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segunda-feira, junho 25, 2018


25 DE JUNHO DE 2018
CLÓVIS MALTA

Viver de bolso vazio


Quando o dinheiro sobra, perde-se o entendimento do que seja viver em dificuldade. Não adianta compreender as agruras alheias em tese. É no cotidiano de quem leva a vida de bolso vazio que a miséria se revela, sem nenhum charme.

São Petersburgo, onde brasileiros saíram do sufoco para a euforia já nos acréscimos de Brasil e Costa Rica, é um símbolo ao mesmo tempo majestoso e cruel de iniquidade. Nikolai Gógol usou-a como cenário de O Capote, clássico da literatura russa. No texto, um servidor humilde é informado pelo alfaiate de que nada mais pode ser feito pelo seu velho sobretudo. De tão puído, o tecido se rompeu. Desfez-se como a alegria de quem, na Rússia czarista ou no Brasil de hoje, se dá conta da total falta de nexo entre o custo de se vestir e os ganhos do trabalho.

O personagem do conto vai a um inferno de penúrias para voltar às ruas de casaco novo - e o perde num assalto. Resignado, confia na ajuda da polícia. Mas o que encontra pela frente é uma burocracia hipócrita e insensível ao cotidiano dos cidadãos. Como a obra vai muito além, essas informações não podem ser consideradas spoilers. Vale, pois, leitura ou releitura para quem busca entender a condição humana.

Alguma semelhança com a nossa realidade? Aquele parente que, em todas as famílias, vive de pedir emprestado deixou há muito tempo de ser o único a nos inquietar. Em todas as esquinas, pessoas escancaram hoje um cartaz com a palavra "Fome". Muitas delas nunca tiveram trabalho. A maioria perdeu o emprego. Há ainda quem alegue que o salário é fugaz, e o mês, interminável. A palavra mágica é dinheiro, money, money, money. Aquilo que faz o mundo girar, como em Cabaret, antigo musical sobre outro período de miséria - o da Alemanha à beira do nazismo.

Como em qualquer outra época de nossa dita civilização, dinheiro existe, mas está nas mãos de poucos. Até mesmo na Rússia e na Ucrânia, que reivindicam a nacionalidade de Nikolai Gógol, houve uma tentativa de atenuar as diferenças de renda quando ainda faziam parte da União Soviética. Adivinhe quem venceu? A casta detentora do poder se fortaleceu mais ainda.

Por que uns poucos têm casacos para cada dia do mês no guarda-roupa e, outros tantos, nenhum? Por que, para alguns, adquirir o necessário é rotina e, para os demais, algo que não se realiza nem em sonho?

Quem carrega dinheiro em malas nem imagina como uma moeda pode transformar água em vinho entre necessitados. Quem joga comida fora ignora o real significado de uma fatia de pão. Quem recebe auxílio-moradia bancado pelos contribuintes desconhece o que seja dormir e acordar na rua.

Muita gente assume uma vida simples. Há quem opte por sobreviver com pouco ou nenhum dinheiro. É bonito, mas diferente.

Viver sem o mínimo necessário, por falta de opções, é um padecimento eterno. É como se uns poucos fossem donos do mundo. E só deixarão de pensar assim ao se constatarem sem chão, sem escada. Pois aí, como nos repete o Mantra entoado por Nando Reis, o coração deles... acordará.

Quando os endinheirados entenderem o que é uma vida de privação, o país será finalmente outro, e de todos.

*Até o dia 16 de julho, David Coimbra escreve no Jornal da Copa, encartado nesta edição.

CLÓVIS MALTA


25 DE JUNHO DE 2018
PERIMETRAL

DO SONHO À FESTA


Está quase tudo pronto: salão de festas reservado, vestidos escolhidos, convites enviados e coreografia acertada. Mas essa não será uma festa de 15 anos qualquer. Feita apenas com doações, a cerimônia marcada para sábado realiza o sonho de duas meninas que mal podem esperar para receber amigos e familiares no Salão Versailles, no Teresópolis Tênis Clube, na Capital.

