segunda-feira, 16 de março de 2026

Fetransul acompanha mercado e aponta efeitos da volatilidade do diesel

Caso o atual patamar de preços se mantenha, parte desses aumentos deverá ser repassada às tarifas de transporte

Caso o atual patamar de preços se mantenha, parte desses aumentos deverá ser repassada às tarifas de transporte

TÂNIA MEINERZ/JC
JC
JCA Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (Fetransul) acompanha com atenção as medidas anunciadas pelo governo federal para mitigar a alta do diesel.
A entidade avalia que iniciativas como a redução do PIS e da Cofins e a criação de mecanismos de subvenção ao combustível contribuem para aliviar parte da pressão sobre o preço do diesel no País.
Mesmo assim, o reajuste anunciado pela Petrobras nesta semana, de R$ 0,38 por litro nas refinarias, indica que o mercado permanece sob forte volatilidade, influenciado principalmente pela cotação internacional do petróleo e pela variação cambial.
No transporte rodoviário de cargas, o impacto é direto. O diesel representa entre 40% e 45% do custo operacional de um caminhão e é o principal insumo da atividade. Sempre que ocorrem aumentos relevantes no preço do combustível, os efeitos nas operações são imediatos. O custo por quilômetro rodado cresce rapidamente, reduz as margens das transportadoras e exige a revisão das tarifas de frete para restabelecer o equilíbrio econômico das operações.
Impacto logístico
Caso o atual patamar de preços se mantenha, parte desses aumentos deverá ser repassada às tarifas de transporte, já que o combustível é o principal componente do custo logístico.
A Fetransul informa que continuará acompanhando a evolução do cenário e dialogando com seus associados, embarcadores e autoridades para preservar a sustentabilidade das operações logísticas e reduzir impactos sobre as cadeias produtivas e o abastecimento.

Confira nota na íntegra:

Volatilidade no preço do diesel impõe revisão nas tarifas de frete

A Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (FETRANSUL) acompanha com atenção as recentes medidas anunciadas pelo Governo Federal voltadas à mitigação da alta do diesel.

A entidade entende que iniciativas como a redução do PIS e Cofins e a criação de mecanismos de subvenção ao combustível são importantes e contribuem para reduzir parte da pressão sobre o preço do diesel no país.

No entanto, o aumento anunciado pela Petrobras nesta semana, da ordem de R$ 0,38 por litro nas refinarias, demonstra que o mercado ainda permanece sob forte volatilidade, influenciado principalmente pela cotação internacional do petróleo e pela variação cambial.

Para o transporte rodoviário de cargas, essa situação é especialmente sensível, pois o diesel representa entre 40% e 45% do custo operacional de um caminhão, sendo o principal insumo da atividade.

Sempre que ocorrem aumentos significativos no preço do combustível, o impacto sobre as operações é imediato. O custo por quilômetro rodado aumenta rapidamente, reduzindo as margens das transportadoras e exigindo a revisão das tarifas de frete para restabelecer o equilíbrio econômico das operações.

Diante desse cenário, caso o atual patamar de preços se mantenha, parte desses aumentos inevitavelmente precisará ser repassada às tarifas de transporte, uma vez que o combustível é o principal componente do custo logístico.

A FETRANSUL seguirá acompanhando atentamente a evolução do cenário e dialogando com seus associados, embarcadores e autoridades, buscando preservar a sustentabilidade das operações logísticas e minimizar impactos sobre as cadeias produtivas e o abastecimento.

