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quinta-feira, abril 28, 2016



28 de abril de 2016 | N° 18511
EDITORIAIS

A PRESSÃO DAS DÍVIDAS

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de conceder um prazo de dois meses para que União e Estados se entendam em relação à questão do endividamento amplia o desafios dos dirigentes públicos neste momento tão grave para o país sob o ponto de vista político e econômico. A própria judicialização de um tema que expõe a falência dos Estados e do próprio pacto federativo demonstra a dificuldade dos chefes do Executivo de chegarem a um acordo que já deveria ter ocorrido há mais tempo. 

Mas os governantes não podem simplesmente transferir essa responsabilidade de buscar uma solução negociada. Um acerto amplo é impositivo e não pode ser adiado por muito mais tempo do que o definido agora, com o cuidado, obviamente, de aliviar as contas das unidades federativas sem agravar as da União.

Desde a constatação de que, pelos termos acordados ainda em 1998, quanto mais Estados como o Rio Grande do Sul pagavam, mais a dívida crescia, a situação econômica do país nunca foi considerada propícia para uma revisão, pelo impacto fiscal que qualquer alteração tende a provocar. Um momento de transição como o atual, em que mudança de comando no governo central se mostra cada vez mais iminente, tende a parecer ainda menos oportuno.

De um lado, porém, estão Estados importantes que, sufocados pelo endividamento, se mostram sem as mínimas condições de atender financeiramente a áreas essenciais para a população. De outro, o próprio governo federal, que prevê perdas superiores a R$ 400 bilhões com a simples substituição de juros compostos por simples, como reivindicam Estados endividados. 

Não há como enfrentar um impasse dessas proporções na base de decisões liminares e sem custos, assim como não faz sentido postergar uma solução definitiva, sem a qual Estados como o Rio Grande do Sul ficam praticamente ingovernáveis.


28 de abril de 2016 | N° 18511 
CARLOS GERBASE

INSTRUÇÃO


O ano era 1978. O Brasil era presidido pelo general Geisel. A abertura era lenta, segura e gradual, mas ninguém estava seguro quanto ao futuro da democracia. Contra minha vontade, eu era um soldado raso na Companhia de Comando da III Região Militar e, ao lado dos demais recrutas, recebia a Instrução – um conjunto de ensinamentos que nos habilitariam a servir à pátria de forma adequada.

Naquela tarde, o sargento Guasseli discorria sobre o Movimento Comunista Internacional e explicava que o mundo estava ameaçado por uma ideologia exótica, que não media esforços para subjugar todas as nações, exterminando a liberdade e instalando em seu lugar a ditadura do proletariado. Neste instante, não sei por que – um coágulo cerebral?, uma manifestação do caos?, um irresistível instinto suicida? – levantei o braço e pedi licença para falar. O sargento permitiu, e eu disse: “Na Itália, o Partido Comunista existe há muitos anos e participa das eleições. Ou seja: lá os comunistas têm vida política legal num contexto democrático”.

Senti 60 pares de olhos pousados sobre mim. Eles não precisavam falar nada para que eu entendesse: tinha cavado minha sepultura. O sargento disse: “Soldado, vou te responder, mas só no fim da aula”. Pronto, eu estava ferrado. Imaginei meu destino: um interrogatório minucioso, alguns dias na prisão, quem sabe um acidente durante um exercício de tiro... Ao final da Instrução, o Guasseli levou-me para um canto, olhou bem dentro dos meus olhos e disse: 

“Isso que tu falou é verdade. Não estou acostumado com soldados que estão na universidade. Vou te pedir: não fala mais essas coisas. Dispensado!”. Bati continência e voei para o alojamento, onde fui recebido como um Lázaro, um ressuscitado. Cumpri o restante do meu serviço militar sem enfrentar qualquer consequência da minha manifestação.

Passados 38 anos do incidente, é incrível constatar que, hoje, muitos civis não conseguem conviver com quem pensa diferente deles. Ao contrário dos pequenos Hitlers que se multiplicam por aí, o sargento Guasseli, um homem simples, um militar em pleno sistema ditatorial, tinha noção exata do que significa a palavra tolerância.

Em tempo: nunca fui e nunca serei comunista. Meu coração é anarquista. Mas isso eu não contei para o sargento.


28 de abril de 2016 | N° 18511 
DAVID COIMBRA

Errei, sim


O neto de Ruy Barbosa chamava-se... bem, Ruy Barbosa Neto. Era advogado de bom prestígio, sobretudo por causa do avô.

Fico pensando se esse Ruy Barbosa Neto não seria o avô da Marina Ruy Barbosa, a bela atriz de cabelos vermelhos e carinha de nenê, que é tetraneta do velho Ruy Barbosa, a Águia de Haia. Como o primeiro nome de Ruy se transformou em sobrenome de Marina, isso não sei de que jeito funciona, mas li em algum lugar que é assim.

Essas questões de parentesco me confundem.

De toda maneira, falava de Ruy Barbosa Neto, embora talvez fosse mais agradável falar de Marina Ruy Barbosa.

O fato é que, em meados do século passado, Ruy Barbosa Neto comprou um apartamento em Copacabana. Estava feliz com a aquisição, até descobrir que ali perto havia uma boate que tinha como grande atração a apresentação de cantores famosos da época. O som rolava até de manhã e o “impedia de pensar”, segundo alegou à Justiça, para a qual pediu o fechamento do lugar.

O pior de tudo, explicou Ruy Barbosa Neto, era que várias vezes, durante a noite, os cantores repetiam a música Errei, Sim, que Ataulfo Alves fizera para Dalva de Oliveira afrontar o ex-marido, o também compositor Herivelto Martins. Em Errei, Sim, Dalva confessava para Herivelto:

“Errei, sim

Manchei o teu nome

Mas foste tu mesmo o culpado

Deixavas-me em casa, me trocando pela orgia

Faltando sempre com a tua companhia”.

É assim. Os homens são sempre os culpados, até quando elas admitem que erraram.

Ruy Barbosa Neto ouvia Errei, Sim tantas vezes, todas as noites, que, volta e meia, pegava-se assobiando a melodia. Estava enlouquecendo. A Justiça, sensível ao drama do advogado, fechou a boate, mas logo voltou atrás, e Ruy Barbosa Neto seguiu com Errei, Sim lhe reboando no cérebro por ainda muito tempo.

Gosto dessa história. Foi contada por outro Ruy, o Castro, em seu último livro, A Noite do Meu Bem, em que ele traça a, digamos assim, biografia do samba-canção.

Entendo o desespero de Ruy Barbosa Neto. Quando meu filho era pequeno, letra e música de A Galinha Magricela ficaram impressas em meu cérebro durante meses a fio, sem que conseguisse encontrar um minuto de paz. Tentava ouvir outras melodias, algo mais nobre, sei lá, não precisava nem ser um Beethoven, um Mozart, servia algum clássico dos Beatles, mas não adiantava, ele logo ouvia de novo A Galinha Magricela e os meus neurônios começavam a entoar em coro: “Bota ovos pela sala, no banheiro e na cozinha, ela bota, bota, bota sem parar...”.

A Galinha Magricela tornou-se a trilha sonora dos meus dias. Eu podia estar no momento mais solene, entrevistando o governador ou quem sabe o arcebispo, não importava, o que me vinha à mente era a imagem da Galinha Magricela virando cambota e botando quatro ovos de uma vez. Se estivesse no funeral da mãe de algum amigo, no momento em que fosse cumprimentá-lo, corria o risco de balbuciar algo como:

– Meus pêsames. Ela era magrela de botar.

Felizmente, aquele tempo passou. Mas se hoje você me ouvir dizer, com voz rouca, “I’m BATMAN!”, não ligue. Passa.

