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sexta-feira, novembro 21, 2014

Jaime cimenti

A grana preta oriental e o fusquinha azul do José Mujica

Nelson Rodrigues disse que o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Lá em Bento Gonçalves, os gringos inteligentes sabem que com dinheiro tu fazes até um urso dançar, especialmente se o urso for de alguma cidade próxima. Dinheiro fala muito, fala alto e curava até as doenças imaginárias da minha vovó pobre, lá na Itália. Mas será que dinheiro compra tudo, mesmo? Tem coisas que não têm preço?

No filme Proposta indecente, de Adrian Lyne, de 1993, o milionário encarnado pelo então cinquentão sexy Robert Redford aproveita a pindaíba de um jovem casal e a beleza da esposa interpretada pela deusa Demi Moore, na época com trinta e um aninhos, e oferece um milhão de dólares por uma noite de amor. Ela e o marido topam, achando que o cara era meio velhinho e tal, que não daria em muita coisa. Não foi bem assim.  O resto vocês sabem.

Um milhão de dólares um xeque árabe ofereceu pelo modesto fusquinha azul 1987 de José Mujica, presidente do Uruguai. Pois é, ainda existem fios de bigode e princípios nesta terra. Mujica disse que enquanto viver não vende o besouro, símbolo maior da austeridade do presidente mais pobre do mundo. Pelo visto, nem adianta o árabe insistir ou oferecer mais. Olha que US$ 1 milhão é mais ou menos o valor do Prêmio Nobel. Na nossa poupança renderia uns R$ 125 mil por mês.

Mujica poderia ter aceitado a oferta do xeque e destinado a tremenda bufunfa aos pobres, como, aliás, ele  faz com boa parte dos salários que recebe como presidente do Uruguai. Ele preferiu ficar com o fusca azul e nos mostra que tem coisas sem valor de venda, objetos e sentimentos inseparáveis e invendáveis, como a felicidade, a honra, o amor, a saúde, o humor e a paz.

O fusca azul de Mujica deve permanecer como símbolo de austeridade, de apego a coisas simples e a princípios inarredáveis. Se o fusca do Mujica falasse, diria que está feliz em ver que o dono não o considera apenas uma lataria, dois faróis, um motor e tudo o mais que o transporta. É isso. Mujica preferiu ficar com seu brinquedo de menino e homem e com suas lembranças e deixar o milhão de verdinhas de lado.

Sinal de loucura ou de sanidade? Você decide, atento e sensível leitor. Você decide também se o dinheiro manda em ti ou se tu é que mandas no dinheiro. É tudo contigo. Mujica já decidiu.
Jaime Cimenti


Jaime Cimenti

Melódica e cativante busca da identidade

O romance O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (Alfaguara, 328 páginas, tradução de Eunice Suenaga) do consagrado e premiado escritor japonês Haruki Murakami, antes de mais nada, revela uma nova faceta para os leitores novos e para os que já conhecem sua obra. Murakami já recebeu, entre outros, os prêmios Franz Kafka e Yomiuri.

Nascido em Kyoto em 1949, é um dos autores japoneses mais importantes da atualidade e já foi traduzido para 42 idiomas. Dele a Alfaguara já publicou o relato Do que eu falo quando eu falo de corrida e os romances Minha querida Sputnik, Norwegian Wood, Kafka à beira-mar, Após o anoitecer e a trilogia IQ84.

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação tornou-se um fenômeno no Japão, com mais de um milhão de exemplares vendidos em uma semana e atingiu o primeiro lugar em listas ao redor do mundo.

A envolvente narrativa trata de Tsukuru Tazaki, um homem solitário, na casa dos 30 anos, perseguido incessantemente pelos fantasmas do passado. Mora sozinho em Tóquio, é obcecado por trens e estações ferroviárias. Trabalha no projeto e na construção de estações de trem.  Vive em uma espécie de vazio. Quando jovem, vivia com um grupo de cinco amigos inseparáveis, em Nagoia, que davam sentido à sua vida. Ele se sentia parte de algo maior.

Cada amigo tinha uma cor no sobrenome, mas Tsukuru não tinha. Ele não esquece jamais que, 16 anos atrás, foi, inexplicavelmente, expulso do grupo e nunca mais viu os amigos. Ele fechou-se em si mesmo, com medo de buscar explicações. Sua atual namorada Sara, dois anos mais velha, que ele ama, mas está prestes a perder, o estimula a reencontrar cada um dos amigos para descobrir a verdade.


Na emocionante busca pela identidade, a jornada vai levá-lo a locais distantes, em uma transformação espiritual na busca pela verdade. Melódica e cativante, a narrativa vai descortinando pessoas perdidas, lutando para lidar com o desconhecido e, de algum modo, aceitá-lo. Algo que, de certo modo, acontece com todas as pessoas.

21 de novembro de 2014 | N° 17990
ARTIGOS - CARLOS EDUARDO RICHINITTI*

MINHA CELA, MINHA VIDA

A Operação Lava- Jato, que desnuda a conhecida mas até então impune relação promíscua entre grandes empreiteiras e o poder público, renova a esperança, tal como o “mensalã”, de que essas verdadeiras aves de rapina, que háanos enriquecem à custas da miséia de milhõs de brasileiros, estejam ameaçdas, se nã de extinçã, ao menos de viver em cativeiro prisional.

Não me iludo e sei que o caminho para a punição de desvios é longo. A corrupção está institucionalizada no seio da sociedade brasileira, em especial no meio político, há muito estruturado em premissas e condutas viciadas, que começam no financiamento de campanhas e culminam na chantagem de só funcionar se interesses, nem sempre republicanos, forem atendidos.

A recém-finda campanha política é uma fotografia perfeita e acabada desse cenário corrompido. Os candidatos ocuparam quase todo o espaço disponível não para ganhar a confiança do eleitor com projetos ou propostas, mas, sim, para provar qual pertence ao grupo mais corrupto.

Triste, para dizer o menos. Surge, nesse cenário de es- curidão, uma nesga de luz. Uma polícia estruturada, um Ministério Público ativo e um Judiciário independente co- meçam a trabalhar em conjunto, apresentando resultados que entusiasmam.

Bendita delação premiada, que agora começa a vingar neste país. Flagrados, criminosos, para salvar a pele, oferecem a cabeça dos comparsas, fraqueza moral absolutamente coerente para quem vive do ilícito.

