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sábado, abril 21, 2018


21 DE ABRIL DE 2018
LYA LUFT

Humanos e animais


Outro dia, falava com as netas sobre humanização de pets. O assunto me interessou, despertou minha curiosidade, pois sempre houve pets em minha casa (desde quando esse termo nem existia), embora, admito, ultimamente andem mais humanos.

Já tenho cachorrinhos (sou cachorreira) dentro de casa, coisa antigamente impensável. Meu marido, inclusive, na sua primeira casa, só tinha cachorro no pátio. Comigo, acostumou-se a esses pets meio humanos, e devo dizer que gosta deles, que, por sua vez, o veneram.

Por muitos anos, tive aqui na cobertura duas pets, uma delas a pug Meg, a Gorda sobre a qual escrevi recentemente e que, muito doentinha, aos nove anos morreu. A outra, a minha spitz míni, já dorme no nosso quarto e, confesso, às vezes sobre o nosso edredom. Perfumada e mimosa, não é mais bem um bicho, mas quase uma pessoazinha, embora eu não lhe ponha vestidinhos, porque me desagrada ver cachorros de roupa.

Só falta que, a qualquer hora, me encarando com esse seu focinhinho quando quer me dizer que falta água, falta comida, falta a Gorda, ou quer colo, comece realmente a falar. E tanto converso com ela, que às vezes receio que abra a boca e responda com sua voz de spitz algo como "Sim, mamãe", quando certamente cairei desmaiada, dando bastante trabalho a quem me socorrer.

Agora, para os próximos dias, espero um novo bebezinho, e disse isso a uma amiga ainda ontem, sob o espantado olhar do seu porteiro: "Semana que vem chega meu bebezinho". Já tem nome, Pandora, bem maior do que ela mesma, cuja foto não paro de olhar e me enternece de maneira patética. Alguém me disse que Pandora foi quem abriu a caixa soltando os males pelo mundo, de modo que seria um nome funesto. Mas respondi, com alegria, que na caixa de Pandora tinha sobrado um último elemento, o mais precioso de todos, que veio nos habitar: a esperança. E assim me sinto reconciliada com o nome, que aliás é personagem de meu livrinho mais recente, A Casa Inventada.

Pandora é uma spitz micro: será, quando adulta, quase metade da já pequena Melanie, e me divirto por antecipação com as diabruras, os mimos, os carinhos, a maternidade minha, o possível ciúme inicial da irmã.

Com minha amada amiga Nélida Pinõn, atualmente residindo por breve tempo em Lisboa, troco fotos e gracinhas das nossas filhas de quatro patas. A dela, registrada como Suzy Piñon, a minha, Pandora Luft. Rimos, as duas, no WhatsApp, com nossas inocentes maluquices ternas. Pena que não posso botar aqui uma foto da nova bebê, com seu rostinho de urso diminuto, sua graça sem nome, seus olhinhos de mil pedidos e sua quentura aninhada no meu colo... certamente junto com sua irmã Melanie.

Um dia vou pensar e escrever sobre a animalização dos humanos. Não será preciso refletir muito... Por hoje, só carinho e expectativa de um novo bebê.

LYA LUFT

21 DE ABRIL DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Washington


Sou viciada em viajar, mas Washington não faz parte da minha wish list - implico com a capital norte-americana mesmo sem conhecê-la, ainda que saiba dos museus incríveis que há por lá. O Washington que dá título a esta crônica é o Olivetto. Fui redatora publicitária por 13 anos (inclusive fiz uma passagem supersônica pela DPZ), mas cruzei com o Washington pouquíssimas vezes, em esbarrões sem consequências. Na noite anterior à que ele foi sequestrado, conversamos por breves minutos num restaurante em Porto Alegre, sem imaginar que dali a 24 horas ele sairia de cena, a contragosto, por 53 longos dias.

Foi um período difícil para seus funcionários, que tiveram que se acostumar "com a falta de euforia, com a falta de genialidade, com a falta de um jeito de andar, de falar com as mãos, de levar a vida", segundo palavras de Tati Bernardi, que trabalhava na W/Brasil na época (2001). Agora, tantos anos depois, ele lança sua autobiografia, e o sequestro não ganhou nem mesmo um parágrafo decente, foi um "ops" em meio a uma trajetória muito maior e mais interessante.

Direto de Washington é o nome do livro que recomendo para quem tem curiosidade sobre os bastidores das agências e sobre como surgiram ideias que faziam a gente pensar "isso até eu faria", como a do garoto Bombril e a do primeiro sutiã da Valisére, sem falar naquele slogan surpreendentemente direto: "Compre Batom!". Parecia brincadeira, de tão fácil.

Estar de brincadeira foi a tarefa mais séria à que Washington Olivetto se dedicou. E aqui paro de falar de propaganda para falar de algo bem mais abrangente e que envolve não só publicitários, mas engenheiros, balconistas, vendedores de cachorro-quente, costureiras, frentistas de postos de gasolina, colunistas de jornais.

No final das contas, somos todos consumidores. Não apenas de aspiradores de pó, biscoitos e esponjas de aço, mas consumidores de fantasias, gargalhadas e declarações de amor. Somos consumidores de conversas de bar tanto quanto de cerveja, consumidores de vaidade tanto quanto de perfume, consumidores de prazer tanto quanto de vinho. Consumimos vida, não só produtos e serviços. Vida é o tal valor agregado de qualquer coisa que a gente compre.

Washington sintetizou isso com propaganda comunicativa, afetiva, divertida, musical. Fez a gente ver que, mesmo com pouca grana, o que vale é ser criativo e encontrar saídas para ser feliz. Washington é a síntese, não a complicação. É o charme, não a peruíce. É a irreverência, não a arrogância. O livro é uma egotrip, ele se vende pra burro, mas não é o que passou décadas fazendo pelos outros? Então, que o deixem livre, leve e solto para nos dar este toque: só se escabela para parecer profundo quem não tem talento para ser simples. A simplicidade continua sendo a melhor técnica de sedução.