- Sinto que vai ser a noite mais incrível da minha vida - diz Beatriz Veronez, umas das debutantes.

Promovida pelo projeto voluntário Anjas de Batom, a festa também celebra o primeiro ano da iniciativa, que promove eventos mensais em instituições de caridade e para moradores de rua. A ideia de uma festa solidária, conta uma das fundadoras do projeto, Vanessa Rodrigues Silveira, era ajudar alguém cuja vida tivesse deixado distante o sonho de debutar:

- Queríamos ajudar uma das tantas meninas que sonham com isso. Era para ser uma festinha embaixo de uma goiabeira, porque não tínhamos recursos, mas agora vai ser com tudo a que elas têm direito.

As Anjas postaram nas redes sociais que realizariam o sonho de alguém. Selecionariam 10 cartas de aniversariantes, levando em conta a história de vida e o desempenho escolar. A sorteada foi Kateline Eduarda Almeida. E Beatriz? Foi escolhida antes mesmo do sorteio: a carta enviada por sua irmã, Vitória, se destacou entre as mais de cem recebidas. É que Beatriz já trilhou um longo caminho. Perdeu a mãe, vítima de uma doença, aos três anos, a avó materna, aos oito e o pai, para o câncer, aos 12. Hoje é criada pela madrasta, Ana, a quem trata como mãe desde criança.

Para chegar no festão, Vanessa conta que recolheu doações de pouco em pouco, e de todos os tipos. Uma ótica da Capital doou dois anéis, enquanto outros doaram itens como um pacote de balões.

EDITORIA DE PORTO ALEGRE*

25 DE JUNHO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

SINAL PROMISSOR


Os pré-candidatos presidenciais poderiam contribuir para reduzir ainda mais o número de pedidos de recuperação judicial se fossem mais claros em seus planos para a recuperação econômica

A particularidade de, no Rio Grande do Sul, o número de empresas que vêm recorrendo aos tribunais para tentar reequilibrar suas finanças ter diminuído, enquanto aumenta no Brasil, é um fato promissor para o Estado. Ainda mais que, outra vez, os sinais de alento vêm da agropecuária. Historicamente, o agronegócio tem contribuído para atenuar o impacto de crises de âmbito nacional no Estado, pois seus resultados positivos costumam se irradiar para o ambiente de negócios de maneira geral. E essa é mais uma razão para que o setor primário receba sempre o máximo de atenção por parte de políticas públicas.

No caso específico das recuperações judiciais - por meio das quais empresas em dificuldades financeiras buscam fôlego para tentar escapar à falência, mantendo a produção e os empregos -, o Estado tem razões específicas para a redução. Uma delas é que empresas de maior porte já dão sinais de reativação, mesmo num cenário desolador em que a estimativa inicial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano no país já caiu pela metade. Ainda assim, a queda de 21% no número de pedidos de recuperação judicial no Estado, de janeiro a maio de 2018, em comparação com igual período do ano passado, contrasta com a alta de 13,9% em âmbito nacional.

Por isso, seria importante que, mesmo num ano complicado como o de 2018, o Congresso ainda conseguisse examinar e aprovar mudanças para facilitar o cumprimento da lei que trata de falências e recuperações judiciais, que é de 2005. Alterações adequadas poderiam permitir maior agilidade nos processos, evitando que as empresas fiquem com suas atividades paralisadas por muito tempo. Instituições privadas com planos de recuperação travados, como a que opera com estaleiro em Rio Grande, por exemplo, acabam provocando ainda mais problemas sociais, principalmente na área do emprego.

Os pré-candidatos presidenciais poderiam contribuir para reduzir ainda mais o número de pedidos de recuperação judicial se fossem mais claros em seus planos para a recuperação econômica. Até agora, a sociedade só tem ouvido evasivas nessa área, o que contribui para gerar ainda mais incertezas.

