quarta-feira, 5 de agosto de 2026

05 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Spectreman e Ultraman

Quando pequeno, fui muito mais ingênuo do que as crianças das gerações de hoje. Recentemente, recebi a prova cabal do quanto era pueril. Meu melhor amigo Zé, companheiro das peraltices, mandou um episódio do Spectreman, série japonesa que impactou a minha infância no fim dos anos 1970.

Na história, Kenji, um homem pacato, transformava-se num androide, num super-herói robotizado sobrevoando os céus para promover justiça.

Mas ele não era humano. Usava essa aparência como disfarce. Havia sido enviado à Terra para proteger a humanidade da destruição causada pela poluição.

Uma criança atual não ficaria um minuto assistindo àquelas aventuras apocalípticas, nem as levaria a sério, nem cogitaria que pudessem ser verdadeiras. No máximo, iria rir do orçamento baixo, da produção amadora, das luzinhas piscando na carcaça de sucata como árvore de Natal. Sequer uma maquete no trabalho de artes do primário seria tão malfeita. As cidades se desmanchavam como papelão com o surgimento de um monstro gigante, pois realmente se tratava de papelão.

Já eu confiava piamente. Eu me assustava com uma versão tosca e primitiva dos Mutantes. Arregalava os olhos ao ouvir o chamado de urgência dos habitantes de Nebula 71, asteroide que vagava livremente pelo espaço e fiscalizava conflitos no universo.

"Spectreman, essa é a voz dos Dominantes. Prevemos uma catástrofe ecológica em plena Baía de Tóquio. Horário terrestre: 19h. Sua missão é investigar imediatamente. Lembre-se de que não deve revelar sua identidade a nenhum nativo deste planeta. Está preparado, Spectreman?"

Minha fantasia perdoava a precariedade dos efeitos especiais. Eu não entendo como, porém dava um desconto, uma licença poética. Não me mostrava exigente. Talvez porque meus brinquedos se resumiam a uma bola, um pião, uma pandorga, uma corda e um carrinho de rolimã, e eu estava acostumado a enxergar bem mais do que acontecia na vida real. Eu inflacionava os fatos com a narração dos pensamentos, com o faz de conta.

Havia, também, entre os meus seriados de predileção, o antecessor de Spectreman: o Ultraman, um dos maiores ícones da cultura pop japonesa e um marco do gênero tokusatsu, que completava a minha galeria de exemplos sobrenaturais.

Quando os colegas debochavam de mim ou queriam me humilhar, eu imitava na escola os golpes básicos de defesa: Spacium Ray (braços em um sinal de +, com o braço direito vertical e o esquerdo horizontal, para disparar um poderoso raio capaz de demolir tudo pela frente), Lâmina (um disco semelhante a uma serra circular, jogado dos cotovelos em direção aos inimigos), Raio de Ataque-Ultra (uma onda de anéis de energia verde desferidos do punho fechado), Rajada (em forma de flecha, com uma mão acima da outra), Ultra Corrente de Água (um jato para apagar incêndios), Raio de Fluoroscopia (feixe de luz que tornava os objetos invisíveis), Ultra-Separação (criava duplicatas exatas de si, permitindo que cada uma lutasse com autonomia, inclusive em longas distâncias).

Nunca funcionou contra o bullying, apenas apanhei mais. Mas jamais deixei de tentar, de me concentrar, de executar as coreografias. Vá que, um dia, uma galáxia longínqua reparasse no meu sofrimento crédulo, esperançoso de um milagre.

Eu acreditava na minha salvação. Dependia mesmo de um super-herói. Ainda que fosse eu. _

CARPINEJAR

05 de Agosto de 2026
OPINIÃO

Suspeitas à espera de esclarecimento

Se as suspeitas existem, não há outro caminho senão tirá-las a limpo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino autorizou ontem a abertura de um novo inquérito para investigar possível tráfico de influência pelo empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras pessoas terão as condutas analisadas para verificar a suposta busca por vantagens ilícitas em negócios com o governo federal. 

Outras duas investigações envolvendo Lulinha pedidas pela Polícia Federal foram autorizadas na semana passada pelo ministro André Mendonça. São relacionadas ao Ministério da Saúde e à Dataprev, empresa de tecnologia da Previdência. Essas apurações também vão averiguar se houve crime de corrupção, além de tráfico de influência e outras irregularidades.

É preciso elucidar se Lulinha usou ou não a condição de filho do presidente da República para influenciar ministérios ou órgão do governo em benefício de terceiros e o que teria ganhado com isso. Fábio Luís não deve ter tratamento privilegiado ou mais duro pela filiação e, como qualquer investigado, tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. 

Dino autorizou uma quarta investigação, sobre o vazamento de informações do caso. Mas é notório que, pelas implicações políticas, Lulinha terá de se esforçar em dobro para demonstrar que não cometeu irregularidades. A exploração do caso na campanha eleitoral é natural.

Se Dino autorizou o terceiro inquérito é por ter sido convencido de que há elementos que exigem apuração. Aliás, o fato de um indicado por Lula para o STF ter concordado com a investigação enfraquece a tese de que os dois inquéritos anteriores, assentidos por Mendonça, designado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, teriam fundo político. Cumpre lembrar que há duas semanas Mendonça autorizou apuração para averiguar o destino dos repasses de dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, caso que atinge Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na disputa presidencial.

Nos inquéritos sobre Lulinha, a personagem comum é a empresária e lobista Roberta Luchsinger, que estaria atrás de contatos privilegiados para intermediar negócios com o governo. Ela prestou serviços ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso em razão do escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias. As investigações sobre Lulinha não são relacionadas ao INSS, mas as suspeitas agora analisadas surgiram ao longo do caso.

O ex-chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, também é implicado nesse terceiro inquérito. Ele recebeu um repasse de dinheiro de Roberta. Alega ter sido um empréstimo, já quitado. As explicações são insuficientes. É preciso comprovar a devolução e demonstrar de forma crível os detalhes da operação. É legítimo estranhar que uma lobista com interesses no governo passe dinheiro a um assessor direto do presidente.

Aguarda-se que as apurações em curso tragam as respostas esperadas pela sociedade. A aproximação das eleições não pode ser motivo para desacelerar nenhuma das investigações que tenham potencial de abalar qualquer uma das candidaturas. _

Opinião do leitor - Escola interditada

A Escola Estadual de Ensino Médio Visconde de Mauá, em funcionamento desde 1938, em Butiá, região carbonífera, não retomará suas atividades após o recesso. A escola está passando por reformas. Porém, antes do recesso foi removida parte do telhado e, com as chuvas, ficou inviável o uso do prédio. A comunidade escolar está revoltada pois, apesar das dificuldades, a escola estava atendendo seus mais de 600 estudantes. É preciso cobrar das autoridades providências imediatas, pois não é justo que os estudantes, crianças e adolescentes, tenham a sua vida escolar interrompida por falta de habilidade na condução das obras. _

Rubens Machado - Professor - Butiá - Pandemia

Em que mundo vivíamos quando médicos foram proibidos de prescrever certos medicamentos para a covid -19, sabendo que milhares de medicamentos totalmente ineficazes, como certas vitaminas, estimulantes e etc., são prescritos a todo o momento sem nenhuma restrição. Que mundo cruel, que caminha cada vez mais de mãos dadas com as ideologias. _