MARTHA MEDEIROS


21 DE ABRIL DE 2018
PIANGERS

Falta referência

Notei minha idade um dia desses quando citei a Marília Gabriela, e todo mundo me olhou como se citasse uma pessoa desconhecida. Era uma daquelas entrevistas em que falam uma frase curta e querem que você responda com uma frase curta também, o tipo de entrevista que me deixa profundamente desconfortável porque tenho sempre que pensar em algo muito inteligente e curto e, como todos sabemos, prolixidade é o refúgio do medíocre. 

Alguém já disse: Se eu tivesse mais tempo poderia escrever uma carta mais curta. Leva tempo ser sucinto. Pois, na minha época, essas entrevistas eram chamadas de pingue-pongue. Os mais velhos, como eu, lembrarão da Marília Gabriela fazendo este tipo de coisa, os de meia-idade terão na Xuxa sua referência de entrevista pingue-pongue. Os realmente novos não terão referência alguma, como é típico.

Esses dias, em uma conferência pra gente mais nova, utilizei o termo "microfone da Madonna" para me referir àqueles que encaixam na orelha e vem até a boca com uma haste fina. Usar o termo "microfone da Madonna" denuncia muito sua idade. A plateia me olhou sem entender, muitos deles não conheciam nem a Madonna. Agora, como podem não conhecer a Madonna? Este é o problema com os muito jovens: sua ignorância evidencia nossa velhice.

Mostrei esses dias um telefone fixo de disco para minhas filhas. "Onde estão os botões?", perguntaram. Não tinha botão. Tinha disco. Daí vem o termo "discar o telefone". Odiávamos quem tinha 9 ou 0 no número de telefone, pois tínhamos que esperar todo o disco voltar para o lugar original, para poder discar outro número. Se tinha um 9 ou um 0 a gente levava horas pra ligar pra alguém. Quando a mãe via que estávamos usando muito telefone e a conta estava vindo cara demais, ela colocava um cadeado no disco, impedindo-o de girar. Era o que se tinha de mais sofisticado em termos de segurança de sistema.

Quando fazemos o sinal da conta, no restaurante, simulando um lápis que faz um cálculo no ar, também estamos denunciando nossa idade. Hoje em dia a conta vem pronta, impressa por um computador, e a gente paga com cartão, não preenchendo um cheque. Rabiscar o ar perdeu a lógica. O mundo como conhecíamos vai pouco a pouco desaparecendo, dando espaço para novas pessoas com novas referências. Experimentarão um pouco do que sentimos quando, em alguns anos, ninguém souber o que era um smartphone.

PIANGERS

21 DE ABRIL DE 2018
ABRÃO SLAVUTZKY

AINDA ASSIM EU ME LEVANTO


Há poucos meses, conheci Maya Angelou e foi amor à primeira vista. Há um documentário na Netflix sobre a vida dela que vale a pena ver. E foi vendo esse filme que fiquei fascinado com o seu exemplo de vida. O seu poema mais famoso é Ainda Assim Eu me Levanto (Still I Rise), que começa assim: "Você pode me inscrever na História / com as mentiras amargas que contar / Você pode me arrastar no pó, mas ainda assim, como o pó, eu vou me levantar".

Maya Angelou (1928-2014) foi uma poeta americana, jornalista, cozinheira, condutora de bondes, cantora, bailarina, diretora de cinema, entre outras atividades. Ativista dos direitos humanos na defesa dos negros e das mulheres, viveu também na África, conviveu com Martin Luther King, conheceu Nelson Mandela. Foi escolhida pelo presidente americano Bill Clinton para ler um poema seu na posse dele. 

Talvez hoje escrevo em homenagem a mulheres negras como ela e Marielle Franco, assassinada há um mês e nada ainda sobre os suspeitos do crime. Também porque lembro o impacto do que disse a cantora Elza Soares: "A carne mais barata no Brasil é a carne da mulher negra". O Brasil foi o último país a terminar com a escravidão negra no mundo ocidental. Os escravos não tinham direito a nada, a não ser servir aos brancos da casa grande. Os negros e os sofredores do mundo lutam para se levantar.

Ainda Assim Eu me Levanto é um canto ético para todos. Negros, brancos, pobres ou não, enfim, todos que vivem ou viveram quedas e perdas. Não conheci, até hoje, quem não tenha caído e sentido o chão se abrir e afundar ou quase. Admirável quem, após uma derrota, uma perda afetiva, consegue reunir forças para se levantar. Já vivi e convivo com traumas dolorosos dentro e fora do consultório. Lembro, por exemplo, de um casal que tinha vários filhos jovens e um deles, com pouco mais de 20 anos, estava muito doente. 

Ele tinha câncer e, ao longo dos meses, foi piorando e terminou morrendo. Nunca os esqueci, pois as consultas eram quase sempre com choros e muitas vezes tive vontade de abraçá-los e chorar junto. Os anos passaram e, um dia, nos vimos num supermercado. Fiquei, por segundos, parado, pois não sabia se desejariam conversar. E terminou sendo um encontro inesquecível; emocionante foi escutar como se levantaram, lentamente, diante da tragédia que viveram. Escrevo para agradecer.

A história social e a individual se encontram, convivem, são histórias que se cruzam no tempo e no espaço. Gosto de recordar que vivemos tempos contrastantes. Há os tempos de chuva e de sol, tempos de alegria e de tristeza, tempos de plantar e de colher, tempos democráticos e autoritários. Alguns afirmam que os ventos seguirão trazendo tempos de ódio e violência. Diante das tempestades, é importante não se isolar nem se desesperar. Há forças criativas e construtivas germinando.

É possível viver melhor quando se mantém a virtude do espanto. Do espanto, nasce o conhecimento, já ensinaram os filósofos da Grécia. As crianças vivem espantadas, tudo é novidade para elas. Reaprender as possibilidades de surpreender-se com frases, sentimentos, músicas, são graças diante das desgraças. Como foram os momentos de espanto com o diálogo no supermercado ou uma poesia como Ainda Assim Eu me Levanto.

ABRÃO SLAVUTZKY

21 DE ABRIL DE 2018
J.J. CAMARGO

A PERIGOSA MORTE DO RESPEITO


Não por acaso, quando se quer ridicularizar a legislação, se diz jocosamente que determinadas leis só servem para punir os ladrões de galinha, quando se considera como delitos equivalentes o pão surrupiado pelo pai da família faminta e o desvio de verba da merenda escolar pelo político corrupto.

