quarta-feira, 12 de agosto de 2026

12 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes

Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora de produção nacional. A adesão é instantânea, quase inexplicável, numa bariátrica da consciência coletiva.

A aquisição dos medicamentos cresceu 23,2% no primeiro semestre deste ano. Somente no mês de junho, foram comercializadas 368 mil unidades. A pílula azul desbravou o caminho mercadológico para essa onda de procura. Quem diria: o responsável por elevar a libido gerou o rascunho da aceitação pública dos inibidores de apetite. Um para mais, outro para menos.

As canetas de semaglutida e tirzepatida operam na plataforma financeira como o Viagra em 1998: uma explosão de vendas impulsionada por consumidores dispostos a pagar do próprio bolso pelo medicamento, sem nenhuma cobertura de planos de saúde ou subsídio do governo.

Surgiu até uma nova expressão para a magreza súbita: "rosto de Ozempic". Quando o rosto murcha rapidamente. É uma epidemia. Todo mundo possui um conhecido ou familiar que usa um dos remédios.

Eles ajudam a neutralizar a fome porque imitam hormônios do intestino que mandam sinais para o cérebro. Provocam menos vontade de comer, retardam o esvaziamento do estômago e intensificam a sensação de saciedade.

Minha apreensão não é em relação a eles, mas à perigosa automedicação. Não é possível aumentar as doses por bel-prazer, tentando acelerar o processo para fazer bonito em alguma festa ou durante uma viagem.

Tomar remédio por conta é uma temeridade. Pode causar dor abdominal, constipação, diarreia, vômitos, náusea e fadiga, além de consequências adversas que exigem acompanhamento médico.

Agora quem sofre com os efeitos colaterais da disseminação das canetas são os restaurantes. Não sei qual será a sina dos rodízios, em especial churrascarias, pizzarias e galeterias. Banquetes livres estão ameaçados pela contenção da gula.

Não haverá mais sentido para o trânsito de espetos, para a abundância de massas. Perde-se o folclore de abrir o cinto para insistir em mais uma fornada e caber mais um pouco.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, realizada com 1.417 estabelecimentos em todo o país, revelou que 61% dos endereços perceberam mudanças no consumo. Caíram drasticamente os pedidos de pratos principais e sobremesas.

Diminuiu, e muito, a quantidade de comida. As taras destinadas a pesar a refeição nos buffets a quilo resultam absolutamente modestas. A porção correspondente a uma só pessoa passou a ser dividida. Existe uma tendência por uma alimentação mais leve.

Ocorreu, também, a debandada considerável de clientes que almoçavam ou jantavam fora. Numa enquete feita pelo banco UBS com pacientes que utilizam medicamentos análogos de GLP-1, constatou-se que um terço deles prefere comer em casa.

Proprietários do setor gastronômico começam a pensar em reduzir as guarnições do serviço à la carte. Para evitar o desperdício. Para frear os gastos.

Apenas espero que não se repita o que aconteceu nos supermercados, com a manutenção dos preços em embalagens menores. Sabão em pó, amaciante e papel higiênico frequentemente apresentam queda de volume por valores semelhantes aos de antigamente. Diversos produtos com 1 litro acabaram achatados para 900 ml, 800 ml ou menos, numa prática chamada de reduflação.

Não mereço que os pratos emagreçam junto. Não tenho culpa. Continuo com a ansiedade da infância. _

CARPINEJAR

12 de Agosto de 2026
MÁRIO CORSO

Expresso 2222

Nossa estimativa de voo é de três gerações. Verifique se seu passaporte intergaláctico está válido.

Em caso de colisão com microasteroides, máscaras de oxigênio cairão automaticamente na sua frente. Coloque primeiro a sua antes de colocar no seu pet. Trave bem seu capacete antes de sair da nave.

Desligue seus aparelhos eletrônicos até ultrapassarmos o cinturão de Kuiper. Último posto de combustível antes de Andrômeda. Aproveite a promoção de energético de íons de tório para pagamento à vista.

Nas dobras do espaço/tempo, evite acenar para seus eus do passado. Faça refeições leves antes de atravessar áreas de turbulência eletromagnética.

Não abra o cinto de segurança quando a nave estiver próxima da velocidade da luz. Use protetor de raios cósmicos. É vedada a entrada de não humanoides na cabine da espaçonave.

Em caso de pane do sistema de gravidade artificial, agarre-se às boas lembranças.

Nossos banheiros são equipados com detector de fumaça. Passageiro pego fumando ficará na estação órbital, ou no planeta mais próximo. Não use maquiagem dentro da cabine de hibernação.

Evite soluçar ou espirrar durante o teletransporte, você pode ser duplicado. Em caso de duplicação, deve ser adquirida uma nova passagem.

A bagagem despachada pode chegar antes de você ter nascido. A empresa não se responsabiliza por paradoxos de entrega. Em caso de colisão com buraco de minhoca, mantenha a calma, você chegará antes de ter saído.

Objetos de mais de três dimensões devem ser despachados. Se notar o comandante em pijamas é porque o piloto automático está ativado. Se notares o piloto automático em pijamas, favor acordar o piloto.

Em caso de morte de passageiro, a família não ganha estorno do bilhete, apenas das refeições não consumidas. É gratuita a ejeção do corpo, desde que preenchido o formulário da escolha: ser arremessado em direção à alguma estrela, ou buraco negro. Lembramos que é proibido enterro em asteroides.

É proibido circular com pets sem colar gravitacional. A companhia não se responsabiliza por danos causados por fraldas de hibernação mal ajustadas. Taxa de limpeza será cobrada à parte. O comboio parte hoje de Bonsucesso e chega depois do ano três mil. 

MÁRIO CORSO

12 DE AGOSTO DE 2026
OPINIÃO RBS

A desconfiança como alerta

A mais recente pesquisa Genial/Quaest sobre a confiança dos brasileiros nas instituições públicas e privadas do país, divulgada no último domingo pelo jornal O Globo, traz subsídios valiosos para os candidatos a cargos públicos na próxima eleição, mas também para os atuais integrantes da administração do país e até para lideranças de organizações privadas. 

Consideradas naturais limitações técnicas de um levantamento por amostragem (2.004 pessoas ouvidas), o resultado indica claramente que as principais instâncias dos três poderes - a Presidência da República, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional - continuam sendo vistas com preocupante descrédito por parcela expressiva da população brasileira. É um sinal de alerta que precisa ser considerado: a desconfiança persistente nas instituições públicas corrói a democracia e abre espaço para o autoritarismo.