Após 15 anos de desenvolvimento, chega ao mercado o primeiro fertilizante fosfatado gaúcho

Até a primeira jazida com rocha fosfática em exploração comercial no Rio Grande do Sul, desde 2011 a Aguia Fertilizantes mapeou seis potenciais minas na mesma região

Até a primeira jazida com rocha fosfática em exploração comercial no Rio Grande do Sul, desde 2011 a Aguia Fertilizantes mapeou seis potenciais minas na mesma região

MÁRCIO SAPPER/Divulgação/JC
Eduardo Torres
Eduardo TorresRepórter
Chegará ao produtor em maio, com início da operação industrial em abril, o primeiro fertilizante fosfatado, de aplicação direta na lavoura, com a extração do minério e a formulação feitas no  Rio Grande do Sul. O Pampafos, lançado na Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, é resultado de 15 anos entre pesquisas e testes a campo realizados pela Aguia Fertilizantes a partir de uma jazida em Lavras do Sul, na região da Campanha. Até 2028, aponta o gerente de projetos da empresa, Diego Boeira, a Aguia pretende produzir até 300 mil toneladas do fertilizante por ano, podendo chegar, no ano seguinte, a 420 mil toneladas. Representará 5% da demanda gaúcha por fertilizantes fosfatados.
"Entre maio e o final deste ano, a nossa estimativa é produzirmos até 80 mil toneladas. No ano que vem, chegarmos a 100 mil e atingirmos as 300 mil toneladas com a estruturação completa da nossa primeira fábrica, em Caçapava do Sul", diz Boeira.
Desde o início do projeto, a Aguia Fertilizantes desembolsou R$ 200 milhões na região. Neste ano, outros R$ 30 milhões estão sendo aportados entre infraestruturas na mina, em Lavras do Sul e adaptações na fábrica, em Caçapava do Sul, também na Campanha. A empresa encampou por 20 anos uma antiga planta industrial em Caçapava e, neste primeiro momento, fará a exploração dos minerais, especialmente fósforo, em Lavras do Sul, com o transporte até a indústria para a produção do fertilizante.
O plano, de acordo com o gerente, é abastecer o mercado gaúcho, com vantagens logísticas e de custo. Mas o projeto não se encerra nesta estrutura. Há uma nova jazida em fase de licenciamento em Caçapava do Sul. A partir da liberação dessa mina, a empresa erguerá uma nova planta industrial em Lavras do Sul, e, aí sim, atingir 420 mil toneladas de capacidade de produção anual do Pampafos. Hoje, já são empregadas 50 pessoas na produção, até abril, serão 80 funcionários entre a mina e a indústria.
Para completar a estrutura de operação entre Lavras do Sul e Caçapava do Sul até 2029, ainda sem um orçamento concreto, Diego Boeira estima a necessidade de desembolso de outros R$ 200 milhões. 

Empresa aposta em produto a baixo custo

"A nossa ideia, claro, é garantirmos nossa participação no mercado a partir da entrada do Pampafos e gerarmos recursos aqui no Rio Grande do Sul. Até agora, todo o nosso investimento é australiano, captado na Bolsa de Valores de lá. Temos diferenciais no mercado que nos dão essa boa perspectiva", explica Diego Boeira.
Ele completa: "estimamos a capacidade de suprir 5% da demanda gaúcha pelo produto fosfatado baseados no volume que os produtores compram do produto, mas não é exatamente o que o solo precisa, pelo alto custo desse produto".
Hoje, o Brasil importa 59% da sua necessidade deste tipo de fertilizante, e o Rio Grande do Sul responde por 12% dessa quantidade. De acordo com Boeira, a empresa conseguirá levar ao mercado o seu produto a R$ 800 por tonelada, em torno de 80% abaixo do preço médio dos fertilizantes fosfatados químicos, hoje importados. O novo produto, demonstra a empresa, não envolverá nenhum tratamento químico na sua mistura ou formulação.
Os testes em campo iniciaram em 2019, primeiro, em um campo experimental em Capivari do Sul e, na sequência, chegando a lavouras em 11 municípios de praticamente todas as regiões produtivas do Estado, tanto nas culturas de inverno quanto de verão. Na cultura do arroz, por exemplo, a empresa garante ter atingido produtividade maior do que os fertilizantes convencionais. Em média, considerando ainda os cultivos de soja, trigo e aveia, principalmente, houve produtividade em torno de 5% abaixo dos produtos convencionais.
Pesquisa em terras raras
Até a primeira jazida com rocha fosfática em exploração comercial no Rio Grande do Sul, desde 2011 a Águia Fertilizantes mapeou seis potenciais minas na mesma região. A estimativa é de que a atual mina de Lavras do Sul opere por 18 anos com a atual capacidade, daí a importância das demais áreas de exploração. Com a ideia de expansão para a exploração também em Caçapava do Sul, o plano da empresa é seguir avançando na produção do fertilizante fosfatado, mas abre o leque para pesquisas mineiras mais avançadas.
"Essa mesma rocha é hospedeira das terras raras no Rio Grande do Sul, e está no mapa das pesquisas, por exemplo, da UFSM na região, Temos enviado constantemente amostras para análises. Até o momento não houve a sinalização de potencial comercial nesta concentração de minerais, mas é uma pesquisa sempre em evolução", garante Boeira.
A prioridade, ele garante, está nos potenciais minerais com uso para o trato do solo na agricultura. E aí, além da rocha fosfática, já houve identificação de rocha potássica entre as jazidas da empresa, com algum potencial futuro de exploração. Há ainda pesquisas, em Caçapava do Sul, em relação ao cobre.
FICHA TÉCNICA
Investimento: R$ 30 milhões
Estágio: Em execução
Empresa; Águia Fertilizantes
Cidades: Lavras do Sul e Caçapava do Sul
Área: Indústria

