quarta-feira, 16 de setembro de 2026

16 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Supremo escreve página infeliz da sua história

Quem assistiu à sessão histórica do Supremo Tribunal Federal neste 15 de setembro saiu com a sensação de que a instituição encolheu durante as oito horas da sessão que deveria decidir se autorizaria ou não a investigação do ministro Alexandre de Moraes. Parafraseando Chico Buarque e Francis Hime, na icônica Vai passar, os ministros escreveram uma "página infeliz" da história da Suprema Corte.

A imagem do STF está sendo queimada na fogueira das vaidades acesa por homens que ignoram a voz das ruas e, do alto da sua arrogância, não percebem que estão abrindo uma cratera.

Os ministros aliados de Alexandre de Moraes foram para a sessão pintados para a guerra com André Mendonça. Gilmar Mendes e Flávio Dino deram o tom da ópera bufa, valendo-se da fragilidade e da falta de pulso do presidente do STF, ministro Edson Fachin. Desde o início, deixaram claro que a estratégia era "melar a investigação".

O dia todo foi gasto nas chamadas preliminares, uma questão de ordem sobre a conveniência de tratar o caso Moraes na sessão desta terça-feira e a suspeição de Mendonça na próxima semana.

O decano Gilmar Mendes foi grosseiro com André Mendonça, acusou o ministro de direcionar a investigação do caso Master para favorecer um grupo político - o de Flávio Bolsonaro (PL), no caso. Moraes, em vez de se defender das acusações, ateve-se a questões formais, e votou como se não fosse parte interessada. Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques se declararam impedidos, usando subterfúgios para não dizer dos verdadeiros motivos da suspeição.

No momento em que o caldo entornou, com gritaria entre os ministros, Dino pediu vista, empurrando o caso para um tempo que pode chegar a 90 dias. E fez declarações gravíssimas sobre o Judiciário e sobre os colegas. Disse que nunca se viu tanta corrupção no Judiciário e que, com o levantamento do sigilo do telefone de Vorcaro, vão surgir acusações graves contra outros ministros, citando Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, como os próximos a integrar o grupo que já tem Moraes, Toffoli e Mendonça. _

Cármen Lúcia dá lição de decência aos colegas da Corte

Mais uma vez, veio dela, a ministra Cármen Lúcia, um dos raros momentos elevados na sessão do Supremo Tribunal Federal em que predominou a baixaria. Última a votar na sessão em que se discutia a abertura da investigação do ministro Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia deu uma lição de civilidade aos colegas que em alguns momentos se comportaram como colegiais mal-educados.

A ministra teve a dignidade de pedir desculpas ao povo brasileiro por não ter conseguido evitar que o Supremo provocasse o que ela chamou de "mal-estar cívico". Com voz calma, disse que estava vivendo um momento de profunda consternação.

- Sinto-me envergonhada. A menos de 20 dias da eleição estão todos voltados para o STF. É disso que se fala nas farmácias, nas padarias, nos telejornais. Não é um quadro bonito. Se eu, como juíza desta Casa, fui omissa para ter ajudado mais, estou pedindo desculpas aos colegas e ao povo brasileiro. Houve uma espetacularização desses casos, desta sessão mesmo, que faz mal ao país. O país espera de nós uma tranquilidade que não conseguimos dar.

Compromisso com a Justiça

Em outro ponto de sua fala, Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa", que não está em um grupo ou outro. Disse que não sofreu pressões internas nem externas. E disse que ministros não podem votar com base no clamor público.

- Eu cumprirei meu dever como juíza - disse Cármen Lúcia, antecipando seu voto pela apreciação em separado das petições contra Alexandre de Moraes e André Mendonça. _

Alta nas receitas não evita previsão de déficit em 2027

Com previsão de alta nas receitas e mais de R$ 6 bilhões para investimentos e inversões financeiras no ano de 2027, o projeto da lei orçamentária anual (LOA) foi enviado pelo governo do Estado na tarde de ontem. Pela última vez, o governador Eduardo Leite foi à Assembleia Legislativa para entregar uma cópia do documento, dessa vez ao deputado Cláudio Tatsch (PL), que representou o presidente Sergio Peres (Republicanos) no ato.

Os deputados devem votar a lei até o final de novembro. A LOA passa pela Comissão de Finanças antes de ser analisada em plenário.

Apesar do aumento na arrecadação em relação a este ano, o orçamento do governo do Estado tem previsão de encerrar 2027 com um déficit primário de R$ 4,8 bilhões. Leite minimizou a estimativa, lembrando que os cálculos para 2024 e 2025 também previam as contas no vermelho, mas o governo encerrou os dois anos com superávit. O cálculo pessimista, que leva em conta possíveis gastos extraordinários, vem sendo adotado nos últimos anos pela Fazenda.

- Não há passivos escondidos, mas um desafio conhecido - enfatizou Leite.

O orçamento prevê R$ 15 bilhões para a educação, R$ 9,36 bilhões para a saúde e R$ 12,29 bilhões para a segurança pública. Para ações relacionadas a eventos climáticos extremos, R$ 1,98 bilhão. _

Com críticas ao STF, Gabriel Souza e Rigotto fazem ato no "dia do 15"

Caminhadas, carreatas, bandeiraços e adesivaços do MDB ao redor do Estado marcaram o "dia do 15", ontem, em alusão ao número do partido. Em Porto Alegre, no Largo dos Açorianos, o candidato a governador Gabriel Souza conduziu um ato ao lado de Germano Rigotto, que concorre ao Senado, e aliados do PSD, como seu vice, Ernani Polo, Frederico Antunes, que também disputa o Senado, e o governador Eduardo Leite.

Gabriel enalteceu a presença das centenas de militantes e o trabalho corpo a corpo que vêm realizando na campanha. O vice-governador falou sobre os investimentos do governo estadual e, ao pedir votos para os candidatos da chapa a senador, criticou o STF.

- Aqui estamos trabalhando, mas lá em Brasília está uma vergonha - disparou.

Rigotto convocou os militantes para uma vaia coletiva, direcionada ao Supremo, e classificou como uma "vergonha" a crise envolvendo os ministros da Corte. 

POLÍTICA E PODER

16 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Crise no STF se prolonga com ofensas, pedido de vista e impasse

São quatro votos a três para manter separadas as investigações a respeito de Moraes e Mendonça. Dino pediu vista e adiou a análise da questão. Não houve avaliação de mérito sobre pedido para autorizar inquérito baseado em relatório da Polícia Federal sobre mensagens de Vorcaro

Diante de sua maior crise, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) acabou se mostrando dividido. Não conseguiu decidir ontem se investiga o ministro Alexandre de Moraes por suposta ligação com Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso por fraudes financeiras. Foi uma sessão marcada por vários bate-bocas no colegiado a respeito de procedimentos judiciais e que terminou em um pedido de vista (maior prazo de análise) por parte do ministro Flávio Dino.

Na prática, o plenário se limitou a avaliar questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que propôs adiar o julgamento para o próximo dia 23 e analisar em conjunto os relatórios com informações da Polícia Federal (PF) sobre Moraes e também a petição contra Mendonça. As duas investigações tramitam sob relatorias e ritos diferentes.

Para Gilmar, as ações de forma separada poderiam gerar "tumulto processual" e decisões contraditórias sobre fatos correlacionados, decorrentes do caso Master. Seguiram esse argumento os ministros Cristiano Zanin e o próprio Alexandre de Moraes. Já Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram contra a unificação. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli haviam se declarado, no início do julgamento, impedidos de participar da votação.

