terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

Bolinhas pula-pula

Os pais criam obsessões com os filhos, e depois não sabem mais como parar. Pode ser com Kinder Ovo, figurinhas, bonecos de pelúcia, brindes do McDonald?s.

É uma coleção que surge de um agrado circunstancial e vira um vínculo permanente de afeto. Eu consumia parte do meu salário com bolinhas pula-pula para contentar os meus dois filhos.

Elas quicavam - cada uma de modo diferente - e saltavam para longe. Lembravam ginastas de roupas coloridas, com saltos ornamentais bem ousados. Chegavam ao telhado com um impulso forte.

Jogadas contra o chão, disparavam imprevisivelmente. Tanto que eu não permitia seu uso na rua, só em casa, para evitar que causassem acidentes, ou que fossem para o meio dos carros, ou que atingissem pessoas na calçada.

Minhas crianças gostavam do efeito, curiosas para descobrir o ponto mais alto que a bolinha alcançaria. Ela batia na parede, no teto, nas quinas das mesas.

Quanto menor e mais elástica, maior a impressão de que contava com vontade própria. Caçar o paradeiro de uma bolinha era a graça, pois ela desaparecia no fliperama dos móveis. As máquinas costumavam ficar na porta de padarias, lojas de conveniência, armazéns, supermercados, lanchonetes, farmácias.

Apresentavam uma vitrine abarrotada de bolinhas de borracha: lisas, transparentes, rajadas, multicoloridas, com desenhos geométricos, manchas e espirais. Algumas se assemelhavam a olhos, outras a bolas de vôlei, futebol, basquete.

Você enxergava todas e, naturalmente, queria uma específica. O problema é que não havia como escolher. Tudo dependia da sorte. Colocava-se a moeda na abertura e girava-se uma manopla metálica.

Ouvia-se o barulho seco das engrenagens e uma bolinha descia para a portinhola. Você enfiava a mão para retirar o presente aleatório. Os gastos começavam por esse impasse. Nunca vinha a bolinha desejada, cobiçada, naquele amor à primeira vista com um dos itens da redoma de vidro. E se repetia o processo para obtê-la.

Os pequenos namoravam logo a mais difícil, a mais vistosa, no topo do montinho, algo como uma circunferência marmorizada, que parecia conter uma galáxia por dentro, mas a geringonça disponibilizava a que estava no fundo, soterrada, anônima e secreta.

Minha niqueleira se esvaziava rapidamente. Eu jamais me detinha nos 50 centavos. Dediquei uma módica fortuna para a nossa vã insistência. Os irmãozinhos perdiam horas comparando as bolinhas, trocando, elegendo a preferida. Antes de dormir, guardavam os brinquedos num pote no quarto e sonhavam com peripécias dos seus planetas saltitantes.

Iniciei os meus filhos numa loteria infantil. Talvez sejam até hoje viciados no acaso, no suspense do incerto, na adrenalina do desconhecido, sem antever o prêmio, atentos para o que a vida oferece, gulosos por novidades.

No fim, quem colecionou a infância deles fui eu. 

CARPINEJAR

 

15 de Setembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Visualização única

Zap para aquele ET que está chegando agora: o Corruptor-Geral da República está na cadeia e, desde a semana passada, o Brasil vem sendo passado a limpo com a exposição pública de mazelas praticadas por integrantes dos altos poderes da Nação e por outros agentes públicos e privados. 

Olhando-se para o copo meio vazio, pode-se dizer que nunca se viu tanta ganância, roubalheira e corrupção. Mas, com o copo meio cheio, pode-se fazer um brinde à transparência.

O aspecto animador dessa verdadeira orgia de imoralidades é que talvez não seja preciso destruir Sodoma e Gomorra para o país sair melhor desse lamaçal. Embora ainda estejamos no olho do furacão e muitas outras tempestades paralelas possam se formar, já se pode vislumbrar com alguma nitidez quem mente, quem tenta se esconder atrás de biombos erguidos em causa própria e quem não teme mostrar a cara.

Os malfeitores da República acabaram fazendo um bem para o país: sem querer, obviamente, reativaram um princípio Constitucional frequentemente negligenciado, pelo qual fica estabelecido que a regra é a publicidade; o sigilo, a exceção. Não sei quanto tempo vai durar isso, nem mesmo se o que ficou combinado na semana passada continua valendo nesta terça, dia D para a sessão de exorcismo do Supremo Tribunal Federal. 

Mas fiquei um pouco aliviado com a revelação dos mandos e desmandos apurados nas investigações da Polícia Federal. São subsídios valiosos para os cidadãos bem informados tomarem posição na hora de escolher seus representantes. E também para o país reavaliar sua governança e buscar novos mecanismos que limitem o excesso de poder.

Talvez essa exposição de feridas seja apenas um flash de visualização única, como as tais mensagens digitais que desaparecem depois de lidas, utilizadas prioritariamente por quem tem alguma coisa a esconder. 

Mas, pelo menos, possibilita que os brasileiros vejam os poderes e os poderosos sem o véu da hipocrisia com que costumam se apresentar, recurso, aliás, ainda utilizado fartamente nas atuais propagandas eleitorais em que os próprios partidos políticos usam voz acelerada para esconder sua identidade e, por consequência, seus verdadeiros propósitos. 

NÍLSON SOUZA

Fachin deve se manter firme

A sessão plenária extraordinária desta terça-feira do Supremo Tribunal Federal (STF) está destinada a marcar época. Os ministros da Corte decidirão como o 15 de setembro de 2026 será lembrado no futuro. Poderá ser a data guardada na memória como um ponto de inflexão, o início da reversão do processo de perda acelerada da confiança pública na instituição. Ou então o dia da maior desmoralização dos 135 anos de existência do Supremo, com consequências inimagináveis para a democracia do país.

Na bifurcação à frente do STF, o caminho da decência exige que o objetivo da sessão seja alcançado e que os ministros analisem o relatório da Polícia Federal (PF) sobre a troca de mensagens entre Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Esse exame deve levar à abertura de uma investigação formal para elucidar a natureza da relação de Moraes com o protagonista do maior escândalo financeiro já visto no Brasil. A trilha da infâmia é a que vem sendo traçada pelo próprio ministro e colegas que o apoiam, para avacalhar o julgamento com uma série de artimanhas regimentais que protelem uma decisão ou então varram as suspeitas graves para debaixo do tapete.

Diante deste momento de singular gravidade, os brasileiros cansados de imoralidades e desvios de comportamento impunes contam que o presidente do STF, Edson Fachin, se manterá firme no propósito de conduzir o plenário a uma decisão. Será preciso vencer a saraivada de manobras anunciadas para frustrar a sessão e torná-la fechada, sem transmissão ao público. Aguarda-se que a maioria dos ministros cerre fileiras na defesa da instituição, postura incompatível com o espírito de corpo. Há indícios mais do que suficientes para um inquérito que investigue Moraes, o que não significa condenação prévia. Isso demonstraria tão somente que a lei deve valer para todos. Parece pouco, mas hoje é muito.

A despeito de vacilações iniciais, Fachin mostrou compreender que a ocasião, pelo caráter histórico, requer determinação. Rechaçou a pressão para que a sessão fosse jogada para as calendas. Negou o exame da conduta do ministro André Mendonça no caso nesta terça-feira, evitando maior tumulto processual. Os atos de Mendonça serão devidamente escrutinados na próxima semana. Fachin assumiu a relatoria das investigações relacionadas ao Master e ao escândalo do INSS para minimizar o risco de uso político das apurações, retirou Moraes da condução do exorbitante inquérito das fake news e determinou o fim de uma série de sigilos.

