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quarta-feira, agosto 20, 2014


20 de agosto de 2014 | N° 17896
MARTHA MEDEIROS

Mau tempo

Quando leio notícias como a do acidente que vitimou Eduardo Campos, me dá um mal-estar não só por ser mais um aviso sobre a precariedade da vida, mas por reconhecer que, quando não se morre de doença, se morre de chuva, de vento, de tempestade. É outro tipo de morte por causa natural.

As quedas de aeronaves são bem representativas. Dificilmente caem por desgaste mecânico. Ou são abatidas pelas mãos do homem (ataque terrorista e falhas humanas) ou são abatidas pela falta de visibilidade, pela instabilidade provocada por pressões atmosféricas, por arremetidas que são sempre manobras súbitas, e por isso o frio na barriga. Os problemas técnicos na aeronave do candidato à Presidência surgiram posteriormente à arremetida – se as condições meteorológicas fossem boas, tudo indica que teria aterrissado com tranquilidade.

Acidentes de carro acontecem mais em dias de pista molhada do que seca. Engavetamentos em estradas acontecem quase sempre por causa de nevoeiros, temporais e nevascas.

Pessoas perdem tudo o que têm em enchentes e deslizamentos de terra, barcos naufragam no mar revolto, ondas gigantes invadem praias, casas são destelhadas por tufões, suicídios acontecem mais no inverno do que no verão. A tragédia, decididamente, não é solar.

A vida muda – e até termina – por uma questão que está fora do nosso controle, o clima. Há paliativos, ok. Pode-se prever e minimizar os riscos, mas não se pode evitá-los, então somos ceifados por uma potência destrutiva que não vem da maldade do homem e sim do humor da natureza e que atinge a todos: crianças, velhos, pobres, ricos, pessoas de qualquer lugar, de qualquer idade, numa loteria democrática, mas sempre injusta.

Quando vejo moradores varrendo a lama de suas moradias no dia seguinte ao de um estrago devastador, me parece uma provocação: o céu límpido retorna ao local do crime com a maior cara de pau. O sol no dia seguinte ao de um tsunami é um convidado atrasado, alguém que não conseguiu chegar a tempo de impedir uma desolação. É bem-vindo porque traz a possibilidade de reconstrução, porém a reconciliação é provisória. Pessoas que perdem seus filhos, maridos e esposas para os desatinos climáticos são confrontadas com a total falta de lógica da existência.

Como diz uma amiga minha, “a morte é definitiva demais para o meu gosto”. De fato. E mais definitiva nos parece quando acontece de uma hora para outra, pelo capricho de nuvens pesadas, garoas insistentes, rajadas desestabilizadoras, umidades traiçoeiras, por um anoitecer prematuro, por relâmpagos, pelo cenário típico dos pesadelos, que, ironicamente, tem lá sua poesia e sua beleza, como em toda tragédia – desde que a gente sobreviva a ela, claro.

Ninguém deveria morrer de mau tempo, mas a natureza não negocia.



20 de agosto de 2014 | N° 17896
ARTIGO - LEANDRO DE LEMOS*

A INSUSTENTÁVEL ECONOMIA BRASILEIRA

Parece difícil aceitar que a economia brasileira esteja entrando em recessão técnica após alguns anos de taxas de crescimento elevada. É fato que todas as economias têm ciclos, faz parte da lógica quase coercitiva dos mercados, e que a condução macroeconômica até poderia ter melhores resultados. No entanto, desta vez, a causa é conhecida há muitos anos: as travas impostas ao investimento.

O processo de industrialização comandado pelo Estado na Era Vargas subordinou os investimentos públicos e privados à construção do capitalismo no Brasil. Iniciou-se a instalação dos departamentos – segundo os fundamentos de Michael Kalecki – de bens de consumo não duráveis.

No período JK, o de bens de consumo duráveis. E, no período militar, completamos o parque industrial com o departamento de bens de capital. É uma síntese, e é claro que o processo foi muito mais complexo.

O surpreendente é que, em 1974, o diagnóstico é idêntico ao de 2014. Quarenta anos se passaram e não conseguimos completar o modelo brasileiro de desenvolvimento. Rompemos a dependência da importação de produtos industrializados, mas mantivemos a dependência tecnológica.

Era preciso investir pesado em educação, ciência, tecnologia e inovação para entrarmos no jogo global que àquela época se redesenhava – estavam nascendo a China, a Coreia do Sul, o Japão e a Suécia de hoje, além do adensamento da tecnologia de ponta dos EUA. As cadeias produtivas se tornavam globais, e nós fechamos as fronteiras.

Ficamos com déficits, dívidas e inflação como herança para cuidar durante 40 anos. Avançamos na inclusão e no crescimento do mercado interno. Mas, atualmente, o foco exclusivo do tripé metas de inflação, superávit primário e câmbio deveria ser apenas base na gestão econômica. A parte principal está em destravar as barreiras dos investimentos. Sem eles, não há inovação e a economia fica à mercê de ciclos econômicos erráticos e algum crescimento sabidamente insustentável.

*Economista, presidente do Corecon-RS, professor de Economia da PUCRS


LEANDRO DE LEMOS

20 de agosto de 2014 | N° 17896
PEDRO GONZAGA

MATÉRIA DISTINTA

Enquanto volto de Frederico Westphalen, depois de mais uma participação no excelente Sesc Mais Leitura, que leva autores e professores pelo Estado para falar aos alunos da rede pública, ocorrem-me duas coisas óbvias, que não temo, li bastante Nelson Rodrigues para saber que nunca se dá o devido valor às obviedades: a primeira está na alegria com que os alunos e os educadores recebem essas visitas, esquecidos há décadas por Estados e municípios que falham em lhes oferecer alternativas.

Mas sobre isso não quero falar, não até a duplicação imediata do rendimento dos professores (e depois os treinamentos e não sei quantas miríades de soluções). A segunda obviedade, e esta se me abate a cada vez que pego a estrada (e aqui a crônica), tem a ver com a matéria distinta de que tinham de ser feitos os homens e as mulheres que abriram esses longos caminhos antes de nós.

