sábado, 13 de outubro de 2012



14 de outubro de 2012 | N° 17222
VERISSIMO


– Você quer?

– Se você quiser...

– Como, se eu quiser? Você quer ou não quer?

– Se você quiser eu quero.

– Se eu não quisesse não teria perguntado.

– Então você quer?

– Quero.

– Então tá.

– Como, “tá”?

– Tá. Está bem. Sim. Vamos.

– “Tá”... Que coisa triste. A que ponto chegamos. Francamente: “tá”?

– Pedro Henrique, você não vai fazer um drama só porque...

– Não, não. Tudo bem. Eu acho perfeito. Assim termina um grande amor. Não com uma explosão, não com um suspiro. Com um “tá”.

– Pedro Henrique...

– É perfeito. Curto, preciso e definitivo. “Tá”. Como um ponto final. “Tá”, ponto. Que vida conjugal pode existir depois de um “tá”? Nenhuma. Boa noite.

– Sabe o que que eu acho, Pedro Henrique? Acho que você também não estava a fim e está usando um pretexto para...

– Ah, então você não estava a fim? O “tá”, além de tudo, era mentiroso?

– Não desconversa, Pedro Henrique. Você é que estava louco para ir dormir mas decidiu que, já que fazia tanto tempo, tinha a obrigação

de perguntar se eu queria. Não era vontade, era descargo de consciência.

– E já me arrependi. Se era para ouvir um “tá”, melhor não ter perguntado.

– Confesse. Você não sente mais nada por mim.

– Não é verdade.

– Não faz tanto tempo assim, você nem teria perguntado.

– Ah, desculpe a boa educação. Você preferia que eu atacasse você sem avisar? Pimba, sem dizer nada?

– Sem dizer nada, não, Pedro Henrique. Dizendo tudo o que você costumava dizer no meu ouvido, antes do pimba, lembra? Você nem se

lembra.

– Lembro. E lembro de muito mais. Lembro de quando você é que tomava a iniciativa. Coisa que não acontece desde, sei lá. Desde o governo

Sarney.

– O Sarney não.

– O Collor então.

– Não tomava a iniciativa para não ser repelida, porque sabia que você não me amava mais.

– Que injustiça. Que injustiça! Eu nunca deixei de amar você. Não sou mais o mesmo, reconheço. Não digo mais coisas no seu ouvido.

O tempo passa, que diabo. Ninguém é mais o mesmo. Nem o Agnaldo Rayol, que não envelhece, mas aposto que não diz mais o que dizia. Nós todos mudamos com o tempo. Mas isso não quer dizer que eu ame você menos.

– Tá certo...

– Jurema, você, pra mim, é uma semideusa!

- “Semi”, Pedro Henrique?!

– Hein?

– Você disse “semideusa”.

– Bom...

– Antigamente era uma deusa.

– É o tempo, Jurema. Nós todos nos desgastamos um pouco.

– Quer saber de uma coisa, Pedro Henrique? Boa noite.

– Tá.

O escritor Luís Fernando Verissimo está de férias. Esta coluna foi originalmente publicada em 26 de agosto de 2007.

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