sexta-feira, 24 de julho de 2026

24 de Julho de 2026
MARCO MATOS

Rotina e amigos

Como é a rotina no teu trabalho? A resposta para essa pergunta é única. Mesmo profissionais que exercem exatamente a mesma função vivem dias completamente diferentes. Tudo depende do jeito de ser, das prioridades, das pequenas manias de organização e até da forma como cada um enxerga os desafios da profissão.

São muitas variáveis que ajudam a criar ambientes de trabalho distintos dentro de uma mesma equipe. E essa é uma das coisas mais interessantes de trabalhar em grupo. Não existem duas pessoas iguais. Cada colega carrega uma história, uma bagagem e uma maneira própria de encarar a vida.

Passar pelo menos um terço do dia no trabalho é tempo mais do que suficiente para estreitar relações. A gente conversa sobre pautas, metas e compromissos, mas também fala sobre a família, sobre os sonhos, as preocupações e os planos para o futuro. Compartilha alegrias, conquistas e, muitas vezes, momentos difíceis. Depois de anos dividindo a mesma rotina, é quase impossível não criar intimidade.

Quem nunca teve um colega que acabou se transformando em confidente? Aquela pessoa que sabe reconhecer pelo olhar quando alguma coisa não está bem. Ou que percebe na hora quando existe um motivo para comemorar. São vínculos que surgem de forma espontânea, construídos aos poucos, entre um café e outro.

Há alguns anos se fala muito sobre diversidade nos ambientes profissionais. Eu acredito profundamente nessa mistura como uma ferramenta para gerar resultados melhores. Mas não apenas resultados. Acho que ela também nos torna pessoas melhores.

No nosso time do Jornal do Almoço temos gente de todas as idades, experiências de vida diferentes, vivências únicas e personalidades bem contrastantes. Tem quem fale muito e quem observe mais. Tem quem seja extremamente organizado e quem funcione melhor no improviso. Tem quem esteja começando a carreira e quem já tenha décadas de experiência acumulada. E eu amo isso.

A afinidade nem sempre nasce de gostos em comum ou de opiniões parecidas. Muitas vezes ela surge justamente das diferenças. A convivência diária nos ensina a admirar características que não temos e a enxergar o mundo por perspectivas que talvez nunca conheceríamos sozinhos.

Nesta semana, no dia 20, celebramos o Dia do Amigo. E essa data me fez pensar em como a vida adulta muda a forma de construir amizades. Quando a escola e a faculdade ficam para trás, o trabalho passa a ser o principal lugar para conhecer gente nova. E, por consequência, para fazer novos amigos.

Talvez essa seja uma das partes mais bonitas da rotina profissional. No meio das obrigações, dos prazos e das responsabilidades, surgem laços que ultrapassam o expediente. Porque algumas das pessoas que chegam até nós como colegas acabam ficando para sempre como amigos. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

24 de Julho de 2026
Opinião RBS

O teste da nova enchente

O evento extremo que atingiu o Estado nos últimos dias pode ser uma amostra do que está por vir, em especial na primavera, estação que já é mais chuvosa no Rio Grande do Sul. Os prognósticos climáticos apontam para a formação de um El Niño de magnitude histórica, com efeitos espalhados entre este ano e 2027.

Diante dos alertas de tempo severo, era importante observar, como ressaltou este espaço na quinta-feira da semana passada, o quanto se evoluiu desde a grande cheia de 2024 em preparação e adaptação para tempestades, chuvas volumosas e possíveis enchentes. É preciso reconhecer os avanços. De forma geral, Estado, prefeituras e concessionárias de serviços públicos mostraram-se prontos para agir. Mas é dever registrar que há pontos importantes a serem revistos e aprimorados.

Em relação aos aspectos que precisam de melhor exame, sobressai o caso da previsão equivocada, na noite de terça-feira, de inexistência de risco de o Rio Taquari ultrapassar as cotas de inundação. As informações passadas pela Defesa Civil do Estado e pelo Serviço Geológico do Brasil descartavam essa possibilidade. A mensagem foi divulgada pelo próprio governador Eduardo Leite. Mas, já na madrugada de quarta, poucas horas depois, o cenário foi revisto e as prefeituras da região, instadas a acionar os planos de contingência. Deflagrar durante a madrugada uma mobilização que poderia ser iniciada antes cria dificuldades adicionais.

De forma transparente, o coordenador da Defesa Civil estadual, Luciano Boeira, admitiu que o volume de chuva que caiu nas cabeceiras do Taquari foi acima das previsões meteorológicas com que o órgão trabalhava. Referiu ainda que "os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios". Ou seja, não foi possível antecipar com acurácia o comportamento da bacia hidrográfica do Taquari. Ocorreu o mesmo com o Rio Caí. Aqui estão, portanto, dois pontos que devem ser analisados pelas instituições estaduais e federais envolvidas. A politização do tema é natural em um período pré-eleitoral, mas não traz nenhuma solução efetiva.

A região do Vale do Taquari é a mais traumatizada pelas enchentes de 2023 e 2024. É natural que a população e as autoridades locais esperassem previsões mais precisas e tempestivas, até pelos investimentos anunciados em sensores e estações para acompanhar o volume de chuva e o comportamento de mananciais. A antecipação é essencial para agilizar as decisões, como evacuar áreas de risco com maior rapidez e salvar pertences. A despeito dos sobressaltos, foi possível remover a tempo os moradores.

Até ontem à tarde, a Defesa Civil registrava 1.675 pessoas fora de suas casas. Quase 200 municípios contabilizaram estragos pelos temporais e pela chuva. O Guaíba deve chegar à cota de alerta, mas sem possibilidade de extravasamento na região central da Capital, embora a população das ilhas deva sofrer com inundações. Não deve ser subestimado o sofrimento de nenhuma pessoa atingida, até porque muitos já padeceram com cheias anteriores.

A enchente em curso é bem menos grave do que as de poucos anos atrás, mas serviu de teste. Resta diagnosticar as causas das falhas e corrigi-las. É parte do aprendizado de um Estado que não tem outro caminho senão o de reforçar a sua resiliência climática. 

OPINIÃO RBS

24 de Julho de 2026
EM FOCO

Temor

Atenção ao nível do Guaíba e dos rios

Apesar do retorno do sol ontem, alguns mananciais gaúchos seguem acima da cota de inundação. Com solo saturado, lago que banha a Capital deve atingir a cota de alerta amanhã. Além disso, novos temporais são aguardados na próxima semana

A quinta-feira foi marcada por chuva moderada no Rio Grande do Sul, mas de forte apreensão e novos alagamentos, especialmente no Vale do Jacuí. Embora a previsão para hoje indique a volta do sol e a melhora do tempo na maior parte do Estado, a atenção permanece totalmente voltada para a elevação dos rios e do Guaíba. O cenário exige cautela, pois a chuva deve retornar com força no final de domingo e se estender pelo início da próxima semana.

Os rios Caí, dos Sinos, Jacuí, Taquari e Uruguai seguem acima da cota de inundação em diversos municípios gaúchos em razão dos altos volumes acumulados desde o dia 17, há exatamente uma semana.

Segundo balanço divulgado pela Defesa Civil na noite de ontem, o número de cidades que registraram estragos subiu para 204 - contra 169 no levantamento do dia anterior. Às 19h havia 1.315 pessoas desabrigadas, mais de três quartos delas (76,5%) no Vale do Taquari. O município com mais desabrigados era Lajeado, com 540 pessoas abrigadas sobretudo no Parque do Imigrante.

Ontem, diante do grande volume de troncos de árvores, madeiras e entulhos no Guaíba, a CastSul suspendeu a travessia do catamarã, evitando a navegação à noite. O retorno da operação dependerá das condições do Guaíba, informou a empresa.

Trajetória ascendente

A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba manterá a trajetória de subida até amanhã, quando deverá atingir 2m70cm na medição do Cais Mauá, alcançando a cota de alerta. O nível de transbordamento no local é de 3m.