Elio Bessa Florian - Médico urologista - Cruz Alta - Instituto Caldeira

Na edição de 29/7, Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, escreveu com muita propriedade o artigo "Três prioridades inegociáveis para a educação gaúcha", sobre a educação pública no RS. Gostaria de "meter minha colher" no assunto. O que está faltando na educação de nossos filhos, para terem um Ensino Médio sem maiores percalços, é a volta do antigo curso ginasial. O aluno saía do Primário (hoje, Fundamental) e, para prosseguir seus estudos, tinha que fazer uma prova de admissão ao Ginásio (uma espécie de vestibular para entrar no curso ginasial). Terminado o Ginásio, o aluno estava apto a frequentar o Segundo Grau, que poderia ser o Científico ou o Comercial. _

Rui Fischer

Escritor e cronista - Taquara - Coluna

Discordo do título - "Acusado, Lulinha precisa provar que é inocente" - e do conteúdo da coluna de Rosane de Oliveira de 1º e 2/8. O mesmo Lulinha já foi intitulado "dono" de uma Ferrari de ouro e da Friboi. As leis de nosso país dizem que quem acusa que prove. O sigilo bancário de Lulinha foi quebrado e nada de irregular foi encontrado. Estranho que ninguém questione a ligação do ministro André Mendonça com a família Bolsonaro. Para mim, seria motivo de ele se declarar suspeito nesse caso. Enquanto isso, estamos há mais de dois meses sem Flávio Bolsonaro sequer ser intimado para explicar e provar o destino dos R$ 61 milhões recebidos do banqueiro corrupto Daniel Vorcaro. _

Luis Alberto Mendonça

Comerciante - Porto Alegre

OPINIÃO

05 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Lula é o único candidato a ter vice de partido aliado

Com a confirmação do senador Eduardo Girão (Novo-CE) como vice de Romeu Zema (Novo), somente Flávio Bolsonaro chega à data-limite para a realização das convenções sem definir seu companheiro (a) de chapa. Até aqui, apenas o presidente Lula tem um vice de partido aliado e uma aliança que vai além do PT, embora restrita ao campo da esquerda. Atual vice- presidente, Geraldo Alckmin tem trânsito em setores do eleitorado que não votariam em Lula se o centro tivesse um nome competitivo.

A neutralidade aprovada na convenção do Republicanos ontem evidencia a dificuldade de Flávio para unir a direita em torno do seu nome, apesar de ser o segundo colocado nas pesquisas e, em alguns levantamentos, aparecer tecnicamente empatado com o presidente Lula. O candidato do PL disse que definirá seu vice até 15 de agosto. Ora, esse é o prazo-limite para registrar a candidatura. A data simbólica é 5 de agosto, porque é o prazo para os partidos realizarem suas convenções.

E se todos os potenciais aliados já escolheram seu caminho, restará a Flávio escolher uma pessoa do PL. Foi por falta de aliados dispostos a embarcar nos seus projetos que Zema escolheu Girão, Ronaldo Caiado (PSD) preencheu a vaga com Gilberto Kassab, presidente do partido, e Renan Santos ficou com Aroldo Medina.

Oportunismo político

Costuma-se chamar de "chapa puro-sangue" quando o titular e o vice são do mesmo partido. Faria sentido esse apelido se fosse uma opção ideológica, para não abrir mão de princípios. No caso de Flávio, Caiado, Zema, Renan e candidatos de partidos inexpressivos, como os que estão na ponta de baixo da tabela nas pesquisas, é falta de opção mesmo.

Não há como considerar natural o fato de cinco dos maiores partidos no Congresso não terem candidato a presidente e não integrarem nenhuma aliança. Estão nessa lista PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSDB, que fazem parte do centrão. É um retrato da falência do sistema partidário brasileiro.

Ao se declararem neutros, esses partidos ficam com um pé em cada canoa, prontos para trocar o apoio por cargos no futuro governo, seja quem for o vencedor.

A aposta desse bloco é na eleição de deputados federais, que garantem poder de barganha, mais dinheiro do fundo partidário e eleitoral e, de quebra, mais emendas para distribuir Brasil afora. _

Manuela inaugura caravana para dialogar com mulheres

Um ônibus lotado de mulheres, a maioria de deputadas e pré-candidatas, e apoiadores da candidata ao Senado Manuela D?Ávila (PSOL), partiu ontem do Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, para o primeiro roteiro da caravana Mulheres pelo Rio Grande. Acompanhada de Edegar Pretto (PT), candidato a vice-governador, e Tamyres Filgueira, indicada para a segunda suplência de Paulo Pimenta (que concorre ao Senado pelo PT), o grupo de cerca de 40 pessoas viajou rumo a Passo Fundo, com paradas em Lajeado e Erechim. Com a caravana, Manuela planeja reunir e fortalecer grupos de mulheres pelo Interior.

- É muito impressionante a força que a gente transfere para os movimentos de mulheres no Interior, que normalmente recebem uma hostilidade maior, porque são mais sozinhas, vulneráveis, todo mundo sabe quem elas são. Estamos nos deslocando juntas para ouvir e conversar com essas mulheres e para construir esse movimento grande no nosso Estado em que ser mulher não seja um problema na política - disse Manuela.

O ônibus deixará Passo Fundo hoje rumo a Santa Maria. Depois do almoço, viaja para Caxias do Sul. No dia seguinte, chega em Porto Alegre a tempo de mobilização antes do debate da Rádio Gaúcha com os candidatos a governador. A programação da semana encerra na sexta, com um ato na Capital celebrando os 20 anos da Lei Maria da Penha. _

IPE Saúde publica lista de médicos credenciados

O IPE Saúde começou ontem a publicar a lista dos médicos que se credenciaram ou renovaram o credenciamento para atender os cerca de 800 mil segurados do plano. A primeira lista é a da Fronteira Oeste, considerada a mais carente de profissionais pelo presidente do IPE Saúde, Paulo Rogério dos Santos.

- Na lista de espera para o segundo ciclo, que iremos abrir em setembro, já temos mais de mil profissionais que fizeram pré-cadastro - afirma Paulo Rogério. _

Afinal, o que pesa contra Lulinha?

Na CPI do INSS, os aliados do governo blindaram o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com a alegação de que ele não era investigado e que a oposição estava querendo usá-lo para tirar proveito político. Agora, Lulinha é investigado - não em um, mas em três inquéritos da Polícia Federal (PF).

Em síntese, Lulinha é investigado por suas conexões com pessoas de quem não se pode dizer que estão acima de qualquer suspeita. O terceiro inquérito apura tráfico de influência em órgãos públicos para beneficiar empresas ou lobistas como a amiga Roberta Luchsinger, personagem que a cada dia cresce no enredo das relações suspeitas.

Foi a partir da quebra do sigilo telefônico de Roberta e de Camilo Antunes, o Careca do INSS, que a PF pediu autorização para investigar Lulinha. A defesa de Lulinha diz que ele está tranquilo e vai provar que ele não tem relação com qualquer tipo de irregularidade.

