segunda-feira, 24 de agosto de 2026

24 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

O que o clube não vê

É comum dizer que não se enxerga a realidade do elenco e da comissão técnica. O que não deixa de ser verdade. O técnico colorado, Paulo Pezzolano, perdeu recentemente sua mãe e nem teve tempo de enfrentar o luto, precisando reverter os resultados negativos. O esporte não demonstra piedade com as dores pessoais e impõe um calendário apertado.

Quem já velou seu tronco materno sabe o quanto o chão vai embora dos passos. Trata-se de um fim absoluto da infância, quando você é arremessado do enterro para o mundo, órfão daquela que mais o incentivava. É quando se envelhece irremediavelmente, na mais completa solidão, sem a retaguarda de outrora. Desaparece o referencial geográfico da confiança: do colo, do conforto da sua maior fã. Até a cidade em que você nasceu morre um pouco junto, sem pretexto para as visitas recorrentes.

Igualmente, a direção do clube não tem a dimensão da realidade do torcedor.

O Inter e o Grêmio são a base de estruturas familiares. De uma adoração que se passa de pais para filhos. Desde os sapatos de crochê e a tabuleta na porta do quarto do rebento.

São milhares de sócios que se esforçam para pagar as mensalidades. São milhões de pessoas que realizam sacrifícios inomináveis para participar dos jogos - seja no frio e na chuva, seja com o sol na cara -, que desmarcam compromissos, que se mostram ausentes nos finais de semana, que reservam as datas dos confrontos, que se mobilizam bem antes de a partida começar, que moram no interior e vêm para a capital em estafante viagem de ônibus. 

Que se reúnem numa concentração nas cercanias do estádio para esperar a escalação, que trocam a noite pelo dia e o dia pela noite, que gastam o seu fôlego comentando o antes e o depois em longos telefonemas com os conhecidos ou em discussões na roda dos bares, que só falam disso, que só pensam nisso, que ainda querem ver os melhores momentos e secar os adversários, que não conseguem dormir se a equipe é derrotada, que ficam remoendo gols não feitos ou dados, que almejam a classificação fazendo projeções e cálculos impossíveis.

Nunca são apenas 90 minutos, mas uma devoção permanente aos bastidores, cheia de nervosismo e ansiedade, girando entre os programas de rádio e televisão e as redes sociais.

Quem ama um manto orbita em função das notícias de treinos, de potenciais reforços. Não há plano B. Não há sossego. Não há jantares românticos. Não há férias. Não há festas. Não existe uma abstinência como essa.

É a busca por uma salvação, além de uma mera distração. O torcedor colecionará camisetas, casacos, gorros, bonés. Metade dos presentes que recebe envolve a cor da sua paixão: chimarão, caneca, faca, avental com o escudo. Parece que trabalha para obter algum alívio no campeonato, uma recompensa mínima para tanto investimento.

Mantém vários grupos de WhatsApp para versar sobre o assunto, como plantonista da revisão dos lances e dos erros de arbitragem, com um intercâmbio incessante de emojis e mensagens por 24 horas.

Se não puder acompanhar das arquibancadas, achará um jeito pelos canais exclusivos, pelo celular; inventará uma maneira de, mesmo no serviço, conferir minuto a minuto do escore. É fone de ouvido, é dissimulação, é coração na garganta.

Então, quando o time atravessa uma má fase ou é ameaçado de rebaixamento, tudo se torna cinza, insosso, extinto. Amigos se indispõem, casamentos entram numa espiral de incompreensão, reina um clima de animosidade e irritação, a paciência adoece com a falta da esperança, muitos se deprimem, ninguém mais sorri, ninguém mais sente vontade de acordar.

Gostaria que os jogadores entendessem o tamanho da sua influência. Não é futebol, estão jogando com as nossas vidas. 

CARPINEJAR

24 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Glórias do passado

E então fez-se a cor. Não lá em casa, onde a primeira televisão colorida ainda demoraria alguns anos para chegar, mas na sala de estar de quem podia comprar o aparelho mais prafrentex da época. O especial Meu Primeiro Baile, exibido em março de 1972, entrou para a história da televisão brasileira como o primeiro programa todo gravado em cores (o desfile de carros alegóricos da Festa da Uva de Caxias do Sul, primeira transmissão colorida em caráter experimental, havia ido ao ar no mês anterior).

