terça-feira, 21 de setembro de 2010



21 de setembro de 2010 | N° 16465
CLÁUDIO MORENO


A cólera dos Deuses

Para deixar bem clara a diferença entre o nosso mundo e o mundo divino, a imaginação dos gregos situou a morada dos deuses num lugar sagrado, inatingível até para os pássaros, que ficava além do mais alto cume do Olimpo, acima mesmo das nuvens, quase perdido no céu. Enquanto a parte humana da montanha era às vezes fustigada pela neve ou batida pela fúria dos ventos, a parte divina era tão serena e tranquila que, dizem, as letras escritas com o dedo nas cinzas dos sacrifícios demoravam um ano inteiro para se desfazer.

Caso algum mortal pudesse sobrevoar a cidadela divina, ouviria, cortando o silêncio daquela altitude, o canto maravilhoso das Musas e o riso inextinguível dos deuses, reunidos no seu eterno festim. Debaixo de um céu sempre azul, o Olimpo não conhecia a tristeza, pois os seus moradores estavam livres do sofrimento e da morte.

Zeus, o soberano supremo, com seu riso fácil e generoso, tinha um bom-humor contagiante – quando estava alegre. Quando estava irado, porém, tornava-se uma figura formidável, sombria, assustadora mesmo para os outros deuses; furioso, o senhor das nuvens abalava todo o firmamento com seus raios e trovões, e a um simples franzir de seu cenho a terra toda tremia.

Quase todos os pensadores da Antiguidade – naquela época, nem mesmo os deuses estavam livres de críticas – condenaram esta imagem impulsiva que os poetas e artistas atribuíam a Zeus. Pois o caminho da sabedoria não passava necessariamente pelo controle desses impulsos, dessas paixões que dominavam o homem vulgar?

Não vinha a tranquilidade da alma da moderação do prazer, da impassibilidade diante dos sofrimentos da existência? Com algumas raras (e notáveis) exceções, o filósofo devia ser sério e imperturbável, como Anaxágoras, do qual se dizia jamais ter rido em toda a sua vida. Ora, se era impossível conceber um sábio rindo às gargalhadas ou cedendo a um ataque de cólera, o mesmo valia para o senhor dos deuses, que deveria ter o decoro e a austeridade compatíveis com sua importância.

Para Cioran, nosso contemporâneo, há um grande risco nesta sabedoria que faz tudo para nos apaziguar e reconciliar com o mundo: ela pode servir simplesmente para matar nossos desejos e paixões, sem nos livrar do tormento de lamentar o que deixamos de dizer ou de fazer.

A tradição pode considerar ridículo e degradante o espetáculo público de nossas raivas, mas às vezes é necessário mandar às favas essa sensatez esterilizante e gritar a plenos pulmões a nossa indignação pelo que sofremos ou nossa dor pelo que estamos perdendo. Afinal, uma boa raiva, um ódio bem alimentado pode tornar mais vivos nossos dias e nossas noites.

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