A maioria da população, que escapou da sociopatia genética e foi educada sob os preceitos do fazer o que é certo, ou mais rigoroso ainda, seguir a recomendação de Kant ("Tudo o que tiver dificuldade de explicar como fez, não faça!") se sente ultrajada com as discrepâncias legais, com normas para as quais se pode até alegar boa intenção, mas sem obscurecer a obviedade de que nem tudo o que é legal, é ético.

Com o caminho aberto para a canalhice, chegamos ao ponto de festejar a fortuna e a ascensão social de vigaristas habilidosos em arquitetar manobras espetaculares, capazes de colocá-los em patamares de admiração da população mais humilde, visivelmente cansada da humildade. Estamos exaustos da integridade sem recompensa ou assumimos que o lamentável das negociatas é não termos sido convidados, como já advertira o Millôr?

Quando surge um movimento de depuração coletiva, a reação inicial da canalhada, como se pode presumir, é de pânico. Isso foi observado, com entusiasmo, nos primeiros movimentos da Lava-Jato, e provocou na população geral a ingênua euforia de que agora vamos, e não haveria tapete que bastasse para cobrir tanta sujeita. Com a passagem do tempo, se percebeu que esse sentimento foi se esvaindo com a naturalidade com que os acusados, protegidos pelo biombo do foro privilegiado e por recursos, embargos e embargos dos embargos, negavam acusações completamente documentadas.

Quando ficou visível que mais importante do que ser condenado para o cumprimento de uma pena é saber quem está sendo sentenciado, o desânimo se multiplicou, chegando ao ápice quando se permitiu que alguém com prisão decretada atrasasse a apresentação no cárcere para proferir um discurso etílico/patético, conclamando o pobre povo que lidera a bloquear estradas e seguir com as invasões no campo e na cidade, tudo em seu nome, ou seja, com impunidade assegurada. Naquela tarde, respeito e dignidade foram ridicularizados.

Curiosos, aguardamos a manifestações dos nossos magistrados face a essa aberração jurídica e fomos surpreendidos com a notícia de que a única medida em andamento era a revisão das prisões em segunda instância, com óbvia intenção de abrir as portas da prisão. A mídia, que se omitiu de comentar a bizarrice desse episódio, reconheceu como louvável o envolvimento atual da sociedade, a ponto de muita gente saber o nome da maioria dos ministros, mas foi deprimente descobrir que os votos deles são previsíveis, porque a Suprema Corte parece partidarizada, o que quer dizer que a chamada interpretação da lei nada mais é do que a adequação dela à ideologia de cada um.

Desde sempre se repete que o reconhecimento que um país possa merecer na comunidade das nações depende do apreço que o povo tenha pelo seu sistema judiciário. E como respeito é irmão da confiança, nada poderia ter sido pior do que a morte do respeito. Que começou quando sentimos um impulso incontrolável de vaiar os juízes da nossa Suprema Corte. O discurso empoado dos nossos magistrados, envoltos em togas imponentes, não consegue ofuscar o sentimento de repúdio que brota no íntimo das pessoas mais humildes, que não têm conhecimento das artimanhas legais, mas conservam intacta no coração a noção mais elementar de justiça.

J.J. CAMARGO


21 DE ABRIL DE 2018
DAVID COIMBRA

A terrível descoberta


Aprimeira Copa do Mundo a que assisti interessada e integralmente foi a de 1974. Disse isso para o meu filho, que, agora, por causa do álbum de figurinhas da Copa da Rússia, só fala em futebol, só pensa em futebol. Foi durante essas conversas que descobri algo terrível sobre ele, como contei na última coluna e vou desenvolver hoje.

Naquela época, 1974, eu estava tão apaixonado por futebol quanto ele está agora. Cobri todas as paredes e até o teto do meu quarto com pôsteres e fotos de times. Pena que, naquele tempo, a gente não tirasse fotos. Seria engraçado ver, hoje, uma imagem do meu quarto de guri.

Além de todas as revistas de futebol possíveis, meu quarto sediava meus invencíveis times de botão puxador e coleções de gibis e de livros de história. Orgulhava-me em especial da minha coleção dos manuais da Disney, comprados com meu próprio dinheiro, ganho com a venda de jornais e garrafas, bem como com algum troco que me dava o meu avô. Tenho ainda esses manuais. Eram os seguintes:

1. O clássico Manual do Escoteiro, que deu origem à série. Guiando-me por aquele livro, tentei com afinco aprender a dar o poderoso nó de marinheiro, que ata e nunca desata. Jamais consegui. Não admira, porque ainda hoje não sei fazer o laço nos cadarços do sapato. Refiro-me, claro, ao laço ortodoxo. Esse não sei. Mas inventei um jeito que está me salvando nos últimos 40 anos. Não preciso do laço de vocês.

2. O do Tio Patinhas, sobre economia, onde li pela primeira vez a história de Howard Hughes, o ricaço americano que tinha irresistível atração por atrizes e aviões e irresistível fobia a micróbios. Hughes envolveu-se com Katharine Hepburn, Bette Davis, Jane Russell, Gina Lollobrigida e Ava Gardner, que era chamada de "o mais belo animal da Terra". O homem gostava mesmo de aviões.

3. O do Professor Pardal, sobre invenções, graças ao qual fiquei sabendo que o grego Arquimedes fez a maior descoberta científica da sua vida ao entrar em uma banheira para tomar banho. Sentou-se, viu a água erguer-se até as bordas e, naquele momento, resolveu o problema que o atormentava. Gritou: "Eureka!". Isto é: "Achei!". E saiu correndo pelado pela casa, com as partes balouçantes, a água espargindo por todo lado, espantando os criados e as visitas.