Também, na expectativa de redução da pena, comprometem-se a devolver parte do que foi apropriado e agora, de forma inusitada, já admitem construir casas, não de moradia, mas prisionais.

Quem sabe, a partir disso, não estejamos próximos do lançamento de mais um grande programa social – o “minha cela, minha vida”. Caso isso aconteça, tenho certeza de que as obras não serão superfaturadas, a qualidade das construções será boa e será um projeto de grande alcance, pois, se as coisas começarem a ser sérias neste país, muita gente, sem dúvida, vai se “habilitar” como beneficiária do programa.


*DESEMBARGADOR DO TJRS

21 de novembro de 2014 | N° 17990
EDITORIAL

CONSULTORIAS DE FACHADA

Os desvios na Petrobras só atingiram as proporções conhecidas agora porque faltaram cuidados mínimos na liberação de recursos, como os direcionados a empresas fraudulentas.

O detalhamento de como eram movimentados os bilhões de reais desviados da Petrobras já deixou claro que um dos caminhos mais usuais eram as consultorias de fachada. Na prática, são empresas contratadas supostamente para prestar serviços à estatal, mas que serviam de fato era para sugar grandes quantias de recursos sob um frágil disfarce de legalidade. Até para que as empresas idôneas não sejam confundidas com as especializadas em falcatruas, esse tipo de contrato precisa ser melhor avaliado e fiscalizado, além de devidamente regulamentado, para estancar vazamentos de recursos públicos sem o controle da sociedade.

No caso envolvendo a maior estatal do país, esse era o tipo de procedimento usado por alguns dos principais réus. Entre eles, estão desde o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa até o doleiro Alberto Youssef, incluindo o lobista Fernando Soares, mais conhecido como Fernando Baiano.

A alternativa costuma ser associada a políticos de diferentes partidos, desde que estejam no poder ou ligados à gestão pública em diferentes instâncias da federação. E é usada reiteradamente em casos rumorosos de corrupção, como o do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS) e as suspeitas de fraudes nas licitações de trens em São Paulo. Uma das empresas acusadas em São Paulo, a multinacional francesa Alstom, chegou a abolir as consultorias, usadas principalmente como forma de intermediar e camuflar o pagamento de propinas.

Dinheiro público não pode ser liberado sem o cumprimento de exigências mínimas, como a de licitações, nos casos previstos em lei, além da comprovação efetiva do serviço contratado. Os desvios na Petrobras só atingiram as proporções conhecidas agora porque faltaram cuidados mínimos na liberação de recursos, como os direcionados a empresas fraudulentas. Inaceitável em qualquer caso, esse artifício é ainda menos admissível em empresas que, pelo seu porte, mobilizam uma grande quantidade de fornecedores e de recursos financeiros, como a estatal energética.


O caso Petrobras já serviu para reafirmar que as instituições brasileiras estão aptas a apurar desvios de qualquer porte. Falta agora o setor público se equipar para prevenir internamente ocorrências desse tipo, cujos prejuízos não são unicamente financeiros.

21 de novembro de 2014 | N° 17990
 DAVID COIMBRA

As perguntas que teremos de responder

Se fosse gastar mais de um parágrafo escrevendo sobre gente que clama por intervenção militar no Brasil, me sentiria tão vazio quanto se gastasse mais de duas linhas com gente que sai à rua pelada. A diferença é que estes, os pelados, não fazem mal a ninguém, são apenas bizarros, e aqueles, os saudosos da ditadura, fariam mal, se sucesso tivessem; são patéticos.

Dilma foi reeleita com legitimidade. Só poderá ser arrancada do cargo com legitimidade, como o foi Collor. Os escândalos de corrupção podem levar a tanto? Aí já é outra discussão. Aí quem protesta contra o governo também o faz com legitimidade e tem toda a razão de ganhar o cimento das avenidas e pedir cabeças em bandejas, até porque esse caso policial está só no início.

A corrupção corre como seiva pelo caule do governo, é verdade, mas também é verdade o que os governistas alegam em defesa: que esse mal não é novo. Paulo Francis morreu denunciando roubalheira na Petrobras, e isso se deu em 1997, em meio ao governo Fernando Henrique.

A diferença é que, agora, a corrupção está mais entranhada na administração pública, é mais sistêmica, mais caudalosa e, principalmente, está sendo comprovada. E não porque o governo teve “vontade política”. Isso é balela. Dizer que o atual governo “permite” as investigações é o mesmo que dizer que os militares “concederam” a volta da democracia. A redemocratização e a independência da Polícia Federal, do Ministério Público e da imprensa são conquistas da sociedade brasileira, e não fruto da benevolência do governo. De qualquer governo. Ao contrário: este governo (e outros) calaria a imprensa, ataria o Ministério Público e sabotaria a Polícia Federal, se lhe dessem instrumentos para isso. Já tentou e, pelo menos por enquanto, não conseguiu.

O que há no Brasil é um quadro novo, com instituições fortalecidas pela prática democrática e uma ferramenta legal que foi aperfeiçoada nos últimos anos: a delação premiada.

Esse juiz, Sergio Moro, pode, bem sustentado pelo Ministério Público, pela Polícia Federal, pela imprensa e pela população, ele pode transformar a República. Aliás, abre parêntese: vale pagar R$ 4 mil a mais de salário para um juiz desses? Fecha parêntese.

Retomando: o que a magistratura e a PF estão realizando pode ser algo renovador e saudável para o país, pode fundar um Brasil diferente, se houver punição dos responsáveis por todos esses crimes. Agora: a punição atingirá os atuais e os ex-governantes? Essa a primeira pergunta palpitante.

Tome Fernando Henrique. Ele foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda no governo Itamar, e depois duas vezes presidente da República.

Tome Dilma Rousseff. Ela foi ministra-chefe da Casa Civil, foi ministra das Minas e Energia, foi a “mãe do PAC” e foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras no governo Lula, e agora entrará no seu segundo mandato como presidente da República.

Com tamanha bagagem de um e outra, é de se duvidar que não soubessem das irregularidades que grassam pelos corredores do poder, mas, por conhecer o comportamento e a história de um e outra, é de se duvidar que sejam corruptos. Ninguém irá dizer que Dilma e Fernando Henrique enriqueceram no Planalto. Não enriqueceram.