Não podiam ter ciáticos, formigamentos, estômagos delicados, dramas vitais acionados à mera perda de uma rede de dados. Penso em meu avô, pai do meu pai, capaz de arrancar o sustento de sua família de uma pedreira, carregando um caminhão praticamente sozinho, viagem atrás de viagem. Penso em meu outro avô, na habilidade e paciência de minha avó a seu lado, para organizar e administrar três crianças até Iraí a bordo de um fusca.

Hoje reclamamos do ar-condicionado, se o banheiro tem cheiro, se o ônibus atrasa. Ao primeiro transtorno, postamos um “sentindo-se vítima de um martírio”. Mas e aqueles colonos que abriram picada a picada as rotas da Serra? Do que reclamavam? Maldiziam a Deus, é certo, mas e além disso?

Assim, sinto informar aos bombados que hoje vivem de whey, mas vocês são todos macios, a mendigar aprovações para seus selfies, incapazes de enrijecer as fibras que de fato importam, convertendo desilusões triviais em dramas de cinco atos. Se vocês ainda têm os retratos de família, reparem nos rostos dos antepassados, desconfortáveis e sérios e um pouco assustados. A confiança que exalamos em nossas fotos eles deviam suar na vida.


E eu que já estava prestes a postar “mais 120 quilômetros” com aquele ícone de boquinha triste, paro ao ver surgir meu bisavô – o brilho morto de seu olho de vidro –, passageiro ao meu lado. Quero lhe perguntar como suportou as viagens, como foi capaz de cruzar a vida, mas emudeço. Escrevo a crônica, nada posto. E só então descubro o que os fazia sorrir.

20 de agosto de 2014 | N° 17896
PAULO SANT’ANA

Um negro na Presidência

Diante do anúncio, em minha coluna, de que perdi minha bengala, choveram oferecimentos de leitores para me doar bengalas. O problema é que a maioria das ofertas tem os cabos nos moldes da bengala que passei a usar mas que é muito incômoda.

A bengala que perdi era ideal, tinha o cabo em forma de gancho e, quando eu a agarrava com a mão esquerda para descansar, não escorregava para o chão. Se for em forma de gancho o cabo, aceito o oferecimento.

Muito obrigado pela solidariedade, sinto-me lisonjeado com as ofertas. É encantador que as pessoas se preocupem com a gente. Com a entrada de Marina como candidata, preteou o olho da gateada na sucessão.

Quem deve estar apreensiva com a pesquisa do Datafolha é a presidente Dilma. Segundo o levantamento, Marina ganharia no segundo turno de Dilma. Vão sair faíscas na eleição.

O dado mais interessante da pesquisa do Datafolha é que, se Marina não concorresse, Dilma ganharia no primeiro turno. Isso por si só determina o quanto é importante a presença de Marina na eleição, o que pode provocar até que ela venha a ser eleita presidente.

Se Marina se elegesse presidente, não seria novidade uma mulher no principal cargo. Dilma já o conseguiu. Mas, por outro lado, seria uma bomba arrasa-quarteirão que tivéssemos pela primeira vez como suprema mandatária uma pessoa negra.

Ou Marina não é negra? É parda? Isso não faz diferença. Os Estados Unidos já elegeram o seu negro presidente. Obama exerce o cargo por reeleição.


E o Brasil, que tem maior índice de negros na população com relação aos Estados Unidos, no entanto ainda não elegeu um negro. Será que chegou nossa hora?

terça-feira, agosto 19, 2014


19 de agosto de 2014 | N° 17895
MOISÉS MENDES

Acabou

Assim como o ciclo da borracha, o cinema novo e a arte moderna, o futebol brasileiro extinguiu-se. Não existe mais o futebol brasileiro, como não existe mais o país das bananas, da Bossa Nova e da Tropicália. É o fim, você viu na última rodada do Brasileirão.

Pelé está agora ao lado de Carmen Miranda, de João Gilberto e de Caetano Veloso como representante de algo que um dia ajudou a nos definir como brasileiros, mas se esgotou.

O futebol afundou na mediocridade. Sobraram as chuteiras cor-de-rosa, os amigos da dinastia da CBF, as máfias, ingressos impagáveis e estádios vazios.

Nunca antes neste país, como dizem os cronistas, o futebol esteve tão igual. Pernas de pau e treinadores que se repetem igualaram o futebol brasileiro. As séries A, B, C, D, E, F, G são todas a mesma coisa.

A Copa apenas nos proporcionou o grand finale. Fomos expostos, pelo vexame dos 7 a 1, como o futebol mais decadente de todos os continentes.

O Brasileirão é só a continuação do processo de extinção. Se não fosse a Copa, continuaríamos nos enganando. Venceu o futebol dos times com cinco volantes. Nas arquibancadas, adolescentes e marmanjos rosnam cânticos macabros. Nem os quero-queros aguentam mais o nosso futebol.

Já me reuni com amigos, numa esquina aqui na Redação, para saber se esse é um sentimento generalizado e se não há exagero em pensar que o futebol acabou. Se, passada a ressaca da Copa, poderemos voltar ao normal.

Alguns resistem, mas a maioria acha que não há mais o que fazer. Esse agora é o nosso normal.

O melhor momento do futebol brasileiro é o da corrida dos cavalinhos do Tadeu Schmidt no Fantástico.

Nosso futebol durou muito. Nasceu em 1958, quando o Brasil tomou aquele primeiro gol na final contra a Suécia. Se o Brasil não tivesse tomado aquele gol no começo, se Didi não tivesse andado até o centro do campo com a bola embaixo do braço e se o Brasil não tivesse virado aquele jogo, tudo poderia ter sido diferente. O futebol nasceu ali.

E começou a morrer com aquele primeiro gol da Alemanha, na tragédia de 8 de julho no Mineirão. Assim como, lá em 1958, todos sabiam que o Brasil de Pelé desmoralizaria a Suécia, sabia-se agora na Copa, depois do primeiro gol dos alemães, que o Brasil de Fred seria irremediavelmente desmoralizado.