E a PF descobriu um depósito de Roberta na conta do ex-chefe do gabinete da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que hoje trabalha na campanha de Lula à reeleição. Após pedido do presidente, Marcola disse, em nota, que se trata de um empréstimo de R$ 249 mil já saldado, "de natureza estritamente familiar". _

PF segue trilha do dinheiro

A Polícia Federal seguiu a trilha do dinheiro e chegou ao senador Weverton Rocha, do PDT do Maranhão. Não a ele, exatamente, mas ao suspeito de ser o seu operador financeiro, o advogado Willer Tomaz.

Em seu escritório, os policiais encontraram dinheiro em espécie e uma sofisticada máquina de... contar dinheiro. Tomaz disse que foi alvo da operação porque presta serviços a Weverton Rocha. O advogado disse que é proprietário de uma aeronave utilizada, em caráter estritamente particular, pelo senador.

A investigação aponta ainda que a esposa do senador, Samya Rocha, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz. _

mirante

Após determinação da Justiça Eleitoral, o Google retirou do ar o vídeo do blogueiro Paulo Figueiredo em que ofende a deputada Maria do Rosário (PT).

Correção: O nome da candidata da Unidade Progressista (UP) ao Senado é Tânia Peres. Schaeffer é o outro candidato, que usa o nome de urna "Luciano do MLB".

POLÍTICA E PODER

05 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O avanço silencioso do extremismo político

Enquanto a direita e a esquerda perdem tempo debatendo se PCC ou CV são grupos terroristas, o extremismo político-ideológico cresce, silenciosamente, no Brasil, a despeito de designações como a feita recentemente pelo governo dos Estados Unidos. Ontem, uma operação integrada de polícias civis de vários Estados desarticulou um grupo que planejava explodir um prédio onde ocorrerá o debate de candidatos presidenciais antes do segundo turno das eleições deste ano. Um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido em Canoas.

Facções criminosas podem se utilizar de métodos terroristas, mas o que as diferencia de organizações extremistas é o fundamento ideológico por trás das ações: causar medo, estupor, pânico é, para essas organizações, meramente uma ferramenta para alcançar fins políticos. Tão grave quanto a desinformação e a tentativa de deslegitimar o processo eleitoral é a ameaça de violência política. As últimas campanhas eleitorais na América Latina já mostraram essa deterioração.

No ano passado, na Colômbia, o então pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay foi baleado durante um ato de campanha em Bogotá. Ele foi atingido por disparos enquanto discursava e morreu semanas depois em decorrência dos ferimentos. O recente eleito, Abelardo de la Espriella, passou a fazer comícios atrás de um escudo de vidro à prova de balas, além de usar colete balístico em eventos públicos.

Em 2023, no Equador, o candidato à presidência Fernando Villavicencio, conhecido pelas denúncias contra corrupção e crime organizado, foi assassinado ao deixar um comício em Quito, poucos dias antes da eleição. Após o assassinato, os candidatos passaram a fazer campanha cercados por um esquema de segurança inédito. O hoje presidente Daniel Noboa passou a aparecer em eventos usando colete à prova de balas, cercado por militares e agentes fortemente armados, e, em alguns atos, discursando atrás de barreiras de proteção. Em 2024, no México, dezenas de candidatos - sobretudo a prefeituras e governos locais - foram assassinados.

O Brasil tem seu histórico recente, com o assassinato da vereadora Marielle Franco e a facada ao então candidato Jair Bolsonaro, ambos em 2018, e os ataques aos prédios da República, em 8 de janeiro de 2023.

O histórico brasileiro é marcado por episódios graves, mas mais esporádicos e concentrados em períodos específicos, sem que se consolide um ciclo prolongado de terrorismo político-ideológico como ocorreu em outros países. Por isso, merece o reconhecimento a ação policial, com uso de inteligência, sobretudo, para agir antes da concretização dos atos.

É fundamental que policiais, Justiça e outras autoridades estejam atentos ao menor indício de planejamento de ações, nas redes sociais e na vida real. E, sobretudo, que candidatos não insuflem discursos de ódio a alimentar seguidores extremistas. _

MP pode punir donos de cães abandonados

O Ministério Público do RS deve buscar a responsabilização dos tutores dos cachorros microchipados que estavam abandonados na região da Vila Dique pelo crime de maus-tratos aos animais. É o que informou a promotora de Justiça do Meio Ambiente de Porto Alegre, Annelise Steigleder, após uma reunião na segunda-feira com a prefeitura da Capital. Já os animais que não tiverem família e não puderem ser acolhidos serão encaminhados para abrigos públicos.

A coluna levantou o assunto na semana passada, quando foi informada da existência de cerca de 40 animais na região que foi evacuada para obras de recuperação do sistema de proteção contra as cheias. Nesta segunda-feira, restavam poucas famílias.

- Todos os animais de lá foram microchipados, então são cães com tutores. A ideia é que as pessoas levem os animais consigo. As famílias que não tiverem condições, os cachorros ficarão acolhidos na USAV (Unidade de Saúde Animal Victoria) até que eles possam ser buscados. E nos casos de abandono, como temos o endereço dessas famílias, o Ministério Público vai buscar a responsabilização dessas pessoas pelo crime de maus-tratos, porque o abandono dos animais constitui crime - disse Annelise.

A prefeitura também informou na segunda-feira que restavam 10 cães e que todos estavam acompanhados por seus responsáveis. _

Gaúcho em conselho do Vaticano

O arcebispo de Santa Maria, dom Leomar Antônio Brustollin, foi nomeado como membro do Conselho Internacional para a Catequese da Santa Sé. O cargo tem o período de cinco anos.

O conselho é um órgão consultivo do Vaticano que reúne bispos e especialistas para estudar temas de transmissão da fé, iniciar a vida cristã e auxiliar o Dicastério para a Evangelização.

Natural de Caxias do Sul, dom Leomar Brustollin teve passagens pela Arquidiocese de Porto Alegre antes de ir para Santa Maria. Na Capital, foi professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Teologia da PUCRS.

Na CNBB, foi membro da Comissão Pastoral para a Doutrina da Fé, bispo referencial para Educação e Cultura no Regional Sul 3, e presidiu a Regional Sul 3 e a Comissão Episcopal para Animação Bíblico-Catequética. _

Um avião russo pousa em Brasília

Um avião Ilyushin II-96-300PU, quadrimotor responsável pelo transporte do presidente e de outras altas autoridades do governo da Rússia, está pousado no aeroporto de Brasília.

A aeronave, de matrícula RA-960233, chegou à capital federal no domingo, conforme o site Flight Radar. O avião saiu de Moscou (Rússia), fez escala em Argel (Argélia) e chegou a Brasília no mesmo dia em razão do fuso horário.

O Ilyushin II é operado pelo Esquadrão Especial de Voo Rossiya, nome que aparece em russo na fuselagem.

Embora seja uma das aeronaves utilizadas pelo presidente russo, Vladimir Putin, e por autoridades como o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, essa aeronave não transportava nenhum dos dois. Quem veio foi o conselheiro presidencial e chefe do Colégio Marítimo Nacional, Nikolai Patrushev, que está em visita ao Brasil para reuniões de cooperação naval e segurança oceânica.

Patrushev se reuniu com o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, com o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Rodrigo Zerbone Loureiro, com o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, e com a número 2 do Itamaraty, Maria Laura da Rocha. 