Pequenas frutas são opção de renda a produtores rurais do Estado

Cultivos de morango e outras variedades chamam a atenção de produtores do Rio Grande do Sul

Cultivos de morango e outras variedades chamam a atenção de produtores do Rio Grande do Sul

Tainá Binelo/DIVULGAÇÃO/CIDADES
especial para o JC
Gabriel Eduardo Bortulini, especial para o JC*
Muito ligados a propriedades da agricultura familiar, os cultivos de morangoamora-pretamirtilo e framboesa chamam a atenção de produtores de todo o Rio Grande do Sul. Essas são as principais culturas a comporem as chamadas “pequenas frutas”, que apesar de desafios, podem gerar um retorno financeiro mais constante ao longo do ano. 
Luciano Ilha, agrônomo e extensionista rural da Emater/RS-Ascar de Nova Petrópolis, acredita que as quatro culturas podem ser rentáveis, desde que se respeitem as características de cada uma. “O morango continua sendo, para quem tem aptidão, uma cultura com muitas oportunidades. As outras três culturas eu acho que dependem mais de trabalhar em grupo, porque geralmente envolvem fornecimento para a indústria de parte do volume da produção”.
Até algumas décadas atrás, o Brasil produzia variedades de morango chamadas de “dia curto”, beneficiadas pelo frio e com fortes colheitas na primavera, até a entrada do verão, quando a planta “paralisa”, gerando um vazio produtivo. A partir do final da década de 1990, outro grupo de cultivares, conhecidos como “de dia neutro” entraram no País: essas plantas florescem praticamente o ano inteiro, com oscilações entre inverno e verão.
Amoras | Giulia Bortolon Peba/Divulgação/JC
AmorasGiulia Bortolon Peba/Divulgação/JC
“Foi a partir desse grupo de variedades que a cultura se expandiu e passou a proporcionar renda praticamente o ano inteiro”, pontua Ilha. Diferentemente do morango, as demais pequenas frutas são todas espécies de clima temperado. Ou seja, plantas caducas, que perdem as folhas e entram em repouso no inverno, concentrando a colheita em determinados períodos, o que é um desafio para a mão de obra, principalmente em relação à safra.
Dessas espécies, a amora-preta é a que melhor se adapta às diferentes regiões do Estado. Além disso, há diversas variedades nacionais desenvolvidas pela Embrapa desde a década de 1990. “Um produtor pode plantar na praia ou em São José dos Ausentes e vai produzir. É uma cultura relativamente simples. O problema maior continua sendo a mão de obra de colheita e comercialização”, ressalta.
Já a framboesa, “fruta irmã” da amora-preta, é mais complicada. Gosta de frio, mas também é possível cultivá-la em climas médios. Conforme Ilha, contudo, trata-se da espécie com menos pesquisa nacional, além de exigir mais manejo e conhecimento técnico e de necessitar de melhores materiais. “Mas ela tem um baita valor agregado. E hoje boa parte da produção acaba indo para a indústria. Em alguns nichos também vai para o mercado in natura”, reforça.
mirtilo, por sua vez, precisa de mais frio. Por isso, está mais centralizado em polos como Caxias do Sul e Vacaria, embora novas variedades adaptadas a climas menos frios estejam entrando no mercado.

