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sábado, dezembro 20, 2014


21 de dezembro de 2014 | N° 18020
MARTHA MEDEIROS

Maria Adelaide

Já escrevi sobre o mendigo que encontrei em Lisboa, aquele que trata sua mendicância como um show de humor e aceita esmolas online, e hoje vou falar de Maria Adelaide, que conheci em Cascais.

Eram 15h e eu ainda não havia almoçado. Escolhi um restaurante simples, com mesinhas num calçadão. O lugar estava vazio, mas logo vi que se aproximava uma senhora de idade que gesticulava muito e abordava a todos. Cansada, sentou-se ao meu lado. Dois palmos separavam uma mesa da outra. Eu havia ganhado companhia.

Só que ela não comeu nada. Pediu apenas um uísque e a minha atenção: contou que havia sido uma famosa corretora, que ganhara muito dinheiro e perdera tudo, que fora amante de um homem casado por 20 anos, que já havia disputado corridas de carro, que havia aprendido a tourear, que estivera na inauguração de Brasília, que fora abençoada pelo Papa João Paulo II, que havia sido amiga íntima da fadista Amália Rodrigues, e eu ali, encantada com aquele personagem pronto, saído de um livro que não havia sido escrito – ainda.

Nem em tudo acreditei. O que me impressionou foi sua vitalidade: ela não parava de falar. Quando não era comigo, era com os pedestres que passavam. Para todos, tinha uma palavra. Para o turista que vinha de bicicleta: “Salta, não pode andar com isso no calçadão, ó pá”.

Para o casal de namorados: “Não confiem um no outro!”. Para o DJ que estava na janela de um bar: “Só ligue o som depois que me for!”. Ao garotão com o jeans rasgado: “Isso lá é roupa, menino?”. Mas sempre com um sorriso gigante no rosto, orgulhosa da própria inconveniência. Depois de cada abordagem, batia na própria coxa e dizia: Ssou humana, sou humana”. Seu bordão. “Sou humana.”

O pessoal logo entendia que era um personagem folclórico, mas, quando o assédio era infantil, o clima pesava. A cada criança que surgia, ela dizia aos pais: “Me empresta seu filho um bocadinho”. Os pais sorriam amarelo e afastavam os miúdos de seus braços, enquanto ela me confidenciava: “Enlouqueço com crianças”. Nunca havia sido mãe.

Pedimos a conta, paguei o uísque dela e mais uma vez me veio à cabeça a expressão “couvert artístico”, a mesma com que batizei aquela cena do mendigo na rua. Foi quando ela levantou, abriu sua bolsa e colocou em cima da minha mesa diversas folhas xerocadas onde apareciam fotos dela em Brasília, fotos dela com o Papa, com Amália Rodrigues, bilhetes pessoais, recortes de jornal. Um dossiê.

Só então perguntou o que eu fazia. Respondi que era escritora. Ela me deu um beijo no rosto como quem diz: boa piada! E se foi.

Dia seguinte, passei de bicicleta por ela em outra rua. Abordava os transeuntes, claro. Ao me ver, já começou: “Salta, salta!”. De repente, me reconheceu e apreensiva, perguntou: “Você não é escritora de verdade, é?”.


“Vai render apenas uma crônica, se você permitir”. Dada a permissão, continuei a pedalar até chegar aqui.

21 de dezembro de 2014 | N° 18020
FABRICIO CARPENEJAR

A invisibilidade da Limpeza

A solidão é como limpar a casa: ninguém percebe,por mais que tenhamos a vontade imperiosa de apresentar o que fizemos.Quando faxino a residência, sempre vou me decepcionar com a reação da esposa e dos filhos. Não entendo como ainda insisto, e eles não têm nenhuma obrigação de ficar me elogiando.Mas é que me esforcei desmesuradamente em colocar o lar em dia e gostaria de ser parabenizado, festejado,aplaudido.

Eu limpo os interruptores, passo um pano nos azulejos da cozinha, esfrego o teto, elimino manchas ancestrais das panelas,espano as estantes mais altas.Queria fazer uma exposição dos meus atos, uma visita guiada de museu pelo apartamento para meus familiares, mostrando, detalhe a detalhe do que realizei.

Imagino-me caminhando lentamente,com a comitiva atrás de mim, interessada por cada mudança sutil:– Aqui eu organizei as gavetas, aqui eu levantei a bancada para tirar o pó,aqui empurrei a geladeira e recolhi fragmentos de copos, aqui encerei com aquele produto novo, recomendo, é ótimo!, aqui esfreguei os vidros pelo lado de fora, acompanhe os cantos da veneziana...

Demonstraria o antes e o depois e reconstituiria toda a lavagem do ambiente.Como se fosse um corretor descortinando o apartamento pela primeira vez aos interessados.

Concluo que é uma tola quimera de minha parte.Eles entram pela porta, apressados de seus mundos, e apenas lançam um olhar geral e pouco curioso. Comentam, de modo resumido: – Que lindo!

Deu! Acabou o reconhecimento com uma breve fungada pelo perfume composto de lustra-móveis, vanilla e detergente.

Eles cheiram mais do que olham.Limpar a casa é ser invisível, é um contentamento muito particular, como a nossa solidão.Só você mesmo que segurou a vassoura ou controlou o tubo do aspirador saberá o quanto foi difícil retirar aquela cabeleira do ralo, não terá com quem partilhar, é um segredo. Só você mesmo que ficou de quatro esfregando o piso saberá o quanto o brilho é de lua cheia.Só você mesmo que usa a tática do jornal para transparecer a vidraça saberá oque significa a transparência.As pessoas somente notam quando a casa está bagunçada, jamais quando


está limpa. Assim como você somente repara na geladeira quando algo apodrece dentro, jamais quando está carregada com as frutas generosamente lavadas. A faxina é a aceitação do tempo que temos que guardar para nós. É uma aula sobre amadurecimento. Transformamos a nossa personalidade não para agradar alguém, e sim porque sentimos vontade de melhorar. Mudanças silenciosas, porém necessárias.Nem tudo será reconhecido. Mesmo assim, faremos por conta própria, para a nossa satisfação.Há alegrias que são unicamente nossas.Não dependemos dos outros.