Quem é o amigo de Putin

Nikolai Platonovich Patrushev, autoridade russa que está no Brasil, é conselheiro presidencial de Vladimir Putin e chefe do Colégio Marítimo Nacional da Rússia. Patrushev é um dos oficiais de inteligência mais próximos de Putin, considerado um dos candidatos mais prováveis a sua sucessão.

Serviu como secretário do Conselho de Segurança da Rússia entre 2008 e 2024, quando teve papel fundamental nas decisões de anexação da Crimeia, em 2014, e na invasão da Ucrânia, em 2022. Devido à operação na península ucraniana, foi incluído na lista da União Europeia de indivíduos sancionados. Em 2018, os EUA impuseram sanções a ele. Um inquérito público do Reino Unido apontou que Patrushev esteve envolvido diretamente na ordem sobre o envenenamento do dissidente russo Alexander Litvinenko, em 2006, em Londres.

Sua amizade com Putin é antiga. Remonta ao período em que trabalharam juntos na KGB (o serviço de inteligência soviético) e no seu herdeiro, o atual FSB (Serviço Federal de Segurança). Patrushev, aliás, sucedeu a Putin como diretor do FSB em agosto de 1999. Ele comandou a agência até 2008. _

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Bagre

Quando uma figura pública se consagra com seu apelido, é que alcançou uma adoração afetiva destinada a poucos, tornando-se, ao mesmo tempo, alguém absolutamente famoso e íntimo: Pelé, Cazuza, Xuxa, Garrincha, Zico, Cartola.

Significa que, além de ser conhecido por todos, é amado como parte da família. Bagre Fagundes cumpriu essa proeza. Conseguiu reverter a rejeição de uma nominação e transformá-la em uma virtude. A ofensa servia antes para descrever um perna de pau e, no caso dele, passou a traduzir o apogeu do tradicionalismo. Um craque da canção.

Hoje, no Rio Grande do Sul, Bagre é sinônimo de uma pessoa talentosa. A alcunha dada na infância se perpetuou em sua trajetória por desígnios insondáveis. Quem disse que ele não era realmente um peixe que buscou ritmos e letras na fundura da bacia de nossas almas?

Ninguém o chamava de Euclides. Reza a lenda que o batismo popular surgiu depois que ele pescou um enorme jundiá no Rio Ibirapuitã. Há relatos de que se parecia a um "bagre que roncava". Não importa a origem: aprendemos a admirá-lo assim.

Bagre Fagundes faleceu no domingo, aos 86 anos, enquanto seu time de coração, o Inter, ganhava do Corinthians.

Mas o piá de Uruguaiana não tem como morrer. Reunia tantos que nem a morte soube a quem procurar. Foi advogado formado pela Universidade de Cruz Alta, vereador em Alegrete, bancário, jogador e árbitro de futebol. Também presidiu o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e atuou como colunista do jornal Diário Gaúcho.

Não existe jeito de embrulhar sua gaita enfeitiçada pelo som de sua gargalhada. Na música, brilhou para jamais voltar à sombra do nome próprio, para jamais se despedir de nós.

Ao lado de Nico Fagundes, compôs Canto Alegretense, capaz de expressar o apego ao pampa. Qualquer gaúcho o entoa de cor e salteado, quase como um hino rio-grandense alternativo. É o equivalente, para o sul do país, ao que Asa Branca, de Luiz Gonzaga, representa para o Nordeste.

"Não me perguntes onde fica o Alegrete, Segue o rumo do teu próprio coração. Cruzarás pela estrada algum ginete. E ouvirás toque de gaita e de violão."

Bagre se fez onipresente. Venceu nos nossos principais festivais: a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, a Ronda da Canção Nativa de Alegrete.

Participou do grupo Os Angueras e, mais tarde, criou o Inhanduy com Neto, Ernesto e Paulinho, seus filhos. Esse projeto deu a base para Os Fagundes, que culminou com cinco álbuns e especiais.

Se, na roda de chimarrão, havia o costume de contar mentiras e causos para atrair a atenção, ele silenciava os presentes com as suas verdades. Viveu sem temer as consequências, com uma coragem de, vendado, encilhar o cavalo.

Talvez a sua autenticidade tenha sido o segredo do seu sucesso. Ele tocava e cantava como se estivesse em casa. Nunca pisou de fato no palco, porque nunca saiu espiritualmente do seu lar. Derrubou as fronteiras entre a plateia e o artista. Não mudava de postura quando se apresentava. Continuava simples, espontâneo, acessível, brincalhão, acreditando que o rincão é um sentimento.

Só imagino o bochincho ao se reencontrar com seu irmão Nico (1934 - 2015), após uma década de saudade. Vão armar um galpão crioulo no céu e reeditar o dueto de Canto Alegretense, em uníssono para sempre.

"Ouve o canto gauchesco e brasileiro. Desta terra que eu amei desde guri. Flor de tuna, camoatim de mel campeiro

Pedra moura das quebradas do Inhanduí." 

CARPINEJAR 


04 de Agosto de 2026
NÍLSON SOUZA

PI do B

Estou pensando seriamente em fundar um partido político e já lanço aqui o convite para quem quiser aderir à nova agremiação. Não vamos cobrar contribuição partidária de ninguém, nem vamos meter a mão nesses fundos milionários de dinheiro público criados para beneficiar espertalhões de todos os matizes ideológicos. Nossa organização se chamará Partido dos Incrédulos do Brasil e seu único propósito será duvidar.

Duvidar saudavelmente, esclareço. Não seremos negacionistas, já tem muito disso por aí. Nossa missão consistirá em duvidar de tudo e de todos - mas somente até a comprovação do fato, da informação, da imagem ou do discurso questionados. Se for mentira, boca no trombone. Não lançaremos candidatos próprios nem vamos apoiar ninguém, mas talvez possamos impedir que alguns farsantes se elejam. Porém, quando depararmos com verdades inquestionáveis, seremos como São Tomé: depois do dedo na ferida, aceitação racional. Nosso lema, se me permitem uma sugestão, será Ceticismo Civilizado.

Por que duvidar? No âmbito da política, essa pergunta nem precisaria ser feita. Ocupantes do poder em todos os níveis da administração pública e desocupados que ambicionam o poder - com as exceções de sempre, é bom esclarecer - mostram todos os dias porque não merecem a nossa confiança. Basta acompanhar o noticiário produzido pelo jornalismo profissional e independente: é gastança desenfreada, desvio de verba para cá, penduricalho para lá, corrupção e fraudes de todos os calibres, apadrinhamentos, rachadinhas, empregos para parentes e amigos. Ou a atual propaganda eleitoral.

Com a popularização da inteligência artificial, duvidar de imagens e vídeos passa a ser um dever. Já tem gente falsificando até acontecimentos históricos, o que devolve atualidade à célebre frase de um ex-ministro da República: "No Brasil, até o passado é incerto". Não basta, portanto, desconfiar do presente ou das promessas para o futuro. Temos que ficar atentos, também, para identificar a reedição tendenciosa da nossa própria história.