Só que nossa tragédia é incompleta. Para que o horror se consumasse e o país mergulhasse nas trevas, seria preciso que a Argentina tivesse vencido a final da Copa. Sem a vitória da Argentina, ainda ficamos esperneando por alguns dias, até a retomada do Brasileirão.

Agora, diante dos jogos patéticos do Campeonato Brasileiro, sabemos que não dá mais. O futebol acabou. A extinção do futebol nacional será sempre associada à era dos jogadores com cabelos moicanos que jogavam com chuteiras amarelas e bolas roxas.

É dantesco. É o pior espetáculo da Terra. Mas há um consolo. Poderia ser pior. Poderíamos estar vivendo hoje a segunda era daqueles assustadores calções Adidas.


CLÓVIS ROSSI

Morre um líder, nasce um slogan

O "Não vamos desistir do Brasil" é a frase mais forte surgida até agora em uma campanha chocha

Eduardo Campos legou, além de tudo o que se disse dele nestes últimos dias, uma frase de efeito capaz de eletrizar uma campanha.

Refiro-me, como é óbvio, ao "Não vamos desistir do Brasil", por ele pronunciada no final da entrevista ao "Jornal Nacional".

Já havia me impressionado ao vivo, como um belo achado. E olhe que se algo que não me comove mais são frases de políticos, de esquerda, de centro, de direita, de cima, de baixo. Mas essa frase é um achado porque coincide com um sentimento aparentemente crescente de desânimo não necessariamente com o Brasil mas, principalmente, com a política convencional.

As manifestações de junho do ano passado foram uma contundente demonstração de que a política convencional não dava respostas às demandas da sociedade, tanto que os partidos políticos foram expulsos delas. Como política ainda é a única maneira de intermediação entre a sociedade e as instituições incumbidas de atendê-la, desistir da política de certa forma equivale a desistir do Brasil. Ou, ao menos, significa desistir das mudanças que sólidas maiorias dizem desejar, em todas as pesquisas feitas nos 12 meses mais recentes.

É por isso que o apelo do líder desaparecido soava como perfeitamente oportuno (os críticos de Campos dirão que é oportunista). Tão oportuno que a família, embebida de política desde sempre, e seus correligionários não perderam tempo em pintar a frase em camisetas e faixas, inclusive na que aparecia com destaque em um dos lados do carro do Corpo de Bombeiros que levava o caixão até o cemitério de Santo Amaro. Para que a frase tenha consequências no panorama eleitoral, no entanto, é preciso que seja encampada por Marina Silva, assim que ela assumir a candidatura presidencial. Seria inconcebível que outros candidatos a usassem.

Mas tem-se aí um sério problema para a ex-senadora. Para que seja efetiva como instrumento eleitoral, é preciso que a frase seja teatralizada durante a campanha. Não, não estou defendendo a teatralização da política. Sou contra, mas não adianta: desde sempre, o teatro é parte relevante das campanhas eleitorais, às vezes a parte decisiva.

Vide o caso Fernando Collor de Mello, que carnavalizou o rótulo de "caçador de marajás" e ganhou a eleição, apesar de seu teatro não passar de grosseira empulhação. Marina não tem nem o cacoete nem o "physique du rôle" para teatralizar uma frase forte como essa. Aliás nem Dilma Rousseff nem Aécio Neves têm um ou o outro. Luiz Inácio Lula da Silva teria, se fosse candidato (não, não estou defendendo a candidatura Lula; apenas constato fatos).

De todo modo, a pesquisa Datafolha publicada nesta segunda-feira (18) demonstra que Marina não precisa de uma frase de efeito para ser candidata competitiva. Mas é possível que suas intenções de voto estejam anabolizadas pela comoção provocada pela morte de Eduardo Campos.

A frase do líder morto talvez permita, se bem usada, trocar comoção por emoção em uma campanha até aqui bastante chocha.


crossi@uol.com.br
ELIANE CANTANHÊDE

Tempo corre contra Marina

BRASÍLIA - O Datafolha reflete um momento específico: é o primeiro imediatamente depois da morte de Eduardo Campos e antes dos programas de TV. Muita água vai rolar.

Mesmo assim, todas as campanhas, ainda tontas pela tragédia, vão ter de se recompor com base nesses dados. E Aécio Neves se vê, subitamente, "ensanduichado" entre Dilma Rousseff, a favorita, e Marina Silva, a grande novidade.

Dilma teve a pior notícia: a vitória no primeiro turno evaporou, e ela está num empate técnico com Marina num eventual segundo turno entre as duas. Mas Dilma não perdeu um só ponto para a nova adversária, e candidatos à reeleição dependem até mais da avaliação de governo e dos índices de rejeição do que de intenções de voto. O ótimo/bom do governo subiu de 32% para 38%, e o ruim/péssimo caiu de 29% para 23%.

Marina teve as melhor notícia: já larga com 21%, em meio a enorme exibição na mídia e gerando expectativa de vitória final. Mas a excepcionalidade do momento passa, e ela tem as piores condições. Seu partido não é seu; PSB e Rede têm uma relação complicada; os arranjos estaduais estão em suspense; setores que se encantavam com Campos não se encantam com ela; setores que se encantavam com ela desencantaram-se. Não será uma campanha fácil. O tempo corre contra Marina.

E Aécio? Respira aliviado por não perder capital para Marina, mas está estacionado em 20% e espremido entre as fortes condições de Dilma (tempo de TV, palanques estaduais, imagens de obras de governo) e os ventos favoráveis a Marina (foco das atenções, o bom "recall" de 2010 e a ansiedade por uma terceira via).

E mais: Dilma pode bater em Aécio, Aécio pode atacar Dilma, Marina pode dizer poucas e boas contra os dois. Mas Dilma e Aécio não podem mirar Marina agora, porque teria efeito bumerangue.


Em ascensão, ela está livre para voar sem os estilingues dos adversários. Mas cuidado com os "aliados"!