21 de dezembro de 2014 | N° 18020
ANTONIO PRATA

Araminhos

Um dia, na quarta série, ao lado da cantina, o Douglas me contou uma piada. Vou resumir, porque o espaço é curto e a piada é péssima. Os americanos estavam construindo um super caça e tinham um problema: nos testes, a asa sempre quebrava, no mesmo lugar. Os melhores engenheiros da NASA foram chamados. Mexeram no projeto, usaram aço, titânio, até diamante: nada resolvia.

Então um servente que varria o hangar sugeriu fazerem vários furinhos no lugar em que a asa costumava quebrar. Os furos foram feitos. A asa não quebrou. Quando perguntaram pro cara de onde havia tirado aquela solução bizarra, ele respondeu: “Simples, é a velha lógica do papel higiênico: nunca rasga na linha picotada”.

Pois é, eu avisei que a piada era péssima. Eu já achei péssima na quarta série e continuo achando péssima, hoje. Por que, então, Jesus amado, guardo essa tralha na memória, por tantos anos? Não foi um momento marcante. O Douglas nem era muito meu amigo. Não me tornei engenheiro, brigadeiro ou fabricante de papéis higiênicos. De tempos em tempos, contudo, a cena é reexibida na tela da consciência, como um desses filmes mala que reprisam todo ano, desde 1988, na Sessão da Tarde.

Ontem, procurando o saca-rolhas numa gaveta da cozinha, lembrei de novo da piada. É que encontrei, entre facas, escumadeiras e abridores de lata, um desses araminhos de fechar pão. Eu não guardei o araminho na gaveta. Minha mulher também não. Ou seja: ele deve ter caído ali um dia e, como ninguém jamais se preocupou em tirá-lo, foi ficando. A piada do Douglas é como esse araminho, pensei. Minha cabeça é uma gaveta cheia de araminhos.

Na primeira série eu tinha um estojo jeans, com zíper. Durante as aulas, eu ficava mordendo o zíper. Depois de um tempo, sentia os dentes meio que latejando. Pareciam imantados. Alguns anos mais tarde, fui a uma praia em Ubatuba, a areia estava coberta de sargaço e o cheiro (metálico?) daquelas algas fez com que eu sentisse nos dentes o mesmo latejar. De vez em quando topo com uma praia cheia de sargaços, sinto os dentes meio que latejando, resmungo, mentalmente, “ah lá o negócio do zíper”, depois me esqueço.

A minha amiga Letícia detesta peixe. Odeia tanto que chega a sentir gosto de peixe em alimentos nada piscosos. Biscoitos de polvilho, por exemplo. É raro, mas acontece. Faz 10 anos, desde que ela me contou dessa alucinação gustativa, que sempre que eu como biscoito de polvilho, lembro da Letícia e da história do peixe. Gosto da Letícia. Lembrar dela não é ruim. Mas ser obrigado a rememorar a história sempre que como um biscoito de polvilho me parece um desvio desnecessário, um pedágio mental que sou obrigado a pagar.


Qual o sentido dessas três insignificâncias, dessas três caspinhas mentais que, pela primeira vez, espano da minha cabeça e faço pousarem na folha do jornal? Não tenho a menor ideia. Desconfio, aliás, que não haja sentido algum – eu, que sou viciado em sentido, que acredito que tudo tem um porquê e um como e um pra onde. Freud, Darwin, os genes, a ressonância magnética e a semiótica: eles explicam as facas, as escumadeiras e abridores de lata, na gaveta, mas e os araminhos? Por que, Jesus amado, guardo essa tralha na memória, por tantos anos?

21 de dezembro de 2014 | N° 18020
PAULO SANT’ANA

Olá, estou aqui agora!

Bem, cá estou no cantinho único que me foi reservado: esta penúltima página inteira de domingo.

Fiz as contas, farei 48 páginas em um ano, é pouco para quem antes fazia 336 páginas por ano.

Mas talvez isso seja bom, posso concentrar em 48 páginas anuais tudo que de melhor passar pela minha cabeça.

Deus queira que eu me acostume a só escrever aos domingos, nem calculo o que farei nos outros seis dias da semana: vagabundear é que não é, estou viciado em escrever.

Mas vamos em frente, que estou sentindo que farei grandes colunas, melhor do que as fazia antes.

Uma pequena e vigorosa amostra está nas linhas a seguir.

Todas as experiências humanas podem ser repetidas. E a única que não vale a pena ver de novo é o casamento.

Conheço um caso em Santa Maria de um homem que se divorciou cinco vezes. Duas vezes foi da mesma mulher.

E há um caso em Pelotas de um homem que de uma tacada só se separou da esposa e da amante.

Consta na Bíblia que Maria Santíssima teve mais dois ou três filhos depois de Jesus. Ou seja, Cristo foi, além de unigênito, primogênito.

Deixa eu entender: Cristo foi unigênito (filho único) de Deus e primogênito de Maria.

Numa época de balanço do ano passado, devemos lembrar que a mulher da gente está sempre ao nosso lado, nos momentos bons e ruins. E que ela é justamente a responsável pela maioria dos momentos ruins.


Se grande parte das pessoas de nossas relações soubesse o que realmente sentimos por elas, muitas exultariam pelo quanto as valorizamos, mas outras se apavorariam com o verdadeiro juízo que fazemos delas.

21 de dezembro de 2014 | N° 18020
MOISÉS MENDES

Adeus, Sarney

Construí fantasias, com cenários quase sempre majestosos, para alguns homens públicos que nos hipnotizaram com suas surpresas e fingimentos. Nunca por um Collor, desmascarado pela própria obviedade. Mas um Sarney, que visto de frente seria uma coisa, de lado virava outra, tinha nuances até de costas e assim se apresentava como um coronel em busca da transcendência.

Elaborei fantasias para Sarney, o aliado do golpe que ocupou o lugar de Tancredo em 1985. Quando assumiu, Sarney nos revelou avessos de quase tudo o que se poderia esperar dele. Na fantasia que construí, o Brasil seria um novo país a partir do Plano Cruzado, teríamos reforma agrária e os pobres tomariam iogurte.

Sarney foi a um congresso de trabalhadores rurais para dizer que iria retalhar os latifúndios. Acabaria com a inflação e criaria um mercado interno forte.

Não deu certo. Na quinta-feira, Sarney acordou cedo e foi para o Senado para o último discurso. O plenário estava vazio quando ele começou:

– Quero dizer que esta é a última vez que ocupo a tribuna parlamentar, que frequentei desde 1955.

