terça-feira, 18 de agosto de 2026

18 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Batata frita

Glacy, fiquei sabendo que sou seu colunista predileto. Deve estranhar que eu esteja falando diretamente com você. Mas não é um engano, nem uma intervenção da inteligência artificial.

Sou eu mesmo conversando com você. Pegue seu café quentinho, seus óculos, sente-se comigo, como nos velhos tempos: olho no olho, mão na mão.

Vim aqui completar a extensão de seu xale branco com meu abraço. Vim lhe ajudar a preencher as palavras cruzadas. Alguma dúvida?

Instrumento musical de sopro (4 letras)? OBOÉ

Rio da Inglaterra (3 letras)? URE

Ponto verde no deserto (5 letras)?

Você, nosso OÁSIS no meio do caos da indiferença.

Temos em comum o prato favorito. Como você apelidou: "comida de pobre". A comida de pobre é a nossa riqueza. Quem resiste a um feijão com arroz, bife e batata frita?

A receita para a longevidade é ser feliz com pouco.

Você, com 105 anos, já viu de tudo: a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Guerra Fria (1947-1991), a epidemia da covid-19, a enchente de 1941 e a de 2024, a passagem do dirigível Graf Zeppelin sobre Porto Alegre (1934), a Exposição do Centenário Farroupilha realizada no Parque da Redenção (1935-1936), a Campanha da Legalidade (1961). Você já andou de barco pela Capital inundada, de carroça, de bonde, de ônibus, de táxi, de Uber.

Apesar de acumular tamanha experiência, nem por isso se mostra pessimista ou rabugenta. Ainda acredita nas pessoas, ainda acredita em mim, ainda acredita em ler, ainda acredita no poder da memória para evitar equívocos.

Suas retinas embotadas de acontecimentos não destruíram sua generosidade. Você apresenta o dobro de minha idade, e exibe o dobro de minha esperança. Precisa me ensinar esse otimismo no mundo. Posso ser seu aluno?

Você que não consome refrigerante. Você que não abdica de um par de brincos para se sentir bonita de manhã. Você que coleciona dicionários como eu. Você que transformou seu andador em sela de cavalo. Você que não pôde fazer faculdade, mas deu aulas de língua portuguesa, ciências e matemática para crianças, inclusive os seus 13 netos. 

Você que morou no Litoral (Torres) e no Pampa (Bagé). Você que se recolhe e acorda cedo. Você que segue tomando banho sozinha. Você que não cabula as sessões de fonoaudiologia para não perder a força da boca. Você que se encontra viúva, dormindo ao lado da saudade. Você que cuidou de seis filhos e recebe a visita de oito bisnetos, todos disputando seu colo. Você que prova que é possível viver sem internet.

Queria dizer que não a conheço, mas sempre nos amamos pelas palavras. Não há maior amor do que aquele que vai declarado no papel, tingido, com a caligrafia empenhando o caráter. Costumo pensar que de nada adianta mandar flores sem as raízes de um bilhete assinado.

Portanto, é verdade este bilhete. Assim como o buquê de rosas do seu rosto sobre a minha coluna. _

CARPINEJAR

18 de Agosto de 2026
Nílson Souza

O devorador de livros

Preferia que fosse ficção, mas tudo indica que é verdade. O mercado de livros usados da Europa vem registrando um estranho aumento de vendas. De repente, sem nenhuma motivação aparente, livrarias e sebos do Reino Unido começaram a receber pedidos volumosos de obras que estavam nas prateleiras há anos. Os livreiros chegaram a se entusiasmar, mas logo constataram que as compras não provinham de escolas, de governos, nem desses clubes de leitura que voltaram à moda nas grandes cidades. Quem seria o comprador misterioso?

Ninguém precisou apelar a Hercule Poirot ou Miss Marple para solucionar o mistério. Antes de revelá-lo, pergunto: não deveriam os donos de livrarias - e nós todos que amamos a leitura - soltar foguetes com esse aumento inesperado da venda de livros? Pior é que não. Seria o mesmo que celebrar a greve da morte daquele romance célebre de Saramago. 

Lembram-se? Por um estranho fenômeno, ninguém mais morria num determinado país. No primeiro momento, pareceu uma bênção. A população inteira festejou. Mas logo todos perceberam que se tratava de uma maldição, pois os doentes agonizantes e seus familiares passaram a implorar pela Indesejada das Gentes para aliviar-lhes o sofrimento - e ela nem aí para eles.

Assim parece estar ocorrendo com os livros. O comprador, na verdade uma compradora, também os está destruindo. Chama-se ela Inteligência Artificial, IA para os íntimos. Empresas de tecnologia estão treinando seus softwares de IA com os conteúdos de "todos os livros do mundo", como consta no chamado Projeto Panamá, da norte-americana Anthropic. Evidentemente que sem pagar nada a seus autores. Mas isso não é o pior: os robôs vêm sendo "treinados" por meio da digitação destrutiva, que inclui a remoção da lombada dos volumes e a transformação do restante em aparas de papel para reciclagem.

Não faltava mais nada. Depois que o telefone celular, a internet e as mídias sociais sequestraram a atenção da humanidade, tornando a leitura de impressos um hábito quase em extinção, agora surge um monstro devorador de livros, predador e insaciável. Onde está o fio de Ariadne para a gente sair desse labirinto? 

NÍLSON SOUZA

 

Para restabelecer a confiança

Merece registro a constatação do subcomandante-geral da Brigada Militar, Jorge Dirceu Abreu Silva Filho, na semana passada, da redução de incidentes envolvendo pessoas em surto, policiais e profissionais da saúde após a criação de novo protocolo para o atendimento de situações do gênero, em março. A adoção de um procedimento unificado pelas secretarias de Segurança Pública e da Saúde foi prometida ainda no ano passado pelo governo gaúcho, após dois casos que tiveram desfecho fatal. 

O episódio mais marcante foi a morte de Herick Vargas, 29 anos, que fazia tratamento psiquiátrico e teve uma recaída com o uso de drogas. Após a família pedir a ajuda da BM para contê-lo, na zona norte da Capital, o rapaz foi baleado por um dos policiais.

A principal correção, como admitiu o subcomandante-geral da BM, foi reconhecer que, em primeiro lugar, essas ocorrências são de ordem de saúde, e não criminais. Na grande maioria das vezes, são famílias desesperadas que buscam auxílio para emergências psiquiátricas, não raro agravadas pelo consumo de entorpecentes. Ainda assim, são situações que, pelo comportamento eventualmente violento da pessoa em crise de saúde mental, com o risco potencial de outras pessoas acabarem feridas, pedem o auxílio da Brigada Militar, atuando em conjunto com as equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A vinda a público do coronel Jorge Dirceu Abreu Silva Filho para explicar o protocolo adotado há cinco meses e comentar as primeiras impressões sobre os resultados também é importante para restabelecer a plena confiança de quem porventura necessite acionar o serviço 190 em busca de ajuda para um caso semelhante. O pedido de socorro é exatamente com o objetivo de evitar que algo mais grave ocorra. Os casos que tiveram a morte das pessoas em surto como desenlace, pelo contrário, alimentaram o receio de tragédia.