Mesmo desacreditado e com pouca margem política para ação devido a denúncias de irregularidades, o atual governo também dispõe de medidas ao seu alcance. Uma saída seria apostar nas reformas e se esforçar para que vantagens como a de o país contar hoje com a menor taxa Selic já registrada pelo Banco Central possam beneficiar, de fato, quem precisa se socorrer dos bancos.

OPINIÃO DA RBS


25 DE JUNHO DE 2018
MUNDO

Mulheres assumem o volante na Arábia Saudita

A proibição a que mulheres possam dirigir na Arábia Saudita chegou ao fim ontem, e as novas motoristas, emocionadas e orgulhosas, começaram a circular pela capital, Riad.

O país é um dos mais conservadores e religiosos do mundo. Até ontem, se uma mulher desafiasse a proibição, poderia ser condenada a anos de prisão, multa e chibatadas.

A medida faz parte das reformas liberalizantes nos costumes implementada pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman. O argumento dos conservadores era de que, ao volante, as sauditas estariam mais expostas a assédio sexual e ao "pecado". As críticas arrefeceram desde que Bin Salman, 32 anos, anunciou o fim do veto, em setembro. Desde então, várias fizeram autoescola. A nova lei também passa a permitir que elas conduzam motocicletas.

Assim que a proibição foi levantada, várias mulheres assumiram o volante nas primeiras horas de ontem para percorrer as iluminadas avenidas da capital e de outras cidades do reino. Algumas colocaram música no volume máximo.

- É um momento histórico para todas as sauditas - disse Sabika Al Dosari, apresentadora de TV, antes de cruzar a fronteira com o Bahrein, a bordo de um sedan.

Logo após a meia-noite, Samar Almogren girou a chave na ignição, um momento inesquecível para ela, que já havia dirigido no Exterior, mas não em seu país.

- Sinto um calafrio. Estar ao volante depois de anos no assento traseiro é inacreditável. Agora a responsabilidade é minha, e estou mais pronta do que nunca para assumi-la - afirmou Samar, vestida toda de branco.

Alguns homens também comemoraram o momento.

- É uma grande conquista - declarou um príncipe saudita, o bilionário Al Walid bin Talal, em um vídeo com sua filha Reem dirigindo uma 4x4, com suas netas aplaudindo no banco traseiro.

A proibição era símbolo do status de inferioridade dado às mulheres no reino. A medida permitirá reduzir sua dependência de motoristas privados ou dos homens de sua família. Muitas compartilharam nas redes sociais planos para este momento. Afirmam que levarão suas mães para tomar café ou sorvete, uma experiência banal para o resto do mundo, mas excepcional na Arábia Saudita. Do ponto de vista econômico, o fim da proibição pode estimular o emprego entre as mulheres.

Segundo uma estimativa da Bloomberg, somaria US$ 90 bilhões para a economia até 2030. Cerca de 3 milhões de mulheres poderem obter a carteira de motorista e começar a dirigir até 2020, segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers.

25 DE JUNHO DE 2018
L.F. VERISSIMO

Damir


Teve um juiz que deu um pênalti no primeiro minuto de uma decisão de Copa do Mundo, não me lembro quando. O juiz virou uma legenda. Parece que foi embalsamado em vida e está até hoje em exposição na sede da Fifa, como exemplo de coragem e autoconfiança para os outros. Mas nenhum outro juiz, que eu saiba, tinha seguido seu exemplo - até o recente jogo Japão x Colômbia, na Copa da Rússia. Ninguém dava pênalti ou expulsava jogador em começo de partida. 

Existia um período tácito de tolerância no qual um time aproveitava para impor sua autoridade sobre o outro em campo, pois o futebol, como se sabe, é 70 por cento intimidação. Os jogadores tinham uma licença para matar, ou pelo menos aterrorizar, o adversário nos primeiros minutos do jogo, sem risco de expulsão.