A elevação no Guaíba decorre principalmente do escoamento das águas que descem das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, e não tanto da precipitação direta sobre a Capital. Na madrugada de ontem, o manancial atingiu 1m92cm às 3h e permaneceu em 1m90cm ao longo da manhã, dentro da cota de atenção. Ao longo do dia, não foi registrado vento vindo do quadrante sul - fator que, quando presente, dificulta o escoamento para a Lagoa dos Patos. Ainda na tarde de quinta, a operação do Catamarã no Guaíba foi suspensa por precaução. Às 18h30min, a medição no Cais Mauá indicava declínio temporário, marcando 1m27cm.

Abrigos

A Defesa Civil estadual emitiu alerta de risco alto para inundação nas Ilhas de Porto Alegre, válido até as 17h30min de hoje. A Defesa Civil municipal informou que não há necessidade de remoção imediata de moradores, mas já estruturou dois abrigos emergenciais e pontos avançados de atendimento no bairro Guarujá, na Região das Ilhas e no extremo sul da Capital.

Na Ilha da Pintada, a água avançou sobre vias públicas como a Rua Nossa Senhora da Boa Viagem. Moradores precisaram erguer móveis ou transferi-los para os andares superiores das residências. Relatos da comunidade indicam que a população da Ilha da Pintada encolheu drasticamente desde a enchente de 2024: de cerca de 6 mil para 1,2 mil habitantes, aproximadamente, reflexo das cheias e da adesão a programas como o Compra Assistida, do governo federal, voltados a realocar famílias que viviam em regiões de risco.

No município de São Jerônimo, na Região Carbonífera, o Rio Jacuí atingiu a cota de inundação no final da noite de quarta-feira e chegou a 5m78cm às 11h de ontem - mais de um metro acima do limite crítico de transbordamento, que é de 4m64cm.

A Defesa Civil municipal removeu 16 pessoas (sete famílias) nos bairros Centro, Beira-Rio e Cidade Baixa. Outros moradores optaram pela desocupação preventiva por conta própria. Também foram registrados bloqueios em vias de acesso nas áreas ribeirinhas. O RS já contava com abrigos ativos em 13 cidades: Arroio do Meio, Arroio dos Ratos, Bom Retiro do Sul, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Lajeado, Montenegro, Muçum, Roca Sales, Santa Cruz do Sul e São Sebastião do Caí. Os locais estão distribuídos em escolas, ginásios municipais, parques e salões. _

Participaram Airton Lemos, Caroline Batista, Leticia Mendes, Heloisa Gamero, Júlia Ozório e Paulo Rocha

Precipitações acima de 100mm semana que vem

Meteorologistas projetam volumes expressivos de chuva na próxima semana em diferentes regiões do RS. Os acumulados podem superar 100 milímetros entre segunda-feira e sábado. O primeiro seria entre segunda e quarta-feira, com volumes mais elevados principalmente na segunda e na terça. Após uma trégua na quinta-feira, a instabilidade deve retornar entre sexta-feira e sábado.

Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marcelo Schneider afirma que a chuva mais intensa deve atingir uma faixa que atravessa a Região Central e a Região Metropolitana, além de áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra.

- O problema maior dos próximos dias será de segunda a quarta-feira, principalmente segunda e terça, quando as expectativas são de acumulados de chuva mais elevados em grande parte do Estado, principalmente na faixa central, de Santa Maria até Porto Alegre. Pode atingir também áreas do Sul, do Planalto Médio e da Serra - explica.

O meteorologista acrescenta que a instabilidade será provocada por uma frente fria estacionária. O contraste entre o calor e a umidade no Norte e o ar frio represado no sul do Estado deve favorecer a formação de chuva.

- Ao norte do Estado vai fazer muito calor e haverá umidade. Ao sul, o ar frio vai ficar represado. Por isso, entre segunda e o início da quarta-feira, há previsão de pancadas de chuva, trovoadas, rajadas de vento e possibilidade de granizo - afirma Schneider. _

"As pessoas estão cansadas de perder tudo"

No início da manhã de ontem, quando empurrou o portão em frente à casa na Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Pintada, o soldador aposentado Daniel Portilla, 64 anos, viu uma cena a qual está habituado. A água do Rio Jacuí avançando sobre a via.

Criado na Região das Ilhas, Portilla viu inúmeras vezes as águas tomarem as ruas. Na enchente de 2024, precisou deixar o segundo andar da casa pela rua dos fundos. Na da frente, a água já havia ultrapassado o portão.

- Já perdi muita coisa aqui. Sempre que começa a chuva lá para cima, a gente já começa a se preocupar. Levanta os móveis. Guarda o que pode no segundo andar - relata.

A Rua Nossa Senhora da Boa Viagem, onde ele mora, é uma das primeiras a ser tomada pelas águas. A reportagem conversou com moradores e eles relataram que muitas pessoas já deixaram a área de forma preventiva.

O padre Rudimar DalAsta, uma liderança na comunidade da Pintada, relata que muitos moradores já deixaram as casas como forma de prevenção. Outros, como Portilla, optaram por erguer os móveis.

- As pessoas estão cansadas de perder tudo. É uma cena que vimos se repetir muitas vezes - diz.

Pelas ruas da Ilha da Pintada, é possível encontrar muitas casas demolidas. A maior parte são moradores que deixaram o local após a última enchente.

- Muitos saíram, aderiram ao Compra Assistida (programa do governo federal). A população da ilha diminuiu muito. Antes eram mais de 6 mil, agora são cerca de 1,2 mil - relata o padre. _

Segundo o professor Fernando Dornelles, do IPH/UFRGS, na ausência de novas chuvas, o nível do Guaíba leva cerca de três dias para apresentar queda significativa. No entanto, o solo saturado pela umidade reduz a capacidade de absorção, o que faz com que novas precipitações em curto intervalo provoquem repiques mais acentuados nos rios.

Hoje

O avanço de uma massa de ar seco garante tempo firme na Campanha, Fronteira Oeste, Centro, Sul, Serra e Região Metropolitana. Há chance de chuva rápida e isolada apenas no Norte e Noroeste, próximo à divisa com Santa Catarina. As mínimas oscilam entre 8ºC e 9ºC no Oeste, Campanha e Campos de Cima da Serra; as máximas podem atingir 21°C na Grande Porto Alegre e 24°C no Noroeste.

Amanhã

O tempo firme predomina na maior parte do Estado, com presença de muitas nuvens e períodos de sol. Chuvas fracas ficam restritas ao Oeste. O amanhecer será frio, com marcas mais baixas na Campanha, Serra e áreas elevadas, mas as temperaturas sobem gradualmente à tarde.

Domingo

A partir do domingo, uma nova mudança no cenário traz instabilidade para todo o território gaúcho, com risco de temporais no Norte, Oeste, Missões, Centro, Campanha e Vales. A previsão indica continuidade da chuva na segunda e na terça-feira.

Travessia do Rio Uruguai foi interrompida

A elevação do Rio Uruguai provocada pelo alto volume de chuva registrado nos últimos dias interrompeu as principais travessias por balsa entre o Brasil e a Argentina ontem. Uma das situações mais preocupantes foi registrada entre Tiradentes do Sul e El Soberbio, onde o rio atingiu 11m72cm durante a manhã, conforme informações da Defesa Civil.

Em Porto Mauá e Alba Posse, a elevação chegou a 9m39cm. Por medida de segurança, famílias ribeirinhas precisaram deixar suas residências em áreas consideradas vulneráveis ao avanço das águas.

As operações entre Porto Vera Cruz e Panambi e entre Porto Xavier e San Javier foram suspensas após o rio ultrapassar a marca de 6m . A paralisação impactou moradores, trabalhadores e o transporte de mercadorias que utilizam diariamente as balsas para cruzar a fronteira.