O novo procedimento começa pelo recebimento dos chamados telefônicos pelos atendentes do 190 e do Samu, para compreenderem de forma detalhada a situação em curso. Busca-se saber, por exemplo, se a pessoa está armada e fez uso de drogas. As equipes da BM e do Samu se encontram em um local próximo e então se dirigem juntas ao local da ocorrência. O treinamento sobre formas de atuar e mesmo de contenção, voltado para uma abordagem mais humanizada, contou inclusive com a participação de profissionais do Hospital Psiquiátrico São Pedro. As próprias famílias são orientadas sobre como proceder e se proteger.

Os resultados, conforme pontuou o subcomandante-geral da Brigada Militar, demonstram também redução de riscos à integridade física dos próprios policiais e dos atendentes do Samu. Antes, as áreas da Segurança e da Saúde tinham metodologias distintas, sem a devida integração. 

O protocolo criado e adotado pelo Estado, ao que parece, é inédito no país e, por isso, já começa a despertar interesse de outras unidades da federação. É digna de nota ainda a postura institucional de admitir que a falta de orientação e coordenação produziu desenlaces fatais que poderiam ter sido evitados e, uma vez reconhecidas as falhas, tratar de saná-las. 

Os homens e as mulheres fortes de cada concorrente

Se perguntar a qualquer um dos candidatos ao governo do Rio Grande do Sul quem será o seu secretário da Educação, a maioria responderá que antes de montar a equipe é preciso vencer a eleição. Mas basta olhar quem são os conselheiros de cada um e prestar atenção às pistas semeadas para identificar os nomes mais óbvios para o primeiro escalão.

Na semana passada, ao apresentar seu plano de governo, o candidato do PL, Luciano Zucco, praticamente convidou o senador Luis Carlos Heinze para ser secretário. Da Agricultura? Não, de Infraestrutura. Disse Zucco, dirigindo-se a Heinze, que termina o mandato no final de janeiro:

- O senhor não vai descansar. Então, se tudo der certo, o senhor se prepare para continuar tocando o porto de Arroio do Sal, o aeroporto de Vila Oliva, a ferrovia. Eu não aceito um "não, vamos ver". Não, não. O senhor só vai descansar uns dois ou três meses. Depois, vai voltar pro batente.

Na Educação, o homem forte de Zucco é Leonardo Pascoal, titular da Educação de Porto Alegre, que trabalhou na elaboração do plano de governo. Na Segurança, Zucco já disse a diferentes interlocutores que o deputado Ubiratan Sanderson, policial federal, tem perfil para ser secretário, caso não se eleja senador.

A vereadora Comandante Nádia (PL) deve figurar no primeiro escalão de eventual governo, assim como a ex-senadora Ana Amélia Lemos, que retornou ao PP depois de breve passagem pelo PSD.

PDT e PT dividirão poder se Juliana vencer

Juliana Brizola, se for eleita, terá de dividir as secretarias estratégicas com o PT. Do seu partido, dois nomes são considerados certos para o governo - o coordenador da campanha, Vieira da Cunha, e o professor Paulo Burmann, coordenador do plano de governo.

O deputado federal Afonso Motta é outro líder do PDT que nunca largou a mão de Juliana e teria espaço no secretariado, sendo ou não reeleito.

No PT, quem mais trabalhou pela aliança foi o deputado Paulo Pimenta, que é candidato a senador. Se não for eleito, tem tudo para ocupar uma secretaria estratégica. Henrique Fontana e Alexandre Bublitz, médicos, têm perfil para a pasta da Saúde.

Como representante do governo de Eduardo Leite, Gabriel Souza tem no MDB e no PSD os candidatos mais fortes a um cargo no secretariado. O vice, Ernani Polo, que deixou o PP para se juntar a Gabriel, é favorito para continuar o trabalho na Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Artur Lemos, que joga em diferentes posições e foi chefe da Casa Civil na gestão Leite, é nome certo num eventual governo Gabriel, assim como as secretárias Danielle Calazans (Planejamento), Pricilla Santana (Fazenda) e Izabel Matte (Obras), pelo desempenho no atual mandato. A deputada Nadine Anflor seria forte candidata a secretária da Segurança Pública. _

Desfalcado com a perda de quadros para o PSD, em caso de vitória de Marcelo Maranata o PSDB terá de buscar reforço. Seus principais líderes são o deputado Daniel Trzeciak e os vereadores Moisés Barboza e Marisol Santos.

Nunes Marques reúne diplomatas para dizer que urna eletrônica é segura

Quatro anos depois de Jair Bolsonaro ter reunido um grupo de embaixadores para difamar o sistema eleitoral brasileiro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, reuniu diplomatas estrangeiros ontem, em Brasília, para dizer que podem confiar na urna eletrônica.

Diante de representantes de 89 nações, o ministro disse que o Brasil é referência mundial em eleições:

- Em síntese, somos capazes de totalizar com segurança, em poucas horas, os mais de 150 milhões de votos. _

Flávio Bolsonaro vem ao RS no dia 2, para a Expointer

Está definida a data da primeira visita do candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, ao Rio Grande do Sul após o início da campanha eleitoral. Flávio virá ao Estado no dia 2 de setembro para visitar a Expointer.

A data foi confirmada ontem, em conversa com o concorrente do PL a governador, Luciano Zucco. A ideia de Zucco é levar o candidato para um roteiro na Serra, no dia 3 de setembro. _

Não dá para levar a sério a candidatura de Marçal

O quadro eleitoral já estava praticamente fechado no final da semana passada quando o influenciador Pablo Marçal registrou sua candidatura a presidente da República pelo PRTB. Dá para levar a sério a candidatura de Marçal? Não. Porque ele está inelegível, foi condenado em segunda instância e não deve ter o registro deferido pela Justiça Eleitoral.

Sensação na eleição para prefeito de São Paulo em 2024, Marçal chegou perto de se classificar para o segundo turno, mas trocou os pés pelas mãos e acabou em terceiro lugar.

Provocador, acabou agredido com uma cadeirada por José Luiz Datena durante um debate. Na véspera da eleição, divulgou um laudo médico falso, que acusava Boulos de ter sofrido um surto psicótico por uso de cocaína. O documento forjado continha erros grosseiros, como número de RG incorreto e nome da clínica errado, além de assinatura falsificada de um médico já falecido. A história caiu por terra no mesmo dia.

No registro da candidatura, Marçal divulgou patrimônio de R$ 7.418.372.569,00, o que faria dele o candidato mais rico entre todos os concorrentes. No fim de semana, informou que o dado estava errado, mas não divulgou qual seria o certo. 

O que é isso, candidato?

Inscrito para concorrer a presidente pelo Democrata, o veterinário Wilson Grassi declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que seus bens somam R$ 50 milhões - sem quebrados.

Como se chega a esse valor? O candidato escreveu apenas uma descrição genérica: "Bens imóveis: posse e direitos sobre diversos imóveis financiados junto a instituições financeiras. Participações societárias: participação no capital social de diversas sociedades empresariais".

Ao assessor que fez contato oferecendo entrevista, a coluna perguntou se o valor dos bens estava correto e se Grassi iria retificar a declaração, especificando como se divide o patrimônio. Até ontem à noite, a assessoria não havia encaminhado resposta à pergunta. 

aliás

A tentativa de agressão à ex-ministra Marina Silva, candidata ao Senado por São Paulo, é um perigoso sinal de migração da violência nas redes para a vida real. Um caso de polícia, não de política.