28 de abril de 2016 | N° 18511 
L. F. VERISSIMO

A segunda vítima


Era improvável que a Dilma usasse alguns dos poucos minutos da sua participação na conferência sobre o clima nas Nações Unidas para falar no golpe que ameaça seu governo, mas o pânico se instalou mesmo assim. Ela iria denegrir a pátria diante do mundo! Houve uma mobilização geral para contestar o ainda não dito. Os ministros do Supremo Celso de Mello e Gilmar Mendes se apressaram a declarar que, ao contrário do que a Dilma poderia dizer na ONU, o impeachment em curso estava longe de ser um golpe. 

Estranho açodamento de quem, cedo ou tarde, terá que julgar questionamentos jurídicos do que está ou não está acontecendo no Brasil. Mas não importava a inconfidência espontânea dos magistrados, importava a negação do que a Dilma diria. Antes que ela dissesse.

O Senado mandou o senador Aloysio Nunes atrás da Dilma, com a missão de rebater o que ela falasse, fosse o que fosse. E a Câmara, que não tinha dinheiro para pagar a passagem de uma testemunha de acusação do Eduardo Cunha na sua Comissão de Ética, subitamente encontrou uns trocados no bolso de outra calça e mandou dois deputados a Nova York, também para desmentir a Dilma. Não se sabe exatamente o que os dois fariam se Dilma pronunciasse a palavra “golpe”. Pulariam das suas cadeiras e gritariam “Mentira!”? 

Começariam a cantar o Hino Nacional para abafar a voz da traidora? Nunca saberemos. Dilma não disse o que todos temiam que ela dissesse. Depois, em particular e para jornalistas, falou em golpe à vontade. Mas na ONU, diante do mundo, frustrou a expectativa de todos. O pânico foi em vão. Os dois deputados brasileiros teriam sido barrados na entrada do plenário da ONU, mas isto eu não sei se é verdade. Teria sido um final adequado para a farsa.

Dizem que a primeira vítima de uma guerra é sempre a verdade. Se for assim, a segunda vítima é certamente o senso do ridículo.

quarta-feira, abril 27, 2016


27 de abril de 2016 | N° 18510 
MARTHA MEDEIROS

Dress code


Ela estava em frente à tevê, na sala, assistindo a mais uma excitante edição do Jornal Nacional, que naquele momento mostrava a entrevista feita com o porteiro de um prédio de luxo cujos apartamentos haviam sofrido um arrastão. Nisso, surge o filho vindo do quarto, enfiando a carteira no bolso da calça e se aproximando para dar um beijo de tchau.

– Tchau, mãe.

– Onde é que você vai?

– Vou pegar a Ana e vamos a um bar encontrar uns amigos.

– Você não está pensando em ir pra rua nesse estado.

– Não entendi.

– Com essa roupa, não vou deixar você sair de casa.

– O que tem minha roupa?

– Vão confundir você com um bandido, meu filho. Vai lá dentro se trocar, a Ana espera.

– Bebeu, mãe? Vou trocar nada. O que tem de errado com a roupa? Comprei esta camisa ontem, custou uma nota.

– Pois é.

– E a calça? É a melhor que eu tenho.

– Tô dizendo. Parece um fora da lei.

– Engraçadinha, virou piadista agora. Tchau, não volto tarde.

– João Guilherme, eu não estou brincando. Não criei filho para ser parado em blitz no meio da rua, colocando mão pra cima de capô de viatura. Vai lá dentro e te desarruma um pouco.

– Mãe...

– Tá me olhando com essa cara por quê? Você não viu essa reportagem que acabou de passar? Eram quatro os assaltantes, um mais engomadinho que o outro. E a Aline, a vizinha aqui do 302, você não soube? Trouxe um meliante pra casa achando que tinha encontrado o príncipe encantado. Maior pinta de deputado. Na manhã seguinte, quando acordou, descobriu que o príncipe havia feito a limpa no apartamento. O retrato falado dele poderia estampar a capa do catálogo do Giorgio Armani. E você querendo sair na rua nessa beca.

– Você tem que parar de ver televisão.

– E você tem que parar de ser tão alienado, João Guilherme. Parece que não sabe em que mundo vive.

– Tchau, mãe, quanto mais cedo eu sair, mais cedo eu volto. Tenho reunião amanhã de manhã no banco.

– Não inventa de ir de gravata. Juízo.


27 de abril de 2016 | N° 18510
REPORTAGEM ESPECIAL

ALÍVIO PARA O PIRATINI, APERTO NO PLANALTO



SUPREMO DEVE DEFINIR qual é o cálculo a ser utilizado na renegociação de dívidas dos Estados com o governo federal. A decisão pode zerar o débito do Rio Grande do Sul com a União

Questão essencial para a saúde financeira do setor público brasileiro, a renegociação da dívida dos Estados com a União entrará na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF) na sessão de hoje, a partir das 14h. De um lado, unidades à beira da falência, com atrasos nos pagamentos de salários, casos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. De outro, o endividado governo federal, que enfrenta recessão e uma das maiores crises econômicas da história do país.

A decisão sobre o futuro dos contratos ficará sob responsabilidade dos 11 ministros da Corte depois de anos de negociações frustradas entre governadores e o Palácio do Planalto – um pedido de vista pode levar ao adiamento. As duas possibilidades postas à mesa são antagônicas. Uma autorizaria a adoção de juro simples para recalcular descontos retroativos. Com isso, RS e SC, por exemplo, já teriam quitado integralmente a dívida. O governo da presidente Dilma Rousseff diz que a tese dos Estados traria rombo de R$ 313 bilhões, em valores de 2013, e pleiteia a manutenção do juro composto – ontem à noite, o Ministério da Fazenda atualizou as perdas para R$ 402 bilhões.

De largo alcance, a decisão preocupa até mesmo o vice-presidente Michel Temer, que poderá herdar o comando do país nos próximos dias se avançar no Senado o processo de impeachment de Dilma. Interlocutores de Temer procuraram ministros recentemente para tentar desarmar a chamada “bomba fiscal”.

PREOCUPAÇÃO COM ASPECTOS POLÍTICOS QUE TEMA ADQUIRIU

Dez Estados chegam à sessão com liminares vigentes que os autorizam a pagar as parcelas com base no juro simples, conforme previsão das leis 148/2014 e 151/2015. Essas decisões proibiram a União de aplicar sanções como o bloqueio de contas, o que vinha acontecendo com o Rio Grande do Sul. Após as derrotas nas liminares, o Planalto elevou o tom do discurso. Passou a apontar que o juro simples causará severo impacto em período de crise. Outro argumento é de que esse método poderá gerar insegurança jurídica, já que a maioria dos contratos feitos pelo mercado adotam o modelo composto, que implica juro sobre juro.

– A maneira correta de fazer isso (renegociação) é adotar interpretação dos contratos que não crie incerteza jurídica para contratos privados, que não crie desequilíbrio federativo em que os Estados mais endividados, cuja folha de pagamento cresceu mais, sejam mais beneficiados do que Estados que fizeram seus ajustes – declarou o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, em recente reunião com o relator do caso no STF, Edson Fachin, e governadores.

A análise de Barbosa tem a simpatia de Fernando Ferrari Filho, professor de Economia da UFRGS. Para ele, a renegociação deve se limitar a deságios em troca de medidas de controle de gastos e à redução do percentual de comprometimento da receita com o pagamento da dívida, atualmente fixado em 13%:

– Se analisarmos estritamente questões técnicas e econômicas, não há possibilidade de o STF atender ao pleito dos Estados. Via de regra, qualquer negociação usa o juro composto. Mudar isso criaria um círculo vicioso em que nenhum contrato mais seria respeitado.

O governador José Ivo Sartori passou o dia de ontem em reuniões com ministros da Corte para apresentar argumentos. A justificativa é de que o Estado já pagou mais do que devia originalmente, mas o débito continua a crescer em decorrência dos juros. Sartori diz ainda que o Piratini apenas quer que seja aplicada a determinação das leis 148/2014 e 151/2015, que obrigam a adoção do juro simples. O governo federal, percebendo a iminência do rombo, editou decreto posterior para regulamentar as normas. No texto, retomou a lógica do juro composto. Uma das preocupações do governo gaúcho é o contorno político do tema.