De repente os colegas começaram a chegar.

– Quis fazer cedo para que não tivesse ninguém, para falar às cadeiras vazias, mas a Casa está enchendo.

E a casa se encheu para ouvir Sarney dizer que abomina a corrupção, que os partidos não valem nada, os políticos sucumbem aos interesses dos financiadores de campanha, que é preciso moralizar o governo e que a reeleição só prejudica o país.

Enquanto Sarney discursava, os jornais anunciavam pela internet que Maluf iria retornar à Câmara dos Deputados. Maluf foi liberado pelo Tribunal Superior Eleitoral para ser diplomado. Reverteu-se uma decisão do próprio TSE, que antes o considerou inelegível por condenação por corrupção. E Maluf disse sobre a decisão:

– Meus queridos, eu sempre confiei na Justiça deste país.

Sarney ia embora do Senado discursando contra os corruptos e Maluf anunciava o retorno exaltando sua confiança no Judiciário.

Sarney é o Brasil arcaico na sua obra humana exemplar. É um caboclo, quase uma figura de barro de mestre Vitalino, um político artesanal que arranja emprego para parentes, gerencia a corrupção paroquial e exerce o poder de agregar seguidores no Congresso para lotear governos.

Maluf frequenta outro departamento, o da disfunção da política no maior centro urbano do país. É a expressão da pilantragem liberal da linha de montagem industrializada. Nunca teria a confiança que o boneco barroco maranhense conquistou no Cruzado.

Sarney teve, em 1986, a adesão da elite e de intelectuais aos seus projetos redentores, que Maluf, um medíocre, nunca sonharia ter. Sarney brilhou até ser desmascarado como farsa na representação do que seria a versão do Getúlio do Maranhão, reformista, disposto a conspirar contra as próprias origens e a enfrentar o empresariado mais conservador, banqueiros, latifundiários.

Maluf nunca nos ofereceu a chance de pensar que ele também poderia se redimir, porque não dispõe de nenhum recurso que o absolva como aberração moral. Eu comeria rapadura com José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney na varanda da casa-grande em São Luís, mas nunca compartilharia nada com Maluf.


Os coronéis da política nos oferecem a força literária dos que fingem até na hora da despedida, como Sarney fingiu querer a solidão de um discurso para o plenário vazio

21 de dezembro de 2014 | N° 18020
L. F. VERISSIMO

A aposta (2)

Depois de 35 anos de casados, Maria ouvira José contar, numa roda de amigos, como os dois tinham se conhecido. Numa mesa de bar, depois de muitos chopes, ele fizera uma aposta: se casaria com a primeira mulher que entrasse no bar. Fosse quem fosse. Qualquer mulher, salvo muito velhinha – e assim mesmo dependendo do seu estado de conservação – ou travesti. E quem entrara no bar para tomar uma Coca-Cola, linda no seu vestido de verão, fora a Maria.

José puxara assunto com Maria. Oferecera-se para pagar sua Coca-Cola. Pedira seu telefone. E menos de seis meses depois os dois estavam casados. E o casamento dera certo. Tinham três filhos ótimos.

Conviviam bem, sem grandes arroubos de paixão (fora uma louca escapada para Cancún, sem as crianças e com lua cheia), mas bem. José trabalhava com papel por atacado, Maria estudava Química, mas abandonara os estudos para se casar. Tinham uma situação financeira estável, uma vidinha boa. E José nunca contara a Maria sobre a aposta. Em 35 anos de vida conjugal, nunca contara.

– Você não acha que eu tinha o direito de saber?

– Ora, Marusca. Depois de tanto tempo, que diferença faz?

– Como, que diferença faz? Nosso casamento se deve a uma aposta. Ao acaso.

– Não. Ao destino. À sorte. Foi você que entrou por aquela porta do bar, para minha sorte, e não outra mulher. Nosso destino era nos encontrarmos, de um jeito ou de outro. A sorte empurrou você para dentro do bar.

– Foi o acaso. Eu não conquistei você. Não foram meus encantos, meus cabelos, meu perfume, sei lá. Meu único mérito foi entrar por aquela porta.

– Eu me apaixonei por você em dois minutos!

– Por acaso!

E Maria pôs-se a divagar sobre como seria sua vida se não tivesse entrado no bar. Quem garantia que ela não encontraria – no mesmo dia – outro homem, um milionário que lhe daria conforto, luxo, emoções... Ou, ou... Maria se entusiasmou com seu próprio devaneio:

– Ou, ou... Se eu tivesse continuado no meu curso de Química. Quem garante que minhas pesquisas não teriam ajudado a descobrir a cura do câncer? Entrar naquele bar para tomar uma Coca-Cola pode ter custado a vida de milhões de pessoas. Se eu não tivesse entrado no bar e casado com você, poderia muito bem, hoje, ter um Prêmio Nobel. Ou, ou...

José perdeu a paciência.

– Está bem, Maria. Foi o acaso. Tudo é acaso. A vida humana é um acaso. Eu, você, nossos filhos, todo o mundo é por acaso. Só um espermatozoide, entre os milhões expelidos pelo meu pai, chegou ao óvulo da minha mãe. Só um, por acaso. E se entre os que não chegaram, os que perderam a corrida, estivesse o que descobriria uma cura, nem digo do câncer, mas do resfriado? E se em vez do espermatozoide que gerou o Júlio César tivesse chegado ao óvulo da mãe dele outro goleiro, que impediria os 7 a 1? Hein? Hein?

Mais tarde, na cama, José beijou o pescoço da Maria e disse:

– Marusca, lembra daquela semana em Cancún?

Maria o empurrou e disse:


– Eu não estou aqui, José. Eu não entrei naquele bar.
RUTH DE AQUINO
19/12/2014 20h41

Cuba Libre

Fui a Cuba quase clandestina em 1984. Um cubano pediu dólar no câmbio negro – a primeira desilusão

A espetacular reaproximação entre Estados Unidos e Cuba me enfiou num túnel do tempo. Há 30 anos, conheci Havana com um grupo de jornalistas e cineastas, simpáticos à Revolução Cubana. O Brasil não tinha relações diplomáticas com a ilha de Fidel Castro.