18 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Alta escolaridade e desigualdades de gênero e raça

O grau de instrução é um dos aspectos positivos do perfil das candidaturas nas eleições de 2026, que emerge dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quase seis em cada 10 candidatos têm ensino superior completo, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul. Quando considerados também aqueles com graduação incompleta, o índice supera 69% no país e chega a 72% entre os gaúchos. É um contingente altamente escolarizado para uma atividade que exige compreensão de leis, orçamentos e políticas públicas.

O dado não deve, porém, ser confundido com garantia de qualidade. Diploma não assegura competência política, honestidade ou capacidade de articulação, assim como sua ausência não torna alguém incapaz de representar a sociedade. Alta concentração de graduados pode, eventualmente, refletir as barreiras sociais, financeiras e partidárias que dificultam o ingresso na política de líderes comunitários com outras formas de conhecimento e experiências.

A desigualdade de gênero é o dado mais expressivo dos números. Embora as mulheres sejam maioria do eleitorado, representam apenas 35% das candidaturas nacionais e 34% das gaúchas. Os números ficam pouco acima da cota mínima de 30%, sugerindo que a regra ainda funciona mais como um piso a ser cumprido do que como instrumento de paridade. O desequilíbrio é ligeiramente maior aqui, no Estado.

Composição racial

Na composição racial, há maior aproximação com o perfil da população, mas permanecem distorções. No Brasil, pretos e pardos somam 49,82% dos candidatos, diante de 55,5% da população. Os brancos estão sobrerrepresentados, enquanto a principal diferença está entre os pardos: são 45,3% dos brasileiros, mas apenas 36,18% dos candidatos.

No RS, a predominância de candidatos brancos - 80,73% - acompanha a composição demográfica do Estado, onde 78,4% da população é branca. Os pretos aparecem proporcionalmente acima de sua presença populacional, enquanto os pardos permanecem sub-representados: são 14,7% dos gaúchos, mas 8,97% dos candidatos.

O Brasil e o Rio Grande do Sul que irão às urnas em outubro encontrarão candidatos mais escolarizados, um universo político ainda predominantemente masculino e uma composição um pouco mais branca do que a população que pretendem representar. _

Orientação sexual e identidade na eleição

O RS conta com 1.048 candidatos registrados no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026. O número engloba nomes que disputam o Piratini, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa.

Deste total, quase metade dos postulantes não informou sua identidade de gênero e orientação sexual no momento do registro de candidatura.

Ao todo, apenas 565 informaram sua orientação sexual, o que representa 53,9% do total. A orientação sexual diz respeito à atração física, afetiva ou romântica que uma pessoa sente por outra. Entre os postulantes, 547 se declararam heterossexuais, oito bissexuais, oito gays, um pansexual (pessoa que sente atração independentemente do sexo biológico ou da identidade de gênero) e uma lésbica.

Já sobre identidade de gênero - que é como o indivíduo se reconhece e se sente, de forma independente do sexo biológico de nascimento -, 555 candidatos informaram o dado ao TSE, o equivalente a 53% do total. São 545 cisgêneros (quando a identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento) e 10 transgêneros (quando a identidade difere do sexo de nascimento).

Quatro candidatos informaram seu "nome social", que é a forma pela qual pessoas travestis, transexuais e não binárias preferem ser chamadas no dia a dia, ao invés do nome de registro. _

Ulbra terá unidade em shopping de Porto Alegre

O Pontal Shopping terá, a partir de 2027, um campus da Ulbra. A unidade, que ocupará uma área de 1,5 mil metros quadrados no segundo piso, terá como foco inicial o curso de Medicina. A expectativa é de que a operação gere um fluxo diário de aproximadamente mil visitantes, entre alunos, professores e colaboradores.

Conforme o Pontal Shopping, toda a estrutura do curso de Medicina de Porto Alegre será transferida para o local. O espaço contará com salas de aula, laboratórios e setores administrativos de apoio aos alunos.

Conforme a Ulbra, toda a estrutura do curso de Medicina do campus Porto Alegre, que fica na Rua Coronel Joaquim Pedro Salgado, no Rio Branco, será fechada e transferida para o Pontal. _

Debate sobre racismo na Alemanha

O tema da discriminação racial voltou aos noticiários alemães após um evento em uma piscina pública temporária - instalada em frente ao teatro Volksbühne, em Berlim - ser cancelado por falta de segurança.

A atividade previa receber exclusivamente crianças e jovens negros da capital, mas, após os organizadores sofrerem ameaças, o grupo optou por cancelar a iniciativa.

A Europa enfrenta há meses um calor extremo, e a população tem recorrido a piscinas públicas espalhadas pelas cidades.

Em geral, os horários da manhã do local são reservados a clubes de natação. Na última semana, uma associação de combate ao racismo, a Each One Teach One (Eoto), reservou um horário para levar crianças e adolescentes negros.

A iniciativa gerou forte oposição de políticos locais. Aileen Weibeler, vereadora do partido CDU (conservador), fez uma publicação nas redes sociais afirmando se sentir discriminada por ser branca e não poder utilizar o local no horário reservado. Outros políticos afirmaram tratar-se de uma "divisão de pessoas com base na cor da pele".

A Eoto denunciou ter sido alvo de hostilidades desde o início da divulgação da atividade. Por temores quanto à integridade dos participantes, o teatro e a entidade cancelaram o evento. A associação estuda tomar medidas judiciais devido às intimidações. _

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

17 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Um não-lugar

Está em cartaz o filme Backrooms: Um Não-Lugar, que acompanha o dono de uma loja de móveis que descobre um acesso secreto em seu estabelecimento, levando a um labirinto infinito e perturbador além da realidade. O local não consta na planta do prédio. É um terror psicológico com a total ausência de monstros. 

O medo surge de cenários familiares distorcidos, ilógicos, sem saída. A ideia partiu de uma creepypasta (lenda urbana digital), e o jovem cineasta Kane Parsons popularizou essa estética de "estranho íntimo" com vídeos virais no YouTube.

O longa vem atraindo especialmente os adolescentes. A produção custou cerca de US$ 10 milhões e angariou mais de US$ 356 milhões na bilheteria. Eu me lembrei de um não-lugar misterioso nas antigas casas de família, que ocupava um triplex no imaginário da minha geração.

Havia um cômodo que ninguém usava. Eu não entendia a sua preservação inviolável. Refiro-me à imponente sala das visitas. Arrumada, impecável, sem a agitação cotidiana. Não se entrava nela: correspondia a um museu dentro do lar, um altar, um aposento fechado mentalmente. Não contava com porta, mas funcionava como se estivesse sempre trancada. Até os cachorros a evitavam.

Precisávamos fazer os temas da escola na mesinha da cozinha. Não era permitido profanar os segredos daquele espaço. Nem podíamos receber os colegas nele, com mais folga.

Sequer sei se o ambiente admitia faxina, ou se ficava de fora dos desígnios da vassoura. A janela se mantinha coberta pelas cortinas. A luz não penetrava seu caixão de vampiro. Não dava para sentar nas poltronas, como se fossem peças raras de um mostruário.

Atravessar a sala equivalia a invadir o quarto dos pais. Se uma bola caísse ali, começava uma operação de resgate. O sofá não conhecia corpos. Não tinha afundamentos, marcas, migalhas, almofadas tortas. Envelhecia virgem.

Os objetos decorativos permaneciam intocados: cinzeiro de cristal sem cinzas, bibelôs, porcelanas, vasos e porta-retratos eternamente na mesma posição de esfinges. Talvez houvesse plástico protegendo os estofados. Talvez o plástico seja dos meus olhos proibidos.