Para sorte dos telenostálgicos, Meu Primeiro Baile está disponível na íntegra no YouTube - e a morte de Glória Menezes me pareceu um bom pretexto para voltar a uma história que me impressionou muito quando eu era criança. Glória faz o papel de uma viúva rica que decide procurar cada um dos rapazes que dançaram com ela em seu baile de debutante. 

Um tornou-se padre, outro é um costureiro famoso, um terceiro virou bandido, e assim as memórias de adolescência vão se contrapondo às surpresas do presente. Atribuída nos créditos ao poeta e roteirista Jacques Prévert, a trama é na verdade uma versão compacta do filmaço francês Un Carnet de Bal (1937).

Não sei se a lembrança forte que me ficou é já dessa primeira exibição ou de alguma das muitas reprises, mas uma cena em especial nunca saiu da minha cabeça: a gota de sangue que cai sobre as teclas de um piano, anunciando a morte iminente de alguém (anos depois, descobri que a cena que assombrou a minha infância tinha sido copiada de À Noite Sonhamos, cinebiografia do tuberculoso Frédéric Chopin).

Pelo investimento em elenco, autores e equipe técnica (Janete Clair no roteiro, Daniel Filho na direção), Meu Primeiro Baile anunciava o futuro de sucesso que aguardava a teledramaturgia brasileira nos anos seguintes. Ainda assim, o especial é cheio de conexões com o passado. 

O formato é o dos teleteatros, populares nas décadas de 1950 e 1960, quando a programação era ao vivo. O elenco é egresso dos palcos: além de Glória e Tarcísio, Sérgio Cardoso, Francisco Cuoco, Paulo José, Felipe Carone e Zilka Salaberry, entre outros veteranos. A própria trama, adaptada de um filme antigo, já era um pouco anacrônica no início dos anos 1970.

Sabe o que parece ainda mais anacrônico em 2026? As novelinhas verticais. A mais recente adaptação da teledramaturgia aos novos hábitos de consumo digital também tem um pé no passado enquanto mira a audiência do futuro. Infelizmente, o modelo copiado não parece ser o do passado de glórias (Menezes, Pires, Perez?) das telenovelas brasileiras, mas o daqueles dramalhões mexicanos que já nos pareciam bobocas e ultrapassados quando Odorico ainda era prefeito de Sucupira. _

CLÁUDIA LAITANO

24 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Uma das principais vocações econômicas da Capital, com espaço para ser melhor explorada, é a de receber grandes eventos. E os ligados ao esporte, sem dúvida, estão entre as principais oportunidades, até pela tradição dos porto-alegrenses e dos gaúchos de acompanhar e praticar diversas modalidades. Um exemplo recente foi a 41ª Maratona Internacional de Porto Alegre, no último fim de semana de maio. 

Reuniu 30 mil atletas de 26 países. Fez a rede hoteleira local registrar no período cerca de 90% de ocupação e movimentou ainda todo o restante da cadeia ligada à hospitalidade. A Copa do Mundo Feminina de Futebol, no próximo ano, traz uma possibilidade ímpar para consolidar essa aptidão.

Porto Alegre será uma das oito cidades-sede da competição que será realizada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho do próximo ano. É a primeira vez que a América do Sul receberá a disputa. Estão programadas sete partidas para o Estádio Beira-Rio, seis pela fase de grupos e uma pelas oitavas de final. No total, a Copa terá 32 seleções e 64 jogos. A movimentação de público tende a ser significativa, com a vinda de milhares de turistas, boa parte estrangeiros.

O futebol feminino cresce em interesse no mundo. Segundo a Fifa, o mercado de transferências movimentou, em 2025, US$ 28,6 milhões. Parece pouco, mas é um crescimento de 83,6% sobre 2024 e de 2.200% em cinco anos. A meta da entidade é que, em média, as partidas do torneio sejam assistidas no estádio por mais de 33 mil pessoas. 