Surgem, então, perguntas mais sofisticadas. A passividade de governantes e ex-governantes será o suficiente para levá-los à punição? A sociedade brasileira terá estrutura para, em nome da estabilidade, conviver com um governo que a enganou? O governo conseguirá dirigir o país sustentado tão somente pelos argumentos de que em outras gestões também houve roubo, de que todos os ladrões são iguais e que, saindo um grupo corrupto, outro entrará em seu lugar?


São questões que o Brasil provavelmente terá de debater em breve, quando o resto do lixo for regurgitado pelos esgotos de Brasília. Mas sempre dentro da legalidade, sempre dentro da norma constitucional, sem essas ridicularias de intervenção militar. Disso, nem me ocupo. A isso, prefiro perder tempo teorizando sobre os pelados de Porto Alegre.

quinta-feira, novembro 20, 2014


20 de novembro de 2014 | N° 17989
DE FORA DA ÁREA | Adão Júnior

SELEÇÃO GAÚCHA, UM NOVO PROJETO

Quando se fala em seleção gaúcha, logo vem à mente aquele empate emblemático de 3 a 3 entre o selecionado do Rio Grande do Sul e a Seleção Brasileira, dia 17 de junho de 1972, no Estádio Beira-Rio, com 106 mil torcedores. Era o duelo de um Estado contra sua Nação, em resposta à não convocação do tricampeão mundial Everaldo pelo técnico Zagallo.

E assim, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal, entre eles Espinosa, Ancheta, Figueroa, Everaldo, Valdomiro e Claudiomiro, desafiou os canarinhos Leão, Piazza, Rivelino e Jairzinho. Um jogaço de seis gols e muita rivalidade. Seis anos depois, em 1978, uma segunda edição do confronto, menos tumultuado, mas igualmente disputado no mesmo Beira-Rio. Outro empate: 2 a 2, com a presença de Oberdan, Jorge Tabajara, Caçapava, Falcão, Tarciso e Éder, pelos gaúchos, e Nelinho, Batista, Toninho Cerezo e Roberto Dinamite, pela equipe nacional.

Antes disso, a seleção gaúcha já vinha participando de amistosos desde 1943 e até disputado o Pan-Americano de 1956 representando o Brasil. A última aparição foi em 1983. Depois disso, apenas formações de base em amistosos, principalmente contra o Uruguai. E é nessa batida de categoria de base que a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) quer retomar a mística do uniforme verde, amarelo e vermelho.

O novo projeto, coordenado por César Cabral, da FGF, e pelo técnico especialista em base Julinho Camargo, resgatou a força dos gaúchos em um dos mais lendários estádios da América, o Centenário de Montevidéu. No dia 13 de novembro, a seleção gaúcha sub-19, com atletas de Grêmio, Juventude, Lajeadense, Cruzeiro-PoA, Aimoré, Pelotas, Esportivo e Veranópolis (São José-PoA e Inter não cederam atletas), venceu o Uruguai sub-20 por 2 a 1 dentro da casa deles, na preliminar do amistoso Fifa entre Uruguai e Costa Rica.


Em dezembro, os uruguaios, que se preparam para sediar o Sul-Americano sub-20, querem a revanche em Porto Alegre. E, em 2015, a seleção gaúcha tem programada uma excursão à Europa. A ideia é fortalecer o futebol gaúcho e revelar ao mundo os novos talentos da terra que consagrou Everaldo, Paulo Roberto Falcão, Carpegiani, Renato Gaúcho e o técnico pentacampeão mundial Luiz Felipe Scolari, entre dezenas de outros profissionais.

20 de novembro de 2014 | N° 17989
EDITORIAL ZH

A CRISE É DE TODOS, MAS TEM RESPONSÁVEIS

Os danos causados pelo esquema criminoso montado na Petrobras prejudicam a todos, mas têm responsáveis que as instituições estão desafiadas a identificar e punir.

À medida que avançam as investigações sobre o escândalo da Petrobras, o país mergulha numa crise de indignação, incerteza e desconfiança que ameaça sua normalidade social e econômica, mas não pode prejudicar a sua normalidade institucional. A situação é grave. Nunca se viu um episódio de corrupção com valores tão elevados e tamanho potencial de danos à economia, à sociedade e à própria administração pública.

Porém, as instituições democráticas estão sólidas. Se o Congresso, o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal cumprirem suas atribuições constitucionais, o Brasil certamente atravessará essa turbulência e sairá dela mais íntegro e mais respeitado. Por isso, cada brasileiro tem que acompanhar de perto o episódio para poder fiscalizar seus representantes e cobrar soluções.

Em primeiro lugar, não dá mais para esconder o lixo sob o tapete. O que já veio a público até agora, tanto pelas investigações da Polícia Federal quanto pelos primeiros depoimentos dos investigados, indica a existência de um esquema promíscuo entre agentes públicos, empresários e políticos, com revelações de pagamento de propina, extorsão, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro. Mostra, ainda, que os valores subtraídos da sociedade brasileira são muito elevados, deixando claro que nem o recrudescimento do rigor das instituições contra a corrupção nos últimos anos foi suficiente para intimidar corruptos e corruptores.

As informações conhecidas até agora sobre os montantes desviados dão uma ideia clara da desfaçatez. Basta lembrar que o mensalão – o caso mais rumoroso de corrupção julgado até hoje pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – teria movimentado cerca de R$ 141 milhões no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, só o valor que apenas um ex-gerente da estatal se dispõe a devolver para alcançar os benefícios da delação premiada é de US$ 100 milhões. São mais de R$ 250 milhões, quantia muito superior à do mensalão. E não é improvável que os recursos gerados no esquema de superfaturamento na estatal tenham alcançado R$ 10 bilhões, total sem precedentes na história.

Nessas proporções, é certo que as consequências atingem os brasileiros de maneira geral, e não se limitam aos bilhões de reais desviados. O desmonte do esquema já afeta em cheio grandes empreiteiras, ameaça descontinuar obras importantes por todo o país, o que pode gerar desemprego, afetar o sistema financeiro, além de desgastar a imagem da economia brasileira perante investidores e parceiros externos.

Os danos causados pelo esquema criminoso montado na Petrobras prejudicam a todos, mas têm responsáveis que as instituições estão desafiadas a identificar e punir. Nesse cenário desalentador, em que o Executivo tem grande responsabilidade pela omissão diante de fatos há muito conhecidos, a presidente Dilma Rousseff também está desafiada a dar respostas convincentes e objetivas, a começar pela escolha imediata de um ministério confiável, com atenção especial aos que precisarão enfrentar diretamente os danos provocados por esse esquema aterrador.