19 de agosto de 2014 | N° 17895
FABRÍCIO CARPINEJAR

Cebolão e escapulário

Amo ganhar presente.

Finjo que não, mas amo ganhar presente.

Digo que não precisava, mas amo ganhar presente.

O presente de minha preferência é o usado, nenhuma novidade ou lançamento.

É receber algo de precioso do outro. Algo que o outro usava.

É uma herança em vida. É uma partilha em vida. É desafiar a morte distribuindo a própria existência.

Pode ser um anel, um livro, um casaco.

Não há maior demonstração de amor do que subtrair um objeto de seu cotidiano para premiar um amigo.

É repassar, além da lembrança, o nosso estilo.

É repassar, além da homenagem, a nossa estima.

Diferente daquele que compra um novo para não emprestar, é dar o que é seu, pois encontramos quem nos representa, encontramos a nossa extensão, encontramos quem cuidará de nossa fortuna simbólica como se fosse a gente. É atravessar o espelho muito mais do que uma porta.

Recebi de meu pai um cebolão. Um relógio antigo, azul fosco, com pulseira de metal, de marca Technos. Fui descobrir depois que era do avô, e que a peça foi repassada de geração a geração.

Tinha 12 anos. Ele tirou de repente da mão esquerda no meio do almoço. Mal repousou em meu braço magrela: enorme, pesado, brilhante. Mais parecia um relógio de parede, um cuco do pulso.

Lembro que fiquei tão feliz que fui jogar futebol naquela tarde com o bambolê das horas balançando em meu pulso. Talvez tenha confundido com uma braçadeira de capitão.

Meu pai, quando me ofereceu o que mais gostava de presente, estava afirmando:

– Tome, seu tempo é meu tempo. Você me continua. Você me segue.

Ele não alcançava apenas o relógio, e sim seu tempo. O tempo de suas convicções. O tempo de suas palavras. O tempo de suas recordações.

Carrego o relógio paterno com indisfarçável orgulho, assim como o escapulário de minha mãe.

Ela colocou em meu pescoço quando me formei em Jornalismo, corrente de oração que foi da avó e da bisavó. Há o rosto de Cristo num coração em chamas. É um pouco assustador, como tudo que envolve a fé.

É curioso concluir que o pai quis me dar seu tempo e a mãe quis me dar seu Deus.

O primeiro preocupado com meu futuro e a segunda preocupada com a minha salvação.

Até hoje meu pai sempre diz que pensa em mim e minha mãe sempre diz que reza por mim.

Relógio e escapulário formam minha família no meu corpo.


Nem somente casais têm alianças, mas também pais e filhos.

19 de agosto de 2014 | N° 17895
 LUIZ PAULO VASCONCELLOS

O 21º PORTO ALEGRE EM CENA

Não existe bom teatro sem uma boa dramaturgia, bons atores e bom público. Ou seja, não existe bom teatro sem um bom debate em torno de algo que nos emocione e nos estimule a pensar. Não existe bom teatro sem aqueles instrumentos que emprestam seus corpos, caras e vozes a pessoas que nunca existiram na realidade, mas que, transformados pela poesia em personagens, passam a existir com muito mais autenticidade que qualquer outro mortal que já tenha passado por aqui. Querem um exemplo? O Hamlet, de Shakespeare.

Que nunca existiu na realidade mas que até hoje representa a maior dúvida que todo ser humano carrega consigo, aquela que nem Freud, Marx ou Einstein conseguiram responder: ser ou não ser? E, finalmente, não existe bom teatro sem bons espectadores, aquela montoeira de gente quietinha ali no escuro da plateia, às vezes rindo, às vezes segurando o choro, infelizmente às vezes atendendo o celular, mas sempre absorvendo corpo e movimento, ação, conflito, impasse e solução que a peça teatral propõe. Pois tudo isso – e mais algumas coisas – é o que o Porto Alegre Em Cena oferece a nós gaúchos: Teatro. Bom Teatro. Com T maiúsculo.

Digam-me, estimados leitores, que outra cidade de todas as Américas teve a chance de assistir a espetáculos dirigidos por Peter Brook, Bob Wilson, Eimuntas Nekrosius, Antunes Filho, Patrice Chéreau, grupos como o Berliner Ensemble, o Tanztheater Wuppertal, de Pina Bausch, o Théâtre du Soleil, de Ariane Mnouchkine, o Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa, músicos como Philip Glass, Goran Bregovic, os melhores atores e atrizes, bailarinos e bailarinas, cantores e cantoras e muito mais nesses últimos 20 anos?

Podem ter certeza, só Porto Alegre. Sempre na primeira quinzena de setembro, nas melhores salas de espetáculos que a cidade tem, e a preços populares, graças aos patrocínios e apoios financeiros de empresas que já viraram emblemas do festival. O autor disso tudo? Luciano Alabarse, diretor e produtor, mas que se notabilizou pelo senso diplomático, por tenacidade, obstinação e sensibilidade na curadoria do festival.


E assim os nossos artistas e o nosso público, ao terem a chance de assistir ao que há de melhor no mundo, vão tendo a chance de ir melhorando, aprimorando, purificando, superando as etapas difíceis da profissão e da diversão, inclusive aquela básica e funesta dos caranguejos.

segunda-feira, agosto 18, 2014


18 de agosto de 2014 | N° 17894
ARTIGO

A INCERTEZA DOS FATOS POLÍTICOS

Os últimos dias não poderiam ser mais tristes para o país. Basta dizer que se finou um candidato à Presidência da República. Sem alarde, o governador Eduardo Campos renunciou ao governo de Pernambuco para concorrer à Presidência e só agora, nas vésperas de sua morte, duas aparições na TV, em entrevistas demoradas, suas qualidades se tornaram patentes; a precisão dos conceitos, objetividade e pertinência, simplicidade e espontaneidade na expressão de seus pensamentos, mostraram que o finado possuía qualidades para disputar o alto encargo;

Ora, seu súbito desaparecimento danificou o quadro esboçado visando à renovação presidencial, e considerando-se sua iminência a mudança ocorrida pode vir a ser decisiva no tocante à eleição do futuro presidente da República.

