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sábado, fevereiro 13, 2016


RUTH DE AQUINO
12/02/2016 - 22h14 - Atualizado 12/02/2016 22h14

De volta para o futuro do Brasil

Estamos cercados por mosquitos e sanguessugas, mas os governantes se recusam a assumir a culpa e o ônus

Se alguém ainda duvidava da existência dos buracos negros, a semana passada tratou de sepultar crendices. Não falo do Universo nem de Einstein. Mas de nosso ontem, hoje e amanhã no Brasil. Falo das ondas gravitacionais que foram ignoradas pelo PT de Lula e Dilma com irresponsabilidade, descaso e incompetência, jogando a economia e a saúde nessa cratera negra da qual será difícil emergir.

Não foi por falta de alerta. A gastança de Brasília aumentou em ano eleitoral, as mentiras foram ditas sem pudor, as negociatas, os tríplex, os sítios, as propinas continuaram a correr soltas mesmo sob investigação. Estamos cercados por mosquitos e sanguessugas, mas o governo federal, os governadores estaduais, os prefeitos e o Congresso se recusam a assumir a emergência, a culpa e o ônus. Apelam a nós – aos impostos pagos por nós e aos pratos de vasos de planta no quintal de nossa casa.

Pode demorar 100 anos, bilhões de anos. Uma hora o marketing, a desonestidade e o obscurantismo são desmascarados e a realidade vem à tona, seja por estudos de físicos e astrônomos, seja pelos fatos crus do dia a dia. Não adianta se fazer de vítima, Lula, não adianta adiar decisões de cortes na sua máquina, Dilma. Aí estão os números da falência na Educação e as filas do desespero nos hospitais, os relatos lancinantes de pais desempregados e de mães atingidas pelo vírus zika. Tudo por falta de compromisso com o essencial. Agora os ministros de Dilma viajarão pelo país para fazer campanha contra o mosquito Aedes aegypti. Parece roteiro de filme B. É muita cara de pau. Economizem as passagens aéreas!

Acabou o recesso que nem deveria ter sido. Acabou o Carnaval. O PT comemorou tristemente, na Quarta-Feira de Cinzas, 36 anos de vida. E mesmo sob os holofotes do mundo, em ano de Olimpíadas, no meio de uma epidemia, o governo ainda não sabe onde vai cortar no Orçamento para chegar a sua fictícia meta fiscal de 2016. Adiou a decisão para março. Dilma decidiu editar um decreto provisório num país provisório, para fingir que cumprirá a meta de superavit fiscal primário de 0,5% do PIB.

Enquanto isso, a presidente pensará com sua equipe –porque em janeiro todo mundo parou de pensar – em como apertar as contas públicas. Para pagar os juros da dívida, o certo seria cortar R$ 60 bilhões do Orçamento, mas o governo diz que não poderá cortar nem R$ 20 bilhões.

“Acho que não tem mais gordura para cortar. Vai ter de cortar membro. É amputação, não é lipoaspiração”, afirmou o senador peemedebista Romero Jucá, depois de encontrar o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa.

Não há vacina contra a má gestão. Pode fazer o convênio que quiser com a universidade mais conceituada do mundo – não dará certo. Porque o pecado está na origem. Sem responsabilidade fiscal, um governo comete crime ao maquiar, nesse nível, números e promessas para se eleger. Nem vou falar do roubo continuado, em dinheiro em espécie e em transferências bancárias, de nossa maior estatal. A Petrobras acaba de ficar famosa como o segundo maior caso de corrupção no mundo, em votação promovida pela Transparência Internacional.

Economia doente, Saúde enferma. O Ministério da Saúde sabia que, só no ano passado, 1,6 milhão de brasileiros tinham contraído dengue. E adiou qualquer medida mais séria. Provavelmente porque o Brasil sempre achou ser o país do futuro, o país do milagre, do Deus brasileiro, da criatividade e alegria do povo, o país do Carnaval, do samba e das mulheres bonitas. O país da “meta flexível”, complacente e malandro. Será que Dilma está “estarrecida” com o rombo?

Milhões de inocentes úteis, que hoje andam a pé para o trabalho para economizar no ônibus, que pagam uma taxa de juros no cartão de crédito de até 411% ao ano, que veem a luz de casa cortada por inadimplência, que fecham suas empresas falidas, que perdem seus empregos, acabam de ser convocados por ministros petistas para canonizar Lula e livrar o pai dos oprimidos dos “golpes baixos” da mídia, das elites e da Justiça. “Nunca antes um ex-presidente foi tão caluniado, difamado e injuriado”, escreveu Rui Falcão, o presidente do PT. O slogan “Somos todos Lula”, proposto por militantes, só pode ser brincadeira de mau gosto.

Nos Estados Unidos, após detectar as ondas gravitacionais com seus equipamentos de última geração, os cientistas comemoraram: “Poderemos ver coisas que nunca vimos antes!”. Segundo alguns físicos otimistas, daqui a um século talvez possamos viajar no tempo, como no filme De volta para o futuro. No Brasil flexível, onde tudo é relativo, também estamos vendo coisas que nunca vimos antes. Talvez seja melhor não esperar 100 anos para rever decisões do passado e mudar presente e futuro.


13 de fevereiro de 2016 | N° 18444 
NÍLSON SOUZA

O MAIOR DOS MISTÉRIOS

Enquanto o Carnaval desfilava pelas avenidas do Brasil, eu aproveitei para percorrer mais 300 e poucas páginas de um livro de 1.070 que me dispus a terminar neste segundo mês do ano. Quando ainda andava por aqui meu amigo José Manosso, um gringo carnavalesco, eu virava noites vendo as grandes escolas do Rio de Janeiro apenas para ter assunto com ele na Quarta-Feira de Cinzas. 

Depois que ele foi torcer para o Juventude em outra dimensão, ou sei lá onde, me desencantei um pouco. Mas, por dever de ofício, acompanho atentamente as notícias sobre desfiles, temas abordados e sambas-enredo. Sempre penso que o autor da letra de uma dessas músicas cantadas repetidamente por milhares de pessoas deve sentir-se mais realizado do que os próprios foliões, cujo brilho fugaz termina com a dispersão.

Pois gostei de saber que a escola campeã de São Paulo elegeu como tema os grandes mistérios da humanidade – a própria vida, a fé, a morte, civilizações antigas, a existência de vida em outros planetas. A Império de Casa Verde, com muita competência, teatralizou no sambódromo paulista alguns dos principais enigmas que intrigam o homem desde o princípio dos tempos. Evidentemente, não respondeu de onde viemos nem para onde vamos, mas fez pensar sobre o desconhecido.

Esse, no meu entender, é o maior dos mistérios: a chispa criativa que nos diferencia dos outros seres vivos e nos possibilita brincar de Deus, duvidar de Deus, talvez até mesmo criar Deus, como suspeitam ateus e descrentes. Mas a deusa Ciência também tem mais dúvidas do que certezas. Por exemplo: foi por simples acaso que uma ínfima partícula do átomo da inteligência direcionou-se para o cérebro humano durante o estrondoso e espetacular Big Bang?

Sei, evoluímos, como bem explicou Darwin, mas nosso antepassado ameba certamente já carregava a faísca ancestral da criatividade, que agora explode em cores e sons no Carnaval, além de emocionar e fazer pensar. Se existiu vida antes da vida, talvez possa existir também depois.

Manosso, meu amigo, teremos muito o que conversar.

