer outro sabichão, vou apenas celebrar a alienação e a cultura inútil, então falarei desse belo meme que dizia, com admirável sensatez, que "o país também desmorona enquanto você assiste àquela folha caindo da árvore no seu filme iraniano". Não é verdade?

Precisávamos desse coma induzido. A Copa serviu de oxigênio antes de sermos atirados no moedor de carne que nos aguarda ali na esquina: a eleição de outubro. Aliás, o futebol é maravilhoso porque nos permite terceirizar a angústia. Se a Seleção perde, a culpa é de onze milionários correndo de shortinho na TV. Mas, a partir de segunda-feira, a culpa de tudo volta a ser nossa. E o voto é o lembrete incômodo de que o destino desse hospício, vejam que perigo, está em nossas mãos.

Natural que bata um desânimo. O problema de passar 40 dias dopado de irrelevância é que a nossa imunidade contra a realidade despenca. Discutir as façanhas do goleiro Vozinha - que ganhou esse apelido, você sabe, porque foi criado pelos avós e vivia reclamando para sua vozinha - era o nosso recreio mental. Agora o mundo retorna às asperezas do arcabouço fiscal, do superávit primário e do trânsito da Bento Gonçalves.

Resta assinar o termo de gratidão a esse delírio de seis semanas. Obrigado por me fazer acreditar que a física quântica operava nos três centímetros que anularam aquele gol impedido. Valeu a pena gastar neurônios projetando o futuro da humanidade no contra-ataque da Argélia. A partir de segunda-feira, a realidade me confisca o crachá de idiota e exige que eu volte a ter opiniões adultas sobre o destino da nação.

Mas, até lá, por favor, não me interrompam: ainda tenho um domingo inteiro para tratar o supérfluo como caso de vida ou morte. 

PAULO GERMANO 

18 de Julho de 2026
MARCELO RECH - Marcelo Rech

O que une esquerda e direita

Uma das formas de se identificar a praga do populismo é quando políticos e governantes ignoram os ditames básicos da responsabilidade fiscal para, às custas do dinheiro público, agradar o eleitorado às vésperas de eleições. Aprovam-se benesses seletivas e distribuem-se recursos a rodo como se o Tesouro fosse um butim infinito e sem dono.

A última do populismo desenfreado é a aprovação pelo Congresso de benefícios, sem origem ou sustentação prévia, a 360 mil agentes de saúde. A bolada vai custar R$ 27 bilhões em 10 anos. Não por acaso, é chamada de pauta-bomba. Ela não explode só o orçamento. A benesse, que antecipa aposentadorias com vencimentos integrais, suga recursos que poderiam ir para hospitais, estradas, investimentos em segurança ou serem usados em momentos de emergência, como enchentes.

Há aspectos assustadores sobre como as pautas-bomba avançam no Brasil. O mais vistoso é a placidez com que políticos de todos os matizes se juntam no festim populista. Com a honrosa exceção do senador gaúcho Hamilton Mourão, que votou contra, e quatro ausências, a prebenda aos agentes foi alegremente endossada por todos os demais senadores, não importa se de esquerda, centro ou direita. Se há algo capaz de unir todo o arco político brasileiro, esse é o uso de dinheiro do contribuinte para comprar simpatias eleitorais e implodir a responsabilidade fiscal.

A noção de que o Estado deve servir primeiro a ele próprio, a seus cupinchas e aos que nele trabalham, e não à maioria silenciosa de seus cidadãos, é particularmente fértil no Brasil por culpa coletiva. Em alguns países, vota-se em candidatos que se esmeram em fiscalizar o uso dos impostos, de modo que ele seja aplicado da forma mais responsável, apropriada e com melhor retorno possível para toda a coletividade. Quem se vale de recursos públicos para espalhar bondades eleitorais é execrado.

Aqui, fazemos o contrário. Os poucos que resistem à farra são tachados de inimigos do povo, como se o povo entendesse e soubesse como seu suado dinheiro é torrado nos plenários e palácios. Reside aí, na cândida ignorância sobre como recursos públicos são manuseados ao bel-prazer de quem os controla, a origem dos penduricalhos, das emendas secretas ou não, dos desperdícios, dos privilégios e da manutenção de currais políticos mediante bolsas disso e daquilo.

Só uma república que inibisse o extrativismo do Estado por ambições políticas faria com que um dia a chaga do populismo tirasse votos, em vez de despejá-los nos seus arautos. Até lá, seguiremos com a festa de arromba nas contas públicas, com todas as suas consequências nefastas - dos juros nas alturas à sufocante carga tributária. E o eleitor? Este agradece quando a esmola cai da mesa e vota, feliz, no populista. 

MARCELO RECH

18 de Julho de 2026
EDITORIAL

Fôlego para o campo

A medida provisória 1.376/2026, que trata da renegociação das dívidas rurais, publicada pelo governo federal na quarta-feira, é o resultado da mobilização incansável de produtores, entidades do setor e parlamentares ligados ao agronegócio, que desde o início do ano passado demonstravam a necessidade de uma repactuação ampla e em condições excepcionais. Foi uma conquista sobretudo dos agricultores gaúchos, que deflagraram o movimento.

Os termos anunciados não são os considerados ideais pelo campo, que preferia o Projeto de Lei 5.122. Também não são tão limitados quanto os apresentados anteriormente pelo Ministério da Fazenda, preocupado com o impacto fiscal. Mas, como em toda negociação, em que cada parte cede um pouco enquanto tenta manter pontos centrais, são fruto do acordo possível. O desfecho atende a grande maioria dos produtores em dificuldades. Assim, podem recuperar o acesso ao crédito para tratar de preparar a safra de verão que se aproxima e se planejar para quitar os compromissos ao longo dos próximos anos sem a pressão de uma dívida que inviabilizava milhares de propriedades.

O pedido pela renegociação, no caso dos produtores do Rio Grande do Sul, era amplamente justificado. Nos últimos anos, os agricultores gaúchos foram afetados por quatro estiagens de diferentes magnitudes e por dois anos com grandes enchentes. Nenhum negócio, de nenhum ramo, suporta tamanha sequência de receitas frustradas em um período tão curto. Além do clima hostil, vieram as quedas dos preços dos grãos, o aumento dos custos de produção, como combustíveis e fertilizantes, e o garrote do juro.