(Novos governos costumam merecer um privilégio parecido. Têm um período, que se convencionou ser de cem dias, para fazerem o que quiserem antes que comecem os protestos, as críticas da oposição - enfim, a vida normal. Nos seus cem dias de franquia, o novo governo pode propor medidas impopulares e lançar projetos polêmicos sem temer a reação do Congresso ou do público. Ou seja, entrar como um Tonhão no calcanhar do centroavante sem medo do apito do juiz.)

Damir Skomina, guarde este nome. Foi o juiz do jogo Japão x Colômbia. Um esloveno. Deram pouco destaque ao feito do Damir, na minha opinião o herói desta Copa até agora, junto com o Cristiano Ronaldo. Chutaram contra o gol da Colômbia e o Carlos Sánchez desviou a bola com a mão. Damir deu o pênalti. Fez mais, expulsou o Carlos Sánchez. 

O jogo tinha começado havia apenas dois minutos, mas Damir não hesitou. Apitou com a convicção dos puros de espírito. Os jogadores da Colômbia nem o cercaram para protestar. Cercaram, boquiabertos, para admirá-lo. Nunca tinham visto nada parecido. Por pouco não pediram seu autógrafo.

O Japão ganhou da Colômbia, apenas uma das surpresas da Copa, que incluiriam a vitória do México sobre a Alemanha, para encher nossos corações latino-americanos, a vitória de Senegal sobre a Polônia e o triste papel da Argentina, levando três da Croácia. Estou escrevendo antes do Brasil x Costa Rica. Acho que chega de surpresas.

L.F. VERISSIMO

sábado, junho 23, 2018


23 DE JUNHO DE 2018
LYA LUFT

Outro tema


Eu realmente, na hora de escrever a coluna passada com número 1, indicando que este seria o 2, pensava em retomar e alongar o tema "autoridade", pois, naquele seminário de Direito de Família em Gramado, destacou-se a preocupação dos presentes com a questão da juventude e da infância, relativo a esse assunto. Mas as coisas acontecem, umas se sobrepõem às outras, ao menos momentaneamente, e fiquei dominada por dois outros assuntos:

1. O horror que se desenrola em fronteiras americanas com crianças e adolescentes separados de seus pais à moda Auschwitz (perdoem se exagero, mas considero isso apenas um começo... com os States saindo da Comissão de Direitos Humanos da ONU), porque Mr. Trump quer dar uma boa lição nos imigrantes ilegais ou refugiados. São famílias que tudo deixaram na esperança de uma acolhida humana em uma nova pátria. Como milhões fizeram décadas e séculos atrás, construindo o país mais poderoso do mundo. Mas, para o atual presidente, imigrantes em geral são predadores, criminosos, estupradores e, segundo um dos seus últimos nobres tuítes, "vão empestar" o país.

Uma dolorosa, pungente gravação mostrou ao mundo o desespero dessas crianças, clamando, urrando pelos pais. Senti uma profunda, triste vergonha de ser humana ao assistir a essa desgraça. Senti imensamente que muita gente por lá ou aqui ainda ache que isso é necessário e legal. (Há indícios de que a desumanidade com as crianças seria trocada por votos em favor do "muro" entre EUA e México...)

2. Meu segundo susto - nem sei por que essas coisas entre nós ainda me espantam - foi que vários senhores deputados federais, alguns conhecidos nossos, assinaram um importante documento liberando denunciados ou condenados da Lava-Jato, enfraquecendo a própria, para o mal de todos nós, sem saber o que estavam assinando!!! "Não prestei atenção...", "Nem li direito...", "Fiz o que me pediam e nem me dei conta do que era...". Foram as desculpas quando apanhados em flagrante. Outro ainda disse com franqueza "Se for pra prejudicar fulano, eu assino qualquer coisa".

