- Pai, não
mexe nisso. Ele retirou a mão. Alguns minutos depois: - Pai, deixa que eu faço. Ele deixou. Na saída: -
Pai, espera aí que eu vou buscar o
carro. Não sai sozinho. Ele esperou.
Não havia
maldade em nenhuma daquelas frases. Havia amor. Talvez até amor demais. Depois
que completou oitenta e seis anos, os filhos decidiram que era hora de cuidar
melhor dele. Começaram pelos remédios.
Depois
vieram as contas bancárias, as consultas, as compras, os horários, os
documentos. Era mais fácil. - Deixa que
eu resolvo, pai. A frase tornou-se uma espécie de lema familiar. E eles
resolviam mesmo. Resolveram tão bem que, aos poucos, ele deixou de resolver
qualquer coisa.
Quando iam
ao restaurante, alguém dizia o que seria melhor ele comer. Quando viajavam,
escolhiam onde ele sentaria. Quando o médico fazia uma pergunta, frequentemente
um dos filhos respondia antes dele. - Ele está dormindo melhor, doutor. - Ele não tem sentido dor. - Ele está comendo pouco.
O médico
olhava para o filho. O pai olhava para o médico. E permanecia em silêncio. Certa
manhã, a filha chegou para levá-lo a uma consulta. Encontrou-o escolhendo uma
camisa. - Essa não, pai. Está frio.
Coloca aquela azul de manga comprida. Ele olhou para a camisa que segurava.
Depois olhou
para a filha. E perguntou: - Posso
escolher pelo menos a minha roupa? Ela ficou parada. Não foi uma reclamação. Foi
pior. Foi um pedido. Naquele instante, percebeu alguma coisa que ninguém da
família havia percebido.
O pai estava
mais lento. O pai esquecia algumas coisas. O pai precisava de ajuda para
tarefas que antes fazia sozinho. Mas seu pai não havia virado seu filho.
Aquele homem
escolhera profissão, atravessara dificuldades, criara uma família, enterrara
amigos, pagará contas durante mais de meio século, tomara decisões certas e
erradas e aprendera a conviver com ambas. Agora precisava de alguém para
acompanhá-lo ao médico.
Isso não
apagava os oitenta e seis anos anteriores. Na consulta daquele dia, o médico
perguntou: - Como o senhor está se
sentindo? A filha quase respondeu. Quase. Mas ficou quieta. O pai demorou um
pouco. - Estou bem. Só tenho sentido uma
tontura quando levanto.
O médico
continuou conversando diretamente com ele. Na saída, passaram numa cafeteria. A
filha perguntou: - O que o pai quer? - Café preto. Ela quase disse que talvez fosse
melhor café com leite. Não disse. - Com
açúcar? - Duas colherinhas.
Também não
corrigiu. Sentaram-se. Por alguns minutos, ficaram olhando a rua através da
janela. Então ela perguntou: - Pai, tem
alguma coisa que estamos fazendo que incomoda o senhor?
Ele mexeu
lentamente o café. - Vocês querem cuidar
de mim. - Claro. - Eu sei. E agradeço. Fez uma pausa. - Só não cuidem tanto a ponto de eu desaparecer.
A filha segurou a mão dele. Finalmente compreendeu que cuidar de alguém não
significa assumir sua vida.
Há uma
fronteira delicada entre ajudar e substituir. Às vezes ela precisa ser
atravessada. Quando a memória falha, quando o corpo não permite, quando existe
perigo, alguém terá de decidir. Mas não antes da hora. Envelhecer já nos retira
muitas coisas sem pedir licença.
A força
diminui. Os passos encurtam. A memória prega peças. Os amigos vão embora. As
escadas ficam maiores. Não precisamos ajudar o tempo a retirar também aquilo
que ainda resta. Um pai pode precisar que amarremos seus sapatos.
Pode
precisar que o levemos ao médico. Pode precisar que controlemos seus remédios. Pode
até precisar que tomemos algumas decisões em seu lugar. Mas, enquanto puder
escolher a própria camisa, deixemos que escolha.
Enquanto
puder responder, deixemos que responda. Enquanto puder decidir, deixemos que
decida. Porque nossos pais podem envelhecer. Podem depender de nós.








