sábado, 23 de maio de 2026

72% das vendas em free shops terrestres no Brasil estão no Rio Grande do Sul

Estudo do DEE-RS indica que lojas francas são cruciais para o desenvolvimento econômico das regiões fronteiriças

Estudo do DEE-RS indica que lojas francas são cruciais para o desenvolvimento econômico das regiões fronteiriças

TÂNIA MEINERZ/JC
Ana Stobbe
Ana StobbeRepórterO Rio Grande do Sul foi responsável por 72% do valor comercializado em free shops terrestres em todo o Brasil. Apenas em Uruguaiana, na fronteira com Paso de los Libres, na Argentina, onde estão 18 das 39 lojas francas gaúchas, foram quase 40% das vendas totais brasileiras no segmento. É o que indica o estudo realizado pelo Departamento de Economia e Estatística do Estado (DEE-RS) e que foi apresentado nesta sexta-feira (22) em Uruguaiana. 
“É um formato que foi particularmente muito abraçado aqui pela comunidade. E isso acabou gerando um impulso grande desde 2018 para cá”, explica o diretor do DEE-RS, Tomás Fiori. Ele destaca, ainda, que os free shops terrestres em cidades-gêmeas são recentes. A legislação apenas permitiu sua instalação do lado brasileiro da fronteira em 2012, mas a regulamentação chegou apenas em 2018. Até então, as lojas francas eram encontradas no País apenas em aeroportos. 
Desde então, é possível ver uma ampliação no desenvolvimento regional em uma área que concentra alguns dos piores indicadores sociais e econômicos do Rio Grande do Sul. Além de ter o pior produto interno bruto (PIB) e o pior PIB per capita do Estado, também é uma área que está perdendo população de maneira mais acelerada que o restante do território gaúcho, por exemplo. E os free shops têm revertido essas tendências. 
“Uma preocupação que surgiu quando os free shops iniciaram aqui era a ameaça ao comércio local por uma concorrência desleal. E o que percebemos é que todo o comércio varejista da região das cidades-gêmeas cresceu de maneira semelhante ao do Rio Grande do Sul. Então, aparentemente, não sofreu maiores dificuldades. E quando olhamos atividades complementares, que acabam sendo beneficiadas, como hospedagem e alimentação, vemos que realmente tem um crescimento importante nas regiões de fronteira que iniciaram esse processo de instalação de lojas francas”, avalia Fiori. 
No estudo, a melhora de indicadores é perceptível. Afinal, a participação das cidades de fronteira no total de empregos do comércio varejista cresceu à medida em que o número de lojas francas aumentaram. Em Uruguaiana, especificamente, a partir de 2024 foi possível ver, inclusive, um desempenho melhor que a média estadual na geração de empregos no setor. 
A alternativa ao desenvolvimento econômico surge, ainda, em um contexto de restrições legais às zonas fronteiriças. “Existe uma legislação que estabelece restrições à exploração econômica na faixa de 150 quilômetros da fronteira em todo o território brasileiro por questões de segurança nacional. E isso restringe diversas atividades, o que reforça a dificuldade que essas regiões têm. Por isso pegamos o caso dos free shops de fronteira terrestre para estudar, até porque já era um processo que estava em andamento e que acabou se mostrando muito interessante”, acrescenta Fiori. 
Vamos utilizar esse estudo para a atração de investimentos. Uruguaiana, por exemplo, está praticamente fechando um investimento nos próximos dias com um hotel que aportará R$ 30 milhões. Precisamos aumentar o número de hospedagens à disposição. Além disso, temos que aumentar o número de voos. Vamos falar com a Azul, que opera voos aqui, para demonstrar que tem uma demanda já notada, porque os voos regulares que funcionam quatro vezes por semana estão sempre lotados. Também pretendemos falar com a operadora do aeroporto para voltar a ter investimentos na pista, possibilitando que aeronaves maiores possam decolar e pousar na cidade”, conta o deputado estadual Frederico Antunes, presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Instalação de Free-Shops em Cidades Gêmeas de Fronteira. 