Outrossim, o país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem, quando a vida política de uma nação carece deles, não muitos, mas verdadeiros. Querendo ou não, esta a situação que, bem ou mal, terá de ser enfrentada em dias senão em horas.

O quadro existente é de uma candidata a vice-presidente da República cujo companheiro de chapa à Presidência deixou de existir pela lei da morte. Esta situação poderá ou deverá ser alterada.

O caso me faz lembrar o que foi ponderado aos parlamentares que desejavam aumentar o número de cadeiras na câmara dos comuns, que eram insuficientes, ao que Churchill observou que, se a maioria comparecesse, alguns ficariam de pé e o aperto criaria ambiente eletrizado que facilita as decisões. E o recinto dos comuns, que fora bombardeado, foi refeito como ele era.

Ao que parece, no entanto, cresce a possibilidade de a candidata a vice-presidente passar a candidata a presidente e, nas condições atuais, a hipótese poderia ser benfazeja.

Mais uma vez, o sistema presidencial, dos prazos fixos e predeterminados, revela seus inconvenientes, pois os fatos sociais, os políticos em particular, não são como os siderais, secularmente previsíveis. O país tem dúzias de partidos, o que importa em reconhecer que em verdade não os tem


Jurista, ministro aposentado do STF - PAULO BROSSARD

18 de agosto de 2014 | N° 17894
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

COMO ERA LINDA A MINHA BOMBA

A II Guerra Mundial teve muitas consequências, e uma das maiores foi a transformação dos Estados Unidos em superpotência global. Até ali, guerra era algo manual, mecânico ou químico. Uma bomba era algo que, ao explodir, tinha a decência de respeitar a lei da conservação das massas de Lavoisier. As mesmas moléculas do começo da história estavam lá no fim, mesmo que bem mais espalhadas por todo lado.

Uma bomba atômica opera no território assustador da física nuclear e converte em realidade prática a famosa equação de Einstein, aquela do E=mc2. Massa, mesmo pouca, que some e se transforma em energia ao se multiplicar pela velocidade da luz ao quadrado, vira energia que não acaba mais. E foi o que os americanos decidiram fazer, e fizeram, e isto no tempo da válvula e da régua de cálculo.

Manhattan mostra esta saga, a de milhares de pessoas levadas para o meio de um deserto, sem saber o que iriam fazer lá, mas sabendo que era coisa do capeta. A maior concentração de físicos do mundo, trabalhando duramente e gastando uma fortuna para a época, sem saber se iria dar certo, mas torcendo para chegarem lá antes de Hitler. Lembrando que os alemães tinham foguetes balísticos, os V-2. Se tivessem a bomba e pudessem jogá-la onde quisessem, babaus.

Essa enorme história é o enredo de Manhattan, e mais do que justifica que todo mundo cancele o que tiver para fazer e dê um jeito de assistir. O Projeto Manhattan não foi criado para ser dramaturgia, mas sim para destruir em uma escala nunca dantes navegada. A bomba foi criada, lançada, e efetivamente terminou com aquela guerra e nunca mais foi usada. Ainda.

O mundo que ela criou é este aqui, e existem Doutores Strangelove suficientes por aí para a gente lembrar que estabilidade não é exatamente o forte da Era Nuclear. Como é nele que vivemos, melhor ver Manhattan para saber como chegamos até ele, já que sair dele tem se mostrado muito, mas muito mais difícil do que sonhavam os cientistas e seus desejos de um mundo sem guerras. Vejam.

zhora.co/marcelocarneirocunha


O colunista escreve semanalmente no 2º Caderno

18 de agosto de 2014 | N° 17894
PAULO SANTANA

Campos e Zé Roberto

Os funerais de Eduardo Campos em Recife ontem foram ecoantes.

Uma multidão incalculável foi levar ao túmulo o homem que foi uma unanimidade estadual durante oito anos, era imbatível nas urnas.

Morreu praticamente jovem, tinha futuro político promissor e o fato de ser neto de Miguel Arraes catapultou-o lá em Pernambuco para um sucesso eleitoral invejável.

Era cedo ainda para ser candidato à Presidência da República, seu nome ainda não tinha repercussão nacional. Eu entendia que Marina Silva tinha de ser a candidata em seu lugar, mas por linhas tortas isso parece que agora vai acontecer.

E a morte de Eduardo Campos por sortilégio favorece mais ainda Marina do que se ele estivesse vivo.

O Datafolha publica hoje sua pesquisa sobre a Presidência da República, e Marina Silva vai aparecer, prejudicada pelo fato de que ainda não foi lançada oficialmente pelo PSB. Mesmo assim, a pesquisa pode dar a ideia de quanto ela mexerá com a eleição.

O Criciúma não é lá essas coisas, mas a vitória do Grêmio soou bem junto à torcida depois de três derrotas consecutivas.

O jogo demonstrou de sobejo a burrice do treinador anterior do Grêmio, que não escalava Zé Roberto de titular, o que era de uma obtusidade revoltante.

Zé Roberto não ter lugar neste time do Grêmio, como vinha não tendo, é uma evidência de que quem escalava o time não entende nada de futebol.

Foi preciso o Luiz Felipe ressuscitar das sombras de uma Copa do Mundo ultrajante para o Brasil e para ele, para reviver Zé Roberto na volta ao time titular.

É muita burrice e prova que gente que ganha fortunas em salários não entende nada, absolutamente nada, de futebol.

O central Rhodolfo foi monumental ontem. Fellipe Bastos também jogou muito bem, o mesmo com o lateral direito Matías Rodríguez.

É incrível, mas, depois de perder o Gre-Nal em sua estreia, Felipão parece agora arranjar melhor o time do Grêmio, embora o desfavoreça o fato de seu time ter de enfrentar logo o Cruzeiro, líder, em pleno Mineirão, na próxima partida.