4. O do Mickey, sobre detetives, em que fiquei sabendo que o célebre criminoso John Dillinger, o inimigo público número 1 dos Estados Unidos, certa feita fugiu da cadeia usando um revólver falso, que ele mesmo fez utilizando sabão e graxa de sapatos. Depois de ler isso, tentei várias vezes esculpir um revólver com sabão e graxa de sapatos e fracassei. O que enfureceu minha mãe, que teve de comprar mais sabão, e me fez chegar à conclusão de que, se me tornasse o inimigo público número 1 dos Estados Unidos, ficaria preso para sempre.

5. O da Maga & Min, sobre bruxas. Neste manual, li acerca de Jeane Dixon, uma vidente americana que fazia previsões usando uma bola de cristal ou simplesmente tocando nas pessoas. Uma vez, ela foi cumprimentar a linda atriz Carole Lombard e, ao encostar em sua mão, teve um pressentimento horrível. Disse para a atriz que ela deveria evitar viagens aéreas por algum tempo. Carole sorriu e informou que precisava viajar de avião nos dias seguintes, e que não seria uma profecia que a impediria. Jeane suspirou. Carole viajou. O avião caiu. Carole morreu.

6. O do Peninha, sobre jornalismo. Olhando para aquele personagem, o afoito primo do Pato Donald, sei por que Mauro Toralles, o famoso Boró, antigo editor de Zero Hora, grudou no jovem repórter Eduardo Bueno o apelido de "Peninha", quando ele chegou à redação do jornal, em priscas eras. É que o Peninha pessoa é, de fato, igualzinho ao Peninha pato.

Aí, em 1974, a Disney decidiu lançar o Manual do Zé Carioca, sobre futebol. Que comprei sofregamente e li inteiro em menos de um dia.

Foi neste momento, ao contar isso tudo para o meu filho, que descobri o tal fato terrível a seu respeito. Porque, para meu infinito espanto, ele perguntou:

- Quem é esse Zé Carioca?

Ele não fazia ideia de quem era o Zé Carioca ou seu amigo Nestor, o urubu malandro. Nem as bruxas Maga e Min, nem o Peninha, nem o Professor Pardal! Nem o Mancha Negra! Como é que um menino não sabe quem é o Mancha Negra? Mal e mal ele se lembra do Tio Patinhas. Intimidade, de verdade, só com o Mickey. Os personagens que coloriram a minha infância e que ajudaram a construir minha imaginação são desconhecidos para o meu filho. Oh, Deus! Como dialogar com as novas gerações?

DAVID COIMBRA

sexta-feira, abril 20, 2018



Intervenção neuropsicanalítica holística 


Decretada a intervenção neuropsicanalítica no Brasil. Por ora, 23 eleitores representativos dos 23 candidatos a presidente se reúnem numa terapia grupal no consultório de 14 metros quadrados do Dr. Ecumênico Pinel. Ficam de pé em volta do divã onde está deitado o Brasil.

A ideia é buscar expressão, entendimento, mediação, conciliação e saída pacífica e democrática para a pátria enfraquecida e dividida. Dr. Pinel foi escolhido pois trabalha com base em teorias de vários mestres da psicanálise, em modernas mesclas de psicoterapias com estudos de neurociências e remédios e com toques holísticos que incluem espiritualidade, seixos marcianos, mantras intergalácticos e novidades outras que surgirem.

A coisa começa: O Brasil precisa de ordem, segurança, valores tradicionais que amparem a família, a moral e os bons costumes. É só olhar para o exterior e ver que estamos em época de volta aos bons valores "retrô". Sou contra. Acho que precisamos de liberdade total, justiça social, educação, segurança, saúde, moradia e alegria. Precisamos de comida na mesa, inclusive com uma cervejinha, para todos da diversidade que quiserem.

Necessitamos desenvolvimento econômico para atender as demandas sociais, dentro de uma ordem de respeito à livre iniciativa, à liberdade e aos preceitos do desenvolvimento capitalista democrático e inclusivo. Acho que não é para a direita, nem para a esquerda, nem para o centro. Em frente com terceira, quarta ou quinta via. Vamos inovar nos campos político, social e econômico. O novo sempre vem. Não podemos nos aferrar ao passado que já foi.

Pois é, mas sou mais pela ecologia, pela autossustentabilidade, pelo capitalismo verde, se for o caso. Precisamos fazer brotar novas pessoas e novos sonhos, nos campos e cidades do presente e do futuro. Precisamos tornar muito bom o presente, e aí o futuro será ainda melhor. O Dr. Pinel intervém: mas e a corrupção endêmica, sistêmica e nosso problema de priorizar o individual em detrimento do social, nossa cultura hedonística tropical, como faremos?

Lutaremos contra a corrupção na ética, na política e em todo lugar. Passaremos o País à limpo num caderno novo, de primeiro dia de aula. Passaremos Jimo na corrupção, que é cupim da nação. Encontraremos uma forma de respeitar os direitos e garantias individuais, garantindo também que o bem e os interesses públicos permaneçam. Não é fácil, pode ser meio impossível, mas começaremos. Revisaremos os 500 anos de nossa jovem história e buscaremos alternativas, a partir de nossos bons valores.

Precisamos refundar a Pátria, lançar alicerces para a construção do prédio do futuro, onde viverão as futuras gerações. Acho que deveríamos promover uma união em torno dos altos interesses nacionais, deixando de lado vaidades pessoais, privilégios de partidos, neuras ideológicas e questíunculas meramente paroquiais. O Brasil é maior e melhor nós, que somos, fazemos e acontecemos o Brasil. Posso ser o elo de união, me sacrificarei para tanto. 

a propósito... 

Dr. Pinel continua: Bem, nem todos ainda tiveram oportunidade de falar. Nosso tempo, por hoje, terminou, nossa sessão de uma hora de quarenta e cinco minutos continua outro dia. Acho que avançaremos na tarefa de mediar os conflitos e buscar a melhor solução. O Brasil nunca teve um interventor neuropsicanalítico e a hora chegou. Sei da minha alta responsabilidade, vou me dedicar ao máximo.