A crise já era dramática, atingindo produtores de todos os portes. A possibilidade de repactuação, com prazos maiores de pagamento e juro menor, é um fôlego justo para quem produz alimentos, ajuda a sustentar a balança comercial brasileira, movimenta uma grande cadeia de negócios antes e depois da porteira e, no RS, também influencia o PIB pelos reflexos no desempenho da indústria, dos serviços e do comércio nos centros urbanos.

A MP beneficia produtores e cooperativas que tiveram prejuízos entre 2019 e 2025 por problemas climáticos ou de mercado em ao menos duas safras, desde que comprovem os prejuízos com laudos. O Ministério da Fazenda calcula que cerca de R$ 100 bilhões em dívidas serão repactuados, com juro que vai de 5% a 12% ao ano, conforme a extensão das perdas e o porte da propriedade. O custo para o Tesouro Nacional é estimado em R$ 3,6 bilhões por ano. Os prazos de pagamento serão de oito a 10 anos, incluídos dois de carência. Foram solucionadas pendências relativas às garantias e incluídas as chamadas Cédulas de Produtor Rural (CPRs), títulos de crédito utilizados no financiamento agropecuário. Não estão contempladas dívidas contratadas fora do sistema bancário.

Convém, agora, aguardar a regulamentação da medida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e acompanhar a operacionalização da renegociação pelos bancos. Mas os riscos climáticos continuam. A renegociação conquistada não deve levar à procrastinação da busca por medidas estruturantes, como políticas que impulsionem a irrigação e a viabilização do fundo garantidor para o setor, também previsto na MP. É preciso evitar que um quadro semelhante de endividamento e inadimplência em larga escala se repita nos próximos anos. 


18 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Caiado aposta na desidratação de Flávio Bolsonaro

Com o fim da Copa do Mundo, as convenções e o início da campanha eleitoral, com os primeiros debates, o candidato do PSD a presidente, Ronaldo Caiado, está confiante de que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) vai derreter. Em conversa com a coluna, no final da tarde de sexta-feira, depois de almoçar com o prefeito Sebastião Melo e com os candidatos da aliança MDB-PSD, Caiado detalhou sua visão da campanha e de onde vem o otimismo com a perspectiva de quebrar a polarização entre Flávio e o presidente Lula.

Caiado está convencido de que a candidatura de Flávio se desidratará sem que os adversários precisem atacá-lo, como consequência de uma combinação entre a fragilidade natural do candidato, a briga familiar com Michelle Bolsonaro, o tarifaço e os erros cometidos por ele, pelo irmão Eduardo e pelo influenciador Paulo Figueiredo, com as declarações ofensivas às mulheres.

Entre as fragilidades de Flávio que Caiado considera fatais para a candidatura, estão o crescimento inexplicável do patrimônio, incluindo a mansão financiada pelo Banco Regional de Brasília, o envolvimento com Daniel Vorcaro, a dificuldade de articulação no PL, a rejeição no eleitorado feminino, a falta de experiência administrativa, o despreparo para debater os grandes temas do Brasil e, agora, a foto do Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, para a qual o senador apresentou diferentes versões desde que foi divulgada.

Caiado segue direcionando suas críticas mais pesadas a Lula, mas sabe que no primeiro turno o adversário a ser combatido é Flávio, com quem disputa os votos dos eleitores de direita. E tentará convencer os antipetistas de que votar em Flávio significará dar mais quatro anos de mandato ao PT. Para conquistar os eleitores indecisos e os que hoje estão com Flávio, a campanha de Caiado vai explorar seu currículo de gestor público, médico, ex-deputado e ex-senador e mostrar os avanços ocorridos em Goiás nos seus mandatos, como o primeiro lugar no Ideb, a liderança no uso da inteligência artificial e no desenvolvimento de plataformas, a exploração de terras raras e minerais críticos e o investimento em ciência e tecnologia. _

aliás

Nas visitas ao interior do Rio Grande do Sul, Ronaldo Caiado constatou que, mesmo o Estado sendo um dos mais bolsonaristas do Brasil, o apoio a Flávio é tímido. Por isso, acredita que, se conseguir quebrar a polarização na eleição presidencial, o candidato da aliança MDB-PSD ao Piratini, Gabriel Souza, subirá junto nas pesquisas.

Mais um tropeço na campanha

No contexto da campanha eleitoral, a imagem da semana que se encerra não é nova. É de 2022 e mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL) sem camisa, aparentemente na área da piscina do Hotel Fasano, um dos mais luxuosos do Rio de Janeiro, na companhia de Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, espécie de jagunço de Daniel Vorcaro, que atentou contra a própria vida logo depois de ser preso.

Flávio já apresentou diferentes versões para a foto, sempre garantindo que não conheceu Sicário.

No primeiro momento, disse que, como pessoa pública, tira fotos com desconhecidos.

Depois, seguindo a trilha do irmão Eduardo Bolsonaro, questionou a autenticidade da foto, insinuando que a imagem pode ter sido produzida por inteligência artificial. Na sexta-feira, a plataforma brasileira de autenticidade digital Signaip analisou a fotografia e não encontrou indícios de uso de inteligência artificial na imagem. 

Jairo Jorge abandona a política

Depois de enfrentar uma série de percalços em seu último mandato como prefeito de Canoas, com sucessivos afastamentos do cargo pela Justiça, e de perder a eleição de 2024, o jornalista Jairo Jorge decidiu "pendurar as chuteiras". Na segunda-feira, ele assume a nova Superintendência de Relações Governamentais e Cidades na Ulbra, voltada ao desenvolvimento dos municípios.

- Estou encerrando meu ciclo na política. Na Ulbra, vou usar minha experiência de três mandatos de prefeito para ajudar uma nova geração de prefeitos a qualificar e inovar na gestão. Estou muito motivado - disse Jairo à coluna.

A nova estrutura é estratégica para a universidade. Por meio do projeto Ulbra Cidades, a instituição busca se consolidar como o principal polo de inteligência aplicada à modernização urbana no sul do Brasil. 

Mudança descartada

Depois de Eduardo Leite vetar o fim da taxa de licenciamento veicular, o governo do Estado estuda a possibilidade de enviar um projeto alternativo à Assembleia Legislativa, prevendo apenas redução do valor, em vez da extinção da cobrança.

Parlamentares da oposição à direita foram sondados nos últimos dias pela base do governo na Assembleia, que sugeriu a ideia para testar a aceitação de uma proposta que concilie os dois lados. O veto de Leite foi criticado por deputados de PL, PP e Novo, que seguem irredutíveis e mantêm a defesa pelo fim da taxa. A esquerda também já declarou ser favorável a acabar com a cobrança e não deve mudar o posicionamento. 