Pensando bem, talvez o maior dos mistérios não seja exatamente a inteligência humana, que com frequência se desvirtua para o mal, para o ódio, para a destruição. Neste momento de reflexão, elejo como o maior dos mistérios a amizade – que sobrevive ao tempo e à distância, ainda que na forma de saudade.

Como diz o samba-enredo da escola vencedora, cada um com sua crença.



13 de fevereiro de 2016 | N° 18444
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

OS LIMITES DO ÓDIO


Amadurecido em ruminações crônicas, ele tem absoluta semelhança com a morte

O Gotardo e o Gonçalo são gêmeos mas, por razões familiares, cresceram separados, aos cuidados dos avós maternos e paternos, depois que a mãe morreu em um acidente de ônibus, duas semanas depois de completarem três anos.

Ainda que os avós se esmerassem, as condições de vida oferecidas a um e outro eram muito diferentes, porque muito diferentes eram as condições econômicas das duas famílias. Todos os presentes e regalias desfrutados pelo Gonçalo incomodavam o Gotardo, que tinha de se contentar com privilégios escassos e brinquedos modestos.

É provável que essa desproporção tenha servido de combustível para uma briga monumental que estremeceu a família no Natal de 1996, quando tinham 14 anos. Depois disso, os parentes tentaram inutilmente uma reaproximação, mas nem a morte do pai, cinco anos depois, conseguiu amenizar o rancor. Nunca mais trocaram uma palavra. Nem no velório do pai. 

No Dia de Finados de 2009, o Gotardo acelerou o passo e, recostado numa árvore fora do alcance da visão, aguardou que o irmão, acompanhado da mulher e do filho, encerrasse a visita ao túmulo dos pais e desaparecesse. Também nada comentou quando soube por familiares que o Gonçalo estava com leucemia. Como se sabe, o ódio amadurecido em ruminações crônicas tem absoluta semelhança com a morte.

Em leucemia, o tratamento moderno é capaz de eliminar as células tumorais da medula, matando-a e, com isso, a enfermidade é controlada. O passo seguinte, rumo à normalidade e à saúde, é o transplante de medula. O oncologista ficou entusiasmado com a informação de que o Gonçalo tinha um irmão gêmeo, por tudo o que isso representava de chance de um doador perfeitamente compatível. Mas a reação do paciente não podia ter sido mais inesperada: “Imagina se eu vou aceitar e ficar devendo obrigação àquele frouxo recalcado! Prefiro morrer!”.

Desse diálogo o Gotardo não tomou conhecimento mas, quando consultado se concordaria em fazer os testes para confirmação de compatibilidade, também se negou, dizendo que, para ele, o irmão já tinha morrido num Natal distante, quando o humilhara diante de toda a família. Duas semanas depois, com a lista nacional de voluntários repassada sem nenhum doador adequado, o Gotardo ligou para o oncologista e combinou um café. Ele pensara melhor e precisava conversar.

“Eu vou fazer os testes e, se for compatível, quero ser colocado no banco de medula como um doador anônimo. Não suporto esse cara que sempre se referiu a mim como um imprestável. Não gostaria que ele pensasse que estou me esforçando para que ele mude de opinião a meu respeito. Acontece que nem lembro mais do que ele disse na noite da humilhação. Mas eu simplesmente não conseguiria conviver com a ideia de que meu irmão morreu por conta do meu ódio. Na verdade, só não queria que ele soubesse que, além de imprestável, sou tão frouxo que nem consigo mais odiar!”.

O transplante foi um sucesso. A medula, como se presumia, está imune ao rancor.

E o Gonçalo recuperou-se rapidamente, convencido de que Deus dera valor a quem merecia, e o ajudara a sobreviver sem ajuda de pessoinhas insignificantes.



13 de fevereiro de 2016 | N° 18444 
DAVID COIMBRA

A tragédia de não sentir pena

É feio, é vergonhoso, mas, confesso, não fiquei com pena daquele homem que apanhou e teve sua casa queimada, em Capão da Canoa. Tenho visto cenas de bandidos sendo agredidos na internet. Não aprovo, não gosto, algumas me dão náusea. Mas, desta vez, o que me veio foi indiferença. Não senti júbilo, é verdade, mas também não senti consternação. Ele é acusado de ter estuprado e espancado uma menininha de cinco anos de idade...

O crime é terrível. Mas também é terrível eu não experimentar nenhuma compaixão por ele. Pior: não me sinto mal por isso. Porque a culpa desta minha insensibilidade não é minha. A culpa é dos deputados e senadores do Brasil. Foram eles que elaboraram uma legislação que, nesta semana, o novo chefe de polícia do Rio Grande do Sul definiu, com propriedade, como “flácida”.

A culpa também é dos maus governos que tivemos nos últimos anos, que nada fizeram para reformar o Código Penal, sobretudo do governo Lula, que reunia as melhores condições para promover as mudanças de que o Brasil precisava, mas que só trabalhou pelo seu projeto de poder.

Somos todos vítimas dessa lei flácida, todos: os brasileiros com medo, a menina violada, os que bateram no bandido e inclusive o bandido agredido. Porque, se há Justiça, não há justiçamento. Ele é um monstro, sim, mas é também um doente. Teria de ser tratado como tal.

O drama da segurança pública é o maior drama do Brasil. Acredite: não é a educação, não é a saúde. É a segurança pública. Costumo dizer que no Brasil, hoje, a construção de novos presídios é mais importante do que a construção de novas universidades.

E é. Está tudo errado na segurança pública, e não por coincidência. A segurança pública foi abandonada de caso pensado, no Brasil. Tornou-se questão ideológica. A ditadura militar ficou muito identificada com questões de segurança. Nada mais natural: tratava-se de um regime “militar”.

Lembro do famoso discurso de Ulysses Guimarães, ao aprovar a Constituição de 1988:

– Nós temos ódio à ditadura. Ódio e nojo!

Esse ódio e esse nojo se transferiram para tudo que fosse vagamente associado à ditadura. E qual, dentre todos os instrumentos utilizados pela sociedade, era o mais associado à ditadura? Pense na frase pichada clandestinamente nos muros do Brasil, nos anos 1960 e 1980:

“Abaixo a repressão!” O brasileiro tinha ódio à repressão. Ódio e nojo.

Bem. Qual é o aparelho repressor do Estado?

A polícia.

O brasileiro passou a relacionar polícia com ditadura e a confundir autoridade com autoritarismo.

As polícias foram desvalorizadas. O policial ganha pouco e não conta com o respeito de grande parte da população. Seu trabalho é frustrante, ele prende o bandido hoje e o encontra na rua amanhã. In extremis, decide fazer a justiça que foi feita com o estuprador de Capão: ele é duro, já que a lei é flácida.

Aí ceva-se outra distorção: o policial acostumado a usar a força como punição compensatória, não como ferramenta legal de repressão, corre o risco de cometer crime, em vez promover a correção de injustiças. Tragédia idêntica se dá com o cidadão que lincha o ladrão ou que toca fogo na casa do tarado.

Ao mesmo tempo, como a segurança é considerada “de direita” e um instrumento de autoritarismo, ninguém se importa com quem prende nem com o que é feito com quem é preso. Os presídios são masmorras infectas. Estão lotados, não há mais vaga nem para molestadores de crianças.

Difícil ser pior. Por isso tudo, a cena do estuprador com o rosto inchado não me comoveu. É triste dizer isso. Mas é verdadeiro. A lei flácida está nos brutalizando. A tragédia de não sentir pena.