Se o objetivo for alcançado, os sete jogos na Capital seriam vistos das arquibancadas por cerca de 230 mil torcedores. Na Copa masculina de 2014, foram cinco partidas na cidade. Espera-se que os ingressos tenham preços acessíveis, para estimular também a população local a comparecer às partidas.

A chegada de um grande número de visitantes tem o potencial de movimentar o comércio e os serviços de Porto Alegre e, como legado, ampliar a visibilidade internacional da cidade. É preciso, portanto, estar preparado para receber bem turistas e deixar boa impressão. A prefeitura da Capital criou, no ano passado, uma secretaria extraordinária para tratar da organização do evento. 

Mas os ganhos econômicos, por óbvio, não ficam restritos à cidade-sede. Podem se espalhar por outras regiões, em especial as mais turísticas. É comum que visitantes atraídos por eventos do gênero busquem conhecer outros destinos e atrativos nas proximidades.

A Copa do Mundo Feminina é um acontecimento de alcance planetário e é considerada a principal disputa esportiva feminina do mundo. Conforme a Fifa, que divulgou o calendário dos jogos na quinta-feira, mais de 730 mil pessoas já demonstraram interesse em adquirir ingressos. A meta da entidade é que o público nos estádios supere a marca de 2 milhões de pessoas, alcançada na última edição, em 2023, na Austrália e na Nova Zelândia.

Um estudo da Embratur, em parceria com a FGV Projetos, projeta que o evento movimentará R$ 8,8 bilhões na economia nacional. Parte desses benefícios ficará em Porto Alegre e no RS. A responsabilidade é garantir uma boa organização e uma receptividade exemplar, confirmando a capacidade local de atrair e sediar grandes eventos. 

OPINIÃO RBS

24 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Henrique Ternus
(Interino)

As propostas para a educação dos candidatos no RS

Mesmo considerada uma das melhores áreas do Estado, segundo pesquisa Quaest divulgada em 30 de julho, a educação é tema central dos planos de governo dos quatro candidatos ao Palácio Piratini. Nos documentos entregues ao Tribunal Regional Eleitoral, Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) apresentam uma penca de ideias para aprimorar o aprendizado.

Todos priorizam a aprendizagem na idade certa e estabelecem planos para expandir as escolas em tempo integral. Em consenso, os candidatos pretendem fortalecer o Ensino Técnico, levando em conta as vocações regionais, para garantir mão de obra qualificada para as demandas de cada parte do Estado.

Combater a evasão escolar também está entre as metas. Tanto Gabriel quanto Maranata propõem aperfeiçoar e expandir o Todo Jovem na Escola, que oferece auxílios financeiros e bolsas. Zucco sugere a integração de dados para identificar precocemente o risco de abandono, enquanto Juliana quer ampliar o uso da busca ativa escolar, estratégia do Unicef para reduzir taxas de desistência e promover reintegração escolar.

O que propõem

Atual vice-governador, Gabriel confia nos programas adotados no atual governo e, por isso, a maior parte das suas propostas é relacionada a fortalecer e a ampliar o que já está em andamento. Além disso, promete realizar o que chama de "maior programa de Ensino Técnico da história", com a criação de 80 mil vagas e investimento de R$ 600 milhões por ano, com recursos da adesão do Estado ao Propag.

Juliana é a única a citar o compromisso com o pagamento do piso nacional do magistério e com o investimento de 25% da receita líquida em educação, como manda a Constituição - apesar do acordo firmado entre governo do Estado e Ministério Público para fazer aumentar o aporte anualmente até atingir o índice, previsto para 2039. A pedetista se compromete ainda a implantar gradualmente os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), conhecidos no Rio como "Brizolões".

Zucco garante no plano de governo que acabará com o mecanismo de progressão parcial, em que o aluno passa de ano mesmo reprovando em até quatro disciplinas - recuperadas com aulas de reforço no ano seguinte. Além disso, Zucco quer ampliar as escolas cívico-militares, priorizando áreas de maior vulnerabilidade e exposição à violência, e os Colégios Tiradentes.