A sessão extraordinária do STF, que começou com um pedido de "sensatez, decoro e serenidade" feito pelo presidente da Corte, Edson Fachin, foi marcada ao longo do dia por confrontos entre ministros, questionamentos à condução dos trabalhos e manifestações acaloradas no plenário.

Antes de discutir se uma investigação contra Moraes deveria ou não ser aberta, os ministros precisavam decidir se os procedimentos relacionados às condutas dele e de André Mendonça no caso Master seriam analisados de forma conjunta ou separada. A questão, inicialmente processual, acabou se misturando aos próprios fatos dos casos e às versões apresentadas pelos ministros envolvidos ao longo da sessão.

A votação sobre a junção dos procedimentos chegou a quatro a quatro, com Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes pela análise conjunta, e Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia pela separação dos casos.

Ao final, Dino pediu vista, e seu voto deixou de ser considerado na contagem. O placar, portanto, ficou em quatro a três, e a análise foi interrompida antes que o STF chegasse ao mérito de uma eventual investigação contra Moraes.

Na parte da tarde, a discussão sobre o rito dos procedimentos envolvendo Moraes e Mendonça avançou para os próprios fatos e para as versões apresentadas pelos ministros. Gilmar Mendes havia defendido que as petições fossem analisadas em conjunto, enquanto Fachin mantinha o entendimento de que os casos deveriam tramitar separadamente.

Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes seguiram a posição de Gilmar Mendes, enquanto André Mendonça ficou ao lado de Fachin. A discussão ganhou outro tom quando Moraes passou a questionar diretamente a condução dada por Mendonça ao procedimento que envolvia seu nome. Ainda durante a manhã, Moraes havia afirmado que apresentaria delegados, advogados e testemunhas que, segundo ele, poderiam esclarecer a atuação do ministro na apuração. Mendonça rebateu uma das afirmações com um "É mentira!".

"Miscelânea procedimental"

À tarde, os ministros passaram a discutir também os fatos que estavam na origem dos procedimentos. Moraes questionou a existência de pedidos da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República (PGR) para a abertura de investigação contra ele e criticou os prazos e a forma como as informações haviam sido encaminhadas aos ministros:

- Não há pedido. E se houvesse pedido, o que diz aqui: o interessado deve ser intimado do pedido com cópia da imputação com indicação de todas as provas e deve ter 15 dias para se manifestar.

Em outro momento, afirmou que o processo havia se transformado em uma "miscelânea procedimental" e voltou a defender que os casos fossem analisados conjuntamente.

Mendonça, por sua vez, defendeu a separação dos procedimentos. Disse que os casos tinham bases fáticas diferentes e que, no procedimento de Moraes sobre sua relatoria, há um suposto relatório de inteligência que a imprensa havia chamado de falso e que, segundo ele, poderia ter origem ilegal.

Moraes voltou a contestar a versão. Disse que Mendonça havia determinado a preservação e a busca de arquivos identificados como "Moraes.pdf" e "Toffoli.pdf" e que, segundo ele, o material fazia parte de um suposto dossiê ilegal. Também afirmou que o procedimento permaneceu parado por cerca de três meses e que, em 24 de agosto, Mendonça determinou de ofício uma investigação contra ele, sem pedido da PF ou da PGR.

A PGR também entrou no debate. Paulo Gonet negou ter relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que o único encontro que teve com o banqueiro foi em abril de 2024, com a presença de outras autoridades. Ontem, o Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para o dia 25 a análise sobre o procedimento que aponta menções de Vorcaro a Gonet. Na sessão, Gonet defendeu a atuação do Ministério Público Federal na apuração.

Na sequência, Mendonça pediu para responder. Nessa hora, Gilmar interrompeu a manifestação.

- É impressionante a desfaçatez desse sujeito - esbravejou.

Diante da reação de Mendonça, disse que ele poderia chorar.

- Impressionante a desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite! Aqui não tem choro, não - rebateu Mendonça

Diante do bate-boca, Dino pediu vista. Ao justificar a interrupção, afirmou que o ambiente havia se tornado incompatível com a continuidade da deliberação.

- Tenho de interromper esta situação porque temos uma questão de ordem. Não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda - afirmou.

Fachin aceitou a solicitação e interrompeu a análise. Após o pedido de vista, Luiz Fux e Cármen Lúcia seguiram as posições de Fachin e Mendonça, pela separação dos processos. Em seu voto, Cármen Lúcia criticou a "espetacularização" dos casos e da própria sessão, apontando que faz mal ao Supremo, ao Judiciário e ao Brasil.

- O país espera de nós uma tranquilidade que eu acho que nós não conseguimos dar. _

O que significa o pedido de vista de Dino e seu efeito

Caue Fonseca

caue.fonseca@zerohora.com.br

Conforme o entendimento de especialistas em Direito Constitucional, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão de ontem se refere a uma etapa preliminar ao julgamento do mérito da petição em pauta, que analisaria os fatos levantados por relatório da Polícia Federal em relação a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.

Dino pediu vista quando a Corte deliberava sobre uma questão de ordem proposta por Gilmar Mendes - cujo ponto central é a unificação das duas petições envolvendo Moraes e André Mendonça.

- Penso que o pedido de vista abrange só a questão de ordem. Ninguém avançou na segunda parte do julgamento, não houve nenhum voto dizendo se o ministro Alexandre deveria ser acusado ou não, se ele poderia ser investigado ou não. É exclusivamente sobre o tema "questão de ordem". A deliberação sobre o fato de Moraes poder ser investigado ou não ficou totalmente fora do julgamento - avalia Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Professor de Direito Constitucional da Atitus Educação, Fausto Morais tem entendimento similar:

- O julgamento é feito em etapas. Antes do assunto principal, assuntos preliminares precisam ser decididos. A questão de ordem é um assunto preliminar para análise da principal, a petição 16.662. O pedido de vista está na petição 16.662, mas para apreciação dessa questão preliminar.

De qualquer forma, Dino tem 90 dias para análise. Embora tenha adiantado seu voto favorável à unificação, o ministro voltou atrás para pedir vista. Seu entendimento acompanharia Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. Edson Fachin, Cármen Lúcia, André Mendonça e Luiz Fux votaram por manter a separação dos casos.

Na prática, o pedido de vista também impede que a Corte delibere em como se daria o desempate.

Embora haja divergências entre juristas sobre como isso se daria, o entendimento mais comum é de que Fachin, como presidente da Corte, daria um "voto de qualidade", na prática um voto de minerva desempatando a votação. _

Embates no tribunal

O clima entre os ministros esquentou diversas vezes no plenário

Alexandre de Moraes e André Mendonça

Moraes defendeu a análise conjunta dos casos envolvendo a si próprio e André Mendonça

Moraes - (...) Não há como julgar hoje (ontem) sem julgar (próxima) terça (analisar as suspeitas e questionamentos levantados por Alexandre de Moraes contra a conduta de André Mendonça na condução dos casos envolvendo o Banco Master e o INSS), porque eu pergunto, quem tem medo da Polícia Federal? Presidente, quem tem medo da Polícia Federal?

Mendonça - Não, não é questão de medo, não.

Moraes - Eu não estou perguntando a Vossa Excelência.

Mendonça - Não, mas eu estou lhe respondendo.