Era uma viagem meio clandestina. Não poderíamos ter carimbo no passaporte, só num papelzinho à parte. Na ida, dormiríamos em Bogotá, Colômbia. Na volta, na Cidade do México.

Não era meu primeiro contato com o socialismo. Em 1980, fui num trailer de Londres a Budapeste e Praga. Na fronteira com a Hungria, a polícia me tomou um cartão-postal de Davi, de Michelangelo, como “material pornográfico”. Em Praga, fui obrigada a ir à delegacia diariamente para assinar onde tinha dormido. Sombrios eram os dias.

Ao chegar a Havana em 1984,  não vi Cortina de Ferro. Parecia uma ilha em festa. Povo gentil, orgulhoso, caloroso, cheio de ginga. Negros belíssimos, esculturais, tudo era pretexto para dançar salsa e beber rum. As cores do bairro de Havana Vieja, a arquitetura colonial e neoclássica, os carros antigos, a orla do Malecón com namorados aos beijos, pescadores e poetas. O Festival de Cinema lotava as grandes salas. Quem venceu foi Nelson Pereira dos Santos, com Memórias do cárcere. Era esse o socialismo moreno e tropical. Cuba ainda não se tornara órfã da União Soviética. Ainda não desabara com a crise e a decadência, mas já sofria sérios problemas de abastecimento.

Ficamos hospedados no Hotel Nacional, o mais tradicional, construído em 1930 no estilo art déco, com jardins, piscinas e vista para a baía. Os cubanos são como hermanos, parecidos com os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo latino-americano. O prato tradicional, moros y cristianos, é mistura de arroz com feijão. O drinque é o mojito – coquetel à base de rum branco, limão, hortelã, açúcar e água tônica. Para refrescar, o sorvete da Coppelia, num prédio de vidros coloridos, da década de 1960. Para dançar, a Tropicana, com show bem kitsch de mulheres seminuas. Para curtir a noite, bares como a Bodeguita del Medio e a Floridita. Neles, o escritor Ernest Hemingway bebeu daiquiri e mojito.

Os homens, galantes, passavam cantadas, como “tengo ganas de bejarte”. Quem ouviu essa foi Adriana Rattes. Ex-bailarina, uma das criadoras do cineclube Estação Botafogo na década de 1980, Adriana estava no grupo – ela comandou a Secretaria de Cultura do Rio nos últimos oito anos. Fomos todos à festa de gala no Palácio de Fidel. O comandante cumprimentou cada um, olho no olho, com seu carisma e sua farda. Nas mesas, cascatas de camarões e o rum, envelhecido nas moringas de barro.

O melhor da viagem foi caminhar sem destino em Havana Vieja. Chegamos a uma casa com músicos anônimos da mais alta qualidade, que tocaram para nós, numa tarde Buena Vista. Entramos em salas com retratos de Fidel, Che Guevara, Nélson Ned e Roberto Carlos, lado a lado. Na televisão, a novela brasileira Escrava Isaura. Fomos convidados, na rua, para uma feijoada por uma família cubana. No fim do almoço, o dono da casa chamou meu companheiro no quarto e pediu dólar no câmbio negro. Foi a primeira desilusão de meu então marido petista.

Percebemos que éramos vigiados quase todo o tempo. A mesma pessoa estava na recepção do hotel e na rua. Havia sempre um “guia” controlando movimentos e conversas. As crianças nos perseguiam pedindo “plumas” (canetas). Os cubanos nos davam dinheiro para comprar para eles os produtos das “tiendas”, as lojas dos hotéis.

Eles não tinham (e não têm) acesso aos produtos das tiendas. Condenados a uma vida pior, mesmo se tivessem poupado para consumir. Queriam a moeda cunhada especialmente para uso de estrangeiros. Queriam viajar, mas não podiam. Queriam liberdade, mas não tinham. Tinham médicos e escolas, mas o preço era alto. Hoje querem acesso à internet.

Gays precisavam disfarçar seus gestos, porque o regime os prendia e torturava. As ditaduras são moralistas. A Revolução Cubana decretou o fim dos homossexuais e das prostitutas. Como se tivesse esse poder. Havia prostitutas de todas as idades. Todo regime totalitário – lá o slogan era “hasta la victoria siempre” – acredita que pode mandar no que você pensa, no que você quer, no que você deseja, no que você lê, no que você vê e em para onde você vai.

A viagem deixou um gosto agridoce. “Pelas frestas dos sorrisos e das janelas, já víamos as fissuras e as contradições de um socialismo tropical que criou castas”, diz Adriana Rattes. Um regime que subjugou a liberdade de muitos ao poder e ao privilégio de poucos. Torço pelo fim do injusto embargo dos Estados Unidos a Cuba e pelo sucesso do gesto de Obama e de Raúl Castro, com a bênção do papa Francisco. Que se abram as fronteiras, as celas e os corações.



20 de dezembro de 2014 | N° 18019
ARTIGO - FLAVIO JOSÉ KANTER*

ENVELHECERSEM FICAR VELHO?

Campanha publicitária prometeu vantagens para quem se cuida. Uma delas: envelhecer sem ficar velho. A ideia é preconceituosa, discrimina. Alguém quer nascer sem ficar
criança, adolescer sem se tornar adolescente, “adultar” sem ficar adulto? Por que não ficar velho? Cada fase da vida tem características que devem ser vividas. Por que não?

No Wall Street Journal de 30 de novembro, há uma matéria de Anne Tergesen embasada em pesquisas, “Por que tudo que você pensa sobre envelhecimento pode estar errado”.

Comparou nove expectativas de velhice entre os de 18 a 64 anos, com a experiência dos que têm mais de 65. Os jovens esperam que ocorra mais do que os velhos dizem ocorrer de fato: perda de memória, incapacidade para dirigir, adoecer, inatividade sexual, sentir tristeza ou depressão, não se sentir necessário, solidão, falta de dinheiro, ser um peso para os outros.