Cultivo com tecnologia, pesquisa e novas variedades

Amora Preta Ticuna pode produzir até 20 toneladas por hectare, além de ser bastante rústica e necessitar de pouco tratamento fitossanitário

Amora Preta Ticuna pode produzir até 20 toneladas por hectare, além de ser bastante rústica e necessitar de pouco tratamento fitossanitário

Francisco Lima/Divulgação/JC
Recentemente, uma nova tendência tecnológica começa a impactar o morango: a utilização de sistemas com recirculação da solução nutritiva. Nesses sistemas, a água é reutilizada várias vezes e pode resultar numa economia de cerca de 70% de água e nutrientes, além de gerar menor impacto ambiental.
"Essa talvez seja a tendência para os próximos anos no morango. É uma coisa nova, mas está sendo pesquisada há mais de dez anos pela Embrapa e pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A gente está com as primeiras unidades no campo, com bons resultados", assegura o extensionista da Emater, Luciano Ilha.
No cultivo da amora, Ilha destaca o contínuo lançamento de variedades, desenvolvidas pela Embrapa. Conforme a pesquisadora e chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia da Embrapa Uva e Vinho, Andrea de Rossi, a empresa tem programas de melhoramento de morango, amora e mirtilo. "Principalmente de amora. E a gente tem desenvolvido cultivares como a BRS Karajá, BRS Terena, BRS Ticuna, que foram as últimas lançadas no caso das amoras", exemplifica.
Alguns desses cultivares demonstram bom potencial para a indústria. Amora-preta BRS Ticuna, por exemplo, pode produzir até 20 toneladas por hectare, além de ser bastante rústica e necessitar de pouco tratamento fitossanitário, sendo indicada, inclusive, para o cultivo orgânico. Segundo a Embrapa, essas características a tornam uma opção mais rentável para os produtores que comercializam com a indústria, principalmente para sucos e geleias.
Por sua vez, a variedade BRS Karajá é um cultivar sem espinhos, o que facilita o manejo. Já a BRS Terena tem sabor mais doce, adequado ao paladar dos consumidores brasileiros, ideal para o produto in natura.
Boa parte da produção de amora vai para a indústria de polpa e congelados, assim como a de framboesa. Essa, no entanto, é a mais crítica das pequenas frutas, segundo o extensionista Luciano Ilha. A justificativa são as poucas variedades nacionais e a falta de pesquisas, além da dificuldade de acesso a variedades mais modernas, de acesso protegido. Isso explica, em parte, a pequena produção de framboesa no Rio Grande do Sul: são apenas 34 hectares, principalmente no eixo Vacaria-Caxias do Sul. O destino costuma ser as indústrias de congelados.
"Às vezes, o produtor opta entre amora e framboesa. Framboesa é muito mais difícil, mas vale muito mais. Então alguns acham que é mais interessante, às vezes tem uma empresa que estimula a produção regional", esclarece.
Por último, o mirtilo tem necessidades mais complexas. Precisa de um frio intenso, por isso está também mais restrito às regiões de maior altitude, embora haja um pequeno polo na região de Pelotas, bastante influenciado pela Embrapa e pelas indústrias de doce.
Por ser uma fruta mais resistente, ela tende a ter melhor conservação, o que a torna uma boa opção para o mercado in natura. Entretanto, é uma cultura muito sensível à falta de água. Por isso, geralmente é irrigada. Além disso, exige, obrigatoriamente, um solo ácido.
"Então não é qualquer lugar. A área que já foi cultivada, que foi calcareada, não se adapta, porque a fruta é originária de um ambiente bem ácido e ela precisa disso", destaca Ilha.
No início, o mirtilo surgiu como uma alternativa de exportação ao hemisfério norte, mas o produto acabou atendendo majoritariamente o mercado interno. Atualmente, no entanto, o Peru tornou-se um grande exportador da fruta, o que tem gerado competição com o mirtilo gaúcho.
"Eu vou na fruteira aqui da esquina e hoje eu tenho mirtilos do Peru a um preço bom, de alta qualidade. Então isso joga os preços para baixo. Por isso que as áreas também não têm aumentado", frisa.
Hoje, o mirtilo soma 88 hectares no Estado e 90 produtores. Por último, a proteção de variedades também encarece o processo.
"É uma muda cara, difícil de fazer, geralmente é comprada. A gente até tem acesso a materiais melhorados, protegidos. Porque não é qualquer viveiro que consegue fazer essa muda. Então eu tenho que comprar uma muda cara, investir em sistemas de irrigação e tenho toda essa logística de comércio que não é tão garantida", assinala.