A sala exalava um cheiro diferente, de guardado, de cera, de tecido parado, sem gente, similar ao do endereço de praia quando chegávamos para o veraneio.

A diversão, a conversa, a comida e a bagunça aconteciam no mundo paralelo. Contornava-se a sua inércia, negava-se a sua existência.

Lá estavam os nossos móveis mais caros, e os únicos intangíveis. Reservávamos o melhor da casa para os outros. Outros que nunca vinham. Outros que nunca apareciam. Convidados iam para a sala de estar, jamais ganhavam a credencial para descerrar o território previamente cancelado.

Nenhuma autoridade alcançava o patamar para cruzar as fronteiras. Nem padre, nem bispo conseguiam o visto no passaporte. Não duvido que os pais estivessem esperando o papa. _

CARPINEJAR

17 de Agosto de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Tudo bem no ano que vem

O ano mal virou a esquina para o segundo semestre, e eu já elegi o melhor programa de TV da temporada 2026. A série franco-espanhola Os Anos Novos (2024) estreou discretamente na plataforma Mubi, mas vem ganhando tração graças ao entusiasmo de quem assiste e recomenda muito - como estou fazendo aqui e agora.

O ponto de partida é uma história de amor mais ou menos convencional: Ana (Iria del Rio) e Óscar (Francesco Carril) se encontram, se apaixonam e não vivem felizes para sempre - pela boa razão de que nem as samambaias são tão felizes quanto os casais de mentirinha do Instagram e dos contos de fada. O que a série faz é acompanhar essa história comum pelo período de uma década. 

Entre 2015 e 2025, encontramos Ana e Óscar sempre na época do Réveillon, quando os dois "cumprem anos". A cada novo episódio, experimentamos aquele tipo de incerteza que nos leva a imaginar se no nosso próximo aniversário vamos estar na mesma ou se algo muito bom ou muito ruim terá cruzado nosso caminho.

O que nos captura, desde os primeiros minutos, é o registro hiper-realista da narrativa, seja nos momentos em que quase nada acontece (muitas vezes acompanhamos conversas que parecem não chegar a lugar nenhum, é verdade, mas, vamos ser honestos, esse é o caso na maioria das interações que ocupam nosso tempo na vida real também), seja nos picos de excitação das cenas de sexo (beeem realistas) ou nos momentos mais intensos de uma discussão.

As melhores séries feitas para a TV aproveitam a metragem estendida para aprofundar temas que um filme de duas horas muitas vezes apenas sugere. No caso de Os Anos Novos, observamos como um pequeno gesto ou uma palavra dita no início do relacionamento apontam para um traço de personalidade ou uma neura oculta que podem se transformar, ou não, em problema no futuro. 

Não como uma "red flag" (gíria para aquelas pistas precoces de que estamos entrando numa fria), mas como uma bandeira cor de flicts que nos lembra como cada pessoa é insuportável e/ou maravilhosa a sua maneira.

Nesse período de 10 anos em 10 episódios, a vida segue seu cortejo de dores e delícias em torno do casal - e talvez resida nessas discretas tramas paralelas boa parte do encanto da série. Crianças nascem, pessoas morrem, outros casais se formam e se separam, amigos se encontram e se perdem, luto e alegria se alternam. Ao final, percebemos que Ana e Óscar formam um triângulo amoroso com o verdadeiro protagonista desta e de todas as histórias: a insuportável e maravilhosa passagem do tempo. _

CLÁUDIA LAITANO

17 de Agosto de 2026 
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Esta coluna contém informação e opinião

Mais passado do que futuro na largada da campanha

À frente em todas as pesquisas divulgadas até agora, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) estrearam na campanha de rua falando para convertidos - e de olho no passado. O futuro foi coadjuvante nos discursos.

Lula escolheu seu berço político, o ABC Paulista, para a largada de sua sétima campanha ao Palácio do Planalto. No Estádio 1º de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), milhares de militantes vindos de diferentes regiões do Brasil desfraldaram as bandeiras vermelhas e garantiram cenas que deverão ilustrar os primeiros programas do horário de TV. Nada muito diferente de outras manifestações petistas no mesmo endereço.

Flávio também olhou para trás ao escolher Copacabana, no Rio de Janeiro, como palco do seu primeiro ato oficial de campanha. A orla da praia mais famosa do Brasil remete a manifestações promovidas pelo pai, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar e se fez presente no discurso do filho e em fotos usadas pelos militantes. Copacabana tomada por simpatizantes de verde e amarelo é uma imagem pronta para a campanha de TV.

Lula fez a defesa da soberania brasileira, valendo-se da bandeira recebida dos Bolsonaro - especialmente de Eduardo, o ex-deputado que defendeu sanções ao Brasil e chegou a comemorar as primeiras medidas de Donald Trump contra o país. Flávio se apresentou como o único dos candidatos a presidente em condições de sentar com o presidente dos Estados Unidos, ignorando que Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) não têm qualquer problema com Trump.

Os dois falaram de segurança pública, tema obrigatório diante da preocupação dos brasileiros, especialmente os que vivem nas grandes cidades. Lula prometeu criar um ministério para a Segurança Pública para "libertar" comunidades dominadas pelo crime organizado. Flávio preferiu atacar Lula por não ter conseguido resolver os problemas da segurança e disse que ou ele "está fechado com o crime organizado ou é muito incompetente". _

Ao lado dos vices (dois homens), Lula e Flávio Bolsonaro fizeram acenos ao eleitorado feminino e abriram espaço para o protagonismo das esposas, Janja, que homenageou Marisa Letícia, e a dentista Fernanda Bolsonaro.

Chuva atrapalha início da campanha para o governo do Rio Grande do Sul

A chuva deste domingo foi democrática e atrapalhou o primeiro dia de campanha dos principais candidatos ao governo do Rio Grande do Sul, que tiveram de adaptar as agendas.

Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD) chegaram ao Largo Zumbi dos Palmares para o adesivaço debaixo de chuva. Foram salvos pelo toldo montado diante da previsão da meteorologia. Depois, o grupo seguiu para o norte do Estado, onde tinha programado um ato em Carazinho, no final da tarde.

Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT) tiveram de cancelar a caminhada prevista para a Redenção. Depois do meio-dia, candidatos e militantes se aglomeraram no comitê eleitoral, na Rua José Bonifácio, onde ocorreram os discursos.

Luciano Zucco (PL) e Silvana Covatti (PP) mantiveram a previsão de manifestações em dois parques da Capital, mas com público reduzido por causa da chuva. Depois, seguiram para agendas na Região Metropolitana.

Marcelo Maranata (PSDB) e Cláudio Diaz (PSDB) tiveram de ficar na área interna do comitê, na Avenida Farrapos, por causa da chuva. Maranata discursou erguido pelo vice e por militantes. _

Qual o patrimônio dos presidenciáveis

O patrimônio declarado à Justiça Eleitoral pelos candidatos a presidente no registro da candidatura varia de zero de Rui Costa Pimenta (PCO) e Hertz Dias (PSTU) a R$ 242,2 milhões de Augusto Cury, escritor, empresário e palestrante, candidato do inexpressivo Avante.