13 de fevereiro de 2016 | N° 18444 
CLÁUDIA LAITANO

Deixa a menina sambar em paz


Se me contassem, há um ano, que a política nacional produziria um Partido da Mulher Brasileira (PMB) –antifeminista, contrário ao aborto e com modestos 10% de mulheres na bancada –, talvez eu me espantasse. Menos pelo despropósito em si do que pelo volume oceânico de oportunismo necessário para colocar em pé um ornitorrinco político desse calibre – mesmo para os padrões de Brasília.

Enquanto os combativos deputados da bancada mulherista desfrutavam seu prolongado recesso de Carnaval, garotas que não se sentem exatamente representadas pela eclética plataforma do partido que as homenageia estavam ocupadas fazendo um barulho inédito com campanhas de combate ao assédio durante a folia. O movimento foi nada menos do que histórico. 

O passe livre para o vale-tudo que vigorou desde sempre durante os quatro dias de festa costumava ser encarado como uma espécie de sagrada e arquetípica instituição nacional. Não é. Intocável é o direito de dizer “sim” ou “não”, o que as meninas que estão reinventando o feminismo a partir das redes sociais têm deixado cada vez mais claro – para desconsolo dos que estavam acostumados ao daltonismo seletivo que os impedia de distinguir o sinal verde do vermelho.

Esse tipo de campanha civilizatória é importante não apenas durante o Carnaval. Um país não tem índices de violência contra a mulher tão altos sem que exista uma enorme tolerância à cultura do abuso no dia a dia – algo que deveria ser combatido desde cedo, quando os meninos aprendem a respeitar as meninas na escola e a controlar as urgências do próprio desejo em qualquer idade. Para quem faltou a essa aula, as campanhas lançaram cartilhas que explicam a diferença nada sutil entre paquera, brincadeira, sedução e seus opostos extremos: abuso, violência, constrangimento.

A quantidade e o tipo de ocorrências registradas durante o Carnaval em todo o país, apesar das campanhas, demonstram como a combinação de álcool, hormônios e falta de noção rapidamente pode transformar a alegria em baixo-astral. Ofensas verbais, empurrões, tapas e socos são algumas das táticas de “conquista” de foliões contrariados que não podem mais ser toleradas – nem mesmo no ambiente de anarquia consentida do Carnaval.

A maioria dos homens, ainda bem, sabe disso. E antes de sair cantando “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval”, procura certificar-se de que a Colombina está mesmo a fim. Para não virar mais um palhaço no salão.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016


Jaime Cimenti

Acabou o pavio


Acredite, houve um tempo em que algumas pessoas tinham o famoso "pavio-curto", eram chamadas de estouradas, sangue quente, sanguíneas e não sei mais o quê. Me parece que eram algumas, não muitas. Não tinham muita paciência para aguentar conversas, desaforos e outras coisas que não gostassem nos outros. "Não levo desaforo para casa", "dou um boi para não entrar numa briga e dou uma boiada para não sair", "quem diz o que quer, ouve o que não quer" eram algumas das frases preferidas dos esquentadinhos. Hoje, são muitas, quase todas as pessoas são esquentadinhas. Todo mundo com os nervos para fora da pele. Antes, era só à flor da pele.

Hassan Rohani, presidente do Irã, foi à Itália esses dias. Os italianos, para não se estressarem e, quem sabe, fazerem negócios de bilhões de dólares com o Irã, cobriram com caixas brancas estátuas de deuses gregos, romanos e nus femininos. Rohani podia se escandalizar com os marmóreos genitais... Brillat Savarin disse que, quando a gente recebe alguém, deve fazer tudo para o convidado se sentir feliz em nossos domínios. Será que os gringos estavam certos? Interesseiros? Jeitosos? Será que se humilharam? Você decide.

Já em Paris estava marcado, dias atrás, um almoço com o Hassan e o presidente da França. Aí os iranianos disseram que não podia aparecer vinho ou outra bebida alcoólica na mesa. Dizem que os franceses são os italianos mal-humorados. Deve ser brincadeira ou estereótipo isso, mas, si non é vero, é bene trovato... Imagina, não pintar vinho em Paris, onde até uma loja do McDonalds teve que abrir uma exceção mundial e servir a bebida. Os franceses cancelaram o tal almoço abstêmio. E aí? Estavam certos? Deveriam ter tomado refri e água com os ricaços e, quem sabe, podiam tomar o vinho escondido no banheiro ou na cozinha? Para mim não ficou legal o lance. 

Os franceses podem ter perdido uns bussiness e os iranianos não degustaram as iguarias que os italianos ensinaram os franceses a fazer, há uns séculos atrás, quando mandaram buscar uns chefs lá na bota.

Esses dias, uma mulher xingou feio um senhor no Big Brother porque ele estava dormindo de cuecas, na cama, ao lado da dela. Pavio curto. Ou nenhum pavio. Depois os dois se desculparam, mas deu até assunto no programa da Fátima Bernardes. Ele estava ameaçando processar a esquentadinha.
Todo mundo anda falando tudo, toda hora, em todo lugar, bem alto. 

Aquela coisa de falar um por vez, quando um burro fala o outro abaixa as orelhas, dançou. Aquela coisa de ficar a um metro de distância das pessoas, não ficou. Falar baixo, agir delicadamente, anda meio escasso, isso. Todo mundo tem que ter "atitude", tipo assim, nova-iorquina, bem cheguei, bem trio-elétrico, patrola. Para que esperar o outro terminar de falar? Para que pensar que vingança é um prato que se come frio? Hoje, a galera quer comer o fígado do adversário bem quentinho, na horinha.
Lançamentos

Crise financeira na floresta (Geraçãozinha-Geração Editorial, 24 páginas) de Ana Paula Hornos, coach, mãe, educadora financeira e palestrante, com ilustrações de Cláudio Martins, livro de educação financeira para crianças, de forma divertida mostra a importância do trabalho, do poupar e investir e o impacto das dívidas e do consumismo. 

Empreendedorismo, ética e honestidade estão lá.

Casas importadoras de Santos e seus agentes (Ateliê Editorial, 144 páginas), de Carina Marcondes Ferreira Pedro, mestre em História pela USP, traz Santos nas três décadas finais dos anos 1800. Mostra a importância do porto, o desenvolvimento e a projeção internacional e os significados sociais das mercadorias e os padrões de consumo. A obra teve origem no mestrado da autora.

Imprudente (Pandorga Editora, 452 páginas, R$ 34,90), romance da norte-americana Nichole Chase, autora do best-seller do NY Times, é o segundo da Série Royal. Traz Catherine, irmã de príncipe e princesa perfeita, virginal. Os homens a perseguem. Ela só se preocupa com o futuro da nação, mas decide seduzir David, o único cara que parece não ligar para qualquer assunto da realeza. Complicado.

A propósito...

Antigamente tinha manual de boas maneiras, livro de etiqueta, normas de convívio. Bom, ainda temos algumas regras, ainda temos alguns livros, tipo os da Danuza Leão, sugerindo ao menos um pouco mais de delicadeza nos relacionamentos. Não existe sociedade sem regras, leis. Se com todas as leis que temos a coisa anda assim, imagina sem. A vida é curta, passa depressa. Somos anjos de uma asa só, precisamos dos outros para voar. Falou a Madre Teresa que, quando a gente se encontra com alguém, é bom sair do encontro melhor do que quando a gente chegou. Não perca, não encurte o seu pavio. Aumente-o. Conte até mil. Periga ser melhor para todo mundo.