Moraes se nega a dar satisfações sobre a proximidade com Vorcaro e sobre as suspeitas de que agia como conselheiro de um banqueiro investigado pela PF por fraudes e compra de apoio político. Se não explica, é elementar supor que a razão do vínculo nada tem de republicana. O contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório de advocacia de sua esposa fala por si.

A sessão de hoje tende a ser de máxima tensão. Vários ardis são cogitados pelos aliados de Moraes, como um pedido de vista que adie o resultado. Deveriam lembrar que o julgamento do tribunal da História é implacável.

Em meio à luta cruenta entre alas do STF, Fachin age com isenção e coragem. Tem recebido apoios de peso na sociedade brasileira para ir adiante neste início de processo de saneamento da Corte. A recuperação da credibilidade do Supremo passa pelo seu êxito nesta terça-feira. _

OPINIÃO RBS

15 de Setembro de 2026
Gabriel Jacobsen

REPORTAGEM

Série aborda os principais gargalos que o Rio Grande do Sul precisa enfrentar para avançar em diferentes áreas. Nesta terceira reportagem das oito previstas, especialistas apontam cinco pontos que merecem a atenção do eleitor em gestão fiscal e as soluções para fazer crescer a economia

Nova fase das contas estaduais amplia desafios para os próximos anos

O próximo governador ou governadora do Rio Grande do Sul, ao assumir o Palácio Piratini em janeiro de 2027, terá de lidar com um orçamento pressionado por compromissos obrigatórios e novos desafios fiscais.

Na lista, estão a previsão de contas no vermelho para 2027, a volta do pagamento da dívida bilionária com a União, o fim do dinheiro extra que foi obtido com as privatizações e um provável aumento nos gastos previdenciários.

O cenário dos próximos anos surge após um período de contas públicas no azul. Entre 2021 e 2025, foram cinco anos seguidos de superávits orçamentários - situação diferente da registrada entre 2015 e 2020, quando houve cinco resultados negativos em seis anos.

De outro lado, o Estado teve a seu favor medidas extraordinárias, como a ajuda bilionária do governo federal, recursos expressivos pela venda de estatais e a suspensão por longos períodos no pagamento da dívida com a União.

Esta é a terceira de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área da gestão fiscal.

A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _

1| Renegociação da dívida

A realidade começará a mudar em maio, quando o Estado voltará a pagar a parcela mensal da dívida com a União - o que, no melhor cenário, custará R$ 2,1 bilhões no primeiro ano - entre pagamentos diretos, depósitos exigidos para um fundo federativo e a retomada da quitação de financiamentos relacionados.

Essa projeção considera, primeiro, que o Rio Grande do Sul deixe para trás o regime de recuperação fiscal (RRF), que se tornou um mau negócio logo depois de ser assinado, em 2021, pelo fato de ter vinculado a dívida gaúcha à taxa Selic - índice que subiu de 2% ao ano em 2021 para 10,75% ao ano em 2022.

A projeção de custo de R$ 2,1 bilhões na retomada do pagamento da dívida considera também que o Estado consiga aderir ao melhor dos oito pacotes do novo refinanciamento de dívidas oferecido pela União: o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

Entrada

Esse "pacote premium" do Propag, se conquistado pelo Estado, garantirá 0% de juros reais sobre a dívida gaúcha. Nesse cenário, a migração do RRF para o Propag tem potencial de fazer o Rio Grande do Sul economizar R$ 42 bilhões até o fim do pagamento da dívida, em 2057.

Para conseguir a adesão ao melhor pacote do Propag, o Estado terá de dar entrada (chamada de amortização) de R$ 21 bilhões. Como não tem esse dinheiro em caixa, o Piratini propôs entregar à União o direito a receitas futuras, ou seja, dinheiro que o Estado não tem, mas que deve receber nos próximos anos. Se não conseguir, o Estado precisará aderir a outro pacote do Propag, com mais custos até 2057.

Segundo especialistas, convencer a União a aceitar a proposta inicial e incluir o Estado no "pacote premium" exigirá habilidade política do futuro governador ou governadora.

- Tem de ser bem negociado agora. É uma dívida que teoricamente não deveria existir, talvez já tenha sido paga, mas não há como fugir: o Propag é algo absolutamente necessário para o governo do Estado - destaca Paulo Caliendo, professor de Direito Tributário da PUCRS. _

2| Déficit sem recursos extras

O cenário desafiador para 2027 está desenhado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O documento indica déficit orçamentário de R$ 4 bilhões, já considerando as obrigações associadas à adesão ao Propag.

Conforme analistas, se por um lado a previsão de falta de dinheiro não deve ser suficiente para que o Estado volte a atrasar os salários dos servidores, por outro, limitará a margem para investimentos.

- Um ponto positivo é que o Estado não tem mais o problema de não ter dinheiro para pagar a folha salarial, problema de ter de parcelar. Embora, às vezes, o governo tenha de contingenciar. E onde acontece o contingenciamento? Nos investimentos, principalmente nas obras - afirma o professor Diego Carlin, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da UFRGS.

Na prática, quando o caixa aperta, o governo costuma cortar dos investimentos não obrigatórios, área em que a lei permite passar a tesoura - visto que em outros setores, como saúde e educação, há regras mais rígidas.

Carlin ressalta que o déficit estimado de R$ 4 bilhões é uma projeção, mas o resultado final também dependerá do comportamento da arrecadação.

- Tem um pressuposto de que o Estado só pode gastar o que arrecada. Então, dentro desse déficit, se a arrecadação não chegar no previsto, o Estado vai ter de contingenciar outras despesas - acrescenta Carlin.

Venda das estatais

O ciclo de venda de estatais nos últimos governos injetou cerca de R$ 8,7 bilhões extras no caixa do Estado, especialmente entre 2021 e 2023, dos quais ainda restam cerca de R$ 37 milhões (0,4%). Isso significa que esses recursos, que garantiram respiro nos últimos anos, já foram praticamente consumidos e não estarão disponíveis para quem assumir o Piratini em 2027.

A venda da Corsan, concluída em 2023, injetou R$ 4,1 bilhões no caixa, enquanto a venda das três operações da CEEE, concluída em 2022, rendeu em torno de R$ 3,7 bilhões de forma direta ao RS - além de o Estado ter se livrado de outros R$ 3,5 bilhões em passivos da empresa. Já a venda da Sulgás, em 2021, garantiu mais R$ 0,9 bilhão.

Esses recursos extraordinários vêm sendo usados desde então para, segundo a Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), bancar principalmente investimentos em rodovias, no sistema prisional, em desenvolvimento urbano e na segurança pública. _

3| Redução da capacidade de investimento

Os últimos quatro anos no Estado tiveram índices de investimento muito acima da média dos anos anteriores. Com o fim dos recursos extras e diante dos novos desafios fiscais, a tendência é de queda da capacidade de execução de obras estruturais.

Entre 2022 e 2025, a taxa de investimento do Estado oscilou entre 4,4% e 10,7%. Esses percentuais recentes são superiores ao período entre 2015 e 2021 - com investimentos entre 2,3% e 4,6% ao ano. Esse indicador considera quanto da receita corrente líquida foi destinado para investimentos, a cada ano.

