quarta-feira, 17 de outubro de 2012



17 de outubro de 2012 | N° 17225
JOSÉ PEDRO GOULART

A virgem e o MMA

Li aqui e ali, é notável: a maioria desaprova a decisão da moça de Santa Catarina que decidiu leiloar sua última célula de inocência num evento na Austrália. O pessoal é romântico, ela não. Diz que entrou na história pelo dinheiro, chegou a dizer que iria doá-lo para caridade, depois parece que recuou.

O fato de haver quem pague por uma virgem é interessante. O mito do sangue tirado por uma estocada viril; troço bobo, mas ainda assim passível de manchete no jornal. E ainda há leis que proíbem a prostituição – é o caso nesse caso, a moça teria que estar num avião, sem pátria ou bandeira constituída a lhe regrar e punir.

Ao mesmo tempo, por aqui, bem longe da Austrália, uma outra tradição: um circo de mais de 2 mil anos. O Anderson Silva também quer sangue, só que dos adversários. Ele arranca hemoglobina dos fortões com as mãos, com os pés, com o joelho. A maioria vibra por cada gota despejada nos tablados do UFC. Você vê pessoas chiques, bem vestidas, entrando no evento, artistas dando entrevistas, locutores ufanando os lutadores.

Se há leis que restringem o sexo pago, na arena vale quase tudo. Vi uma cena em que um braço é torcido até quebrar, numa outra, o sujeito tem a garganta apertada, em seguida o sangue escorre do nariz. A plateia uiva. Brasileiros batendo, americanos apanhando. Um dos sujeitos se chama Minotauro, outro é o Spider – míticos, épicos, antológicos. Todos patrocinados por grandes empresas, que ninguém é bobo de ficar de fora do bafão.

Sexo reprimido, violência liberada. Tem sido assim através dos tempos. Neste país, uma mulher, se tirar a parte de cima do sutiã numa praia, pode parar na cadeia. De modo que a reprovação à moça que resolveu leiloar a virgindade foi imediata, você pode oferecer seu corpo para ser espancado, massacrado, arrebentado em troca de grana, mas não para ser lambido, acariciado, chupado.

Enquanto escrevo estas linhas imagino a guria de Santa Catarina, olhos amendoados, passando creme perfumado no corpo, coração disparado, e convenientemente longe de casa. Adeus, mundo inocente, agora é pra valer.

Segundo as regras do combate – eu disse combate? – o sujeito que der o lance maior, até agora cerca de R$ 450 mil, vai encarar o evento com limitações, não pode usar brinquedos/objetos sexuais e não pode beijar. Não pode beijar? Esse mundo. 

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