quinta-feira, 30 de setembro de 2010



30 de setembro de 2010 | N° 16474
L. F. VERISSIMO


Exageros demais

Gosto muito da frase do Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quando lhe contaram que andavam dizendo que ele era homossexual:

– O pessoal exagera um pouco...

O “pessoal” – aí entendido como não apenas os contemporâneos e conterrâneos do grande Stanislaw como a humanidade em geral – tem mesmo uma tendência a exagerar.

O exagero simplifica e aguça, tem mais graça, chama mais atenção – enfim, é compreensível. E deve ser tratado com a mesma tolerância com que o Stanislaw tratou os boatos do “pessoal” a respeito da sua sexualidade.

Tomemos como exemplos os exageros que dominam este fim de campanha, todos sobre o papel da imprensa nas eleições. De um lado, o dos que dizem que a parcialidade da grande imprensa brasileira chegou a uma espécie de paroxismo com a perspectiva de uma vitória da Dilma com maioria no Congresso, e que há uma conspiração em curso dos grupos que controlam a mídia no país para evitar que isto aconteça.

Do outro, o dos que vêem na vitória da Dilma com maioria uma ameaça à liberdade de pensamento e expressão no Brasil, ainda mais depois do que andou dizendo o Lula – comparado ao Mussolini como líder de uma ameaça populista à nossa democracia – sobre uma grande imprensa “oposicionista”.

Dois exageros perfeitamente compreensíveis, como se vê. O pessoal só exagerou um pouco demais. É difícil imaginar as quatro ou cinco famílias supostamente donas do espaço publicitário no país reunidas para evitar a continuação de um governo que ampliou este espaço como nenhum outro.

Já é difícil imaginar as tais famílias juntas por qualquer motivo. E alguém acredita que a Dilma, uma vez eleita, convocaria os barões da imprensa para, embaixo de um retrato do Duce de Garanhuns, obrigá-los a publicar só o que o governo quer, sob pena de represálias?

De um lado ou de outro, busca-se uma mobilização contra fantasmas inventados. Ou um pouco exagerados.

Mas sejamos como o grande Stanislaw e perdoemos os que exageram. É época de eleições, grandes questões, para não falar em grandes somas, estão em jogo, a moderação e o senso comum perdem para as paixões e, afinal, o “pessoal” é assim mesmo. Aconteça o que acontecer, eu estou saindo de férias.

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