A operação da barca Aliança, responsável pela travessia entre Barra do Guarita e Itapiranga (SC), também precisou ser interrompida. 

24 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Alerta para estações do Inmet no RS

Apenas uma em cada seis estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) estavam plenamente operacionais no Rio Grande do Sul entre os dias 17 e 21 de julho de 2026, período crítico para o acompanhamento de temporais que atingiram recentemente o Estado. Do total de 98 estações, só 16 estavam funcionando completamente. As outras 82 estações (83,7%) apresentavam pelo menos um tipo de falha.

O levantamento, assinado pelo meteorologista Gabriel Cassol e pelo professor da Unisinos Artur Jacobus, foi feito com base em dados públicos da rede do Inmet, disponíveis na internet.

Das 82 estações que apresentavam algum problema, 20 estavam inativas e outras 23 passaram a maior parte do tempo sem funcionar ou tiveram interrupções frequentes e prolongadas. Seis estações concentraram três ou quatro tipos de problema: Casca, Ibirubá, Lavras do Sul, Mostardas - Bacupari, São Luiz Gonzaga e Uruguaiana.

Em Porto Alegre, a Estação do Jardim Botânico, por exemplo, apresentou falha recorrente de duas a quatro variáveis e interrupções frequentes e prolongadas. O mesmo ocorreu com a estação de Santa Maria, na região central do Estado. Na Serra, as estações do Aeroporto de Caxias do Sul e no distrito de Criúva estavam inativas. Em Passo Fundo, a estação também estava sem funcionar.

- Isso nos preocupa porque sabemos que a rede de estações do Inmet é extremamente importante como geradora de informação, seja para os modelos de previsão meteorológica, seja para Defesa Civil, seja para os estudos de clima. E o fato de não estarem funcionando ou estarem gerando dados incompletos faz com que tenhamos problemas na previsão e nos alertas da Defesa Civil - diz Jacobus.

À coluna, o Inmet, órgão do Ministério da Agricultura e Pecuária, em Brasília, informou: "As estações meteorológicas localizadas no Rio Grande do Sul estão passando por manutenção preventiva e corretiva, que inclui a atualização do programa utilizado em sua operação. Os serviços são executados periodicamente e a previsão de conclusão, para o RS, é no mês de agosto. Durante esse período, poderão ocorrer indisponibilidades no funcionamento das estações, em razão das intervenções técnicas necessárias." 

Faixas na Orla chamam a atenção para pauta ambiental

A Anistia Internacional Brasil, o Greenpeace Brasil e a ActionAid Brasil realizaram ontem uma ação de conscientização na Orla do Guaíba. As entidades estenderam três faixas em um local próximo ao Shopping Pontal.

As faixas traziam as frases: "El Niño é ameaça. Negligência é escolha"; "Adaptar é direito, não concessão"; e "Reconstrução com justiça".

Conforme a Anistia, a ação teve como objetivo reforçar o alerta para a situação de vulnerabilidade das pessoas diante de eventos climáticos extremos cada vez mais intensos.

A mobilização ocorreu no contexto da Semana de Ação Climática de Porto Alegre. _

A celebração dos 90 anos de Fernando Ernesto Corrêa

Poucos personagens ajudaram tanto a moldar a comunicação gaúcha quanto Fernando Ernesto Corrêa. Aos 90 anos, o advogado, jornalista e empresário recebe, na página ao lado, nesta edição de Zero Hora, uma homenagem por sua trajetória que permeia empresas, governos e a consolidação da liberdade de imprensa no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Nenê, para os colegas do Colégio Nossa Senhora das Dores e parceiros do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, o "Bacharel", como era chamado pelo grande amigo Maurício Sirotsky Sobrinho, ou simplesmente o "Lobista", como se autodefiniu em sua biografia, Fernando Ernesto construiu uma trajetória que transitou pelo jornalismo, pela política e pelos negócios.

Filho da dona de casa Maria Isabel e do jornalista e economista Ernesto Corrêa, lendário diretor do Diário de Notícias, ele cresceu respirando imprensa. Formou-se em Direito e Administração, destacou-se como advogado e, desde cedo, aproximou-se de entidades representativas do setor de comunicação. Mas nunca deixou de se orgulhar de ter sido repórter - profissão que considera a essência de tudo o que viria depois.

Sua trajetória faz parte da história da RBS. Fernando Ernesto ingressou na empresa nos anos 1960. Foi comentarista esportivo da Rádio Gaúcha e da TV Gaúcha.

Mais tarde, passou a atuar como advogado das emissoras e participou da interiorização da comunicação do Rio Grande do Sul com a criação da rede regional de televisão da RBS. Já como sócio da empresa, ele assumiu papéis decisivos na articulação institucional, aproximando o grupo de entidades representativas do setor. Presidiu a Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert) e foi vice-presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Defesa do Jornalismo

A Assembleia Nacional Constituinte, no final dos anos 1980, foi terreno fértil para suas bandeiras. Em Brasília, onde permaneceu por cerca de dois anos, Fernando Ernesto participou das articulações que ajudaram a moldar o capítulo da Comunicação Social da Constituição de 1988.

O debate era intenso. Havia setores que defendiam a presença maior do Estado sobre emissoras e mecanismos de controle dos veículos. As divergências foram tão profundas que parte do texto acabou sendo decidida em plenário.

Foi uma das maiores vitórias da liberdade de expressão no país, sobretudo pela consagração constitucional da proibição de qualquer forma de censura.

Negociador nato, o aniversariante deste 24 de julho sempre preferiu construir pontes a ampliar conflitos. Fernando Ernesto fez parte da direção da RBS como diretor-superintendente, ao lado de Maurício Sirotsky Sobrinho, que era o presidente, e de Jayme Sirotsky, vice-presidente.

Fernando Ernesto contribuiu para construir as bases que tornam possível uma imprensa livre e regionalmente forte. Aos 90 anos, é integrante do Conselho de Acionistas do Grupo RBS e seu filho Geraldo Corrêa faz parte do Conselho de Gestão. O empresário constrói um legado que ultrapassa fronteiras entre empresas, cargos ou negociações.

Está presente na defesa permanente da liberdade de expressão, na consolidação da comunicação privada no país e na crença de que uma democracia saudável depende de jornalismo forte, plural, profissional e independente. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

Tempo acelerado

Será que, por dentro, sabemos que vamos morrer?

Há uma intuição adormecida do nosso fim? Guardamos uma duração estimada do nosso tempo por aqui? Talvez não a hora exata, porém uma baliza capaz de revelar que não falta tanto, que devemos acelerar as memórias?

Será que o inconsciente possui um cronômetro, que faz com que certas pessoas sejam mais intensas e passionais, com que sintam mais urgência, sede, gula de viver?

Porque uns caminham, outros correm, e alguns poucos voam. Porque uns têm paciência, outros prudência, e alguns poucos uma voracidade enigmática.

É o que me peguei pensando ao assistir ao documentário Eu Não Ando Só, que acabou de estrear na Globoplay.

Preta Gil foi um vulcão, um escândalo de espontaneidade.

Despediu-se jovem, aos 50 anos, em julho de 2025. No entanto, a sensação é a de que atravessou séculos entre nós.

Começou a cantar publicamente só aos 30 anos, nem por isso adotou uma postura medrosa. Misturou balada, samba, funk, afoxé e MPB. Extrapolou seu berço famoso com um estilo próprio, com a autoridade de quem não levava desaforo para casa. Sua leveza e seu humor tornavam qualquer show irrepetível.

Pretinha acumulou encarnações e várias biografias simultaneamente. Atuou como atriz e empresária, defendeu o corpo livre e o empoderamento feminino com o álbum Prêt-à-Porter, desafiou convenções, calou o racismo e a gordofobia, arrastou 1 milhão de foliões em um único desfile na capital fluminense com seu bloco de Carnaval, dominou rádios e plataformas de streaming com os hits Sinais de Fogo, Só o Amor e Decote.