– Acreditamos bastante na robustez da nossa tese, mas existem questões que podem interferir. A União fala em rombo de R$ 313 bilhões como se fosse algo imediato, mas, na verdade, isso seria diluído em um período de 12 a 22 anos, algo em torno de R$ 20 bilhões ao ano. Isso representa 0,7% do orçamento da União. Esses argumentos vieram com o viés de criar um clima de terrorismo – reclama Euzébio Ruschel, procurador-geral do Estado, que fará sustentação oral no STF ao lado de Santa Catarina e Minas Gerais.

O consultor econômico Raul Velloso indica que, com a adoção de juro simples, a União herdaria um pedaço da dívida que é dos Estados. Para fazer frente, teria de ampliar o superávit primário. Velloso discorda da tese de que o modelo pleiteado pelos governadores causaria insegurança jurídica:

– Isso é uma questão entre governos. Não tem nada a ver com o mercado. Isso não é argumento.

Não está descartada a possibilidade de que os ministros do STF tentem chegar a uma alternativa mais equilibrada e menos dolorosa para ambas as partes.

carlos.rollsing@zerohora.com.br

Solução para o caixa, diz Feltes


Secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, Giovani Feltes avalia que a eventual confirmação do juro simples no cálculo dos descontos retroativos no estoque da dívida com a União equacionaria significativa parcela dos problemas financeiros do Estado. Ele viaja hoje a Brasília para acompanhar a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que irá deliberar sobre o caso. 

– Resolveria a metade dos nossos problemas de rombo mensal. Aliada a ações que estamos tomando e junto da saída da recessão e retomada do crescimento da economia, seria uma medida que nos aproximaria mais rapidamente do equilíbrio – afirma. 

Feltes destaca que o Rio Grande do Sul tem registrado mensalmente déficit de cerca de R$ 550 milhões, o que leva ao parcelamento de salários. Com o juro simples, o Estado teria quitada a dívida com a União. Isso o livraria de pagar as prestações mensais de, aproximadamente, R$ 270 milhões. 

– Estou otimista porque a nossa tese é vigorosa. O que queremos é somente o cumprimento do que está determinado nas leis 148/2014 e 151/2015 – diz.

CARLOS ROLLSING

27 de abril de 2016 | N° 18510 
PEDRO GONZAGA

O DENTE AMARELO


Nas ruas desertas do bairro da infância não havia ainda o risco das armas de fogo das movimentadas ruas do bairro da maturidade. Seria exagero falar em violência lírica, embora a arte há muito tenha confirmado tal possibilidade, mas era ao menos uma violência com a qual podíamos lidar. Um dente quebrado, um olho roxo, joelhos e cotovelos ralados por rolar no areião em luta corporal. Um mundo de regras rígidas: se alguém estivesse sozinho, os combates eram mano a mano, cusparadas e mordidas expunham ao opróbrio o seu perpetrador.

À época, assombrava a região uma gangue autodenominada “a maloqueirada”, senhora da praça João Bergmann e arredores, cuja missão era surrar garotos burgueses e, ao cabo, arrancar-lhes o dinheiro da merenda (temor extremo para um gordo).

Gordo e burguês, eu lhes era um alvo fácil, pois não tinha as pernas leves de meus amigos à hora da fuga. Entre meus 10 e 13 anos, restava-me apanhar e ouvir calado a uns xingamentos que hoje inflamariam as redes sociais. Um dos chefes, não sei por que, assim que me via, avançava para me dar um soco no braço ou no peito. Era mais alto do que os outros, os olhos bem separados e um dente todo amarelo que se revelava antes de cada ataque.

Aos 14, troquei de escola e fui estudar no centro. Lá espichei e engordei um pouco mais (incapaz de resistir às promoções de chocolate das Lojas Americanas). Como passei a andar de ônibus, deixei de cruzar com a maloqueirada e meu algoz.

Somente aos 16 o reencontrei. Eu ia a pé, sozinho, ele também. Logo o reconheci, agora um palmo mais baixo do que eu. Segui em sua direção. Ao me encarar, mostrou-me timidamente o asqueroso dente amarelo. Fechei a mão. Preparei o soco da glória, um soco pesado de Foreman, mas ele desviou os olhos e, desvirtuado, encolheu-se ao passar por mim.

Às vezes volto a esse soco que não dei. Quando vaidoso, penso em como venci o primitivo desejo de vingança; quando nobre, em como pratiquei o lema de que a violência não leva a nada; quando honesto, contudo, em como perdi a chance de acertar uma porrada na cara da vida, quando ela não era mais do que uma singela aventura de bairro.



27 de abril de 2016 | N° 18510 

DAVID COIMBRA

O tempero do bife

Esses dias fui a Vermont. Lugar lindíssimo, no alto das montanhas. Chega-se lá através de estradas lisas e desimpedidas, você roda durante quatro horas e parece que foi ali na esquina. E o pedágio é até engraçado: 1 dólar na ida, 1 dólar na volta.

Foi em Vermont que se estabeleceu a Família Trapp. Você provavelmente conhece a Família Trapp de tanto assistir ao filme A Noviça Rebelde, na Sessão da Tarde.

O patriarca da verdadeira Família Trapp, o barão Von Trapp, era austríaco. Consagrou-se como herói da I Guerra Mundial, conhecido como um invencível comandante de submarinos. Às vezes, antes de afundar um navio, Von Trapp subia ao tombadilho e, com um megafone, avisava à tripulação inimiga para correr aos botes salva-vidas. Por fim, dava instruções sobre como remar até a praia e, em seguida, disparava o torpedo.

Quando Hitler anexou a Áustria, porém, Von Trapp decidiu que preferia o exílio a lutar em nome daquele homem. Pegou os sete filhos e a babá que cuidava deles (sua mulher já havia morrido de escarlatina), cruzou a fronteira a pé e homiziou-se nos Estados Unidos. Escolheu Vermont porque a paisagem é parecida com a da Áustria. Construiu, com suas próprias mãos, uma grande casa da qual se vê todo o vale no entorno, teve mais três filhos com a babá, que é a tal noviça rebelde, e ficou famoso como o chefe da família cantora retratada no filme, que, você sabe, é estrelado por Julie Andrews no auge do frescor juvenil.

Hoje, a mansão dos Trapp foi transformada em um belo hotel, frequentado sobretudo por quem gosta de esquiar. Há várias pistas de esqui na região. Os Trapp ainda estão lá, ou o que resta deles, enterrado num pequeno cemitério familiar que foi plantado ao lado da casa.

Vermont seria, talvez, um Vale dos Vinhedos multiplicado por dez. Com uma diferença básica: no Vale dos Vinhedos a comida é muito melhor.

Esse é um grave defeito dos Estados Unidos. Os americanos não sabem cozinhar. Ah, você já veio aos Estados Unidos e comeu muito bem. Óbvio: este é um país continental, formado por gente do mundo inteiro, inclusive os melhores cozinheiros italianos, franceses, espanhóis, portugueses, alemães e brasileiros. Mas eles, os americanos, eles não conseguem. Ou eles exageram no molho, ou a comida sai insossa.

Falta-lhes mão, entende?

Mão é tudo.

Pegue, por exemplo, os 20 elementos químicos essenciais para a vida: carbono, oxigênio, hidrogênio etc. Se você os juntar em quantidades exatas, não conseguirá criar um ser vivo. O que lhe faltou?

Mão. No caso, a mão de Deus.

Assim é a comida. Você pode seguir a receita direitinho, e não vai sair tão bom. Por quê? Porque você não tem mão.

No Brasil, você chega a um boteco com balcão de fórmica e cadeira de plástico. Pede lá um completo. E o que vem é uma refeição perfeita como a Dieckmann, o feijão cremoso, o arroz soltinho, a batata frita enxuta, o contrafilé macio e, dominando tudo, a gema amarela do ovo reluzindo como um farol.

Quanto custa essa maravilha?

Dez reais. Hoje talvez 15.