Morango segue como cultura principal

Vale do Caí, polo de Pelotas e polo da Serra concentram o maior volume de plantio de morangos

Vale do Caí, polo de Pelotas e polo da Serra concentram o maior volume de plantio de morangos

Emater Ascar/Divulgação/JC
Dentre as pequenas frutas, o morango é, tradicionalmente, a mais produzida e procurada pelos consumidores. "Se a gente for falar dessas quatro espécies, o morango é uma cultura toda especial, de longe a mais importante. Tem uma enorme importância social, uma área muito mais expressiva. Estamos estimando uma área no Estado de 626 hectares, com 2.640 unidades produtivas envolvidas, ou seja, no mínimo 2.640 produtores", aponta Luciano Ilha, agrônomo e extensionista rural da Emater/RS-Ascar de Nova Petrópolis.
Conforme Ilha, apesar do alto investimento exigido, o morango também apresenta alta possibilidade de retorno econômico, mesmo em pequenas áreas. O extensionista avalia que, nos últimos quinze anos, houve uma transformação importante na cultura, com a migração do cultivo no solo para o cultivo em substrato.
"Mudou todo o panorama da cultura, que praticamente resolveu os problemas de doenças radiculares. Foi um renascimento da cultura em várias regiões, como o Vale do Caí, foi o renascimento para muitos produtores que tinham abandonado", comenta Ilha.
Atualmente, cerca de 80% da produção de morango é feita em cultivo elevado, em substrato. Além disso, praticamente toda área é coberta, seja em estufas de semi-hidroponia, seja em túneis baixos. E quase toda a fruta produzida é pensada para o mercado in natura.
"A fruta que vai para a indústria geralmente é a sobra. A gente não tem praticamente produtores que plantam morango exclusivamente para a indústria. A ideia é vender caro para a mesa, e o que sobra em momentos de superprodução acaba sendo destinado à indústria para amenizar os custos", Ilha explana.
A importância do morango entre as pequenas frutas é percebida na lista de comercialização na Ceasa/RS: em 2024, foram 2.119 toneladas. Isso é mais do que frutas como a ameixa e o caqui, o que rendeu a 15ª colocação no ranking das frutas mais comercializadas naquele ano.
Hoje, a cultura está espalhada em praticamente todo o Estado, embora existam três principais polos produtores atualmente: o Vale do Caí, na região de Feliz e Bom Princípio, um dos mais tradicionais; o polo de Pelotas, tanto para o consumo in natura quanto para a indústria; e o polo da Serra. Este é o mais recente, mas talvez o mais expressivo na atualidade, de acordo com Ilha.
"A partir do ano 2000, eles perceberam que a região serrana, no verão, tinha condições favoráveis de competir e até de fornecer morango para o Brasil todo", afirma.
A cultura do morango vive, atualmente, dois panoramas: produtores e empresas de grande porte abastecem a Ceasa e as redes de supermercados, além de enviar frutas para outros estados e até para o exterior. Enquanto isso, os pequenos produtores têm o foco no comércio local, no próprio município ou nos arredores.