Maranata tem como meta criar 2 mil escolas empreendedoras no Estado, oferecendo cursos de iniciação profissional, gestão, finanças, tecnologia, cooperativismo e empreendedorismo. _

Passeio no parque

Sob sol e céu azul, o candidato do MDB a governador, Gabriel Souza, escolheu a Redenção, em Porto Alegre, para fazer campanha ontem. Acompanhado da esposa, Talise, da filha Dora e da cachorrinha Bibiana Terra, o emedebista gravou comerciais para rádio e televisão, que começarão a ser veiculados a partir de sexta-feira.

Ainda no Parque Farroupilha, Gabriel aproveitou para participar de mobilização com seu vice, Ernani Polo, e correligionários da Capital. Na quarta, lançará o comitê central. _

Bancada do PT quer agilizar votação da PEC da data-base

A bancada do PT na Assembleia tem pressa para votar o projeto de emenda à Constituição (PEC) que determina 1º de março como data-base para reajustar salários do funcionalismo gaúcho. O deputado Miguel Rossetto quer convencer os líderes das outras bancadas a levar o tema direto para votação no plenário, sem passar pelas comissões, já que há acordo sobre o mérito da medida.

Para isso, é preciso que haja concordância da maioria dos representantes dos partidos, na reunião que ocorre todas as terças-feiras pela manhã.

Enquanto isso, a PEC segue sua tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde o tema voltará à pauta no dia 1º de setembro, se houver sessão do grupo durante a Expointer. A previsão do presidente Guilherme Pasin (PP) é usar a ocasião para tratar de temas ligados à feira do agronegócio, mas já poderá ser feita a distribuição da proposta ao relator, que, por acordo, deverá ser Cláudio Tatsch (PL).

A medida foi protocolada em maio, pelo deputado Thiago Duarte (PDT). Além da data-base, o texto original garantia a correção anual dos salários pela inflação, artigo considerado inconstitucional. Com isso, um novo texto foi proposto, prevendo apenas a revisão anual em 1º de março. 

mirante

Duas pesquisas divulgadas esta semana vão medir o desempenho dos candidatos ao governo do RS e ao Senado após a primeira semana de campanha. Hoje, a Quaest divulga levantamento, encomendado pelo Grupo RBS. Amanhã, será a vez da Real Time/Big Data.

Além dos R$ 2,5 milhões para Luciano Zucco (PL), o empresário Alexandre Grendene também doou R$ 500 mil para a campanha de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará. Fundada em Farroupilha, a Grendene tem em Sobral (CE), reduto eleitoral de Ciro, sua sede social e o principal complexo industrial da empresa.

POLÍTICA E PODER

24 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O RS e a medicina de desastre

Se a Defesa Civil foi uma área em que o Rio Grande do Sul avançou desde a tragédia das enchentes de 2023 e 2024, há outro setor, bastante específico, que merece atenção do poder público e da esfera privada: a medicina de desastres.

Em andanças, de tragédia em tragédia, como o furacão Katrina, testemunhei, como enviado especial da RBS, que a primeira resposta a um desastre costuma ser dada pelo sistema de saúde local. E quando a própria rede hospitalar sucumbe? É diferente atuar com recursos, equipamentos e insumos em ambientes a que os profissionais estão acostumados. 

Em uma tragédia de grandes proporções, equipes de emergência são testadas em ambientes de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas, sem medicamentos, o que exige capacitação prévia e posterior, continuada. A covid-19 foi um teste, em que profissionais de saúde do RS atuaram sob pressão, no limite da exaustão, encarnando o mais nobre desígnio de seus juramentos.

Mas treinamento em grupo, ações coordenadas e logística serão cada vez mais necessários. Em meio a uma crise, cabe a esses profissionais classificar rapidamente feridos para priorizar quem tem chance de sobrevivência com recursos limitados, montar hospitais de campanha, gerenciar o fluxo de suprimentos e equipes e integrar médicos, bombeiros, Defesa Civil e órgãos de saúde pública.