Os americanos têm gênio para tantas coisas, eles mandam o homem à Lua, eles inventam a internet, o celular, o rock’n’roll e o blues, eles têm estradas escorreitas e recantos de paraíso, como Vermont, mas falta-lhes a centelha criativa para temperar um bom bife. É impossível ter tudo na vida.

terça-feira, abril 26, 2016


26 de abril de 2016 | N° 18509 
CARPINEJAR

Os dois lados da intimidade


A intimidade facilita a comunicação quando estamos bem, mas dificulta quando estamos mal.

Há uma predisposição para revelar o que incomoda para quem não se conhece e a de não evidenciar as falhas para quem se ama.

Não foram poucas as vezes em que um completo estranho me contou o que fez de errado no relacionamento numa mesa de bar, segredos que jamais dividiu com o seu marido ou a sua esposa, a parte envolvida e interessada na questão. Para mim, que era de fora, não teve nenhum receio de expor humildemente os seus erros. Do nada, chorou garrafas de cerveja e abriu as portas de suas angústias. Já para quem valorizava, não se sentia pronto para falar: travava, balbuciava, gaguejava e, pressionado pela ânsia de ser julgado, trocava de assunto. 

Não conseguia formular o pensamento e pedir desculpas. Poderia ser uma bobagem, que se agravava com o tempo. Poderia ser uma pequena mentira, uma omissão, uma distorção, que aumentava de importância pelo constante adiamento.

Somos capazes de confidências com quem não mais veremos no dia seguinte, e incapazes de passar a limpo os problemas com quem acordamos ao lado.

Taxistas e garçons acabam sendo padres involuntários, confessionários sem penitência, condicionados a ouvir desabafos surpreendentes e a opinar sobre o destino amoroso de passageiros e fregueses em minutos. Escutam relatos de infidelidade e deslealdade que nunca foram ditos antes.

A fluência com estranhos acontece pela ausência de cobrança e de expectativa. A resistência com os íntimos vem do temor das consequências e da obrigação de mudar e pagar as dívidas sentimentais.

Com medo de perder quem se gosta, cultiva-se a arrogância da covardia. Protege-se o outro da verdade que mostrará a nossa fragilidade e imperfeição, que destruirá a idealização e colocará a nossa conduta em xeque. A ameaça da separação sempre é maior do que a sinceridade.

É preciso entender que a intimidade é amar com todos os sentimentos, bons e ruins, não apenas com as melhores intenções. Ao esconder partes significativas e desagradáveis da personalidade, estaremos traindo o futuro a dois. Não adianta ser cúmplice somente naquilo que nos favorece, e boicotar o que nos prejudica.

A vergonha de sofrer na hora trará mais sofrimento depois. Ser inteiro significa também decepcionar.

26 de abril de 2016 | N° 18509
CRISE EM BRASÍLIA

PRIORIDADE É DEFINIR ÁREA ECONÔMICA



PREPARADO PARA POSSÍVEL AFASTAMENTO temporário de Dilma Rousseff pelo Senado, Temer trabalha para fechar os nomes para Fazenda, Banco Central e Planejamento

O governo Michel Temer é gestado a partir da equipe econômica. Até o Senado votar, com provável aceite, a admissibilidade do processo de impeachment e o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff, o vice quer escolher nomes para Fazenda, Banco Central (BC) e Planejamento. O rateio da Esplanada entre aliados ocorrerá após essa definição.

Mesmo interino no cargo, Temer quer dar início a um governo com discurso de “união nacional”. Ele e sua equipe têm pouco mais de duas semanas para fechar a composição, já que a votação do Senado é prevista para 11 de maio. O vice esboça uma equipe econômica respeitada pelo mercado e capaz de trabalhar em harmonia. Definido o titular da Fazenda, deverão ser aprovados os nomes de BC, BNDES, Banco do Brasil e Caixa. Para o Planejamento, o mais cotado é o senador Romero Jucá (PMDB-RR), presidente em exercício do PMDB.

Evitar uma equipe rachada, a exemplo do que ocorreu com Joaquim Levy e Nelson Barbosa, é considerado fundamental. A prerrogativa de escolher os colegas foi imposta por Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, e José Serra, senador (PSDB-SP), ambos cotados para Fazenda, que tiveram em momentos separados conversas com o vice em Brasília.

Serra quer ser ministro e tem apoio do ex-presidente Fernando Henrique e do ex-presidente do BC Armínio Fraga. O senador depende do aval dos tucanos para assumir cargos em um governo Temer, decisão que será tomada em reunião do partido em 3 de maio. A definição tem por trás a disputa entre Serra, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pela indicação para concorrer ao Planalto em 2018. Antes de bater o martelo sobre entrar no governo, os tucanos entregarão a Temer um conjunto de propostas defendidas pela sigla.

– O PSDB apoiou a votação do impeachment da presidente Dilma. É natural que, havendo o impeachment, deverá assumir o vice-presidente Michel Temer. Não podemos deixá-lo ao relento – afirma Serra.

O tucano é considerado um coringa pelo vice. Pode ser convidado para Saúde, Educação ou uma pasta da área social. Outro nome com esse perfil é Nelson Jobim, cotado para Defesa, Justiça e Relações Exteriores. Contudo, o gaúcho tem dito a amigos que gostaria de seguir advogando. Ayres Britto, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), é desejado para Justiça. A fusão de Transportes, Aviação e Portos está na pauta do PMDB, que pretende reduzir a Esplanada de 31 para 22 ministérios.

BASE DE APOIO PASSA POR DISTRIBUIÇÃO DE CARGOS

Nos últimos dias, Temer conversou com presidentes de partidos e líderes de bancadas, de olho na governabilidade. A base dos sonhos terá a oposição, com PSDB, DEM, PPS e SD fiéis, mais o chamado centrão – PP, PR, PSD, PTB, PRB e PV. No fim de semana, o vice falou com Gilberto Kassab, patriarca do PSD, e Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, que corteja Saúde, Integração e uma estatal.

– Se for tratado como o maior partido aliado, o PP discutirá participar do governo – diz Ciro.

Para driblar erros, Temer discute cortes e composições do primeiro escalão com aliados do PMDB, como Eliseu Padilha e Moreira Franco, e consultores. Ele ainda pretende receber um raio X da situação fiscal do país do ex-ministro Joaquim Levy. Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf faz a ponte com o empresariado.

Temer também desenha programas de governo. A base será o documento Uma Ponte para o Futuro (leia mais na página 13). A ideia é fazer um ajuste fiscal duro, pelo menos até o final do ano, antes de propor aumento de impostos. Planeja ainda um pente fino nos programas sociais, a fim de reduzir beneficiados e ampliar os valores individuais dos repasses, em especial no Bolsa Família, focado nos 40 milhões de brasileiros considerados mais pobres.

guilherme.mazui@gruporbs.com.br

26 de abril de 2016 | N° 18509
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD*

INSENSATEZ


Uma mandatária denegrir o seu país no Exterior não é para qualquer um. Só para delirantes que perderam qualquer contato com a realidade. A presidente continua em sua cruzada contra o impeachment misturando alhos com bugalhos. O problema consiste, porém, na sua falta de respeito com as instituições brasileiras, que estão dando um exemplo de democracia para o mundo.

O governo Dilma está atolado na corrupção, cujos símbolos mais expressivos são o mensalão e o petrolão, tendo como protagonista principal o seu próprio partido. O ex-presidente Lula está, por sua vez, para ser denunciado pela Procuradoria-Geral da União. Muito provavelmente será réu em pouco tempo.

O Brasil afunda na crise econômica e na social. O desemprego alcança 10 milhões de pessoas, enquanto o Partido dos Trabalhadores brada defender o interesse dos trabalhadores. Tal fato deveria causar perplexidade, não fosse a miopia ideológica dos que se pautam por tais posições contraditórias.