A viúva do ex-governador Alceu Collares (PDT), Neuza Canabarro, engajou-se na campanha de Luciano Zucco (PL) para o Piratini. Em 2022, também declarou apoio ao PL de Onyx Lorenzoni e Jair Bolsonaro.

POLÍTICA E PODER

18 de Julho de 2026
NFORME ESPECIAL -´Rodrigo Lopes

A TV pública e o exemplo húngaro

Passou quase despercebido por aqui, mas o dia 7 de julho deveria virar um case de análise para todos aqueles que defendem o papel social da imprensa profissional. Naquela terça-feira, às 16h em Budapeste, o canal de notícias M1 exibiu uma tela preta com a seguinte mensagem: "A mídia pública não deve mentir. Pedimos desculpas por termos feito isso durante tanto tempo. A mídia pública será reformada para se tornar independente e confiável. Nosso serviço de notícias está temporariamente suspenso. Fique ligado!".

Todos os telejornais e programas de política transmitidos pelos canais públicos de televisão e rádio da Hungria, reunidos no conglomerado MTVA, exibiram essa mesma mensagem por quase quatro horas. Durante os 16 anos em que Viktor Orbán esteve no poder, a emissora divulgou notícias estapafúrdias, propagou desinformação e, por vezes, veiculou versões tão absurdas quanto perversas: de que migrantes árabes e africanos eram criminosos que estupravam meninas húngaras indefesas; de que o Estado ucraniano, supostamente dominado por uma máfia, desejava sacrificar sua geração mais jovem na guerra e roubar milhões de aposentados húngaros; e por aí vai.

Diferenças

TV pública é diferente de TV estatal. A primeira pertence à sociedade, é financiada pelo Estado ou por recursos públicos, deve prestar contas ao cidadão e fiscalizar o próprio governo. Já uma TV estatal funciona como instrumento de comunicação do governo, prioriza a agenda oficial e, por isso, possui menor autonomia editorial. Melhor exemplo do mundo, a BBC é financiada por recursos públicos, mas sua obrigação é informar, fiscalizar e incomodar Westminster e Downing Street. A Televisión Española (TVE), por sua vez, viveu altos e baixos. Abraçou o franquismo durante a ditadura, mas, desde a redemocratização, trava uma disputa permanente para fortalecer sua autonomia editorial.

A MTVA, ao contrário, aproximou-se de modelos hoje observados na Venezuela chavista-madurista e na Rússia de Vladimir Putin.

No Brasil, o debate sempre foi como impedir que uma TV pública se transforme em TV de governo. A própria lei que criou a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em 2007, estabeleceu o conceito de comunicação pública, voltada ao interesse da sociedade, e não apenas à divulgação dos atos do Poder Executivo. A missão institucional da TV Brasil é justamente ser uma televisão pública, independente e democrática, complementar ao sistema privado. Mas isso está longe de ser simples.

Uma comunicação pública verdadeiramente independente depende de mecanismos permanentes de participação social, governança e proteção institucional. Que, ao menos, as instituições brasileiras, quando discutirem formas de fortalecer essa independência para que ela não dependa da boa vontade do governo de plantão, se lembrem da lição deixada pelo caso húngaro. _

Novas escolas na Capital

Estão definidos os locais onde serão construídas as 10 novas escolas de Educação Infantil como parte da parceria público-privada (PPP) da prefeitura de Porto Alegre.

Os prédios devem ficar prontos até 2028. Com isso, cerca de 1,8 mil vagas seriam criadas em até dois anos.

A coluna obteve imagens de projetos referenciais usados para a modelagem. Agora, a concessionária irá trabalhar para um modelo similar para as unidades da cidade. _

Bloco Norte - Uma no Rubem Berta, uma no Santa Rosa de Lima e duas no Mario Quintana.

Bloco Centro - Uma no bairro Santo Antônio e uma no Jardim do Salso.

Bloco Sul - Uma na Aberta dos Morros, duas na Hípica e uma na Restinga.

Delegação chinesa visita Grupo RBS

Visitaram o Grupo RBS o ministro conselheiro da Embaixada da China no Brasil, Ji Wei, a terceira secretária da embaixada, Sun Jing, e a terceira secretária do Consulado Geral em São Paulo, Ding Jiahui. Acompanharam o grupo o professor Diego Pautasso, especialista em China, e o pró- reitor de Desenvolvimento Institucional do IFRS, Lucas Coradini.

A delegação foi recebida pelo editor Leandro Fontoura e por este colunista. _

Quem é o futuro primeiro-ministro do Reino Unido

O ex-prefeito da Grande Manchester Andy Burnham foi confirmado na sexta-feira como o novo líder do Partido Trabalhista britânico. Com isso, Burnham está a um passo de se tornar o primeiro-ministro do Reino Unido, o que deve se confirmar na segunda-feira, quando ele se tornará o sétimo chefe de governo britânico em uma década. Único candidato na disputa, ele sucederá o atual premiê Keir Starmer, que renunciou ao cargo há quase um mês após enfrentar intensa instabilidade política e pressão interna.

Trajetória

A consolidação de Burnham como nome de consenso ocorreu após seu retorno ao Parlamento em junho de 2026, quando renunciou à prefeitura para vencer uma eleição especial (by-election) pelo distrito de Makerfield.

Essa, porém, está longe de ser a sua primeira passagem pelo centro do poder em Londres. Entre 2001 e 2017, Burnham foi parlamentar e integrou os gabinetes de Tony Blair e Gordon Brown, ocupando os ministérios da Saúde e da Cultura. Na época, chegou a disputar - e perder - a liderança do Partido Trabalhista por duas vezes. Ele retornou à sua região natal para disputar o recém-criado cargo de prefeito da Grande Manchester, em 2017.

Foi justamente a gestão local que o projetou nacionalmente. Ao se posicionar como um contraponto firme às decisões de Westminster e evidenciar a profunda divisão socioeconômica entre o norte e o sul do país, Burnham ganhou o apelido de "Rei do Norte".

Vale lembrar que o Reino Unido não elege o seu primeiro-ministro diretamente. O chefe de governo é escolhido pelos parlamentares do partido majoritário na Câmara dos Comuns - posto ocupado hoje pelos trabalhistas - e o cargo, por convenção, cabe ao líder da sigla. _

Ajuda humanitária aos deslocados

O Médicos Sem Fronteiras (MSF) abre, na próxima segunda-feira, a exposição interativa O Que Se Leva no BarraShoppingSul, em Porto Alegre. A mostra apresenta histórias reais de pessoas que tiveram de deixar suas casas e enfrentar os desafios da migração, do refúgio e do deslocamento forçado.