Um aspecto extremamente significativo da sondagem é a aparição do Pix como instituição mais confiável dos brasileiros, com 80% de indicações. O sistema de pagamentos instantâneos instituído pelo Banco Central - e questionado pelo atual governo norte-americano como concorrência desleal às empresas de cartões de crédito - tem o apoio majoritário da população. 

Por quê? Por sua praticidade e eficiência e também por oferecer uma utilidade essencial para os usuários, como deveriam ser todos os serviços públicos. No detalhamento, a pesquisa demonstra também que o Pix detém a confiança de pessoas de todos os segmentos do espectro ideológico.

Depois dele, com alto índice de confiança na visão dos brasileiros entrevistados, aparecem a Igreja Católica (76%), a Polícia Militar (75%), os militares/Forças Armadas (70%) e os bancos (63%). Só então surgem instituições da estrutura administrativa: Presidência da República (57%), STF (50%) e Congresso Nacional (49%). 

A imprensa também é colocada nesta faixa pelos brasileiros consultados, com 50% de aprovação, indicativo de que precisa continuar investindo em precisão, transparência e credibilidade. Nas últimas posições do novo ranking aparecem os partidos políticos (44%) e as redes sociais (41%).

Cabe considerar que as instituições políticas, embora mal cotadas, apresentaram leve melhora em relação ao levantamento anterior do mesmo instituto, realizado em 2023. Mas o sistema político brasileiro carece de reformas estruturais aprofundadas para que os cidadãos passem a confiar mais nos seus representantes, com ações efetivas de aumento da transparência orçamentária, respeito às regras democráticas, combate à corrupção e prestação de serviços essenciais.

Aferições sistemáticas como o recente levantamento comprovam que todas as instituições nacionais - públicas e privadas - têm margem para aperfeiçoamento. Indicam, ainda, que os brasileiros precisam exercer melhor os seus direitos de cidadania, não apenas cobrando honestidade e eficiência dos entes políticos, mas também participando ativamente da vida do país - informando-se adequadamente, votando com consciência e acompanhando atentamente o trabalho dos seus representantes na administração pública. 

OPINIÃO RBS

12 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Não haverá vice decorativo nos próximos quatro anos no RS

Ganhe quem ganhar a eleição de outubro, o Rio Grande do Sul não terá o que Michel Temer chamou de "um vice decorativo". Pelo perfil dos companheiros de chapa de Gabriel Souza, Juliana Brizola, Luciano Zucco e Marcelo Maranata, nenhum é do tipo que se contenta em ganhar R$ 29,5 mil (brutos) para ficar em casa esperando o titular se afastar para assumir o cargo.

Ex-secretário do Desenvolvimento, Ernani Polo (PSD) já tem até missão definida para o caso de Gabriel se eleger governador. Será ele o interlocutor com os setores produtivos, como já vem ocorrendo na campanha, podendo retornar à secretaria, repetindo o que fez Ranolfo Vieira Júnior no primeiro governo de Eduardo Leite, quando foi secretário da Segurança. Outro exemplo é o do vice-presidente Geraldo Alckmin, que até março era ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

O vice de Juliana, Edegar Pretto (PT), é mais experiente do que ela e estaria concorrendo a governador se não fosse o acordo pelo qual o PT abriu mão da candidatura própria para apoiar o PDT. De perfis diferentes, Pretto já vem representando a chapa em setores onde ele tem mais trânsito ou quando a candidata prefere não comparecer, como ocorreu na segunda-feira na Transposul. Caso Juliana seja eleita, Pretto terá papel central no governo, repetindo o que ocorreu com Miguel Rossetto, vice de Olívio Dutra, que tinha gabinete na ala residencial do Piratini.

A deputada estadual Silvana Covatti (PP) também é bem mais experiente do que Zucco, seu companheiro de chapa. Ex-presidente da Assembleia e ex-secretária da Agricultura, Silvana é uma mulher que precisará ter um papel no governo, pelo que o PP representa na composição da aliança. Zucco tem dito que vai montar um secretariado mais técnico, com pessoas capacitadas na área em que vão atuar. Não seria a Agricultura a área de Silvana, mas pela sua biografia também não pode ser um gabinete sem trabalho efetivo.

Com perfil de atuar na linha de frente

Maranata escolheu inicialmente uma vice acostumada a colocar a mão na massa, a produtora rural Betty Cirne Lima, mas ela acabou cedendo ao apelo do governador Eduardo Leite e dos diferentes setores do agro para continuar à frente do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, como uma espécie de prefeita da Expointer. Maranata então puxou Cláudio Diaz, que seria candidato ao Senado, e fez dele seu vice. Pelo perfil, Diaz é um homem da linha de frente e não aceitaria ser apenas o substituto eventual. _

"Uma pedra em cima" das divergências com o enteado

O interesse político falou mais alto do que as rusgas pessoais entre o candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, e a ex- primeira-dama Michelle Bolsonaro, sua madrasta.

Ontem, Michelle enfim se encontrou com Flávio, tirou fotos, gravou vídeos para as redes sociais e disse ter colocado "uma pedra em cima" das divergências com o enteado.

É cedo para falar em reconciliação plena. Ela diz que aceitou o pedido de desculpas de Flávio, mas não esqueceu a forma como foi tratada. O mais preciso é falar em trégua.

Esse foi o primeiro encontro entre os dois, depois de levantarem a bandeira branca.

Questionada sobre a campanha, disse que não deve viajar pelo Brasil com Flávio porque precisa cuidar do marido, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. _

Em busca de acesso a mais produtores

Na tentativa de ampliar o acesso dos produtores rurais às medidas de renegociação de dívidas anunciadas pelo governo federal, o governador Eduardo Leite expôs ontem ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, em Brasília, sua preocupação com a regulamentação que, no formato sugerido, atenderia apenas cerca de 10% dos agricultores.

Leite aproveitou para avançar nas negociações para adesão ao Propag, e sinalizou que o Estado deve oferecer cerca de R$ 20 bilhões em créditos de receitas futuras como ativos para amortizar o total da dívida. A divergência entre os dois se dá a respeito do índice de correção. _

Campanha nas ruas

Será em Porto Alegre a largada da campanha eleitoral dos principais candidatos ao governo e ao Senado, domingo.