"Geralmente esses produtores conseguem sucesso porque têm uma fruta diferenciada, colhida mais madura, em circuitos curtos de comercialização. Isso é uma baita oportunidade de renda, apesar de todos os desafios técnicos, uma cultura complicada em termos sanitários e de manejo. Eles conseguem fidelizar clientes, especialmente quando vendem direto ao consumidor", destaca.
Em São Francisco de Paula, por exemplo, o agrônomo e produtor Gianfranco Perazzolo começou a cultivar morango como opção à sua produção de maçã.
"A maçã me dá uma só uma entrada por ano, agora em fevereiro e março. Então eu tenho uma receita de dois meses e um gasto de doze. E o morango é praticamente o ano todo, dá para produzir oito, nove meses, com entradas quase semanais de valores. Então a minha ideia foi primeiro a oportunidade e depois tentar melhorar o fluxo de caixa com relação à maçã", conta.
Embora a aposta de Perazzolo no morango seja recente — o início se deu só em julho de 2025 — a história com o fruto é bem mais antiga. Um velho amigo da família, produzia morangos em Farroupilha. Por volta do ano 2000, ele decidiu arrendar a propriedade de Perazzolo em São Francisco de Paula, por conta das melhores condições climáticas da região. Com mais frio, as mudas se desenvolviam de uma maneira mais adequada.
"Depois ele saiu de lá, deixou um parceiro dele, que ainda hoje está lá produzindo morango e mudas de morango. E desde julho do ano passado, essa pessoa queria expandir a produção, fazer em estufas maiores, túneis de produção de morangos. Com isso, eu entrei na parceria", explica.
Os dois produtores têm hoje doze estufas, das quais cinco estão a cargo de Perazzolo. Nelas, cada uma das dezesseis mil mudas produz cerca de 1 kg de morangos por safra. Para isso, as plantas estão distribuídas em filas simples, para facilitar o manejo — embora as filas duplas proporcionem uma maior produtividade: "a gente acabou optando pela fila simples para tentar melhorar a qualidade do morango e da mão de obra", Perazzolo esclarece.
A colheita inicia por volta de setembro e se estende até as primeiras geadas fortes, entre maio e junho. Durante os meses mais críticos do inverno, a safra estaciona. E o produto colhido já tem destino: atravessadores compram e levam para o mercado no máximo dois dias após a colheita.
"A gente colhe normalmente de manhã. Durante a tarde, a gente embala o morango nas caixinhas de 250 g. Depois ele vai para a câmara fria, fica em refrigeração e aguenta um, dois dias. Aí o pessoal passa para recolher e leva para o mercado", descreve.
Nos poucos meses como produtor de morangos, Perazzolo já percebeu que a fruta precisa ganhar escala.
"Montamos toda uma estrutura de irrigação, de tudo, que suporta muito mais área de produção. A gente pretende dobrar a área, passar de doze para vinte e quatro estufas, ficando doze para cada um. Com isso, chegar a 45 mil mudas, ganhando um pouco mais de escala", conclui. 

De um atelier de artes à paixão pelas pequenas frutas

No sítio de nove hectares, a família dedica meio hectare para a produção das pequenas frutas

No sítio de nove hectares, a família dedica meio hectare para a produção das pequenas frutas