A autora derruba com provas científicas mitos comuns sobre velhice:

1)Depressão prevalece em velhos – segundo pesquisas, a sensação de bem-estar aumenta até os 70 anos e estabiliza;

2) Declínio cognitivo – exceto nos demenciados, isso não é verdade. Comparando resultados de testagens com desempenho no mundo real, viu-se que os testes não reproduzem capacidades reais;

3) Trabalhadores velhos são menos produtivos – o Instituto Max Planck, de Munique, pesquisou por quatro anos o desempenho na fábrica da Mercedes-Benz. Descobriu que velhos cometeram menos erros graves do que jovens;

4) Há mais solidão – estudos mostram que após os 50 há depuração dos contatos sociais, estreitam-se os de maior significado, afinidade, os menos tensos;

5) Criatividade declina com a idade – há mais de um século é demonstrado que não é assim. Pesquisa de Chicago identificou que em criatividade conceitual os jovens lideram, na experimental são os velhos. 6) Mais exercício é melhor – há um nível ótimo para velhos se exercitarem, além do qual se tornam semelhantes aos que não se exercitam.

Marcello Blaya diz que velhice é diferente da decrepitude. Velhice é bom, decrepitude é ruim. Meu pai dizia que ruim é não ficar velho...


*Médico - FLAVIO JOSÉ KANTER

20 de dezembro de 2014 | N° 18019
PAULO SANT’ANA

Estrada não é local para protesto

Da vez primeira que me assassinaram, foi num jantar na segunda-feira passada.

Outras vezes virão em que vão continuar me assassinando.

Como dói o aço frio de um punhal nos penetrando!

Da vez primeira que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que tinha.

Doravante, nas outras vezes que me assassinarem

Irão levando alguma coisa minha.

Eu me queixo por leviandade minha. Sei bem que nada é perpétuo, não seria a melhor coisa da minha vida, o melhor amigo que já tive, que não iria me falhar.

É que eu fui mal-acostumado, sempre e sempre através dos anos aquele amigo a meu lado, pronto para todas as paradas.

Um dia, haveria de falhar. Eu é que pensei que fosse eterno.

Mas, se perco um amigo, me resta no entanto meu motorista. A me guiar por todas as ruas desta cidade, velando por mim em todos os recantos, cuidando na direção do meu carro da minha integridade física, um anjo da guarda a proteger-me.

Do meu motorista não exijo lealdade, exijo competência no seu mister.

Eu gostaria que minha filha tivesse por mim os cuidados velados que minha mulher tem por sua mãe (minha sogra).

Mas não. À minha filha, pouco se lhe dá o que me acontece, enquanto minha mulher chega a ser chata ao amparar diariamente e em todas as horas a minha sogra.

Ah, se eu tivesse uma filha que não se desgrudasse de mim!

Já novamente um grupo de cem pessoas interrompeu uma estrada importante e parou o tráfego por horas numa via que é muito trafegada no RS.

Vão ter de acabar com isso. Qualquer protesto por qualquer motivo leva os protestantes a interromperem as estradas. O que é que os motoristas têm a ver com isso?

Isso tem de parar. É preciso que as polícias sejam instruídas para não permitirem, por nenhum modo, que interrompam as rodovias para fazer protestos.


Lugar de protesto é fora das estradas, ora bolas!

20 de dezembro de 2014 | N° 18019
CLÁUDIA LAITANO

A banalidade do bem

Aproveitando um momento em que o sequestrador parecia estar quase cochilando, um grupo de reféns da cafeteria em Sydney correu em direção a uma das portas. Segundo relatos, neste momento o gerente do café, Tori Johnson, tentou desarmar o sequestrador para evitar que ele disparasse contra o grupo. Acabou sendo morto com um tiro na cabeça, mas provavelmente evitou outras mortes.

Atitudes corajosas como essa não são exatamente raras, mas parecem menos estudadas do que as manifestações de crueldade ou torpeza. Em 2014, por motivos mais ou menos óbvios, foram muitos os fóruns de debate, dentro e fora do Brasil, dedicados a analisar em profundidade a maldade humana, suas origens e desdobramentos. Hannah Arendt é uma das referências intelectuais incontornáveis quando o tema entra em discussão.

Cobrindo o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann para a revista The New Yorker, em 1961, a filósofa alemã analisou o caráter desse homem que dizia apenas obedecer ordens sem refletir sobre o que estava fazendo em termos de certo ou errado, justo ou injusto, humano ou desumano.

Eichmann não era patologicamente cruel como gostamos de imaginar as pessoas que causam o mal, mas apenas incapaz de pensar nos outros ou de colocar-se em risco para defender a vida de alguém – milhões de homens, mulheres, velhos e crianças morreram por causa de sujeitos anódinos como ele. A expressão “banalidade do mal”, cunhada por Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém, nos lembra que a maldade faz parte do espectro de comportamento das pessoas comuns e nem sempre é exercida por malucos fanáticos, como o que atacou o café em Sydney, ou cérebros perversos, como o do patrão de Eichmann. O mal está sempre a nossa espreita, mas não apenas do lado de fora.

Na semana passada, a revista Time escolheu como “Pessoa do Ano” homens e mulheres que arriscaram suas vidas ao longo dos últimos meses atendendo vítimas do ebola, em condições muitas vezes precárias, em localidades remotas da África. Para os nossos padrões café com leite de bondade e generosidade, esses médicos e enfermeiros corajosos e desprendidos parecem ser feitos de outra matéria, como se estivéssemos tão distantes deles como estamos dos malucos que atacam escolas e matam criancinhas.

Mas talvez seja mais útil para a nossa espécie encararmos o bem, ou a possibilidade de fazer o bem, como algo tão próximo de nós quanto o mal pode ser – ao alcance de pessoas não tão corajosas nem tão desprendidas como a maioria de nós.

Uma das reportagens que li nesta semana sobre Tori Johnson – um rapaz de 34 anos, gerente do café onde foi morto há dois anos e casado com o mesmo homem há 14 – dava uma boa definição para pessoas como ele: “Heróis são pessoas boas que, colocadas em circunstâncias excepcionais, permanecem fiéis ao seu caráter”.


Que, em 2015, as “circunstâncias excepcionais” felizes sejam muito mais frequentes do que as outras – mas que, seja lá o que o novo ano nos reserve, todos tenhamos a força e o desejo de nos mantermos fiéis a tudo aquilo em que acreditamos. Nos vemos lá.

20 de dezembro de 2014 | N° 18019 PALAVRA DE MÉDICO
Por J. J. Camargo, cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre.

SAIR DE CASA:PARA QUÊ?

