15
de maio de 2012 | 6h 19
Arnaldo
Jabor - O Estado de S.Paulo
As 'coisas-zumbis' têm vida
própria
Antigamente
tínhamos um norte, ilusório ou não. Hoje, vivemos numa permanente incerteza que
tentamos deslindar com mecanismos antigos. O colunista ou comentarista se
empoleira num pódio de opiniões e fica deitando regras. Como eu, hoje em crise.
E
aí? Qual é essa de um sujeito ficar dizendo o que acha certo ou errado na
Paisagem? Fico falando na TV,escrevendo nos jornais, tentando ser relevante,
tentando salvar alguma coisa que nem sei o que é. Salvar o quê?
Antigamente,
era mole. O mal era o capitalismo e o bem era o socialismo. Agora,os
intelectuais, caridosos de carteirinha, cafetões da miséria, santos
oportunistas estão em pânico, pois não conseguem pensar sem almejar alguma
forma de 'totalidade'.
Mas,isso
acabou. As coisas estão controlando os homens. As coisas tomaram o poder e nós,
seus escravos, criamos nomes: 'neoliberalismo, esquerdismo, nacionalismo', um
reducionismo apressado para nos dar a ilusão de controle. Mas, hoje, a marcha
das coisas zumbis já começou.
Diante
dessa invasão dos vampiros de mercado e da tecnociência incontrolável, o
pensamento ‘progressista’ ficou lamentoso, tristinho de tanto absurdo, tanto na
guerra internacional como no caos brasileiro. De que adiantam os queixumes?
Como
falar em democracia com muçulmanos analfabetos que desde o século 8.º batem a
cabeça nas pedras para exorcizar qualquer ‘perigo’de liberdade, repetindo
mantras do Corão, enquanto, do outro lado, os caretas republicanos competem
para ver quem é mais reacionário e escolhem esse Romney a repetir mantras da
Bíblia fundamentalista?
É
terrível ver a vitória das religiões sobre a razão, é feio ver o século 21
começando na Idade Média, com bilhões de seres dominados por Alá, combatidos
pelo Deus da indústria de armas.O homem bomba matou o Eu.
Surge
no horizonte da crise uma nova 'razão irracional' (se é que o oximoro é
possível), pois vemos a direita crescer no mundo, junto a uma esquerda cada vez
mais neoestalinista, uma razão burra e organizada, fascistoide, principalmente
na América Latina.
O
problema é que não conseguimos abrir mão do "eu", do desejo de ser um
profeta ou professor ou comandante, tanto no pensamento, na política e nas
artes.E,no entanto,vemos que o mundo se move como uma máquina própria.Os
indivíduos viraram apenas uma peça ínfima que às vezes dispara novas rotas para
as catástrofes.
O
"eu" virou um privilégio para poucos. Hitler foi um "eu"
que encarnou o rancor nacional da Alemanha. Décadas depois, Osama foi um novo
"eu" para atacar a modernização do Ocidente, supremo pavor (e desejo)
do Islã. Do outro lado, Bush arrasou a América e o mundo. Dois psicopatas
mudaram o tempo. Achávamos que tudo se moveria pelas grandes forças
socioeconômicas e acabamos mudados por um maluco religioso e um imbecil
alcoólatra.O mal difuso elege apenas seus operadores.
E no
meio,entreoindivíduoeamassa, respira a liberdade como um bicho sem dono, a
'liberdade' - essa coisa que nos provoca tanta angústia. Que liberdade? Contra
um mal teórico ou a favor de um bem inapreensível? A único consolo que resta ao
"eu" é o narcisismo como moda social, a acumulação de riquezas,
charmes e ilusões.
É o
nascimento do eu-boçal. Seria o eu-burguês, ou eu-Miami. Ou então, o 'eu' como
uma espécie de prêmio para quem furar o muro do anonimato, para quem conseguir
criar um eu fantasioso, um eu excêntrico, um eu que mostra a bunda,um eu de
silicone ou um eu-big brother. O indivíduo está cada vez mais ridículo.
Quem
fala debaixo dessas duas letrinhas: o "Eu"? Quem foi que inventou
essa voz, esse brado que soa de dentro de um organismo, a partir do qual o
mundo é contemplado, o que é essa voz cheia de certezas, quem são esses corpos
opinativos que se pensam diferentes, mas são produzidos em série? Eles
pensam:" Eu quero ser inconformista como todo mundo..." O eu dos
intelectuais está humilhado...
Há
um grande desânimo de pensar, de escrever,de análises sobre algo morto e
inevitável e que já foi decidido. Refletir, fazer obras de arte, pra Quê? Sem
alguma esperança não há filosofia.
O eu
está sem orgulho, inútil. E aí,volta minha crise do início deste artigo
deprimido (quem aguentou ler até agora?): como analisar racionalmente um país
num tempo em que ninguém comanda? Não dá. Tenho de utilizar novos conceitos
para isso. Tenho de me conformar que não há mais solução para muitos problemas.
Nem
para o terrorismo,nem para a miséria e seus crimes. Nem na guerra, nem no
tráfico de São Paulo, por exemplo. Está tudo incorporado ao arquivo morto da
História.Acabou o sonho de um futuro harmônico. O século 21 vai ser uma bosta
mesmo.
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