Organizações como Médicos Sem Fronteiras têm essa expertise. São, normalmente, as primeiras a chegar e as últimas a sair. Mas, para além de organizações não governamentais, poder público, hospitais e universidades devem investir nessa especialização.

Desde 2011, a Força Nacional do SUS existe, inclusive com uma base no Estado. Segundo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, novos efetivos serão criados a partir de 2027 no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. O setor privado também precisa investir. 

No eixo Rio-São Paulo, a rede Einstein é referência, com um grupo de especialistas que atuou no Haiti, no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e em Brumadinho (MG). Mas, no RS, quantos cursos de especialização em nível acadêmico existem nessa área? Quantos hospitais dispõem de grupos de medicina de desastres? E há quanto tempo Porto Alegre não realiza uma grande simulação de resposta a uma emergência? _

O que foi feito no RS recentemente

Em resposta à coluna, o Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) informou ter organizado simulações sobre desastres. Em junho, foi simulada a chegada de um voo com passageiros com doença infecciosa desconhecida.

Na ocasião, o exercício reproduziu um cenário em que a tripulação pede apoio médico para passageiros com sintomas dessa infecção, recebendo apoio. Planos de contingência foram ativados. Os casos "mais graves" foram transferidos para o Hospital de Clínicas.

No ano passado, foi realizada ainda uma simulação de incêndio e desabamento do teto do plenário da Câmara de Vereadores, na Capital. A ação contou com a participação voluntária de 50 estudantes de Medicina, que foram as "vítimas" de um desabamento seguido de incêndio no Plenário Otávio Rocha.

Nove hospitais, 15 ambulâncias e três caminhões do Corpo de Bombeiros participaram da operação, além de equipes da Defesa Civil, EPTC e Instituto Geral de Perícias (IGP).

Em 2023, outra simulação ocorreu, dessa vez no Hospital Moinhos de Vento, com o cenário hipotético de um incêndio envolvendo o deslocamento de vítima em helicóptero do Batalhão de Aviação da Brigada Militar.

Pacientes foram deslocados para outras unidades de saúde, enquanto o combate às chamas envolveu uma operação do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, Defesa Civil, forças de segurança e sistema hospitalar. _

Entrevista - Jeffrey Urkevich - Diretor de Parcerias da Juvare

"O Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação de emergências"

O Codex Experience reuniu, na semana passada, especialistas, gestores públicos e executivos para discutir como dados, inteligência artificial e novas tecnologias podem contribuir para a tomada de decisões em respostas à crise climática. Um dos painelistas foi Jeffrey Urkevich, diretor de parcerias da Juvare, empresa americana que busca operações no país. Ele conversou com a coluna.

A tecnologia baseada em IA é uma plataforma de gestão digital adotada nos 50 estados americanos e em mais de 25 países para coordenar respostas a desastres em tempo real. Como pode ser a operação no Brasil?

O WebEOC pode permitir que todos os Estados e municípios brasileiros protejam pessoas e ativos por meio de uma plataforma que oferece uma visão operacional comum antes, durante e após um evento. Tem potencial para se tornar o ponto de comunicação entre os órgãos de gestão de emergências de todo o Brasil, contribuindo para melhorar o tempo de resposta e reduzir o tempo para o restabelecimento da normalidade.

Haverá operação no Rio Grande do Sul?

Não podemos compartilhar esse tipo de informação, mas a primeira implementação está em andamento na CEPDEC-ES (Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Espírito Santo). Esperamos expandir a operação.

Como a IA se dá, na prática, na plataforma de gestão?

O produto é uma ferramenta de IA que permite aos usuários interagir com a base de dados para criar relatórios e gráficos e encontrar respostas rapidamente em um ambiente seguro. A ferramenta aplica regras rigorosas de privacidade, respeita as permissões dos usuários e nunca utiliza dados dos clientes para treinar modelos externos de IA. Estamos atualmente trabalhando no desenvolvimento para o mercado brasileiro.

Um dos desafios é a dificuldade de integração de dados?