A PREMÊNCIA DA GERAÇÃO ANTERIOR DE TER UM ESPAÇO SÓ SEU PASSOU A SER INTERROGADA

Se começar a vida é sair de casa, podemos dizer que a juventude deste começo de século, definida como a geração canguru, tem cada vez menos pressa. O que foi premência da geração anterior – ter um espaço só seu – passou a ser interrogado e, contraposto às perdas impostas por essa iniciativa desassombrada, resultou em: independência, a troco de quê?

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 61,7% da população brasileira entre 18 e 29 anos ainda mora com os pais. A motivação para a permanência é que eles aproveitem ao máximo as facilidades que o manto paterno lhes dá, para que juntem dinheiro e possam investir mais na profissão, seja ela qual for. Sem contar que alguns se encaminham para a maturidade sem uma escolha definida, o que parece justificar a permanência sob os olhares vigilantes dos que foram treinados até para suportar a indefinição.

Só mais tarde é que os rebentos alçam voo para fora do ninho. E, curiosamente, este mais tarde está ficando cada vez mais tarde. Tanto mais que alguns, os extremados, nunca saem, porque alguns pais, desanimados de vê-los partir, decidiram antes morrer, poupando-lhes até o incômodo de terem de mudar de CEP.

Com a redução gradual do número de filhos, o beliche virou peça de museu, e o inconveniente de ter de competir por espaço com os queridos irmãos praticamente despareceu. Sendo assim, aquele pretenso “cantinho só meu” deixou de ser uma imposição da autoestima que projetava a afirmação pessoal para representar uma tolice de quem não tem noção do quanto vale uma roupa lavada com amaciante perfumado e comidinha com tempero da mamãe. Coisa de babacas!

O respeito com que antes se falava de quem tinha pego seus trapos e saído pelo mundo passou a ser visto como birra de adolescente mimado, e qualquer referência ao gesto intempestivo desses ingratos era seguido do relato de vários exemplos desses tipos ingênuos que, depois de uma temporada de infortúnios, voltaram para o recanto do lar, com o rabo entre as pernas e um punhado de carnês atrasados na mão.

Todos os que voltam são unânimes em reconhecer que pagar luz, água e condomínio é insuportável, sem falar numa exigência execrável, que eles desconheciam até então, mas que os velhos cumprem com resmungos inaudíveis: pagar imposto. As rodinhas que debatem o destino desses aventureiros fraudados sempre terminam com um risinho que mal disfarça uma mensagem implícita: bem feito!

Por outro lado, aquela legião de adultos jovens que abandonava o ninho para casar descobriu, com a permissividade dos tempos modernos, que ninguém vai se escandalizar se o príncipe trouxer a cinderela para fazer companhia para a mamãe, sempre tão só, coitadinha. Claro que ninguém está interessado em perguntar o quanto a pretensa solidão desagrada a sogrinha.

E essa nova condição não é uma exclusividade brasileira: os jovens europeus entre os 18 e os 29 anos estão com dificuldade crescente de sair da casa dos pais. Segundo um estudo divulgado pelo European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions (Eurofound), há cada vez mais jovens sem capacidade de garantir sua autossustentação econômica.

Entre 2007 e 2011, o número de jovens adultos vivendo na casa dos pais, entre os 28 Estados-membros da União Europeia (UE), aumentou de 44% para 48%.

À interminável crise econômica mundial, que limita o acesso dos jovens ao primeiro emprego em todo o mundo, soma-se a perda gradual da segurança nas nossas cidades.

Fácil perceber nas entrevistas com os pais a ambivalência que os consome: de um lado o desejo de vê-los voar com suas próprias asas. De outro, a certeza de que ninguém será capaz de protegê-los com tanto amor.

No fundo, todos os pais sabem que criamos os filhos para o mundo, mas esse precisava ter se tornado um lugar tão perigoso?


Então, filho amado, vá se divertir, mas, pelo amor de Deus, não ponha o celular no silencioso.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Jaime Cimenti

Papai Noel encontra Jesus Cristo

- Ah, não, não acredito, tu te queixando da vida, Papai Noel? Não é possível! Ainda dás um baita Ibope, se é que acreditas. Andas aí com renas voadoras, flamante trenó, essa roupa maneira, essas botas, estás bochechudo, rosadinho, ganhando beijinhos das guriazinhas nos shoppings. Faz favor, né? Me poupe.

- Pois é, depois das propagandas da água mineral e do Ginger Ale, em 1915 e 1923, da White Rock Beverages e, depois, do grande lance da Coca-Cola em 1931, com o imortal traje vermelho e branco, não nego que recebi um upgrade. Vermelho e branco ganha tudo, não é verdade? Mas nos últimos tempos, a coisa está meio assim. A gurizada só quer saber de selfies comigo, não me dá muito carinho. 

A piazada anda bebendo cedo e anda meio mal-educada, com pouca paciência para delicadezas. Vou dar os livros de etiqueta da Célia Ribeiro e da Danuza Leão de presente para eles. O pessoal da propaganda anda me escanteando, sei lá, acho que vou procurar um consultor de imagem bom aí no bairro Rio Branco. Uns marqueteiros e publicitários disseram que eu morri, que horror.

- Calma. Tu és um guri, não tens nem dois séculos. Tens que acreditar em ti, manter o foco e ir atrás dos teus sonhos. Tenho dois mil anos e pouco, te entendo, conheço bem época de Natal, essa coisa de imagem, patrocínios. Complicado, né? As pessoas andam consumistas, pragmáticas, apressadas, estressadas, não estão ligando o suficiente para o espírito do Natal. Querem saber do ter, não do ser. Precisa paciência de Jó com essa galera que não tira nunca as pontas dos dedinhos dos smartphones.

- É verdade, Jesus. Imagina que tenho recebido muitos pedidos de energéticos, lava-jatos, Ritalina e Rivotril, para adultos e de crianças. A coisa não está mole. Mas, vamos adiante, não é, Meu Senhor, que a vida continua, o sonho não pode morrer e não posso ficar chorando de barriga cheia. Fica feio. Fica ruim dizer que já estou de saco cheio muito antes do Natal. O pessoal do Face não curte esse papo.