Enquanto isto, a presidente Dilma, com o dinheiro dos contribuintes, decide passear por Nova York, levando uma comitiva de mais de 50 pessoas. Vivem bem no Exterior, falando mal do Brasil. Em sua ausência, o vice assume, entregando-lhe de volta o poder assim que retornar. Golpe? Risível!

A situação chegou a tal ponto, que ministros do Supremo tiveram de intervir para dizer que o país vive na mais absoluta normalidade democrática e no fortalecimento de suas instituições.

Se não fosse dramática a situação do país, seria cômica a encenação americana da presidente. No coração do “imperialismo”, para utilizar o vocabulário dos seus “companheiros”, injuriou as instituições de seu país. Convenhamos, esses imperialistas são bem camaradas, garantindo-lhe ampla repercussão de seus discursos insensatos.

No ápice da insensatez, apregoou sanções contra o Brasil, como se não fosse o seu próprio país. Seria o cúmulo os trabalhadores deste país serem afetados por tal mandatária petista.

Finalmente apelou para os seus companheiros da Unasul, esses bolivarianos que estão levando os seus países à ruína. Governantes insensatos que, de natureza liberticida, têm um profundo desrespeito pelas instituições democráticas. Só pode ter sido o seu convívio com esses autocratas que a levou a invocar, no âmbito do Mercosul, a suspensão do Brasil por desrespeito, pasmem, à “cláusula democrática”. Deve estar defendendo a “cláusula dos tiranos”.

Literalmente, a presidente já não mais sabe o que dizer.

Adeus!


*Professor de Filosofia - denisrosenfield@globo.com

26 de abril de 2016 | N° 18509 
DAVID COIMBRA

Um sonho tão caro que se esfumou


Adistância impessoal e fria do futuro é ótima para ver o tamanho exato de algumas coisas. Mas nem todas. 

É perfeita, por exemplo, para perceber insignificâncias. Por que os atenienses deram cicuta para Sócrates beber? Por que Spinoza foi excomungado do judaísmo? Por que as Bruxas de Salem foram enforcadas? Por que Oscar Wilde foi preso?

Se você investigar, esbarrará em motivos irrelevantes. Só que, encaixados nos devidos contextos, todos esses casos que parecem comédias se transformam em tragédias.

As brigas que você já teve na vida, se você observá-las de longe, verá que foram ridículas. Dificilmente uma briga não é ridícula. Às vezes, passados alguns anos, você nem se lembra do motivo pelo qual brigou. Mas, na hora, não há nada mais importante do que vencer a discussão.

Tenho certeza de que esses nossos tempos serão vistos pela posteridade como tempos estranhos. Não apenas porque as pessoas estão brigando muito, mas pela causa da briga: pela primeira vez, na história do Brasil, um governo tem torcedores.

Algumas pessoas amam o PT como a um clube de futebol, e o defendem com fervor tocante, mesmo quando a realidade mostra que não existe defesa possível. Esses defensores em geral não são do “povo” que os petistas acreditam beneficiar; são intelectuais, gente bem-fornida da cidade.

Por quê? Por causa de Lula.

Lula é a realização do sonho do intelectual de esquerda, que idealiza o “povo”, o mundo e as relações humanas. Lula seria o operário de origem humilde, enrijecido por uma história de superação e dotado de infalível instinto de fera política. Lula conheceria aquele ser que arranca suspiros dos intelectuais: o “povo” tão explorado, tão simples, mas tão sábio.

O intelectual de esquerda olha para o “povo” como olha para os índios. Esses dias vi, numa novela da Globo, uma atriz interpretando a professora que explica aos seus alunos como os índios são bons, respeitam a natureza, são alegres e puros, enquanto um intelectual de esquerda, do lado de fora da sala, ouvia o discurso e sorria com condescendência. Que cena sintomática! Ali estava representado o ideal do intelectual de esquerda. Para o intelectual de esquerda, índios e “povo” não são Homo sapiens ambiciosos e competitivos como todos os demais. Não. Por serem “simples”, eles são inocentes como crianças.

Mas, devidamente “conscientizados” pelos intelectuais, alguns homens do “povo” podem fazer a reunião dessa pureza intrínseca com o conhecimento dos segredos das almas de seus iguais, tornando-se, assim, líderes abençoados.

Esse é Lula.

Para o intelectual de esquerda, venerar um líder operário é cultuar seu próprio ideal de vida. Ele acredita realmente que, com “luta”, com brios, com heroísmo, é possível alcançar um mundo igualitário habitado por homens singelos e dignos, que trabalham duro, mas alegremente, enquanto que ele, intelectual de esquerda, observa vigilante, do alto da sua cultura superior.

A ideia de juntar num partido o líder carismático egresso do povo com intelectuais sábios é muito cara ao intelectual de esquerda. Por isso, Lula e o PT surgirem como iguais a todos os outros é insuportável para alguns. Donde, tanta briga, tanta confusão. Mas vai passar. E, lá do futuro, as pessoas vão olhar e dizer, algum dia: não era preciso tanto...

segunda-feira, abril 25, 2016



25 de abril de 2016 | N° 18508 
CÍNTIA MOSCOVICH

MUVUCA!

Todo mundo já falou sobre, mas eu não tenho como não voltar ao assunto: votação do impeachment.

Aquele domingo vai ficar para nós como o dia em que conseguimos ver nossa Câmara de Deputados como um todo e no qual descobrimos que nossos representantes, além de não terem compostura sequer para honrar a casa em que trabalham, mal sabem falar português: uma bizarrice. Foram mais de cinco horas de massacre da língua, de dedicatórias esdrúxulas, de jogo de cena, de tapinhas nas costas, de cinismo, de gandaia em frente às câmeras. Para mim, valeu como um mal-vindo choque de realidade.

Além de doer na alma ver gente se acotovelando em torno das tribunas – com direito até a papagaio de pirata, o suplente de deputado evangélico Fabrício de Oliveira, que ficou se exibindo por umas três horas –, ainda tivemos torcidas e vaias como se fosse partida de futebol. Na maratona inventada por Eduardo Cunha, cuja fleuma e pose de honesto davam nos nervos, teve deputado comendo sanduíche, uvas, bolachas, paçoquinha, tomando café e refrigerantes, tudo isso equilibrado por garçons que se espremiam para passar por onde desse. 

O destempero e os xingamentos foram muitos e frequentes. Claro, a cereja do bolo da sessão foi o acesso de estupidez de Jair Bolsonaro, elogiando o coronel Brilhante Ustra, pai de todos os torturadores, comentário que levou ao delírio quem acha que a solução para o país é tiro e tapa. Perto desse desempenho, a cusparada do deputado Jean Wyllys nem foi o pior do dia. 

Como não foi o pior do dia o deputado Bruno Araújo, autor do voto que definiu o placar a favor do admissibilidade do impeachment, ser carregado nos braços dos colegas, bem igualzinho ao que teria acontecido em jogo de final de campeonato. Muvuca das grandes.

Se aqueles fulanos são os representantes da nação e se é assim que eles se comportam quando todo mundo está olhando, imagino o que fazem quando não têm plateia. A depender deles, não temos salvação. Eu já comecei a rezar. E muito.

25 de abril de 2016 | N° 18508
ARTIGOS - CLÁUDIO BRITO*

RENÚNCIA OU TRIBUNAL



Se alguém pretende abreviar uma saída, se uma faxina geral tiver que ser o remédio, então vamos partir para as soluções já existentes em nosso ordenamento jurídico. Pela via rápida de duas renúncias, da presidente e do vice, ou pelo julgamento das impugnações existentes no Tribunal Superior Eleitoral, é que chegaremos lá, sem sobressaltos ou emendas constitucionais casuísticas e, a meu sentir, transgressoras da ordem.

Bem verdade que ficaríamos 90 dias sob a presidência da estranhíssima figura de Eduar- do Cunha, misto de pastor e pajé, anjo e demônio. Ele poderia ajudar a que um acordo cívico-institucional acontecesse. Envolveria ainda Renan Calheiros, presidente do Senado e ocupante da vaga seguinte na fila da sucessão. Cunha e Renan tirariam seus times de campo e a interinidade ficaria bem mais tranquila com Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal. Seria dele a missão de convocar nova eleição presidencial.