O roteiro de Luciano Zucco (PL) deve começar pelo comitê em Porto Alegre, na Rua Voluntários da Pátria, seguido de mobilização em algum ponto da Capital, e depois seguir em direção a algum município da Grande Porto Alegre.

Juliana Brizola (PDT) fará caminhada e ato no Brique da Redenção, acompanhada de Edegar Pretto e dos candidatos da aliança ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT).

Gabriel Souza (MDB) deverá começar a campanha com um "adesivaço" na Capital, com a participação dos candidatos ao Senado da aliança, Germano Rigotto (MDB) e Frederico Antunes (PSD).

Marcelo Maranata (PSDB) ainda não definiu a agenda. _

Médicos do IPE Saúde terão reajuste

A partir de 1º de setembro, os honorários médicos pagos pelo IPE Saúde serão reajustados para se aproximar das tabelas dos principais planos de saúde. Consultas médicas para quem se credenciou como pessoa jurídica, por exemplo, passam para R$ 121. Para os médicos cadastrados como pessoas físicas, são R$ 84. Visitas médicas hospitalares a pacientes internados vão para R$ 60. Os valores de coparticipação pagos pelos segurados permanecem os mesmos. _

Vereador terá de remover vídeo

O vereador de Porto Alegre Jessé Sangalli (PL) terá de remover vídeo publicado nas suas redes sociais onde acusa o governo estadual de fazer chantagem eleitoral.

Segundo o parlamentar, Eduardo Leite e Gabriel Souza estariam exigindo apoio à candidatura do emedebista em troca da liberação de recursos para obras de reconstrução. Como não apresentou provas, a Justiça Eleitoral determinou a exclusão do conteúdo. _

POLÍTICA E PODER

12 de Agosto de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Participação de votantes entre 16 e 17 anos no processo eleitoral havia batido recorde em 2022, com mais de 80 mil pessoas. No pleito deste ano, só 54,7 mil estão aptos a ir às urnas. Movimento também foi observado no país

Número de eleitores adolescentes cai 30% no Estado

O número de adolescentes aptos a votar no Rio Grande do Sul em outubro caiu cerca de 30% em comparação com as eleições gerais de 2022. Conforme estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 54.702 eleitores de 16 e 17 anos no Estado. Em 2022, eram 80.044. Embora a população tenha encolhido nessa faixa etária no período, a queda no número de eleitores é maior.

De acordo com a Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Estado tem 10% menos pessoas de 16 e 17 anos em 2026 do que tinha em 2022. O movimento também foi observado nacionalmente.

Nas eleições gerais passadas, eram cerca de 2,1 milhões de jovens aptos a votar em todo o país, número mais alto da história.

Já na deste ano, serão 1,6 milhão, retração em torno de 22%.

O voto só é obrigatório a partir dos 18 anos. Conforme a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS Jennifer Azambuja de Morais, que estuda a participação de jovens na política, a falta de interesse desse grupo pela política institucional é histórica.

Entre 2018 e 2022, houve um aumento após uma campanha da Justiça Eleitoral.

Outros fatores incluem a falta de representatividade entre os políticos, que são, em sua maioria, adultos mais velhos, e o desencanto com o sistema político.

Embora não seja nova, essa realidade é reforçada pelas ondas de polarização e pelo processo de informação e comunicação via redes sociais. O que no passado levou a protestos nas ruas, conforme Jennifer, hoje gera apatia.

- O engajamento online é diferente do presencial. O jovem é muito engajado nesses espaços, nas redes sociais, mas isso também é um fator que diminui (a participação nas eleições) - observa Jennifer.

A professora aponta ainda que jovens de famílias com rendas mais elevadas tendem a ter cerca de 10% a 15% mais participação:

- As escolas privadas trazem mais o debate político em sala de aula. E os pais, às vezes, também falam mais, colocam mais a política como algo central para a resolução de problemas. Adolescentes e jovens de classe mais baixa estão vivendo tantos problemas que a política acaba ficando mais afastada deles. _ Gabriela Plentz

Grupo acima dos 60 cresceu

Na direção oposta, o eleitorado acima de 60 anos vem aumentando. De acordo com o TSE, o número de eleitores nessa faixa etária aumentou 13% entre 2022 e 2026 no Estado, percentual ligeiramente superior ao crescimento da população nessa mesma fase da vida (11%).

A tendência é a mesma no plano nacional. Para o cientista político Rodrigo Gonzalez, o fenômeno do envelhecimento serve como elemento de mobilização das pessoas mais velhas, em questões como aposentadorias e saúde, levando a uma maior participação:

- Hoje, uma pessoa com 65 anos ou mais tende a ser muito mais ativa do que há 30 ou 40 anos, até mesmo por aumento do período de trabalho ativo e aposentadoria tardia. Em várias partes, como Reino Unido e Espanha, os mais velhos estão mais presentes em manifestações políticas do que os jovens.

A maior fatia do eleitorado gaúcho está na faixa entre 40 e 49 anos, assim como no nível nacional. As mulheres representam 53% e os homens, 47%.

No total, são 8,5 milhões de pessoas aptas a votar no RS. Ainda segundo o TSE, o Estado tem 21.022 eleitores com cem anos ou mais (veja gráfico). Mas o Censo de 2022 apontou 1.536 pessoas centenárias no RS. 

Em nota, o TSE afirmou que utiliza metodologia distinta do IBGE e que a divergência pode se relacionar a "eventuais inconsistências na data de nascimento registrada no cadastro eleitoral" ou a "situações em que o falecimento da pessoa ainda não tenha sido comunicado oficialmente à Justiça Eleitoral". 

sábado, 8 de agosto de 2026

Um ponto de equilíbrio no máximo de tensão

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciadas em adrenalina? "Aprenda com os erros dos outros. Você não consegue viver tempo suficiente para cometer todos por si mesmo." (Eleanor Roosevelt)

Falando aos mais jovens sobre as barreiras que desafiam nosso progresso profissional, foi inevitável falar do medo de errar. Não daquele receio prudente que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, mas do medo que amordaça o projeto de ambição. Aquele que sussurra ao ouvido que é melhor nem tentar, porque a queda é pública e o julgamento é implacável. 

No entanto, quando olhamos para trás, percebemos que as médias e grandes conquistas que eventualmente acumulamos não representaram a ausência do medo, mas a nossa capacidade de administrá-lo.