Obrigado pela presença de todos. Os que precisarem de receita de antidepressivo, calmante ou sonífero é só pedir, que a coisa não está fácil, eu sei. Vamos tentar conversar sem bater ou dar tiros nos outros, gritar muito ou falar das mães. Alerto que, se vocês não se comportarem, vou pôr em prática o meu plano de morar em Montevidéu, no bairro Carrasco, claro, que nadie es de hierro. (Jaime Cimenti) -

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/04/colunas/livros/622732-dyonelio-machado-o-inicio.html

Dyonélio Machado,

O início Dyonélio Machado (1895-1985), médico psiquiatra, escritor famoso, político importante, presidiário comunista, entre outras atividades, foi figura essencial na história do Rio Grande do Sul do século XX. Autor do clássico e premiado romance Os ratos, de 1935, e do romance O louco do Cati, de 1942, entre tantas obras, Dyonélio foi amigo de Erico Verissimo, que disse: "Quem começou a ficção urbana no Rio Grande do Sul foi Dyonélio, com o livro de contos O pobre homem".

Um pobre homem (284 páginas, Siglaviva), edição comemorativa de 90 anos do livro de contos da estreia literária de Dyonélio, lançado há pouco, marca importante registro histórico e literário; e proporciona aos leitores mais jovens o contato com uma vida e uma obra que não podem jamais serem esquecidas.

O volume tem texto de introdução de Andréa Soler Machado, neta do escritor; prefácio para a segunda edição do livro do autor; e interessante posfácio ensaístico do professor universitário e tradutor Camilo Mattar Raabe, da Pucrs, especialista na obra dyoneliana.

Um belo depoimento de Erico Verissimo, artigos críticos de Antonio Hohlfeldt, Tristão de Athayde, Augusto Meyer, Heitor Ferraz Mello e outros, bem como cartas e fotos de Dyonélio e das edições do livro estão no volume, que tem as famosas fotos que Eneida Serrano fez em 1976 por ocasião do lançamento do romance Deuses econômicos. Esta edição tem atualização linguística, fac-símiles de originais e os 16 contos ainda estão acompanhados por um soneto que Mario Quintana elaborou para Dyonélio em 1935.

O professor Camilo Mattar Raabe escreve: "Um pobre homem acompanhou Dyonélio ao longo de sua trajetória literária, não apenas contando como uma primeira obra de ficção de um escritor já com certa experiência no meio político e cultural; mas como embrião do que iria se desdobrar sua literatura e o modo de identificação do intelectual no mundo, que dedicaria às suas reminiscências pessoais o título Memórias de um pobre homem".

Erico Verissimo afirmou: "É possível que, no futuro, se ainda existirem críticos, buscando obras entre das décadas de 1930 e 1970, venham a descobrir os romances de Dyonélio e dizer, parafraseando o belo final de O louco do Cati, 'só agora se vê como esse escritor era importante'". 

lançamentos 

A voz da mudança (Buqui, 280 páginas), 22ª edição da Série Pensamentos Liberais do IEE, com prefácio de Júlio César Lamb, tem participações de Jeffrey Tucker, Lawrence Reed e Percival Puggina; e artigos de Bárbara Veit, Júlia Tavares, Laura Cimenti, Bruno Serejo, Felipe Morandi e outros para o debate público atual. Educação, administração, reforma trabalhista e liberdade são alguns dos temas.

Don Frutos (Ardotempo, 560 páginas), romance do consagrado escritor, jornalista e professor jaguarense Aldyr Garcia Schlee, em segunda edição revista e revisada, apresenta, em forma romanceada, a vida de Fructuoso Rivera, militar e político uruguaio, primeiro presidente constitucional do país em 1830. Rivera foi derrotado em 19/11/1816 e viveu um tempo refugiado no Brasil. Papai Punk - Sem regras, só a vida real (Belas Letras, 256 páginas), de Jim Lindberg, vocalista do Pennywise, banda californiana de punk rock.

Relato divertido e sincero, mistura fraldas, reuniões de pais, bonecas Barbie, distorções, turnês desgastantes e excessos da vida na estrada. Como se concilia vida de rebelião com educação de filhos? -

Jornal do Comércio http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/04/colunas/livros/622732-dyonelio-machado-o-inicio.html


20 DE ABRIL DE 2018

SHOWS



CRAQUES DO SERTANEJO


ESPETÁCULO ELES ESTÃO DE VOLTA reúne uma seleção brasileira da canção sertaneja na Arena do Grêmio, a partir das 16h de amanhã. Vejaa ordem das apresentações e os hits previstos nos repertórios dos artistas

Neste sábado, na Arena do Grêmio, a partir das 16h, mais de 25 mil pessoas, pelas estimativas da produção do show Eles Estão de Volta, presenciarão um momento histórico para quem é fã da música sertaneja. Vinte e três anos depois do primeiro show do projeto Amigos, que reunia Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Leandro (falecido em 1998) & Leonardo, o primeiro time do sertanejo nacional se reúne novamente, em um show inédito. Desta vez, além de Zezé e Luciano, Chitão e Xororó e Leonardo, reforçam a seleção a dupla Bruno & Marrone e o cantor Daniel.

O projeto, que tem seu primeiro show em Porto Alegre, e é uma promoção da rádio 92, do Grupo RBS, não tem previsão de uma turnê nacional. O repertório privilegia os principais nomes da história da música sertaneja do país, que já venderam, juntos, mais de 140 milhões de discos.

SEQUÊNCIA DE HITS

A primeira apresentação da noite será de Daniel (leia entrevista na página ao lado), seguido de Leonardo, que apresenta o show Bar do Leo, cujo repertório é baseado no disco homônimo, lançado em 2016. Entre as faixas previstas estão Do Bar pra Igreja e Pergunte ao Dono do Bar, que fizeram sucesso no projeto Cabaré, parceria do goiano com Eduardo Costa. Mas, claro, Leonardo promete hits da época em que fazia dupla com o irmão Leandro, como Não Aprendi Dizer Adeus e Temporal de Amor.

- Será emoção pura! Estar com eles é sempre muita alegria e uma honra! São meu ídolos - afirma Leonardo, sobre a expectativa para o show.