Na exposição, o público tem acesso a mais de 20 fotografias e testemunhos de migrantes e refugiados que deixaram tudo para trás, exceto alguns poucos objetos carregados de memórias de familiares e amigos. Ao caminhar pelo espaço, painéis fotográficos mostram as principais causas do deslocamento forçado - como a crise climática e os conflitos armados - e a resposta humanitária do MSF para salvar vidas, com destaque especial para a atuação nas Américas e no Mar Mediterrâneo. O evento tem entrada franca. _

INFORME ESPECIAL

sexta-feira, 17 de julho de 2026

17 de Julho de 2026
MARCO MATOS

O que ganhei com a maratona

42.195 metros é só uma distância. Concluir uma maratona, porém, é algo muito maior do que simplesmente terminar de correr tudo isso.

A maratona nasce meses antes do dia da prova. São muitas semanas de preparação, de adaptação da rotina, de foco em hábitos saudáveis e de mudanças que vão muito além dos treinos. É preciso reconfigurar a alimentação, respeitar o descanso e preparar o corpo e a mente para encarar desafios cada vez maiores.

São horas e horas de dedicação. Alguns treinos passam de duas horas e meia. Organizar a vida para cumprir pelo menos quatro sessões de corrida por semana, além do fortalecimento na academia, exige disciplina, comprometimento e, acima de tudo, prioridade.

Ao longo dessa jornada, aprendi a abrir mão de tudo aquilo que não contribuía para o objetivo. Dormir tarde? Nem pensar. Trocar um treino pela cama quentinha? Sem chance. Cada escolha passou a ter um propósito claro. E foi justamente essa clareza que transformou não apenas minha preparação esportiva, mas também minha forma de enxergar a vida.

Semana após semana, a gente aprende a conhecer melhor o próprio corpo. Descobre sinais que antes passavam despercebidos, entende limites e, principalmente, percebe que muitos deles existem apenas na nossa cabeça. A maratona é uma experiência extraordinária porque ensina, na prática, que somos capazes de realizar muito mais do que imaginamos.

Durante a preparação, consegui alinhar diversas áreas da minha vida que estavam precisando de mais atenção. A maratona não permite improvisos. Não há atalhos. O planejamento é uma parte fundamental do processo, mas ele só tem valor quando é colocado em prática diariamente. Levar essa lição para além do esporte é um dos maiores presentes que essa experiência oferece.

No dia da corrida acordei ansioso. Nervoso mesmo. Por mais que os treinos indicassem que eu estava pronto, os questionamentos apareciam sem pedir licença. E se uma câimbra me tirasse da prova? E se eu não suportasse correr tanto tempo? E se precisasse caminhar? Foram muitas dúvidas que desapareceram assim que cruzei a linha de largada.

Os 42 quilômetros foram vencidos um de cada vez. Não existe outra maneira. Ninguém corre uma maratona pensando nos 42 quilômetros o tempo inteiro. Minha estratégia foi simples: sentir o corpo, encontrar o ritmo e continuar correndo. Um passo após o outro.

Foram 3 horas e 34 minutos sem parar. Ainda assim, ouvi cada incentivo. Por isso, deixo meu agradecimento a todos que gritaram meu nome ao me ver passar, aos amigos que suportaram meu assunto quase exclusivo nos últimos meses, a vocês que acompanharam aqui as colunas sobre essa preparação, aos parceiros de treino e aos profissionais que caminharam comigo nessa jornada: treinadores, fisioterapeuta e médicos.

Cruzar a linha de chegada não mudou quem eu sou. Mas mudou a forma como eu vejo aquilo de que sou capaz. Parece bobagem, mas, de um jeito difícil de explicar, tudo ficou diferente depois daquele momento. Porque a maior conquista da maratona não foi completar 42.195 metros. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

17 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Que a racionalidade volte a preponderar

O novo tarifaço imposto pelo governo norte-americano contra o Brasil demonstra outra vez que os fatores políticos preponderaram sobre a lógica econômica. É lamentável que diferenças dessa ordem, alimentadas por interesses que não são os dos dois povos, tenham levado a relação entre os países ao pior momento em mais de 200 anos de convivência diplomática.

Com o ruído entre os canais oficiais, resta persistir nas negociações via setor privado, com as empresas nacionais mantendo contato com clientes dos Estados Unidos e suas associações, para que esses continuem a tentar influenciar a Casa Branca na busca por ao menos ampliar a lista de bens que escaparam da oneração. O Rio Grande do Sul é um dos Estados mais afetados. Metade da pauta gaúcha, pela forte presença de produtos industriais acabados, como máquinas e calçados, deve ser impactada. É preciso insistir em demonstrar o quanto a medida prejudica importadores e consumidores. O eventual uso da Lei de Reciprocidade teria de ser muito bem calculado.

As taxas adicionais contra as exportações brasileiras, agora de 25% sobre uma série de itens, não têm respaldo nas justificativas utilizadas por Donald Trump para erguer barreiras tarifárias. O republicano sempre argumentou que o objetivo era combater o déficit nas trocas com os demais países. O Brasil é um dos poucos que mais compra do que vende para os EUA. Mesmo assim, agora é o segundo parceiro mais sobretaxado pela Casa Branca, atrás apenas da China, o grande rival geopolítico e econômico dos norte-americanos.

O componente político é patente desde o anúncio do primeiro tarifaço contra o Brasil, no ano passado, quando Trump divulgou uma carta vinculando a taxa proibitiva de 50% ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. À tentativa inicial de ingerência seguiram-se a reabertura do diálogo diplomático e contatos entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os capítulos recentes desse episódio e o desfecho desta semana põem em dúvida se de fato existia margem razoável de negociação, se havia disposição para transigir e mesmo sobre quais termos as tratativas eram conduzidas.

Em meio aos contatos empresariais e diplomáticos, a família Bolsonaro continuava a incitar a ala mais ideológica da Casa Branca a aplicar sanções contra o Brasil. O tarifaço de agora teve, por parte dos EUA, demandas inaceitáveis, como algum recuo ainda não bem explicado sobre o uso do Pix, e alegações baseadas em dados defasados, como os de desmatamento. As repetidas críticas públicas de Lula a Trump e ao governo norte-americano, mesmo que tenham fundo de razão, por certo não contribuíram para a Casa Branca ter maior boa vontade. O discurso da soberania brandido por Lula obedecia também a uma lógica eleitoral. A manifestação de ontem do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, dizendo que Lula e o governo brasileiro não negociaram de boa-fé e que o petista colocou à frente "o seu próprio ego" escancara ainda mais o viés político da desavença.