Giulia Bortolon Pena/Divulgação/JC
Desde 2009, Giulia Bortolon Pena tem um atelier de artes em Vacaria, comandado em conjunto com Rosania, sua mãe. No entanto, em 2020, Giulia cursava direito quando iniciou a pandemia. Então começaram a passar mais tempo num sítio da família, próximo à cidade, onde havia espaço, mas nenhum tipo de cultivo.
Sem poder se dedicar às atividades do atelier e com as aulas da faculdade paradas, Giulia teve a ideia de comprar algumas mudas de morango para plantar na horta. Arrumou um cantinho e começou a estudar o cultivo. Assim teve início a paixão. Em pouco tempo, a família construiu uma pequena estufa para 500 mudas.
"Foi o meu pequeno laboratório, porque eu nunca tinha trabalhado com nada disso. Então tudo o que podia dar errado, deu", ela brinca.
Mas também muitas coisas deram certo. Giulia ficou quase dois anos com a pequena estufa. Enquanto isso, se graduou em Direito e iniciou a Faculdade de Agronomia. Desmancharam a primeira estufa e, no lugar, ergueram uma nova, para 2000 mudasagora com fins comerciais. Ano a ano, o negócio foi aumentando. Nesse intervalo, plantaram amoras e framboesas, para aumentar a renda e também para oferecer mais diversidade aos clientes.
"Apesar de não fazer tanto tempo, naquela época não tínhamos muitos produtores que vendiam diretamente ao público, sem atravessadores. Nós, como já tínhamos o atelier e alguns conhecidos, começamos nossa clientela assim", Giulia conta.
Dos 9 hectares do sítio, aproximadamente meio hectare acomoda a produção de pequenas frutas da família. São cerca de 6 mil mudas de morangos da variedade Albion, de coloração e doçura intensas, mil de amoras Tupy, além de duzentas de framboesa Autumn Bliss. E, em breve, Giulia pretende iniciar o plantio de mirtilos.
A produção costuma variar a depender das condições climáticas e da safra. Em média, são produzidos de 100 a 300 kg de morangos no mês durante a safra, uma tonelada de amoras por ano e uma média de 50 kg de framboesas por mês no verão. Tudo isso com mão de obra familiar.
"Nós plantamos, colhemos, embalamos, limpamos, congelamos e também vendemos. Temos apenas um funcionário que nos ajuda nos serviços gerais do sítio e também na colheita das amoras que é a mais trabalhosa por ser uma safra única e rápida", relata.
Nos dias de safra, a colheita e a venda in natura são realizadas quase diariamente. Parte da produção também é congelada, para a venda durante o ano. Além disso, a família eventualmente produz geleias para comercializar na cidade. Os clientes podem optar pelas geleias de morango, amora ou framboesa, mas, se preferirem, também há a de frutas vermelhas, preparada com as três variedades juntas.
"É uma produção caseira, e são feitas sem conservantes, apenas com frutas e açúcar. Temos um projeto de regularizar e fixar a produção de geleias para atingir novos mercados", conta.
Giulia também tem a intenção de ampliar a atual produção, com a inclusão de novas culturas, como o mirtilo. Além disso, quer expandir a produção e o comércio das frutas congeladas.
 

Núcleos de produtores otimizam a logística em Vacaria

Expansão da produção exigiu a necessidade de organização para ganhar novos mercados

Expansão da produção exigiu a necessidade de organização para ganhar novos mercados

Jair Vargas/Divulgação/JC
Nos Campos de Cima da Serra, as últimas décadas foram fundamentais para a construção de uma produção cada vez mais sólida de pequenos frutos, numa região de clima amigável às diferentes variedades dessas frutas.
Em 1997, Jair Vargas procurava uma alternativa de produção para a agricultura familiar em Vacaria, numa época em que a região era voltada à produção de grãos e criação de gado. "Mas isso foi ficando inviável e houve um êxodo rural muito grande. Quem não ia embora tinha como alternativa trabalhar como diarista em pomares de maçã. Então a gente começou a procurar alguma alternativa para as propriedades e iniciamos em 1997 com a amora", Vargas conta.
Não demorou para os clientes começarem a pedir mais frutas. Em 2001, Vargas começou a produzir mirtilo. Pouco tempo depois, framboesa; por último, morango.
"Desde então estamos produzindo essas frutas. Hoje temos amora, morango, framboesa e mirtilo, além de produzir alguma coisa de hortaliças também."
Vargas concentra uma produção diversificada numa área pequena, de cerca de 0,6 hectare em que as quatro culturas convivem. No total, a produção fica entre 8 e 10 toneladas de pequenas frutas por ano. Em geral, são colhidas quatro toneladas de amora e quatro de morango, além de uma ou duas toneladas de framboesa. O mirtilo, por sua vez, rende uma safra mais modesta: em torno de 500 kg.
A partir de 2001, com a expansão da produção de pequenas frutas na região, surgiu a necessidade de organização para atingir novos mercados, com negociação conjunta entre os produtores para viabilizar frete e logística.
"Foi criada uma associação que abrangia todo o município. No início, tinha cerca de 120 produtores. Com o passar dos anos, foi ficando um pouco inviável trabalhar dessa forma, principalmente pela distância entre os produtores, o que dificultava a logística. Então a gente optou por fazer por núcleos. Hoje, o nosso núcleo tem seis produtores. Temos uma unidade de armazenamento para fruta congelada. A gente centraliza ali a produção desses produtores e de outros que tenham interesse, para depois fazer a comercialização em conjunto", explica.
A associação também conta com uma agroindústria de beneficiamento e congelamento. Depois da colheita e seleção, as frutas passam por classificação e embalagem. Elas são vendidas congeladas, sem nenhum tipo de industrialização. Segundo Vargas, foi a forma mais viável encontrada, pela alta perecibilidade desses produtos.
"Para longas distâncias a fruta in natura exige uma logística muito bem organizada", reitera. "Assim, conseguimos vender cargas fechadas de 15 ou 16 toneladas, o que viabiliza o frete para mercados mais distantes".
No último ano, o grupo chegou a produzir 50 toneladas de pequenas frutas.
 