Acho que não vai acontecer, mas, se por acaso Luiz Felipe conseguisse o milagre de vencer o Cruzeiro na próxima quinta-feira, essa vitória retumbaria nos círculos tricolores como se fosse um título nacional.

Ah, ia me esquecendo: Lucas Coelho e seu belo gol no pênalti que sofreu passa a ser titular absoluto. Barcos tem de ficar no banco.


E o Inter, hein? Vem vindo devagarinho e pode beliscar o título.

18 de agosto de 2014 | N° 17894
L. F. VERISSIMO

Uma ideia

Os americanos são supersticiosos, mas também são práticos. Treze é um número de azar em todo o mundo, mas só nos Estados Unidos fizeram algo a respeito: para anular os efeitos do número maldito, os prédios lá construídos – pelo menos os construídos até bem pouco tempo – não têm o 13º andar. No painel dos elevadores, a numeração pula do 12 para o 14. É claro que o 14 é o 13 que não ousa dizer seu nome, e mesmo com pseudônimo continua a ser o 13. Não interessa. Num hotel americano, por exemplo, você jamais ficará num andar azarento.

Dizem que não foi só a superstição que motivou a medida irracional. No começo da era dos arranha-céus, tinha muita gente se hospedando no 13º andar para se jogar pela janela. Resolveram a questão eliminando o andar – e a tentação. Os suicidas, aparentemente, não achavam muita graça em se atirar de um 14º, ainda mais um falso 14º. Resolvido o problema, só ficou o ridículo.

Mas, sei não. Mesmo se expondo ao ridículo, a gente talvez devesse começar a pensar em imitar o que os americanos fizeram com o 13º andar e cortar o mês de agosto dos nossos calendários. Passar de julho a setembro sem a etapa intermediária do mês do desgosto, com tantas tragédias no seu prontuário.

Está certo, a iniciativa complicaria nossas relações internacionais, encurtaria o ano, eliminaria aniversários e efemérides, traria um caos ainda maior ao nosso futebol e desalinharia todos os mapas astrais, mas o Brasil já é um país tão diferente dos outros, que a mudança do calendário seria apenas uma excentricidade a mais. E a mudança teria que ser imediata. Este agosto ainda tem, deixa ver, 14 dias para fazer das suas. Setembro já!

PAPO VOVÔ


Uma das funções de avô é acompanhar os programas de TV da neta, para poder fazer comentários inteligentes. Tenho cumprido meu papel, mas nem sempre entendo o que está acontecendo. Pensei que um dos personagens do “Gabriela Estrela” e a Gabriela fossem namorados, mas a Lucinda me corrigiu: “Não são namorados, são apenas amigos, vô”. Depois, disse a meu respeito, com um certo desdém: “Esse guri só pensa em romance”.

domingo, agosto 17, 2014

CRISTOVAM BUARQUE

Não desistiremos, Eduardo

O nome de Eduardo Campos não estará nas urnas, e isso fará uma dramática diferença nas expectativas de milhões de eleitores

A primeira notícia foi a de que os ventos de agosto derrubaram o avião que levava Eduardo Campos e outras seis pessoas, apagaram a chama de uma esperança para o futuro e espalharam perdas pelo Brasil.

A primeira perda foi familiar. A dor da mãe, da avó, da mulher, dos filhos, do irmão e dos parentes de Eduardo. Para estes não é preciso tinta escrita, só lágrimas.

A segunda perda é dos amigos e conhecidos. Era impossível estar junto de Eduardo e não ter uma razão para deslumbrar-se com sua simpatia e suas histórias sobre a cultura nordestina e a vida política. Ao saber da notícia de sua morte, quem o conheceu sentiu um vazio pessoal, sem contar sua liderança política.

Ele era um líder político, e a terceira perda é a da esperança que representava para seu povo, sua pátria. Eduardo carregava a esperança de uma alternativa à polarização que domina a política brasileira nas últimas décadas.

Mesmo reconhecendo qualidades no PT e no PSDB, ele conseguia ser diferente dos dois blocos que dominam a política nacional.

Era a alternativa viável à mesmice da política atual, em que a discordância ideológica foi substituída pela raiva mútua que impede a capacidade de dialogar. Era capaz de conversar com todos os lados, sem perder a firmeza de suas posições. Como dissera o poeta Ferreira Gullar sobre Gregório Bezerra, "era feito de ferro e de flor".

A quarta perda é a da chance de mudança nos rumos do país para atender ao desejo coletivo por uma alternativa que supere o esgotamento da democracia sem ética; o sistema de transferência de renda que não transforma o modelo excludente; uma estabilidade monetária claudicante; um crescimento econômico interrompido.

Sem propor rupturas, Eduardo defendia uma inflexão no rumo do Brasil para consolidar as bases da estabilidade monetária; utilizar a educação integral como porta de saída para os beneficiados pelo Bolsa Família; e criar os instrumentos necessários para retomar o crescimento de uma economia moderna baseada no conhecimento científico e tecnológico. Ele era firme e radical em seu compromisso com uma reforma política, capaz de robustecer nossa degradada democracia.

A quinta perda é a do exemplo, da coerência sem intransigência e da coragem de servir a um projeto político e dele se afastar quando percebeu que o modelo perdeu seu vigor transformador, abandonou seus princípios e deixou de atender aos anseios da nação que pede mudanças.

A sexta perda é do futuro. Já sentimos perdas com as mortes de vários líderes: Getúlio Vargas, Leonel Brizola, Tancredo Neves, Miguel Arraes, Ulysses Guimarães --mas eram líderes que já tinham dado a contribuição que o país esperava deles. Aos 49 anos, Eduardo estava começando a saltar do que fez por Pernambuco para fazer para o Brasil inteiro. Adiante estava o futuro, dele e do país.

A sétima perda é eleitoral. O nome de Eduardo Campos não estará nas urnas, e isso fará uma dramática diferença nas expectativas de milhões de eleitores que viam nele o candidato da novidade, da reforma política, da afirmação da República sobre os partidos, do tratamento do patrimônio público compromissado com o povo, o Estado e a nação; da construção de um modelo econômico sem exclusão; que esperavam dele utilizar todos os recursos federais necessários para fazer a revolução na educação que o país adia há séculos.