Terceira atração a subir no palco, a dupla Chitãozinho & Xororó leva para o show o repertório da turnê Evidências, na estrada desde 2017, que leva o nome de uma de suas principais canções, sucesso no país após ser gravada no álbum Cowboy do Asfalto (1990). No repertório da apresentação, os irmãos paranaenses cantarão ainda outros sucessos da carreira, como Fio de Cabelo e Rancho Fundo. Por e-mail, os sertanejos comemoram a oportunidade de reencontrar os amigos.

- Temos certeza que será um dia de muitas emoções para o público e para nós também. Reencontrar grandes amigos como eles é sempre uma alegria imensa, principalmente em um evento que celebra a música sertaneja. - afirma Xororó.

É O AMOR PELA MÚSICA

Já a dupla Zezé e Luciano promete uma viagem pelas últimas décadas:

- Um grande encontro de vozes e gerações.

É assim, em entrevista por e- mail, que Zezé di Camargo define a apresentação que a dupla fará, no show Eles Estão de Volta. No repertório, os irmãos goianos prometem uma "viagem no tempo" com as músicas que marcaram seus 27 anos de carreira, como É o Amor, A Ferro e Fogo e No Dia em Que Saí de Casa, além da mais recente canção, Reggae in Roça, com participação da dupla Otávio Augusto e Gabriel. A canção lembra, em alguns momentos, um reggae no estilo do hit Dona Maria, de Thiago Brava.

- A música tem uma levada que estão curtindo no momento, que é esta mistura do reggae no sertanejo, mas com a essência do romantismo que nos mantém fiel ao nosso público - afirma Zezé.

Sobre o reencontro com os amigos, Zezé lembra que o projeto nasceu de maneira casual, pela amizade das três duplas, e acabou crescendo. Já Luciano espera encontrar os parceiros no palco.

- Imagino que a gente vá se reunir com eles, acho que na passagem de um palco para o outro. Acho que vai rolar... - afirma.

Já Bruno & Marrone, que encerram a noite de música sertaneja, apresentam na Arena do Grêmio canções do novo trabalho Ensaio, mais recente álbum de inéditas dos sertanejos, e que traz uma das faixas mais tocadas no país neste ano, segundo a Crowley, empresa que monitora a execução de canções em rádios do país: Sua Melhor Versão.

- É um show que está muito animado, tenho certeza que o público vai curtir junto com a gente - afirma Marrone, em entrevista por e-mail.

Além de algumas faixas inéditas, não devem faltar hits da carreira de Bruno & Marrone, como Dormi na Praça e Vou Desligar.

JOSÉ AUGUSTO BARROS

20 DE ABRIL DE 2018
DAVID COIMBRA

O álbum da Copa e uma terrível descoberta


Descobri algo terrível a respeito do meu próprio filho. A coisa toda começou quando comprei o álbum da Copa para ele. Não se surpreenda, você pode adquirir qualquer produto em qualquer lugar do mundo via internet hoje em dia. A Amazon ainda vai dominar a humanidade. Os Estados Unidos já estão dominados. Você passa diante das casas e vê aquelas caixas de encomendas repousando em pelo menos um terço das varandas. É por isso que os shopping centers estão em decadência por aqui.

O álbum que escolhi foi o de capa dura, bonito. Veio também uma caixa cheia de figurinhas. O Bernardo ficou em grande expectativa, até que chegassem. Passou dias me fazendo perguntas sobre as Copas, sobre álbuns, sobre futebol, e eu, como pai devotado que sou, empenhei-me em narrar boas histórias. Você sabe: a imaginação dos meninos ?é formada por lendas.

Então, contei que Friedenreich, El Tigre, havia marcado mil gols, como Pelé, e que ele era um mulato de olhos verdes, filho de pai alemão, branco de leite, e de mãe brasileira, lavadora de roupa, de pele negra e brilhante como as madrugadas. Fried, como o chamavam, não entrava em campo sem antes alisar o cabelo de carapinha a ferro quente e óleo frio, a fim de driblar o racismo típico da época.

- Entre os times grandes, só o Vasco aceitava jogadores negros - acrescentei, e desfiei a história do triste meia Carlos Alberto, do Fluminense, que passava pó de arroz no rosto no vestiário, para disfarçar o acobreado da pele. As torcidas adversárias, percebendo o truque, gritavam cruelmente da arquibancada:

- Pó de arroz! Pó de arroz!

E, como tantas vezes acontece, clube e jogador acabaram incorporando o deboche e transformando-o em símbolo.

O Bernardo me olhou espantado e, decerto lembrando das aulas acerca de Martin Luther King, questionou:

- E os direitos civis?

Segui em frente. Depois de Fried, disse eu, o jogador mais famoso foi um negro indisfarçável, Leônidas da Silva, que inventou aquela jogada que o Cristiano Ronaldo fez outro dia, lembra?

- A bicicleta? - ele perguntou.

- A bicicleta.

- Um brasileiro inventou a bicicleta? - o ufanismo rebrilhou nos olhos do menino.

Confirmei. Um brasileiro. E disse que era por isso que o chamavam de Diamante Negro.

- No Brasil, tem um chocolate com esse nome em homenagem a ele - falei.

- E é bom? - É ótimo!

Neste ponto, ingressei pelo mundo adocicado dos chocolates. Contei que, quando tinha a idade dele, havia o Beijo de Moça e o Beijo Africano, e eu gostava dos dois, mas talvez gostasse mais do Choco Preto e Branco, além, é claro, dos três clássicos: Amor Carioca, Ouro Branco e Sonho de Valsa.

- O Chico Buarque colocou o Sonho de Valsa em um verso bonito de uma música dele - ajuntei. E cantei: "Por uma pedra falsa, um Sonho de Valsa ou um corte de cetim...".

- O Chico Buarque é aquele homem que gosta do Lula?

Como é que ele fez essa associação? Não dei bola. Prossegui pela história das Copas, pronto para fazer um drama na de 1950, quando ele quis saber o que fiz quando vi uma Copa com a idade dele. Foi aí que descobri algo terrível sobre o meu filho. Vou contar o que é amanhã.