O próximo governo ainda terá a possibilidade de levar adiante o processo, hoje em fase inicial, de venda da Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Outra possibilidade seria reativar o debate acerca da privatização do Banrisul. Contudo, até aqui, o dinheiro que o banco injeta anualmente, somado ao seu papel social, tem afastado a discussão da pauta. Somente no ano passado, foram cerca de R$ 324 milhões em aportes de juros sobre capital próprio e dividendos, de acordo com a Sefaz. 

4| Aumento do custo previdenciário

A reforma da aposentadoria dos servidores estaduais, aprovada em 2019, vem freando o crescimento do déficit previdenciário. Dados oficiais do governo mostram que o déficit chegou a R$ 12,5 bilhões em 2019 e, em 2025, caiu para R$ 10,1 bilhões. Significa que a reforma reduziu em mais de R$ 2 bilhões o rombo previdenciário do Estado.

Discussão no STF

Uma parte da reforma, contudo, pode ser invalidada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos meses. O tema foi questionado por servidores junto ao STF, que já formou maioria para considerar inconstitucional a contribuição extra daqueles que são aposentados na faixa acima de um salário mínimo.

Caso se confirme, ainda resta saber se a decisão valerá apenas para o futuro ou se vai retroagir - ou seja, se o Estado ainda terá de devolver a milhares de servidores os valores descontados nos últimos anos. Caso valha apenas para o futuro, aumentará o custo previdenciário. Se valer também para o passado, pode gerar uma nova dívida milionária, ampliando os precatórios. _

5| Precatórios e investimentos em saúde e educação

Os precatórios são dívidas consolidadas do Estado em decorrência de decisões judiciais. Desde 2019, o Estado pagou R$ 10,2 bilhões em precatórios. Somente nos últimos dois anos, foram desembolsados R$ 4,5 bilhões.

Desde 2023, esses pagamentos atingiram um patamar recorde, o que foi possível graças a empréstimos contraídos pelo Estado especificamente para este fim e a acordos com credores. Ainda assim, o total dessa dívida fechou 2025 na casa dos R$ 16,6 bilhões.

Uma proposta de emenda à Constituição aprovada em 2025 aliviou a pressão ao acabar com o cronograma de quitação total dos precatórios até 2029. Essa mesma PEC estabeleceu, contudo, um desembolso mínimo anual que Estados e municípios precisam fazer para quitar os débitos. Pelos critérios, o RS precisa destinar ao menos 1,5% da sua receita líquida para este fim.

Acordo com o MP

A legislação também exige investimentos mínimos em educação (25%) e saúde (12%). Após anos sem cumprir esses percentuais, o governo do Estado firmou, em 2025, um acordo com o Ministério Público, prevendo a ampliação gradual dos gastos nas áreas na próxima década. Até 2030, o governo estima, por exemplo, que terá de ser aplicado aporte extra de R$ 6,7 bilhões em saúde, com correção.

A principal fonte de dinheiro do governo gaúcho para sustentar os serviços diários, pagar os salários dos servidores e quitar em dia as suas dívidas é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A arrecadação desse imposto, contudo, tem sofrido baques nos últimos anos, seja por decisões estaduais e federais de redução, seja por fatores externos, como as enchentes e a pandemia.

"A evolução das receitas no tempo tem sido inferior a essa demanda de despesas, o que se refletiu nos últimos anos na baixa capacidade de investimentos pelo setor público em diferentes gestões", diz a Secretaria Estadual da Fazenda, em material técnico sobre a situação das contas no RS, solicitado por ZH.

Em 2026, a Assembleia Legislativa também decidiu acabar com a taxa de licenciamento de veículos, decisão que vai retirar dos cofres públicos gaúchos cerca de R$ 750 milhões por ano, a partir de 2027. _

Soluções incluem atrair empresas e articular por fundo constitucional

O melhor caminho diante do cenário desafiador, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, passa especialmente pela diversificação e crescimento da economia gaúcha.

- Nós vamos ter de pensar o Estado olhando para o século 21, que exige muita inteligência, inclusive artificial, robotização e automatização, exige conhecimento e capital que o Rio Grande do Sul possui. Um ponto fundamental é a existência de uma rede de universidades, de capital intelectual, que faz frente praticamente a todos os Estados do Brasil - diz Paulo Caliendo, da PUCRS.

Os especialistas indicam que esse processo busca ampliar a capacidade de agregar valor ao que já se produz no Estado, ao mesmo tempo em que se desenvolvem novos setores econômicos. A vantagem, neste caso, não está apenas em atrair empresas, mas em transformar o conhecimento produzido no Estado em produtividade e novas atividades.

Adaptação à reforma

O próximo governador ou governadora também terá o desafio de adaptar a economia do Estado à reforma tributária - que começa a valer em 2027, em fase de transição, até ser totalmente implementada em 2033. Uma das mudanças impacta uma das formas mais tradicionais utilizadas pelos Estados para disputar empresas: a guerra fiscal, já que a cobrança passará do Estado de origem para o de destino.

Com isso, os Estados terão de competir por investimentos apresentando às empresas mão de obra qualificada, estrutura propícia para negócios, boa infraestrutura, segurança jurídica, oferta de energia, ambiente social e político favorável, entre outras qualidades.

Outra proposta que exigirá capacidade de negociação em Brasília é a criação do Fundo Constitucional das Regiões Sul e Sudeste, uma estratégia para atrair recursos extras ao Estado.

Pauta de diversos setores econômicos do Estado, a criação do fundo encontra eco em grupos que analisam as contas públicas gaúchas, como o Sindicato dos Auditores de Controle Externo do TCE (Ceape/Sindicato).

- Os Estados da federação que hoje mais crescem são amparados por um fundo constitucional que lhes apoia - diz Francisco Barcelos, diretor do Ceape. 

15 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Em meio ao seu maior desafio institucional, o Supremo terá uma sessão extraordinária e inédita para avaliar a relação de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, do Banco Master, que poderá resultar em autorização de abertura de investigação contra o ministro ou em nulidade do relatório da Polícia Federal sobre mensagens entre os dois. Pode haver pedido de vista

Crise no STF - Um julgamento sob pressão e incerto

Mathias Boni

Em meio a uma crise institucional sem precedentes, o Supremo Tribunal Federal (STF) terá, hoje, uma sessão extraordinária para analisar a relação do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. A deliberação, no plenário, para decidir se o tribunal autoriza abertura de investigação contra um de seus ministros será um ato inédito na história da mais alta Corte do país.

No sábado, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria da ação que apura detalhes das relações entre Moraes e Vorcaro. Fachin se tornou relator no lugar do ministro André Mendonça, também envolvido em apurações relacionadas ao Master e Vorcaro e que também será objeto de sessão extraordinária do STF para analisar sua conduta, no dia 23.

- O Supremo já passou por outras crises, teve ministros cassados durante a ditadura, por exemplo, mas nunca passou por um momento de crise institucional tão aguda, com um conflito tão direto entre ministros, como agora. E o tribunal, nunca antes em sua história, se reuniu para decidir se autoriza ou não a abertura de investigação de um dos membros da própria Corte - afirma o jurista Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Na sessão de hoje, explica Duque, os ministros irão deliberar a respeito do relatório da Polícia Federal (PF) sobre as supostas mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro. Os magistrados deverão decidir se aceitam o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede a nulidade do relatório, e também terão que determinar se autorizam ou não o início de investigação contra Moraes ou se arquivam o caso.