Confira, em ordem decrescente, o valor total dos bens declarados pelos candidatos:

Augusto Cury (Avante) R$ 242.281.162,52

Romeu Zema (Novo) R$ 178.707.610,09

Ronaldo Caiado (PSD) R$ 52.557.930,98

Wilson Grassi (Democrata) R$ 50 milhões

Flávio Bolsonaro (PL) R$ 8.186.555,83

Lula (PT) R$ 4.775.650,64

Renan Santos (Missão) R$ 795.089,00

Edmilson Costa (PCB) R$ 454.485,68

Samara Feitosa (UP) R$ 33 mil

Hertz Dias (PSTU) Nada a declarar

Rui Costa Pimenta (PCO) Nada a declarar

* Pablo Marçal (PRTB) -

* Pablo Marçal está inelegível, mas o PRTB registrou sua candidatura. Ontem, ele informou que o valor de R$ 7,4 bilhões, declarado no registro, estava errado e será corrigido.

POLÍTICA E PODER

EM FOCO

Aumento após a tipificação do crime foi registrado entre 2022 e 2025. Legislação específica foi sancionada em abril de 2021 e tem mulheres como principais vítimas. Delito é definido a partir de perseguição reiterada

Casos de stalking se mantêm em alta no RS

Dias e noites em estado constante de vigilância. Não importava se Camila (nome fictício) estava indo ao mercado, se descia para levar o lixo em frente ao próprio apartamento ou se estava no horário de trabalho. A qualquer momento, ele poderia aparecer.

- Parecia que ele tinha me chipado, que ele tinha um GPS. Ele sempre descobria os lugares que eu estava - conta.

Somente 10 anos depois do que viveu, a funcionária pública consegue falar sobre o período em que foi perseguida pelo ex-companheiro, com quem se relacionou por cerca de um ano e três meses. As perseguições, porém, continuaram por dois anos após o término. Ele não aceitou o fim da relação e passou a monitorar a rotina dela, a aparecer em locais que ela frequentava e insistir em contatos contra a vontade dela.

Na época dos acontecimentos, a legislação brasileira ainda não registrava este delito, mas o que Camila sofreu pode ser descrito como stalking ("perseguição" em inglês). O tipo penal foi criado no Brasil há cerca de cinco anos, em abril de 2021. Desde o primeiro ano de vigência da chamada Lei do Stalking, o número de casos vem crescendo no Rio Grande do Sul. Considerando os anos completos entre 2022 e 2025, o total de registros aumentou 49%. Entre 2024 e 2025, a alta foi de 14,36%. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul.

O crime tem por característica a repetição e a insistência de contato com a vítima, que pode ser manifestada, inclusive, de forma digital. Na maioria dos casos, a prática é contra a mulher (veja no quadro).

- O que mais chega são casos em que homem não aceita o fim do relacionamento. Aí, vai à casa, ao local de trabalho, à academia da vítima. Tem até o que fica perseguindo por Pix. Tem vítimas que receberam centavos em várias mensagens durante o dia - explica Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher da Polícia Civil.

Primeiros sinais

Para Camila, os primeiros sinais passaram quase despercebidos. Ela acreditava que os encontros eram mera coincidência e até confundia com cuidado. Com o tempo, porém, percebeu um padrão. O homem surgia em bares, cafeterias e outros lugares que ela frequentava. Também fazia ligações constantes para o emprego dela e enviava mensagens por diferentes canais quando era bloqueado: e-mail, celular, redes sociais.

A perseguição impactou profundamente Camila. Além do constrangimento diante de amigos e colegas de trabalho, ela passou a alterar horários, evitar permanecer em casa sozinha, buscar abrigo na casa de conhecidos e até sair da cidade em alguns momentos para tentar se sentir segura. Em um dos momentos que ela considerou mais graves, ele alugou um apartamento no mesmo prédio em que ela morava.

Foram dezenas de ocorrências policiais, audiências e acompanhamento psicológico, que mantém até hoje. Mesmo com medida protetiva, o ex-companheiro continuava a perseguição. Isso acabou levando o homem à prisão.

- Eu sempre registrei ocorrência e fui à delegacia. Me doía ir e ver as mulheres em situações piores do que a minha. Fui mais de 20 vezes. Mas isso já faz 10 anos e hoje a gente vê que as leis estão evoluindo - analisa. _

Fator de risco para o feminicídio

O ato que antes era enquadrado como contravenção penal e poderia levar à prisão de 15 dias a dois meses e multa, passou a prever condenação mais severa: de seis meses a dois anos de prisão, podendo ser aumentada se houver agravantes. Autoridades destacam que o stalking raramente vem isolado. Agressões psicológicas e crimes como ameaça e lesão corporal costumam estar associados. Outra singularidade é que quem persegue uma vez geralmente já tem histórico de comportamento semelhante ou tende a repetir o ato e fazer outras vítimas.

No dia 31 de julho, a 1ª e a 2ª Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (Deam) de Porto Alegre deflagraram mais uma fase da Operação Mulher Segura. Três homens com histórico de violência contra mulher foram presos, conforme a titular da 2ª Deam, Fernanda Campos Hablich. Entre outros crimes, dois dos suspeitos eram investigados pela prática de stalking e um já tinha ocorrências pelo mesmo motivo registradas por outras mulheres.

- Quando há medida protetiva vigente, além de responder pelo crime de perseguição, ele também responde pelo de descumprimento de medida. E é importante frisar que essa perseguição se configura independentemente do conteúdo da mensagem. Pode ser do pedido de volta do relacionamento até as com teor de ameaça - afirma a delegada.

Dados do 20º Anuário de Segurança Pública, divulgado no mês passado, mostram que os registros de stalking no Brasil cresceram 30% entre 2024 e 2025. Em média, no ano passado houve 14 ocorrências por hora. Foram 123.871 mulheres perseguidas no país.

O anuário também revelou alta de 4% dos feminicídios, que alcançaram um recorde histórico, de 1.571 mulheres mortas em razão do gênero. Além disso, as tentativas de feminicídio subiram 5,9% (com 4.189 vítimas que sobreviveram). Isso significa que, para cada feminicídio consumado registrado no país em 2025, houve quase três tentativas.

- O stalking é um fator de risco para o feminicídio. Então, a vítima tem que denunciar. Celebramos esse crime no Código Penal em 2021 e estamos atentos a esse tipo de crime, quer seja perseguição física ou virtual - pontua a delegada Waleska. _ 

sábado, 15 de agosto de 2026

15 de Agosto de 2026
EUGÊNIO ESBER

Aconteceu em Santa Rosa

"Sem pressa, foi cada um pro seu lado pensando numa mulher, ou num time."

Na terra em que nasceu e viveu, ninguém noticiou sua partida, na última segunda-feira. Nem a longa melancolia que foi devorando, aos poucos, a sua vontade de viver. E assim, sob um silêncio de amém, como cantou João Bosco em De Frente pro Crime, Seu Ronaldo Edison Richard morreu do coração, como se costuma dizer na sua Santa Rosa. 

E de desgosto, por certo, ante a indiferença dos circunstantes. Perseguido por crimes que não cometeu, viu-se, aos 63 anos, indefeso diante da brutalidade de um aparato judicial tirânico.

Em janeiro de 2024, a Polícia Federal esteve na casa de Seu Ronaldo, em Santa Rosa. Recolheu e vasculhou seu telefone. Ele não tinha estado em Brasília nos atos de janeiro de 2023, mas era preciso achar algo, qualquer coisa, para alimentar a sanha dos inquéritos de Alexandre de Moraes. A diligência encontrou mensagens em que o idoso ajudava a reunir pessoas para a locação de um ônibus com destino à capital federal, e custeou a passagem de um manifestante. Isso era tudo. 