Moraes - Quem tem medo da Polícia Federal? Quem chamou a Polícia Federal? E exigiu que a Polícia Federal colocasse um colega na colaboração premiada. E vamos trazer aqui, presidente, vamos trazer aqui e chamar aqui testemunhas que eu vou indicar, não só policiais. Advogados, testemunhas, eu tenho testemunhas que o ministro André em reunião disse, "peçam isso".

Mendonça - Isso é mentira.

Moraes - Então, vamos chamar a testemunha?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Mendonça - Mentira.

Moraes - Vamos chamar?

Moraes - Não há como julgar hoje sem julgar terça-feira.

Mendonça - Pode chamar quem quiser, vão mentir.

Moraes - O ministro André chamou: incluam o ministro Alexandre. Por quê? Porque está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país.

Mendonça - Eu não vou responder. É isso. No meu momento de fala.

Moraes - (...) Então, eu repito, presidente, tudo o que foi feito, essa investigação fraudulenta contra mim, já começou lá atrás. Não dá para julgar uma coisa sem outra.

Gilmar Mendes e André Mendonça

Gilmar Mendes apontou motivação política e eleitoral na condução do caso Master

Gilmar - É evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa PET. Escolha de data, 7 de Setembro, todo esse cenário envolvendo essa Corte em campanha eleitoral.

Mendonça - O senhor está sendo leviano.

Gilmar - Isto não se faz. Pessoas decentes não fazem isso. Vossa Excelência não tem a palavra. Vai escutar com tranquilidade. Houve evidente condução político-eleitoral na escolha do 7 de Setembro. Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso.

Mendonça - Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar. Não está falando com qualquer um. Respeite esse tribunal.

Gilmar - Quem não se dá respeito não merece respeito.

Gilmar também afirmou que a condução do caso submeteu integrantes da Corte a situações que classificou como indevidas.

Gilmar - É uma atitude covarde, vil. Já disse isso antes: até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta assim.

Flávio Dino e Edson Fachin

Os dois ministros se estranharam no plenário a respeito do uso da palavra

No momento em que Dias Toffoli se declarava suspeito para participar do julgamento, Dino pediu aparte.

Presidente da Corte, Fachin interviu, afirmando que a concessão de palavra seria dada pela presidência. Dino rebateu que a palavra é concedida por quem está falando.

Fachin elevou a voz e insistiu: "Vossa Excelência precisa pedir a palavra à Presidência".

"Vou seguir o regimento da Corte", reagiu Dino, e seguiu falando.

Mais tarde, quando Gilmar Mendes falava, Dino pediu licença para interrompê-lo. Em seguida, questionou Fachin se ele permitia que Gilmar o autorizasse.

"A ironia está nas entrelinhas. Sem dúvida, Vossa Excelência tem a palavra", respondeu Fachin.

"A ironia serve para descontrair o ambiente, Vossa Excelência sabe disso. É Aristóteles", revidou Dino.


16 de Setembro de 2026
MÁRIO CORSO

Monotonia planetária

Se há algo que não podemos nos queixar deste momento é de monotonia. Quem disse que a história acabou não poderia estar mais errado. As revoluções tecnológicas, e as bizarrices políticas, desmentem essa tese todos os dias.

Porém sim existe uma monotonia, e ela é cósmica e planetária. Em 1910, o cometa Halley foi um arraso, sua cauda foi um espetáculo. Na nossa vez, em 1986 - passados 75 anos -, foi um fiasco, só menor do que a campanha do Internacional no Brasileirão. Depois dele anunciaram outros cometas, cada um mais decepcionante do que o outro. Nem sombra do que foi, por exemplo, o cometa Tycho em 1577.

Em 1006, uma estrela da constelação de Lupus explodiu. Produziu um novo brilho no céu semelhante a 1/4 do brilho da Lua. A última supernova foi Kepler, em 1604. Voltando aos nossos dias, acreditava-se que Betelgeuse estava no final do seu ciclo e explodiria. Recém descobriram que seu brilho anômalo se deve a uma estrela irmã. Não vai rolar um espetáculo cósmico desses por agora.

Em 1859, foi possível ver auroras polares (boreal e austral) nas regiões equatoriais e tropicais. O episódio ficou conhecido como efeito Carrington, a mais intensa tempestade eletromagnética documentada. Hoje seria uma catástrofe para todos os aparelhos elétricos e eletrônicos. Na época só existia telégrafo e os fios pegaram fogo.

Saindo do céu e voltando para a superfície terrena, o vulcanismo de hoje é amador. Em 1815, o vulcão Monte Tambora, na Indonésia, produziu o ano sem verão (1816), o efeito de sua nuvem de poeira derrubou em 3 graus a temperatura global. Krakatoa, 1883, lançou 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na atmosfera, reduzindo a temperatura média global entre 0,5 e 1,2 durante 5 anos.

Meu ponto não é a ausência de grandes fenômenos, mas a ausência de uma consciência cósmica. Não desejo a catástrofe, desejo o espanto. Gostaria que um cometa, ou algo assim, nos devolvesse a medida do nosso tamanho. Se o universo voltasse a falar mais alto, talvez nos déssemos conta que somos viajantes presos a um mesmo planeta e a um mesmo destino comum. É a mesma esperança de quem aguarda os ETs, a aparição de um outro que faça os homens se sentirem iguais. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MÁRIO CORSO

16 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

A escolha pelo aviltamento do STF

Os piores temores se confirmaram e a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que deveria decidir sobre a abertura de uma investigação sobre a relação obscura do ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro se transformou em um espetáculo degradante. Ao fim, teve sucesso a estratégia do grupo de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino de tumultuar as discussões com questões de ordem até inviabilizar o julgamento sobre a instalação do inquérito nesta terça-feira. O desfecho foi um pedido de vista de Dino, que interrompe o julgamento por até 90 dias.

O êxito infame do trio de ministros significa que o Supremo, como instituição, jogou fora a oportunidade de tornar o 15 de setembro de 2026 um divisor de águas capaz de marcar o início da recuperação da confiança social na Corte. O STF terminou o dia envolto em mais um vexame. A crise reputacional do tribunal que deve ser o fiador da Constituição restou agravada.

Apesar do pronunciamento inicial bem-intencionado, em que apelou para que os pares refletissem sobre qual Corte legariam às próximas gerações, o presidente do STF, Edson Fachin, teve uma condução vacilante da sessão. Foi desrespeitado e facilitou a catimba regimental. Para impedir o exame do mérito, a principal manobra foi buscar unir o caso ao julgamento da conduta do ministro André Mendonça, marcado para a próxima semana. A sessão foi encerrada com um placar de 4 a 3 para manter as duas situações separadas. Mendonça é acusado por Moraes de atuar com interesses político-eleitorais.

O essencial ficou sem a resposta esperada pelos brasileiros. Moraes, indicam as mensagens que recebeu de Vorcaro, agiu, se não como protetor, ao menos como consultor do então dono do Master, já investigado por fraudes e às vésperas da prisão. Ao mesmo tempo, o escritório de sua esposa tinha um contrato nababesco de R$ 131 milhões com o banco, documento editado pelo próprio Moraes. É imperioso investigá-lo.

A sessão teve discussões ríspidas, insinuações e acusações entre os ministros. As tentativas de desqualificação mútuas contribuem para a sensação de putrefação institucional do STF, um caminho perigoso por alimentar os discursos de deslegitimação da Corte. A maior lástima é que os próprios ministros, com seus atos, municiam essa erosão da confiança. A exceção honrosa do dia foi a ministra Cármen Lúcia. Lúcida e consternada, pediu desculpas aos brasileiros.