Jaime Cimenti

Um pouco de tragédia
  
Hegel e a tragédia grega (É Realizações Editoriais, 224 páginas, R$ 44,90, tradução de Agemir Bavaresco e Danilo Vaz-Curado R.M. Costa), do jovem e destacado pesquisador canadense Martin Thibodeau, professor do Collège André-Grasset em Montreal, no Canadá, e pesquisador convidado na New School for Social Research em Nova Iorque, contempla a análise da tragédia grega em quatro momentos diversos do itinerário hegeliano.

Por que Hegel foi conduzido durante toda a elaboração de seu sistema filosófico - de modo simultâneo a Schelling e Hölderlin - a se interrogar sobre o sentido da tragédia grega que conheceu seu apogeu no século V antes de Cristo? O presente livro se propõe a demonstrar que a pergunta hegeliana sobre as tragédias é especialmente ligada ao projeto de radicalização e de suprassunção do kantismo.

Thibodeau é especialista em filosofia alemã dos séculos XIX e XX no arco que se inicia com Kant e se desenvolve com Adorno e a teoria crítica. Na apresentação do volume, os tradutores referem que a obra de Thibodeau já nasce clássica.

Há quem diga que Hegel e a tragédia grega é uma das mais instigantes e importantes obras de filosofia contemporânea disponíveis em português. Com rigor conceitual e explicitação de difíceis questões filosóficas, como a estruturação da ação e os temas e problemas originadores da modernidade, Thibodeau marca presença na historiografia filosófica.

Com essa obra, o leitor compreenderá questões de seu tempo, como o sentido e os limites da justiça, a relação entre a ação humana e a responsabilidade do agir, a intrincada e tortuosa relação existente entre liberdade e destino no curso histórico sempre à luz da centralidade da ação trágica, tal como exposta nas diversas tragédias gregas analisadas no presente livro através da reflexão hegeliana.
Dois adágios de Hegel importam para compreender a presente obra: a necessidade de a filosofia traduzir seu tempo em conceitos e preconizar que num estado de coisas delirantes faz-se preciso forjar novos conceitos. 

Com esses dois conceitos, o leitor vai observar que o livro de Martin Thibodeau não é apenas uma reflexão teórica acerca de temas filosóficos. É um grande ensaio de compreensão do drama da existência humana através de suas expressões estéticas e trágicas.

Portanto, a monumental obra de Martin Thibodeau, antes acessível apenas para leitores francófonos e anglófonos, agora, pelo grande trabalho da Editora É Realizações, está disponível para os brasileiros, justamente num momento de relação importante entre a ação trágica e os destinos da política.


12 de fevereiro de 2016 | N° 18443 

DAVID COIMBRA

Os novos bárbaros

Na Holanda, terra dos craques Johan Cruyff, Van Basten, Van Gogh, Rembrandt e Sylvia Kristel, a imortal Emmanuelle, nessa Holanda das mulheres expostas em vitrines e das tulipas que valiam ouro, um grupo de homens decidiu fazer uma manifestação de protesto contra os estupros de mulheres alemãs por muçulmanos, ocorridos no Ano-Novo.

Sabe como os holandeses protestaram? Vestindo minissaias.

Sério. Eles se vestiram como mulheres, numa tentativa de mostrar que os estupros também os afetam.

Poucos episódios poderiam representar tão bem a diferença entre as duas civilizações em choque, a do Ocidente judaico-cristão e a do Oriente muçulmano.

Imagine um muçulmano egresso da Síria ou do Iraque, onde o Estado Islâmico queima pessoas vivas, assistindo a essa delicada manifestação. Imagine um homem que simplesmente considera as mulheres como inferiores vendo o espetáculo dos homens europeus que, em vez de brandirem tacapes contra os que ameaçam suas mulheres, se travestem e se comportam como meninas.

Que respeito um protesto desse tipo poderá inspirar ao agressor? Posso ver os muçulmanos rolando de rir diante da cena. Mas é claro que nem todos os ocidentais são iguais. Essa é uma tendência da sociedade, não de todos os indivíduos que a compõem.

Camille Paglia diz que os jovens europeus que aderem ao Estado Islâmico estão, na verdade, rebelando-se contra a pressão de uma sociedade cada vez mais feminina. Ou seja: a adesão ao Estado Islâmico é um grito da masculinidade reprimida.

Isso é importante.

E, agora, depois de uma semana inteira, chego aonde queria chegar. Porque esse é o grito de parte da sociedade ocidental atual. É o grito de Bolsonaros, Trumps, Le Pens e Pegidas. Não um grito, como parece, da direita que ressurge, mas um grito da masculinidade sufocada.

Quem acha que a direita é homofóbica, machista e racista está equivocado. Há muitos gays, mulheres e negros direitistas, assim como há muitos esquerdistas preconceituosos. Poucos países na história do mundo foram tão preconceituosos e conservadores quanto a China Maoísta e a União Soviética Stalinista.

O sucesso de Trump e Bolsonaro não é o sucesso da direita. É o sucesso da revolta contra o mal-estar na civilização, nas palavras de Freud. É o sucesso dos instintos contra a ponderação. Neste tempo de extrema feminilidade, a reação é a masculinidade extrema. Não por acaso, dois populistas começam a campanha eleitoral americana fazendo barulho. Trump e Sanders são opostos. Há espaço para ambos, porque a sociedade está radicalizada.

No Brasil, quando Bolsonaro fala grosso, quando ridiculariza qualquer consideração, quando ele é incivilizado, ele se torna um instrumento de alívio social, porque ele também se opõe a um extremo.

Bolsonaro está chutando convenções. Está reagindo à repressão, reagindo ao politicamente correto, à vigilância dos costumes, à nova moral.

Essa reação selvagem e eminentemente masculina não é uma ânsia só de muitos homens. É de muitas mulheres também. É uma ação instintiva, subconsciente, hegeliana, de equilíbrio moral e hormonal da sociedade. Donde, a popularidade desses novos bárbaros.

O que vai acontecer? Até onde eles vão chegar? É imprevisível.

O certo é que eles vão mudar o mundo. Já estão mudando. Tempos severos virão.


12 de fevereiro de 2016 | N° 18443 
MOISÉS MENDES

O sujeito flex


As pessoas politicamente flex. Esse era o assunto dia desses numa esquina da Redação. Pessoas flex prosperam em momentos de crise. Podem ser movidas por rompantes retóricos nebulosos. Podem, por exemplo, condenar radicalmente um impeachment como algo sem fundamento, como podem, por outras vias e conversas enviesadas, aderir a teses golpistas.

Os flexíveis interpretam personagens de acordo com o público. Condenam aos berros uma ideia e ao mesmo tempo se mobilizam, dissimuladamente ou não, em direção contrária. Falam para plateias variadas. Enganam os que não os conhecem bem.

O Brasil de 2016 será a terra fértil do sujeito política e moralmente flex. O flex produz o discurso que lhe convém, porque na hora em que o bicho pegar ele pode apresentar recibo de compromissos com a legalidade ou com o golpe.

É quase sempre assim, em ambientes politicamente degradados. Uma das mais árduas tarefas é saber quem está com quem. E poderá ser assim no Brasil, até o desfecho do atual governo.

Os flex discursam ou escrevem para um lado e para outro. Ser flex não é pra qualquer um. Para efeitos retóricos, são legalistas. Pragmáticos, são golpistas.

Eles poderiam ser uma coisa ou outra e desfrutar do direito de se posicionar. Mas o flex se movimenta em mais de uma direção. É temerário numa hora dessas ter um sujeito flex por perto.

Estávamos, então, falando do sujeito flex quando alguém dobrou a esquina e quis saber como andava a notícia dada pelo Cerveró, há uns dois meses, de que em 2002 os tucanos compraram a petroleira argentina Pérez Companc e levaram propina de US$ 100 milhões.

