30
de junho de 2013 | N° 17477
O CÓDIGO
DAVID | DAVID COIMBRA
A mãe, o menino, a bola e o mar
A
praia do Leme estava vazia de gente. A paisagem era feita apenas de sol ameno,
areia morna e as ondas do mar que iam e vinham, iam e vinham. Só havia ali uma
jovem mãe e seu filhinho de uns cinco anos de idade. Ela, de biquíni listrado,
parada de pé, de costas para o oceano, as mãos à cintura, olhando para o menino.
O
menino olhava para uma bola.
Uma
goleira, que no Rio eles chamam de baliza, tinha sido plantada a alguns metros
do menino e da bola. Havia uma bicicleta encostada na trave esquerda da goleira.
O menino recuou alguns passos da bola, sempre olhando para ela. Como a mãe,
também pôs as mãos à cintura.
Ia
bater um pênalti.
A
bicicleta apoiada na trave me inquietou. Pelo menos metade da bicicleta, uma
grande bicicleta decerto usada pela mãe para levar o filho até a praia em
pedaladas preguiçosas, pois pelo menos metade da bicicleta invadia a goleira. Se
o menino chutasse para a esquerda, era grande a chance de acertar a bicicleta e
não marcar o gol. Por que eles não apoiaram a bicicleta em outra coisa?
Mas
não havia nada onde apoiá-la. Havia só a areia morna, o sol ameno e as ondas
que iam e vinham. A bicicleta provavelmente não era dotada daquelas pequenas
alavancas que deixam bicicletas de pé. Ou ficava encostada em uma das traves da
goleira ou jazia ao chão, como que abandonada. Não, uma mãe ciosa não deixaria
a bicicleta abandonada. Uma mãe não larga as coisas no chão. Assim, o risco de
o menino errar o pênalti era real.
A mãe
o observava, e não ria. O menino continuava com o olhar fixo na bola. E também
não ria. Então, respirou fundo. Partiria para o chute. A mãe esticou o pescoço
levemente para frente, supus que apreensiva.
Ele
arrancou em direção à bola. Pela forma como enquadrou o corpo, percebi que era
destro. Correu com a convicção de quem está acostumado a correr na areia. Correu,
correu e parou. Fincou o pé esquerdo ao lado da bola e, com o direito, bateu de
chapa, com o ossinho do lado de dentro, feito um Zico, e a bola alçou voo mais
ou menos à altura da cabeça dele, e viajou, rápida e macia, para o canto certo,
o canto direito, e aninhou-se no fundo da rede. Gol.
Gol!
A mãe ergueu os braços e gritou:
– Gol!
Ele saiu pulando e rindo, gritando: – Gol!
Buscou
a bola no fundo da rede, enquanto a mãe lhe dava as costas e caminhava rumo ao
mar. Ela parou e sentou-se na areia. O menino a alcançou e sentou-se ao lado
dela, em cima da bola. E ficaram os dois olhando em silêncio para as ondas que
iam e vinham, iam e vinham.
A
vantagem do Brasil
Há um
fator bastante favorável ao Brasil na decisão deste domingo. É o seguinte: nunca
vi a Seleção Brasileira perder um jogo em que entra como zebra.
Nunca
vi.
É claro
que o melhor seria a Espanha ter goleado a Itália. Não foi assim, ao contrário,
a Itália mostrou que cachorro grande sempre late grosso. A dureza do jogo
semifinal faz com que a Espanha entre no Maracanã meio que sob suspeita, mas,
mesmo com alguma dúvida, ela ainda é a favorita.
Pois
esse favoritismo é o que pode fazer o Brasil crescer. Nunca houve, não há nem
jamais haverá time no mundo que pise num campo de futebol sem temer o
enfrentamento com a Seleção Brasileira.
O
peixe
Na
ponta da Praia do Leme existe o Caminho dos Pescadores. É um caminho esculpido
na pedra do morro, que vai circundando a encosta e invade o mar. O parapeito é mínimo,
coisa de meio metro de altura, algum incauto já deve ter desabado nas ondas lá embaixo,
e aquelas são ondas ameaçadoras, arremetem nos recifes e rugem como leões na
noite da savana.
Outro
dia, vi uma pescadora puxar do mar um grande peixe, grande pelo menos para mim:
era um peixe do tamanho de um cachorro, não sei de que tipo, eu que só conheço
peixes quando eles vêm mortos, no prato, de preferência com molho bechamel.
Aquele
peixe, de qualquer forma, era um belo exemplar de peixe. Uma magnífica criatura
prateada e reluzente, um animal cheio de vigor, que parecia espantado por ter
sido arrancado de seu meio. Ele arfava com ânsia de vida, respirava com gana e
se debatia com tamanha teimosia que parecia ter esperança de salvação. Cheguei
a pensar: vou ali, compro o peixe e o devolvo ao mar. Mas não o fiz.
Caminhei
mais um pouco, até a ponta do Caminho dos Pescadores. Olhei para o Cristo lá adiante,
atrás dos edifícios, atirei o olhar no oceano imenso, ouvi o bramido das ondas.
E a imagem do peixe em agonia não me saía da cabeça. Voltei em direção à praia,
esperando ver de novo a pescadora. E, de fato, lá estava ela, lá adiante. Estava
agachada, lidando com algo posto no chão. Seria o peixe?
Apressei
o passo. Fui me aproximando. Aproximando. Quando cheguei perto, vi que,
realmente, ela segurava o peixe com uma mão e, com a outra, manuseava uma faca.
Havia aberto a barriga do peixe e, enquanto trabalhava eviscerando-o, ria e
conversava com outros pescadores. Fazia isso não com frieza; com naturalidade. Aquele
peixe, tão ansioso de vida, morrera sem um olhar de piedade, sem qualquer
ponderação.
Eu
devia saber. O mundo não faz ponderações.
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