Fontes distintas e desconectadas são sempre um desafio na resposta. De modo geral, a existência de múltiplas fontes gera confusão e aumenta o tempo de resposta. O WebEOC permite conexões entre sistemas que já estão em uso, possibilitando uma visão comum. Por meio de conectores padronizados, conseguimos reunir diversas fontes de dados em uma única interface. Além disso, integramos dados de mapas por meio da extensão ArcGIS. O modelo que utilizamos nos EUA, liderado pela FEMA, é centralizado e adota como padrão a estrutura que garante coordenação em tempo real e interoperabilidade.

Durante o furacão Katrina, em 2005, também houve problemas relacionados à descentralização de dados. Passados mais de 20 anos, essa situação melhorou?

O furacão Katrina foi um ponto de inflexão para a preparação e a resposta a emergências nos Estados Unidos. A situação melhorou significativamente graças às APIs abertas, ao compartilhamento de dados e a sistemas centralizados, como o WebEOC. Sempre há espaço para melhorias, e novas lições são aprendidas diariamente por meio de treinamentos, aperfeiçoamento de processos e situações reais. _

INFORME ESPECIAL

domingo, 23 de agosto de 2026

Fábula cômica e perturbadora

o seculo dos imbecis

o seculo dos imbecis

EDITORA GLOBO/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti

Vivemos em meio a toneladas de informação e, ao mesmo tempo, envoltos em pouco conhecimento e sabedoria verdadeiros. Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, que antes falavam bobagens e superficialidades apenas nas mesas dos bares, depois que a bebida tinha destravado suas línguas.


O século dos imbecis (Biblioteca Azul - Editora Globo, 344 pág, R$ 61,00), romance mais recente de Valter Hugo Mãe, premiado e consagrado escritor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor angolano, construiu uma fábula tão divertida quanto inquietante sobre essas e outras questões essenciais do mundo contemporâneo.


No alto das montanhas de um local fictício, num tempo indefinido, num palacete vive Agilulfo, o excêntrico Marquês da Malandrinha, inicialmente solteiro e depois em companhia de sua companheira, a Marquesa. Com a prosa lírica e singular que o caracteriza, o autor, que já publicou vinte e cinco livros, mescla com habilidade realismo mágico, humor afiado e reflexão filosófica para contar que o Marquês, sempre que sobe mais as montanhas se torna mais lúcido e brilhante. Quando desce e se aproxima do vilarejo e do mar, Agilulfo emburrece.


O Marquês desperta paixões, ressentimentos e ambições. Ao seu redor vai se desenrolando uma trama de luxúria, inveja, vergonha, ganância, empatia, solidariedade e estupidez. Tudo demasiadamente humano. A narrativa ataca o passado dos detentores do poder, faz crítica ao fascínio coletivo pela ignorância, ao modo como a burrice virou espetáculo com plateia e reflete sobre pessimismo, Deus e os emigrantes, por exemplo.


Os personagens de nomes esquisitos como Paciasso, Martinbon, Omobon e Omobestia, são tipos que seguem por aí, entre nós, atualmente. A Marquesa apresenta contradições bem humanas e a Criada é a única que compartilha a verdadeira intimidade do casal, os silêncios, as fraquezas e os segredos da casa.

O autor mostra a decadência de uma elite sem futuro, descendente de ladrões e criminosos, que mataram, escravizaram e trouxeram ouro do Brasil, mas tudo com fina ironia, humor, hábil construção narrativa e linguagem requintada.

 

Nem vencidos, nem vencedores: utópicos

Nesses nossos tempos escalafobéticos e apocalípticos em que até os jovens, os artistas e os escritores adoram curtir uma distopia básica, falar em paz, união, utopia da boa e fim de polarizações deletérias pode parecer fora de moda, ultrapassado, inútil e dinossáurico. Sobre utopias, aliás, escreveu o passarinho imortal Mário Quintana: "Se as coisas são inatingíveis...ora! / Não há motivo para não querê-las/ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas."