No especial, a amiga Ivete Sangalo destacou sua soberania de existir. Dava sempre o melhor de si. Não se economizava. Apesar de presa a uma cama, debilitada, não abria mão do capricho de escolher o pijama ideal para uma noite: de coração, de sorvete ou de gato.

Tudo em sua passagem parece se encaixar. Como num filme roteirizado antes de seu nascimento. Sua última apresentação, suportando dores lancinantes de um câncer terminal, aconteceu ao lado do pai, Gilberto Gil, interpretando Drão, a música dedicada a sua mãe, Sandra. Criou um adeus a sua voz com os protagonistas de seu parto. Não é arrepiante, mágico, estranhamente perfeito?

Ela queria viver mais. Dizia que ainda viveria muito a cada volta por cima, a cada cirurgia, a cada tratamento, a cada nova tentativa médica. Nunca deixou de viver, mesmo quando sobrevivia. Nunca deixou de despertar emoções nos mais próximos.

Como se não pudesse esperar. Como se o amanhã fosse logo embora. Como se carregasse uma clarividência escondida.

Suas cinzas estão espalhadas em pingentes distribuídos entre 12 leais amigos, seus apóstolos da alegria. Já seu fogo jamais se apaga. Somos testemunhas de seu calor humano inextinguível. _

CARPINEJAR

23 de Julho de 2026
GRÊMIO -Marco Souza

Na altitude

Chance para o futebol aparecer

Tricolor joga hoje em La Paz, cidade situada 3,6 mil metros acima do nível do mar, contra o Bolívar, pelos playoffs da Sul-Americana. Equipe terá um meio-campo mais defensivo, com Leonel Pérez, Villasanti e Dodi e a saída de Gabriel Mec. Rival da equipe gaúcha contratou quatro reforços durante a pausa para a Copa

O Grêmio subiu a montanha em busca de soluções. A ida até La Paz, cidade situada a 3,6 mil metros de altitude, terá uma versão diferente do time. Uma estratégia pensada para fazer frente ao Bolívar, na partida de ida dos playoffs da Copa Sul-Americana, e tentar trazer um bom resultado a Porto Alegre antes do retorno dos jogos do Brasileirão e da decisão contra o Mirassol na Copa do Brasil.

A busca por soluções terá a ausência de Luís Castro na beira do campo. O clube anunciou que o técnico passou por avaliações médicas e a decisão foi por sua permanência em Porto Alegre. Por conta de problemas respiratórios de outros anos, Castro teve a recomendação de não viajar para locais com altitude. Mesmo assim, com Vitor Severino na casamata, a equipe foi montada e preparada pelo treinador no CT Luiz Carvalho.

A principal mudança pensada é a troca no meio-campo. Gabriel Mec deixa os titulares para o retorno da estrutura de três volantes no setor. A escolha por Dodi e Villasanti, com Leonel Pérez na proteção, é parte da estratégia para conseguir um bom resultado na Bolívia.

Além da questão tática, a equipe terá outra mudança importante. Carlos Vinícius cumpre o primeiro dos dois jogos de suspensão na Copa Sul-Americana. O centroavante recebeu a punição pela expulsão contra o Montevideo City Torque. Uma porta aberta para o retorno de Braithwaite ao time titular.

Para aumentar a velocidade no setor defensivo, Luis Eduardo e Wagner Leonardo jogarão juntos na defesa. A tendência é de que Pavon e Pedro Gabriel atuem nas laterais, com o ataque composto por Enamorado, Tetê e o centroavante dinamarquês.

Adversário

O experiente goleiro Carlos Lampe, 39 anos, acredita que o Bolívar tem chance de eliminar o Grêmio. A crença do jogador, que é titular da seleção nacional, se baseia nos confrontos recentes que o clube viveu em competições continentais. No último deles, em abril, venceu o Fluminense por 2 a 0, em La Paz, pela fase de grupos da Libertadores.

- O Bolívar é um dos poucos que podem eliminar um time brasileiro. Sabemos do poderio econômico que eles têm. Somos uma equipe que compete, que tem claro o que tem de fazer e agora, contra o Grêmio, não vai ser exceção - disse Lampe.

Mesmo com a vitória sobre os cariocas, o Bolívar foi eliminado da Libertadores. Pela queda, o clube demitiu o antigo treinador, o argentino Flavio Robatto. E encarou as duas rodadas finais com o interino Vladimir Soria. Para o segundo semestre, chegou o colombiano Alejandro Restrepo, de passagens por Atlético Nacional e Independiente Medellin, da Colômbia, e Alianza Lima, do Peru.

O jogo de volta pelos playoffs da Copa Sul-Americana está marcado para o dia 30 de julho, na Arena. _

Copa Sul-Americana

Playoff (ida) - 23/7/2026

Bolívar x Grêmio

Lampe; Jesús Sagreso, Echavarría, Arreaga e José Sagredo; Justiniano, Robson Matheus e Melgar; Romero, Patito Rodríguez e Cauteruccio

Técnico: Alejandro Restrepo

Weverton; Pavon, Luis Eduardo, Wagner Leonardo e Pedro Gabriel (Caio Paulista); Leonel Pérez, Dodi e Villasanti; Enamorado, Tetê e Braithwaite

Técnico: Vitor Severino (interino)

HORÁRIO: 19h

LOCAL: Estádio Hernando Siles, em La Paz

ARBITRAGEM: Roberto Perez, auxiliado por Jesus Sanchez e Stephen Atoche

VAR: Diego Haro (todos do Peru)

O JOGO NO AR: a Rádio Gaúcha abre a jornada às 18h15min. Paramount+ anuncia transmissão. Siga a narração torcedora e acompanhe também a Jornada Digital em GZH

 

23 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Reagir não significa confrontar

O Brasil está desde ontem sob um novo e ilógico tarifaço imposto pelos EUA. Quatro mil produtos brasileiros passaram a ser onerados em mais 25%. É provável que, nos próximos dias, o país e outras dezenas de nações sofram com outra taxação de 12,5%, pela acusação de que de alguma forma se beneficiariam de trabalho forçado para ganhar competitividade. A melhor resposta que o Brasil pode dar passa longe de querer dar um troco na mesma moeda às agressões comerciais despropositadas da Casa Branca. A reação deve ser refletida e combinar estratégias nas frentes interna e externa, com medidas de curto e longo prazo.

Seria um erro uma retaliação frontal, taxando exportações norte-americanas. O principal argumento contra o tarifaço é o de que a estratégia dos EUA é contraproducente. Encarece insumos e produtos finais para empresas e consumidores. Não faria sentido lançar mão do mesmo expediente, que parece descartado. Esse método, aliás, tenderia a contaminar politicamente ainda mais negociações. Exacerbaria o ímpeto vingativo do governo Donald Trump, que, como define o linguajar sulino, se comporta como um prevalecido.

É possível o uso da Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso em 2025. O emprego do instrumento, porém, teria de ser muito bem calibrado. Como a sua aplicação depende de uma tramitação longa, com tratativas diplomáticas, avaliação da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e consultas públicas, há tempo para perscrutar cenários, evitar medidas açodadas e até fazer a legislação funcionar como um mecanismo de pressão.

Neste primeiro momento, é essencial ouvir empresas e setores mais atingidos e prestar o apoio necessário às companhias prejudicadas pelo tarifaço. Muitas estão no Rio Grande do Sul. A nova sobretaxa afeta 18% das exportações brasileiras, mas chega a quase metade dos embarques gaúchos para os EUA. O programa de amparo anunciado ontem, de R$ 18,5 bilhões, precisa chegar à ponta sem maiores entraves.

Em paralelo, há a promessa de empenho para abertura de novos mercados, por meio de um programa da ApexBrasil, autarquia federal que atua na promoção comercial do país no Exterior. O caminho é acertado, mas nem sempre dá resultados imediatos. Ademais, muitas empresas produzem itens bastante específicos, em conformidade com as normas norte-americanas, e não têm facilidade de redirecioná-los para outros destinos.