Viver, afinal, é um exercício de observação. E claro que identificar o que significa a profilaxia do erro, a partir da experiência de quem só pretendia acertar, é um exercício de inteligência e principalmente de humildade, e há uma sabedoria serena nisso. Olhar o tombo alheio não para julgar, mas para ajustar a própria rota, é o que nos permite avançar sem pesadelos na madrugada.

Ainda assim, não importa a atividade ou a exigência de treinamento para exercê-la com competência, a nuvem negra do erro sempre nos perseguirá. Ela é a nossa sombra mais fiel e uma régua implacável na identificação de perfis humanos.

Há os que erram e, assumindo o erro, se diferenciam; os que não se dão conta que erraram e se candidatam a repetir indefinidamente; e os que anunciam que nunca erraram, e todos entendem a mensagem: eles nunca fizeram nada.

O preço assustador desta sina, evidentemente, se multiplica em atividades de risco. Submete o piloto, o motociclista e o cirurgião a níveis de concentração e estresse que o bibliotecário, o alfaiate ou o jardineiro nem imaginam. Enquanto uns buscam o silêncio das páginas ou a precisão mansa da tesoura, outros precisam domar o caos em frações de segundo. 

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciados em adrenalina - o thrill seeking, como lembrou o professor Nardi - ainda carece de entendimento da psicologia e da neurobiologia. Mas a verdade é que os protagonistas desse estilo de vida preferem não polemizar. Para eles, e talvez só para eles, isso - e apenas isso - significa VIVER.

Eles buscam para chamar de felicidade, algum tempo de sossego para calibrar a gana de fazer e juram que pode existir alguma calmaria no olho do furacão. Não se incomodam com aqueles, também considerados normais, que se sentem genuinamente realizados na inércia que abomina sobressaltos. Claro que há espaço no mundo para o lago calmo e o mar revolto.

Entretanto, a grande tragédia pessoal não é escolher a segurança do lago, mas desejar o oceano e deixar-se amordaçar pelo medo de naufragar. O erro não é o oposto do sucesso: é o pedágio inevitável para quem se recusa a passar pela vida como um mero espectador e define a felicidade como um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. 

Quem convive com a alta tensão sabe que o erro está espreitando, mas sabe também que a paralisia dói muito mais do que a queda. No final das contas, a audácia não é a falta de medo; é a certeza de que a ambição de se sentir vivo é maior do que o temor de errar, e nesse desassossego saem de casa todos os dias, cedo da manhã, cantarolando. 

J.J. CAMARGO 

 

08 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Gente grande

Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto. Publiquei essa frase em alguma crônica do passado, inspirada por uma conversa que tive, há muito tempo, com uma amiga. 

Ela me contou que estava no quarto do hospital onde o pai estava internado. De repente, o quadro dele piorou. Ela tinha cerca de 35 anos, na época. Virou-se para a prima que a acompanhava e disse: "precisamos chamar um adulto". O episódio havia transcorrido meses antes e, ao me descrever a cena, rimos como se fosse um esquete de comédia.

Comédia é coisa séria.

Quando é que nos tornamos um adulto? Convenções etárias determinam a idade em que se pode votar, dirigir um carro, concorrer a um cargo público, mas não há uma idade que indique que ficamos aptos a arcar com as consequências de viver em um mundo onde tudo é impermanente. Hoje você está segura em um casamento, amanhã descobre que seu marido se envolveu com outra. 

Hoje você está planejando uma viagem com as amigas, amanhã cai em um golpe que raspa as suas economias. Hoje você está em Paraty, celebrando a literatura com colegas escritores, na noite seguinte está dentro de uma ambulância acompanhando sua mãe que está sendo levada ao hospital com urgência.

Diante do desespero, dá mesmo vontade de chamar um adulto, que em nossa imaginação é alguém com sangue frio para tomar as decisões certas, aquelas que reverterão o pesadelo. O medo nos devolve a um estado infantil, em que só queremos segurar a mão de alguém que cuidará de tudo.

Etarismo contra nós mesmos: acreditar que não somos capazes de lidar sozinhos com as rasteiras que a vida nos dá. E de rasteira a vida entende.

Quando você chama alguém para dividir um problema, não está sendo fraco, e sim, adulto: não precisamos decidir tudo pela nossa cabeça ou sofrer sem um ombro por perto. Pedir ajuda revela saúde mental. Bem diferente de quando se "chama um adulto" a fim de passar adiante o impasse, declarando-se inábil para assumir a responsabilidade das próprias ações. 

Quando não há maturidade emocional, você pode ter 35, 52, 64, 88: não cresceu. A infantilidade vitalícia é um local confortável e ilusoriamente seguro, onde todos atendem suas necessidades sem que você precise arriscar seu pescoço, mas é uma existência de muletas, que nunca conhecerá o prazer de andar com as próprias pernas e evoluir através de seus erros e acertos.

Nos últimos meses, foram incontáveis as vezes em que eu gostaria de ter chamado um adulto para resolver questões de gente grande. Nas horas mais difíceis, chamei. E, para meu secreto orgulho, veio eu mesma em meu socorro. Que vitória histórica é descobrir que sempre se pode crescer um pouco mais. 

MARTHA MEDEIROS


08 de Agosto de 2026
SARA BODOWSKY

O conteúdo desta coluna reflete a opinião da autora

Nova fase - Um clássico paulistano renasceu

Estive em São Paulo na última semana com um olhar muito atento ao que pudesse interessar a vocês, meus leitores - e também a quem consome meu conteúdo em outras mídias. Vou dividir bastante com vocês aqui na coluna durante o mês de agosto.

Mas já adianto que um dos lugares que visitei foi a Galeria Metrópole (Av. São Luís, 187), no centro da cidade, junto ao icônico Copan (que merece uma página dedicada, inclusive!). Apesar de sofrer ainda com a insegurança típica dos grandes centros, especialmente com o roubo e furto de celulares, a região central de São Paulo está revivendo de maneira muito interessante.

A Galeria Metrópole é um exemplo desse renascimento. Inaugurada nos anos 1960, na Praça Dom José Gaspar, na República, ela já foi um dos endereços mais elegantes da capital paulista: tinha cinema para mais de mil pessoas, boate e bares frequentados por universitários, intelectuais e nomes como Chico Buarque.