Nosso mundo marcado por polarizações, com dezenas de guerras e milhares de conflitos e nosso Brasil atormentado pela polarização destruidora que nos assola há décadas não nos deixam espaço para muita esperança. Essas próximas eleições aí estão marcadas pelo medo, pela descrença e pelo dificílimo futuro político, financeiro, econômico e social que o próximo presidente, seja quem for, vai ter que encarar. Nas campanhas o papo repetido é de redução de gastos, desenvolvimento econômico, menos impostos, ênfase na segurança e na educação e tal. Nem adianta ligar o promessômetro, que a gente nem precisa ser vidente pra saber como será o amanhã. A gente já viu o filme.


Pois mesmo com esse planeta e esse país do que jeito que estão, temos que seguir adiante. É o que temos. O melhor caminho seria o de pensar em rumos onde não houvesse vencedores e nem vencidos após as eleições e caminhos para pacificar o globo. A inclusão de países, sociedades, grupos e pessoas numa ordem mundial mais pacífica e equilibrada seria evidentemente o melhor. O sonho é antigo, a utopia também, mas em alguns lugares como a Escandinávia, o Japão, a Austrália, Nova Zelândia e alguns outros países, há, na real, mais paz, segurança, equilíbrio social, político e econômico e o interesse coletivo está melhor cuidado, com ganhos para todos.


Pena que os "diálogos" entre os líderes das nações muitas vezes são piores do que as conversas nos banheiros dos botecos, sem querer ofender, claro, os simpáticos frequentadores dos pés-sujos, a maior parte trabalhadores, pessoas dignas de respeito e consideração, ao contrário de algumas figuras públicas que estão aí mostrando que o "sapiens" não é lá essas coisas e precisa dar um trato no lado humano e na ética.

O ser humano por vezes é demasiado humano e desde os tempos das cavernas fica cobiçando os diversos bens alheios e partindo para a briga, para tomar territórios, riquezas e para saciar a vaidade das vaidades, como nos ensinou o Rei Salomão no livro bíblico Eclesiastes, do Velho Testamento.

Como já disseram, o homem é o lobby do homem, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. A democracia segue como o regime menos pior e continua sendo uma construção eterna, apesar de alguns aí quererem enterrá-la para faturar mais em cima dos outros.


Esquerda e direita são conceitos e rótulos centenários que precisam de revisão e que não devem se prestar para detonar o bom interesse coletivo. Na história se sabe que se os coroados não se ligam, o povão perde a paciência e vai para cima.

 a propósito

É bom que os donos do poder, da grana, das mídias e dos campinhos espalhados pelo mundo pensem, ao menos de vez em quando ou pelo menos uma vez na vida, que caixão não tem gaveta, que no final do jogo de xadrez dos humanos os peões, as torres, os cavalos, os bispos, os reis e as rainhas vão todos para a mesma caixa. Enfim, se os "racionais" e "donos da linguagem" se tocarem, quem sabe a polarização se torne apenas uma degustação de Polar, inclusive e especialmente para os bipolares e multipolares que estão se multiplicando por aí. Paz, amor e humor para todos! Felizes, curiosos e bem-humorados são a nata da nata humana. (Jaime Cimenti)

 

lançamentos

a bíblia do burnout

a bíblia do burnout

CULTRIX/DIVULGAÇÃO/JC

A Bíblia do Burnout (Cultrix, 336 pág, R$ 59,00), de Rachel Philpotts, nutricionista inglesa especialista em saúde mental, traz uma abordagem natural com rigor científico para combater a fadiga e a sobrecarga emocional e receitas antiestresse práticas e funcionais para recuperar corpo e mente. A obra venceu o People's Book Prize e foi finalista do Business Book Awards.


Famílias empresárias brasileiras (FGV Editora, 168 pág, R$ 59), de Levindo O.C. Santos, doutor em administração pela FGV Eaesp e com quatro décadas de trabalho no mercado financeiro, traz memórias, reflexões e ensinamentos sobre legado, gestão e sucessão e narra casos empresariais de famílias do Grupo Votorantim, Grupo Colombo e G5 Partners, entre outros.


Você está aqui (Editora Intrínseca, 400 pág, R$ 76,00), de David Nicholls, escritor e roteirista de cinema e televisão, autor do best-seller Um dia, traz o encontro de Michael, destruído pela separação da esposa, com Marnie, abandonada pelo marido. No início foi difícil, mas depois virou história inspiradora de recomeços, primeiros encontros, segundas chances e voltar a estar no mundo.

