O homem para quem todos os dias são sábado
Uma reflexão sobre aposentadoria, voluntariado e a arte de continuar vivendo. Há uma pergunta que costuma acompanhar quem se aposenta: o que você faz com tanto tempo livre?
A pergunta parece simples, mas carrega uma curiosa suposição. A de que, encerrada a vida profissional, o tempo passa a sobrar. Como se os compromissos, os sonhos, as responsabilidades e a vontade de participar da sociedade estivessem vinculados exclusivamente ao contracheque recebido no final do mês.
Nunca consegui enxergar a aposentadoria dessa maneira. Durante mais de três décadas, minha vida esteve organizada em torno de horários, responsabilidades, reuniões, viagens, decisões e compromissos profissionais. Havia segundas-feiras que começavam antes de o sol nascer e sextas-feiras que terminavam quando o expediente já havia ficado para trás.
Os sábados eram aguardados com aquela sensação de liberdade que somente quem cumpre uma rotina profissional conhece. Eram dias de fazer o que não coubera durante a semana, de encontrar pessoas, resolver assuntos particulares ou simplesmente descansar.
Até que chegou o dia da aposentadoria. E, com ele, uma descoberta: todos os dias poderiam ser sábado. Não porque as responsabilidades tivessem desaparecido, mas porque eu havia conquistado a possibilidade de escolher como ocupar minhas horas.
A liberdade, entretanto, trouxe uma surpresa. Em vez de diminuir, meus compromissos se multiplicaram. Vieram as atividades voluntárias, as avaliações de organizações, as oficinas de gestão, os estudos, as pesquisas, os livros e os artigos. Vieram também novas amizades, reencontros inesperados e oportunidades que jamais estiveram previstas em qualquer planejamento de carreira.
O curioso é que, mesmo sem precisar trabalhar, continuei acordando cedo. E muitas vezes, quando percebo, já passei horas diante do computador, investigando algum assunto que começou com uma pergunta aparentemente simples e terminou abrindo uma dezena de outras. Talvez a curiosidade seja uma das poucas coisas que não deveriam se aposentar.
Nesta segunda-feira de outubro, vivi mais um desses episódios que nos fazem refletir sobre o tempo. Participei de uma entrevista para integrar o voluntariado da Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027, que será realizada no Brasil.
Não era minha primeira experiência dessa natureza. Em 2014, também havia participado como voluntário da Copa do Mundo, atuando em atividades relacionadas à recepção e ao deslocamento de pessoas envolvidas na competição.
Doze anos se passaram. Na entrevista, conduzida por duas pessoas do Rio de Janeiro, éramos onze candidatos. Entre eles, apenas dois de Porto Alegre. E aconteceu algo inesperado.
O outro participante gaúcho lembrou-se de que, em 2014, havia sido ele quem me entregara os uniformes daquela Copa. Uma lembrança aparentemente pequena, perdida entre milhares de pessoas e acontecimentos, atravessou doze anos para reaparecer numa reunião virtual.
Há reencontros que parecem ter sido organizados pela própria memória. Durante a conversa, os entrevistadores procuraram conhecer nossas motivações, experiências e disponibilidade para o trabalho voluntário.
Foi então que mencionei uma condição muito particular da minha vida atual: tenho disponibilidade de tempo, porque, para mim, todos os dias são sábado. A frase saiu naturalmente. Talvez tenha provocado algum sorriso. Mas traduzia exatamente o que eu desejava expressar.
Não preciso solicitar férias, negociar folgas ou reorganizar compromissos profissionais. Posso dedicar meu tempo a uma atividade que considero interessante e socialmente relevante. Isso não significa que meus dias estejam vazios.
Muito pelo contrário. A agenda de quem se aposenta pode ser surpreendentemente movimentada, especialmente quando ainda existem assuntos a pesquisar, histórias a escrever, pessoas a encontrar e conhecimentos a compartilhar.
Durante a entrevista, soubemos que aproximadamente 160 mil pessoas haviam se inscrito para o voluntariado. Dessas, cerca de 20 mil chegaram à etapa atual. Ao final, serão escolhidas aproximadamente seis mil. Os números impressionam.
Cento e quarenta mil candidatos já ficaram pelo caminho. Outros catorze mil ainda não chegarão à seleção definitiva. Não sei se estarei entre os escolhidos.
A resposta deverá chegar somente em fevereiro de 2027, quando a organização também pretende confirmar nossas preferências de atuação e a disponibilidade para atividades que poderão começar antes dos jogos.
Naturalmente, gostaria de participar.Mas percebi que a experiência já havia me proporcionado alguma coisa importante: a oportunidade de continuar me apresentando ao mundo, sem considerar que a idade ou a aposentadoria tenham encerrado minhas possibilidades.
Há quem imagine a aposentadoria como uma longa temporada de descanso. E não há nada de errado nisso. Depois de décadas de trabalho, cada pessoa merece escolher seu próprio caminho.
Alguns encontram satisfação nas viagens. Outros, na convivência familiar, na jardinagem, na leitura ou no prazer de não precisar olhar para o relógio. Eu continuo encontrando satisfação em aprender, escrever, pesquisar e participar.
Não por obrigação. Por escolha. Talvez essa seja a grande diferença entre os sábados de antigamente e os sábados de agora. Antes, o sábado representava uma pausa nas obrigações.
Hoje, representa a liberdade de assumir novos compromissos. E há algo profundamente reconfortante em descobrir que ainda podemos ser úteis, que nossas experiências continuam tendo valor e que o futuro, mesmo depois de tantas décadas vividas, permanece capaz de oferecer surpresas.
Não ignoro que o tempo passou. O espelho se encarrega de lembrar, e o calendário não costuma cometer enganos. Mas também aprendi que envelhecer não significa necessariamente perder o interesse pelo que acontece ao nosso redor.
Podemos perder a pressa, sem perder a curiosidade. Podemos abandonar a obrigação de competir, sem abandonar a vontade de participar. Podemos encerrar uma carreira, sem encerrar nossa contribuição à sociedade.
Talvez o segredo esteja em compreender que a vida não termina quando deixamos de cumprir horários impostos pelos outros. Ela pode, inclusive, ganhar novos significados quando passamos a escolher os nossos próprios horários.
E assim sigo, entre pesquisas, livros, artigos, lembranças e novos projetos, aguardando fevereiro para saber se haverá mais uma Copa do Mundo em minha história.
Se vier a convocação, será uma alegria. Se não vier, haverá outros caminhos, outras experiências e, certamente, muitas histórias esperando para ser contadas. Afinal, o que realmente importa não é ter todos os dias livres. É continuar encontrando razões para preenchê-los. E amanhã? Amanhã também será sábado.
Mesmo que o calendário insista em dizer que é terça-feira.