Na verdade, era nada. Mas a Procuradoria-Geral da República, que até hoje não viu razão para abertura de inquérito contra Moraes pelas ligações milionárias com o liquidado Banco Master, foi implacável com Seu Ronaldo. Enquadrou o idoso como "financiador" de sabe-se-lá-o-quê e o denunciou por cinco crimes: associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Moraes, o carrasco da liberdade de imprensa e de tantas outras garantias constitucionais, estava pronto para sentenciar Seu Ronaldo, que já estava com seus bens bloqueados. A morte abreviou a excruciante espera por uma pena descabida. "O Brasil ainda vive as conseqüências de um 8 de janeiro que parece não ter acabado", disse Ana Maria Cemin, a jornalista gaúcha que se tornou voz essencial na denunciação do arbítrio e da perversidade da juristocracia brasileira. 

"Três anos e meio depois, já são 11 mortos. Vidas atravessadas por medidas extremas, processos longos, restrições severas e uma máquina estatal que não recuou - nem diante da fragilidade humana."

A propósito: a lei da dosimetria de penas, tímida correção dos abusos praticados pelo STF, foi promulgada pelo Congresso Nacional há 98 dias. Um único homem, Alexandre de Moraes, engavetou a lei, sob o silêncio cúmplice ou indiferente de quem tem o poder institucional para detê-lo. Mas... instituições? Que instituições? Como escreveu a jornalista norte-americana Mary Anastasia O?Grady no Wall Street Journal, houve, sim, um golpe de Estado no Brasil. Mas quem o promoveu foi a própria Suprema Corte brasileira. _

EUGÊNIO ESBER

 

15 de Agosto de 2026
PAULO GERMANO

A rebeldia dos covardes

Depois de anos de abandono, tapumes e obras, um dos monumentos mais extraordinários de Porto Alegre finalmente ensaia uma ressurreição. O icônico viaduto da Borges foi restaurado e agora recebe os primeiros lojistas de um projeto que pretende devolver cultura, gastronomia e gente às suas arcadas. Pois nesta semana, quando a cidade começava a reaver esse pedaço de si, alguém surgiu com a velha lata de spray para esculhambar. E lá foi a prefeitura, pela 11ª vez desde a entrega da reforma, há quatro meses, gastar tempo e dinheiro para apagar os garranchos.

Acho curioso que, no meio cultural e acadêmico, há sempre algum pudor em criticar essa modalidade de vandalismo. Como se reprovar a pichação fosse elitista ou insensível. Como se cada rabisco carregasse a voz dos excluídos - e calar essa linguagem seria oprimi-los ainda mais. Só que é difícil chamar de linguagem o que não comunica nada. São códigos que, no máximo, conversam entre si: funcionam como uma bolha grafada em concreto, indiferente ao resto do mundo, justamente num território concebido para ser de todos - o espaço público.

Houve uma época, de fato, em que pichar não só era justificável como era necessário. Na ditadura militar, por exemplo, pintavam-se as paredes para alertar a sociedade sobre o regime tirânico. Porque, claro, só tinham sobrado as paredes: a imprensa fora censurada, a oposição fora cassada, toda divergência fora calada. Não havia formas de se expressar, não havia redes sociais, então a pichação tornou-se uma rara via de contato entre a população e o outro lado.

Passado esse período de trevas, permaneceu uma aura romântica em torno de uma contravenção que, atualmente, só serve para alimentar vaidade. As pichações não têm indicativo político, não incitam reflexão, não defendem mudanças, não denunciam coisa nenhuma: são apenas sinais ou nomes cifrados que, se por um lado exigem ser vistos, por outro negam o direito de alguém responder.

Aliás, o que mais me incomoda não é a rabisqueira, é a covardia. Quer pichar o Palácio Piratini? Vá lá - ao menos haveria alguma contestação ao poder. Mas a escolha recai sempre sobre o alvo mais frágil: a vendinha da esquina, a escola pública, o prédio histórico, a pracinha do bairro. O spray castiga quem mal consegue pagar uma demão de tinta, mas recua diante da mansão com segurança na porta. Que diabo de rebeldia é essa?

Arquitetos e engenheiros gastaram anos projetando cada detalhe do viaduto da Borges. Não existe arrogância maior do que alguém decidir, sozinho, que a própria marca deva se sobrepor a um patrimônio coletivo de quase cem anos. É aí que desaba a retórica de que a pichação seria um ato de apropriação do espaço público: ora, o espaço é público justamente porque ninguém tem o direito de tomá-lo para si. 

PAULO GERMANO

Suco de atraso

No pódio dos sufixos ismo que conspiram contra um Brasil moderno, o patrimonialismo disputa a medalha de ouro. A palavra define a prática de encarar o ente público e as leis como propriedades das quais a autoridade pode usufruir a bel-prazer tão logo chegue a uma posição de poder.

As esdrúxulas quebras de sigilo de um jornalista do Maranhão e de sua fonte devido a reportagens envolvendo o ministro do STF Flávio Dino são um caso explícito de patrimônio coletivo - a Constituição de 1988 - confiscado por interesses pessoais. 

Nossa lei maior diz taxativamente em seu artigo 5º, inciso XIV, que é "resguardado o sigilo da fonte, quando necessário para o exercício profissional". Não há outra leitura, mas ainda assim o ministro Alexandre de Moraes autorizou a quebra de sigilo de um jornalista para chegar a sua fonte, um ex-secretário de Estado do Maranhão, e também violar seu sigilo. Patrimonialismo com corporativismo dá nisso.

Pois ambos os ismos se agarraram com tanta força ao Supremo que ministros chegam a comandar casos que envolvam a si, como o fez Dias Toffoli no mega Master escândalo antes de o STF ficar ruborizado, ou não veem nada de mal nas intenções de Daniel Vorcaro, rei do trânsito nas sombras em Brasília, ao fechar contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa e filhos, como Alexandre de Moraes. 

O suco de patrimonialismo só é espremido porque os donos do poder convidam a rede de contenção para o festerê. É assim que a vanguarda do atraso toma conta do Congresso e avança sobre os topos das carreiras públicas por meio de benesses inalcançáveis por outros mortais.

Muitos se transformam em beneficiários do modelo patrimonialista porque assim o é desde os tempos coloniais. Em um belo dia, o sujeito busca um lugar para sua maleta no bagageiro sobre o assento 23C no voo para Brasília. No outro, está chamando jatinho como quem pede carro de aplicativo. Em um dia, ele está indo de táxi para o trabalho. 

No outro, o motorista o aguarda em um carrão preto e, prestativo, carrega sua pasta. Bastam algumas semanas para que essa autoridade esqueça o funcionamento das maçanetas, porque sempre haverá um bedel a lhe abrir as portas à frente. Para torcer as leis a seu favor, é só mais um passo na trilha de regalias.

Já houve um tempo em que ministros do STF faziam fila em aeroportos, tomavam táxis e conviviam com um país que não promove convescotes em Lisboa. Eram celebrados como guardiões do Estado democrático de direito. Agora, o tratamento conferido a uma rusga maranhense rompe mais um elo entre um STF já dilacerado em alas e o necessário distanciamento para fazer valer a Constituição. Convenhamos: o patrimonialismo não é a melhor forma de a Suprema Corte recuperar a credibilidade e a confiança dos cidadãos. 