22 de Agosto de 2026
O QUE ESTOU LENDO - Renata Cardoso

Pachinko - De Min Jin Lee

Intrínseca, 528 páginas

R$ 99,90 (livro físico) e R$ 69,90 (e-book)

Tradução de Marina Vargas

Preconceito, guerra, desigualdade e a condição feminina

Em um tempo ainda mais conservador, uma mulher mora no interior com a mãe, após a morte do pai. Um dia, ela conhece um homem mais velho, de outra cidade, se apaixona e se entrega. Até descobrir que ele é casado.

Então, vem uma descoberta ainda maior: ela está grávida. Isso significa vergonha, exclusão e a possível ruína da família - que já vive com muito pouco.

É assim que começa Pachinko, da autora coreano-americana Min Jin Lee. A história segue acompanhando a protagonista e os seus durante três gerações.

Eu poderia dizer que o livro fala sobre a ocupação japonesa da Coreia, a exclusão em função da nacionalidade, e a desigualdade gerada pela guerra. Tudo isso está lá. Mas, para mim, fala sobre a condição feminina.

Sobre o peso de carregar a responsabilidade pelo cuidado, pela honra, pelo sustento. Sobre performar beleza, delicadeza e feminilidade - e fazer tudo isso com um sorriso no rosto.

Pachinko, que não por acaso é o nome de um jogo de azar, é uma excelente analogia sobre como homens têm o poder de mexer no tabuleiro e definir não apenas a própria sorte, mas também a das mulheres a seu redor. E, ainda assim, são elas que mantêm tudo funcionando. _

O QUE ESTOU LENDO

22 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Loucura sem cura

O narcisista precisa recriar os fatos para fugir de seus remorsos. É um tema que causa consternação. Por mais que se saiba que a única saída é deixar o narcisista falando sozinho, fico tocada pelo fato de que ele jamais se reconhecerá doente. Estará sempre em busca de validação, sentindo-se perseguido e injustiçado. 

Não irá se tratar. Fugirá de terapia. Não escutará aqueles que o amam. Em vez disso, passará os dias inventando histórias, pois a verdade lhe é intolerável, ele precisa recriar os fatos para fugir de seus remorsos.

Já estive bem perto de alguns. Foram relações impossíveis, em que acreditei que conseguiria "salvar" a pessoa do próprio desatino, até que, cansada de sofrer sem obter nenhum resultado, tratei de salvar a mim mesma e me fui.

O livro de Andrea narra a história de um homem adulto que resolve nunca mais visitar a casa paterna - o "aniversário" é de 10 anos sem falar com pai e mãe (há sempre uma mãe submissa casada com o pai narcisista, e ela acaba pagando por essa união desastrosa). A mãe submissa também aparece no livro de Starnone, mas o autor se dedica principalmente a investigar a complexidade do distúrbio. O pai narcísico que ele cria é devastador com quem habita seu círculo. 

Não consegue parar de se gabar, tem mania de grandeza e mantém um estado de tensão permanente a sua volta, pois explode a cada vez que se sente ameaçado - sua cabeça é assombrada por inimigos imaginários e juízes fantasmas. 

Quando entra em um ambiente, adeus, harmonia: tudo pode terminar em gritos e acusações. Não tolera ser corrigido. É alguém consumido pela ideia de perfeição, um devoto de si mesmo. Inatingível. Bruto. Sempre a ponto de perder o controle.

Dois livros espetaculares, sendo que Via Gemito, por ser autobiográfico, vai mais fundo no passado do personagem, que sofreu várias frustrações até se transformar em um adulto alterado. Ninguém nasce narcisista, por isso me parece importante que se identifique os fatores que fazem com que um homem ou mulher passe o resto da sua vida defendendo-se de ataques que não existem. É lamentável que não haja cura, mas sempre se pode atenuar a dor quando se sabe de onde vêm as nossas perturbações. _

Acreditei que conseguiria "salvar" a pessoa do próprio desatino

MARTHA MEDEIROS