Na época, o negócio foi considerado estranho. Mas negócios tucanos são apenas estranhos, alguém disse. Nunca mais se falou no assunto. Polícia Federal, Ministério Público – parece que ninguém quer saber mais nada sobre quem recebeu e quem repartiu o dinheiro. Nada se sabe e nada se saberá.

Cerveró perdeu tempo. Antigos corruptos estão liberados para atuarem como novos moralistas. É o que concluímos. E continuamos então falando do sujeito flex, um assunto muito mais interessante.

O flex é o antigo duas caras. Você aí deve ter alguns na família, na firma, na repartição. Proteja-se.

Enquanto isso, acharam um espeto com a letra “L” gravada no cabo de madrepérola, na churrasqueira do sítio de Atibaia. Foi enviado para perícia.

O delegado Guilherme Wondraceck perdeu o posto de chefe de Polícia por causa da crise da segurança. É como se o Grêmio decidisse mandar o Luan embora para melhorar o time. Nem o Batman entendeu essa.


12 de fevereiro de 2016 | N° 18443 
MARCOS PIANGERS

Cuide da sua própria vida


Minha mãe tem problemas de locomoção por conta de um acidente em 2010. Ela esperava um táxi esses dias em um ponto e quando o carro chegou um jovem simplesmente furou a fila e pegou o táxi da minha mãe. Ao ouvir os protestos das pessoas próximas, o jovem gritou: “Por que vocês não cuidam da vida de vocês?”.

Um amigo estava na fila de 10 itens em um supermercado quando percebeu que o cliente a sua frente, um aparente membro da classe média alta, passava mais de 10 itens na sua compra de quinta-feira à noite. Meu amigo reclamou. O aparente membro da classe média alta brasileira respondeu: “Por que você não cuida da sua própria vida?”.

Existe uma conta de Twitter que posta apenas carros em estacionamentos ocupando duas vagas. Existem donos de cachorros que não recolhem o cocô do meio da calçada. Existem pessoas que destratam garçons. Existem motoristas que estacionam em vagas de deficientes só pra resolver uma coisa rapidinho e já volto. Todos eles, quando confrontados, dirão: “Por que você não cuida da sua própria vida?”.

Essa é a minha vida. O que eu quero que você entenda é que essa é a minha própria vida. O cocô do seu cachorro, o atendimento preferencial, os 10 itens no supermercado, a vaga de estacionamento, o respeito pelos mais velhos. Essa é a minha própria vida. Essa não é a sua vida, esse não é apenas problema seu. Isso é meu problema, porque faz parte da minha vida também.

Nós somos esse povo que celebra o jeitinho brasileiro, essa nação que idolatra os impunes, que comemora a malandragem. Mas existe uma relação entre o cara que dá jeitinho e o cara que nos rouba o celular. Ambos acreditam que nunca serão punidos. Ambos confiam na regra do “vai cuidar da sua vida”. Só que, meus amigos, esta é a nossa vida. E é dela que temos que cuidar. Porque é a única que temos.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016



11 de fevereiro de 2016 | N° 18442
EDITORIAL

OS NÚMEROS DO CRIME


Sob qualquer aspecto, são alarmantes os números da criminalidade no Rio Grande do Sul, especialmente o roubo de veículos, que se tornou uma prática comum para os criminosos e um risco à vida dos motoristas. 

De acordo com os dados oficiais, divulgados não por coincidência em meio ao Carnaval, quando a visibilidade é menor, mais de 18 mil veículos foram roubados em 2015, um recorde histórico. Significa que 18 mil pessoas (sem considerar a repetição) estiveram sob ameaça de arma ou violência física, sendo forçadas a entregar o veículo para delinquentes.

O latrocínio, nessas circunstâncias, é o mais temido dos crimes pelo cidadão comum, porque qualquer um, a qualquer momento, poder ser vítima de uma agressão que resulta em morte. Os exemplos se multiplicam, como o do episódio em que uma servidora pública foi morta, em São Leopoldo, na segunda-feira, diante da filha, porque tentou fugir ao ser abordada. 

Como repetem analistas de segurança, está muito fácil ser bandido, quando a atividade é o furto ou o roubo de veículos. Isso porque o ladrão sai às ruas com a encomenda e faz tudo, inclusive matar, e sem muitas dificuldades, para cumprir sua tarefa.

Uma soma de fatores contribui para o aumento de um crime que somente será reprimido quando os desmanches perderem o poder de funcionar como negócio criminoso. Nada justifica que até agora o governador do Estado não tenha cumprido promessa feita em novembro, quando sancionou a lei dos desmanches, que procura moralizar a atividade do setor. A lei, disse o chefe do Executivo, seria regulamentada logo. Não foi. Enquanto isso, os ladrões de automóveis continuam roubando e matando, sem que o Estado consiga oferecer respostas elementares a um cenário cada vez mais assustador.



11 de fevereiro de 2016 | N° 18442
ARTIGOS - MARIA REGINA FAY DE AZAMBUJA*

BALADA (IN)SEGURA


O Brasil é o terceiro país com mais mortes no trânsito. Esforços têm sido empreendidos pelo poder público no combate ao motorista alcoolizado. Dados mostram o crescimento das abordagens realizadas pela Balada Segura. Paralelamente, maiores as possibilidades de evitar danos à saúde e à vida de todos nós. É no trânsito que pode ser medida a eficácia das ações de prevenção primária, o cuidado pela vida, que deve começar muito antes de chegar ao volante.

Onde começam os riscos? Onde está a raiz do problema?

Para não voltar aos primeiros anos de vida, afirma-se ser preciso investir em ações voltadas ao momento em que o uso do álcool inicia na vida dos futuros motoristas. Pesquisas já identificaram a idade precoce em que o uso do álcool costuma ocorrer no meio em que vivemos, por volta dos 13 ou 14 anos. 

Não precisamos ir muito longe para nos certificarmos da veracidade dos achados. No verão, muitas festas programadas para acontecerem em clubes ou casas de festas, locais em que é vedada a comercialização de bebida alcoólica em seu interior, acabam se deslocando para a rua, calçadas, meio da rua. São muitas baladas que acontecem aqui e acolá.

A Balada Segura, reconhecida por todos os segmentos, já aponta, no próprio nome, um dos pontos desprotegidos e negligenciados, alertando, de certa forma, para ações de prevenção. Infelizmente, somos lerdos na ação, levamos muito tempo para nos conscientizarmos de que a responsabilidade é nossa, da família, da sociedade e do poder público. Não podemos esperar que os muito jovens, sob efeito do álcool, tenham condições de exercer a própria proteção e segurança. É momento de agir, unir esforços, chamar novos parceiros para o enfrentamento do descuido a que os adolescentes estão expostos.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul, grupos de pais, escolas, instituições públicas e particulares, e diversos segmentos sociais abriram espaço permanente para tratar da proteção ao uso precoce do álcool por crianças e adolescentes. É só o começo. A mudança não vem de fora, depende de nós, da responsabilidade de cada um. Substituir a falta de parâmetros protetivos por ações em favor da vida é nosso dever e direito daqueles que ainda não atingiram os 18 anos.