Por fim, é vital ampliar a aposta na diplomacia empresarial. Está claro que os canais de interlocução entre os governos deixaram de fluir. As diferenças políticas dificultaram o diálogo. A retórica de ambos os lados não suscita a esperança de retomada de tratativas produtivas. Torna-se imprescindível que companhias e entidades empresariais brasileiras reforcem os contatos com os clientes ou congressistas norte-americanos, para que estes pressionem a Casa Branca ao menos para que a lista de exceções aumente. Quanto mais despolitizada a mobilização, melhor. A estratégia, no entanto, tem de ser coordenada com o governo.

A assimetria de poder econômico indica que a resposta brasileira não deve ser a confrontação direta. Isso não significa falta de firmeza, mas habilidade para ler cenários e definir as melhores linhas de ação para contornar a investida da Casa Branca contra o Brasil. 

Investigação contra Juliana Brizola é arquivada

O Ministério Público (MP) pediu e a Justiça gaúcha determinou, na semana passada, o arquivamento da investigação contra a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT). Pré-candidata ao governo do Estado, Juliana havia sido indiciada pela Polícia Civil por supostamente se apropriar de dinheiro da avó materna, Dóris Daudt. Segundo o promotor criminal Leo Mario Heidrich Leal, a decisão pelo pedido se deu "por ausência de prova de desvio fraudulento ou apropriação indébita".

Conforme a investigação policial, ela teria desviado recursos da aposentadoria e de uma indenização recebida pela avó. Dóris morreu em novembro do ano passado, aos 99 anos. Desde fevereiro do mesmo ano, ela estava sob curatela de Juliana. No pedido de arquivamento, Leal afirma que o espólio de Dóris permanece solvente (quando o valor total em dinheiro e bens deixados pelo morto é maior do que as dívidas) e que as movimentações financeiras suspeitas eram adiantamento da participação de Juliana na herança que teria a receber da avó.

O inquérito teve origem em ação movida pelo tio de Juliana, Alfredo Daudt Júnior. Ao acessar extratos bancários de Dóris - que mantinha conta-conjunta com Juliana -, ele percebeu saldo negativo de R$ 44 mil. A dívida inquietou Alfredo, pois Dóris tinha pensão mensal de R$ 25 mil e havia recebido R$ 1,8 milhão de indenização em 2024.

O tio de Juliana apresentou notícia-crime na Polícia Civil, anexando extratos bancários que registravam R$ 520 mil em empréstimos no nome de Dóris, além de despesas e transferências de dinheiro que não teriam relação com os cuidados médicos da mãe dele, na época enfrentando sequelas de um AVC. Segundo a Polícia Civil, os extratos mostravam gastos em restaurantes, viagens, lojas de luxo e transferências para familiares de Juliana.

Desavença

A ex-deputada sempre negou qualquer desvio dos recursos da avó e creditava a investigação a uma desavença familiar com o tio. Em sua defesa, disse que mantinha a conta conjunta desde 2018 por iniciativa de Dóris, que teria conhecimento e dado consentimento sobre todas as despesas.

- Foi feita justiça. Era uma questão familiar e meu tio percebeu que nunca houve descuido com relação a dinheiro. Minha relação com minha vó era de mãe e filha. Fico chateada porque foi usado politicamente contra mim, como se eu tivesse esse algum desvio de conduta - afirma Juliana.

"Tendo as partes transacionado (Juliana e o tio) e reconhecido a regularidade das contas na esfera cível e sucessória, a intervenção do Direito Penal revela-se desnecessária e desproporcional, ante a ausência de lesão a bem jurídico que justifique a persecução criminal", afirma o MP.

Nas quatro páginas do documento em que pede o arquivamento do inquérito, o promotor afirma que Alfredo apresentou elementos que sanaram as suspeitas. Segundo Leal, Alfredo "manifestou expressa concordância com as contas apresentadas por Juliana Brizola".

- Venho de uma família extremamente perseguida. Fizeram uma varredura na minha vida e não encontraram nada. Muitos agentes políticos foram para a internet dizer que eu havia roubado minha avó. Vão ter que lavar a boca, pois vou processar todos eles - finaliza Juliana. _

Colaborou Adriana Irion e Fábio Schaffner

Acirramento de ânimos entre candidatos ao Senado

No terceiro encontro entre os oito candidatos ao Senado, ontem, o primeiro enfrentamento mais quente. Mesmo com um formato que não previu confronto direto entre os postulantes, o painel promovido pela Federasul ganhou cara de debate.

Nas respostas que foram mais longas que o habitual, com três minutos cada, os participantes aproveitaram para inserir alfinetadas aqui e ali, acirrando os ânimos. Participaram todos os oito pré-candidatos: Frederico Antunes (PSD), Germano Rigotto (MDB), Marcel Van Hattem (Novo), Ubiratan Sanderson (PL), Paulo Pimenta (PT), Manuela D?Ávila (PSOL), Milton Cardoso (PSDB) e Renato Jaguarão (Cidadania) - que foi convidado de última hora após pedido que partiu dos opositores à Federasul.

Assim como na segunda-feira, na Fecomércio, o impeachment de ministros do STF foi o assunto dominante. Desta vez, entretanto, a propaganda e regulamentação das bets no Brasil gerou momentos de discussão e embate entre os concorrentes. _

Mais um percalço para Flávio Bolsonaro

Depois de levar um carão da senadora Tereza Cristina (PP-MT), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, o candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, sofreu ontem um golpe que fragiliza ainda mais seu projeto político. O presidente do PP, Ciro Nogueira, comunicou ao senador que seu partido e o União Brasil ficarão neutros na eleição presidencial.

Além do significado simbólico, de isolamento, existe o efeito prático. Sem aliados, diminui o tempo do candidato na propaganda de rádio e TV e a campanha perde capilaridade.

Há ainda um problema adicional. Mesmo que a decisão do PP e do União seja a neutralidade, os deputados e senadores ficam liberados para apoiar outros candidatos, o que em alguns Estados inclui o presidente Lula. _

Plano de contingência precisa ser aprimorado

A cheia dos rios Taquari e Caí, que deixou pessoas desabrigadas ontem, mostrou que os sistemas de previsão e monitoramento do governo do Estado precisam ser aprimorados.

Até a véspera, a Defesa Civil informava que não havia risco de alagamento. Ontem de manhã, foi preciso acionar o sinal sonoro de alerta nos telefones de quem estava no Vale do Taquari para avisar que, sim, era preciso sair de áreas ribeirinhas.

Pegos de surpresa, moradores de algumas regiões precisaram usar barcos para sair de casa. Em outras, foi possível retirar móveis e eletrodomésticos de caminhão para evitar que fossem levados pela água.

O coordenador da Defesa Civil, coronel Luciano Boeira, reconheceu que nas cabeceiras dos rios choveu além do previsto nos modelos meteorológicos, provocando a elevação súbita dos níveis do Taquari e do Caí. A chuva bem acima da média estava nas previsões da Defesa Civil desde a metade da semana passada, quando passaram a ser divulgados alertas para fenômenos climáticos extremos, sobretudo na Fronteira Oeste, Zona Sul e Campanha.

Com a cheia repentina do Taquari e do Caí, será preciso o governo rever pontos do seu plano de contingência. É fato que houve acerto na maioria das previsões, mas essa não estava no radar. Tanto é que o governador Eduardo Leite publicou um vídeo dizendo que não havia risco de alagamento e precisou apagá-lo. 

Uma amostra do que pode vir

O que estamos assistindo neste final de julho é uma amostra do que o El Niño pode trazer para o Rio Grande do Sul nos próximos meses. Os meteorologistas dizem que o pior ainda está por vir. São especialmente preocupantes os meses de setembro e outubro.