É estarrecedor ainda perceber que não faltam conexões mal explicadas entre ministros do Supremo e outras autoridades e seus familiares com a rede de influências montada por Vorcaro. Dias Toffoli, que segue sem esclarecer negócios vinculados ao Master, se declarou suspeito por motivo de foro íntimo. Kassio Nunes Marques se considerou impedido. Alegou que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não se sentia confortável em votar, mas notícias que surgiram pela manhã apontavam possíveis pagamentos de Vorcaro para o seu filho, que é advogado. Novos diálogos que vieram à tona durante a sessão tentam envolver Mendonça na teia de relações do Master e constranger Luiz Fux, por meio de seu filho, também advogado.

Tudo deve ser esclarecido, a começar pelo caso de Moraes, que precisa ser devidamente investigado. Mas é preciso atenção ao ardil de criar tumultos processuais e tentar jogar suspeitas sobre o maior número possível de personagens, como forma de buscar acordões ou nulidades que levem à impunidade ampla, geral e irrestrita. 

16 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Fachin revisita a memória do STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, revisitou a memória da Suprema Corte para enfatizar a responsabilidade de seus pares diante do julgamento de um dos casos mais importantes das últimas décadas do Judiciário brasileiro.

Ao cumprimentar os ministros presentes na abertura da sessão de ontem, ele relembrou a trajetória de cada um dos magistrados, bem como os antecessores de cada cadeira.

- É assim que vejo cada um de nós. Por isso este plenário deve ser, neste momento, também um lugar de memória. Por estas cadeiras passaram ministros que conheceram a violência do arbítrio - disse em seu discurso inicial.

Ao citar Flávio Dino, destacou seu papel como juiz, político e ministro da Justiça, lembrando que o magistrado atualmente ocupa a vaga que foi de Rosa Weber. Gaúcha natural de Porto Alegre e com sólida carreira na Justiça do Trabalho, Rosa integrou a Corte entre 2011 e 2023. Ela foi a terceira mulher a integrar e presidir o STF.

Ao cumprimentar Cristiano Zanin, ressaltou sua atuação na advocacia e mencionou seu antecessor, Ricardo Lewandowski, que integrou o tribunal entre 2006 e 2023. Jurista, magistrado e professor, Lewandowski assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública no terceiro mandato de Lula.

Sobre André Mendonça, destacou sua passagem pela Advocacia-Geral da União e pelo Ministério da Justiça, além de sua entrada na vaga de Marco Aurélio Mello. Conhecido pela postura independente e pelo tom direto ao longo de seu mandato (1990-2021), aposentou-se compulsoriamente ao atingir o limite de idade.

Garantismo constitucional

Quanto a Nunes Marques, relembrou sua carreira no Judiciário e o fato de ocupar a vaga que pertenceu a Celso de Mello, considerado uma das maiores referências do garantismo constitucional no país. Celso integrou o STF por 31 anos (1989-2020), consagrando-se como o decano mais longevo da história recente.

Ao citar Alexandre de Moraes, lembrou sua trajetória na academia e no Ministério da Justiça, além de sua sucessão a Teori Zavascki. Nascido em Santa Catarina, Teori construiu sua carreira jurídica no Rio Grande do Sul e atuou no Supremo entre 2012 e 2017, ano em que faleceu tragicamente em um acidente aéreo em Paraty (RJ).

Mencionou Luiz Fux, ocupante da cadeira de Eros Grau. Jurista nascido em Santa Maria, esteve no STF entre 2004 e 2010, destacando-se pela defesa rigorosa das garantias individuais e por posições marcadas por profunda erudição.

Lembrou Dias Toffoli por sua atuação na AGU e pela substituição a Menezes Direito, reconhecido por votos célebres e análises minuciosas durante sua marcante passagem pelo tribunal, entre 2007 e 2009, interrompida por seu falecimento.

Citou Cármen Lúcia, sucessora de Nelson Jobim. Natural de Santa Maria, Jobim destacou-se por ter chefiado ministérios nos governos FHC e Lula, além de ter integrado a Corte entre 1997 e 2006.

Por fim, mencionou o decano Gilmar Mendes, ocupante da cadeira de Néri da Silveira. Gaúcho de Lavras do Sul, Néri é reconhecido como uma das figuras mais respeitadas da magistratura, tendo atuado no STF por mais de duas décadas, entre 1981 e 2002.

- A memória desses ministros não é apenas parte da história do Supremo. Ela nos impõe uma responsabilidade. Memória é, portanto, responsabilidade. Recebemos um tribunal que atravessou crises, autoritarismos, ameaças e incompreensões. (...) Esta instituição não nos pertence; nós a recebemos do passado, temos o dever de preservá-la no presente e haveremos de entregá-la ao futuro. _

Fuzil antidrone na Suprema Corte

Um drone não identificado foi abatido pela Polícia Judicial do Supremo Tribunal Federal (STF), no entorno da sede da Corte, na tarde de ontem. O incidente ocorreu durante a sessão extraordinária em que o plenário analisava a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. A assessoria de comunicação do STF confirmou à coluna que o equipamento foi "mitigado".

Para a sessão, o tribunal montou um esquema especial de segurança em conjunto com órgãos federais e do Distrito Federal, incluindo revistas corporais, bloqueios de acesso, restrições no espaço aéreo e monitoramento de aeronaves não tripuladas.

O abate foi realizado com um equipamento de neutralização de drones com formato semelhante ao de um fuzil. Apesar da aparência, o aparelho não dispara projéteis: ele emite ondas de rádio direcionadas que interrompem a comunicação entre o drone e o piloto. Sem receber comandos, o dispositivo aciona protocolos de emergência, realizando o pouso automático ou retornando ao ponto de decolagem.

O modelo específico utilizado ontem não foi divulgado oficialmente por razões de segurança. Imagens do local mostram um agente transportando no ombro um dispositivo cinza, de corpo achatado e alça vazada. Em Brasília, o modelo mais difundido com essas características é o DroneGun Tactical, fabricado pela empresa australiana DroneShield. _

Colaborou: Leonardo Martins

O Núcleo de Estudos de Rádio (NER) da UFRGS promove, no dia 29, a segunda edição do Rádio 2026 Mídia do Futuro. Profissionais da linha de frente de emissoras comunitárias e educativas debaterão as perspectivas do meio em veículos não comerciais, voltados à formação da cidadania e à resolução de problemas sociais.

Cresce a procura por voos para o RS

A busca por voos para o Rio Grande do Sul cresceu 16% em setembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior. O dado é da Secretaria de Turismo do RS (Setur), que aponta que a procura por passagens aéreas com destino ao Estado alcançou a marca de 3 milhões de intenções de viagem acumuladas nos últimos seis meses.

Segundo a pasta, as intenções de viagem referem-se às pesquisas de passagens aéreas para o RS em plataformas de busca, não necessariamente resultando na concretização da viagem. O indicador é obtido pela Setur por meio de um contrato de dados com a Amadeus, principal motor de pesquisas de passagens do mercado, que alimenta mais de cem plataformas globais, como Google Flights e Skyscanner.

A secretaria estadual avalia que o desempenho demonstra que o público nacional enxerga em setembro uma oportunidade para vivenciar os atrativos culturais, naturais e gastronômicos gaúchos durante o Mês Farroupilha.