Mensagens

O relatório da PF expõe mensagens que sugerem que Moraes discutia com o banqueiro a possibilidade de a PF deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e como Vorcaro poderia frustrar o mandado de prisão preventiva, além de outras possíveis conexões do magistrado com o banqueiro, como o envolvimento do escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, com Vorcaro. O documento foi produzido a partir de uma investigação requisitada por Mendonça.

- Se o relatório for aceito, e se a investigação for mesmo autorizada, dependendo do que for aparecendo no curso dos trabalhos, é possível que algum ministro faça um pedido de afastamento de Moraes de suas atividades como ministro, mas, nesse momento, não acredito que ocorra. No STJ (Superior Tribunal de Justiça), tivemos recente perda de cargo, com a condenação do ministro Marco Buzzi por assédio e importunação sexual, mas no STF é situação completamente inédita - destaca a professora de Direito Constitucional da UFRJ Carolina Cyrillo.

Dessa forma, mesmo que a investigação seja autorizada, não significa que Moraes sofrerá punição imediata. Além disso, seriam necessárias outras etapas dentro de um rito previsto para se chegar a uma decisão definitiva.

- Se decidirem pela nulidade do relatório ou se arquivarem o caso, a investigação nem começa. Se decidirem pelo início da investigação, o que precisa de maioria simples, ainda teriam muitas etapas depois disso. Seria instaurado um inquérito policial, e, ao final do inquérito, a PGR teria de decidir se o conteúdo da investigação justificaria a abertura de ação penal contra Moraes, e só aí o ministro se tornaria réu. Caso se chegue até lá, no final dessa ação, é que o plenário do STF decidiria ou não pela condenação do ministro - ressalta Duque.

Rito

O STF anunciou ontem o rito da sessão. O início será às 10h, com transmissão ao vivo. Após a abertura protocolar dos trabalhos, será feita a leitura e a aprovação da ata da sessão anterior, seguida da saudação aos ministros.

Na sequência, será realizado o pregão do processo. Fachin fará a leitura do relatório e a delimitação do objeto do julgamento. Depois, a PGR se manifestará. Encerradas as manifestações, o relator apresentará seu voto. Em seguida, votarão os demais ministros, na ordem regimental.

Um pedido de vista dos autos poderá ser feito. Nesse caso, as deliberações seriam interrompidas e poderiam ficar suspensas por até 90 dias, segundo o regimento interno do STF. Logo, empurraria a discussão para após as eleições. _

Desde o fim de semana, uma série de pedidos dos ministros do STF foi feita com intuito de influenciar o julgamento de hoje

Sábado - Julgamento só de Moraes

Presidente da Corte, Edson Fachin decidiu que a sessão de hoje julgará apenas o caso de Alexandre de Moraes.

Na mesma decisão, Fachin determinou o envio à Presidência do Supremo de processos relacionados a duas das mais relevantes investigações atualmente em andamento no STF: os casos do Banco Master e das fraudes envolvendo descontos de aposentados e pensionistas do INSS.

A medida contrariou o pedido feito por Alexandre de Moraes, na sexta-feira, para que os dois assuntos fossem analisados conjuntamente.

Segundo Moraes, a separação poderia prejudicar a apreciação do conjunto dos fatos.

Sábado - Cópia dos dados do celular de Vorcaro

Fachin deu 24 horas para que a Polícia Federal (PF) prestasse informações sobre a custódia e o estado em que se encontra o material extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.

A decisão foi tomada após os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes solicitarem acesso à cópia integral dos dados extraídos do aparelho.

Sábado - Reforço da Procuradoria-GEral

A Procuradoria-Geral da República (PGR) reiterou o pedido para que todos os ministros do Supremo tenham acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro antes da sessão marcada para hoje.

No documento, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o conhecimento prévio do material é necessário para que os ministros possam consolidar seu entendimento sobre o caso.

Sábado - Acesso integral a dados

Gilmar Mendes endossou pedido de Zanin para que todos os integrantes que participarão do julgamento envolvendo o Master tenham acesso ao conteúdo do celular de Vorcaro. Gilmar afirmou que uma cópia integral da mídia extraída do aparelho de Vorcaro foi fornecida ao gabinete de Mendonça, mas não aos demais ministros.

Domingo - Cobrança de Zanin

Zanin ordenou que a PF entregasse o conteúdo integral do celular de Vorcaro ao seu gabinete até as 23h.

Na determinação, Zanin argumenta que deseja "formar a sua convicção para estar apto" para o julgamento de hoje, o que só ocorreria, segundo ele, com o conhecimento do material que originou o relatório requisitado por Mendonça.

A PF entregou uma cópia na manhã de ontem.

Domingo - Reação de Mendonça

Mendonça afirmou que a inclusão, às vésperas da sessão da Corte que vai analisar a conduta de Moraes, de informações que ainda não constam dos autos, entre elas o conteúdo integral do celular de Vorcaro, pode "tumultuar o julgamento" e colocar em risco o andamento das investigações.

No despacho, sustenta que todo o material necessário para o julgamento já está disponível aos ministros que participarão da sessão.

Segundo Mendonça, a inclusão de novos elementos neste momento poderia provocar questionamentos e desviar o julgamento de seu objeto.

Domingo - Novo pedido de Moraes

Moraes solicitou a liberação de sigilo de mais um procedimento antes do julgamento. Desta vez, Moraes pediu a Fachin a derrubada do sigilo da Petição 15.645, distribuída a Mendonça, e a disponibilização do conteúdo a todos os ministros que participarão do julgamento.

Essa petição trataria sobre a rede de pagamentos do Master.

Domingo - Cobrança de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes solicitou ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que enviasse cópia dos dados do celular de Vorcaro à Corte. O magistrado reiterou pedido feito por Zanin. A PF enviou os dados ontem.

Segunda-feira - Procedimento invisível

A PGR se manifestou a favor da retirada do sigilo de mais um procedimento relacionado ao julgamento.

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, informou que a PGR nem sequer tinha conhecimento da existência da Petição 15.645, porque o procedimento não aparecia visível para o órgão no sistema do Supremo.

Segunda-feira - Retirada de sigilo

Fachin atendeu ao pedido de Moraes e determinou o levantamento do sigilo da Petição 15.645. Em seguida, Mendonça derrubou o sigilo dessa petição que trataria da rede de pagamentos do Master.

Fim de sigilo sobre rede de pagamento

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, endossou ontem o pedido de Alexandre de Moraes e determinou o fim do sigilo da investigação sobre a rede de pagamentos do Banco Master, contrariando a posição do ministro André Mendonça, que alega risco às investigações. Logo após a decisão, o processo ficou público no sistema do STF. Mais cedo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) também se manifestou favorável à publicidade desse trecho da apuração, que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro.

Em ofício enviado no domingo, Moraes afirmou que o acesso ao processo que envolve a rede de pagamentos do Master é fundamental para o julgamento. O vice-procurador- geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, reforçou em parecer divulgado ontem que o levantamento do sigilo é necessário para que os ministros tenham acesso a todos os elementos relevantes para o julgamento. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

14 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Os áudios acelerados

Quando você perde alguém, o santuário imediato a revisitar não são as fotografias, mas os áudios e as conversas. Você sofre de imensa saudade da voz da pessoa. Do sotaque. Do calor do tom. Da pronúncia intensa, coloquial e afetiva. Do jeito de falar e respirar, de cortar as palavras, de pontuar as emoções, de chamar o seu nome.