Conta-se que esse impasse seja apenas um momento transitório no histórico de vínculos econômicos e institucionais entre EUA e Brasil e que em um prazo não muito distante a racionalidade volte a preponderar. No futuro, esse episódio merece ser lembrado apenas como exemplo do potencial ruinoso do radicalismo. 

17 de Julho de 2026
RELAÇÕES COMERCIAIS

RELAÇÕES COMERCIAIS

Metade das exportações do Estado aos EUA será atingida por tarifaço

Levantamento técnico da Fiergs aponta que apenas 2% do volume financeiro comercializado com os Estados Unidos conseguiu escapar da

nova taxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Setores de calçados, metalurgia e máquinas são os mais afetados

A nova sobretaxa de 25% anunciada pelo governo dos Estados Unidos na noite de quarta-feira vai atingir em cheio o comércio exterior do Rio Grande do Sul. Segundo levantamento técnico da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), a barreira alfandegária impactará diretamente quase metade das vendas gaúchas (48,2%) ao mercado norte-americano, que é o segundo principal destino das exportações do Estado.

No caso do Brasil, segundo o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, a sobretaxa deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.

A medida da administração de Donald Trump passa a valer a partir do dia 22, com base em apurações feitas por Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês). A decisão norte-americana foi tomada no âmbito de investigação conduzida sob a seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

A apuração iniciada há um ano pelo USTR concluiu que certas práticas brasileiras são descabidas e oneram ou restringem o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores norte-americanos. Entre as medidas citadas pelo USTR, estão "práticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; interferência anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal". O governo rechaçou as alegações (leia mais na reportagem abaixo).

Ao somar a nova alíquota às restrições setoriais que já vigoravam para o aço e o alumínio (sob a seção 232), 85,1% de tudo o que o Rio Grande do Sul vende aos EUA passará a sofrer algum tipo de taxação extra.

Nichos

Apenas 2% do volume financeiro exportado pelo RS conseguiu escapar da nova tarifa - com isenções restritas a nichos muito específicos, como alguns tipos de pescados e itens de couro.

O presidente da Fiergs, Claudio Bier, avalia que o aumento do custo de acesso ao mercado americano coloca as empresas gaúchas em severa desvantagem frente a concorrentes internacionais.

- A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China - analisa Bier.

Com a nova tarifa, a Abicalçados, por exemplo, revisou sua projeção para as exportações totais de calçados em 2026, estimando queda média de 7,1%, piora de 3,5 pontos porcentuais em relação à previsão anterior, de retração de 3,6%.

O USTR publicou lista com mais de 2 mil produtos que ficaram isentos da taxação. Além de carne bovina, café, laranja e suco de laranja, que já constavam de rol divulgado pelo órgão em junho, itens como mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e de aço, peixes e frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos foram excluídos da taxa. Entre os 50 produtos brasileiros mais exportados para os EUA em 2025, ficam de fora da nova cobrança petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.

O governo americano disse que rejeitou solicitações de pedidos de isenção para outros produtos, como vestuário, calçados e máquinas agrícolas e industriais. Os EUA justificam a isenção afirmando que os insumos são matérias-primas que poderiam levar à indisponibilidade de oferta doméstica e causar "perturbações" na economia do país caso fossem submetidas à nova tarifa. _

A situação

Os setores produtivos gaúchos mais expostos

Máquinas e equipamentos

Calçados e metalurgia

Equipamentos elétricos, móveis e tabaco

Cronograma de transição

22 de julho de 2026: início da vigência da nova tarifa de 25%.

29 de julho de 2026: prazo-limite para a entrada de mercadorias isentas nos EUA, desde que o embarque tenha ocorrido antes da data de início da vigência.

Governo Lula repudia sobretaxa e avalia uso da Lei de Reciprocidade

O governo brasileiro divulgou nota repudiando a sobretaxa de 25% sobre produtos nacionais. O comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República e compartilhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em rede social, destaca que o Brasil não reconhece a legitimidade das investigações dos EUA, que não teriam amparo nas regras multilaterais de comércio. E acrescenta que não há justificativa para medidas unilaterais norte-americanas contra o Brasil.

O comunicado diz que a Lei de Reciprocidade brasileira será acionada imediatamente, além de instrumentos para solução de conflitos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). "O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável", diz a nota.

Ontem, Lula reuniu vários ministros para tratar do assunto. Após o encontro, o titular das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o novo tarifaço teve "motivação política" e "não tem lastro na realidade". E afirmou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atacou o chefe de Estado de um país amigo "de forma grosseira". Na madrugada de quinta-feira, Rubio disse que Lula e o governo brasileiro "não negociaram de boa-fé", que o chefe do Executivo "colocou seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro" e que as políticas econômicas adotadas pelo presidente são "ruins para os americanos e ruins para os brasileiros".

Para Vieira, o que incomoda os norte-americanos é o fato de o Brasil "não ter se curvado" a demandas da gestão Trump, como a abertura total e exclusiva de setores da economia nacional aos interesses dos EUA:

- Em outras palavras, exigiam capitulação.

Em outra entrevista, o vice­presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, disseram que as empresas afetadas pelo tarifaço poderão contar com ajuda do governo federal. Alckmin contestou as alegações norte-americanas para justificar a sobretaxa e disse que a medida é "injusta e descabida". Ao lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou a decisão como "interferência indevida externa".

Conforme a nota brasileira, nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, houve 78 intervenções de representantes do setor privado dos dois países, das quais 63 foram contrárias ao tarifaço. O comunicado ressalta que nos últimos 15 anos os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil. "Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%", diz a nota. 

17 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Resposta dura, mas de manual

O Brasil decidiu responder dentro do protocolo diplomático clássico. Não entrou na lógica de Donald Trump de personalizar conflitos. Não transformou a crise comercial em uma disputa entre Lula e Trump. Não respondeu postagem por postagem em redes sociais. Ou seja, optou pelo caminho institucional.

A reação, ao menos até agora, segue a cartilha da Casa de Rio Branco, ao preservar interlocutores, respeitar a hierarquia, produzir registros formais e demonstrar que a negociação ocorreu antes de qualquer medida de retaliação.