DAVID COIMBRA

quinta-feira, abril 19, 2018



Brasileiro gosta de ajudar o próximo, desde que não seja tão próximo

Sugiro numa próxima temporada do BBB apenas pessoas que tenham histórias de tragédia


Gleici, uma das favoritas para vencer o BBB 18
Gleici, uma das favoritas para vencer o BBB 18 - Reprodução

Apesar de três finalistas o BBB parece que será decidido mesmo entre o imigrante sírio que quer trazer sua família da guerra e a acreana com infância pobre que pretende dar uma vida melhor para a mãe e os avós.

Se o público que acompanha o reality tivesse levado em conta apenas aspectos práticos como carisma, desenvoltura, senso de humor, sarcasmo, habilidade nas competições, postura combativa, Ana Clara seria campeã, apesar de ter carregado uma mala pesadíssima durante todo o programa que é seu pai.
Ayrton se superou nos últimos dias na chatice e na inconveniência a ponto de que gente da torcida da família já ache que um terceiro lugar está de ótimo tamanho para o pavão que vem crescendo dentro de Papito a cada paredão superado.

Mas voltando ao que interessa. O que explica, então, a escolha de duas pessoas que, se não fosse por suas tragédias pessoais talvez não se destacassem tanto no meio dos participantes? Culpa.

Brasileiro sente culpa desde sempre. A maioria de nós tem consciência do enorme problema de desigualdade, da falta de oportunidade, mas quando um moleque vem vender bala na mesa do restaurante, interrompendo nosso chopinho, a gente não quer ser incomodada. Também não fazemos o menor esforço para, de fato, ajudar os mais necessitados – financeiramente e emocionalmente. Apenas 4,4% das pessoas realizam algum trabalho voluntário no país, segundo dados divulgados hoje (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Uma pesquisa que avalia o comportamento humano, produzida pela fundação britânica Charities Aid Foundation, coloca o Brasil em 90º lugar numa lista de 135 países. O World Giving Index mede o percentual mensal que as pessoas costumam ajudar estranhos, a percentagem que doa dinheiro para instituições de caridade e também a que se dedica a trabalhos voluntários. Não parecemos tão legais assim, não é mesmo?

Mas num reality show estamos prestes e diminuir essa culpa ao dar o prêmio para duas pessoas que não são as mais interessantes, as mais inteligentes, as mais divertidas. Gleici é uma garota querida e encantadora, mas que teria passado sem deixar muitas lembranças se não tivesse virado alvo do núcleo malvado do programa que percebeu suas fragilidades e achou que se livraria dela muito rapidamente, o que fez a audiência e outros participantes imediatamente tentarem protegê-la. É uma estrela ainda com pouca luz própria e uma total incógnita se conseguirá brilhar sozinha aqui do lado de fora.

É difícil não se comover com a história de Kaysar, até mesmo porque podemos ter intimidade com a miséria e as injustiças sociais que assolam nosso país, mas não sabemos o que é enfrentar uma guerra, ainda que muitas pessoas vivam uma versão brazuca do que seria um conflito armado em muitas favelas brasileiras. Tenho dúvidas se não fosse sua tragédia pessoal, o sírio teria ido tão longe no BBB. Sua personalidade foi muito oscilante, mesmo que seus torcedores não admitam. Ora parecia muito ingênuo, manipulado, chato e inconveniente, ora seguro e determinado. Essa segunda faceta tem sido mais constante na reta final do BBB e ele vem abusando das situações para mandar um recado ao público: depende de vocês para que eu salve minha família da guerra. E como temos visto a chantagem emocional funcionou.

Independentemente de quem levar o prêmio fica claro que brasileiro gosta de ajudar o próximo, desde que não seja tão próximo. Desde que o trabalho todo seja apertar uma tecla no celular e votar num programa de TV. Sugiro numa próxima temporada o programa escolher apenas pessoas que tenham histórias de vidas de superação e deixar o público escolher qual tragédia é mais tragédia.

19 DE ABRIL DE 2018
DAVID COIMBRA

O grandão vem aí


Um dia, o Big One vai devastar a Califórnia. Ontem mesmo, li essa advertência, no New York Times. E não se trata de profecia, não é nada de sobrenatural. É uma previsão científica.

Big One é o terrível terremoto que os cientistas SABEM que acontecerá algum dia naquela região lateral dos Estados Unidos. Em português, Big One poderia ser traduzido como O Grandão. Em gauchês, O Grandalhão. Os geólogos dizem que, quando ele vier, o solo se abrirá em uma fenda quilométrica, a terra tremerá como se sentisse febre e tsunamis aterrorizantes rolarão do meio do oceano para cobrir o campo e as cidades com água salgada e fel.

Os japoneses também têm o seu Big One, um terremoto que inevitavelmente virá e que partirá o Monte Fuji ao meio, como se fosse uma xícara de porcelana. Com esse pai de todos os terremotos, arranha-céus de Tóquio serão engolidos pela terra e a velha cidade arderá em labaredas por semanas a fio. Previdentes que são, os japoneses já elaboraram um plano para evacuar Tóquio em 24 horas. O que será uma façanha, porque só naquela concentração urbana esfervilham mais de 35 milhões de pessoas.

Os americanos talvez não tenham tanta proficiência, mas tentam ser igualmente previdentes. Ontem, nessa matéria que citei do New York Times, eles falam sobre os grandes prédios de San Francisco, que estão construídos muito perto uns dos outros e, pior, em terreno arenoso. Quando o Big One chegar, estimam os cientistas, essas peculiaridades podem ser fatais.

Isso me faz pensar: por que tanta gente vai morar nesses lugares que, na prática, já estão sentenciados? A lógica grita e clama que essas regiões deveriam ser evitadas. Mas não é o que acontece. Ao contrário: a Califórnia e a zona urbana de Tóquio estão entre as áreas mais populosas do planeta.

Por quê? E repito com maior ênfase: por quê???

Respondo: porque temos fé. É impressionante e comovente a nossa crença na justiça do universo. Coisas ruins acontecem todos os dias, mas você tem certeza de que está a salvo. Se você morasse na Califórnia e um cientista viesse adverti-lo de que o Big One ocorrerá qualquer dia desses, você responderia:

- Tudo bem, acredito, mas isso não vai acontecer justamente quando EU moro na Califórnia...

Por que não? Qual é a sua lógica?