MARCELO RECH 

 

15 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Largada para a eleição

Começa oficialmente neste domingo a campanha às eleições de outubro que definirão o próximo presidente do país, os governadores de 27 unidades federativas e representantes legislativos para Senado, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os candidatos e partidos estarão liberados para ir às ruas e ocupar as plataformas digitais com o propósito de apresentar seus nomes e seus projetos aos 155 milhões de eleitores aptos a votar. É, portanto, um momento importante da democracia brasileira, caracterizado principalmente pela ampla e irrestrita liberdade dos eleitores para escolherem seus governantes e representantes políticos.

O Brasil ainda vive um clima de polarização no âmbito federal, comprovado por diversas pesquisas eleitorais que apontam empate técnico entre os candidatos mais cotados e altos índices de rejeição para ambos. Mas essa dicotomia também faz parte do jogo democrático, desde que não derive para a radicalização, o ódio e a violência. Essa, certamente, deve ser a principal preocupação da Justiça Eleitoral, dos órgãos de segurança pública e das lideranças políticas no momento em que os militantes partidários estão autorizados a propagar mensagens e a empunhar bandeiras e cartazes.

Nesse contexto, cabe ao eleitor o papel mais importante, que é o de identificar entre múltiplos pretendentes aos cargos em disputa quais as propostas mais responsáveis, factíveis e que melhor atendem às demandas coletivas da população. Informação, portanto, é a palavra-chave deste verdadeiro vestibular de democracia a que o país está novamente submetido. Mais do que nunca, numa época em que a tecnologia digital avança velozmente e a inteligência artificial mascara a realidade, o eleitor brasileiro precisa se manter atento para não ser ludibriado e para buscar informações verdadeiras que lhe permitam fazer as melhores escolhas políticas.

Para tanto, o caminho mais sensato é manter permanente ceticismo em relação às mensagens de ódio, às notícias pouco fundamentadas e aos ataques pessoais divulgados principalmente pela internet e pelas redes sociais - e, ao mesmo tempo, buscar a comprovação no jornalismo profissional e nos veículos de comunicação reconhecidos como responsáveis, com endereço e CPF, cumpridores da técnica da verificação e dos princípios éticos do ofício de comunicar.

Também é imprescindível que os potenciais eleitores evitem repassar mensagens falsas e se mantenham vigilantes em relação a manipulações, condicionamentos e ao assédio eleitoral, pois o exercício consciente da cidadania - mais do que intenções e ações dos ocupantes de cargos públicos - é o que leva um país a se desenvolver e um povo a realizar os seus ideais de liberdade, prosperidade e justiça. 


15 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Pesquisa indica que esta será a eleição do medo

Divulgada às vésperas do início da campanha eleitoral, a pesquisa Quaest que mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados na simulação de segundo turno indica que esta será também uma disputa de rejeições e uma eleição entre dois medos.

No segundo turno, Lula tem 43% das intenções de voto e Flávio, 40%. Respeitada a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, esse placar é quase o mesmo do medo dos eleitores. De acordo com a Quaest, 45% dos eleitores temem a volta da família Bolsonaro ao poder e 41% têm medo da permanência de Lula no Palácio do Planalto.

Os números são compatíveis com a rejeição dos dois candidatos. Neste quesito, Lula e Flávio também estão empatados: 54% responderam que conhecem Flávio e não votariam nele e 52% disseram o mesmo sobre Lula.

Nas intenções de voto, a novidade na Quaest em relação a ela mesma é que Flávio vem recuperando terreno e hoje a vantagem de Lula no primeiro turno é de sete pontos percentuais, fenômeno já detectado por outros institutos. Lula tem 38% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio, 31%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, significa que Lula pode ter entre 36% e 40% e Flávio entre 29% e 33%.

Como já se viu em outras pesquisas, o pelotão de baixo não consegue sair do chão. Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) têm 4%, Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), 2%. Samara Martins (UP) tem 1% e os demais, zero. São eles: Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata). Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 8% e os indecisos, 10%.

Um dado que o cidadão precisa prestar atenção é o da pesquisa espontânea. É aquela em que se pergunta ao eleitor em quem ele pretende votar, sem apresentar uma cartela com o nome dos candidatos. Nessa pergunta, que é das primeiras feitas ao eleitor, 51% responderam que não sabem. O que isso significa? Que a eleição ainda não está na cabeça do eleitor. Sem ver a lista com o nome dos candidatos, 25% citaram Lula e Flávio, 19%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo em parceria com o jornal O Globo. A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa é BR-06773/2026. _

Erechim fica em 1º no Ideb entre as 20 maiores cidades do Estado

Das 20 maiores cidades do Rio Grande do Sul, Erechim, no Alto Uruguai, conquistou o primeiro lugar no Ideb nos anos iniciais e nos finais do Ensino Fundamental. Nos iniciais, a média foi de 6,9. Nos finais, 5,8. A título de comparação, Porto Alegre ficou em último nesse ranking. A Capital aparece em 18º lugar na tabela porque há empates no 14º dos anos iniciais e no 16º dos finais entre São Leopoldo e Rio Grande. Qual o segredo de Erechim para um resultado tão expressivo? O prefeito Paulo Polis (MDB) tem a resposta na ponta da língua:

- Educação não é uma corrida de cem metros. É uma maratona. Exige continuidade. Em 2021, quando voltei à prefeitura, depois de quatro anos, retomamos projetos que tinham sido interrompidos. Aprovamos um plano de carreira que estimula a qualificação dos professores, adotamos os mesmos métodos dos colégios maristas e temos capacitação permanente pela Universidade Federal da Fronteira Sul. A merenda escolar é comprada de produtores da região e temos cinco nutricionistas para preparar o cardápio a ser servido para as crianças. _

O que leva Alcolumbre a destravar a pauta de projetos caros ao governo

Um dia depois de o presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice de Ronaldo Caiado, ter dito que o centrão está com o presidente Lula e que Flávio Bolsonaro não tem chance na eleição, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aceitou destravar pautas caras ao governo, como o fim da jornada 6x1. O que uma coisa tem a ver com a outra? Alcolumbre é um dos próceres do centrão e estava rompido com Lula.

Ambos reataram a relação. O senador sabe que votando ou não, Lula vai usar o trabalho do governo pelo fim da escala 6x1 na campanha. Então, melhor faturar dividendos eleitorais com tema que tem ampla aprovação dos trabalhadores. E Alcolumbre e Hugo Motta sonham com mais um mandato na presidência das respectivas Casas. Ficar bem com o líder das pesquisas é meio caminho andado para se cacifar. _

Manuela conquista título de doutora

Depois de anos dormindo tarde e acordando cedo para conciliar os estudos com as atividades políticas (mesmo sem mandato e sem disputar eleição desde 2018), a ex-deputada Manuela D?Ávila conquistou o título de doutora. Candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela fez mestrado e doutorado em Políticas Públicas na UFRGS e defendeu tese sobre moderação de conteúdo na internet e a conformação de agenda no Brasil nas últimas duas décadas.

- Isso ninguém me tira - disse.

Nesse período, passou uma temporada nos EUA com a família, estudando, e criou o instituto E se Fosse Você?, destinado a estudar a violência na internet e a apoiar vítimas do ódio digital. Graduada em Jornalismo, escreveu cinco livros nos últimos anos, abordando violência de gênero, feminismo e maternidade. 

De R$ 1 mil a quase R$ 1 milhão declarados

Tem candidato que declarou ter exatos R$ 1 mil, enquanto outro informou quase R$ 1 milhão em bens. Estes são os patrimônios dos postulantes a governador(a) do Rio Grande do Sul, que aparecem nos registros das candidaturas na Justiça Eleitoral.