Ontem, a Setur realizou uma ação no Aeroporto Internacional Salgado Filho para recepcionar quem chegava. Com música ao vivo e danças típicas, artistas locais deram as boas-vindas aos visitantes. 

As cidades com maior crescimento no volume de intenções de viagem são:

Recife +22,7%

Brasília +21,7%

São Paulo +19,1%

Rio de Janeiro +18,9%

Belo Horizonte +13,0%

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

Bolinhas pula-pula

Os pais criam obsessões com os filhos, e depois não sabem mais como parar. Pode ser com Kinder Ovo, figurinhas, bonecos de pelúcia, brindes do McDonald?s.

É uma coleção que surge de um agrado circunstancial e vira um vínculo permanente de afeto. Eu consumia parte do meu salário com bolinhas pula-pula para contentar os meus dois filhos.

Elas quicavam - cada uma de modo diferente - e saltavam para longe. Lembravam ginastas de roupas coloridas, com saltos ornamentais bem ousados. Chegavam ao telhado com um impulso forte.

Jogadas contra o chão, disparavam imprevisivelmente. Tanto que eu não permitia seu uso na rua, só em casa, para evitar que causassem acidentes, ou que fossem para o meio dos carros, ou que atingissem pessoas na calçada.

Minhas crianças gostavam do efeito, curiosas para descobrir o ponto mais alto que a bolinha alcançaria. Ela batia na parede, no teto, nas quinas das mesas.

Quanto menor e mais elástica, maior a impressão de que contava com vontade própria. Caçar o paradeiro de uma bolinha era a graça, pois ela desaparecia no fliperama dos móveis. As máquinas costumavam ficar na porta de padarias, lojas de conveniência, armazéns, supermercados, lanchonetes, farmácias.

Apresentavam uma vitrine abarrotada de bolinhas de borracha: lisas, transparentes, rajadas, multicoloridas, com desenhos geométricos, manchas e espirais. Algumas se assemelhavam a olhos, outras a bolas de vôlei, futebol, basquete.

Você enxergava todas e, naturalmente, queria uma específica. O problema é que não havia como escolher. Tudo dependia da sorte. Colocava-se a moeda na abertura e girava-se uma manopla metálica.

Ouvia-se o barulho seco das engrenagens e uma bolinha descia para a portinhola. Você enfiava a mão para retirar o presente aleatório. Os gastos começavam por esse impasse. Nunca vinha a bolinha desejada, cobiçada, naquele amor à primeira vista com um dos itens da redoma de vidro. E se repetia o processo para obtê-la.

Os pequenos namoravam logo a mais difícil, a mais vistosa, no topo do montinho, algo como uma circunferência marmorizada, que parecia conter uma galáxia por dentro, mas a geringonça disponibilizava a que estava no fundo, soterrada, anônima e secreta.

Minha niqueleira se esvaziava rapidamente. Eu jamais me detinha nos 50 centavos. Dediquei uma módica fortuna para a nossa vã insistência. Os irmãozinhos perdiam horas comparando as bolinhas, trocando, elegendo a preferida. Antes de dormir, guardavam os brinquedos num pote no quarto e sonhavam com peripécias dos seus planetas saltitantes.

Iniciei os meus filhos numa loteria infantil. Talvez sejam até hoje viciados no acaso, no suspense do incerto, na adrenalina do desconhecido, sem antever o prêmio, atentos para o que a vida oferece, gulosos por novidades.

No fim, quem colecionou a infância deles fui eu. 

CARPINEJAR

 

15 de Setembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Visualização única

Zap para aquele ET que está chegando agora: o Corruptor-Geral da República está na cadeia e, desde a semana passada, o Brasil vem sendo passado a limpo com a exposição pública de mazelas praticadas por integrantes dos altos poderes da Nação e por outros agentes públicos e privados. 

Olhando-se para o copo meio vazio, pode-se dizer que nunca se viu tanta ganância, roubalheira e corrupção. Mas, com o copo meio cheio, pode-se fazer um brinde à transparência.

O aspecto animador dessa verdadeira orgia de imoralidades é que talvez não seja preciso destruir Sodoma e Gomorra para o país sair melhor desse lamaçal. Embora ainda estejamos no olho do furacão e muitas outras tempestades paralelas possam se formar, já se pode vislumbrar com alguma nitidez quem mente, quem tenta se esconder atrás de biombos erguidos em causa própria e quem não teme mostrar a cara.

Os malfeitores da República acabaram fazendo um bem para o país: sem querer, obviamente, reativaram um princípio Constitucional frequentemente negligenciado, pelo qual fica estabelecido que a regra é a publicidade; o sigilo, a exceção. Não sei quanto tempo vai durar isso, nem mesmo se o que ficou combinado na semana passada continua valendo nesta terça, dia D para a sessão de exorcismo do Supremo Tribunal Federal. 

Mas fiquei um pouco aliviado com a revelação dos mandos e desmandos apurados nas investigações da Polícia Federal. São subsídios valiosos para os cidadãos bem informados tomarem posição na hora de escolher seus representantes. E também para o país reavaliar sua governança e buscar novos mecanismos que limitem o excesso de poder.

Talvez essa exposição de feridas seja apenas um flash de visualização única, como as tais mensagens digitais que desaparecem depois de lidas, utilizadas prioritariamente por quem tem alguma coisa a esconder. 

Mas, pelo menos, possibilita que os brasileiros vejam os poderes e os poderosos sem o véu da hipocrisia com que costumam se apresentar, recurso, aliás, ainda utilizado fartamente nas atuais propagandas eleitorais em que os próprios partidos políticos usam voz acelerada para esconder sua identidade e, por consequência, seus verdadeiros propósitos. 

NÍLSON SOUZA

Fachin deve se manter firme

A sessão plenária extraordinária desta terça-feira do Supremo Tribunal Federal (STF) está destinada a marcar época. Os ministros da Corte decidirão como o 15 de setembro de 2026 será lembrado no futuro. Poderá ser a data guardada na memória como um ponto de inflexão, o início da reversão do processo de perda acelerada da confiança pública na instituição. Ou então o dia da maior desmoralização dos 135 anos de existência do Supremo, com consequências inimagináveis para a democracia do país.

Na bifurcação à frente do STF, o caminho da decência exige que o objetivo da sessão seja alcançado e que os ministros analisem o relatório da Polícia Federal (PF) sobre a troca de mensagens entre Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Esse exame deve levar à abertura de uma investigação formal para elucidar a natureza da relação de Moraes com o protagonista do maior escândalo financeiro já visto no Brasil. A trilha da infâmia é a que vem sendo traçada pelo próprio ministro e colegas que o apoiam, para avacalhar o julgamento com uma série de artimanhas regimentais que protelem uma decisão ou então varram as suspeitas graves para debaixo do tapete.

Diante deste momento de singular gravidade, os brasileiros cansados de imoralidades e desvios de comportamento impunes contam que o presidente do STF, Edson Fachin, se manterá firme no propósito de conduzir o plenário a uma decisão. Será preciso vencer a saraivada de manobras anunciadas para frustrar a sessão e torná-la fechada, sem transmissão ao público. Aguarda-se que a maioria dos ministros cerre fileiras na defesa da instituição, postura incompatível com o espírito de corpo. Há indícios mais do que suficientes para um inquérito que investigue Moraes, o que não significa condenação prévia. Isso demonstraria tão somente que a lei deve valer para todos. Parece pouco, mas hoje é muito.