O discurso adotado pelo ministro Mauro Vieira, o porta-voz do governo na reação ao tarifaço, chama atenção pelo tom duro dirigido ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Mas, repare, foi uma resposta de chanceler para chanceler, preservando a hierarquia institucional e evitando transformar uma crise comercial em um embate pessoal entre chefes de Estado.

Reação madura

O governo poderia ter escolhido outro caminho. Lula poderia ter convocado cadeia de rádio e TV para responder diretamente a Trump ou elevar o confronto retórico. Não o fez. Ao colocar na mão de Vieira, o Brasil envia uma mensagem adulta, de que trata o episódio como uma questão de Estado, não como um duelo entre presidentes - a ver até quando esse tom será mantido, especialmente a partir de falas de improviso do presidente brasileiro a partir de hoje e à medida que a campanha eleitoral avançar.

Trump aparece apenas duas vezes no discurso, ao referir tentativa de interferência no Judiciário. Mas, em vez de atacar o presidente americano, concentra críticas na investigação da Seção 301, no caráter unilateral das tarifas e na ausência de fundamento econômico.

Isso é relevante porque, ao medir palavras, o Itamaraty procura manter aberta a possibilidade de negociação. Não fecha portas. Mais: procura construir um histórico:

Vieira faz questão de listar as mais de 30 reuniões entre os dois lados, 11 contatos diretos com Rubio, duas defesas técnicas, viagens a Washington e conversas entre os presidentes.

O Brasil tenta construir uma narrativa para mostrar à comunidade internacional - e eventualmente à OMC - que negociou de boa-fé e esgotou os canais diplomáticos antes da escalada comercial. Em vez de dizer que Trump "está errado", ele demonstrou por que os argumentos americanos são pouco consistentes. _

Rei Charles vai afogar as mágoas

"Talvez seja um bom dia para afogar algumas mágoas". Foi o que disse o rei Charles III, acompanhado da rainha Camila, ontem, ao tomar algumas cervejas na cervejaria Hall & Woodhouse Badger em Blandford, Dorset. O fato ocorre um dia após a Inglaterra perder, de virada, para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo de 2026, na quarta-feira.

Entrevista - Diego Pautasso

Doutor em Ciência Política, graduado em Geografia e professor da rede federal

"Vilanizar a China serve para que os EUA não enfrentem seus problemas internos"

Nas últimas décadas, a ascensão da China foi acompanhada por uma avalanche de narrativas antichinesas. Para o governo dos Estados Unidos, o país seria uma ameaça à democracia liberal, uma nação que compete de maneira desigual e uma potência neoimperial. Mas como esse discurso é produzido e a quem serve? Esse é o tema do livro Quem Tem Medo da China? A Construção da Ameaça Chinesa (Editora de Cultura), de Diego Pautasso e Isis Paris Maia. Pautasso conversou com a coluna.

A suposta ameaça chinesa é real ou construída?

Do ponto de vista do livro, ela foi construída como uma narrativa para contê-la (a ameaça). Agora, só faz sentido se construir uma narrativa para contê-la, uma vez que essa seja uma ameaça real aos Estados Unidos ou a determinadas elites do Ocidente. Porém, a ameaça chinesa não é sobre o poder do Partido Comunista ou a pretensão de destruir a civilização ocidental. Não há uma coincidência entre o que se vocifera como narrativa e aquilo no qual a China é realmente competitiva. A China se apresenta como uma alternativa sistêmica que faz um contraponto estratégico e decisivo à liderança que os EUA até então vinham exercendo.

Essa vilanização da China não é algo novo na história. Em outros momentos, rivais do Ocidente foram também tratados como inimigos.

Exato, trata-se da construção de inimigos como forma de legitimidade. Essa produção de legitimidade passa, por um lado, por vender a ideia de que estou oferecendo o melhor: a responsabilidade de proteger, a democracia, o livre mercado, e uma série de coisas que são vendidas como um pacote de bondades. Mas, por outro lado, isso é combinado com uma estratégia de vilanização de todos aqueles que não querem esse pacote de bondades, que resistem ou que propõem algo alternativo. Nesse caso, a ameaça pode ser os nazistas, os soviéticos, o perigo amarelo, o fundamentalismo islâmico ou o terrorismo na América Latina, que está na ordem do dia.

Costuma-se chamar a disputa entre EUA e China de uma nova Guerra Fria. O senhor concorda com essa expressão?

Os EUA estão procurando dar o mesmo remédio, ou seja, a Guerra Fria, usar a mesma estratégia, a mesma construção de ameaças (da época da Guerra Fria). Porém, e aí que está o equívoco americano: o mesmo remédio para uma doença diferente. A China do século 21 não tem absolutamente nada a ver com a União Soviética do século 20. Enquanto a União Soviética estava contida e restrita a um bloco, a China tem uma projeção global.

Ao acusar a China de autoritarismo e violação de direitos humanos, os EUA ocultam seus próprios erros, como torturas no Iraque e no Afeganistão?

As pessoas falam: "Olha o Tibete, Xinjiang". Não é que não haja contradição. Um país com 1,3 bilhão de habitantes, com 56 etnias, com desigualdades sociais e regionais, tem contradições sociais e étnicas. A questão não é a existência ou não disso, que é importante. Primeiro, isso é colocado de maneira seletiva com o objetivo de atacar a China, de cercá-la. Isso também serve para, seletivamente, não falar de outros casos que não são convenientes: a Arábia Saudita, as petromonarquias. Também serve para não enfrentar, tal como no caso da competição econômica, os seus problemas internos: os EUA têm uma população carcerária, uma drogadição em expansão, que, aliás, também tentam atribuir à China ou à América Latina a responsabilidade. Eles têm de olhar no próprio espelho.

E o Brasil, como deve se equilibrar entre a China e os Estados Unidos?

Parece relativamente óbvio que o alinhamento automático não interessa ao Brasil. Mas aí entra o ponto: a gente não vai casar com ninguém na festa, vai barganhar as melhores condições. Mas tu não entras em um jogo da Libertadores se tu não quiser bola dividida. Vai ter bola dividida, esse é o ponto fundamental: não querer alinhamento automático e querer barganha é muito bom até o momento que começa o jogo. Na hora que começa o jogo, a gente vai ter de fazer uma leitura objetiva dos custos da tomada de decisão e de qual a maior ou quais as maiores janelas de oportunidades. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 16 de julho de 2026

16 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Diante do Alzheimer

Cuidar de alguém com Alzheimer é um desafio ensandecido. Os familiares perdem também a sua identidade, sendo confrontados com o apagão do seu ente querido. É comum se perceber desvalorizado, humilhado, rejeitado. Afinal, você não ganha nenhuma recompensa, agradecimento, reconhecimento. O elogio, quando feito, não dura para a manhã seguinte. É um trabalho de Sísifo, de transportar a pedra para o topo da montanha e vê-la deslizar de volta para a sua origem. Não há permanência dos dados, registro, livrinho dos diálogos, mesmo os mais marcantes e sublimes.