A voz é a primeira que morre entre tantas mortes reunidas ao longo do pesar. Só que a pressa nos leva a sacrificar a vida enquanto ela é possível de ser repartida. E de ser resgatada.

Um amigo que enfrenta o luto do pai foi procurar sua troca de diálogos no WhatsApp e descobriu que não havia escutado a maior parte dos áudios. Ou porque corria, ou porque precisava cumprir os prazos no trabalho, ou porque simplesmente não valorizava aqueles depoimentos que vinham frescos e cheios de novidades no decorrer da rotina.

Ele se assustou com o quanto havia permitido que lembranças inéditas entrassem no vácuo, sem direito a uma resposta, um riso ou um comentário. Tinha sido avarento, assumindo uma relação parcial, uma receptividade pela metade, uma reciprocidade fraturada.

Nossos familiares são os que menos recebem retorno, postos na vala comum das mensagens não lidas. Números piscam em verde sem esperança.

Ter intimidade é, paradoxalmente, ser deixado para depois. Não há dinheiro, não há sucesso, não há poder, não há negócios por trás das letras e dos sons exigindo prioridade. A banalidade de você contar o seu dia e perguntar "o que tem feito?" sucumbe na hierarquia da agenda.

O descaso de meu amigo não era pensado. Talvez por ele achar que não se tratava de nenhuma urgência. Ou por considerar que o contato jamais cessaria, que seria infinito, facilitando o desperdício constante das notícias de uma alma. Ou por julgar que tudo se resumia a amenidades conhecidas.

Mal sabia que sentiria falta do básico. O básico, retirado de repente, passou a constituir o alicerce da sua alegria, da sua normalidade. Ele percebeu que não ouvia até o fim, deduzia o que o pai iria dizer ou acelerava a gravação em 1,5x ou 2x de velocidade, transformando a dicção num replicante metálico e anônimo. Não se dava por inteiro, já que não se mostrava minimamente atento ou interessado.

Agora que o pai partiu, o que o filho mais quer é responder. E não pode mais. Dói ver arquivos que não foram baixados. Sequer apertou o dedo sobre a mensagem enviada para que ela continuasse disponível. Nem isso realizou. Não houve uma vez para repetir outras.

O conteúdo não será mais decifrado. Um traço insolúvel. Uma pedra na tumba. Uma experiência brutalmente silenciada. Como uma carta escrita em vão. O pai parou seu tempo para o filho que nunca tinha tempo. E o tempo não volta. 

CARPINEJAR

14 de Setembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Bola de cristal

Em outubro de 2018, dias depois do primeiro turno das eleições, escrevi uma coluna falando sobre tudo que me preocupava em um futuro governo Bolsonaro. O texto era uma resposta a uma pergunta feita pela minha filha. Eu não devia andar com uma cara muito boa naqueles dias, e ela queria entender do que exatamente eu estava falando quando dizia que a vitória da extrema direita seria um desastre para o Brasil.

Relendo aquela coluna, percebo que não errei nos traços de caráter do então candidato que tornariam excruciantes os intermináveis quatro anos em que ele permaneceu no Palácio do Planalto - já eram evidentes o despreparo, o destempero verbal, o fetiche pela violência, o desprezo por tudo que ele não entendia (muita coisa), a arrogância, a falta de noção -, mas falhei miseravelmente na futurologia. Mesmo se tivesse previsto uma pandemia, não conseguiria imaginar um presidente atrapalhando a chegada das vacinas ou fazendo troça com doentes. 

Mesmo conhecendo a visão predatória do futuro presidente em relação à Amazônia, não calculei que a política de "passar a boiada" seria tão escancarada, diligente e criminosa. Mesmo sabendo que o capitão era fã do regime de 64, não esperava que ele tivesse a insolência de tramar um golpe militar. A realidade, quem diria, superou meu pessimismo.

Para o bem e para o mal, hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro. Basta observar como Donald Trump tem se comportado em seu retorno à Casa Branca para conferir, na prática, a tese que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desenvolveram no best-seller Como as Democracias Morrem: líderes populistas autoritários usam o primeiro mandato para testar os limites do sistema, mapear os nós institucionais e identificar quem oferece resistência. No segundo mandato, eles já sabem exatamente onde e como atacar. Azar da torcida.

Desde que tomou posse, o ídolo dos Bolsonaro não deu um segundo sequer de descanso para o planeta. Em sua versão turbinada de mal temperado com pitadas de psicopatia, Trump avança com suas (muitas) pautas particulares ao mesmo tempo em que mete o louco com a agenda da extrema direita norte-americana: guerras, tarifaços, ataques à liberdade de expressão e à democracia, negacionismo - sem falar do objetivo confesso de transformar a América Latina na casa da Mãe Joana. 

Eleger um candidato que não apenas bajula, mas se espelha no maior amigo da onça com o qual o Brasil já teve a infelicidade de lidar não seria apenas um desastre, como em 2018, mas o mais melancólico harakiri moral que o nosso país poderia cometer. 

14 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Investigação sem subterfúgios

O Supremo Tribunal Federal terá nesta terça-feira uma oportunidade histórica para começar a recuperar sua imagem e sua credibilidade perante a Nação - ou para maculá-las ainda mais, se alguma formalidade processual impedir ou postergar o exame transparente das graves acusações que recaem sobre um de seus integrantes. A sessão extraordinária e aberta convocada pelo presidente da Corte, ministro Luiz Edson Fachin, tem como pauta específica o pedido de investigação criminal contra o ministro Alexandre de Moraes por seu relacionamento suspeitoso com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente por comandar um esquema de fraudes financeiras no Banco Master.

O que será julgado amanhã, portanto, é se o STF abre ou não inquérito para apurar a veracidade e a gravidade de informações extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal e que indicam 52 mensagens entre o banqueiro e o ministro referido. Pelas regras processuais, um magistrado investigado não vota no próprio julgamento, mas Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a pedir a abertura de investigação para apresentar sua defesa ou questionar a validade das provas. Aliás, ele já está devendo ao país uma explicação coerente para o contrato milionário do escritório de sua esposa com o banco liquidado extrajudicialmente no ano passado.

Merece reconhecimento o ministro Fachin pela firmeza com que vem conduzindo a crise no STF. Mas a recuperação da imagem da principal corte de Justiça do país não é tarefa exclusiva de um magistrado. Todos os seus integrantes, independentemente de correntes internas ou de relações políticas com os presidentes que os indicaram, devem se comprometer com essa causa institucional. No atual contexto, é inadmissível que algum ministro apele para preliminares ou recursos processuais que obstaculizem a abertura da investigação.

Além disso, a gravidade da situação exige que o julgamento seja conduzido à vista da sociedade. Se as conversas que resultaram no afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do mesmo processo ocorreram a portas fechadas, desta vez é crucial que os debates tenham transparência. Sonegar dos brasileiros a completa apuração das ações praticadas pelos ministros, sob qualquer justificativa, servirá somente para alimentar as suspeitas e deteriorar ainda mais a imagem do Supremo.

A depuração do Tribunal não depende apenas de uma resposta legal e moral para a suspeição de Alexandre de Moraes. Há mais coisas a corrigir no Judiciário, como também nos demais poderes da República. Porém, parece inquestionável que o STF acumula poderes demais, que a implantação de um Código de Ética já tarda e que até o atual sistema de indicação de ministros para a Corte precisa ser rediscutido e aperfeiçoado. Mas o passo urgente a ser dado, neste momento, é a abertura de uma investigação rigorosa, sem subterfúgios, que possa comprovar a culpa ou a inocência do ministro suspeito de usar a toga para favorecer o homem que comandava uma rede milionária de corrupção no país. 