POLÍTICA E PODER

quarta-feira, 22 de julho de 2026

 

MÁRIO CORSO

Receita da longevidade

O dia começa com uma corrida de madrugada, depois musculação e termina com ioga. Pela tarde, um treino aeróbico, natação, pilates e drenagem linfática. Mas sem exageros, no domingo não precisa fazer musculação, afinal, a ideia é relaxar.

Quebre o jejum com suco morno de limão. Não pode faltar no café da manhã iogurte grego desnatado com whey protein, kefir, frutas vermelhas, própolis, semente de abóbora, castanhas e alpiste. Para beber, kombucha e suco verde de alfafa.

Aproveite o momento do chá de cavalinha para os suplementos matinais: cápsulas de omega 3 e de linhaça, ácido fólico, fibras prebióticas, creatina, vitaminas do complexo B, beta-alanina, sulfato ferroso, colecaciferol e carbonato de cálcio. O melhor colágeno é de cartilagem de barbatana de tubarão. Acerte o nível de magnésio. Aliás, como a humanidade sobrevivia sem magnésio? Tem tantos magnésios, qual o seu? Aquele que combina com seu signo.

Não esqueça dos peptídeos bioativos hidrolisados. Acrescente uma dose de ashwagandha para baixar o cortisol, reduzir o estresse e curar a fadiga. Depois, para desintoxicar, é a hora do ginko biloba, da maca peruana da chlorella e da spirulina azul. Use a coenzima Q10 para energizar suas mitocôndrias. Com isso, dê adeus ao envelhecimento celular.

O almoço é sem carne vermelha, sem carboidrato, sem gordura, com muitas folhas verdes cruas temperadas com azeite de oliva de santa extravirgem e sal do Himalaia. Para beber, suco de babosa. Hora da berberina, o hype do momento para emagrecimento, controle glicêmico e equilíbrio ortomolecular quântico.

No meio da tarde, depois da meditação, para estimular seu cérebro, iria sugerir guaraná em pó, mas é tão século 20. O guaraná está precisando de um rebranding, então vamos de matcha chai.

Para o jantar - com talheres de bambu -, algas marinhas com óleo de coco e vinagre de maçã para desinflamar o fígado. Consuma com água alcalina para neutralizar o pH do corpo. Quando sentir fome, lembre que não é fome, é jejum. Durma com as galinhas.

Se isso vai te dar uma prolongada vida não sei, mas se tiveres uma rotina assim, teus dias vão parecer uma eternidade. A felicidade é breve, a chatice é longa. _

MÁRIO CORSO

 

OPINIÃO

Ênfase na disputa leal por votos

O crescimento do número de denúncias de descumprimento de regras de propaganda eleitoral, no Estado e no país, é mais um prenúncio de que o pleito de 2026 tende a ter elevada carga de tensão. Na Justiça Eleitoral do Rio Grande do Sul, a quantidade de casos sobre divulgações irregulares ou antecipadas é, até aqui, três vezes maior do que no mesmo período de 2022. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), até os últimos dias do primeiro semestre o número de representações protocoladas foi quase multiplicado por quatro.

Conteúdos produzidos por inteligência artificial (IA) fora das normas estão entre as principais queixas. Combater a circulação de material em desacordo com os limites permitidos será um dos grandes desafios desta eleição. A popularização das ferramentas de IA contribui para o risco de uso desordenado.

Deve ser saudada, nesse contexto, a iniciativa do Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-RS) de reunir os partidos políticos para assinar um documento em que se comprometem a fazer uma campanha limpa. O pacto por uma disputa íntegra foi firmado na segunda-feira. Participaram também o Ministério Público Eleitoral e a seção gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RS). O documento trata de desinformação, assédio eleitoral, violência política, uso de IA e destinação correta de recursos às campanhas de candidaturas femininas, de pessoas pardas e pretas e dos povos originários.

A adesão das agremiações políticas à declaração de respeito às regras democráticas da disputa pelo voto é positiva. Ainda assim, é revelador que a Justiça Eleitoral considere necessário que as legendas reforcem o compromisso com as regras do jogo. Resta esperar a observação rigorosa das normas. Mas sabe-se também que desinformação, deepfakes e conteúdos gerados por IA, especialmente para atingir adversários, muitas vezes são criados, disparados e compartilhados por pessoas sem ligação formal com as campanhas, além de serem espalhados por contas automatizadas. 

Seria bem-vindo um gesto em que as próprias candidaturas fizessem manifestações públicas de repúdio a manipulações e condutas desleais e de defesa do uso somente de métodos lícitos na batalha pelo convencimento dos eleitores. A atitude poderia ajudar a desencorajar terceiros a produzir e a propagar material voltado a confundir os cidadãos.

A utilização de IA é permitida, mas é obrigatório informar o uso da tecnologia e qual ferramenta foi empregada. É liberado ainda o impulsionamento de postagens nas redes sociais, quando se paga para elevar o alcance da mensagem, mas não com ataques a outros candidatos. As regras foram aprovadas em março pelo TSE. São amplamente conhecidas pelos partidos, portanto. Aguarda-se que colaborem para a integridade do processo democrático.

A disputa pela preferência do eleitor permite o embate duro entre os pretendentes aos cargos, mas uma escolha contaminada por falsidades não é verdadeiramente livre. Melhor farão as siglas e os concorrentes se priorizarem o confronto de ideias construtivas e a apresentação de propostas factíveis que auxiliem no desenvolvimento socioeconômico do Estado e do país. _

Opinião do leitor

Carpinejar

Fabrício Carpinejar nos brinda diariamente com textos muito bem escritos. Sua coluna "Irmão de Messi" (ZH, 21/7) nos traz uma pérola: "O ouro da taça não supera o Rio da Prata dos olhos de Messi". Essa frase tem toques de gênio! _

João Carlos Stona Heberle

Médico - Cruz Alta

Vorcaro

A tática de Daniel Vorcaro de se imiscuir, sem distinção, entre figuras relevantes do três poderes da República parece que está atingindo seus propósitos. Uma a uma, as vozes que bradavam por justiça subitamente silenciaram. Perderam o interesse de levar o caso adiante, aumentando a probabilidade de repetir o mesmo desfecho dos escândalos anteriores. Nada de novo. Seria apenas mais um caso entrando na coleção de impunidades características desses crimes. _

Rubens Correa Rechden

Aposentado - Porto Alegre

Pais e filhos

Hoje, pais se livram da chatice de criar filhos dando celulares para eles. Quando, mais tarde, os filhos se livrarem da chatice de cuidar dos velhos colocando-os em asilos, entenderão o que é reciprocidade. _

Lauro Becker- Empresário - Porto Alegre

Treinador

Ser eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo é o equivalente a ser rebaixado. E o técnico responsável pelo fracasso, Carlo Ancelotti, teve em maio o contrato renovado, pasmem, por mais quatro anos! Foi a pior Seleção de todos os tempos. Vergonhoso. _

Regis Nestrovski- Jornalista - Porto Alegre

Técnico argentino

Na final da Copa do Mundo, o técnico argentino, Lionel Scaloni, copiou a tática do treinador do Brasil, Carlo Ancelotti, de dar a bola para o adversário. Mereceu perder! _

Vital Romaneli Penha- Aposentado - Jacareí (SP)

PPPs em escolas

As PPPs das escolas estaduais somente seriam viáveis se fossem construídas a partir do zero. Em terreno próprio, com estruturas material e pedagógica próprias, em locais onde o governo não alcança e onde haja falta de atendimento a comunidades sem oportunidades para crianças e adultos. Deveriam proporcionar educação profissional, oferecer maior carga horária e custear os profissionais concursados. Assim, todos ganhariam. _

Benjamin Barbiaro- Professor aposentado - Porto Alegre

OPINIÃO

 


EM FOCO

Taxação extra de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros foi definida na semana passada. Impacto abrange cerca de 18% das exportações nacionais e metade dos embarques do RS para o mercado norte-americano

Tarifaço dos EUA contra o Brasil entra em vigor

Pedro Garcia

Sem avanços nas negociações diplomáticas, o novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros entrou em vigor à 1h01min de hoje, no horário de Brasília. A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de 18% das exportações nacionais e quase a metade dos embarques do Rio Grande do Sul para o mercado norte-americano.