Duvidemos, pois, caros futuros correligionários! Mas dúvida seguida de verificação: a quem interessa a informação ou a imagem? Quem é a fonte? Como foi feita? Qual o seu objetivo? _

NÍLSON SOUZA

 

04 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Ainda há tempo para o diálogo

É frustrante constatar que, até agora, não foi possível destravar o diálogo entre a chilena CMPC e o Ministério Público Federal (MPF) para solucionar o impasse em torno do licenciamento ambiental do investimento de R$ 27 bilhões que a empresa pretende fazer no Rio Grande do Sul. Diante da judicialização do caso, seria importante que as partes conversassem de boa-fé, em busca de um entendimento que destravasse o empreendimento. Ainda há tempo para uma conciliação.

A colunista Giane Guerra divulgou no fim de semana que uma tentativa de contato por parte da empresa para buscar um acordo fracassou, alegadamente porque o procurador federal que contesta o licenciamento, Ricardo Gralha Massia, não teria mostrado disposição para dialogar. O MPF contesta e diz que o agora ex-procurador-chefe do MPF-RS, Felipe Müller, foi procurado, mas não teria existido busca por contatar Massia. E sustenta que há espaço para discutir uma proposta apresentada pela CMPC. Diante desse compromisso, é preciso crer que, em breve, a transigência ganhará uma nova chance.

Como é de amplo conhecimento, não se trata de um projeto qualquer, mas do maior desembolso de recursos da história do Estado em um plano produtivo. A companhia chilena prevê uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro e um terminal portuário em Rio Grande, além da expansão da base florestal, em parceria com produtores rurais.

O ponto central é a discordância quanto à consulta às comunidades indígenas que vivem nas áreas impactadas pelo projeto. A CMPC afirma que cumpriu as exigências apresentadas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), mas o procurador entende que seria necessário ouvir um contingente maior de indígenas, além de quilombolas e pescadores. A empresa sustenta que essa possibilidade é inviável.

O processo de licenciamento continua na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), mas o órgão estadual aguarda uma posição formal da Funai, que em junho sinalizou não ter objeções ao rito adotado pela empresa. Mas é indispensável que a Funai se pronuncie de maneira clara e cabal. Aliás, a demora para essa manifestação definitiva é inexplicável. Os próprios líderes indígenas da região já disseram ser favoráveis ao licenciamento.

A ação civil pública na Justiça Federal prossegue, o que alimenta a insegurança jurídica, atrasa a licença ambiental prévia e eleva o risco de o projeto não ser viabilizado. Essa seria uma hipótese trágica para os gaúchos. Tanto pelas consequências diretas quanto pelo abalo na reputação do Estado, que precisa recuperar o dinamismo, mostrar-se atrativo a grandes investimentos e ser um lugar onde os jovens encontrem perspectivas de futuro profissional. Há poucos dias, novos dados econômicos demonstraram que o RS ocupou a lanterna do crescimento do PIB entre 2002 e 2023.

No início da década passada, a CMPC investiu R$ 5 bilhões em Guaíba e, em uma articulação com a seção gaúcha da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), fornecedores locais abocanharam R$ 2,1 bilhões em contratos. É um exemplo do efeito multiplicador benéfico que o novo projeto, muito mais ousado, pode trazer à economia do Estado. 

Aliados prejudicam Flávio ao ressuscitar temas como a covid

Fica difícil acreditar que a intenção do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) seja ajudar o candidato do seu partido à Presidência, Flávio Bolsonaro, quando grava um vídeo usando informações distorcidas sobre o conteúdo do diário de Anthony Fauci, responsável pela estratégia de enfrentamento à covid-19.

A quem interessa ressuscitar um tema que, fora da bolha, só traz desgaste para o bolsonarismo? Para se eleger presidente, Flávio precisa conquistar os votos do centro, que não será convencido de que Jair Bolsonaro estava certo quando receitava cloroquina, até porque não há confirmação científica de que funcione. Vacinas, sim, salvaram vidas.

Nikolas pode estar querendo apenas mobilizar sua base de seguidores, sabedor do efeito que seus vídeos provocam. O problema é que os convertidos não precisam tentar desmoralizar Fauci, o que parece ser o objetivo dos republicanos nos Estados Unidos.

Convém lembrar que à época da covid ele e o presidente Donald Trump viviam às turras, porque o epidemiologista defendia o isolamento social, o uso de máscaras e as vacinas.

Boa parte dos que estão cheios de certeza nas redes sociais sequer leram o diário de Fauci. Ontem, o site O Antagonista publicou uma reportagem do jornalista Rodolfo Borges com o título "Ninguém leu o diário de Fauci". No texto, Rodolfo conta o que o epidemiologista realmente disse - e não tem nada a ver com o que vem sendo disseminado nas redes numa corrente que lembra a antiga brincadeira do "telefone sem fio".

Opção pelo silêncio

Fauci não quis falar ao Senado americano pela convicção de que senadores ligados a Trump estão tentando pegá-lo numa armadilha. À época da pandemia, Trump pressionou Fauci para que desse aval ao uso da cloroquina, como forma de "dar esperança aos pacientes".

No diário, Fauci registra que há relatos de pessoas que teriam sido curadas, mas ressalva que são "estudos não controlados". Ou seja, estudos sem o rigor científico exigido nas pesquisas clínicas. _

TRE abre urna eletrônica para combater fake news

Para que não haja dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral inaugurou ontem a Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. Entre as atividades realizadas em todo o Brasil, está a abertura física de uma urna eletrônica, processo conduzido simultaneamente nos tribunais regionais eleitorais.

No TRE-RS, o ato foi conduzido pelo secretário de Tecnologia da Informação da Corte, Daniel Wobeto, acompanhado de Luís Fernando Schauren, assessor de orientação tecnológica, e Vanderlei Santos, assistente da administração de urnas. Uma urna foi desmontada enquanto os técnicos explicavam as dezenas de processos e mecanismos de criptografia e segurança do equipamento, tanto no sistema digital quanto no dispositivo físico, que garantem a lisura do processo e a auditabilidade.

- Não há dúvida que o processo é melhor com a urna eletrônica, porque temos certeza de que quem é eleito foi efetivamente votado. Urna é o tema com maior índice de desinformação porque as pessoas não compreendem como funciona a urna eletrônica - avaliou Wobeto.

O evento foi um dos primeiros que serão realizados até o pleito pelo TRE para reforçar a confiabilidade das urnas e do processo eleitoral. Os processos de verificação são abertos aos candidatos e partidos políticos - ontem, nenhum representante partidário compareceu. _

Maria do Rosário ganha ação contra blogueiro bolsonarista

O blogueiro Paulo Figueiredo foi condenado a remover trechos de uma live em que replica e repete ofensas feitas por Jair Bolsonaro à deputada Maria do Rosário (PT). A decisão, publicada no domingo pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS), determina multa de R$ 5 mil para cada dia de descumprimento da medida.

Em 21 de julho, o neto do ex- presidente João Figueiredo sustentou que a campanha de Flávio Bolsonaro não tem gerado repercussão orgânica nas redes sociais, a partir, principalmente, de memes de internet. Para dizer que a atual estratégia parece ensaiada, ele apresenta vídeos virais de Jair Bolsonaro e de Donald Trump. Um deles é o que Bolsonaro ofende Maria do Rosário no saguão da Câmara dos Deputados, em 2003. No vídeo, o blogueiro dá risada do momento e repete a frase usada pelo ex-presidente.