OPINIÃO RBS

 

Manobras podem retardar julgamento de Moraes

Às vésperas da sessão em que o Supremo Tribunal Federal vai decidir se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado por suas ligações com Daniel Vorcaro, o Brasil assiste a uma guerra sem precedentes dentro da Corte. São tantos os pedidos feitos e as decisões tomadas durante o fim de semana que qualquer previsão sobre desfecho pode envelhecer precocemente.

O desafio do presidente do Supremo, Edson Fachin, é evitar que as manobras em curso criem o ambiente para a impunidade. O embaralhamento das cartas mostra que são reais as chances de o julgamento de Moraes e André Mendonça ficar para depois da eleição. É esse o jogo de Moraes e seus aliados.

O mais recente pomo da discórdia é o pedido de acesso à íntegra do conteúdo extraído do celular principal de Daniel Vorcaro. Em resposta ao pedido dos colegas que querem acesso a todas as trocas de mensagens, Mendonça primeiro disse que não as tinha. Depois, alertou que não seria conveniente entregar esse calhamaço de documentos aos ministros, sob pena de tumultuar o julgamento de Moraes, marcado para amanhã , e prejudicar a investigação com a divulgação de trechos que não estão nos autos.

Estudo de telefone requer força-tarefa

A Polícia Federal afirma o contrário: que encaminhou a íntegra ao gabinete do relator. Desconfiado de que Mendonça não entregaria os documentos, o ministro Cristiano Zanin buscou um atalho e determinou à Polícia Federal a entrega do material em seu gabinete até as 23h de ontem. Nos "considerandos" de sua decisão, Zanin assinalou que Mendonça não só recebeu a íntegra da Polícia Federal como disponibilizou cópia para a CPI do Master.

Se todos os ministros que pediram acesso ao conteúdo do telefone de Vorcaro quiserem fazer um estudo detalhado do que é público e do que não foi revelado até agora, dificilmente estarão aptos a julgar Moraes na terça-feira, a menos que montem uma força-tarefa para buscar as respostas em menos de 48 horas, usando a inteligência artificial. Não será surpresa se houver um pedido de adiamento, comprometendo o cronograma do ministro Edson Fachin, que marcou para o dia 23 o julgamento de Mendonça. _

Em live neste domingo, o presidente Lula disse que o filho "pagará um preço muito alto" se tiver envolvimento no escândalo do INSS, mas destacou que "quem tem escritório junto com o Careca é Flávio Bolsonaro".

Zucco faz caminhada na Redenção, o parque preferido da esquerda

Para mostrar que não é só a esquerda que circula pelo Parque da Redenção nas manhãs de domingo, o candidato do PL a governador, Luciano Zucco, participou de caminhada na Avenida José Bonifácio, junto ao Brique.

Acompanhado da vice, Silvana Covatti, e dos candidatos da coligação ao Senado, Marcel van Hattem e Ubiratan Sanderson, Zucco circulou entre os frequentadores.

Depois de uma hora de caminhada, a mobilização foi encerrada com um ato na esquina com a Avenida João Pessoa. No carro de som, o candidato voltou a defender mudança na condução do Estado, com redução das secretarias, melhoria da gestão e prioridade para medidas capazes de retomar o desenvolvimento econômico.

Zucco também citou propostas para áreas como infraestrutura, saúde e segurança pública. Disse que, se for eleito, dará prioridade à melhoria das estradas, à redução das filas por consultas, exames e cirurgias e ao fortalecimento das políticas de proteção às mulheres.

Depois, o candidato do PL visitou o Acampamento Farroupilha de Sapiranga. Em conversa com jornalistas, descartou a privatização do Banrisul:

- O Banrisul está dando resultado e é um banco que usamos para fomentar o agro, a indústria e o comércio. É um banco parceiro. Não temos intenção nenhuma de privatizá-lo.

Neste início de semana, Zucco vai a Lajeado e Dois Irmãos. Na sexta-feira, viaja para a Fronteira, onde participa de desfiles farroupilhas. Os 10 dias finais da campanha serão focados na Região Metropolitana. _

Aliados de Moraes insinuam que Mendonça é parcial

O que os aliados do ministro Alexandre de Moraes insinuam é que André Mendonça tentou direcionar as investigações para defender os interesses da família Bolsonaro.

A situação do ministro ficou mais delicada com a revelação de que a defesa de Flávio Bolsonaro acionou o STF para tentar tirar de Flávio Dino a investigação sobre suposto uso de emenda parlamentar do deputado Mario Frias para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

O presidente Edson Fachin não cedeu porque até os estagiários do Supremo sabem que não cabe ao investigado escolher o juiz que vai julgá-lo.

Fachin foi elogiado por ex-ministros e por juristas pela forma como está conduzindo a crise na instituição e adotando medidas que possam impedir manobras da turma que quer deixar tudo como está. 

Manuela tem de apagar vídeo

A desembargadora federal Vânia Hack de Almeida determinou que a candidata do PSOL ao Senado, Manuela d?Ávila, remova publicações em que associa o empresário Rui Denardin, doador da campanha de Marcel van Hattem (Novo), à lavagem de dinheiro para o PCC.

Manuela teve duas horas após a intimação para retirar as publicações do Instagram, do Facebook e do X, sob pena de multa de R$ 1 mil por hora de atraso. Ao analisar as publicações, a juíza destacou que a acusação ultrapassa a crítica política e atinge diretamente Van Hattem. _

Rigotto obtém vitória na Justiça

Por decisão da desembargadora Jane Maria Kohler Vidal, o deputado federal Maurício Marcon (PL) teve de tirar do ar um vídeo com informações falsas sobre o ex-governador Germano Rigotto, candidato do MDB ao Senado.

No vídeo, Marcon dizia que votar em Rigotto seria eleger Manuela D?Ávila (PSOL) e pautas de esquerda, como aborto, compartilhamento de banheiros entre homens e mulheres e liberação de drogas.

A remoção do conteúdo determinada pela desembargadora se estendeu a todas as plataformas onde o conteúdo foi publicado. 

POLÍTICA E PODER

14 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

O desafio de Trump com as "midterms"

Daqui a 50 dias, os Estados Unidos vão às urnas para uma eleição que pode mudar os rumos do governo do presidente Donald Trump. São as midterms, as eleições de meio de mandato. O pleito recebe esse nome por ocorrer no meio do mandato presidencial e será realizado em 3 de novembro.

Na votação, os americanos vão escolher os representantes do Congresso dos Estados Unidos. Serão eleitos todos os 435 membros da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 senadores.

Mestre em Relações Internacionais, professor de Política Internacional e fundador do podcast Petit Journal, Tanguy Baghdadi explica que as eleições são importantes para a governabilidade do presidente, já que, para aprovar as pautas do Executivo, é necessário contar com o apoio das duas Casas do Congresso.

- Se você tem um governo impopular, a tendência é que ele tenha um resultado ruim nas midterms e possa se tornar um presidente enfraquecido na segunda metade do mandato. Se o partido do presidente não consegue um bom resultado, ele pode acabar ficando relativamente emparedado - explicou à coluna.

Atualmente, o Partido Republicano, legenda de Trump, mantém o controle das duas Casas do Congresso. Projeções, no entanto, apontam os democratas como favoritos.