Expectativa é de atrair estrangeiros

A instalação dos free shops na fronteira também está alterando o perfil dos consumidores no varejo fronteiriço. Principalmente, considerando que o turismo de compras atrai visitantes de outros países. Entre eles, está a Argentina, que já se consolidou como o principal país de origem dos viajantes que chegam ao Brasil. A chegada dos “hermanos” ao País se dá majoritariamente por via terrestre e Uruguaiana é uma das principais portas de entrada. Conforme o estudo, o número de lojas francas no municípios estimulou a permanência desses turistas por mais tempo na região, especialmente dos que chegam ao Estado para veranear no litoral gaúcho ou catarinense. 
“O que a gente percebe, sobretudo nos últimos dois ou três anos de maior aceleração, é que existe um papel muito importante do consumidor estrangeiro, especialmente o argentino, por conta da moeda. Mas é um ponto de atenção, porque traz uma vulnerabilidade externa. Hoje, a Argentina já enfrenta problemas novamente e é possível que a demanda que eles têm hoje esteja fragilizada amanhã ou depois”, analisa Fiori. 
No caso da fronteira com o Uruguai, são os vizinhos os mais buscados pelos free shops que se instalam. Principalmente, considerando que os uruguaios não podem comprar nas lojas francas do seu país por restrições legais. Santana do Livramento, por exemplo, tem explorado esse mercado, que ultrapassa de Rivera à cidade-gêmea para realizar compras. “A fronteira entre Uruguai e Brasil é quase uma conurbação. E o fluxo dos dois lados é um pouco mais natural. Com a Argentina, a fronteira física é um pouco mais clara”, acrescenta o diretor do DEE/RS. 

Aumento da cota de compras pode estimular negócios

Atualmente, a legislação permite que cada pessoa compre US$ 500,00 em produtos de cada lado da fronteira, além disso, há restrição na quantidade de álcool de até 12 litros por indivíduo. Ao excedente, paga-se um imposto de 50% sobre o valor que ultrapassar o limite à Receita Federal no ingresso ao Brasil. A tentativa de passar sem declarar é considerada crime, sob pena de apreensão das mercadorias, multa de 50% sobre o excedente e possibilidade de responder por crime de descaminho. 
Entretanto, a DEE-RS indica que o aumento da cota e sua equiparação à dos aeroportos, que é de US$ 1.000, poderá auxiliar a desenvolver a região. Antunes afirma que o estudo será utilizado para dialogar com a Receita Federal com o objetivo de ampliar o limite de compras. Conforme Fiori, isso permitiria a venda de produtos de maior valor agregado e a especialização ou segmentação das lojas de acordo com o perfil de compras dos clientes. 
Isso ampliaria ainda mais a trajetória de crescimento de vendas dos free shops. Conforme o estudo da DEE-RS, se for mantido o fluxo recente, as vendas das lojas francas gaúchas podem superar US$ 20 milhões em dezembro de 2027. No total anual, a projeção é de cerca de US$ 129 milhões para 2026 e US$ 167 milhões para 2027, o que representa crescimento, respectivo, de 42% e 29% no comparativo interanual.

Estado tem 39 free shops

Ao todo, são 39 lojas francas instaladas em nove das onze cidades gêmeas do Estado. A primeira, foi instalada em 2018, logo que a legislação foi aprovada. No ano seguinte, o número saltou para dez. E, desde então, todos os anos registram crescimento. 
As cidades gaúchas que mais concentram free shops são Uruguaiana (18), Santana do Livramento (4), Barra do Quaraí (4), Jaguarão (4) e São Borja (3). Quaraí e Porto Mauá possuem dois free shops cada. Já Itaqui e Porto Xavier têm apenas uma. As únicas cidades-gêmeas que não têm nenhum empreendimento do tipo instalado no lado brasileiro da fronteira são Aceguá e Chuí. 