Procuradora de Justiça Professora na Faculdade de Direito da PUCRS*

11 de fevereiro de 2016 | N° 18442 
DAVID COIMBRA

Como uma onda no mar


Avida vem em ondas, como o mar, num indo e vindo infinito, escreveu Nelson Motta para Lulu embalar o Brasil. Assim são os povos. A história se repete. Marx dizia que se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, mas a verdade é que, não raro, ela apenas se repete. O roteiro das civilizações, em 10 passos, é o seguinte:

1. Um povo se estabelece nas proximidades de algum fio d’água.

2. Esse povo trabalha duro, porque é preciso trabalhar duro para domar a natureza selvagem.

3. O trabalho duro faz o povo progredir.

4. O progresso traz excedentes econômicos.

5. Os excedentes econômicos levam à riqueza.

6. A riqueza leva ao ócio.

7. O ócio leva à luxúria e à gula, e também à sofisticação cultural, à arte e à literatura. Leva, enfim, aos prazeres do intelecto e da carne.

8. Os prazeres do intelecto e da carne tornam esse povo requintado e manemolente.

9. Esse povo, de elevada cultura, produtor de grande arte, lascivo e cínico, é também muito mais humano e compassivo. Esse povo alcançou o ápice da civilização em sua época.

10. Neste ponto, outro povo, muito menos civilizado, mais agressivo e sem escrúpulos, cobiça a riqueza dessa civilização e a conquista. A invasão e a tomada são relativamente fáceis, porque o povo mais civilizado está também muito mais amolentado pelas amenidades da civilização.

Em resumo, um povo menos civilizado, de valores e hábitos masculinos, domina pela força o povo civilizado, de valores e hábitos femininos.

Esse povo é feminino porque a civilização o é. O processo civilizatório é um processo de feminilização. Você verá esse mesmo roteiro em toda a história humana. Para nos limitarmos ao Ocidente, olhe para os macedônios grosseiros companheiros de Alexandre submetendo os persas delicados em suas vestes de seda; olhe para os romanos austeros da República de Cincinatus dominando os gregos amantes da arte e da filosofia; olhe para os germanos e gauleses invadindo a Roma decadente, com Alarico à frente deles a rosnar:

– Ai dos vencidos!

Olhe, por fim, para Gengis Khan, passando no fio da espada germanos, gauleses e romanos, anunciando-se, como Átila, “O Flagelo de Deus”, e pronunciando sua frase preferida:

– O maior prazer de um homem é matar seu inimigo, cavalgar em seu cavalo e possuir suas mulheres e filhas.

Ah! Essa frase de Gengis Khan é o resumo da masculinidade incivilizada. É o oposto da civilização e da feminilidade. Não por acaso, Gengis Khan, o guerreiro invencível, é também o maior reprodutor da raça humana. Tanto que os cientistas calculam que, ainda hoje, haja 16 milhões de descendentes de Gengis Khan respirando debaixo do sol.

É isso que grita a natureza de um homem-bicho: espalhar sua descendência aos milhares e vencer o inimigo pela violência. É isso, também, que, volta e meia, expressa o homem moderno. Os números o comprovam: 90% dos acidentes de trânsito fatais são causados por homens, 90% dos presidiários são homens, os homens vivem menos do que as mulheres porque morrem de morte violenta, os homens matam e morrem.

Foi a mulher, graças à maciez da sua inteligência e da sua pele, que arrancou o homem desse destino selvagem.

É por isso que o Ocidente é efeminado: porque o Ocidente é civilizado. Nunca, na história do mundo, a civilização chegou a tal ponto de humanização, de cultura, de respeito às diferenças. Nunca, na história do mundo, uma civilização foi tão feminina.

Mas a vida vem em ondas, como o mar. Nesse indo e vindo infinito, dias atrás ocorreu um fato que mereceu pouca atenção, nos Países Baixos, mas que é muito eloquente. No próximo texto digo qual foi. Será o derradeiro.


11 de fevereiro de 2016 | N° 18442 
L. F. VERISSIMO

Jogo secreto


Alguém já disse que rugby é o futebol americano pra homem. Os dois são esportes violentos, mas os jogadores de rugby não usam nenhum tipo de proteção, enquanto os do football se protegem dos capacetes de astronauta aos pés. A piada é um pouco injusta. Apesar da proteção, jogadores de futebol americano se machucam com mais frequência do que os de rugby, e são tantas as consequências dos choques constantes durante uma partida, e as sequelas neurológicas que perseguem ex-jogadores, que já se cogitou até proibir o esporte.

O Super Bowl do último domingo foi um jogo feio, truncado, que ainda teve que competir, como espetáculo, com o show do intervalo e as coxas da Beyoncé. Mas foi uma boa amostra da violência do esporte, tanto que sua melhor figura foi o defensor dos Broncos, que conseguiu chegar mais vezes ao quarterback dos Panthers e, literalmente, patrolá-lo. 

O quarterback é quem determina, por sua conta ou obedecendo a instruções do técnico, que tipo de jogada será tentada, se ele fará um passe ou dará a bola para um subalterno carregar através das linhas inimigas. É o intelectual do time e, como qualquer intelectual, precisa de tempo e tranquilidade para pensar no que fazer. Os armários alinhados na sua frente estão ali para lhe garantir o tempo e a tranquilidade, que no domingo, para o quarterback dos Panthers, nunca vieram.

Os armários encarregados de proteger o quarterback e fazer o trabalho pesado do time são, geralmente, afrodescendentes. Até há pouco tempo, nenhum quarterback num time de futebol americano era afrodescendente. Era uma tradição nunca claramente explicitada, mistura de estereotipagem racial e pura discriminação, consciente ou inconsciente. 

Hoje, ainda é raro ver-se um negro na posição. E uma dessas raridades é Cam Newton, não apenas o quarterback dos Panthers mas a sua principal estrela, com comportamento de estrela. No Super Bowl de domingo, aconteceu outro jogo, secreto, implícito. De um lado, Peyton Manning, um quarterback branco clássico, em fim de carreira. No outro, o brilhante Cam Newton, negro, segundo muitos um o modelo para um novo tipo de quarterback. A tradição contra os novos tempos. Ganhou a tradição.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016



10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
MARTHA MEDEIROS

Para pensar

A ONU propôs que os países latino-americanos flexibilizem suas leis sobre aborto, a fim de que mulheres grávidas com ameaça de infecção pelo zika vírus possam interromper a gestação. O Brasil nem considera a ideia, mas não se pode perder a oportunidade de voltar a debater o assunto de forma mais ampla e sem sentimentalismo – uma das razões do nosso atraso.

Vou direto às questões recorrentes.

Como tens coragem de defender o assassinato de uma criança?

Não é uma criança e não é assassinato: trata-se de interromper a formação de um embrião, a fim de respeitar os motivos de quem chegou antes, a gestante. Numa hipótese absurda, quem usa a palavra assassinato para aborto poderia usá-la também em relação à doação de órgãos. Não se estaria matando antecipadamente o doador? Afinal, também há um coração batendo, se é esse o critério. Simplista, não? (Sou doadora, que fique claro.)

Quem é contra a legalização do aborto está protegendo os direitos humanos?

Ao contrário. A lei serve apenas para punir as mulheres. Nenhuma delas levará adiante uma gestação indesejada só porque o governo, que nem a conhece, quer que ela tenha um filho. Ela abortará de qualquer jeito, como provam as estatísticas. Se tiver dinheiro, o fará em boas condições. Se for pobre, poderá adoecer, ficar infértil ou mesmo vir a óbito. Por que a vida delas valeria menos do que a de um embrião?

É preciso repressão do Estado, pois quem engravida sem querer não teve acesso a informação e prevenção.

Gravidez é fruto do desejo e do sexo. Duas coisas que não primam pela racionalidade. Mulheres inteligentes e bem-informadas também ficam grávidas sem querer. O paternalismo não procede.