- Praticamente todas as projeções colocam a retomada da maioria na Câmara por parte dos democratas. O tamanho dessa maioria é difícil dizer. Pode não ser tão pequena assim, mas, de qualquer forma, isso coloca Trump em uma posição muito mais difícil.

Promessa de US$ 5 mil

Na última semana, Trump prometeu pagar US$ 5 mil - cerca de R$ 25,5 mil - a cada adulto do país caso o Partido Republicano vença as midterms. A legislação americana proíbe autoridades de oferecer benefícios ou verbas a eleitores em troca de resultados eleitorais.

- Essa promessa tem um nome: compra de votos. A impressão que tenho é que o trumpismo, como faz tudo às claras, dá a ideia de que é legal. Mas é obviamente ilegal e dá a visão realmente de ser um certo desespero. As pesquisas estão mostrando que o resultado dele tende a ser muito ruim. E, se você tem um governo que não consegue avançar com as próprias pautas, a tendência é que entregue menos. Acaba tornando mais difícil também a possibilidade de o Trump fazer um sucessor - afirmou Baghdadi.

O professor lembra que a perda da maioria no Legislativo pode dificultar a agenda de Trump na segunda metade do mandato.

- De fato, é uma consequência grande. Ele pode ser travado, pode ser barrado, pode ser questionado. Pode ter uma série de constrangimentos para o governo que, naturalmente, podem dificultar bastante a vida do presidente e do seu partido. _

Parceria internacional

A parceria entre o Hospital Moinhos de Vento e organizações de saúde do Uruguai gerou frutos. Na última semana de agosto, Ricardo Araujo Abimorad, de 60 anos, otorrinolaringologista e morador de Rivera, foi submetido a uma cirurgia pela equipe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia.

Ele está entre os primeiros pacientes atendidos dentro desse modelo de cooperação, no qual o hospital de Porto Alegre mantém acordos de cooperação com o Sanatorio SEMM Mautone, na região de Punta del Este, a Sisamérica e a Medicina Personalizada. _

Entrevista

Roberto Padovani

Economista-chefe do BV

"A visão do gaúcho sobre o RS é mais

dura do que a do resto do país"

Roberto Padovani é economista formado pela USP, administrador pela Fundação Getúlio Vargas e economista-chefe do Banco Votorantim, atual BV. Foi sócio por 10 anos da Tendência Consultoria e assessor do Ministério da Fazenda durante o Plano Real. Ele esteve em Porto Alegre em agosto e conversou com a coluna.

Há otimismo após a retomada das negociações entre Brasil e EUA sobre o tarifaço?

A avaliação de uma consultoria nossa em Washington é de que o tema vai continuar no radar, com idas e vindas. É um tema sobre o qual temos um viés mais negativo. Não que não possa haver negociações, que as coisas não possam ser conversadas. Mas achamos difícil haver uma mudança radical de cenário a favor do Brasil. Isso porque a política tarifária americana reflete uma estratégia geopolítica, que é o redesenho da ordem internacional. Esse redesenho é de um mundo fragmentado: estão sendo criadas zonas de influência dos EUA e da China. 

Pode haver conversas indo bem com os EUA porque estamos na zona de influência deles e, em tese, não teriam interesse em atrapalhar seus aliados. Mas o que temos visto na gestão Trump é justamente o confronto com aliados. Impõe tarifas, percebe os custos, volta atrás, depois impõe novas... É um tema que se arrasta. Não vemos perspectiva de que essas coisas mudem rapidamente.

A menos de um mês das eleições brasileiras, economistas estão de olho nos programas de governo dos candidatos ou estão em compasso de espera?

O que acaba movimentando os mercados financeiros é sempre o fluxo global. Se você tem uma situação global tranquila, favorável, pode haver o desafio que for no Brasil, do ponto de vista econômico ou político, que os mercados não costumam reagir muito. A não ser em casos muito agudos, crises políticas muito agudas. Era o caso do boom das commodities, no início dos anos 2000. O cenário era favorável. Assumisse quem assumisse, estava tranquilo. Aqui no banco, prestamos muito mais atenção em certos eventos americanos. 

Tem um debate fora do país sobre se o Banco Central americano irá manter os juros parados ou se subirá. Teremos pela frente, em 2027 e 2028, um ambiente global que não nos ajuda. Quando a situação global vai bem, o estrangeiro nem olha para o que está acontecendo aqui. Mas, quando o ambiente é de cautela, ele olha mais os detalhes: "Vou investir no Brasil? Vou, mas quero mais informações, quero estar mais seguro". Se olharmos para fora e a situação está instável, os temas locais ganham relevância, como a dívida pública.

Passada a tragédia de 2024, qual é a percepção de risco dos investidores sobre o Estado?

Uma coisa que acho curiosa é que a visão do gaúcho sobre o RS é muito mais dura do que a do resto do país em relação ao Estado. O local tende a ser muito mais ácido, muito mais crítico. Olhamos Santa Catarina e RS: são Estados com uma característica peculiar e incomum no Brasil. Há uma conexão do agro com a indústria. A agroindústria é para valer. Pega a indústria metalmecânica no norte do Estado. Estive em Panambi. É impressionante essa indústria na cidade. O pessoal reclama: "Precisava ter uma cadeia de insumos mais bem estruturada". 

Mas é inacreditável a história da cidade. Como você tem essa integração agroindustrial muito sólida, isso cria no Estado um tecido industrial e econômico muito poderoso. A principal conclusão disso é o mercado de trabalho no sul do país, com taxas de desemprego abaixo da média nacional. Você conversa com qualquer empresário, todos relatam dificuldade para encontrar mão de obra. Isso tem um lado ruim, que é a pressão de custos nas empresas, mas tem o lado bom: salário para cima, renda alta. 

E, por conta disso, como você tem um tecido industrial e uma renda persistentemente mais alta, os índices de inadimplência são historicamente mais baixos. Portanto, as condições de oferta de crédito são muito melhores no RS. É um Estado industrial muito completo. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 12 de setembro de 2026

 

12 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O galo que mandava em casa

Eu encontrei, num brechó, aquele galo que já me anunciou muitos amanheceres. Um pequeno galo que cabia na palma da mão e determinava nossas roupas, se sairíamos de casaco, de guarda-chuva, de galochas.

Nem a minha mãe ou o meu pai mostravam tanta influência. Ele mudava de cor conforme a umidade do ar. Não media propriamente a temperatura, mas era como se fosse nosso meteorologista.

Ficava numa base arredondada, num poleiro particular, pronto para farejar os ventos.

Se o galo de verdade cantava quando a claridade do dia chegava, aquele detectava o minuano silenciosamente. Azul indicava clima seco; rosa nos orientava para o toró e para o frio. A percepção dessas alterações vinha de sais de cobalto em sua plumagem.

O galinho ocupou, durante longo tempo em nosso Pampa, o posto do pinguim em cima da geladeira. Uma superstição doméstica que virou decoração, ou uma decoração que se tornou crendice.

Poderíamos observar as nuvens tomando o céu, e somente acreditávamos no seu aspecto violeta. Poderíamos estar debaixo de um sol acachapante, mas somente confiávamos no seu perfil rosado.

No nosso terreiro, ele mandava.