É um monólogo, uma doação unilateral, como amar presencialmente uma ausência. A autora argentina Julieta Correa costuma dizer que é quando as palavras viram as costas. Estima-se que 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais enfrente o drama. A taxa aumenta drasticamente com a idade, indo de cerca de 2% (na faixa de 65 a 69 anos) para 36% (acima de 90 anos).

Os números, já alarmantes, são mascarados pela subnotificação. Aproximadamente 80% dos idosos com demência não possuem diagnóstico formal, devido à normalização cultural da amnésia.

Aqueles que fornecem apoio descrevem um tipo de luto que começa antes da morte. A pessoa conserva a aparência intacta, mas a sua mente distorce os fatos, salteia cronologicamente os acontecimentos, confunde os interlocutores e se distancia de quem era. É uma despedida sem data, sem cerimônia e sem intervalos.

Não existe mais a reciprocidade tradicional. O cuidador continua oferecendo amor, mas deixa de receber retorno. Vigora o estresse de uma vigilância vitalícia. É preciso conferir se tomou os remédios, se fechou a porta, se saiu de casa, se caiu, se acordou de madrugada. O sono é entrecortado de sobressaltos, e o enfermeiro familiar adoece junto, com dores lombares, hipertensão, queda da imunidade.

Mergulha-se num looping de agulha arranhada no vinil, numa adaptação desfalcada de futuro, mobilizando-se a responder a uma pergunta 20, 30, 50 vezes num só turno, repetindo dilemas de pesar e constrangimento ao explicar onde está um indivíduo que morreu décadas atrás.

É inútil apresentar documentos e fotografias, na busca desesperada de remontar o quebra-cabeça e salvar fragmentos da personalidade.

Surge a culpa por não se considerar suficiente, por não conseguir manter a calma, por sentir vontade de fugir, por pensar em uma instituição, por desejar, com todas as forças restantes, um par de horas sozinho.

Convites rareiam, romances se tornam inviáveis, viagens são quase impossíveis no plantão emocional, no esgotamento silencioso. Amigos se afastam, frequentemente por não saberem como colaborar. A vida encolhe até parar por completo.

O filho passa a ser pai dos pais, encarregando-se da higiene, trocando as roupas, levando a comida à boca, improvisando colo.

A parte mais difícil, no meio de tantas adversidades monstruosas, é ser repositório da agressividade. Alguns com a moléstia são paranoicos. Acusam os mais íntimos de roubo, perseguição, abandono. Recusam banho, alimentação, medicação. É um trauma ouvir insultos de um perfil anteriormente carinhoso.

Uma leitora me contou o que vem experimentando ao lado de seu pai. Ele não entende que ela é sua filha, não recorda nada. E ela me falou algo tão bonito dentro das limitações brutais da convivência: se não pode dar para o pai a alegria de ser filha, pode ainda dar para ele a alegria de ser uma visita. Se ele esquece que ela é sua filha, ela jamais esquecerá que ele é seu pai.

Uma visita muda a cor do dia. Você não tem como devolver a memória, mas tem como melhorar o presente, o instante, o agora.

O afeto talvez fique na pele, e não esmoreça com a doença nem com o tempo. 

CARPINEJAR

16 de Julho de 2026
ROGER LERINA

Argentinidade

É como se fosse um sonho perturbador: ando pelas ruas cercado de bandeiras da Argentina nas janelas das casas, vitrinas das lojas, para-brisas dos carros; todos os aparelhos de televisão exibem entrevistas com jogadores da seleção enquanto comentaristas papagueiam seus prognósticos; como o Grande Irmão de 1984, Lionel Messi me vigia em qualquer lugar estampando anúncios em que comemora um gol ou vende algum produto. "Cerrado", informa na porta do café a plaquinha com o craque sorrindo e segurando um cartão de crédito. Em Buenos Aires por estes dias, a argentinidade é quase tóxica.

Estou em uma das cidades que mais amo por conta de um encontro familiar para comemorar o aniversário da minha sobrinha, nascida e criada na Argentina. Calhou de a celebração coincidir com o Mundial e, mais notável ainda, com o avanço heroico de La Albiceleste no campeonato. Como era de se esperar, a capital portenha está tomada pelo espírito da disputa futebolística e pelas vitórias que estão embalando o time rumo à final. 

Escrevo no dia do jogo da Argentina contra a Inglaterra, que vai definir o adversário da Espanha na final e que carrega, para além da rivalidade esportiva, as cicatrizes históricas, políticas e sociais deixadas pela Guerra das Malvinas em 1982, quando mais de 600 argentinos morreram defendendo as ilhas que os britânicos chamam de Falklands. (Vou assistir à partida em um bar. Aguardem a coluna da semana que vem para saber se sobrevivi.)

Penso como estariam Porto Alegre e outras grandes cidades brasileiras hoje se a nossa seleção não tivesse naufragado. Certamente também estaríamos tomados pelo sentimento de triunfo - creio, porém, que essa manifestação seria diferente daquela dos argentinos. Cada povo tem uma forma própria de expressar seu amor pátrio, e mesmo no seio das nações as identidades são várias e não raro antagônicas entre si. 

O argentino é um tipo culto, cosmopolita e europeizado como Jorge Luis Borges, mas também é um sujeito do campo, ligado à terra e aferrado às tradições, qual tantos personagens dos contos do grande escritor; pode ir de Buenos Aires a Paris em um pulo como Horacio Oliveira em O Jogo da Amarelinha, romance de Julio Cortázar, ou permanecer afundado na miséria latino-americana como o pequeno Juanito Laguna dos quadros do pintor Antonio Berni.