Fica, porém, o legado e a chama que um vento de agosto não é capaz de apagar. Até porque, na véspera da sua morte, as últimas palavras públicas de Eduardo foram: "Não desistam do Brasil".

CRISTOVAM BUARQUE, 70, é senador pelo PDT-DF e professor da Universidade de Brasília


ELIANE CANTANHÊDE

Não ao voto nulo!

BRASÍLIA - As manifestações de junho de 2013 foram uma explosão de insatisfações. O acidente do Cessna 560 XL foi uma explosão que repõe as coisas no devido lugar.

A grande maioria dos brasileiros ou não conhecia ou tinha uma vaga ideia de quem era Eduardo Campos, este que aliados, adversários e jornalistas, antes tão críticos, agora descrevem (descrevemos) como um político excepcional e uma pessoa afável, virtuosa, de vida exemplar.

Em algum ponto entre a paixão destrutiva da eleição e a comoção endeusadora da morte, se encaixa o candidato Campos, com seus defeitos, suas qualidades e suas potencialidades. E é exatamente nesse ponto que devemos também ajustar os candidatos à nossa disposição, esses que tentam sobreviver às pressões deletérias pré-eleitorais.

O governo produz uma profusão de dados preocupantes na economia (portanto, para o futuro), mas Dilma é uma mulher honesta, bem intencionada, empenhada fazer o que julga melhor para o país.

O jeitão alegre, de festas e noitadas, gera desconfiança em relação a Aécio Neves, mas, tal como Campos, seu avô fez história e seus dois governos em Minas estão no topo dos mais bem avaliados do país.

Eduardo Jorge (PV) tem ótimos serviços prestados à saúde e à mulher. Luciana Genro (PSOL) tem o frescor dos idealistas. Até o Pastor Everaldo (PSC), goste-se ou não, representa um forte segmento.

E vem aí Marina Silva, com um carimbo conservador, mas a promessa de um "novo jeito de fazer política" e de um país equilibrado entre o crescimento econômico e a distribuição mais equitativa do bem-estar. Se preferirem, entre PSDB e PT.

A prateleira de opções é rica, variada e expõe os melhores produtos do mercado político. Depende de você, eleitor, escolher o melhor para o país e o futuro. A crítica é construtiva, a descrença é estéril.

Como pregou Campos, "não desista do Brasil!". Não ao voto nulo!


Folha - 17/08/2014  02h00

O PR-AFA de Eduardo Campos acertou Dilma

A conta é simples: em agosto do ano passado, antes de ter o registro de seu Rede negado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Marina Silva tinha 26% das intenções de voto na pesquisa do Datafolha. Tendo-se abrigado no PSB, acabou numa chapa que era encabeçada por Eduardo Campos. Há um mês, tinham 8%.

Os números de uma nova pesquisa do Datafolha estarão nas ruas nos próximos dias. Partindo-se dos 8%, somando-se o efeito da comoção provocada pelo acidente do jatinho PR-AFA, ela poderá surpreender. Para que Dilma saia incólume, qualquer ponto percentual que vá para Marina precisará sair do acervo de Aécio Neves, e essa hipótese é absurda. Dilma certamente perde quando fortalece-se a possibilidade de um segundo turno. Se Aécio Neves perde algo com a nova situação, é uma dúvida.

Manejando-se apenas percentagens vai-se a lugar nenhum. Falta saber o que Marina proporá para transformar preferências em votos. No primeiro turno de 2010 ela teve cerca de 20 milhões de votos (19,33%). Até agora, o programa de sua chapa foi ralo e confuso. Fala em "eixos programáticos", "brasileiros socialistas e sustentabilistas", "borda de desfavorecidos", "democracia de alta intensidade", em "ampliar a dimensão dos controles ex post frente à primazia dos controles ex ante". Propõe plebiscitos e "um novo Estado". Isso pode dar em qualquer coisa.

Com dois minutos no programa eleitoral gratuito contra 11 de Dilma e quatro de Aécio Neves, só as redes sociais e a internet poderão socorrê-la. Tomara que isso aconteça e que ela ponha carne no feijão. A ideia de uma candidata a líder espiritual reconforta o eleitor desencantado com a polaridade PSDB-PT, com seus mensalões mineiro e federal. Para o primeiro turno isso é um bálsamo. Para o segundo, uma aventura.

TIRO NA DOUTORA

Na quinta-feira o presidente do PSB, Roberto Amaral, anunciou que o partido só decidiria a substituição de Eduardo Campos depois do seu sepultamento.

O PSB é soberano, mas, se alguém no Palácio do Planalto acreditou que, derrubando-se Marina Silva dentro da grande área ajuda-se a doutora Dilma, enganou-se.

O efeito da jogada seria um pênalti contra a meta de Dilma. Quem derruba jogador sempre espera que o juiz não veja o lance. No caso, os juízes serão os eleitores, sobretudo os indecisos ou parte daqueles que pensavam em anular o voto.

DILMÊS

Levando um texto escrito e falando da tribuna do Palácio do Planalto, a doutora Dilma tratou do desaparecimento de Eduardo Campos e disse o seguinte:

"Uma morte tirou a vida de um jovem político promissor".

JOSÉ DIRCEU

Pelas suas contas, o comissário José Dirceu acredita que em outubro deixará o regime semiaberto, dormindo em casa.

Felizmente, tanto ele como José Genoino abandonaram o comportamento teatral que exibiram no dia em que se apresentaram à prisão. Ambos de punho cerrado, e Genoino envolto numa cortina que servia-lhe de manto para sabe-se lá o quê.

FRITURA DE OBAMA

Outro dia Hillary Clinton deu uma entrevista atirando na testa do companheiro Barack Obama.