Na declaração, os concorrentes devem informar os elementos que constituem o patrimônio, como imóveis, veículos, aplicações financeiras, ações, participações em empresas e dinheiro em espécie.

O processo é feito pelo próprio candidato, que fica sujeito à análise da Justiça Eleitoral em caso de indícios de irregularidades. _

Total do patrimônio informado

Gabriel Souza (MDB) R$ 935.461,08

Juliana Brizola (PDT) R$ 376.137,78

Luciano Zucco (PL) R$ 709.304,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 249.805,00

Priscila Voigt (UP) R$ 1.000,00

Rejane de Oliveira (PSTU) R$ 498.000,00

POLÍTICA E PODER

15 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Invasão terrestre é atacar PCC e CV?

Diante da fala do secretário de Guerra Pete Hegseth de que o governo dos EUA pretende realizar operações terrestres contra organizações do narcotráfico na América Latina, é tentador pensar em invasões em larga escala, como as de Granada e do Panamá, ou nas guerras do pós-11 de Setembro, no Afeganistão e no Iraque. Não seria assim.

O modelo estaria mais próximo de ações como a de 2026, que capturou Nicolás Maduro; a que capturou Manuel Noriega, em 1990; ou a incursão que matou Osama bin Laden, em 2011.

Mas, aqui, ideias são tão importantes quanto as possíveis operações. Hegseth anuncia a importação para a América Latina da lógica da Guerra ao Terror: grupos criminosos deixam de ser tratados como problema policial e passam a ser inimigos militares passíveis de localização e eliminação. A novidade é a possibilidade de os EUA participarem diretamente da execução dos alvos.

A partir disso, é possível imaginar uma ação americana contra o PCC e o Comando Vermelho. Isso não significa que Trump já esteja autorizado a bombardear o Brasil. A designação terrorista e o uso da força militar são diferentes.

"Ataques em terra" não significam necessariamente soldados avançando pelo território. Podem incluir bombardeios aéreos, drones ou mísseis contra alvos terrestres.

Outra medida plausível seria ampliar o bloqueio financeiro: congelamento de bens, sanções contra pessoas e empresas, bloqueio de transações e punições a bancos ou intermediários.

Também poderiam ocorrer ataques cibernéticos. Outra frente seria a vigilância de comunicações, do rastreamento de recursos, do compartilhamento de dados e imagens de satélite e da identificação de integrantes das facções.

Lideranças ou representantes do PCC e do CV que circulem por Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador ou outros países aliados poderiam ser alvos de operações conjuntas. Essa é uma possibilidade real, porque não dependeria da autorização brasileira.

Um laboratório, uma pista clandestina, poderia ser atacada no Equador ou na Colômbia, desde que o governo local autorizasse. O grupo seria brasileiro, mas a operação não ocorreria no Brasil.

Outra possibilidade seria a interceptação de lanchas ou cargas atribuídas às organizações em águas internacionais ou em territórios de países parceiros.

Incursão no Brasil seria o cenário mais extremo e, hoje, na minha avaliação, o menos provável. Sem autorização do Planalto, seria uma violação da soberania e abriria uma crise diplomática extrema, o que poderia levar ao rompimento das relações diplomáticas, o mais alto grau de degradação dos contatos entre países. 

Dom Jaime recebe honraria

O arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal dom Jaime Spengler, recebeu nesta semana a Ordem do Mérito do Trabalho. A honraria, entregue pelo Tribunal Superior do Trabalho, homenageia instituições e personalidades que se destacam pelas atividades ou serviços prestados à sociedade e à Justiça do Trabalho.

Entrevista - Edmundo de Carvalho Pinheiro

Presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU)

"Sem transporte público como espinha dorsal, cidades travam"

Edmundo de Carvalho Pinheiro, presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, defende uma política nacional de financiamento do transporte público como forma de ampliar os investimentos necessários para melhorar a qualidade do serviço. Durante a feira Lat.Bus 2026, em São Paulo, ele concedeu uma entrevista à coluna.

O passageiro deixou de estar no centro das discussões sobre transporte público?

Um dos grandes problemas que o setor apresenta nesse momento é a queda da demanda de passageiros por modos coletivos. Na pandemia, sofremos uma forte redução de demanda, mas essa demanda até hoje não foi recuperada. Estamos com 77,5% da demanda que existia de passageiros nas cidades brasileiras antes da pandemia. Esse fenômeno já vem acontecendo nos últimos 10 anos. 

A participação dos modos coletivos na matriz de mobilidade nos últimos 10 anos caiu de 45% para 30%. Entre os modos individuais, chama atenção as motocicletas, que saltaram de 1% para mais de 10% nesse período, trazendo uma série de consequências, por exemplo o aumento de acidentes.

Por que na Europa usam muito o transporte público e aqui é visto como algo inferior?

Tem uma frase do Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, que ficou famosa em todo o mundo: país rico é aquele no qual até o rico anda de transporte público, não que o pobre anda de automóvel. Tive a oportunidade, no mês passado, de coordenar uma comitiva em uma visita técnica a Barcelona, que é muito parecida com a minha cidade natal, Goiânia. 

São cidades que têm a mesma população, a mesma frota, mas há uma diferença. Barcelona, apesar de ser muito mais rica, tem mais pessoas andando de ônibus. Por que isso? Lá o transporte tem maior qualidade. Por que tem maior qualidade? Esse é o debate que estamos fazendo.

Em Porto Alegre, existe a polêmica sobre o uso de ar-condicionado. Quais os atributos para melhorar o transporte coletivo?

Há uma série. Conforto, com certeza, é um dos atributos importantes quando fazemos pesquisas de avaliação. O tempo também é algo fundamental para as pessoas. Segurança é um problema que, cada vez mais, tem sido apresentado. Hoje, as pessoas, especialmente as mulheres, têm insegurança para ir a um ponto (de ônibus) na madrugada. Também a confiabilidade, a regularidade, isso é muito importante. 

É um conjunto de atributos. A grande questão é que, para que você possa melhorar a qualidade, isso custa mais. E o transporte, como ele é para todos, você não pode aumentar o preço. Você precisa de um transporte de qualidade, que atenda até o rico, mas que seja acessível a qualquer cidadão.

O comportamento das pessoas mudou com a pandemia, principalmente com o teletrabalho. Ainda impacta?

A questão tecnológica contribuiu para a redução. Mas mesmo com o home office, continuamos vendo problemas graves de engarrafamento, de sinistralidade, com problemas ambientais, com os automóveis tomando espaços públicos, tomando praças. Exatamente essa é a questão: mesmo que mude o hábito das pessoas, se não tivermos um transporte público como espinha dorsal da mobilidade das cidades, elas vão travar. Eu diria que vão até colapsar. 

Temos de seguir o exemplo daquelas cidades que estão conseguindo reduzir a quantidade de carros nas ruas, aumentando as áreas verdes e de convívio. Aquilo que alguns urbanistas estão defendendo: cidade para pessoas, que vai contra o modelo que temos no Brasil, no qual grande parte do custo da sociedade está indo para financiar indiretamente o automóvel. Na medida que você tem que colocar recurso público para fazer um viaduto, você está destinando recursos de toda a sociedade para atender a uma parcela. Isso deveria ser para todo o transporte público. _

INFORME ESPECIAL