Não há lógica. Há, apenas, fé. Alguém lhe disse que o bem vence no fim, alguém lhe disse que os maus serão punidos em algum momento. E você acreditou. Ou seja: como você é o protagonista da sua história, você é bom e você vencerá. Terremotos e tsunamis não o afligirão, a sua mulher é fiel, o seu time não cairá para a segunda divisão.

Porém, mesmo os homens religiosos são forçados a admitir que injustiças acontecem. Muitas vezes, os bons sofrem e os maus são recompensados, neste Vale de Lágrimas. As religiões resolvem isso apostando numa espécie de julgamento em quarta instância: os vilões se esquivam das sentenças dos tribunais aqui, na Terra, mas, depois da morte, serão condenados pelo STF do Céu.

Está certo, até podemos nos consolar com essa tardia justiça divina. Mas, na terrena, não é possível admitir tanto atraso. Que os maus sejam punidos depois da segunda condenação, no Brasil. Que o foro privilegiado seja extinto, e já. Que dinheiro, poder e popularidade não garantam impunidade. Se não estamos devidamente protegidos dos perigos sobre-humanos, que pelo menos possamos controlar e castigar os erros humanos. Isso nós podemos fazer. Isso o Brasil está fazendo. Aécio, Lula, Cunha e Odebrecht que o digam. Temer, pode esperar: a sua hora vai chegar. Salve os novos tempos da Lava-Jato!

DAVID COIMBRA


19 DE ABRIL DE 2018
ARTIGO

A VIDA NÃOPODE ESPERAR


Na última semana, Nova York recebeu a 72ª Assembleia Geral da ONU. Entre os muitos problemas globais, a segurança no trânsito, responsável pela morte de 1 milhão e 300 mil pessoas por ano no mundo, teve destaque.

Durante a assembleia, foi adotada a nova resolução pela segurança no trânsito, reafirmando as metas relacionadas aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável para que os países atinjam as propostas da Agenda 2030 no que tange à preservação de vidas no trânsito.

Porém, esta não é a primeira vez que o trânsito é colocado em pauta. Em 2009, em Moscou, a convite da OMS, participei da 1ª Conferência Global de Segurança Viária e pude acompanhar os primeiros passos da Década de Ação pela Segurança no Trânsito. Um momento ímpar, em que os países, entre eles o Brasil, assumiram o compromisso de reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2020.

Após quase oito anos do início da Década, está claro que alcançou-se, quando muito, a estabilização dos números. No Brasil, estamos longe de uma redução significativa e permanente. Uma guerra diária que não é apenas uma tragédia para as famílias, mas representa um enorme custo ao país.

Sabemos que essas mortes podem ser evitadas, mas infelizmente não fizemos a "lição de casa". Agora, frente a esta realidade decepcionante, é hora de refletirmos com urgência. A Agenda 2030 aumenta o prazo para cumprirmos a meta, mas também eleva a outro nível os compromissos globais.

O Brasil, tendo avançado pouco nesses últimos anos, aprovou recentemente o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito e tem uma grande oportunidade de ampliar seus esforços e investir em políticas públicas sérias e projetos permanentes de educação. Quem sabe, assim conseguiremos sair do vergonhoso ranking da morte, que coloca o Brasil entre os países mais violentos e que mais matam no trânsito do mundo.

A urgência da prevenção efetiva da violência no trânsito nunca foi tão premente. Precisamos de um esforço e compromisso político muito mais forte para que a Agenda 2030 também não se torne, assim como a Década de Ação, uma década perdida. Afinal, a VIDA não pode esperar!

Presidente da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga diza@vidaurgente.org.br
DIZA GONZAGA

19 DE ABRIL DE 2018
OPINIÃO DA RBS

UM PRECEITO INEGOCIÁVEL

Sexto senador réu na Lava-Jato no STF, ao lado de políticos influentes de outros partidos, o senador Aécio Neves terá agora a chance de se defender nas formas estabelecidas pela lei


Atransformação do senador Aécio Neves (PSDB-MG) em réu no Supremo Tribunal Federal (STF) traz embutida uma sinalização positiva para os brasileiros que lutam por um país mais ético: a Lava-Jato prosseguirá, mesmo depois da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segmentos da população céticos em relação aos reais objetivos da maior operação contra a corrupção já realizada no Brasil temiam que, com o ex-presidente atrás das grades, o empenho do Judiciário e do Ministério Público acabasse perdendo força. Felizmente, não é o que mostram os mais recentes movimentos.

Como afirmou o próprio senador mineiro, agora ele terá a chance de se defender nas formas estabelecidas pela lei, assim como ocorreu com todos os demais réus até as suas condenações ou absolvições. Ex-presidente do PSDB e ex-candidato à Presidência da República na eleição de 2014, o senador teve aceita a denúncia pelos crimes de corrupção passiva e obstrução da Justiça com base na delação premiada da JBS. E é o sexto senador réu na Lava-Jato no STF, ao lado de políticos igualmente influentes de outros partidos, incluindo o próprio PT e o PMDB, hoje no poder.

O melhor que poderia ocorrer, no caso de homens públicos envolvidos em irregularidades, é que os próprios partidos políticos e os Legislativos se encarregassem de fazer as necessárias depurações. Infelizmente, o corporativismo quase sempre acaba falando mais alto nesses casos. Ao mesmo tempo, ações envolvendo figuras influentes tendem a seguir com tramitação arrastada, devido à morosidade das instâncias superiores e à insistência no uso de recursos judiciais como medidas protelatórias.

O caso do senador mineiro, por exemplo, remonta a gravação feita em março do ano passado. O político responde ainda por oito inquéritos em tramitação no Supremo, cinco dos quais com base nas delações de executivos da Odebrecht. E a situação do ex-presidente da República só se definiu ontem em segunda instância, quando o Tribunal Federal da 4ª Região (TRF4) negou os embargos dos embargos.

Ainda assim, o importante é a constatação de que a Justiça brasileira está comprometida com o combate à corrupção, não com os desvios de um ou outro partido específico. Não há outro caminho em uma democracia, a não ser o inegociável cumprimento de um preceito básico: todos são iguais perante a Justiça.