O prédio, ícone da arquitetura modernista projetado por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, abriga hoje lojinhas de design, ateliês, brechós e muito verde no paisagismo interno. Tem comida peruana de verdade no Rinconcito Peruano - provei um ceviche e um arroz chaufa incríveis - e sorvete de sabores nordestinos, na Cangote, além de uma gastronomia super diversa. Aos domingos, uma feirinha com arte, brechó e comidinhas lota os corredores, reunindo de forma democrática vários públicos paulistanos.

No @SaraBodowsky tem um vídeo com o que registrei na Galeria Metrópole. _

SARA BODOWSKY

COM A PALAVRA

Ativista cujo nome se transformou na lei mais importante de prevenção à violência contra as mulheres no Brasil

"Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção"

Poucas pessoas têm o próprio nome associado a uma transformação social tão profunda. Ao se completarem, nesta sexta-feira, 20 anos da sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), a farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, avalia os resultados da medida. Ela sobreviveu a duas tentativas de feminicídio, recorreu a instâncias internacionais para buscar justiça e ajudou a mudar a forma como o país enxerga e combate a agressão contra as mulheres. Contudo, apesar dos avanços legais, os índices de violência doméstica e de feminicídio seguem alarmantes no Brasil. Nesta entrevista, Maria da Penha faz um balanço sobre duas décadas da legislação, destaca o papel crucial das medidas protetivas de urgência e alerta para a necessidade urgente de fortalecer a prevenção, a capacitação dos agentes públicos e a rede de atendimento.

Pâmela Rubin Matge

Transcorridos 20 anos, como é ter o nome associado à mais importante legislação de proteção às mulheres do país?

Neste aniversário de 20 anos da lei batizada com meu nome, o que mais me chama a atenção é que houve uma mudança na mentalidade da sociedade brasileira. Conseguimos tirar a violência doméstica de dentro de casa e mostrar que esse não é um assunto restrito à família, mas um problema de todas as pessoas. Antes de 2006, quando um casal brigava ou havia uma agressão, o caso, muitas vezes, era resolvido no juizado com a doação de uma cesta básica, e pronto.

É que violência doméstica deixou de ser um problema privado, mas do Estado...

Sim. A Lei 11.340/2006 quebrou essa lógica, e este é o seu maior legado. A sociedade e o Estado passaram a entender que agredir uma mulher em casa é um crime tão grave quanto agredi-la na rua.

A partir do texto original da lei, outras iniciativas e atualizações legislativas foram surgindo. Como a senhora avalia essa evolução?

Não posso deixar de destacar a medida protetiva de urgência (MPU). Ela é o principal mecanismo para afastar o agressor da vítima e proibi-lo de se aproximar ou manter qualquer tipo de contato. Ao longo desses 20 anos, tem sido a ferramenta mais concreta ao alcance de uma mulher em situação de risco. E a legislação não parou no tempo, continua sendo atualizada. Tivemos avanços cruciais, como o reconhecimento formal do crime de violência psicológica e de outros tipos de abusos, a tipificação da Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) como qualificadora do homicídio, e o uso de tornozeleiras eletrônicas para o monitoramento de agressores. Tudo isso demonstra que a Lei Maria da Penha é uma legislação viva, que vai se ajustando às novas dinâmicas da realidade.

Existe um consenso sobre a necessidade de integrar políticas públicas, investimentos e redes de proteção. O que mais pode frear a escalada da violência?

O ponto que mais me preocupa é saber que a lei é muito boa no papel, mas ainda demonstra, na prática, não ser efetiva em todos os casos. Os números ainda assustam, porque a maioria das mulheres mortas por companheiros ou ex-companheiros nem sequer conseguiu chegar à Justiça a tempo. Isso é um problema seríssimo. A lei foi estruturada para funcionar como uma teia: delegacias especializadas, assistência social, Poder Judiciário e políticas públicas de prevenção, atuando em conjunto. O Estado precisa aprender a identificar o risco precocemente e intervir antes que o pior aconteça. Precisamos interiorizar e expandir a rede de proteção.

E o que ainda precisa mudar? Onde estão as maiores falhas no atendimento às vítimas?

Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção. O fator racial e social também pesa de forma decisiva nesse cenário. Mulheres negras, indígenas e moradoras da periferia morrem proporcionalmente mais, o que escancara a necessidade de a lei proteger, de fato, todas as mulheres. Isso exige olhar além do gênero, considerando raça e contexto regional. Além disso, é fundamental capacitar continuamente os agentes do Estado. Ainda testemunhamos operadores do Direito - incluindo policiais, promotores e juízes - questionando o comportamento da vítima ou relativizando violências que não deixam marcas físicas, como a psicológica e a patrimonial.

Qual é o seu maior desejo para os próximos anos quanto à aplicação e evolução da lei?

A lei é um marco histórico, mas marco não é ponto de chegada. Os próximos 20 anos precisam ser focados em transformar essa legislação avançada em proteção real e diária para toda e qualquer mulher brasileira, independentemente de onde ela more ou da cor da sua pele.  

08 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Candidatos precisam reconhecer avanços na educação

Recomenda-se aos candidatos e candidatas ao governo do Rio Grande do Sul a fineza de estudar os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 antes de colocar em risco um trabalho consistente, mas ainda incompreendido. Não basta semear clichês sobre o ensino, dizer que é prioridade absoluta, como dizem todos os concorrentes a cada eleição, e não ter um projeto de longo prazo.

Foi pela continuidade das políticas públicas que o Ceará e depois outros Estados nordestinos atingiram resultados melhores do que os ricos do Sudeste.

O que se vê nos debates iniciais sobre educação é uma mistura de desinformação, preconceito, discurso fácil e generalização. É verdade que ainda estamos muito distantes do resultado necessário para chegar próximos dos países desenvolvidos. O Brasil está. As escolas públicas precisam evoluir, sem dúvida, as escolas privadas também. Não há sociedade desenvolvida sem educação pública de qualidade.

Feita essa ressalva, é preciso reconhecer que o trabalho da secretária Raquel Teixeira, muitas vezes criticado até por seus pares pela demora em apresentar resultados, aparece no Ideb de 2025 como sinal de que existe um caminho. Os resultados não são maquiados, como disse Luciano Zucco (PL) no debate da Gaúcha, nem mostram que somos os piores, como insiste Juliana Brizola (PDT), comparando os dados de hoje a um tempo em que só a elite ia para a escola e, portanto, nossos letrados brilhavam no céu do Brasil.