- Deus te abençoe, Noel. Não te queixa, especialmente para mim, que tenho mais motivos que tu para queixas e estou firme. És uma referência boa neste mundo que chamam de pós-moderno, sem regras definidas, conceitos éticos elastecidos, morais duvidosas, tudo estilhaçando pelos ares, vale-tudo geral. Não demite os elfos que fabricam os brinquedos que distribues. Responde as cartinhas das crianças, presenteia as educadinhas. Ama o próximo. Ainda estás no lucro, Noel. Deus te ilumine. E vou indo que lá vem o Pelé se queixar, achando que Deus e eu tínhamos esquecido dele. Vê se pode.

Jaime Cimenti


Jaime Cimenti

Moderna fábula coreana de amor e esperança

O romance Flora Hen - Uma fábula de amor e esperança (Geração Editorial, 148 páginas, R$ 29,90, tradução de Lídia Luther) marca a importante estreia da escritora coreana Hwang Sun-mi no Brasil. Mais de dois milhões de exemplares da obra já foram comercializados mundo a fora, conquistando corações. Sun-mi era pobre, sua infância foi difícil, mas uma professora lhe deu a chave de uma sala de aula onde havia livros e material escolar. Sun-mi nasceu em 1963 no interior da Coreia do Sul.

A autora jamais sonhara em ser escritora. Fez mestrado numa universidade, realizou curso de redação criativa e queria saber como escrever livros infantis apenas para ensinar seus filhos a ler. Ela estreou na literatura apenas aos 32 anos. Escreveu mais de trinta livros.

Flora Hen tem sido comparado a livros como O pequeno príncipe, de Saint Éxupery, e Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. As comparações não exageram. O original coreano tem como título: Leafie (derivado de leaf, folha) - A galinha que  sonhava que podia voar. Flora é uma galinha poedeira, condenada apenas a botar ovos que jamais chocará e que sonha, na verdade, não só com a liberdade (voar), mas também em chocar um ovo, ser mãe.

Do seu posto no galinheiro, observa com inveja os bichos da granja. Enfraquecida, é retirada de sua gaiola para ser descartada, para morrer. Mas a coisa muda. Ela cai no mundo, enfrenta a hostilidade e a indiferença dos outros animais, torna-se mãe do ovo de outra e, de peripécia em peripécia, corajosa como ela só, nos encanta com sua força e com suas fantásticas lições de vida.

Na apresentação o escritor e editor Luiz Fernando Emediato escreveu que jamais havia lido um livro com uma personagem tão doce e carismática, que fosse um animal tão prosaico quanto uma galinha, e que aí reside o mistério e o sucesso mundial do livro.

A narrativa pungente, delicada e forte é tão poderosa e filosófica quanto O pequeno príncipe, tão iluminada quanto Fernão Capelo Gaivota, tão animadora como A arte da guerra e tão inspiradora quando a Bíblia e, certamente, vai conquistar crianças, adolescentes e adultos do Brasil, que vão pensar, rir e chorar, envolvidos pelas emoções da protagonista.


Sempre é bom lembrar que a vida de um livro pode ser tão imprevisível quanto a vida de uma pessoa. A obra de Hwang Sun-mi e a história de sua vida mostram como acontecimentos imprevistos podem colorir os caminhos de livros e escritores.

19 de dezembro de 2014 | N° 18018
ARTIGO

AS LIÇÕES DO PERU E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Acabou no último sábado a 20ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Lima, no Peru, em que 195 nações assumiram compromissos, ainda que bastante vagos, no sentido da diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Esse é o rascunho que servirá para o início dos debates na COP 21, que acontecerá em 2015, em Paris, e substituirá o Protocolo de Kyoto após 2020.

O clima da Terra está 0,85 grau centígrado mais quente do que no ano de 1880 e já se observam crises hídricas, na produção de alimentos e o aumento de catástrofes ambientais em escala global: enchentes, ciclones, desertificações, entre outras. É de se observar que este cenário vai agravar-se caso as temperaturas aumentem, conforme o previsto, de 3ºC a 8°C, até o final deste século. Nem mesmo os mais céticos, que há poucos anos entendiam que o aquecimento global não existia, mantêm a sua posição.

O maior exemplo disto é o compromisso norte-americano em diminuir as emissões de gases de efeito estufa entre 26% e 28% até 2025 e a China comprometendo-se a utilizar energias renováveis para suprir até 20% de suas fontes energéticas até o ano de 2030.

Neste cenário, é importante que a produção movida por energia renovável seja buscada o quanto antes, com a finalidade de inserir e adaptar as economias das nações em desenvolvimento à nova ordem econômica mundial. As perspectivas de lucro serão movidas pela energia solar, eólica, marítima e outras que estão surgindo.

O Estado brasileiro, por sua vez, precisa elaborar políticas públicas e de tributação com finalidade extrafiscal, consubstanciadas em mecanismos de incentivo da produção de energia limpa e de desestímulo da exploração da energia movida por combustíveis fósseis: como a tributação do carbono.

A ação estatal, contudo, não basta, é importante que o setor privado e a cidadania façam a sua parte no sentido do cumprimento consciente do dever fundamental de proteção do meio ambiente, expressamente previsto no art. 225 da Constituição Federal de 1988, e na colaboração para a implementação da Política Nacional Sobre Mudanças do Clima, estruturada na Lei 12.187/09.

Juiz federal, professor de Direito Ambiental na Esmafe, Ajuris e especialização de Direito Ambiental da Unisinos

GABRIEL WEDY



19 de dezembro de 2014 | N° 18018
ARTIGO ZH

A ESCOLA PRECISA DE MAIS VIDA

A tese de cuja banca de defesa participarei nesta sexta-feira, em Angers, França, aborda os saberes construídos na “escola da vida” por adultos pouco ou nada escolarizados, no Brasil.

Trata-se de uma gostosura de pesquisa feita em Alvorada, Rio Grande do Sul, e em Recife, Pernambuco, respectivamente com um grupo de senhoras e com um senhor, todos eles não alfabetizados na idade certa.

Candy Marques Laurendon, francesa filha de portugueses, está quase brasileira, depois de realizar esse belo trabalho científico. Ela buscou entender o que e como alguém pode aprender matemática na “escola da vida”. Candy constata que esses conhecimentos são mais limitados do que os construídos na escola, mas que são muito mais ricos de significado, o que explica a sua surpreendente efetividade.