20 de novembro de 2014 | N° 17989
PAULO SANT’ANA

Tarde de milagres

Ontem à tarde, por um milagre, fui tomado de extrema felicidade – chega de só contar infortúnios nesta coluna.

A começar que meus melhores amigos me telefonaram por encantadora coincidência, só um não pude atender, porque sou surdo e não ouvi sua chamada.

Mas os outros todos falaram comigo, inclusive o meu melhor amigo, cujo nome não cito para não ser chamado de puxa-saco.

Fiquei em êxtase durante horas, encontro-me ainda agora quando escrevo estas linhas.

Já quando fui consultar meu médico Sarmento Barata, que me trata dos países baixos, dei uma passada no consultório do doutor Jorge Gross. Então fiquei estupefato.

Jorge Gross me disse, de supetão, que eu sou um gênio. Pedi que ele me explicasse a sua definição. Ele me disse: “Basta te ler ou conversar contigo e se distingue nas tuas palavras o gênio. O modo como tu encaras a realidade e a defines é prodigioso, tu chamas a atenção de quem te lê ou te ouve para o fato de que tens parte com algum ente superior que te guia”.

Subi aos céus. E sabem por quê? Porque não há nada mais realizador do que ser chamado de gênio por outro gênio. Eu tenho provas de que, em medicina, Jorge Gross é um gênio. E, se não fosse médico, haveria de se tornar em outra profissão também um gênio.

E assim fui pontuando acontecimentos que ontem à tarde me tornaram feliz.

O churrasquinho de gato e o frango no espetinho desceram dentro de mim soltos e deliciosos.

Fui dormir catapultado pelos anjos no travesseiro.

E pensei comigo: “Poxa, vale a pena viver só para ter momentos felizes como estes que estou vivendo. A vida é boa e Deus se faz justo em mostrá-la assim para nós. Nem que seja por vezes”.

Tanto já tenho escrito sobre felicidade, mas ontem toquei nela com toda a força da minhas cordas sensíveis.

A felicidade que senti ontem me transportou para fora deste mundo, eu parecia estar flanando num rumo do infinito. Até me belisquei, indagando-me absurdamente se não estava sendo transportado para o Céu, como Elias num carro azul de glórias.

Mas não, eu estava feliz aqui mesmo, na Terra.

Obrigado, meu Deus, meu destino, minha vida, pela felicidade que tive ontem.

Viram como hoje eu não falei de agruras como sempre falo?


Ah, ia esquecendo a definição que fiz há 20 anos para gênio: é aquele que primeiro enxerga o óbvio.

20 de novembro de 2014 | N° 17989
L.F. VERISSIMO

Velhos hábitos

Esta o Pero Vaz de Caminha não contou. Os portugueses tiveram alguma dificuldade para se comunicar com os indígenas, na sua chegada ao Brasil. Um dos comentários ouvidos na praia, logo depois do descobrimento, foi:

– Ou estes gajos não sabem falar português, ou estiveram no dentista há pouco e ainda sentem os efeitos da anestesia, pá. Não se percebe nada do que dizem!

Tenta daqui, tenta dali e finalmente se entenderam. Cabral, comandante da expedição portuguesa, deveria falar com o cacique Tamosaí, aparentemente o comandante dos índios. A conversa – feita mais com mímica e linguagem de surdo-mudo do que com palavras – foi mais ou menos assim:

TAMOSAÍ – O que homens esquisitos, brancos e com barba, querem?

CABRAL – Tudo. TAMOSAÍ – Como, tudo? CABRAL – Tudo. Do Oiapoque ao Chuí. E então? TAMOSAÍ – Hmmm. O.k. Mas antes... E Tamosaí estendeu a mão com a palma virada para cima e disse:

– Molha.

– Ai, Jesus – suspirou Cabral. – Começou...

A história da propina no Brasil talvez não seja tão antiga, mas o costume já tem uma longa biografia. Assim como o poder das empreiteiras, cuja origem é difícil de localizar no tempo. Talvez tenha começado com o nosso protoempreendedor Barão de Mauá.

Certamente se consolidou com o furor desenvolvimentista da era Juscelino. Novidade mesmo é as empreiteiras obrigadas a explicar seus velhos hábitos, nunca dantes questionados, e seus diretores estarem dormindo em colchões no duro chão de uma cadeia. No fim, quem tem razão para festejar é o senador Pedro Simon. Há anos sua insistência para que os corruptores sejam incluídos na investigação e punição da corrupção é ignorada no Congresso. No fim da sua vida pública, veio o desagravo.

PAPO VOVÔ 1

Nossa neta de seis anos chegou em casa com uma novidade: havia um bicicopata na sua escola. Depois tudo se esclareceu, era só uma palavra que ela tinha ouvido e guardado. Mas por momentos nos preocupamos com a possibilidade de haver, entre os colegas da Lucinda, um psicopata de bicicleta.

PAPO VOVÔ 2

Esta é de um neto alheio, filho de um amigo e grande músico, Luiz Mauro Filho. Também de seis anos. Sua perfeita definição de sonho: sonho é uma coisa que quando a gente acorda diz “Ué...”.



20 de novembro de 2014 | N° 17989
DE FORA DA ÁREA | Adão Júnior

SELEÇÃO GAÚCHA, UM NOVO PROJETO

Quando se fala em seleção gaúcha, logo vem à mente aquele empate emblemático de 3 a 3 entre o selecionado do Rio Grande do Sul e a Seleção Brasileira, dia 17 de junho de 1972, no Estádio Beira-Rio, com 106 mil torcedores. Era o duelo de um Estado contra sua Nação, em resposta à não convocação do tricampeão mundial Everaldo pelo técnico Zagallo.

E assim, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal, entre eles Espinosa, Ancheta, Figueroa, Everaldo, Valdomiro e Claudiomiro, desafiou os canarinhos Leão, Piazza, Rivelino e Jairzinho. Um jogaço de seis gols e muita rivalidade. Seis anos depois, em 1978, uma segunda edição do confronto, menos tumultuado, mas igualmente disputado no mesmo Beira-Rio. Outro empate: 2 a 2, com a presença de Oberdan, Jorge Tabajara, Caçapava, Falcão, Tarciso e Éder, pelos gaúchos, e Nelinho, Batista, Toninho Cerezo e Roberto Dinamite, pela equipe nacional.