Há muito para ser feito no Rio Grande do Sul, mas quem for eleito não pode querer começar do zero. As medidas adotadas por Raquel e sua equipe, que podem e devem ser aperfeiçoadas, produziram um salto no ranking do Ideb, muito menos pela possibilidade de passar de ano com dependência em quatro matérias e mais pela melhora da aprendizagem mesmo. Está bom assim? Não. Bom seria uma nota acima de 8 nas três fases, mas isso nenhum Estado tem.

Precisa de profundidade

O que os candidatos precisam dizer aos eleitores é o que farão de diferente para a rede toda e não para as laranjas de amostra. Como será a prometida "valorização dos professores", em um cenário de orçamento apertado? De que forma acompanharão os resultados, escola por escola, e valorizarão aquelas que melhorarem em comparação com seus próprios resultados? Vão manter programas de retenção dos jovens no colégio por meio de recompensa financeira ou adotarão a máxima de que ninguém deve ganhar para fazer o que é obrigação? _

Juliana Brizola busca aproximação com empresariado

Disposta a dialogar com empresários, normalmente críticos aos candidatos e governantes da esquerda, Juliana Brizola (PDT) foi a Teutônia na sexta-feira para uma reunião com representantes da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) e com o prefeito Renato Airton Altmann (PSD).

Representantes dos setores apresentaram à candidata não só os desafios enfrentados pelo município e do Vale do Taquari, como também as perspectivas de crescimento da região.

Segunda maior economia do Vale do Taquari, Teutônia está entre os municípios do Estado que mais aumentaram sua população nos últimos anos. Hoje, são cerca de 32 mil habitantes, parte deles recém-chegada à cidade, que recebeu novos moradores e empresas da região principalmente após as enchentes de 2023 e 2024.

Na conversa entre Juliana e representantes empresariais, foram abordados temas ligados ao desenvolvimento regional, dentre eles infraestrutura, fortalecimento do setor produtivo, qualificação profissional e prevenção diante dos eventos climáticos extremos. _

Satisfação e futuro

Satisfeita com os resultados do Ideb, depois de cinco anos à frente da Secretaria da Educação, Raquel Teixeira atribui o salto a um conjunto de iniciativas que têm como ponto de partida o trabalho baseado em dados. Ela destaca o sistema de governança, que começa nas escolas e termina no governador, passando pelas coordenadorias regionais de Educação e pela Seduc, todos acompanhando os mesmos indicadores, a começar por frequência e desempenho:

- Hoje, nossas escolas trabalham não apenas com a base curricular comum, mas com protocolos, informações climáticas e habilidades socioemocionais.

Raquel também se orgulha do projeto de educação antirracista, focado na aprendizagem. Outro projeto ao qual ela se dedicou, mas que está mais atrasado, é o da educação indígena - as crianças serão avaliadas no seu idioma materno e na língua portuguesa. _

Com presença pela metade

Apesar das quatro cadeiras dispostas no palco do confronto organizado pela Famurs, com transmissão da TV Pampa, somente duas foram ocupadas, por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB).

Diante de uma plateia de prefeitos e gestores municipais, os dois responderam a perguntas sobre a relação do governo estadual com os municípios e expuseram suas ideias para infraestrutura, saúde, municipalismo e desenvolvimento regional.

Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) alegaram impossibilidade de participar em razão de outras agendas. Juliana esteve em Teutônia, onde participou de reunião com a CIC, e Zucco ficou em Porto Alegre para reuniões internas da campanha. _

Um exemplo para se inspirar

Em vez de viajar para o Ceará ou para a Finlândia em busca de inspiração, prefeitos que não conseguem bons resultados na educação podem subir a Serra e conhecer um exemplo que dá certo. A cidade é Farroupilha, referência em educação pública. Lá fica a Escola de Ensino Fundamental Santa Cruz, que conquistou de novo o primeiro lugar no Ideb nas duas etapas avaliadas - anos iniciais e anos finais do Ensino Fundamental.

Atenção para as notas obtidas pela Santa Cruz: 9,2 nos anos iniciais e 8,2 nos anos finais.

A título de comparação, a média do RS, somando as redes estadual, municipal e federal e as escolas privadas, é de 6,3 nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais. A instituição também é a primeira colocada nas séries iniciais e finais da Região Sul do país.

O que a escola de Farroupilha tem que outras não têm? Em 2024, a diretora da escola deu entrevista à Rádio Gaúcha para explicar o bom desempenho. Em 2023, a Santa Cruz também estava em primeiro lugar no ranking. Não havia nada de milagroso: professores comprometidos, pais envolvidos na educação dos filhos, disciplina e compromisso com aulas interessantes. Antes de virar lei, a escola já tinha proibido o celular em sala de aula.

Nos anos iniciais, três das 10 melhores escolas do Estado são de Farroupilha. _

POLÍTICA E PODER

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ORÇAMENTO DOMÉSTICO

Endividamento das famílias sobe para 82%, mas inadimplência cai

Orçamento doméstico

O indicador que mede a proporção de famílias que têm dívidas, em atraso ou não, chegou a 82% em julho, marcando o maior patamar já registrado pelo sexto mês seguido. Em junho, o índice era 81,6%; enquanto, em julho do ano passado, 78,5%.

Mas a parcela de famílias com dívidas atrasadas, a inadimplência, recuou para 29,8% em julho. No mês anterior, estava em 29,9%, e, há um ano, em 30%.

O tempo médio de pagamento em atraso das contas ficou em 64,6 dias em julho, mostrando trajetória de queda desde abril, quando estava em 65,1 dias. Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O levantamento é feito com 18 mil famílias de todo o país. São levadas em consideração dívidas com cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.

A pesquisa mostra que as famílias têm, em média, 29,5% do orçamento atrelado a dívidas, com tempo médio de comprometimento de 7,2 meses.

A CNC ressalta que dívida não é necessariamente um comportamento financeiro negativo, uma vez que é uma forma de direcionar dinheiro para o consumo, o que aquece a economia como um todo. Mas, a instituição adverte que o índice de endividamento preocupa quando as famílias começam a apresentar dificuldade na capacidade de honrar os pagamentos.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o elevado comprometimento da renda mostra que a recuperação da capacidade de consumo das famílias será gradual.

