quarta-feira, 15 de setembro de 2010



15 de setembro de 2010 | N° 16459
DAVID COIMBRA


Cem anos atrás

Já houve touradas e execuções de pena de morte em Porto Alegre. Os touros eram mortos numa arena que existia mais ou menos onde hoje fica a Redenção; os homens, numa praça localizada em frente à Igreja das Dores, no Centro, por esse motivo denominada de “Largo da Forca”.

Por que se acabaram as touradas e a pena de morte?

A pena de morte, devido ao fim da escravidão. Quase todos os condenados, no país, eram escravos, a maioria deles rebelados que haviam atacado seus senhores. Como a história da escravidão no Brasil é praticamente clandestina, poucos sabem que os escravos não raro se revoltavam contra os maus tratos, reagiam, agrediam os senhores e às vezes os assassinavam.

Um dos últimos escravos executados no Largo da Forca foi aquele que, jurando inocência até o momento em que lhe cingiram o pescoço com a corda, lançou um derradeiro olhar para a Igreja das Dores, na época em obras, e rogou uma maldição: a torre do templo jamais seria terminada. De fato, as obras ficaram inconclusas por todo um século.

Já as touradas deixaram de acontecer por razões menos humanitárias. É que Porto Alegre se “germanizou”. Até o século 19, a cidade e o Estado sofriam grande influência ibérica. A partir de 1824, os alemães começaram a chegar. No princípio do século 20, Porto Alegre era uma cidade de típica ascendência alemã, o que lhe restou inscrito no corpo e na alma.

Está na gastronomia. O Chalé da Praça 15 é um remanescente de tantos bares e restaurantes alemães que se espalharam pela cidade. Alguns ainda vigem, resistindo bravamente com seus chopes cremosos e dourados, seus sanduíches abertos de lombinho, seus hamschnitzels, seus praetzels, seus hackepetters, como é bom dizer HACKEPETTER.

Já o Moinhos de Vento é um testemunho de pedra da arquitetura alemã, com seu casario elegante e suas ruas arborizadas.

Finalmente, os clubes de Porto Alegre, em sua grande parte, são produto da cultura associativa dos alemães. Mal chegados aqui, eles passaram a fundar associações. O Leopoldina Juvenil, a Sogipa, o Clube dos Atiradores e tantos outros. Eu, quando nasci, meu avô me associou ao Centro Cultural Alemão 25 de Julho. Meu avô, claro, era alemão.

No amanhecer do século 20, a cidade esfervilhava de novidades. Porto Alegre era uma festa. Em 1903, nasceram seis novos jornais e dois clubes de futebol, os primeiros da Capital. Ambos no mesmo dia, 15 de setembro. Um deles, você já sabe, ainda viceja: é o Grêmio, que hoje completa 107 anos. Outro foi o Fuss-Ball, alemão em todas as suas consoantes dobradas.

Os pormenores da fundação do Grêmio dizem muito a respeito da história de Porto Alegre e do futebol gaúcho. Porque não foi o acaso que fez o Grêmio e o Fuss-Ball serem concebidos no mesmo dia.

É que na semana anterior, no feriado da Independência, o primeiro clube de futebol do Estado, o Rio Grande, fez uma apresentação em Porto Alegre. Os futuros fundadores do Grêmio e do Fuss-Ball assistiam a essa partida, time A do Rio Grande versus time B. A folhas tantas, a bola do jogo, BUF, estourou. Não havia outra.

E agora?

A salvação estava nas mãos de Cândido Dias, um jovem comerciante paulista que havia ganho uma bola de couro de presente de seus parentes de São Paulo, muito provavelmente a primeira bola de futebol que um dia rolou em Porto Alegre. Cândido concordou em emprestar a bola, com a condição de os rio-grandinos ensinarem a ele e a seus amigos como jogar futebol. Feito o acordo, a partida prosseguiu. Oito dias depois, o Grêmio foi fundado nas mesas do velho restaurante Dona Maria, na José Montauri.

Eis aí uma informação decisiva para se compreender o começo do futebol porto-alegrense: os gremistas originais não fundaram um clube para disputar campeonatos ou amistosos com outros clubes simplesmente porque não havia campeonatos e os outros clubes eram apenas um, o Fuss-Ball. O futebol, naquele tempo, era praticado entre amigos, os sócios do clube se enfrentavam. Mais ou menos como acontece com os times de firma hoje em dia.

Foi essa a singela razão pela qual o Grêmio não aceitou a associação dos também paulistas Poppe, seis anos depois. Porque, se entrassem mais jogadores no clube, haveria menos vagas nos times. Os Poppe, então, fundaram o Inter.

E como já havia outros clubes sendo fundados na cidade, um ano mais tarde, em 1910, foi organizado o primeiro campeonato da região, o Citadino. O novo torneio fez com que a cidade se mobilizasse em torno do novo esporte. Ninguém mais queria saber de touradas, só de bola. E tudo mudou. Há exatos cem anos, o que importa, em Porto Alegre, é saber quem será o campeão.

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