Antes disso, a seleção gaúcha já vinha participando de amistosos desde 1943 e até disputado o Pan-Americano de 1956 representando o Brasil. A última aparição foi em 1983. Depois disso, apenas formações de base em amistosos, principalmente contra o Uruguai. E é nessa batida de categoria de base que a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) quer retomar a mística do uniforme verde, amarelo e vermelho.

O novo projeto, coordenado por César Cabral, da FGF, e pelo técnico especialista em base Julinho Camargo, resgatou a força dos gaúchos em um dos mais lendários estádios da América, o Centenário de Montevidéu. No dia 13 de novembro, a seleção gaúcha sub-19, com atletas de Grêmio, Juventude, Lajeadense, Cruzeiro-PoA, Aimoré, Pelotas, Esportivo e Veranópolis (São José-PoA e Inter não cederam atletas), venceu o Uruguai sub-20 por 2 a 1 dentro da casa deles, na preliminar do amistoso Fifa entre Uruguai e Costa Rica.


Em dezembro, os uruguaios, que se preparam para sediar o Sul-Americano sub-20, querem a revanche em Porto Alegre. E, em 2015, a seleção gaúcha tem programada uma excursão à Europa. A ideia é fortalecer o futebol gaúcho e revelar ao mundo os novos talentos da terra que consagrou Everaldo, Paulo Roberto Falcão, Carpegiani, Renato Gaúcho e o técnico pentacampeão mundial Luiz Felipe Scolari, entre dezenas de outros profissionais.

quarta-feira, novembro 19, 2014


19 de novembro de 2014 | N° 17988
MARTHA MEDEIROS

Por que gosto de teatro

Assisti ao Bruno Mazzeo no espetáculo Sexo, Drogas e Rock’n’roll, um título com aroma de naftalina, porém não há nada de antigo na peça – a não ser o saudoso politicamente incorreto, que caiu em desuso e, de tão patrulhado, só se encontra no mercado negro.

Pois, então, eu estava no teatro e pensava nisso, em como são poucos os espaços hoje para se permitir uma liberdade gaiata sem temer críticas, perseguições, acusações. Acho que gosto de teatro por isso: porque ele não é impresso, gravado, postado, tuitado, não produz provas contra si mesmo.

É exibido em um determinado tempo e espaço apenas para um seleto grupo que não tem em mãos controles remotos, telefones, nada que interfira na cena – a plateia fica rendida e concentrada em absorver o que escuta e enxerga, ciente de que, ao cerrar das cortinas, tudo se evaporará. O que foi visto ficará sem registro palpável. Teatro é uma ilusão: tudo é possível, tudo acontece, mas sobrevive só o que você permitir que sobreviva – dentro de você.

Cinema tem um pouco disso, mas é possível rever o filme na tevê ou no YouTube, ou comprar uma cópia para ter em casa, então ele se torna palpável, ganha longevidade. É analisado, estudado, decifrado, editado, e como tudo que permanece, tem um destino cruel: envelhece – a não ser que tenha nascido para clássico.

Teatro não envelhece, foi apenas um sonho bom. Ou um sonho ruim. É volátil, uma conexão temporária, sem amarras. É uma relação aberta, uma ficada, desperta paixões momentâneas, te faz rir, chorar, te pega pela mão e te leva para um lugar desconhecido, parece tão real, e de repente você acorda e vê que não. Real foi o que você sentiu, apenas. Você volta para casa e pode contar para os outros o que aconteceu, mas não pode mostrar.

Então, estava eu lá no teatro rindo das situações apresentadas no palco e ao mesmo tempo pensando sobre elas, mergulhada naqueles 60 minutos em que estava sendo homenageada por uma alegoria ao vivo, e que se dissolveria – dissolução que outra espectadora não aceitava, ela não parava de fotografar e assim tentava capturar o sonho, prendê-lo como a um pássaro em uma gaiola da Apple, da Samsung, desvirtuando a mágica. Ela não entendia nada de teatro, claro. No teatro, quem tem que ser capturado somos nós.


E, uma vez capturados, sermos despidos dos nossos preconceitos, das nossas defesas, da nossa censura e do nosso desejo infantil de que tenham tato conosco – tato é muito bom nas relações cotidianas, mas teatro não é lugar para diplomacia. O teatro tem licença para provocar, irritar, constranger, iluminar, elevar, surpreender, encantar, desencantar. Podemos não gostar da peça, mas há que se reconhecer o respeito que tiveram conosco ao nos tratarem sem condescendência. O teatro confia nos sonhadores.

19 de novembro de 2014 | N° 17988+
ECONOMIA | Marta Sfredo

LEI ANTICORRUPÇÃO PODE VALER NO CASO PETROBRAS

Existe um debate sobre a aplicação da Lei 12.846, a Lei Anticorrupção, no caso do suposto cartel montado em torno das obras da Petrobras. O ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, tem dito que a hipótese não existe porque a lei entrou em vigor em 29 de janeiro e os fatos investigados são anteriores. Retroatividade da lei, sustenta, é vedada pela Constituição.

No entanto, outras leituras começam a ganhar força, ainda mais depois que a Polícia Federal informou que o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa teriam dito que empreiteiras pagaram propina também ao sucessor de Costa, José Carlos Cosenza. Neste caso, poderia se configurar a situação de “crime continuado”. Chefe da CGU no Rio de Janeiro e um dos artífices da lei, Fábio Valgas admite que é defensável a tese de que crimes continuados seriam alcançáveis. Ele assegura que a falta de regulamentação não impede a aplicação da lei.

– A eficácia legal se dá a partir de 29 de janeiro. A regulamentação vai lançar luz sobre alguns aspectos previstos, como os parâmetros para fazer a dosimetria da punição – afirma Valgas.

As penas da “lei da empresa limpa”, como gosta de dizer Hage, variam de 0,1% a 20% do faturamento de empresas corruptoras. Apenas para dar uma ideia do efeito, caso todas as empreiteiras investigadas na Lava-Jato recebessem punição máxima, a multa chegaria a R$ 43,6 bilhões. Esse é só um exercício para dar ideia do calibre da nova legislação. Não é à toa que o Brasil adia a aplicação do compromisso de duas décadas, quando o país sinalizou adesão ao combate à corrupção transnacional, lembra Valgas.

E se o valor de uma suposta multa é um fantasma, outra questão representa risco real e imediato à maioria das empreiteiras no alvo da Polícia Federal, com executivos presos ou operações de busca e apreensão.


