sábado, 18 de setembro de 2010



19 de setembro de 2010 | N° 16463
MOACYR SCLIAR


As aparências enganam. E muito

No excelente Milênio (GloboNews), Lucas Mendes recentemente entrevistou Paul Bloom, psicólogo norte-americano, professor da Yale, cuja área de interesse é muito atual, e pode ser sintetizada no título de um de seus livros: How Pleasure Works: The New Science of Why We Like What We Like (Como Funciona o Prazer: A Nova Ciência de por que Gostamos Daquilo que Gostamos).

Ao contrário do dito popular, o professor Bloom acha que gosto se discute, sim, e quer saber o que está atrás de nossas escolhas em várias áreas, que vão desde a arte até as coisas do cotidiano.

A propósito disso, Bloom comentou no programa um episódio que resultou de uma iniciativa do jornal Washington Post e que fez manchetes nos Estados Unidos. O protagonista foi ninguém menos que o famoso violinista Joshua Bell.

Para vocês terem uma ideia do prestígio desse artista, saibam que, dias antes, ele havia tocado no lotado Symphony Hall de Boston, com ingressos vendidos por até US$ 1 mil. Pois, a pedido do jornal, Bell disfarçou-se de artista de rua, foi para uma estação de metrô, e em seu raríssimo Stradivarius de 1713 (valor: US$ 3 milhões) tocou durante 45 minutos, executando seis peças de Bach. E o que aconteceu?

No movimentado lugar, só seis pessoas pararam para escutar (a que ficou mais tempo foi um menino de três anos, isso apesar da insistência da mãe). Dez pessoas deram esmolas, num total de US$ 32. E quando ele terminou não houve aplausos: Bell pegou o violino e foi embora.

Na entrevista, Bloom elaborou um pouco mais a questão, citou exemplos. Contou que a dois grupos de pessoas foram dadas amostras de vinho barato, mas em um caso o produto era identificado como tal, em outro dizia-se que se tratava de um vinho famoso; e quando isso acontecia, os elogios eram unânimes. Não só de boca: imagens de ressonância magnética cerebral mostravam que as áreas de prazer no cérebro se “incendiavam” quando a pessoa tomava o suposto vinho de griffe.

As duas experiências são altamente simbólicas do tipo de vida que levamos, e na qual as aparências jogam um papel decisivo. Restaurantes são disso um exemplo. Muitas vezes, somos levados a lugares luxuosos, com cardápios metidos a sebo e preços astronômicos para comer coisas que absolutamente não valem a pena (num desses lugares, em Paraty, onde eu estava como convidado, tive de devolver o peixe que havia pedido, e que custava R$ 110,00 porque estava queimado e era intragável).

O conceito de comida honesta, e de roupa honesta, e de móveis honestos, e de carros honestos, não parece ter muita vez. O importante é aparentar, o importante é aparecer. E, nessas circunstâncias, um grande artista como Joshua Bell fica relegado a um absoluto segundo plano. Faltou-lhe, sabem o quê?

A imagem: o smoking, o palco, o teatro. Há alguns anos, apareceu uma propaganda muito significativa, que dizia: “Imagem não é nada, sede é tudo”. O que, convenhamos, é verdade. Pena que era propaganda de um conhecido refrigerante. E aí só chamando um menino de três anos para agir como juiz.

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