Seria muito bom que tudo fosse resolvido assim, com a brevidade que autorizasse o pleito ainda em 2016, pela via direta, evitando-se o desconforto e a insegurança de uma eleição indireta, no Congresso. Já pensaram no que seria a escolha de um novo presidente naquele ritmo e naquela forma a que assistimos na votação do impeachment? Definitivamente, é de outro jeito que precisamos. Mas, sem dúvida, o melhor caminho seria o do TSE. É como penso.

O julgamento depende de Dias Toffoli, ministro que determinou a unificação da relatoria das ações que pedem o fim dos mandatos de Dilma e Temer, o que faz supor uma providência adequada e acauteladora da vida institucional. E a cogitação é razoável. 

Se há quem pretenda o impeachment a partir de resultados de delações que não contemplam os fatos da denúncia ora sob exame do Senado, aceitável, no entanto, que essas mesmas provas – se é que são provas –, sob o crivo do contraditório e em ambiente jurisdicional, orientem a decisão da corte eleitoral. Como disse, seria caminhada bem mais ajustada do que a pretensão de uma ruptura constitucional que alguns senadores estão querendo. Temos leis para resolver todos os impasses.

*Jornalista claudio.brito@rdgaucha.com.br

25 de abril de 2016 | N° 18508 
DAVID COIMBRA

A unha do dedão do Valdir


Era o Geisel o presidente, quando tiramos aquela foto no campo do Alim Pedro.

Ou será que já estávamos sob o tacão de Figueiredo?

Não, não, é certo que era o Geisel, que o Paulinho está bem guri na foto. O Paulinho e o Valdir são dois irmãos que jogavam sempre de pés descalços. Por algum motivo, a unha do dedão do pé direito do Valdir se adaptou à vida ao ar livre e se modificou... estruturalmente. Como o pescoço das girafas, que se adaptou à necessidade que elas têm de comer as folhas das copas das árvores da África. É óbvio que aquele pescoço é uma improvisação.

Já contei que um dia alimentei uma girafa? Dei-lhe comida na boca. Estava num parque da África do Sul, e o funcionário disse que eu poderia pegar a ração de um saco que lá havia e oferecer à girafa. Confesso que me acometeu meio receio. Olhei para a girafa imensa, do tamanho de uma casa e pensei: e se ela estiver de mau humor? Mas todos me olhavam, então reuni os brios que tinha no fundo do pâncreas, tomei da ração e fui. Ergui a mão bem alto. A girafa moveu graciosamente seu pescoço para baixo, numa curva suave, fez surgir da bocarra uma grande língua azul e, com uma única lambida, capturou a comida e a engoliu. Fiquei com a mão toda melecada, mas foi divertido.

É assim a vida selvagem.

Mas estava falando da unha do dedão do pé direito do Valdir. Ela se desenvolveu, enrijeceu e tornou-se afiada feito gilete. O Valdir riscava as canelas dos atacantes com aquela unha. Era uma arma que ele tinha. Dizem que um dia furou uma bola de couro número 5 com ela, mas acho que é lenda.

O Valdir era meio corcunda.

Há um detetive corcunda, na ficção policial. É o personagem dos livros de C.J. Sansom, que escreve histórias deliciosas, ambientadas na Inglaterra de Henrique VIII.

Esse Henrique VIII é dos meus reis prediletos. Não só por ter tido seis esposas, e sim por ser uma figura carismática e imprevisível. Henrique foi considerado o príncipe mais belo da Europa, mas, coroado, começou a comer. E comia e comia. Sendo também muito ativo, pouco engordava. Um dia, porém, sofreu um acidente e machucou a perna. Não pôde mais fazer exercícios, e aí passou a engordar com grande velocidade. A velhice o encontrou morbidamente obeso, mal cabendo no trono e emanando um cheiro de putrefação da perna constantemente inflamada.

Há muitas histórias boas de Henrique VIII. Histórias de reis são interessantes, porque eles mudam a vida de milhões. De certa forma, é como um presidente no Brasil. E aí retorno ao Geisel.

Geisel era uma figura intrigante. Morreu-lhe um filho, e ele nunca mais se recuperou. Uma vez admitiu: – Na minha vida, fui sempre um infeliz.

São raras as cenas em que aparece sorrindo. Era homem controlado, de hábitos arraigados. Todos os dias, depois do almoço, recolhia-se ao quarto, no Alvorada, tirava o terno, vestia o pijama, deitava-se, dormia meia hora, levantava-se, tirava o pijama, vestia o terno e voltava ao trabalho. Todos os dias.

Geisel foi ditador, certo. Mas agora diga: examinando a questão de acordo com o contexto, sua atuação foi positiva ou negativa para a democracia? Porque Geisel assumiu garantindo que faria a abertura “lenta, gradual e segura”. E fez. Foi um inimigo da linha dura dos militares. Resistiu, inclusive, a uma tentativa de golpe (de verdade) tramada por Sylvio Frota.

Demorou. Foi lento e gradual. Mas o Brasil conseguiu a Anistia, o fim do AI-5 e da censura, os porões da tortura foram desmontados e, depois de Figueiredo, o poder voltou aos civis.

Ao mesmo tempo, Geisel foi visceralmente autoritário. Ainda que trabalhasse pelo retorno à democracia, governou como perfeito ditador. A História com agá maiúsculo é complexa. Mas volto ao assunto amanhã.


25 de abril de 2016 | N° 18508 
L.F.VERISSIMO

Supers

“Superman” contra “Batman”, o filme, é apenas o exemplo mais evidente de uma tendência preocupante, da qual poucos se deram conta. Os super-heróis não estão mais combatendo vilões, alguns reincidentes e tão tradicionais quanto eles, estão combatendo um ao outro. Quem imaginaria que um dia veríamos o Super-Homem e o Homem-Morcego no mesmo filme não como aliados contra o crime, mas como inimigos? O que nos espera no futuro? Homem-Aranha x Homem de Ferro? Capitão América x Mulher Maravilha? Hulk, num dos seus acessos, contra todo o mundo?

Há quem diga que a questão entre Superman e Batman é antiga, embora os dois nunca tivessem se encontrado, nem socialmente. Algo envolvendo inveja, vaidades, talvez algum comentário elogioso da Lois Lane sobre Batman e sua elegância “dark”, em contraste com o calçãozinho azul 1,99 do Superman. Talvez a frustração do Batman por não poder voar como o outro.

Confesso que nunca entendi bem o Super-Homem. Do que ele vive? Do salário de jornalista, como Clark Kent, certamente não é. Sabemos tudo sobre as finanças do milionário Bruce Wayne, cujo hobby é se fantasiar de morcego e caçar bandidos, uma excentricidade de rico como qualquer outra. Mas o Super-Homem, qual é sua fonte de renda? É difícil acreditar que ele não use um dos seus superpoderes, como a capacidade de derreter portas de aço de cofres de banco só com um olhar, quando precisa algum, sem declarar para o Fisco.

Essa estranha novidade de guerra entre os supers tem outros significados. Do nosso tempo de leitores de gibis até agora, dissolveram-se as barreiras entre o bem e o mal, ou o Bem e o Mal, e nossos heróis perderam a certeza da sua missão na Terra. 

Hoje não faltam heróis, faltam vilões, ou vilões identificáveis como tais. Há uma enorme quantidade de poderes ociosos no mundo, aguardando a volta dos tempos em que não havia dúvida sobre quem eram os maus, que nunca voltarão. Resta aos supers medirem seus poderes enquanto esperam. Eu mal posso esperar por Lanterna Verde x Wolverine.

sábado, abril 23, 2016


23 de abril de 2016 | N° 18507
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

QUANDO MISERICÓRDIA É A SOLUÇÃO

NA VOTAÇÃO DO IMPEACHMENT, OS DOIS LADOS DISTRIBUÍRAM UM CINISMO DESLAVADO 


Não seria nenhum exagero dizer que a política é um exercício de tolerância com a prática civilizada da hipocrisia. E com direito à agudização em situações assumidamente decisivas e dramáticas, quando então todos os limites do ridículo são transpostos com uma naturalidade chocante. 