Com a nova taxação, confirmada na última quinta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a tarifa efetiva média sobre todas as exportações do Brasil para os EUA vai subir de 11,7% para 18,2%, segundo a Global Trade Alert, plataforma independente de monitoramento de políticas comerciais. Com isso, o país passará a ser o segundo mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, cuja tarifa média chega a 27%. Até então, o Brasil estava na 13ª posição.

O tarifaço vai impactar quase metade das exportações do Rio Grande do Sul (48,2%) para os EUA, segundo cálculo da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs). O país é o segundo principal destino dos embarques do RS. Embora o governo norte-americano tenha divulgado uma ampla lista de exceções, somente 2% do total exportado pelo Rio Grande do Sul aos EUA foi incluído, com destaque para alguns itens de couro e pescado.

Enquanto isso, setores relevantes para a economia gaúcha permanecem afetados, como máquinas e equipamentos, equipamentos elétricos, calçados, móveis, tabaco, produtos metalúrgicos e diversos bens manufaturados.

A nova sobretaxa se somará às tarifas aplicadas com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, sobre produtos como aço, alumínio e seus derivados, e que atingem 36,9% dos embarques do Estado. No total, de acordo com a Fiergs, 85,1% das exportações do Rio Grande do Sul aos Estados Unidos estão sob impacto de taxação extra.

Esse cenário, conforme a entidade, mantém um elevado nível de restrição ao comércio bilateral, reduzindo a competitividade da indústria gaúcha no mercado norte-americano.

- A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China, ampliando nossa desvantagem frente aos principais concorrentes internacionais - afirma Claudio Bier, presidente da Fiergs.

Lista de 4 mil itens

A sobretaxa de 25% vai afetar importantes setores exportadores do país, como madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Ao todo, a lista de produtos sujeitos à nova tarifa tem cerca de 4 mil itens.

O governo federal estima que 18% das exportações brasileiras para os EUA serão afetadas, o equivalente a US$ 7,4 bilhões. A sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), desde 2025 as exportações brasileiras para o mercado norte-americano diminuíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais.

- Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 Estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre - avalia Ricardo Alban, presidente da CNI

Apesar do impacto, alguns dos principais produtos de exportação do Brasil estão na lista de exceções, que tem cerca de 2,2 mil itens.

Entre eles estão produtos bovinos, café e especiarias, aeronaves civis e peças, suco de laranja, frutas e nozes, minérios e combustíveis e produtos químicos e farmacêuticos. _

Quais são os argumentos dos EUA?

O tarifaço é baseado em uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, para analisar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.

Ao final da apuração, o órgão recomendou a imposição de uma tarifa geral de 25% sobre diversos produtos brasileiros.

Dentre as práticas apontadas no relatório do USTR que prejudicariam a economia norte-americana, estão barreiras digitais (decisões do Judiciário brasileiro que impactaram big techs americanas e alegações de favorecimento estatal ao sistema Pix), mercado de etanol (dificuldades de acesso de produtores dos EUA ao mercado brasileiro) e fatores ambientais e governança (falhas na fiscalização do desmatamento ilegal e problemas no combate à corrupção).

O governo brasileiro vai retaliar?

O vice-presidente Geraldo Alckmin descartou ontem à noite o uso imediato da Lei da Reciprocidade pelo governo federal. "Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos", disse Alckmin, ao destacar que essa lei serve de instrumento de defesa, mas deve ser usada com cautela.

Em encontro com Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, representantes do setor de máquinas e equipamentos se posicionaram contra o uso da reciprocidade em razão de risco de agravamento de cenário.

Quais as medidas para aliviar o impacto?

Na última sexta-feira, o Ministério da Fazenda solicitou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a liberação de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro para socorrer empresas afetadas. A ideia é oferecer novas linhas de crédito com juros subsidiados, reforçando o Fundo de Garantia à Exportação (FGE).

Outras medidas, como ajustes no Plano Brasil Soberano para ampliar a elegibilidade das empresas, abertura de novos mercados para exportações e ações para reduzir o chamado Custo Brasil também estão no radar do Planalto.

Há risco de nova taxação em breve?

Há a possibilidade de uma nova taxação contra o Brasil que pode ser confirmada ainda esta semana.

Em entrevista ontem à CNBC, o chefe do USTR, Jamieson Greer, afirmou que o governo norte-americano anunciará "em breve" decisão sobre tarifas relacionadas ao uso de trabalho forçado nas cadeias de produção.

De acordo com Greer, 60 países devem ser atingidos pela medida. O Brasil está na lista e pode ser taxado em 12,5%, conforme recomendação do relatório preliminar publicado pelo USTR no dia 3 de junho.


 

Rodrigo Lopes

Político não pode fugir do debate

Sempre que um político decide fugir dos debates, lembro de uma lição da Venezuela. Em diferentes momentos do chavismo, parte da oposição concluiu que participar de eleições, debates e espaços institucionais apenas legitimaria um regime que considerava autoritário. Abandonou o campo político. O resultado não explica, por si só, a consolidação da ditadura chavista-madurista, mas revela um ensinamento importante: quando a democracia ainda oferece espaços de confronto público, abandoná-los costuma fortalecer quem permanece neles.

A omissão é a pior decisão. Mas não chega a surpreender que o presidente Lula avalie faltar a todos os debates com os demais candidatos nos encontros promovidos por emissoras de TV e outros veículos de imprensa. A preocupação é que o político de esquerda fique exposto no confronto com adversários, todos de direita.

Lula já adotou essa tática em 2006. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também não compareceu aos debates. Como candidato à presidência, Jair Bolsonaro (PL) teve ausências em debates em dois momentos distintos, mas por razões diferentes. Antes do atentado, na pré-campanha, não participou por estratégia. Dias depois, a estratégia foi parcialmente revista. Bolsonaro compareceu ao debate da Band (9 de agosto) e ao da RedeTV! (17 de agosto).

Em 6 de setembro, sofreu o atentado a faca em Juiz de Fora e foi hospitalizado. A partir daí, deixou de participar de todos os debates restantes do primeiro turno por recomendação médica. Em 2022, a situação foi diferente. Bolsonaro participou da maior parte dos debates televisivos, enquanto Lula foi o candidato que mais faltou a alguns confrontos do primeiro e do segundo turno.

O problema é que a eleição não pertence apenas aos candidatos. Pertence também aos eleitores. Os duelos servem para que o cidadão compare projetos, teste a capacidade de reação dos candidatos diante de perguntas incômodas, observe como lidam com críticas e avalie quem está mais preparado para governar. Com exceção de alegações envolvendo temas de saúde, político que foge do debate alega estratégia. Mas, na verdade, está sendo covarde. _

Destaque internacional para laboratório da UFRGS

O Criosfera 1 - módulo científico brasileiro na Antártica e projeto liderado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) - alcançou mais um marco de projeção global.

Após ser destacado na série Pole to Pole, da National Geographic, a produção audiovisual em que aparece foi indicada ao Wildscreen Panda Awards 2026, o prêmio mais prestigiado do mundo para produções sobre vida selvagem, natureza e ambiente. Apresentada pelo ator Will Smith e disponível no Disney+, a série conta com o episódio The South Pole, que acompanha uma expedição ao módulo. O projeto do INCT da Criosfera é coordenado pelo professor Jefferson Cardia Simões. _

Entrevista- Ana Toni
CEO da COP30

"Não precisamos mais traduzir o que é a mudança do clima"

Um dos principais nomes da pauta da mudança climática no Brasil e no mundo, a CEO da COP30, Ana Toni, esteve na Capital na segunda-feira para participar da Semana da Ação Climática de Porto Alegre. Em entrevista à coluna, ela falou sobre o legado da conferência de Belém, sobre o contato da sociedade com a pauta ambiental e sobre a transição energética.