Mas é melhor interromper essas divagações por aqui: Messi já está me olhando com aquela cara feia que fez para o atacante holandês logo após a partida das quartas de final da Copa no Qatar, em 2022, dizendo "¿Qué mirás, bobo? ¡Andá pa? allá!". _

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

16 de Julho de 2026
OPINIÃO - Douglas Martello

A Grande Porto Alegre no centro do debate

Presidente da Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (Granpal) e prefeito de Alvorada

Pela primeira vez em seus 41 anos de história, a Associação dos Municípios da Grande Porto Alegre (Granpal) reuniu pré-candidatos ao governo do Rio Grande do Sul e ao Senado Federal para discutir as pautas de interesse da Região Metropolitana. Foram dois debates realizados no Instituto Caldeira, com presença expressiva de lideranças políticas, autoridades e imprensa. Duas tardes ricas em propostas e ideias para a região mais populosa do Estado e uma das maiores do país.

Os números explicam por que essa conversa precisava acontecer. A Grande Porto Alegre soma hoje mais de 3,8 milhões de habitantes em 27 municípios e responde por 40% do PIB gaúcho. É a região que concentra a maior parte do comércio, da indústria e dos serviços do Rio Grande do Sul. Quem gerir o Estado a partir de 2027 vai governar, na prática, o cotidiano dessa população. Daí a importância de que o próximo governador e os dois senadores eleitos assumam compromissos claros com a região.

O manifesto que a entidade entregou aos pré-candidatos nas duas ocasiões reúne as principais angústias dos prefeitos, e cada uma delas tem endereço na vida do morador. O sistema de proteção contra cheias, prioridade absoluta depois de tudo o que a região viveu em 2024, decide se uma família dorme tranquila quando a chuva se intensifica. A integração do transporte metropolitano define quanto tempo o trabalhador que cruza municípios todos os dias passa dentro do ônibus, longe de casa. E a aplicação de pelo menos 12% do orçamento em saúde se traduz em fila menor no posto e atendimento mais ágil no hospital.

O que aperta o sapato dos prefeitos é o mesmo problema que bate à porta do cidadão. Ao colocar a questão metropolitana no centro da campanha, a Granpal cumpriu seu papel. As luzes, desta vez, se voltaram para as nossas cidades. Os pré-candidatos ouviram, apresentaram propostas e assumiram posições públicas. Cabe agora aos prefeitos e a cada eleitor da região fiscalizar e cobrar que os compromissos de hoje virem ação de quem for eleito. 

Pirataria de sementes: um risco adicional para a agricultura
Catharina Pires - Diretora de Biotecnologia e Germoplasma da CropLife Brasil

As enchentes de 2024, maior catástrofe climática da história recente do Rio Grande do Sul (RS), destruíram 110,3 mil hectares de soja e impactaram mais de 48 mil produtores de grãos, reduzindo a safra em 2,71 milhões de toneladas, cerca de 12,2% da produção estimada para o Estado, segundo dados do Ipea e governo local. Os gaúchos conhecem bem o peso de uma safra perdida.

Por isso, riscos evitáveis precisam ser eliminados, e a pirataria de sementes é um deles. No Brasil, cerca de 11% do mercado de sementes de soja é de origem ilegal, com prejuízos de R$ 10 bilhões ao ano, segundo estudo da Consultoria Céleres/CropLife Brasil. No RS, o índice chega a 28% da área plantada, quase o triplo da média nacional. O quadro é ainda mais preocupante porque o Estado enfrenta estiagens, excesso hídrico, doenças e variações de temperatura.

A semente é o ponto de partida da produtividade agrícola. Na soja, ela carrega o potencial genético da planta e anos de pesquisa e desenvolvimento, testes em campo, controle de qualidade, rastreabilidade e tecnologia. O uso de insumos ilícitos não oferece nenhuma dessas garantias e compromete a produtividade, a segurança fitossanitária, a inovação e a sustentabilidade da agricultura.

A pirataria adiciona risco a um sistema pressionado por clima, custos, crédito, seguro rural, logística e volatilidade de preços. Produzido à margem da lei, o material não tem garantia fisiológica, nem documento fiscal. Também não remunera a cadeia de produção de sementes, desestimulando investimentos em P&D, melhoramento genético e biotecnologia. Na lavoura, compromete o desenvolvimento, reduz o vigor e aumenta a exposição a pragas e plantas daninhas.

Combater a pirataria de sementes é defender a propriedade intelectual, proteger a eficiência produtiva, a renda do agricultor, a sanidade da lavoura e a capacidade do Brasil de continuar inovando em agricultura tropical. No RS, onde o campo já enfrenta grandes desafios, proteger a legalidade é também defender a recuperação, a competitividade e o futuro do agro gaúcho. _

Direto da Redação
Tulio Milman - O voto grisalho

Existe uma força política crescendo no Rio Grande do Sul sem fazer barulho. Está em toda parte, aumenta de eleição para eleição e já representa mais de um quinto do eleitorado gaúcho: são as pessoas com mais de 60 anos.

Durante muito tempo, esse segmento foi tratado pelo poder público como destinatário de favores. Um banco na praça, uma fila preferencial, uma homenagem no mês de outubro. É pouco. E é também uma forma disfarçada de paternalismo e de preconceito. Pessoas maduras não precisam de condescendência. Precisam de cidades nas quais consigam viver com autonomia.

O Rio Grande do Sul chegou ao ponto de inflexão demográfica. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que, em 2026, começou a queda no crescimento populacional do Estado. Ao mesmo tempo, a população envelhece. Essa combinação mudará quase tudo, mas um dos impactos mais visíveis estará na mobilidade urbana.

Será preciso rever o tempo dos semáforos, os locais de travessia, os degraus, o acesso aos ônibus, a altura das plataformas e a distância entre os pontos de transporte. E, sobretudo, será preciso enfrentar o escândalo das calçadas de Porto Alegre. Muitas delas são um atentado cotidiano contra idosos, pessoas com deficiência e qualquer cidadão com dificuldade de locomoção. Buracos, desníveis, pedras soltas e obstáculos transformam uma caminhada simples numa prova de risco.

Essas mudanças podem ser feitas por inteligência, planejamento e respeito. Ou serão impostas pela pressão política. Quando os gaúchos com mais de 60 anos perceberem que não formam um grupo frágil, mas uma potência eleitoral, a relação com prefeitos, governadores, presidentes, deputados e senadores mudará.

Quem entender isso antes poderá melhorar as cidades e será reconhecido por isso. Quem continuar tratando envelhecimento como assunto de assistência social, e não de infraestrutura, autonomia e cidadania, pagará nas urnas. O voto grisalho ainda fala baixo. O futuro já começou a cobrar. Mas já tem força para varrer muita gente do mapa. 

OPINIÃO