A despeito de vacilações iniciais, Fachin mostrou compreender que a ocasião, pelo caráter histórico, requer determinação. Rechaçou a pressão para que a sessão fosse jogada para as calendas. Negou o exame da conduta do ministro André Mendonça no caso nesta terça-feira, evitando maior tumulto processual. Os atos de Mendonça serão devidamente escrutinados na próxima semana. Fachin assumiu a relatoria das investigações relacionadas ao Master e ao escândalo do INSS para minimizar o risco de uso político das apurações, retirou Moraes da condução do exorbitante inquérito das fake news e determinou o fim de uma série de sigilos.

Moraes se nega a dar satisfações sobre a proximidade com Vorcaro e sobre as suspeitas de que agia como conselheiro de um banqueiro investigado pela PF por fraudes e compra de apoio político. Se não explica, é elementar supor que a razão do vínculo nada tem de republicana. O contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório de advocacia de sua esposa fala por si.

A sessão de hoje tende a ser de máxima tensão. Vários ardis são cogitados pelos aliados de Moraes, como um pedido de vista que adie o resultado. Deveriam lembrar que o julgamento do tribunal da História é implacável.

Em meio à luta cruenta entre alas do STF, Fachin age com isenção e coragem. Tem recebido apoios de peso na sociedade brasileira para ir adiante neste início de processo de saneamento da Corte. A recuperação da credibilidade do Supremo passa pelo seu êxito nesta terça-feira. _

OPINIÃO RBS

15 de Setembro de 2026
Gabriel Jacobsen

REPORTAGEM

Série aborda os principais gargalos que o Rio Grande do Sul precisa enfrentar para avançar em diferentes áreas. Nesta terceira reportagem das oito previstas, especialistas apontam cinco pontos que merecem a atenção do eleitor em gestão fiscal e as soluções para fazer crescer a economia

Nova fase das contas estaduais amplia desafios para os próximos anos

O próximo governador ou governadora do Rio Grande do Sul, ao assumir o Palácio Piratini em janeiro de 2027, terá de lidar com um orçamento pressionado por compromissos obrigatórios e novos desafios fiscais.

Na lista, estão a previsão de contas no vermelho para 2027, a volta do pagamento da dívida bilionária com a União, o fim do dinheiro extra que foi obtido com as privatizações e um provável aumento nos gastos previdenciários.

O cenário dos próximos anos surge após um período de contas públicas no azul. Entre 2021 e 2025, foram cinco anos seguidos de superávits orçamentários - situação diferente da registrada entre 2015 e 2020, quando houve cinco resultados negativos em seis anos.

De outro lado, o Estado teve a seu favor medidas extraordinárias, como a ajuda bilionária do governo federal, recursos expressivos pela venda de estatais e a suspensão por longos períodos no pagamento da dívida com a União.

Esta é a terceira de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área da gestão fiscal.

A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _

1| Renegociação da dívida

A realidade começará a mudar em maio, quando o Estado voltará a pagar a parcela mensal da dívida com a União - o que, no melhor cenário, custará R$ 2,1 bilhões no primeiro ano - entre pagamentos diretos, depósitos exigidos para um fundo federativo e a retomada da quitação de financiamentos relacionados.

Essa projeção considera, primeiro, que o Rio Grande do Sul deixe para trás o regime de recuperação fiscal (RRF), que se tornou um mau negócio logo depois de ser assinado, em 2021, pelo fato de ter vinculado a dívida gaúcha à taxa Selic - índice que subiu de 2% ao ano em 2021 para 10,75% ao ano em 2022.

A projeção de custo de R$ 2,1 bilhões na retomada do pagamento da dívida considera também que o Estado consiga aderir ao melhor dos oito pacotes do novo refinanciamento de dívidas oferecido pela União: o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

Entrada

Esse "pacote premium" do Propag, se conquistado pelo Estado, garantirá 0% de juros reais sobre a dívida gaúcha. Nesse cenário, a migração do RRF para o Propag tem potencial de fazer o Rio Grande do Sul economizar R$ 42 bilhões até o fim do pagamento da dívida, em 2057.

Para conseguir a adesão ao melhor pacote do Propag, o Estado terá de dar entrada (chamada de amortização) de R$ 21 bilhões. Como não tem esse dinheiro em caixa, o Piratini propôs entregar à União o direito a receitas futuras, ou seja, dinheiro que o Estado não tem, mas que deve receber nos próximos anos. Se não conseguir, o Estado precisará aderir a outro pacote do Propag, com mais custos até 2057.

Segundo especialistas, convencer a União a aceitar a proposta inicial e incluir o Estado no "pacote premium" exigirá habilidade política do futuro governador ou governadora.

- Tem de ser bem negociado agora. É uma dívida que teoricamente não deveria existir, talvez já tenha sido paga, mas não há como fugir: o Propag é algo absolutamente necessário para o governo do Estado - destaca Paulo Caliendo, professor de Direito Tributário da PUCRS. _

2| Déficit sem recursos extras

O cenário desafiador para 2027 está desenhado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O documento indica déficit orçamentário de R$ 4 bilhões, já considerando as obrigações associadas à adesão ao Propag.

Conforme analistas, se por um lado a previsão de falta de dinheiro não deve ser suficiente para que o Estado volte a atrasar os salários dos servidores, por outro, limitará a margem para investimentos.

- Um ponto positivo é que o Estado não tem mais o problema de não ter dinheiro para pagar a folha salarial, problema de ter de parcelar. Embora, às vezes, o governo tenha de contingenciar. E onde acontece o contingenciamento? Nos investimentos, principalmente nas obras - afirma o professor Diego Carlin, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da UFRGS.

Na prática, quando o caixa aperta, o governo costuma cortar dos investimentos não obrigatórios, área em que a lei permite passar a tesoura - visto que em outros setores, como saúde e educação, há regras mais rígidas.

Carlin ressalta que o déficit estimado de R$ 4 bilhões é uma projeção, mas o resultado final também dependerá do comportamento da arrecadação.

- Tem um pressuposto de que o Estado só pode gastar o que arrecada. Então, dentro desse déficit, se a arrecadação não chegar no previsto, o Estado vai ter de contingenciar outras despesas - acrescenta Carlin.

Venda das estatais

O ciclo de venda de estatais nos últimos governos injetou cerca de R$ 8,7 bilhões extras no caixa do Estado, especialmente entre 2021 e 2023, dos quais ainda restam cerca de R$ 37 milhões (0,4%). Isso significa que esses recursos, que garantiram respiro nos últimos anos, já foram praticamente consumidos e não estarão disponíveis para quem assumir o Piratini em 2027.

A venda da Corsan, concluída em 2023, injetou R$ 4,1 bilhões no caixa, enquanto a venda das três operações da CEEE, concluída em 2022, rendeu em torno de R$ 3,7 bilhões de forma direta ao RS - além de o Estado ter se livrado de outros R$ 3,5 bilhões em passivos da empresa. Já a venda da Sulgás, em 2021, garantiu mais R$ 0,9 bilhão.

Esses recursos extraordinários vêm sendo usados desde então para, segundo a Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), bancar principalmente investimentos em rodovias, no sistema prisional, em desenvolvimento urbano e na segurança pública. _

3| Redução da capacidade de investimento

Os últimos quatro anos no Estado tiveram índices de investimento muito acima da média dos anos anteriores. Com o fim dos recursos extras e diante dos novos desafios fiscais, a tendência é de queda da capacidade de execução de obras estruturais.