Representantes do povo, muitas vezes reeleitos por nós, assinam em nosso nome documentos importantes. Apanhados, sem corar de vergonha, declaram com simplicidade que assinaram sem saber. Botaram num papel qualquer o seu nome, com o qual nos representam, portanto assinaram por nós, que de nada sabíamos. Assim caminha o Brasil. Assim chegamos onde estamos.

Hoje perdi a graça de escrever sobre autoridade em família, em escola, qualquer grupo, e nação. Ia comentar também um dos itens apresentados no belo congresso, a sexualização precoce da meninada, com pais perplexos, intimidados pela autoridade chamada "coerção social" - que não vem de uma pessoa, mas do grupo em que vivemos. Força insidiosa que ninguém assina, mas que diz, por exemplo, que não nascemos com gêneros definidos, que meninos devem brincar com bonecas e meninas com carrinhos e outras insanidades, que nada têm a ver com respeito a homossexuais, transgêneros e outros. Talvez o sagrado bom senso possa salvar a meninada: vou falar nisso algum dia.

A bizarra e cruel atitude do governo americano com famílias desesperadas e o descaso de ditos líderes com a importância de seu próprio nome pesaram mais sobre mim. E isso quis dividir com meus leitores.

LYA LUFT

23 DE JUNHO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Amores inocentes

Do primeiro, não lembro o nome. Era mais baixo que eu, mais moço que eu, e loiro. Usava uma camiseta listrada e um short. Nosso amor durou eternos 10 minutos. Eu estava brincando sozinha no pátio interno do edifício, a empregada me cuidando da janela do primeiro andar. Ele se aproximou e disse que tinha uma lesma nojenta na parede do prédio, perguntou se eu queria ver, eu não queria, mas ele estava falando comigo pela primeira vez e eu aceitaria ir até o fim do mundo com ele. Fomos. 

Era uma parede lateral, escondida, meu coração começou a bater. Chegando lá, não tinha lesma, não tinha ninguém. Acho que ela foi embora, ele disse, e eu nem estranhei a ligeireza da lesma, não pensava em mais nada, apenas que ele havia me levado para um lugar em que ninguém podia nos ver. Ali ficamos. Eu encostada contra a parede. Ele encostado contra a parede também, ao meu lado. Os braços encostando um no outro. Acho que não foram 10 minutos, foram menos, mas aquela tarde nunca acabou.

Do segundo, lembro que era mais alto que eu, mais velho que eu, e não esqueci o nome. Nossos pais eram amigos e nos levaram para a praia. Eu estava saindo do mar, ele entrando. Ele passou por mim, mas não foi para o fundo. Eu saí do mar, mas sentei na areia. Ele deu um mergulho, voltou e perguntou se eu conhecia uma música. Eu estava de maiô vermelho, ele de calção verde-musgo. Eu conhecia a música. Era minha música preferida, uma música em inglês que eu não entendia nem uma palavra. "Sabe o que significa o título?", ele perguntou? Eu achava que sabia, mas disse que não. Eu nunca havia conversado com um menino desconhecido. Estava nublado, mas nem parecia.

Do terceiro, lembro que eu tinha mais de 10, quase mocinha. Ele bem mais velho, uns 12. Me tirou pra dançar numa reunião dançante, eu de blusa preta e saia amarela, ele de camisa branca bem passada. Eu coloquei meus braços sobre o ombro dele, ele colocou os dele na minha cintura. Tocava um Barry White que começava lento, mas no meio a música ficava animada. Mesmo assim, ele não tirou a mão da minha cintura. Os outros casais dançavam separados, mas ele me abraçou um pouquinho mais. Eu rocei com minha mão num cacho dele. Que vergonha, eu pensei. Está todo mundo olhando. Abaixei a cabeça e sorri. Como estou sorrindo agora, recordando.

Depois a gente cresce e o amor apresenta sua lista de exigências. Adequações. Palavras certas. Compatibilidade. Discussão de relação. Salários. Planos. Ciúmes. Projeções. Contrato de união estável. Filhos. Bodas. Traumas. Expectativas. O meu ex, a sua. Terapia. Amantes. Lágrimas. Dor. Volta pra mim. Vai embora. Pensão. Cansaço. Destino.