Qual o principal legado da COP30 para o Brasil?

O legado é colocar o Brasil para o mundo como um provedor de soluções climáticas. Mudou a percepção do mundo com o Brasil como um problema climático, que, antes, era a maneira que o mundo olhava, para se tornar um provedor de soluções climáticas. Esse é um grande legado para o Brasil. Para o mundo, eu diria que há alguns legados, mas acho que o mais importante é o de ter mudado essa ficha de sair da ênfase e da priorização da negociação para colocar prioridade na implementação, para agilizar as ações climáticas que precisamos. Isso não é abandonar a negociação, mas reforçar a necessidade de agilizarmos a implementação.

Como o Brasil vai entregar a coordenação da COP30 para a COP31?

Volto para a implementação. Trabalhamos muito com os governos da Turquia e da Austrália, que são os dois que estão dividindo a COP31, para essa pegada da implementação e acelerar as ações climáticas. A agenda de ação da COP30, a estrutura que foi montada, os seis eixos, foram mantidos, acelerando a implementação. Esse é o maior legado e foi muito abraçado pela COP31 e também pelos atores que estão ao redor.

Algumas pessoas enxergam um distanciamento do que é debatido entre os negociadores nas COPs com a população em geral. Há esse distanciamento?

Você tem toda razão, e tem havido esse distanciamento. Hoje, escutei de uma das lideranças sobre isso: "Como assim, as pessoas vão para a COP, um bando de diplomatas se encontra lá, e não sabemos como isso está afetando o nosso dia a dia?". Esse era um dos objetivos da COP30, dessa aproximação com o dia a dia das pessoas. E acho que essa aproximação está acontecendo pelo bem e, infelizmente, pelo mal. Quando vemos uma cidade como Porto Alegre, que tanto sofreu com a mudança do clima, não precisamos mais traduzir o que é a mudança do clima para uma população que sofreu na pele com as suas próprias vidas, negócios, as consequências da mudança do clima. Isso começa, infelizmente, a ficar muito real no dia a dia das pessoas.

Recentemente, a senhora falou sobre a crise no Oriente Médio e que o Estreito de Ormuz mostrou a necessidade de pensar em energias renováveis, de diversificar as fontes. Como fazer essa transição?

Felizmente as energias renováveis, hoje em dia, já são mais baratas do que a energia fóssil. Isso é um grande estímulo ao consumidor. Começamos a ter agora alternativas para poder fazer essas escolhas de maneira consciente e mais fácil, porque, como falei, ninguém gosta de mudança. Então as mudanças que estão vindo são para conseguirmos fazer com que elas facilitem a vida.

Um exemplo é o caso da usina de Candiota, no sul do Estado, em que a Justiça Federal suspendeu a operação. Porém, várias cidades da região dependem desse setor econômico. Como combinar essa equação?

Primeiro, colocar as pessoas no centro desse debate. Aqueles trabalhadores que dependem daquele emprego, tem de ser pensado como eles vão sobreviver. Vamos pensar em novas capacitações para essas pessoas, realocá-las para outros empregos. Isso tem que ser planejado e feito. Ao mesmo tempo, percebemos, principalmente no tema de carvão aqui no Brasil, que é uma energia muito subsidiada há muitos anos. Aquele subsídio que está indo para as empresas poderia ir para os trabalhadores, não só para manter o trabalho, mas, se o trabalhador é a nossa prioridade, o subsídio poderia ir direto a eles. Esse é o debate que temos de fazer. 

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 21 de julho de 2026

 

VIDA EM FAMÍLIA

Tem pet em casa? Saiba como diminuir o tamanho da mordida no seu orçamento

Cada vez mais integrados aos lares, animais de estimação podem representar um gasto mensal subestimado no universo financeiro do dia a dia. É preciso estar atento, por exemplo, ao fato de que eles estão vivendo por mais tempo. Para evitar sustos, é importante planejar

Não é de hoje que os animais de estimação passaram a ocupar um lugar de destaque nas famílias. E, como verdadeiros membros do lar, garantir sua qualidade de vida e manter a saúde em dia exige planejamento financeiro. Adotar um pet significa assumir despesas contínuas - muitas vezes crescentes ao longo do tempo - por um período que pode variar de sete a 15 anos, dependendo da espécie, da raça, das características do animal e, claro, de sua saúde.

A família Pias é a prova de que um pet pode transformar a rotina financeira de uma casa. Cinco pessoas resolveram rachar as despesas de Aretha, uma sheepdog de 50 quilos. O gasto mensal com a cadela de 11 anos inclui ração específica, plano de saúde, medicamentos para artrose e banhos semanais, entre outros, contabiliza a família.

- Os custos são bem maiores do que eram há alguns anos, porque hoje ela é uma cadela idosa e demanda mais cuidado. Em média, gastamos de R$ 1,4 mil a R$ 2 mil por mês. O nosso principal gasto com ela é a ração, já que ela é alérgica às mais acessíveis - conta Camille Pias.

O exemplo de Aretha mostra o porquê de o mercado pet ser tão aquecido. Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação, o setor faturou R$ 75,4 bilhões no Brasil em 2024, e os lares já somam, em média, 1,8 animal de estimação por residência, conforme o IBGE.

A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e educadora financeira Wendy Carrara afirma que alguns gastos devem ser tratados como despesas fixas, já que são previsíveis.

- É essencial ter a categoria "pet" no controle financeiro e, assim, incluir subcategorias como alimentação e plano de saúde - explica a professora.

Alerta para a falsa economia

A educadora financeira também diz que um dos erros mais comuns é acreditar que assinaturas vão tornar o custo mais baixo, pois às vezes elas podem dar uma falsa impressão de economia. O fato de ter uma assinatura com descontos em produtos pode fazer com que o consumidor acabe gastando mais em produtos que não são necessários. Essa é uma falsa economia, conforme a especialista. O grande erro acontece quando contratamos sem fazer comparações; por isso, é fundamental fazer um planejamento.

Outro erro comum é subestimar o custo total de ter um pet.

- Normalmente acham que é só comprar ração; esquecem que haverá vacina, vermífugo, consultas médicas, produtos... - diz a professora. Cabe ressaltar que só a organização financeira não garante uma economia real de custos. A prevenção também é uma forma de redução de gastos futuros, como afirma a médica veterinária Claudia Krefta.

- Quando acompanhamos o animal regularmente, conseguimos descobrir problemas que podem ser tratados em casa, sem necessidade de internação, o que normalmente sai muito mais caro - explica Claudia.

Ela reforça que o tutor que ignora as consultas de rotina corre o risco de precisar de atendimento de urgência - e os plantões acabam saindo até o dobro do preço, conforme a urgência.

Atenção aos check-ups

A recomendação é que cães e gatos, a partir dos sete anos, façam exames de sangue e cardiológicos a cada seis meses ou, no mínimo, uma vez por ano: - O tutor precisa lembrar que o pet vai envelhecer e que isso vai exigir exames e cuidados específicos. E mais custos também.

Outro ponto importante é conhecer a raça do animal. Algumas são predispostas a doenças específicas - boxers, por exemplo, têm maior incidência de problemas cardíacos, e golden retrievers, por exemplo, de linfomas - e o tutor deve perguntar sobre esse histórico ao veterinário. Já os vira-latas, apesar de geralmente mais resistentes, podem surpreender negativamente.

- Cada um é uma caixinha de surpresas - brinca a veterinária.

Em resumo, ter um pet exige não apenas amor, mas responsabilidade financeira. Pelo bem- estar dele e do nosso bolso. 

Produção: Caroline Goulart, estudante de jornalismo, sob orientação e supervisão de Caue Fonseca