Na decisão, a desembargadora federal Vânia Hack de Almeida argumenta que a reprodução do vídeo na live não constitui "referência neutra" a episódio passado, mas "integra narrativa de estratégia de comunicação fundada em ataques pessoais a mulheres na política". Ela determinou que só o trecho em que a deputada é citada seja removido, permitindo que o restante do vídeo seja mantido no ar. _

Os primeiros a pedir registro na Corte eleitoral

Nem terminou o prazo para a realização de convenções e dois candidatos ao governo do Estado e quatro ao Senado já encaminharam o pedido de registro junto ao TRE-RS. São eles: a governador, Maranata (PSDB/Cidadania) e Priscila Voigt, da Unidade Popular (UP); ao Senado, Manuela D?Ávila e Paulo Pimenta, da aliança PDT/PSB/Avante/Federação PT- PCdoB/Federação PSOL-Rede, e Luciano do MLB e Tânia Schaeffer (UP).

Seus pedidos de registro já constavam na plataforma DivulgaCand, que concentra as informações sobre dados biográficos, nome completo e nome de urna, número, bens, plano de governo e previsão de gastos na campanha. Embora o status apareça como "aguardando julgamento", esses já podem ser chamados de "candidatos".

À Justiça Eleitoral, Maranata informou que seu patrimônio soma R$ 249.805,00. Priscila, somente R$ 1 mil (dinheiro em espécie).

Pimenta declarou patrimônio de R$ 1.871.110,97 e Manuela de R$ 1.376.384,43. Tânia informou que tem apenas um apartamento no valor de R$ 129.917,48 e Luciano apenas R$ 3.300,00 (dinheiro em espécie). _

O que leva um candidato a cargo eletivo a guardar dinheiro em espécie, em vez de manter no banco, rendendo juro? Será falta de confiança no sistema financeiro ou dificuldade para explicar a origem?

Mais um prefeito do PP declara voto à chapa de Gabriel e Polo

Eleito pelo PP, o prefeito de Espumoso, Gerson Machado, é mais um dissidente no partido em relação à eleição para governador. Em manifestação gravada, Machado declarou apoio à candidatura de Gabriel Souza (MDB) ao governo do Estado, apesar de o PP estar coligado com Luciano Zucco (PL).

Gabriel e Ernani Polo contabilizam cerca de duas dezenas de prefeitos do PP que já prometeram votar na dupla - uns em declarações públicas, outros em conversas privadas -, mas 92% deles assinaram um documento de compromisso com a candidatura de Luciano Zucco (PL) e sua vice, Silvana Covatti (PP). 

POLÍTICA E PODER 

 
04 de Agosto de 2026
REPORTAGEM - Anderson Aires

REPORTAGEM

Em meio ao avanço dos automóveis eletrificados, veículos antigos resistem no Rio Grande do Sul. Fusca e Opala lideram o interesse dos apaixonados, que preservam histórias de família, amizades e tradições ligadas ao automobilismo

Um passeio pelo universo possante dos carros clássicos

O estacionamento de um shop- ping da zona norte de Porto Alegre, no dia a dia ocupado por carros modernos, aos poucos, parece voltar no tempo. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente e o silêncio noturno é quebrado por roncos graves de motores.

Um Fusca da década de 1970 cruza a cancela. O som que sai do escapamento chega antes de o veículo aparecer. A cena se repete, com outros carros. Em poucas horas, o local está cheio de veículos antigos, perfilados.

Trata-se de um dos tantos encontros de carros clássicos espalhados pelo Estado. Nesses ambientes, entusiastas e apaixonados por essas máquinas trocam ideias, experiências e fazem até negócios. Além desse tipo de reunião, o amor por carburadores, cheiro de combustível e escapamento trepidando a cada pé mais pesado no acelerador invade garagens, ruas e outros espaços.

- A contaminação começou quando eu ainda era criança. O primeiro carro que eu dirigi, com oito anos de idade, foi um Dodge Charger RT, que era do meu tio. Na adolescência, comecei a correr arrancada no Interior com o Opala dos outros. A ferrugem entrou na veia e eu disse: "Se Deus quiser, vou comprar um Opala". Em 2008, graças a Deus, esse Opala aqui se ajeitou num negócio e deu para eu comprar - resume Vilson Cleber Ferreira dos Santos, 52 anos.

Santos é um dos tantos entusiastas de carros clássicos no Estado e guarda na garagem um dos modelos mais desejados pelos gaúchos. O Chevrolet Opala foi o segundo carro clássico mais vendido no RS em 2026, até abril, segundo pesquisa da OLX. O primeiro lugar é do Volkswagen Fusca. Da terceira à quinta posição aparecem Volkswagen Gol, Chevrolet Chevette e Ford F-75, mostram dados da plataforma. A empresa considera veículos clássicos aqueles com ano de fabricação até 1990.

Até abril deste ano, o Rio Grande do Sul contava com 1,1 milhão de veículos com ano de fabricação até 1990 em circulação, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS). Esse número representa cerca de 14% do total da frota do Estado (8,1 milhões). O levantamento do Detran-RS abrange todos os tipos de veículos, incluindo motos e caminhões, por exemplo, mas os carros são a maior fatia.

Com o avanço dos carros com injeção eletrônica, motores flex e maior tecnologia embarcada, além da entrada dos eletrificados, a tendência natural é que os veículos mais antigos comecem a cair na obsolescência. No entanto, um misto de saudosismo e memória afetiva dá a alguns modelos o status de clássico e mantém o espaço deles entre colecionadores e admiradores. _

Na Quinta Noturna, é o som dos motores que domina a cena

O encontro de veículos clássicos Quinta Noturna é organizado pelo Auto Clássico Clube, em Porto Alegre, há cerca de 10 anos. O evento ocorre todas as segundas quintas-feiras do mês, no Boulevard Assis Brasil, na Zona Norte. O clube também realiza o passeio On The Road, que percorre estradas gaúchas.

Um dos fundadores do grupo, o fotógrafo Marco Escada afirma que o encontro nasceu de uma tentativa de negócio, baseada na reunião de carros clássicos para produzir fotos por meio da empresa dele, a 1ponto8 Fotografia Automotiva. O negócio com foco exclusivamente na produção de imagens dos possantes acabou evoluindo para amizades e laços que seguem crescendo. Hoje, a Quinta Noturna reúne, em média, 70 veículos a cada edição, chegando até 300 em datas festivas, e o 1ponto8 virou um canal automotivo no YouTube. Durante os eventos, o Auto Clássico Clube também estimula ações sociais.

Escada avalia que a paixão por carros antigos, que demanda dinheiro, tempo e disposição dos donos, está muito ligada à nostalgia:

- A gente viu esses carros serem lançados e, na época, eram considerados caros e sofisticados. Hoje, são ultrapassados do ponto de vista tecnológico e, por isso, algumas vezes, acessíveis. Mas continuam carregando aquele saudosismo, aquele glamour, aquela aura de objeto desejado.

Além da nostalgia por uma época em que os carros eram mais mecânicos do que eletrônicos, o apego aos clássicos também passa por questões familiares. As lembranças dos carros dos avôs, pais e tios, por exemplo, ainda dominam parte dos pensamentos desse público, que tenta resgatar essas vivências na aquisição e manutenção desses modelos.