Um especialista relata à coluna que, no mercado de dívida, essas empresas teriam de pagar hoje um juro extra do mesmo tamanho que as consideradas em default (calote). Isso não quer dizer que a sobrevivência esteja ameaçada, mas, por estarem mais fracas e endivididas do que a Petrobras, podem enfrentar maiores dificuldades para se financiar.

19 de novembro de 2014 | N° 17988
FÁBIO PRIKLADNICKI

RESENHA NEGATIVA

O pianista clássico croata Dejan Lazic está em uma situação, no mínimo, curiosa. Quando procura seu próprio nome no Google, uma resenha negativa que a crítica Anne Midgette escreveu no Washington Post há quatro anos, sobre um recital seu, aparece entre os 10 primeiros resultados. O músico acha que é um péssimo cartão de visitas.

A crítica não é devastadora, mas tampouco entusiasmada. “Não é que Lazic não seja sensível – ou profundamente talentoso”, escreveu Anne em 2010. “Logo, no entanto, toda a finesse começou a parecer um fim em si mesmo”. A resenhista ficou incomodada com o gestual grandiloquente que observou no pianista. Os bons momentos do recital, para ela, não passaram de... bons momentos.

Desgostoso com essa mácula no Google durante anos, Lazic decidiu enviar uma carta ao Washington Post, no final de outubro, para pedir que o texto seja retirado do ar. Foi sua vez de criticar a crítica, a qual julgou “desinformada”, “parcial” e “altamente emocional”.

Bem, o Post não arredou o pé. Em sua resposta, também publicada no jornal, Anne declarou: “Escrevo para o público, não para o artista, e sempre estimulo os artistas a fazerem o possível para não ler resenhas”.


É interessante o argumento de Lazic segundo o qual o texto de 2010 não precise estar entre os primeiros resultados do Google. Mas não há nada que o Post possa fazer. Despublicar o texto seria como apagar a história. A questão é, provavelmente, o algoritmo do Google. Mas, com essa polêmica, a resenha voltou a ser lida e deve permanecer relevante na máquina de procura. Pior: agora os primeiros resultados sobre o pianista contêm matérias sobre o pedido de retirada do texto do ar.

19 de novembro de 2014 | N° 17988
PAULO SANT’ANA

Petrobras, a joia da coroa

Se me fosse dado 1% do montante dos escândalos financeiros que a Polícia Federal está descobrindo só na Petrobras, eu estaria bilionário.

Escrevo isso só para que os leitores tenham ideia do volume de corrupção reinante na Petrobras. Era tão grande, que é difícil imaginar que não haja qualquer diretor ou ex-diretor da Petrobras envolvido.

E anteontem foi divulgado que o escândalo não é privativo da Petrobras, existem outros escândalos em outras estatais e em ministérios do atual governo. Ou seja, o Brasil se corrompeu de vez.

Como disse anteontem a presidente Dilma, no governo existem os escândalos engavetáveis e os escândalos inengavetáveis. Felizes, portanto, daqueles que se corromperam nos escândalos engavetáveis, vão poder gastar à tripa forra e impunemente o que faturaram em suas corrupções sem serem molestados.

É muito dinheiro e é impossível afirmar que os andares acima da Petrobras não estejam envolvidos.

A corrupção generalizou-se, e os corrompidos dividem-se hoje em dois grupos principais: os que deixaram suas impressões digitais nos escândalos e os que não as deixaram. Mas, se tudo for bem investigado, todos podem ser punidos.

Resta uma grande pergunta: a corrupção na Petrobras data do atual governo ou remonta ao governo de Lula, de Fernando Henrique e de seus outros antecessores.

Em suma, desde quando estão mamando nas tetas gordas da corrupção que jorrava na Petrobras? Desde quando?

E o pobre povo brasileiro pagando a corrupção desse rebanho de corruptos.

Interessante é que, até a erupção deste monumental escândalo, a Petrobras era uma vestal de manto intocável.

Agora, não passa de uma reles prostituta. Basta ter trabalhado ou estar trabalhando na Petrobras para ser suspeito.

A teta é muito gorda e farta de leite nutritivo.

Mas tem muita gente envolvida que ainda não teve sua corrupção revelada pelas investigações.


Sim, porque agora também começa a fase de abafamento dos escândalos e das autorias.

terça-feira, novembro 18, 2014


18 de novembro de 2014 | N° 17987
FABRÍCIO CARPINEJAR

Meus olhos sujos

Ela sempre reclamou que eu não sabia tirar as remelas quando despertava. Eu era capaz de passar o dia, mesmo tomando banho, mesmo lavando o rosto, com os ciscos nos cantos.

Quarenta e dois anos e os olhos sujos do sono, os olhos imundos do sonho. Não entendia como eu não tinha paciência para esfregar os dedos nas pontas e remover o que não dependia de esforço.

Permanecia com o rosto desobediente, aparvalhado, de menino acordando às pressas para a escola. Será que ninguém me ensinou? Será que não consegui aprender?

Não raspava os pratos na mesa, assim como não raspava o fundo dos olhos. Este era eu. Quando nos separamos, eu me arrependi do que não insisti em ouvir para entender. Foi quando escutei o seu choro na sala.

O choro derrotado de quem tentou salvar de tudo que é jeito a relação, e nada mais mudaria minhas certezas. Ela não chorava como uma mulher, não chorava como uma adulta, não chorava como já tinha visto, apesar de fazê-la infeliz várias outras vezes.

Ela chorava como uma criança, um timbre infantil agonizando no fundo de sua voz madura. Era o choro que chorava, não alguém chorando. Como se houvesse uma criança trancada no quarto das lágrimas, pedindo para sair, esmurrando a porta das faces.

Ela se dobrou numa almofada, as costas contraídas, envolvida no espaçar mínimo de grito e resmungo, característico de uma menina. Uma menina de luto. Uma menina cansada do luto.

Ela não uivava como um animal encurralado, não gemia como uma desiludida, não chorava cantando como a angústia pede, não forçava a passagem da correnteza com o soluço, não exagerava na cena.

Natural, espontânea, desafinada, com sua pureza renascendo do sofrimento.

Ela era uma menina desesperada, uma menina repentinamente órfã, uma menina correndo mais rápido do que o pranto. Seu tom plangente doía em meus ouvidos, perturbava, como arranhões no vidro com as unhas.