Entre 2022 e 2025, a taxa de investimento do Estado oscilou entre 4,4% e 10,7%. Esses percentuais recentes são superiores ao período entre 2015 e 2021 - com investimentos entre 2,3% e 4,6% ao ano. Esse indicador considera quanto da receita corrente líquida foi destinado para investimentos, a cada ano.

O próximo governo ainda terá a possibilidade de levar adiante o processo, hoje em fase inicial, de venda da Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Outra possibilidade seria reativar o debate acerca da privatização do Banrisul. Contudo, até aqui, o dinheiro que o banco injeta anualmente, somado ao seu papel social, tem afastado a discussão da pauta. Somente no ano passado, foram cerca de R$ 324 milhões em aportes de juros sobre capital próprio e dividendos, de acordo com a Sefaz. 

4| Aumento do custo previdenciário

A reforma da aposentadoria dos servidores estaduais, aprovada em 2019, vem freando o crescimento do déficit previdenciário. Dados oficiais do governo mostram que o déficit chegou a R$ 12,5 bilhões em 2019 e, em 2025, caiu para R$ 10,1 bilhões. Significa que a reforma reduziu em mais de R$ 2 bilhões o rombo previdenciário do Estado.

Discussão no STF

Uma parte da reforma, contudo, pode ser invalidada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos meses. O tema foi questionado por servidores junto ao STF, que já formou maioria para considerar inconstitucional a contribuição extra daqueles que são aposentados na faixa acima de um salário mínimo.

Caso se confirme, ainda resta saber se a decisão valerá apenas para o futuro ou se vai retroagir - ou seja, se o Estado ainda terá de devolver a milhares de servidores os valores descontados nos últimos anos. Caso valha apenas para o futuro, aumentará o custo previdenciário. Se valer também para o passado, pode gerar uma nova dívida milionária, ampliando os precatórios. _

5| Precatórios e investimentos em saúde e educação

Os precatórios são dívidas consolidadas do Estado em decorrência de decisões judiciais. Desde 2019, o Estado pagou R$ 10,2 bilhões em precatórios. Somente nos últimos dois anos, foram desembolsados R$ 4,5 bilhões.

Desde 2023, esses pagamentos atingiram um patamar recorde, o que foi possível graças a empréstimos contraídos pelo Estado especificamente para este fim e a acordos com credores. Ainda assim, o total dessa dívida fechou 2025 na casa dos R$ 16,6 bilhões.

Uma proposta de emenda à Constituição aprovada em 2025 aliviou a pressão ao acabar com o cronograma de quitação total dos precatórios até 2029. Essa mesma PEC estabeleceu, contudo, um desembolso mínimo anual que Estados e municípios precisam fazer para quitar os débitos. Pelos critérios, o RS precisa destinar ao menos 1,5% da sua receita líquida para este fim.

Acordo com o MP

A legislação também exige investimentos mínimos em educação (25%) e saúde (12%). Após anos sem cumprir esses percentuais, o governo do Estado firmou, em 2025, um acordo com o Ministério Público, prevendo a ampliação gradual dos gastos nas áreas na próxima década. Até 2030, o governo estima, por exemplo, que terá de ser aplicado aporte extra de R$ 6,7 bilhões em saúde, com correção.

A principal fonte de dinheiro do governo gaúcho para sustentar os serviços diários, pagar os salários dos servidores e quitar em dia as suas dívidas é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A arrecadação desse imposto, contudo, tem sofrido baques nos últimos anos, seja por decisões estaduais e federais de redução, seja por fatores externos, como as enchentes e a pandemia.

"A evolução das receitas no tempo tem sido inferior a essa demanda de despesas, o que se refletiu nos últimos anos na baixa capacidade de investimentos pelo setor público em diferentes gestões", diz a Secretaria Estadual da Fazenda, em material técnico sobre a situação das contas no RS, solicitado por ZH.

Em 2026, a Assembleia Legislativa também decidiu acabar com a taxa de licenciamento de veículos, decisão que vai retirar dos cofres públicos gaúchos cerca de R$ 750 milhões por ano, a partir de 2027. _

Soluções incluem atrair empresas e articular por fundo constitucional

O melhor caminho diante do cenário desafiador, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, passa especialmente pela diversificação e crescimento da economia gaúcha.

- Nós vamos ter de pensar o Estado olhando para o século 21, que exige muita inteligência, inclusive artificial, robotização e automatização, exige conhecimento e capital que o Rio Grande do Sul possui. Um ponto fundamental é a existência de uma rede de universidades, de capital intelectual, que faz frente praticamente a todos os Estados do Brasil - diz Paulo Caliendo, da PUCRS.

Os especialistas indicam que esse processo busca ampliar a capacidade de agregar valor ao que já se produz no Estado, ao mesmo tempo em que se desenvolvem novos setores econômicos. A vantagem, neste caso, não está apenas em atrair empresas, mas em transformar o conhecimento produzido no Estado em produtividade e novas atividades.

Adaptação à reforma

O próximo governador ou governadora também terá o desafio de adaptar a economia do Estado à reforma tributária - que começa a valer em 2027, em fase de transição, até ser totalmente implementada em 2033. Uma das mudanças impacta uma das formas mais tradicionais utilizadas pelos Estados para disputar empresas: a guerra fiscal, já que a cobrança passará do Estado de origem para o de destino.

Com isso, os Estados terão de competir por investimentos apresentando às empresas mão de obra qualificada, estrutura propícia para negócios, boa infraestrutura, segurança jurídica, oferta de energia, ambiente social e político favorável, entre outras qualidades.

Outra proposta que exigirá capacidade de negociação em Brasília é a criação do Fundo Constitucional das Regiões Sul e Sudeste, uma estratégia para atrair recursos extras ao Estado.

Pauta de diversos setores econômicos do Estado, a criação do fundo encontra eco em grupos que analisam as contas públicas gaúchas, como o Sindicato dos Auditores de Controle Externo do TCE (Ceape/Sindicato).

- Os Estados da federação que hoje mais crescem são amparados por um fundo constitucional que lhes apoia - diz Francisco Barcelos, diretor do Ceape. 

15 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Em meio ao seu maior desafio institucional, o Supremo terá uma sessão extraordinária e inédita para avaliar a relação de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, do Banco Master, que poderá resultar em autorização de abertura de investigação contra o ministro ou em nulidade do relatório da Polícia Federal sobre mensagens entre os dois. Pode haver pedido de vista

Crise no STF - Um julgamento sob pressão e incerto

Mathias Boni

Em meio a uma crise institucional sem precedentes, o Supremo Tribunal Federal (STF) terá, hoje, uma sessão extraordinária para analisar a relação do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. A deliberação, no plenário, para decidir se o tribunal autoriza abertura de investigação contra um de seus ministros será um ato inédito na história da mais alta Corte do país.

No sábado, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria da ação que apura detalhes das relações entre Moraes e Vorcaro. Fachin se tornou relator no lugar do ministro André Mendonça, também envolvido em apurações relacionadas ao Master e Vorcaro e que também será objeto de sessão extraordinária do STF para analisar sua conduta, no dia 23.