Em vez de abortar, por que a mulher não doa o recém-nascido para adoção?

Seria perfeito, num mundo ideal. As que conseguem, merecem admiração. Só que a mulher que interrompe a gestação está, na verdade, rejeitando a criação de um vínculo. Se levar a gestação ao término, o vínculo acontecerá, não importa a decisão que ela tomar depois. É um assunto profundo e difícil, pois transcende a lógica. O que se está interrompendo é a formação de um amor. Duro? Duríssimo, mas a vida não é um conto de fadas.

O que você acharia se sua mãe tivesse abortado você?

O mundo não perderia nada. Ninguém dá falta do que nunca existiu. Você chora por alguém que poderia ter sido o inventor de algo chamado, sei lá, infragiro? Você lamenta o não nascimento daquela que viria a ser a melhor amiga da sua filha?

Olhe para os lados. O planeta está em crise. Dediquemos nosso afeto e solidariedade aos bilhões que chegaram até aqui e que estão precisando muito uns dos outros.



10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
DAVID COIMBRA

Elas nos convencem sempre


Vou dizer por que a civilização ocidental se tornou feminina.

A civilização ocidental se tornou feminina porque a civilização É feminina.

A civilização é obra da mulher. Tudo por causa do cérebro. Explico.

Olhe para um tigre. Qualquer tigre é mais forte do que 10 Andersons Silvas, mais rápido do que 10 Usains Bolts, mais elegante do que 10 Seans Connerys e mais ágil do que 10 Yelenas Isinbayevas, além de ter as lindas cores e o design da camisa do Criciúma.

Por que, então, os tigres não dominam o mundo e não nos guardam em zoológicos para sermos apreciados como feras raras?

Resposta: porque o cérebro humano é 10 vezes maior do que o deles. Mas é claro que o tamanho não é o único documento, no caso do cérebro, porque as baleias possuem cérebros 10 vezes maiores do que os nossos e, ainda assim, uma baleia não consegue fazer nem uma letra de axé. A complexidade, aliada ao tamanho, sim, é que é documento.

As pessoas, portanto, necessitam de grandes cabeças para derrotar tigres e outras contingências da vida. Para vir à luz do mundo, porém, essa grande cabeça tem de atravessar estreita passagem, como todos sabemos. Certo. Agora responda: como fazer essa travessia sem dilacerar e matar as mães no parto?

A sábia natureza resolveu a questão dando aos bebês humanos, no nascimento, cérebros menores e caixas cranianas moles. A ideia genial da natureza, como soem ser as ideias da natureza, é dar tempo ao pequeno Sapiens para que seu cérebro cresça e a caixa craniana se solidifique. Esse processo é sofisticado e lento. Leva, pelo menos, cinco anos. 

Nesse período, a maior parte da energia da criança é consumida pelo cérebro em formação. A sede do cérebro é tamanha, que ele chega a beber dois terços da energia produzida pelo pequeno filhote de ser humano, na sua etapa inicial da existência. É por isso que o corpo demora tanto a se desenvolver. O crescimento do corpo só se tornará veloz quando o cérebro estiver quase pronto.

Um lépido cavalinho ou uma perigosa serpente cruzam num zás da infância à adolescência. Nascem e, em minutos, saem por aí troteando ou rastejando. Um humano, não. Um humano precisa de cuidados por muitos anos, até se tornar razoavelmente independente e começar a pedir jogos do X-Box.

Quem providencia esses cuidados aos pequenos, na natureza? As fêmeas das espécies, óbvio. Afinal, foi de dentro delas que brotaram as crias. Só que o trabalho das tigresas e das aliás, que é o nome da fêmea do elefante, é facilitado pela rápida autonomia que adquirem os seus filhotes. O nenê humano, por outro lado, é um inútil. Ele nada faz, além de comer, beber, chorar, defecar e urinar.

Por essa razão, devido à necessidade desesperada de cuidados de seus rebentos, é que as fêmeas do Sapiens precisam desesperadamente de estabilidade. É muito incômodo, para uma fêmea do Sapiens que recém pariu, sair por aí caçando mamutes ou mudando de clareira na floresta por causa da escassez de alimentos.

Foi essa vicissitude, e não qualquer contingência econômica, que fez o Sapiens desistir da aventurosa vida nômade e adotar a trabalhosa, porém estável, vida sedentária. Muito provavelmente, foi a mulher quem concebeu a agricultura e aprendeu a domesticar os animais. Mas, se não foi ela que o fez, certamente foi ela quem convenceu o homem a adotar essa forma de viver, e você sabe que uma mulher, quando quer convencer um homem a fazer algo, convence.

A mulher, portanto, inventou a civilização!

Mas ainda não consegui chegar ao Ocidente efeminado. Chegarei no próximo texto.



10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
MOISÉS MENDES

A paineira


Contei ao biólogo Flávio Barcelos Oliveira que uma figueira da Avenida Juca Batista, na zona sul de Porto Alegre, é a minha árvore preferida. Flávio é funcionário da Secretaria do Meio Ambiente (Smam) e quem mais conhece as árvores de Porto Alegre.

Quando falei da figueira, ele me disse: eu sei qual é. E sabia mesmo. A figueira está perto da rótula da Serraria e foi mantida sobre a calçada quando alargaram a avenida, há mais de 10 anos. É uma árvore vulnerável.

Se um dia o progresso alargar de novo a Juca Batista, a figueira será ameaçada, mesmo que todos os Flávios da Smam tentem protegê-la. Durante a semana, passo pelo menos duas vezes por dia pela figueira e penso se em algum momento ela não será um estorvo para os carros.

Flávio me ouve e depois me conta a história da sua árvore preferida. É uma das mais belas histórias de árvore que já ouvi. Começa em 1978, quando ele, aos 23 anos, é técnico agrícola da Smam.

Determinam que Flávio examine as copas das árvores da Avenida João Pessoa, para implantação do corredor de ônibus. Sobre a calçada, passando a esquina com a Princesa Isabel, do lado esquerdo de quem vai para o Centro, ele e um colega veem uma muda de paineira de um metro de altura.

A árvore iria crescer e as raízes poderiam estourar a calçada. Decidem cavar e retirar a paineira. No lugar, colocam uma muda de jacarandá. É quando um homem grita da janela do prédio em frente:

– Parem, seus ladrões de mudas. Essa paineira é minha.

O homem desce. Eles argumentam que a Smam cuida do espaço público e que a paineira estaria bem em outro lugar. O homem não aceita. A paineira é dele. Vencidos, os dois retiram o jacarandá, recolocam a paineira no buraco e recomendam que o homem faça uma espécie de proteção com leivas, para que as raízes se acomodem ali.

Seis anos depois, o homem aparece, ao acaso, na sala de Flávio na Smam. Diz que uma paineira está estourando a calçada. O agora biólogo percebe que o dono da paineira não o reconhece e então se apresenta: – Eu era o ladrão de mudas lá de 1978. Mas agora é tarde demais.

O homem vai embora. Mas volta à Smam mais duas vezes para tentar remover a paineira. Os vizinhos viam as raízes como ameaça. A árvore chegara aos oito metros. Flávio resiste e vence. A paineira sobrevive. As raízes se esparramaram e hoje quase tomam conta da calçada.

O biólogo vai se aposentar no dia 18 de agosto, no exato dia em que completará 42 anos de Smam. Essa é a história que mais emociona o protetor das árvores de Porto Alegre. Flávio me disse:

– Depois da tempestade, a primeira coisa que fiz foi ver como ela estava. Está bem. É a paineira mais bonita da cidade. Podem até dizer que não é, mas eu me apaixonei por ela.