Num sacrifício desmedido, ela me oferecia sua infância. A vulnerabilidade total de seu corpo, a grandeza de sua pequeneza. Entregava seu medo de dormir no escuro, de ficar sozinha de novo, de não ser aceita. A injustiça do mundo que uma criança, desde cedo, pressente com toda a sinceridade.

Não me contive, e chorei junto. Foi seu gesto de adeus. Ela retrocedeu no tempo de sua dor para se tornar uma menina e amar o menino que fui. As lágrimas levaram minhas remelas.

Enfim, poderia ser adulto. Meus olhos hoje estão limpos e, em compensação, muito mais amargos.



18 de novembro de 2014 | N° 17987
EDITORIAL ZH

CHEGA DE CORRUPÇÃO, CHEGA DE IMPUNIDADE

O país não pode mais aceitar tantos desmandos. Basta de tolerância e conivência com os reiterados saques aos cofres públicos por falta de controle e punição.

Já não há mais dú-vida de que o escândalo da Petrobras é um dos maiores, senão o maior, da história do país e compromete inquestionavelmente dezenas de dirigentes e executivos de empreiteiras, servidores e diretores da estatal, políticos de diversos partidos e governantes no desvio de recursos bilionários.

O que já se pode antecipar, enquanto avançam as operações da Polícia Federal, é que será um teste de fogo para as instituições democráticas do país. Aos brasileiros estarrecidos diante dos desdobramentos do que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, chamou de rastilho de pólvora das delações premiadas , resta torcer para essa operação marcar de fato o fim da impunidade.

Mas é importante ficar atento também ao descaso reiterado de autoridades, que permitiram os desmandos por tantos anos, a começar pela Presidência da República. Esse tipo de comportamento tolerante, característico também da gestão anterior, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ajuda a explicar a resistência da corrupção.

Diante da inevitável indignação popular provocada pelo caso, não basta a presidente Dilma Rousseff alegar que a investigação vai mudar o país para sempre, pelo fato de se estender também aos corruptores.

A presidente da República está devendo à nação uma prestação de contas mais clara e mais convincente sobre os desmandos na estatal. Acima de tudo, deve resposta a uma pergunta que os brasileiros preocupados com seu país e com o futuro de sua maior empresa não têm como evitar: por que o Planalto não fiscalizou seus subordinados a tempo de evitar os danos continuados?

A falta do empenho necessário na luta contra esse mal acaba se disseminando a outras áreas. Só agora, a presidente da Petrobras, Graça Foster, anuncia a intenção de criar uma diretoria com o objetivo de aumentar o controle sobre os acordos fechados pela estatal. Se as fraudes se estendiam há tanto tempo, por que deixar que isso ocorra só depois de um constrangedor adiamento do balanço contábil da empresa, frente às evidências de um esquema superior até mesmo ao mensalão em suas entranhas?

E como entender o papel do Congresso que, diante da iminência de ver muitos de seus integrantes favorecidos pelo desvio de recursos, limitou-se a aprovar duas comissões parlamentares de inquérito (CPIs), com pouca ou nenhuma contribuição para o esclarecimento dos fatos?


O país não pode mais aceitar tantos desmandos. Basta de tolerância e conivência com os reiterados saques aos cofres públicos por falta de controle e punição.

18 de novembro de 2014 | N° 17987
LUÍS AUGUSTO FISCHER

PARA O MUNDO

Mais de uma vez Iberê Camargo contou que tinha em sua memória uma frase estranha, sedutora, enigmática. Ouviu-a, parece, de um anônimo em Restinga Seca, onde nasceu: “No céu não luzem estrelas pretas”.

Por um lado é óbvio que não podem luzir no céu estrelas pretas, porque o brilho é fenômeno da luz clara, e o preto recusa a luz. Por outro lado a frase tem ar de sentença moral, de metáfora geral da vida, que a eleva bem acima do óbvio.

(Nelson Rodrigues manteve na memória a frase sábia e cética de um jardineiro que ouviu, menino: “O sábado é uma ilusão”. Estragando a linda obscuridade da frase, eu diria que é óbvio também: um trabalhador braçal amargo faz sentido que considere o sábado como um engodo, porque a vida real volta na segunda com toda a força.)

Iberê Camargo tem a força desses enigmas. Sua obra se construiu ao modo de outras grandes realizações artísticas de sua geração – com técnica, força de vontade, obsessão, briga, incompreensão, intuição, algum aplauso, além de uma indisfarçada vontade de agredir, que a arte sabe transmutar em outra coisa, enquanto mantém latente a fúria. E quis o bom destino que seu caminho fosse coroado com um museu, que leva seu nome e junto leva o nome de Porto Alegre para toda parte.

O projeto de Álvaro Siza dá gosto e orgulho. A cidade como que cedeu uma de suas curvas mais profundamente lindas, ali quase na volta do Só, beira do Cristal, para acolher um prédio que é ao mesmo tempo funcional, lindo e incômodo – comparado com congêneres europeus, o museu de Iberê tem o tamanho certo para o acervo e as exposições que ali se abrigam, sem forçar um faraonismo que seria caipira, assim como tem um jeito agradável de ser, sinuoso, amigo do visitante, mas apresenta igualmente um traço provocativo, um ar de desequilibrado, que a obra de Iberê também tinha, tem.


No centenário de nascimento do grande pintor e gravador, Porto Alegre tem, afortunadamente, mais do que sua excelente obra para comemorar.

18 de novembro de 2014 | N° 17987
MOISÉS MENDES

Os parentes

Uma das grandes dúvidas da humanidade é se existem mais Becker do que Müller no mundo. O fotógrafo ijuiense Carlos Becker tenta medir o tamanho das duas famílias no Brasil pelos nomes dos negócios de beira de estrada.

Pegue a estrada e você vai passar pelo Posto Müller, o Restaurante Becker, a Mecânica Müller & Filhos, a Estofaria Irmãos Becker. Os Becker e os Müller, diz meu amigo Carlos, pertencem às famílias com a mais forte autoestima do Brasil, ou são os nossos maiores empreendedores. Seus nomes estão em tudo o que eles fazem.

Pois as placas da Mendes Júnior, ao longo da BR-290, iludiram minha infância com a ideia de que eu pudesse ser parente dos donos da empreiteira. Acompanhei a construção da estrada.

Até que um dia desisti de me iludir. Os Mendes da Mendes Júnior eram de Minas e dificilmente seriam meus parentes. Quando anunciaram a prisão de donos de empreiteiras envolvidas na roubalheira da Petrobras, me lembrei da minha fantasia de ser parente de um bilionário.