- O Supremo já passou por outras crises, teve ministros cassados durante a ditadura, por exemplo, mas nunca passou por um momento de crise institucional tão aguda, com um conflito tão direto entre ministros, como agora. E o tribunal, nunca antes em sua história, se reuniu para decidir se autoriza ou não a abertura de investigação de um dos membros da própria Corte - afirma o jurista Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Na sessão de hoje, explica Duque, os ministros irão deliberar a respeito do relatório da Polícia Federal (PF) sobre as supostas mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro. Os magistrados deverão decidir se aceitam o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede a nulidade do relatório, e também terão que determinar se autorizam ou não o início de investigação contra Moraes ou se arquivam o caso.

Mensagens

O relatório da PF expõe mensagens que sugerem que Moraes discutia com o banqueiro a possibilidade de a PF deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e como Vorcaro poderia frustrar o mandado de prisão preventiva, além de outras possíveis conexões do magistrado com o banqueiro, como o envolvimento do escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, com Vorcaro. O documento foi produzido a partir de uma investigação requisitada por Mendonça.

- Se o relatório for aceito, e se a investigação for mesmo autorizada, dependendo do que for aparecendo no curso dos trabalhos, é possível que algum ministro faça um pedido de afastamento de Moraes de suas atividades como ministro, mas, nesse momento, não acredito que ocorra. No STJ (Superior Tribunal de Justiça), tivemos recente perda de cargo, com a condenação do ministro Marco Buzzi por assédio e importunação sexual, mas no STF é situação completamente inédita - destaca a professora de Direito Constitucional da UFRJ Carolina Cyrillo.

Dessa forma, mesmo que a investigação seja autorizada, não significa que Moraes sofrerá punição imediata. Além disso, seriam necessárias outras etapas dentro de um rito previsto para se chegar a uma decisão definitiva.

- Se decidirem pela nulidade do relatório ou se arquivarem o caso, a investigação nem começa. Se decidirem pelo início da investigação, o que precisa de maioria simples, ainda teriam muitas etapas depois disso. Seria instaurado um inquérito policial, e, ao final do inquérito, a PGR teria de decidir se o conteúdo da investigação justificaria a abertura de ação penal contra Moraes, e só aí o ministro se tornaria réu. Caso se chegue até lá, no final dessa ação, é que o plenário do STF decidiria ou não pela condenação do ministro - ressalta Duque.

Rito

O STF anunciou ontem o rito da sessão. O início será às 10h, com transmissão ao vivo. Após a abertura protocolar dos trabalhos, será feita a leitura e a aprovação da ata da sessão anterior, seguida da saudação aos ministros.

Na sequência, será realizado o pregão do processo. Fachin fará a leitura do relatório e a delimitação do objeto do julgamento. Depois, a PGR se manifestará. Encerradas as manifestações, o relator apresentará seu voto. Em seguida, votarão os demais ministros, na ordem regimental.

Um pedido de vista dos autos poderá ser feito. Nesse caso, as deliberações seriam interrompidas e poderiam ficar suspensas por até 90 dias, segundo o regimento interno do STF. Logo, empurraria a discussão para após as eleições. _

Desde o fim de semana, uma série de pedidos dos ministros do STF foi feita com intuito de influenciar o julgamento de hoje

Sábado - Julgamento só de Moraes

Presidente da Corte, Edson Fachin decidiu que a sessão de hoje julgará apenas o caso de Alexandre de Moraes.

Na mesma decisão, Fachin determinou o envio à Presidência do Supremo de processos relacionados a duas das mais relevantes investigações atualmente em andamento no STF: os casos do Banco Master e das fraudes envolvendo descontos de aposentados e pensionistas do INSS.

A medida contrariou o pedido feito por Alexandre de Moraes, na sexta-feira, para que os dois assuntos fossem analisados conjuntamente.

Segundo Moraes, a separação poderia prejudicar a apreciação do conjunto dos fatos.

Sábado - Cópia dos dados do celular de Vorcaro

Fachin deu 24 horas para que a Polícia Federal (PF) prestasse informações sobre a custódia e o estado em que se encontra o material extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.

A decisão foi tomada após os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes solicitarem acesso à cópia integral dos dados extraídos do aparelho.

Sábado - Reforço da Procuradoria-GEral

A Procuradoria-Geral da República (PGR) reiterou o pedido para que todos os ministros do Supremo tenham acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro antes da sessão marcada para hoje.

No documento, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o conhecimento prévio do material é necessário para que os ministros possam consolidar seu entendimento sobre o caso.

Sábado - Acesso integral a dados

Gilmar Mendes endossou pedido de Zanin para que todos os integrantes que participarão do julgamento envolvendo o Master tenham acesso ao conteúdo do celular de Vorcaro. Gilmar afirmou que uma cópia integral da mídia extraída do aparelho de Vorcaro foi fornecida ao gabinete de Mendonça, mas não aos demais ministros.

Domingo - Cobrança de Zanin

Zanin ordenou que a PF entregasse o conteúdo integral do celular de Vorcaro ao seu gabinete até as 23h.

Na determinação, Zanin argumenta que deseja "formar a sua convicção para estar apto" para o julgamento de hoje, o que só ocorreria, segundo ele, com o conhecimento do material que originou o relatório requisitado por Mendonça.

A PF entregou uma cópia na manhã de ontem.

Domingo - Reação de Mendonça

Mendonça afirmou que a inclusão, às vésperas da sessão da Corte que vai analisar a conduta de Moraes, de informações que ainda não constam dos autos, entre elas o conteúdo integral do celular de Vorcaro, pode "tumultuar o julgamento" e colocar em risco o andamento das investigações.

No despacho, sustenta que todo o material necessário para o julgamento já está disponível aos ministros que participarão da sessão.

Segundo Mendonça, a inclusão de novos elementos neste momento poderia provocar questionamentos e desviar o julgamento de seu objeto.

Domingo - Novo pedido de Moraes

Moraes solicitou a liberação de sigilo de mais um procedimento antes do julgamento. Desta vez, Moraes pediu a Fachin a derrubada do sigilo da Petição 15.645, distribuída a Mendonça, e a disponibilização do conteúdo a todos os ministros que participarão do julgamento.

Essa petição trataria sobre a rede de pagamentos do Master.

Domingo - Cobrança de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes solicitou ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que enviasse cópia dos dados do celular de Vorcaro à Corte. O magistrado reiterou pedido feito por Zanin. A PF enviou os dados ontem.

Segunda-feira - Procedimento invisível

A PGR se manifestou a favor da retirada do sigilo de mais um procedimento relacionado ao julgamento.

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, informou que a PGR nem sequer tinha conhecimento da existência da Petição 15.645, porque o procedimento não aparecia visível para o órgão no sistema do Supremo.

Segunda-feira - Retirada de sigilo

Fachin atendeu ao pedido de Moraes e determinou o levantamento do sigilo da Petição 15.645. Em seguida, Mendonça derrubou o sigilo dessa petição que trataria da rede de pagamentos do Master.

Fim de sigilo sobre rede de pagamento

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, endossou ontem o pedido de Alexandre de Moraes e determinou o fim do sigilo da investigação sobre a rede de pagamentos do Banco Master, contrariando a posição do ministro André Mendonça, que alega risco às investigações. Logo após a decisão, o processo ficou público no sistema do STF. Mais cedo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) também se manifestou favorável à publicidade desse trecho da apuração, que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro.

Em ofício enviado no domingo, Moraes afirmou que o acesso ao processo que envolve a rede de pagamentos do Master é fundamental para o julgamento. O vice-procurador- geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, reforçou em parecer divulgado ontem que o levantamento do sigilo é necessário para que os ministros tenham acesso a todos os elementos relevantes para o julgamento.