- A gente vê muito aqui no clube. O cara chega com um Vectra e perguntamos: "Mas por que tu comprou um Vectra?". Ele responde que comprou porque o pai dele teve um - destaca Evandro Scholles, vice-presidente do Veteran Car Club, de Novo Hamburgo.

O clube liderado por Scholles é responsável pela Expoclassic, um dos maiores eventos de carros clássicos do Estado, realizado nos pavilhões da Fenac. _

Uma paixão que ultrapassa gerações

Como destacou no começo da reportagem, Vilson dos Santos, 52 anos, alimenta a paixão por carros clássicos desde a época em que esses veículos ainda nem carregavam a alcunha.

Em 2008, 26 anos após guiar pela primeira vez um carro do estilo que se tornaria seu favorito, viu a chance de ter o próprio. Ao vender uma casa, surgiu a oportunidade de receber um Chevrolet Opala Comodoro SL/E 1988 como parte do pagamento. Conversou com a esposa e decidiu ficar com o carro, inicialmente alegando que seria "para vender", mas acabou mantendo-o para si.

Nos últimos cinco anos, dedicou-se à restauração do veículo, batizado de Mafioso em referência à pintura preta e ao visual imponente. Hoje, calcula que gastou perto dos R$ 50 mil. Brinca que parou de contar nos R$ 36 mil.

- No meu caso, particularmente, o que explica é a nostalgia pelos carros da década de 1970, 1980. Claro, eu sou apaixonado por tudo que é carro antigo, mas a paixão por Opalas vem da adolescência. É um custo alto manter. Não é fácil, mas, como muita gente gosta de futebol, de pescaria, a nossa paixão é carro antigo - argumenta Santos, que hoje também tem um Vectra 1996/1997, usado no dia a dia, e um Fusca, salvo do desmanche.

Ele também passou, como gosta de dizer, o "gosto pela ferrugem" para os filhos. O mais velho, de 26 anos, tem um Audi Turbo, ano 2001. A filha, Andriellen, de 23, tem um Fusca 1980, apelidado de Esmeralda.

Fuscas que representam herança e preservação do legado familiar também são encontrados com frequência em encontros como o Quinta Noturna. Orgulhosos, os donos dos veículos se emocionam ao contar como mantêm a história dos antepassados e pretendem passar adiante essa paixão. É o caso do empresário Marcelo Machado, 51 anos, atual dono do Fusca 1974 que era de seu avô.

Depois de conseguir passar o carro para seu nome, após abrir o inventário dos avós, ele planeja iniciar um projeto para ir até Ushuaia, em fevereiro de 2028. E a aventura não para por aí.

- Esse Fusca era do meu avô, ele tirou zero na revenda e ficou com ele por 20 e poucos anos. Passou para o meu tio, que, em 2010, passou para mim. Pulou a geração do meu filho, que não gosta de carro antigo, e a ideia agora é passar para a quinta geração: meu neto, que mora em Nova York - conta Machado. _

"Cada carro feito é um filho que o cara faz"

Alguns felizardos conseguem unir a paixão pelos carros clássicos com a profissão. Quando criança, o empresário e mecânico Atila Israel Machado Fontoura, 54 anos, se escorava no portão de casa e admirava os carros que passavam, principalmente os Fuscas. Na adolescência, viu a oportunidade de se aproximar dos veículos ao ir trabalhar na oficina do tio, especializada na manutenção de Volkswagen e DKW. Não teve jeito, a paixão, principalmente pelo Fusca, cresceu ainda mais

Anos depois, após atuar em outras áreas do setor automotivo, conseguiu realizar o sonho de fundar a sua própria oficina, especializada em veículos Volkswagen refrigerados a ar - categoria que inclui, além do Fusca, modelos como Kombi, Variant e Brasília. Fundada há oito anos, a Air Blower Garage, na zona norte de Porto Alegre, é referência na manutenção desses veículos.

- É fazer o sonho virar realidade. Meu sócio hoje é meu filho mais velho, que se criou comigo dentro do Fusca. Eu criei o meu trabalho, criei um caminho. Isso para mim é motivo de muito orgulho. Cada carro que a gente faz é um filho que o cara faz. Hoje, não somos só uma oficina, somos uma grande família. O pessoal entra sorrindo, toma um café, porque aquilo ali mexe com eles - explica.

Duas gerações

Sócio do pai, Atila Israel da Rosa Fontoura, 35 anos, o Atilinha, também virou um apaixonado por Fuscas:

- Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, andava de Fusca com meu pai. Com oito anos, ele me deixou desmontar o primeiro motor. Com 12 anos, eu ajudei a montar. Então, ali já deu aquela coisa no coração, de gostar do motor. E trabalhar com o meu pai é um privilégio.

Na oficina dos Fontoura, em meio a Fuscas, Brasílias, Kombis e Gols BX, o barulho das ferramentas é interrompido, vez ou outra, pelo ronco grave e cadenciado que parece reverberar pela oficina como pequenas batidas metálicas ritmadas. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente, completando um cenário que remete a décadas passadas, quando os Fuscas dominavam as ruas, eram táxis, viaturas e transportavam famílias e suas histórias. _

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

03 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

O vento aqui é uma pessoa

Ficamos preocupados se a janela está aberta, se a porta está encostada, se há algum parente na rua no momento do torvelinho.

Decidimos se vamos caminhar ou pedalar de acordo com sua intensidade. Palpitamos com naturalidade: "O vento virou", "o vento não veio", "o vento não dá trégua". Chegamos ao preciosismo de medir sua velocidade como se fosse um carro na Freeway, pego por um radar.

Se, no restante do país, a meteorologia se concentra em saber se o tempo será aberto ou fechado, seco ou chuvoso, azul ou violáceo com pancadas de água, no Sul demonstramos mais interesse em opinar e perguntar a respeito da força da corrente de ar.

Somos filhos do vento. Na tragédia e na graça. Há a mania de identificar quem está entre nós: o Minuano, o Nordestão, o Vento Sul, o Vento Norte. Cléo Kuhn, nosso galo da temperatura, explica a genealogia de cada um:

? O Minuano é conhecido como o vento da limpeza. Quando surge, parece que varre o excesso de umidade. É proveniente do Centro da Argentina, que tem estiagem no inverno. Costuma aumentar rapidamente por aqui, com um frio seco que permanece de 3 a 5 dias.

? O Nordestão é o vento quente, chato, insistente, famoso no Litoral. Recebe a culpa por nos deixar inquietos, irritados ou com enxaqueca. Ocorre a formação de nuvens entre o mar e a serra, que depois de três dias se converte em chuva.

? O Vento Sul, o Pampeano, traz a umidade da bacia do Prata para boa parte do RS, com a proliferação de nuvens acumuladas de 4 a 5 dias. É o aviso da hora de recolher. ? O Vento Norte, entre o Planalto, o Centro e a Campanha, é sinal de estufa, de abafamento, de excesso de umidade, da iminência de borrascas duradouras. Põe a todos em alerta.

Talvez o hábito de vasculhar os ventos, muito presente na vida urbana, tenha começado nas estâncias do Pampa, já que a sua aparição determinava o trabalho no campo e a lida com o rebanho.