- A continuidade do processo de flexibilização monetária (queda da taxa Selic), condicionada ao comportamento da inflação, poderá ajudar a aliviar o orçamento doméstico e reduzir a pressão financeira principalmente sobre as famílias de menor renda - afirma. _ 

07 de Agosto de 2026
EDITORIAL

EDITORIAL

Uma homenagem a eles

Meu pai sempre gostou de inventar moda na cozinha. Foi com ele que aprendi a usar o tomilho e o alecrim no preparo das carnes. Ele também me ensinou a acender o fogo da churrasqueira usando uma garrafa de vidro envolvida em folhas de jornal. Mas seus ensinamentos não ficam apenas na culinária. Mesmo passados 20 anos, lembro dele voltando das viagens de trabalho pelo interior do Estado, trazendo uma coberta da Minnie da qual demorei muito, mas muitos anos mesmo, para me desfazer. Foi ele quem me apresentou ao Pequeno Príncipe e me contou inúmeras histórias antes de dormir.

Seu Adroaldo nunca fez curso de culinária, mas é um verdadeiro entusiasta no assunto. Com ele aprendi, desde piá, as músicas da torcida do nosso time do coração e também a não ter medo de arriscar. A todos os papais de plantão que nos leem, preparamos este caderno para celebrar suas vidas.

Vocês nos ensinam a arte de amar e a importância de sermos corajosos, seja ao escolher os ingredientes para o preparo dos alimentos ou ao repassar às futuras gerações o legado construído ao longo de uma vida. Nas próximas páginas, conheça a história de três chefs que dividem a rotina intensa da cozinha com a paternidade. 

Confira também uma hotlist para celebrar o Dia dos Pais, seja tomando uma cervejinha gelada, revisitando um restaurante clássico de Porto Alegre ou conhecendo um endereço recém-inaugurado. Adro, te amo! Feliz Dia dos Pais!

Brunna Oliveira - Analista de Conteúdo

07 de Agosto de 2026
CONTAS PÚBLICAS

CONTAS PÚBLICAS

Alta da dívida decorre dos juros elevados, diz Durigan

Dados mais recentes mostram que passivo federal chegou a R$ 9,2 trilhões. Ministro afirma que aumento se dá em razão da rolagem de débitos antigos. Para os adversários de Lula, a gestão petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal e com o corte de despesas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o aumento da dívida brasileira não se deve ao crescimento de gastos, e sim aos juros altos que são cobrados no país. Segundo ele, isso ocorre por conta da necessidade de o governo federal pagar dívidas antigas com títulos novos, o que implica em mais pagamento de juros.

A declaração do ministro foi dada ontem em entrevista à GloboNews. Ele explicou que, de fato, há relação entre a questão fiscal e os juros, mas que há também outros fatores decisivos que acabam por influenciar as altas taxas cobradas no Brasil.

O aumento da dívida pública é um dos pontos explorados pela oposição à atual gestão. Candidatos à Presidência levantam o tema para atacar a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Para os críticos, o governo petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal, gastando mais do que arrecada em vez de adotar medidas para equilibrar as contas. Os adversários do atual presidente pregam o corte de despesas como alternativa para enfrentar o débito e a alta de juros.

A equipe de Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, defende o enxugamento da máquina pública e a venda de ativos da União como formas de recuperar a confiança na condução das contas públicas.

Perguntado se os gastos favorecem o cenário de juros altos, Durigan disse que "o governo não está gastando mais do que arrecada".

- O que acontece é que estamos pagando dívidas antigas com títulos novos. É, portanto, na gestão da dívida que estamos aumentando a dívida. É na rolagem da dívida, e não nos gastos - complementou.

Dados divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que a emissão forte de títulos vinculados à taxa Selic, o juro básico da economia, fez a dívida pública federal subir em junho, superando os R$ 9,2 trilhões. Durigan reiterou que os juros elevados são o principal fator por trás do aumento.

- Estamos com um problema na economia brasileira que é a taxa de juros e quanto isso afeta o endividamento, seja público, seja privado. O compromisso do governo é fazer todo o possível dentro do ponto de vista fiscal, que é o que está mais próximo, para endereçar essa questão dos juros no próximo mandato. O juro machuca muito a economia brasileira como um todo, não só o governo - acrescentou.

Ele destacou que, do ponto de vista econômico, o país está muito bem, "com o melhor resultado de inflação da história" e as agências internacionais de risco melhorando cada vez mais as avaliações sobre o país.

Os comentários ocorrem um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14% ao ano. Esse foi o quarto corte consecutivo da taxa. Antes do início do ciclo de calibração, o juro estava em 15%.

Incerteza elevada

Questionado se haveria uma má vontade do mercado financeiro ao estabelecer a taxa de juros futura, Durigan disse que não atribui o cenário atual a uma má vontade, mas sim ao grau de incerteza elevado e a uma certa ansiedade com a eleição:

- Estamos falando de o mercado comprar títulos de longo prazo, estamos falando de títulos de três, cinco e 10 anos e essa projeção de futuro que hoje está em jogo.

Segundo Durigan, o governo Lula melhorou as contas públicas, o que resultou em um ajuste de dois pontos percentuais (pp) do Produto Interno Bruto (PIB) no déficit primário (que exclui juros e correção da dívida). _

07 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Faltou profundidade aos pré-candidatos no debate

É natural que, no primeiro debate de uma campanha eleitoral, os pré-candidatos ainda estejam aquecendo os motores e mais preocupados em se tornar conhecidos dos eleitores. Mas, a menos de dois meses do primeiro turno, seria esperado que houvesse mais profundidade por parte daqueles que desejam o voto dos gaúchos.

O formato do debate promovido pela Rádio Gaúcha, ontem, na PUCRS, favorecia justamente a pluralidade de assuntos. Algumas perguntas partiram de entidades representativas do Estado e abordaram temas como cooperativismo, saúde, transparência, inteligência artificial e empreendedorismo. Mas, na maior parte das vezes, os postulantes responderam pouco às questões formuladas. Perderam oportunidades valiosas de dialogar diretamente com os setores que, além de representarem uma parcela significativa do eleitorado, impulsionam o desenvolvimento econômico e social do Estado.

Nas raras ocasiões em que permaneceram nos temas propostos, faltou profundidade. Embora tenham sido estimulados, logo na abertura, a apresentar propostas concretas, poucos explicaram como pretendem colocá-las em prática, e nenhum abordou de onde virão os recursos para financiá-las. Em tempos de restrição fiscal, o "de onde virá o dinheiro" é a principal pergunta que um pré-candidato a governador precisa responder.