Foi o que mais se viu no recente episódio do impeachment, de ambos os lados, com uma distribuição bilateral e simétrica de cinismo deslavado. Do lado do governo, a declaração de que a oposição só pensa em acabar com os programas sociais como se esses programas já não estivessem fazendo água porque, em busca da reeleição, foram consumidas todas as reservas do tesouro, mais os estoques dos bancos públicos e dos fundos de pensão, resultando nas tais pedaladas que envolveram números astronômicos. 

Como o mau gestor é incapaz de prever arrecadação para sustentá-los, vários programas, com benefícios louváveis como ProUni, Pronatec, Minha Casa Minha Vida e Bolsa Família, começaram a ter seus proventos ameaçados ou interrompidos. Se os petistas acreditam mesmo que destroçar a sétima economia do mundo não envolve crime de responsabilidade, dever-se-ia dar a eles o direito de concluírem o mandato, com a certeza de que a legião de desempregados que cresce exponencialmente se encarregaria de escorraçá-los antes do final desse desgoverno.

No fundo, o ex-presidente Lula sabe que agora, do jeito que está, não teria chance nenhuma, mas se a “direita golpista” der uma equilibrada na economia (e ela já mostrou que sabe fazer isso), ele poderá voltar com toda a força em 2018. E vamos combinar que pedalada fiscal é mais fácil de esquecer do que falsidade ideológica, obstrução de Justiça, tráfico de influência, triplex, sítios e essas inconveniências que, dizem, constam do pedido adicional de impeachment produzido pela OAB, que aguardaria engatilhado na gaveta do presidente da Câmara.

Pela oposição, o constrangimento de assumir que em 13 anos de governo petista não foi capaz de gerar uma liderança confiável (umazinha que fosse!), tendo que se socorrer nesse processo dito redentor, de uma figura escorregadia e sorrateira que, afora a dificuldade com o WhatsApp, é a expressão maior de um partido que, de tanto se moldar às exigências do poder circunstancialmente disponível, se tornou um aglomerado amorfo e pífio, como o aperto de mão do seu líder. 

As pessoas do bem, essas que sustentam o país com trabalho e produção, estão constrangidas em assumir que a busca de solução para o descalabro implantado pelo populismo desenfreado do PT dependa do PMDB, uma bancada que não se ofende e nunca revela indignação, nem cogita dessas crenças que imponham convicção, firmeza, e intransigência. Pelo contrário, o cuidado na prevenção de inimigos evitáveis parece ser parte fundamental do seu kit de sobrevivência, baseado no pressuposto que, se todos poderão ser aliados no futuro, não há razão para brigar com ninguém no presente. 

A naturalidade com que o presidente da Câmara chamava para votar o próximo deputado, depois de ter sido chamado de ladrão, dá bem a ideia do que sobrou do país que pretendemos reconstruir para poupar nossos descendentes da vergonha que sentimos, e deu todo o sentido ao clímax de hipocrisia quando ele clamou por misericórdia para o Brasil. Considerando a fonte invocadora, parece pouco provável que o pedido seja atendido, mas bem que precisávamos.


23 de abril de 2016 | N° 18507 
MARTHA MEDEIROS

Sua estupidez não lhe deixa ver


Vá trabalhar. Vá namorar alguém que goste de você pelo que você é e não pelas suas presepadas juvenis. Você que faz rachas na rua.

Se tem menos de 18 anos, é um bobalhão com titica de galinha na cabeça. Na sua infinita idiotice, acredita que seduzirá as meninas caso roube o carro do pai ou – pior! – roube qualquer carro a fim de voar pelas avenidas. Pensa que é assim que irá se transformar em um adulto: desafiando o perigo. Criança, vá estudar. Vá trabalhar. Vá namorar alguém que goste de você pelo que você é e não pelas suas presepadas juvenis. Não dê motivo para seus pais se arrependerem de ter trazido você ao mundo. Vire homem, e não um bandido. Tem gente que pode morrer por sua causa. Sua estupidez não lhe deixa ver.

Se tem mais de 18 anos, também é um bobalhão com titica de galinha na cabeça, igualzinho à criatura do parágrafo acima, incluindo a infantilidade.

E se tem 39 anos, 52 multas, uma carteira de habilitação suspensa, 10 cervejas na corrente sanguínea e um carro possante em mãos, aí não há o que explique. Fazer um racha nessas condições? É bem grandinho para prever as consequências de seu vício em adrenalina. E deveria estar a par de outras atividades que resultam em bastante emoção: saltar de paraquedas, surfar, escalar montanhas, fazer trekking, rafting, rali, mergulho, balonismo, bungee jump. Até jogar truco provoca certa palpitação.

Mas se nada disso interessa, se o sujeito encasquetou com o automobilismo, trago boas notícias: existe um autódromo bem pertinho de Porto Alegre, em Viamão. Chama-se Tarumã, que dias atrás completou 56 anos de existência. A pista tem extensão de mais de três quilômetros, nove curvas e o asfalto foi todo recapado. É o circuito com a maior média de velocidade do Brasil. O site traz toda a programação – de repente você consegue se inscrever em alguma categoria de corrida. Não sai barato, mas posso garantir que gastará bem menos do que com advogados e indenizações por lesões corporais graves.

Ah, lá tem um kartódromo também. Parece que custa R$ 85 por pessoa ou algo assim. Você coloca um capacete, pisa fundo no acelerador e não ameaça a vida de nenhum pedestre e de nenhum outro motorista.

Não serve? Tem que ser roleta-russa? Tem que ser algo bem irresponsável, uma cretinice daquelas? Entendi. A busca é por uma emoção realmente diferenciada, como ir para a cadeia.

Se você é um desses que faz racha pelas ruas da cidade, abra o olho enquanto é tempo. A estupidez está cegando você. Depois não adiantará alegar que não viu nada.



23 de abril de 2016 | N° 18507 
CARPINEJAR

Jair e Zé Capitão

Jair tem 80 anos, Zé Capitão tem cara de 90. Não conheço amizade tão bonita entre dois homens. Amizade pura de menino, de sujar as calças da missa subindo em árvores e jogando bolita de gude.

Eles nunca se entristecem, é estar perto que formam um domingo e reencontram a esperança infinita da infância. Sempre arrumam o que fazer, mesmo que seja atirar pedras no rio, buscando o arremesso certo, de faiscar a superfície.

Conversam sem dó sobre qualquer assunto, de política a pintura, de pássaros a aviões. Jair é divorciado, e Zé é casado. A paixão pelas suas mulheres somente alimentou a confidência. Velhos homens hoje, mas com uma velhice dividida que é quase uma juventude.

Eles se veem duas vezes ao mês na fazenda de Zé em Lagoinha de Fora (MG), depois de Lagoa Santa. Jair armou uma placa para avisar todos que passam onde mora o seu melhor amigo: a 2 km o buraco de Zé Capitão. Criou o desenho de um pescador queimado pelo sol.

Zé não anda mais, amputou as duas pernas devido a diabetes. Jair movimenta-se pelos dois para pescar carpas. O filho do Zé ainda corta os cabelos de Jair, apesar do hábito de aparar mal e abrir um caminho de ratos. Jair deixa porque é filho do Zé.

Jair é chamado de Jairo por Zé Capitão – ninguém sabe o motivo. Assim como Zé, quando gosta de algo, diz que é mexicano. “Come esta mexerica? É mexicana!” Ninguém também sabe o motivo. Não é bom perguntar. Há piadas que são só dos dois, segredos de longas risadas.

No entardecer, ambos se juntam para cantar serestas. A Noite do Meu Bem é a preferida do dueto que arranha uma viola caipira. Os cachorros disputam a audiência com ganidos para a lua.