Valorização da carne e da lã impulsiona retomada dos rebanhos de ovelhas no RS

Desafio do setor de ovinos é desenvolver a cadeia para a exportação; criação é representativa na Fronteira Oeste do RS

Desafio do setor de ovinos é desenvolver a cadeia para a exportação; criação é representativa na Fronteira Oeste do RS

TÂNIA MEINERZ/JC

Eduardo Torres
Eduardo TorresRepórter
Se a fase no Rio Grande do Sul é boa para a produção de gado, a oportunidade também se abre para a retomada de outra tradição no Pampa: a produção de ovinos. O momento é de retomada dos rebanhos nas Regiões Sul, Campanha e Fronteira Oeste do Estado.
"É uma questão de mercado, é ele que decide. E no momento, vemos que tem um mercado ávido e remunerando bem pela carne ovina e também pela lã. Diferentemente de outras épocas, a tendência agora é de alta de consumo para os próximos anos, então, o movimento é contrário ao que aconteceu por um período, quando os rebanhos deixavam de ser prioridade para ceder áreas para as lavouras", conta o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Edemundo Gressler.
A estimativa é de que o rebanho ovino gaúcho gire em torno de 3 milhões de animais, um volume que não tem se alterado nos últimos anos. O momento agora, porém, é justamente de crescimento do volume de ovelhas. A expectativa é de que, em um ano, que é o período de desenvolvimento das crias, já seja possível dimensionar o crescimento nos campos gaúchos e, principalmente, nas gôndolas.
Para que se tenha uma ideia da valorização deste produto, há pouco mais de um ano, o quilo do cordeiro vivo era vendido a R$ 9. Hoje, já está em R$ 14. O que é produzido nos campos do Pampa abastece o mercado gaúcho e do restante do Brasil. Hoje, conforme a associação, o Brasil consome em média só 700 gramas de carne ovina por habitante a cada ano.
"O consumo ainda é muito baixo e isso mostra que temos muito campo a crescer. Estamos otimistas, mas com os pés no chão. Temos a consciência de que a criação de ovelhas é fundamental nas pequenas e médias propriedades, e o produtor tem entendido que ela não concorre com a lavoura de soja, por exemplo. A produção integrada, com o uso da pastagem deixada pela soja ou pelo arroz para as ovelhas, gera ganhos também no controle de pragas e no manejo mais adequado do solo", explica Gressler.
A partir do bom momento, o desafio do setor agora é desenvolver a cadeia produtiva da porteira para fora. Se no setor bovino os frigoríficos têm se aproximado e valorizado a qualidade da carne gaúcha, essa cadeia ainda não está desenvolvida para os cortes ovinos.
Segundo o dirigente, fica no Rio Grande do Sul o maior desses frigoríficos especializados nos cortes de cordeiro, mas na Região Metropolitana de Porto Alegre. Por isso, a Arco tem desenvolvido a ideia de criar consórcios intermunicipais para fortalecer redes de frigoríficos pequenos, que hoje atendem somente os produtores locais.
"O crescimento do setor requer uma indústria também forte, assim como tem fortalecido, por exemplo, o número de confinadores, que preparam para o abate. É uma questão de aprimoramento da logística, que resultará em maior capacidade de atendermos ao aumento da demanda no mercado", comenta.

Mercado da lã avança, com valorização internacional

E há ainda o mercado da lã, produto valorizado internacionalmente, mas, com a limitação da cadeia produtiva, ainda não gera o valor agregado que poderia render ao Estado. O Rio Grande do Sul produz quase 100% da lã a partir de ovinos no País, mas só 25% do que sai do campo é processado pela indústria brasileira.
O mercado uruguaio, especialmente, acaba absorvendo a maior parte da tosquia. Dados do IBGE apontam que Santana do Livramento concentra a produção de lã mais valorizada no Estado, gerando, em 2024, R$ 6,1 milhões, quase o dobro dos R$ 3,5 milhões de Alegrete, o segundo maior produtor.
O uso da lã vai além do setor têxtil, tendo uso também valorizado no setor de máquinas industriais e climatizadores, por exemplo.
"A fibra das raças que produzimos no Rio Grande do Sul tem maior valor agregado, como lã nobre, especialmente no setor têxtil. No mercado internacional, essa fibra natural é muito pedida, representa maior sustentabilidade em relação à produção a partir do petróleo. É uma oportunidade que o produtor tem valorizado", avalia Edemundo Gressler.
Anualmente, o rebanho gaúcho proporciona até 8 milhões de quilos de lã ao mercado. A maior parte deste produto hoje é concentrada em cooperativas, que fazem a limpa, o primeiro processamento e o enfardamento da lã para a exportação, em maior volume para o Uruguai.