10 de fevereiro de 2016 | N° 18441 
PEDRO GONZAGA

PRANTO SUÍÇO

Durante anos, o folclore familiar foi movido pelos apartamentos de Canela.


Minha mãe e minha tia aproveitavam cada showroom em desmanche para comprar coisas para os tais apartamentos, que jamais ficavam prontos. Chegamos a suspeitar, meus irmãos e minha prima, que as duas sofressem de algum distúrbio disparado por lojas de móveis em processo falimentar.

O tempo foi-lhes um desagravo. Os apartamentos se concretizaram e esta crônica é também um pedido de desculpas. Desde então tenho passado os dias de fevereiro em Canela, pois a descobri uma Suíça no tempo das guerras carnavalescas.

Longe de ser contaminado pela febre ziriguidum, sempre me tocou o aspecto melancólico do Carnaval. Quando jovem, eu cantava Um Sonho de Carnaval, do Chico, que terminava com: “Quarta-feira, sempre desce o pranto”. Aquilo combinava comigo. Levou tempo para eu descobrir ser “pano” e não “pranto” ao fim da letra. Cá entre nós, quem não fez dessas? 

Havia um casal que tocava na praça de alimentação do Centro Comercial João Pessoa que era campeão em modificar letras. Na época, fazia sucesso uma canção do Paralamas, Uma Brasileira, com seu refrão One more time (a ser cantado “uã mor tai tai tai”). Pois o casal, talvez insciente da frase em inglês, cantava “um-mum-chá-chá-chá”.

Admito. É feio trazer um exemplo radical para diminuir o próprio erro, mas não era a intenção, até porque preciso confessar: prefiro o meu “pranto” ao figurado “pano” do Chico. Pranto é mais direto. E mais próximo da bipolaridade de uma folia que acaba em cinzas. Bipolaridade que tem no samba seu melhor par. Mesmo no samba-enredo, seguidamente há uma segunda parte de tons líricos, o que deveria ser uma contradição em uma música feita para uma escola desfilar. Pensem em Liberdade, Liberdade, da Imperatriz, em tantos sambas de Vila Isabel ou de Mangueira.

Porque sem essas notas de tristeza, a alegria, como acontece nas aglomerações, tende a se tornar eufórica. E porque eufórica, chata aos que dela não participam, só não mais chata, talvez, do que a crítica feita aos que a ela se lançam.

Uma coisa, contudo, é certa, e trago más notícias de meu asilo diplomático: em Canela ou Salvador, independente do que tenhamos feito, hoje, quarta-feira, sempre desce o pranto.

terça-feira, fevereiro 09, 2016



09 de fevereiro de 2016 | N° 18440
ARTIGO - VOLTAIRE SCHILLING*

A PARÁBOLA DOS CEGOS


Contempla-os, ó minha alma; eles são pavorosos!

Iguais aos manequins, grotescos, singulares,

Sonâmbulos, talvez, terríveis se os olhares,

Lançando não sei de onde os globos tenebrosos.

Cruzam assim o eterno escuro que os invade,

Esse irmão do silêncio infinito/Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?

(C.Baudelaire – La parabole des aveugles)

Parece ser ainda costume entre artistas, escultores ou pintores deixar a parte final do seu trabalho para um aprendiz ou a um filho que siga a mesma profissão do pai. Assim se deu com a famosa tela do flamengo Bruegel, O Velho, intitulada A Parábola dos Cegos, concluída pelo seu jovem rebento, Jan, em 1568.

A obra não é mais do que uma dolorosa metáfora de uma humanidade trôpega e hesitante que não tem nenhuma ideia do que o destino lhe reserva. Nem onde está nem para onde vai, como tantas vezes assegurou Schopenhauer. São seis figuras miseráveis em roupas remendadas, apoiadas em longos cajados que servem somente para evitar que desabem, mas que de nada servem para orientar-lhes o caminho adiante. Seria a poderosa e patética imagem também uma crítica aos líderes ou profetas que, desatinados, como tantos que existiram nos derradeiros séculos, levaram as multidões ao abismo?

E que perfeita metáfora da situação do Oriente Médio dos dias de hoje, onde os cegos da região, caminhando numa senda histórica começam a desabar um a um, desde que o primeiro resvala e tomba de costas, arrastando os demais levantinos às guerras, à destruição e ao sofrimento como há séculos não se via! Executam, ainda que sem o saber, a bela, mas terrível Sonata Trilha do Demônio, de Giuseppe Tartine.

Mesmo quando procuram amparar-se uns nos outros, seus pavorosos glóbulos sem cor alguma e que de nada servem não miram a terra, mas sim o céu, como se a solução para a tragédia que se empenham em piorar viesse das moradas divinas. Sunitas contra xiitas; seculares contra ortodoxos; militares contra civis; curdos contra todos, rivalizando-se em quem melhor se concentra em matar, explodir ou mutilar com mais intensidade o seu irmão muçulmano, ou de seita inimiga.

Historiador*



09 de fevereiro de 2016 | N° 18440 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

O BEIJO NA PAREDE

Estava devendo a mim mesmo uma leitura que resultou muito boa e muito auspiciosa: o romance O Beijo na Parede, de Jeferson Tenório (editora Sulina). O livro saiu em 2013, eu deixei para ler depois, outros livros furaram a fila. Mas eis que finalmente encontrei as horas necessárias, e fui muito feliz na leitura.

O tom do relato lembra o de Holden Caulfield, do Apanhador no Campo de Centeio, o clássico de J. D. Salinger, em que um adolescente de classe média toma a palavra para contar sua história desviante. O livro virou um clássico em parte pela voz mesmo, pela força com que soube representar o ponto de vista e a linguagem daquele jovem.

Mas o livro do Jeferson tem como protagonista o João, com seus inacreditáveis 11 anos e uma vida de privações inimagináveis para Caulfield. Nascido no Rio, de mãe negra e pai branco (este, gaúcho de origem), ele perde a mãe no Rio e o pai quando já mora em Porto Alegre. 

O que vem pela frente é pura dureza: será mais ou menos adotado por uma prostituta (que apanha do cafetão), convive com um travesti e com dois velhos muito próximos da morte num cortiço imprecisamente localizado entre a Voluntários e a Farrapos, e compartilha a vida na rua com amigos de história parecida com a sua, o Pouca Força e o Breno.

A sucessão dos episódios – entre o cortiço, um terreiro, a rua da Praia, um súper, o boteco do seu Joaquim – obedece à força do acaso, que rege a vida de quem nada tem e depende mesmo da sorte. Por isso mesmo, não há um enredo progressivo, mas uma vida estacionada ou em decadência, embora o clima da narrativa se adense no terço final, alcançando um desfecho significativo, que não cabe comentar aqui para não estragar o gosto do leitor que vier chegando.

Minha única restrição talvez nem tenha muito sentido, ou tem um alcance muito restrito: contado em primeira pessoa pelo próprio João (as cenas em que ele passa fome são particularmente duras), o romance se articula numa linguagem de vez em quando inverossímil para o menino que ali fala o que vive e vê. Mas o próprio gesto de contar tem seu quê de não realista – para quem, afinal, um guri miserável e desamparado vai falar? Quem o ouve?

Estreando muito bem na narrativa longa, Jeferson Tenório dá folgadas mostras de ter tino e tutano para dar voz a personagens significativos, e mais notáveis ainda por serem gente sem voz audível pelas classes confortáveis na vida cá fora da ficção. O que vem por aí?