Essa efetividade se deve, em primeiro lugar, ao fato de serem saberes ligados ao seu dia a dia e, em segundo lugar, a serem construídos pela própria pessoa. Os adultos se sentem autores de suas próprias aprendizagens. Dizem ter aprendido sozinhos e delas muito se orgulham.

Na verdade, ninguém aprende nada sozinho, aprende-se sempre com os outros. Mas ter a convicção de que quem realizou o processo foi quem aprendeu é algo importantíssimo e insubstituível. Há 22 anos, na Vila Santo Operário, pela primeira vez vivi essa maravilha.

Antônio, um de meus alu- nos que acabara de se alfabetizar, perguntado: “Quem te ensinou a ler?”, respondeu: “Ninguém, eu aprendi pensando e perguntando”.

É claro que ele não aprendeu sozinho, mas o que interessa é que ele se sentiu comandando o seu processo.

Essa convicção emancipa e dá gosto de aprender.

Em segundo lugar, na “escola da vida” os saberes são vinculados ao dia a dia. Na vida, hoje há aprendizagens candentes sobre drogas, tráfico, sexualidade, violências, corrupção... O medo de abordá-las em sala de aula esvazia a escola de sua inserção com a vida e com isso esvazia as chances de ensinar porque ignora significados que afetam os alunos.

A “escola da vida” tem, portanto, muito que contribuir para que haja muito mais vida nas escolas.

Doutora em Psicologia Cognitiva e coordenadora de pesquisa do Geempa


ESTHER PILLAR GROSSI

19 de dezembro de 2014 | N° 18018
EDITORIAL ZH

REAJUSTES EM CASCATA

Num momento de apelo ao rigor fiscal, autoridades dos diferentes poderes, no país e nos Estados, deveriam adequar suas expectativas salariais à realidade das finanças públicas.

A rapidez com que, na última quarta-feira, o Congresso aprovou os reajustes salariais para integrantes da cúpula dos três poderes da República, favorecendo inclusive os próprios deputados e senadores, não chega a surpreender quem conhece as reais prioridades dos parlamentares. O que fica difícil de aceitar é a coincidência entre a decisão de elevar os próprios ganhos, seguida ontem pela Assembleia gaúcha, e o discurso oficial de que o ano de 2015 será de rigor no setor público.

Como conciliar metas de austeridade com vencimentos de R$ 33.763 para deputados, senadores, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e procurador- geral da República? Ainda mais que esses reajustes se multiplicam em cascata para autoridades privilegiadas de todos os poderes, que além de remuneração direta, têm uma série de vantagens adicionais.

Numa tentativa de evitar o descrédito em relação às intenções de cortar gastos, o Planalto recomendou que, nos contracheques da presidente da República e de seus ministros, os valores fiquem limitados a R$ 30.934,70. Alguns parlamentares de oposição chegaram a apelar ao bom senso, alegando justamente o fato de os reajustes repercutirem nas finanças de Estados e municípios, num momento de incertezas sob o ponto de vista das contas públicas. Como o bolso falou mais alto, o impacto pode alcançar R$ 3,8 bilhões anuais.

Por mais que esse tipo de decisão seja comum, particularmente às vésperas do início de uma nova legislatura, a decisão só pode ser vista como um contrassenso. Algumas categorias de servidores aguardam há anos por reajuste. Em Brasília, a futura equipe econômica projeta uma economia de R$ 50 bilhões em 2015, com corte na despesa e aumento na arrecadação.

Os ganhos de receita, obviamente, incluem mais impostos, a serem bancados por todos os contribuintes. Num momento de apelo ao rigor fiscal, com ônus para todos os brasileiros, autoridades dos diferentes poderes, no país e nos Estados, deveriam adequar suas expectativas salariais à realidade das finanças públicas.


O país só irá garantir serviços públicos de qualidade se conseguir no mínimo preservar da inflação os ganhos de todos os servidores, não apenas os da cúpula da máquina administrativa. Essa necessidade, porém, precisa estar em sintonia com a realidade das receitas governamentais.

quinta-feira, dezembro 18, 2014


18 de dezembro de 2014 | N° 18017
EDITORIAL

UM GESTOPARA A HISTÓRIA

O reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba tem alcance mundial, mas deve ser complementado pelo resgate das liberdades na ilha.

O mundo esperou por décadas pelo gesto que mobilizou os governantes dos Estados Unidos e de Cuba na direção do apaziguamento. O resgate das relações entre os dois países significa muito mais do que o reatamento da convivência diplomática entre nações que se hostilizaram de forma agressiva durante 53 anos. O que a reaproximação representa é um avanço para toda a civilização e, espera-se, mais adiante, também para a democracia.

Ao romper o isolamento da ilha, mantido até agora sob os mais variados argumentos, a Casa Branca sinaliza com a possibilidade concreta de contribuir para que um país, ainda sob regime totalitário, desencadeie finalmente o processo que conduza à supremacia das liberdades.

É tarefa de todos os países democráticos, a partir de agora, contribuir para que o gesto tenha seus efeitos amplificados, com alcance que supere questões da diplomacia e do comércio. O primeiro impacto, além do simbolismo político, é certamente o econômico, se o Congresso americano eliminar um embargo que transformou Cuba num país com sérios problemas de intercâmbio com outras nações, além dos Estados Unidos.

São potencialmente favorecidas as relações entre governos, já que a atitude norte-americana irá inspirar outras ações semelhantes, por mais que o mundo ocidental continue questionando a centralização do poder na ilha e as deformações do regime castrista.

Todos os governantes que mantêm compromissos com os esforços para a extensão da democracia a países que ainda a desprezam devem se engajar ao processo deflagrado. Cuba representou, por décadas, especialmente durante a Guerra Fria, a imagem do país minúsculo que enfrentava o mais poderoso inimigo dos ideais do socialismo. Era uma simplificação, sustentada por posições ideológicas, que ignorava os desmandos de um regime autoritário. Mas também era condenável a exaltação, sem questionamentos, da manutenção de um bloqueio que apenas prolongou um conflito esvaziado pelo fim do comunismo.

A extinção do embargo será também a redução de ideias superadas e de preconceitos, de ambos os lados, que em nada contribuem para que o cenário mundial seja distensionado. Todos serão vitoriosos, se o governo cubano, num gesto complementar, iniciar a esperada abertura democrática. Se não se dispuser a isso, o reatamento histórico de ontem e suas consequências terão sido incompletos.