Até o nosso figurino tradicional - o poncho, o lenço e o chapéu - é uma armadura contra as frentes frias, contra as imprevisíveis rajadas que balançam as figueiras e desenham ondas na grama do descampado.

Não é coincidência que o nosso grande clássico seja O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O vento, no romance, indica o nosso lugar de origem e também expressa a resiliência e a continuidade da luta, mesmo após o declínio da família Terra-Cambará. Erico usou os elementos da natureza para descrever a nossa geografia, tanto física quanto emocional e psicológica.

Na própria trama, o comentário de Ana Terra se eternizou: "Noite de vento, noite dos mortos". Nas superstições, o vento ruidoso batia nas frestas das casas de madeira e sussurrava o nome dos que iam morrer ou dos antepassados.

Realmente, o nosso vento é uma pessoa. Chora, geme, ri, grita, derruba, levanta, bagunça os papéis, embaralha as roupas no varal. No imaginário dos antigos tropeiros, quando se agitava o capim das coxilhas durante a noite, dizia-se que era o Negrinho do Pastoreio cruzando o campo a galope, conduzindo a sua tropilha invisível.

Na nossa galeria histórica, existe uma cena de cinema: na Revolução Farroupilha, Giuseppe Garibaldi liderou a épica travessia dos lanchões Seival e Farroupilha por terra. Para burlar o bloqueio naval imperial na Lagoa dos Patos, os barcos foram colocados sobre imensas carretas com rodas de 3,5 m, e puxados por cem juntas de bois por cerca de 80 km.

Somos como navegadores no seco. Seguimos por onde o vento sopra. 

CARPINEJAR

03 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Nós e as máquinas

Parece que não se fala de outra coisa - mas o que se sabe, com certeza lavrada em cartório, não recheia uma empada. IA: duas letrinhas cercadas de dúvidas por todos os lados. Para que mares nunca dantes navegados estamos nos dirigindo? Vai ter lugar para todos nesse transatlântico mecatrônico ou vamos precisar disputar a tapa uma vaguinha nos botes infláveis da terceira classe?

Os entusiastas (ou "boomers") estão convencidos de que o futuro será tão espetacular que gostariam de estar nascendo agora, em agosto de 2026, para aproveitar todas as delícias desse Shangri-la sem doenças, sem miséria e sem trabalho chato que a nova revolução tecnológica promete. Já os fatalistas ("doomers") chegam a duvidar que as crianças de hoje vão ter tempo de chegar à idade adulta antes do cataclismo final.

Se você está com a sensação de que a tecnologia anda mais rápido do que a sua capacidade de assimilar novas angústias, bem-vindo ao clube. A boa notícia é que o gênero "IA para leigos" vai de vento em popa. Deixo aqui duas sugestões para quem quer mergulhar no assunto da maneira menos árida possível.

A primeira é o documentário The AI Doc: Or how I became an apocaloptimist, de Charlie Tyrell e Daniel Roher, que estreou este ano no Sundance. O mérito do filme é colocar um sujeito que entende pouco ou nada de tecnologia para conversar com "boomers", como Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic), e "doomers", como o historiador Yuval Harari e Tristan Harris (ex-Google), entre outros, fazendo as mesmas perguntas tolas e urgentes que a gente faria, se pudesse.

A segunda sugestão é o livro A máquina e nós (Todavia), de Tatiana Roque. Professora titular do Instituto de Matemática da UFRJ, a autora começa explicando como a IA funciona e a situa na grande história da relação dos homens com as máquinas. O livro prossegue discutindo temas como o impacto da IA no ambiente e no mercado de trabalho e os desafios que o Brasil vai ter que enfrentar para não comer mosca. Tudo isso sem perder a graça e o estilo, com referências que vão de Machado de Assis e Clarice Lispector a Mad Men e Scooby-Doo.

Sobre a nossa inteligência em relação à das máquinas, olha o que ela nos diz: "Todas as palavras podem ser aprendidas pelas máquinas um dia, com treinamento adequado, desde que registradas, transformadas em números e incorporadas num espaço matemático. O que o aprendizado artificial não capta é a infinita capacidade humana de seguir inventando coisas novas, cujos nomes e significados remetem a experiências singulares".

Para os "apocaloptimistas", o jogo ainda não está perdido. _

CLÁUDIA LAITANO

03 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Ampliação de acordos comerciais é salutar

Entrou em vigor no sábado o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e Singapura. Apesar de o país ter uma população pequena em números absolutos, de cerca de 6 milhões de habitantes, é uma cidade-Estado densamente povoada e um importante centro financeiro, logístico e industrial do Sudeste Asiático, uma das regiões de crescimento mais acelerado do mundo. Em meio à onda protecionista global puxada pelos EUA, a implementação de um novo tratado que vai na direção contrária do isolacionismo merece ser saudada. Mostra que permanece o interesse entre nações e blocos por maior integração econômica.

O Brasil, um dos principais alvos da investida tarifária da Casa Branca, tem especial interesse em ampliar mercados. No ano passado, exportou US$ 7,4 bilhões para Singapura. Óleos combustíveis, máquinas, equipamentos e carnes são os principais itens embarcados. No caso do Rio Grande do Sul, foram US$ 349 milhões, montante que tende a ser incrementado com a facilitação do comércio não só de bens, mas de serviços também.

É salutar que o Mercosul amplie parcerias. Em setembro do ano passado, começou a valer o acordo de livre-comércio com a Efta, associação formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Em maio, mesmo que de forma precária, foi a vez de dar a largada ao tratado com a União Europeia (UE), após 25 anos de negociações. Assim, em menos de um ano, o percentual da corrente de comércio do Brasil sob tarifas reduzidas passou de 12% para 31%, conforme o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

São ainda promissoras as sinalizações de novas negociações, em diversos estágios. Em junho, foi anunciado o início das tratativas para um acordo de parceria econômica entre o bloco e o Japão. Na semana passada, durante visita ao Brasil, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, tratou com o governo federal da aceleração das conversas para um tratado com o Mercosul. Há a mesma intenção com a China, reforçada em ligação recente entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o homólogo chinês, Xi Jinping. Faz sentido o olhar especial para a Ásia, continente que mais cresce economicamente, tem a maior população e quase metade do PIB global. Há conversas em curso com outros países, como os Emirados Árabes Unidos e o Canadá.

Ao Brasil e ao Mercosul convém ser pragmáticos e manter diálogos nesse sentido com qualquer nação ou bloco que tenha o mesmo objetivo. Isso não significa abrir mão de continuar a tentar que os EUA aliviem o tarifaço contra o Brasil, que carece de lógica econômica. É preciso seguir na mesa de negociações.

Acordos do gênero, por serem vias de mão dupla, incluem adquirir mais bens e serviços do Exterior também. A maior abertura é benéfica ainda por forçar a busca pela competitividade no Brasil. Conforme o Banco Mundial, enquanto na média global a corrente comercial é equivalente a 56% do PIB, no Brasil a soma das importações e das exportações corresponde a somente 35,5% da geração de riquezas, uma das menores. Mesmo mantendo cuidado com setores sensíveis, como faz qualquer nação, o Brasil tarda em deixar de ser uma das economias mais fechadas do mundo.