Não gostaria de ver o vice-presidente da Mendes Júnior, Sérgio Mendes, aparecer algemado com uma camisa de time de futebol, como nessas fotos de criminosos comuns.

Cheguei a pensar que o moço, por ser mineiro, poderia surgir na capa dos jornais com uma camiseta do América. Mas não. Um Mendes é um Mendes, mesmo em seus piores momentos. O herdeiro do grupo avisou que se apresentaria à PF em Curitiba. Mas que iria de jatinho. E foi.

Tento fazer humor com isso tudo porque já levei a sério demais as tentativas de policiais, promotores e juízes de enquadrar corruptores dos altos escalões das empreiteiras.

Peçam ao promotor Sílvio Marques, de São Paulo, as listas de executivos de empreiteiras que já contaram a ele como corrompem. Peçam a esse caçador de corruptores os nomes dos punidos e se penalizem com seu constrangimento.

Dois delatores do caso Petrobras, executivos da Toyo Setal, contaram agora que desde os anos 1990 as empreiteiras pagam propinas. Pergunte aos investigadores quantos corruptores eles conseguiram prender no caso Collor, no escândalo dos Anões do Orçamento, no superfaturamento dos precatórios do DNER, na fraude da licitação do Sivam, na Amazônia. Quantos estão presos pela Operação Satiagraha, em que os punidos foram (acredite) os delegados da Polícia Federal?

Quantos serão presos pelo cartel da propina do metrô de São Paulo? Quantos, dos 23 detidos pela PF desde sexta-feira, você verá entrando na cadeia, não como investigados, mas como condenados?

Corruptores têm a favor deles o fato de que não estão todo dia nos jornais e na TV, como os políticos corruptos. O corruptor sem rosto é a parte sem glamour de um escândalo.

Entrei no Google para saber mais do homem que, pela minha ilusão de infância, poderia vir a ser meu parente e que se apresentou de colarinho e jatinho à Polícia. Imagino que seja neto do fundador, José Mendes Júnior, que criou a empresa em 1953, o ano em que nasci.

Também entrei no site da empresa e xeretei a missão da corporação neste vasto mundo. É bem específica, quadrada, óbvia como um bloco de concreto: “Propiciar soluções de excelência em negócios de engenharia”.

E estes são, pela ordem, os seus valores: excelência (aparece de novo), respeito ao ser humano, cumprimento de contratos, perseverança e ética.


Não vou dizer mais nada. E se esses caras forem mesmo meus parentes?

18 de novembro de 2014 | N° 17987
DAVID COIMBRA

O CHORO DE DALESSANDRO

Ainda existe o chocolate Diamante Negro? Eu gostava muito, quando guri, e, mais tarde, já crescido, sentia prazer especial em comer Diamante Negro com café, no bar da Redação, em dia de chuva. Tinha de ser em dia de chuva.

O Diamante Negro, não sei se você sabe, foi assim chamado em homenagem a Leônidas da Silva, o Homem de Borracha, inventor da bicicleta no futebol, um dos maiores centroavantes do Brasil em todos os tempos.

Paulão é o Diamante Negro do Inter.

Depois que ele marcou aquele lindíssimo gol numa bicicleta perfeita, domingo passado, D’Alessandro dobrou os joelhos, apoiou a mão na grama do Beira-Rio e pôs-se a chorar.

Fiquei intrigado. Por que D’Alessandro chorava? Era um jogo contra o Goiás, um adversário mediano, assistido por público mediano, um jogo que, a rigor, não decidia coisa alguma. Porque, se o Inter ganhasse, como ganhou, não asseguraria a vaga na Libertadores, como não assegurou. E, se empatasse, como estava empatando, não significaria a desclassificação. Mesmo assim, um jogador já veterano e com vasta história no clube, como D’Alessandro, chorou com o gol marcado.

Por quê? Aí está. D’Alessandro não chorou por causa do jogo contra o Goiás. Chorou por causa do Gre-Nal.

D’Alessandro compreendeu o Gre-Nal como poucos jogadores o fazem no Estado, e absorveu o clássico como seu jogo pessoal. O Gre-Nal é, para ele, o que deveria ser para todos os jogadores de Grêmio e Inter: um jogo, mais do que especial, único. Porque o Gre-Nal, de fato, é, mais do que especial, único.

D’Alessandro já sofreu outras derrotas duras e até trágicas no Inter – ele estava em campo contra o Mazembe, por exemplo. Mas nunca sentiu tanto quanto a goleada sofrida no Gre-Nal da Arena. Via-se isso em campo. D’Alessandro foi o centro de todas, absolutamente todas as confusões ocorridas no clássico, e não foram poucas. Ele se comportava como um garnizé, discutindo sem parar com seu eficiente marcador, Fellipe Bastos, afrontando a quem quer que fosse, reclamando do juiz, do adversário e do mundo, cometendo até faltas desleais, como a que cometeu em Alán Ruiz, e, depois, já no vestiário, pedindo briga com um gandula, imagine só.

Encerrado o jogo, quem se apresentou para as entrevistas no lado do Inter não foi nenhum dirigente; foi D’Alessandro. E, durante a semana subsequente à partida, D’Alessandro passou o que nunca havia passado no Inter, porque houve outras derrotas, inclusive em Gre-Nal, mas não dessa forma acachapante, de superioridade insofismável. Então, D’Alessandro ficou sem voz e sentiu essa derrota como se fosse sua. Era um caso pessoal. Mais do que o Inter, o Grêmio havia goleado D’Alessandro.

Por isso ele precisava da vitória, nesse primeiro jogo no Beira-Rio depois da goleada. Para ter certeza de que a vida seguia em frente. Para que sentir de novo a verdade do futebol: que um jogo após o outro é como um dia após o outro, e que não há remédio mais eficiente para qualquer dor do que o tempo que escorre.

Mas a vitória não vinha, o que, para D’Alessandro, representava a continuidade da dor. Ao vir, na bicicleta do Diamante Negro colorado, D’Alessandro sentiu alívio profundo. E desabou.

Foi bonito.


O choro de D’Alessandro mostra que ele se importa. Mostra que não apenas o Gre-Nal, mas o Inter, o Grêmio, os gaúchos e o que acontece no Rio Grande do Sul fazem diferença para ele. O choro de D’Alessandro é o choro de todo torcedor com a derrota e, justamente por esse motivo, por igualá-lo ao torcedor, torna-o um jogador maior.