Dificuldades e gargalos das pequenas frutas no Rio Grande do Sul

mão de obra é uma das principais dificuldades citadas pelos produtores. O extensionista da Emater, Luciano Ilha explica que as pequenas frutas exigem um trabalho constante: poda, manejo de copa, limpeza, retirada de folhas. Sem falar na colheita, um processo delicado e demorado.
O produtor Gianfranco Perazzolo destaca também a falta de mão de obra especializada, por ser uma atividade itinerante: "muitas vezes a gente ensina uma pessoa e, dali a cinquenta ou sessenta dias, ela vai embora, tem que ensinar outra".
Além disso, a flutuação de preços também preocupa os produtores. Segundo Ilha, fatores externos como a importação têm impacto direto na renda dos produtores locais. A recente entrada de morangos da China e do Egito, por exemplo, abastecem a indústria com frutos de baixo custo.
"A aparência é boa, mas a qualidade é questionável, inclusive em termos de resíduos, qual é o tipo de produção. Para se ter uma ideia, vou aqui no mercado da esquina e tem um pacote de 2 kg de morango chinês por R$15,00", afirma. Ainda, o morango gaúcho compete com o morango de Minas Gerais, maior produtor nacional.
"Quando entra morango de Minas, o pessoal vende a dez reais a caixa. Isso aqui não cobre o custo durante aquele período", completa.
Com relação à amora, mirtilo e framboesa, a competição com o mercado externo também é um empecilho para os produtores do Estado. "Muitas vezes chegam ao Brasil com preços muito baixos, que não pagariam nem o custo da mão de obra aqui. Então tem sido uma grande dificuldade competir com esses preços", Jair Vargas ressalta.
Por último, a produtora Giulia Bortolon Pena revela a constante preocupação com o clima.
"No inverno as temperaturas extremamente negativas associadas as geadas nos fizeram perder uma estufa de 2 mil mudas. Os episódios de muitos dias chuvosos que privam as plantas da luz do sol favorecem muito as doenças. E, no verão, as flores do morangueiro são abortadas com o excesso de calor e a produção diminui, além de aumentar a incidência dos ácaros, uma das piores pragas da cultura. Mas com muita persistência e fé vamos indo em frente", finaliza.
**Gabriel Eduardo Bortulini é graduado em Jornalismo pela UFSM e tem mestrado e doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS. É um dos fundadores da Oxibá Casa da Escrita, onde trabalha com leitura crítica e lapidação de textos. Tem textos publicados em jornais, livros e revistas. "Refúgio para bisões", seu romance de estreia, conquistou o terceiro lugar no prêmio Biblioteca Digital do Paraná e foi publicado pela Matria Editora, em 2024.