Eles deitam na cama assistindo novela: Jair, Zé e Elza, a jovem esposa de Zé. Engraçado os três estirados. Não falam coisa alguma até vir o comercial. Não existe malícia, não existem segundas intenções. São homens antigos ocupando os espaços do silêncio.

Se não fossem amigos, não seriam Jair nem Zé Capitão.

Já perderam dinheiro, bens, posses, relações, jamais se perderam, jamais serão loucos. Loucura é estar completamente sozinho neste mundo.

Amigos podem ser mais do que irmãos de sangue. Pois inventam os seus próprios pais para cuidar melhor um do outro.



23 de abril de 2016 | N° 18507 
L.F. VERISSIMO

Cuidado, que mancha

“Cuidado, que mancha” era uma das três ou quatro frases mais usadas pela mãe da gente.

Mais do que “come tudo, que espinafre faz bem” e “não esquece de baixar a tampa”. Manchar uma camisa ou, crime ainda mais hediondo, uma camisa nova, era imperdoável. A reprimenda da mãe incluía uma lista de consequências do nosso desleixo, cada uma mais carregada de culpa. Uma camisa estragada, para sempre irrecuperável, horas gastas na escolha, compra, estocagem e manutenção da camisa jogadas fora.

Você não tinha noção do que provocara com seu comportamento desastrado. Horror, horror.

É verdade que o escândalo durava pouco. A camisa maculada nunca estava totalmente perdida, voltaria como pano de prato ou coisa parecida.

Mas nossa culpa não acabava. Vivíamos entre dois medos, o de manchar outra camisa – "Meu Deus, ele se sujou com caqui, mancha de caqui nunca sai!” – e o de ser obrigado a usar babador, como um bebê.

E o trauma permanece, até hoje. O medo da mancha. O terrível medo da mancha que nunca sai.

Tomemos o caso do deputado X. Um político importante, com uma carreira exemplar, mas que por esses dias começou a ter uma sensação estranha, a sensação de ter uma mancha na frente da sua camisa. A camisa podia estar coberta por paletó e gravata, ou por fraque e condecorações, e ele sentia a mancha no peito. E ouvia a voz da sua mãe dizendo “Menino porcalhão!”.

O deputado X foi procurar um psicanalista e contou o que estava lhe acontecendo.

– Acho que tem a ver com a mãe, doutor.

– Tudo tem a ver com a mãe.

– Ela me criticava muito porque eu sujava a frente da camisa, quando comia.

– “Cuidado, que mancha”. Conheço bem. – A sua mãe dizia a mesma coisa, doutor?

– Oitenta por cento da minha clientela é de traumatizados por essa frase.

– E o que provoca essa sensação de culpa, doutor?

– Você deve ter feito alguma coisa que, inconscientemente, lhe deu culpa. Algo que manchou sua vida. A voz que você ouve é a da sua mãe, repreendendo-o através dos tempos.

– Mas eu não fiz nada para me sentir culpado. – Tem certeza? – Bom, eu estava em Brasília na semana passada e votei pelo... Hum, deve ter sido isso. Essa mancha sai, doutor?

– Sai, sai. No Brasil, nenhuma culpa dura muito.



23 de abril de 2016 | N° 18507 
DAVID COIMBRA

O time da foto

Então surgiu, arrancada das profundezas empoeiradas de alguma gaveta, uma velha foto do Huracán, em formação de combate no campo santo do Alim Pedro.

Huracán, o furacão do Passo d’Areia.

Estávamos todos ali. Em pose solene, cara de mau, braços cruzados diante do peito de aço, o goleiro Raimundão lançava um olhar ameaçador para o fotógrafo. Raimundão ainda não tinha idade para usar o bigode e a capanga que lhe completariam a figura, anos depois. O bigode servia para homenagear Rivellino; a capanga, para guardar um tresoitão negro da cor das trevas mais densas. Ao entrar em campo, Raimundão acomodava a capanga no fundo da rede e dava uma passada d’olhos pelos rostos lívidos dos adversários, que o observavam durinhos, do outro lado do campo.

Uma vez o Diana, que gostava de irritar os outros, irritou o Raimundão por algum motivo. O Raimundão jogou seus dois metros de massa bruta em cima do pequeno Diana. O Diana, mais rápido, conseguiu se esquivar e saiu correndo feito um gnu. O Raimundão foi atrás, urrando feito um leão. O Diana se homiziou em casa. O Raimundão não teve dúvidas: pedalou a porta, que voou sala adentro, fazendo desfalecer a mãe do Diana num único oh.

Hoje, pelo que sei, o Raimundão é um homem pacífico, próspero dono de táxi, bem-casado. A Revista Veja o definiria como um respeitável chefe de família.

O Diana também está na foto, bem faceiro dentro de uma camisa do Grêmio – o Diana era mais gremista do que o Cacalo. Uma vez ele apostou que comeria grama se o Grêmio não vencesse a final do Gauchão. O problema é que estávamos nos anos 1970, e o Inter tinha aquele time de Falcão, Figueroa, Valdomiro...

O Diana pastou um tufo generoso da ponta esquerda do Alim Pedro, e nós aplaudimos sua esportividade.

Hoje o Diana é reconhecido professor e homem de religião. Já foi petista acérrimo, mas está meio arrependido. O que me faz lembrar que, naquele tempo, nossa ideia de política era singela e linear: para ser presidente da República, um homem tinha de entrar no Exército e virar general. Ponto.

Para nós, essa era a ordem natural das coisas, porque só conhecíamos o regime militar. Ainda hoje lembro de uma cena que se passou bem antes do dia daquela foto: a professora Alba escrevendo a giz, com letra emendada, o nome do presidente no quadro-negro: “Emílio Garrastazu Médici”. Nós brincávamos com o nome do meio, dizíamos “Garrafa Azul” e achávamos muito engraçado.

A professora começou a descrever o presidente e contar sobre suas façanhas, sobre como o Brasil crescia sem parar, como era o país do futuro. Alguma revista poderia publicar na capa a famosa foto do Cristo Redentor decolando.

Também no cinema, pouco antes de começar o sensacional Canal 100, Médici aparecia como um homem disposto a desenvolver o Brasil, admirado pelo mundo inteiro como grande estadista (alguém talvez pudesse dizer que era “o cara”), e, para arrematar, mostrava-se um torcedor de futebol como todos nós: Médici era tão gremista quanto o Diana. As TVs de Brasília transmitiam direto os jogos do Grêmio, por suave sugestão dele.

Num dos tomos do já clássico livro de Elio Gaspari sobre a ditadura militar, ele conta que, certa feita, ao saber que o preço da carne ia subir, Médici determinou que, antes disso, fosse vendida determinada quantidade de seus bois, em sua fazenda de Bagé, para não se beneficiar de informação privilegiada. Em outra oportunidade, mandou que uma estrada em construção fosse desviada para não passar perto de suas terras. Não queria que se valorizassem e parecer que estava tirando proveito do governo.

Ou seja: Médici era honesto até os gorgomilos e, em seu governo, o país cresceu como se fosse a China, mais de 10% ao ano, e foram erguidas obras estruturais importantíssimas, como a Usina de Itaipu, e, no plano social, houve preocupação com os desassistidos, como aquele gigantesco programa de alfabetização, o Mobral, e a criação de um instituto de Reforma Agrária, o Incra.

Isso tudo era dito naquela época.

Hoje, à luz dos acontecimentos, o que se pode dizer do governo Médici?Óbvio: que foi criminoso. Todos sabemos, agora, que aquele foi um dos governos mais sanguinários da história do Brasil, em que houve tortura e repressão.

Mas note como as coisas se tornam relativas, quando analisadas por partes. E como tudo fica confuso, quando olhado de dentro, e não de longe.

Examinando de novo aquela antiga foto, percebo que nada disso tinha importância para nós, naquele tempo. Nós queríamos era jogar bola e rir com os amigos. Mas havia ali outras histórias, que também me fazem pensar em coincidências da vida. Que conto na próxima coluna.