Educação, saúde e segurança pública foram os temas que mais apareceram, três áreas que serviram de escada nas estratégias dos debatedores para atacar o adversário, de forma individual ou em dupla, a chamada "dobradinha", que ficou muito clara, desde o início do evento, entre Juliana Brizola (PDT) e Marcelo Maranata (PSDB) contra Gabriel Souza (MDB). O vice-governador, aliás, foi o foco das críticas, enquanto o ex-prefeito de Guaíba buscou apresentar-se como terceira via. Luciano Zucco (PL) explorou a condição de ser oposição tanto no Estado quanto em nível nacional.

Em um debate, em geral, morno, Juliana e Gabriel protagonizaram o momento mais quente, próximo ao final, quando a ex-deputada desafiou o vice-governador a dizer como irá governar, caso eleito, diante da previsão de déficit orçamentário. Gabriel respondeu questionando quais programas da atual gestão ela manteria, caso chegue ao Piratini. Foi um dos poucos momentos em que a discussão tangenciou o desafio concreto de administrar as contas públicas.

Também chamou a atenção a ausência de temas estruturantes para o futuro do Estado. Praticamente não se falou sobre agronegócio, indústria, infraestrutura, cultura, sustentabilidade e mudanças climáticas.

Em um Rio Grande do Sul que viveu sua maior tragédia ambiental e enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, adaptação e resiliência deveriam estar no topo dos planos de governo. O sistema de proteção contra cheias apareceu apenas nos minutos finais, em um confronto entre Gabriel e Maranata, e ainda assim de forma superficial.

Como estratégia, os quatro pré-candidatos administraram cuidadosamente o tempo para garantir os segundos finais dos blocos de confronto direto, tentando ficar com a última palavra. Nos próximos, espera-se que a mesma habilidade seja empregada para aprofundar as respostas e discutir, com mais objetividade, concretude e profundidade, os caminhos para o Estado. _

Marcelo Gleiser de volta ao RS

Marcelo Gleiser voltará a Porto Alegre, na próxima terça-feira, para o lançamento do filme A Dança do Universo. 

A obra entrelaça biografia, ciência e filosofia ao acompanhar a trajetória do cientista, das raízes no Rio de Janeiro à criação da chamada "Ilha do Conhecimento", seu centro de imersões e retiros para executivos, situado em uma vila do século 16, na Toscana (Itália).

O filme convida a uma reflexão sobre como o conhecimento amplia, em vez de dissipar, o mistério que envolve a vida e o universo. Professor de Física e Astronomia no Dartmouth College, nos EUA, Gleiser é reconhecido internacionalmente por centenas de artigos e ensaios e por popularizar temas científicos.

A pré-estreia será na sala 5 do GNC Cinemas, do Moinhos Shopping. Haverá palestra com Gleiser.

O cientista virá a Porto Alegre a convite do Instituto Cidadania Cabanellos e da Ajuris, com apoio institucional da PUCRS. 

Honraria a Cármen Lúcia

A Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul (Apergs), que representa os procuradores do Estado, entregou à ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a medalha Antônio Estevão Allgayer - 60 anos.

Uma comitiva da entidade foi recebida, em Brasília, no gabinete da magistrada ontem. A homenagem reconhece personalidades que tenham prestado relevantes contribuições à advocacia pública e às instituições brasileiras.

A comitiva gaúcha foi liderada pela presidente da Apergs, Patrícia Bernardi Dall?Acqua, acompanhada pelo vice-presidente, Telmo Lemos Filho, pelo diretor Luis Carlos Kothe Hagemann e pelo presidente da Associação Nacional dos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal (Anape), Hélder de Araújo Barros.

A medalha foi criada no contexto das comemorações pelos 60 anos da entidade, celebrados em 25 de agosto de 2026.  Direito de pergunta: ministro José Múcio, se basta abrir o portão, para que servem as Forças Armadas?

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

06 de Agosto de 2026
ROGER LERINA

Viva a muvuca

A história da música no Brasil mudou a partir de 11 de janeiro de 1985. A data de surgimento da cultura dos grandes festivais no país é marcada pelo primeiro dos 10 dias do Rock in Rio, que reuniram no total quase 1,4 milhão de pessoas. Eu testemunhei esse nascimento, adolescente empolgado em meio a um mar de gente curtindo ao vivo as lendas do rock Iron Maiden e Queen. O primeiro show do Rock in Rio, entretanto, foi de Ney Matogrosso, artista que não era identificado com o gênero que batizou o evento carioca. (Aos 85 anos e em plena atividade, o cantor segue mais inquieto e libertário do que muitos roqueiros. Mas esse é outro assunto.)

Quatro décadas depois - e com uma longa lista de festivais no currículo -, voltei a encarar uma dessas maratonas musicais no sábado passado. Um dos maiores eventos nacionais do tipo, o João Rock reuniu cerca de 65 mil pessoas que assistiram a 34 atrações em um espaço aberto enorme em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No palco, havia dois expoentes da música brasileira veteranos como eu do Rock in Rio inaugural: Os Paralamas do Sucesso e Alceu Valença. Aliás, uma das características mais bacanas desse festival paulista - que em breve ganhará edição também em Porto Alegre, provavelmente já no ano que vem - é escalar apenas artistas nacionais.

Outra semelhança com aquele megaevento que acompanhei aos 16 anos, fascinado e exausto, é que, além do estilo musical que leva no nome, o João Rock apresentou nos seus cinco palcos nomes da MPB, rap, hip hop, reggae e pop. Misturar os gêneros é um formato adotado cada vez mais por festivais aqui e lá fora - para contrariedade de puristas que prefeririam cada um no seu quadrado: roqueiros no Lollapalooza, jazzistas no Free Jazz, hip hop no Rap In Cena. Tá legal, eu aceito o argumento - penso, porém, que tanto os eventos puro-sangue quanto os mestiços são igualmente relevantes e podem coexistir de boas em suas singularidades.

Para além das predileções individuais, festivais como o Planeta Atlântida, por exemplo, promovem graças a suas programações artísticas ecléticas encontros entre públicos de diferentes tribos, comportamentos, perfis sociais e culturais, gerações. Neste mundo cada vez mais desagregado, em que o convívio presencial é relegado em favor da solitária virtualidade das telas, a saudável catarse de uma galera heterogênea que canta e dança assistindo junto ao show de um mesmo ídolo é uma afirmação de vitalidade do espírito coletivo. Confraternizar cansa, mas a energia única que em um festival imanta palco e plateia vale a muvuca. 

ROGER LERINA