Fazia parte de uma família de utensílios que modelavam o nosso comportamento no interior do Estado: a maçã de plástico no filtro de barro; a folhinha do calendário atada por uma chapinha metálica; o descanso do pano de prato na tampa de vidro do fogão; o bordado com miçangas nas pontas para espantar as moscas e cobrir a cesta de pão ou o bolo recém-tirado do forno; 

a passadeira de plástico transparente sobre a mesa, para não sujar a toalha bonita; a saboneteira com sabonetes cenográficos, perfumados, que ninguém tinha autorização para usar; o rolo de papel higiênico reserva escondido na bonequinha de crochê; o porta-fósforos preso à parede da cozinha; o porta-pente de tecido pendurado no banheiro, em que cada andar ou bolso trazia um pente de um tamanho diferente; 

a cortina de contas na porta, denunciando quem passava; o tijolo segurando a porta dos fundos para não fechar; o escorredor de louça com pratinho em pé; a garrafa térmica com café açucarado para a manhã inteira; o tapete da área de serviço feito de retalhos, que se enrodilhava numa leve pisada.

Somos vulneráveis para a nostalgia. Uma miniatura me devolveu os anos da minha formação. Ativou a memória involuntária. Num secreto estímulo sensorial, reconstituiu a minha casa da infância de maneira repentina.

Não revisitei apenas os objetos, mas os ruídos, os cheiros, as vozes, a sensação de transitar por um mundo extinto, como se houvesse uma ressurreição possível ao menino que fui.

Jamais é só um galo. Puxei uma pena e recebi toda a residência de volta. Metade construção, metade madeira; metade verão, metade inverno.

Ele deve ter também o poder de regular a temperatura do meu corpo. Aqueceu-me como nunca de frentes geladas da ausência. Ou de uma presença remota, sempre prestes a aparecer. _

CARPINEJAR

12 de Setembro de 2026
Fayda Belo - Advogada e comunicadora

"Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão"

Fayda Belo da Costa Gomes nasceu na periferia de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 1981. Por presenciar opressões desde a infância, aos oito anos já sonhava em ser advogada.

Começou a realizar esse sonho ao cursar Direito por meio do Prouni, já mãe de dois filhos. Tornou-se criminalista e virou referência em casos de crime de gênero e direito antidiscriminatório. Apesar da gagueira, amealhou milhões de seguidores nas redes sociais com seus vídeos "descomplicando o juridiquês".

Em agosto, esteve na Capital como uma das mais aguardadas palestrantes do Cidade da Advocacia, evento organizado pela OAB/RS, e conversou com Zero Hora.

Mathias Boni

Quando você começou a pensar em ser advogada, e depois se especializar em direito criminal e antidiscriminatório?

Ocupar esse lugar sempre foi o sonho da minha vida. Veja, além de ser uma mulher, sou negra, e vim de um lugar muito pobre. Cresci vendo todo tipo de opressão, contra mulheres, contra homossexuais, contra pessoas negras, pessoas pobres. E, já muito cedo, com uns oito aninhos, comecei a ter esse sonho de ser advogada e atuar contra essas opressões, que é o que eu faço hoje. Tive que enfrentar muitas barreiras para entrar na faculdade, mas consegui me formar e finalmente virar advogada.

Aqui no Rio Grande do Sul, e no Brasil como um todo, são muito preocupantes os atuais índices de feminicídio. O que é possível fazer?

A primeira reflexão é que esse crime é o último grau, é um crime que avisa antes que vai vir. Se é o último grau, houve alertas anteriores que foram ignorados. É uma obrigação do Estado desenvolver de forma efetiva políticas públicas que atentem para esses alertas, e que previnam que o crime seja consumado. Se é um crime que avisa antes, significa que essa rede que, em tese, tinha que dar amparo e proteção a essa mulher, falhou. Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão, ela não vai voltar à vida. É preciso intensificar a proteção nas fases anteriores ao crime.

Tramita no Congresso o projeto de lei que ficou conhecido como PL da Misoginia. Como você avalia a proposta?

A gente vive em um mundo que está cada vez mais online, que também abriu espaço para muitos discursos de ódio, e um desses é contra as mulheres, com essa onda red pill, por exemplo. É um discurso misógino que se reflete em crimes contra as mulheres, em opressão contra as mulheres, e isso tem que ser coibido. O PL é muito necessário e vai além do combate ao discurso digital. É amplo e se propõe a combater todas as formas de discursos de ódio e discriminação contra a mulher, que é a pólvora que alimenta crimes como os feminicídios. O PL cria um dispositivo jurídico que facilita o reconhecimento e a punição desse discurso de ódio como crime.

Em agosto se completaram 20 anos da Lei Maria da Penha. Qual foi a importância dessa legislação para reforçar a proteção às mulheres nas últimas duas décadas?

É um marco histórico na vida de todas as mulheres brasileiras. Foi com essa lei que começou no Brasil a se reconhecer que o ambiente de casa também é perigoso para a mulher, para a esposa, que o marido não pode enxergar a esposa como sua posse, que ele também pode violentar e matar essa mulher. A lei também não nasce a partir de uma vontade voluntária de proteger as mulheres e, sim, da omissão na proteção dessas mulheres, que já tinha produzido tantos casos terríveis de sofrimento. A contribuição que a lei trouxe para a proteção às mulheres, e mesmo para o debate da violência de gênero no Brasil, foi inestimável, mas mesmo assim ainda vivemos em um país onde, em média, são assassinadas quatro mulheres por dia. Se não fosse a lei, a proteção jurídica e a evolução no debate e na consciência das mulheres que promoveu, esse número seria muito maior.

Nesse cenário de violências contra a mulher, o panorama é ainda mais sensível para mulheres negras?

A mulher negra é duplamente vulnerável: sofre com a opressão relativa ao gênero e com a opressão relativa à raça. Esse fato faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas desses crimes de violência. O Brasil é um país com muitas violências machistas, e o peso dessa violência recai sobre a mulher. E o Brasil também é um país com muitas violências racistas, e o peso dessa violência recai sobre os negros. A mulher negra, portanto, acumula esses dois pesos. Por isso, quando crio uma ação ou uma política pública de proteção às mulheres sem o recorte racial, será uma política falha, incompleta

Nos seus anos de atuação no âmbito do direito antidiscriminatório, o quanto acha que evoluiu o combate ao racismo no Brasil?

Se avançou muito no Brasil nas últimas décadas, mas, da mesma forma, ainda há muito a ser feito. Mais recentemente, do ponto de vista legislativo, a lei que equipara a injúria racial ao racismo, em 2023, foi um avanço importante. Por outro lado, as principais instituições do Judiciário continuam tendo autoridades majoritariamente brancas. Os tribunais de Justiça, ministérios públicos, mesmo as delegacias, ainda seguem com uma grande maioria de autoridades sendo homens brancos. É inegável que ocorreram avanços de inclusão social no Brasil nas últimas décadas, teve a Lei de Cotas, que foi fundamental para isso, e também avançaram as leis de combate aos atos de racismo. Estamos avançando, mas não podemos parar.

Como você define a importância de sua presença digital dentro do trabalho?

Quando participamos de congressos e palestras, a mensagem chega só para aquele público. No mundo online, um vídeo, uma postagem nas redes sociais chega a milhões de pessoas. Então é muito importante se apropriar desse espaço e usar esse alcance para reforçar a mensagem da igualdade de gênero, de raça. Depois que meu primeiro vídeo viralizou, entendi que é uma plataforma que pode ser usada para levar informação ao público, falando sobre leis, conscientização, direitos, e que, muitas vezes, se não for pelas redes sociais, muitas pessoas não têm acesso a esse tipo de conhecimento.