O casal Clinton mostrou que pretende esfolá-lo. Se Hillary acerta nas testas, Bill corta jugulares. Em novembro realizam-se eleições parlamentares e tudo indica que os republicanos mantêm a maioria na Câmara e arriscam levar também o Senado.

Os Clinton querem distância desse legado.

BOMBAS ATÔMICAS

Começou a contagem regressiva para os 70 anos das manhãs em que os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas sobre duas cidades japonesas, em agosto de 1945.

É uma grande história diplomática, industrial, tecnológica e militar. Está na rede o livro "Hiroshima Nagasaki - The Real Story of the Atomic Bombings" ("A História Real dos Bombardeios Atômicos"), do jornalista australiano Paul Ham. Sai por US$ 16,99. Cada aspecto da carnificina vale um livro, mas Ham conseguiu juntar todos num só. Era um tempo em que o presidente da Dupont relutava em participar da produção da bomba. Tendo aceitado construir a usina que produziria o plutônio que explodiu em Nagasaki, estabeleceu que a empresa não ganharia um tostão com isso.

Narrativa emocionante, sustenta que o uso das bombas em cima de duas cidades foi uma demasia. Coisas da vida. Passados 70 anos, muita gente pensa assim. Em 1945 ocorria o contrário, e a tardia rendição do Japão foi festejada em todo o mundo.

RECORDAR É VIVER

Rompimentos e alianças políticas são coisas fugazes, mas Eduardo Campos, falando da sala em que seu avô recebeu os militares que o prenderam no dia 1º de abril de 1964, informou a Lula que não pretendia mais ter relações políticas com ele.

ESPIRAL

O ministro Ricardo Lewandowski assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal e imediatamente vestiu o manto de presidente do sindicato dos magistrados.

Defendeu um aumento salarial para os juízes usando uma expressão capaz de assombrar Lula e a doutora Dilma. Segundo ele, há no Brasil uma "espiral inflacionária".

VIERALVES, O VANDERBILT DA UERJ

Em plena campanha eleitoral, caiu em cima da candidata a deputada federal Benedita da Silva a denúncia de que em 2010 dois de seus filhos, funcionários da Câmara Municipal desde 1987, foram pendurados na folha de pagamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Faturaram R$ 143 mil.

À primeira vista, isso faz parte do tiroteio da campanha. Olhando-se bem, há meses a comissária Benedita, seus dois filhos e mais o reitor da Uerj, companheiro Ricardo Vieiralves de Castro, sabiam que estavam encrencados. O caso estourou agora porque não foi esclarecido direito enquanto era investigado pelo Ministério Público.

Os dois filhos da deputada ficaram lotados no gabinete de Vieiralves. Diligências revelaram que eles lá não iam e em seus depoimentos deram explicações contraditórias a respeito de serviço que faziam. Os dois, mais Vieralves, tornaram-se réus na 1ª Vara da Fazenda Pública, acusados de improbidade administrativa. Benedita, não.

Filhos de maganos pendurando-se em Câmaras Municipais e transferindo-se para outras paragens são costumes antigos. Quando esse abrigo é uma universidade, dá pena. Quando nela é o gabinete do reitor, dá raiva. Desde que o processo foi aberto a Uerj manteve solene silêncio.


Em busca da posição da universidade, no dia 12 os repórteres Cassio Bruno e Fábio Vasconcelos enviaram-lhe uma mensagem com perguntas. Passados dois dias depois, Vieiralves não se dignara a responder. O doutor pegou a linha de Alice Vanderbilt, a milionária americana que entrou no carro, disse o nome da dona da casa onde ia jantar, percebeu que o motorista tomou um caminho errado, mas ficou calada. Ela não falava com criados. Com uma diferença, madame Vanderbilt cuidava do dinheiro dela. Vieralves mexeu com dinheiro da Viúva.

17 de agosto de 2014 | N° 17893
COMPORTAMENTO A FEBRE DO COACHING

Patricia buscou sex coach

A advogada Patricia Moura, 34 anos, ficava tão encucada com o sexo que não se permitia o prazer. Sofria por não aproveitar todo o potencial de intimidade com o parceiro Marco Marczak, 42. Juntos havia quatro anos, eles procuraram ajuda de uma sex coach em 2013. No início, Patricia fez sessões individuais para trabalhar a própria sexualidade, sempre no consultório da sua treinadora. Quando necessário, ultrapassava as cortinas transparentes que separam a sala de conversas dos colchões com lençóis brancos estirados no chão para exercícios de autoconhecimento propostos pela coach.

– Eu tinha vergonha do meu corpo e culpa em relação ao sexo – confessa Patricia, que contratou um pacote de três encontros. – Hoje enxergo com mais naturalidade, sem o peso imposto pela sociedade, pela Igreja.

Os efeitos se estenderam para a relação. O casal, que vivia entre idas e vindas, desde então passou a morar junto. Para ela, Marco tornou-se mais amoroso. Para ele, Patricia passou a expressar mais suas vontades.

– O homem cresce com uma visão distorcida de que a mulher tem que suprir todas as fantasias dele – comenta Marco. – Consegui colocar a Patricia fora desse contexto, a nossa comunicação melhorou e saiu um peso das nossas costas.

– Ainda temos ideia de contos de fada, de que tudo se resolve naturalmente, que o outro vai adivinhar as nossas necessidades, mas isso não acontece de forma romântica. Aí vem a frustração, e é nesse momento que o coach entra – afirma a sex coach Paula Fernanda Andreazza.

Ela diz ser mais procurada pelos perfeccionistas do que pelos “problemáticos”:

– Querem aprender a expandir suas experiências sexuais, serem melhores do que já são.

Paula conta que a diferença entre seu trabalho e o de um terapeuta sexual é que esse último foca no passado para compreender a situação, enquanto ela busca ensinar, na prática, o que fazer e ajuda a planejar o futuro. A sex coach não se intromete corporalmente na relação do casal durante a consulta, mas, quando necessário, a observação faz parte do treinamento. Já teve quem pedisse para ela assistir à transa dos dois e apontar pontos a aprimorar.