Queria reencontrar o garoto que encostou o braço dele no meu quando fomos atrás de uma lesma que não existia. Dizer ao garoto da praia que eu gosto daquela música até hoje. Acarinhar a atual calvície do garoto dos cachos. E segurar a mim mesma pela cintura, me conduzindo de volta àquela inocência, àquele encantamento e àquele desejo que bastavam.

MARTHA MEDEIROS


23 DE JUNHO DE 2018
PIANGERS

Quase uma obsessão

Eu já tinha tido oportunidade de segurar alguns, de outras pessoas, antes de ter o meu. E todas as pessoas que me mostravam os seus estavam deslumbradas. É incrível!, elas diziam. Você só vai entender mesmo quando tiver, garantiam. Do outro lado, quem não tem desconfia. A gente nunca imagina que seja tão deslumbrante, tão hipnotizador. A gente só entende mesmo quando chega o nosso. É transformador.

Como podem ter inventado alguma coisa tão perfeita? Você passa a cuidar dele com cuidado e carinho. Vai desenvolvendo uma dependência: você quer ele sempre por perto. Em qualquer evento social, você sempre irá se preocupar, dando olhadinhas pra ver se está tudo bem. Se ele desaparece do seu campo de visão, angústia. Perdê-lo, mesmo que seja por um segundo, fará seu coração disparar.

Qualquer coisa é motivo pra olhá-lo, deslumbrado. Você vai esquecendo sua vida. O trabalho não é mais tão importante. Você se torna um com ele. O que é importante pra ele é importante pra você. Ele se torna sua prioridade. Qualquer tempo de estudo será fracionado entre ler um pouco, olhar pra ele, ler um pouco, olhar pra ele. É provável que você passe mais tempo olhando pra ele do que estudando.

E não são só os estudos. Na verdade, depois que ele chega você não consegue fazer mais nada. Ele se torna a coisa mais importante. Ele irá sempre tentar chamar atenção. Se estiverem juntos (e você vai querer estar sempre junto com ele), irá gritar, fazer barulho, tudo pra chamar sua atenção. E você o olhará. E, quando você está com ele, parece que não existe mais nada ao seu redor. 

E, eu já vi isso acontecer, quando você olha pra ele, você sorri. Algo dispara dentro de você. Um prazer, uma alegria. Uma felicidade de tê-lo. De olhar pra ele e se sentir conectado. Ele será sua razão de viver. Crescendo, todos os anos. Imprescindível, inexplicável. Você não consegue mais se imaginar sem ele. Quem diria que existiu uma época que você viveu sem um smartphone.

PIANGERS

23 DE JUNHO DE 2018
CARPINEJAR


Os sinais de que se envolveu com um louco

Na paixão você só quer ver o que acredita. Os olhos são guardados no estojo dos óculos.

É comum não enxergar os sinais de que se envolveu com um perseguidor. Todo perseguidor simbolicamente mija no poste para demarcar território. Não quis reparar por educação, tão dedicado a acreditar na história de amor e idealizar o encontro.

Ninguém se envolve com um louco sem receber avisos. E não são poucas as advertências. O erro é fazer de conta que é uma exceção ou, mais grave, entender tudo ao contrário.

Se no primeiro encontro, a pessoa lhe morde, banca o Drácula em seu pescoço, deixa um chupão onde o colarinho da camisa não tapa, não significa que o sexo foi selvagem, não ache que é bonito, não são medalhas da paixão, não corresponde a uma entrega total de um animal no cio, não sinta orgulho da noite virada em claro, é o indício de que se envolveu com alguém histérico e ciumento.

É um stalker dando as suas primeiras demonstrações de desequilíbrio e de alternância de humor. Ao admitir as marcas e até se orgulhar, assumirá o papel de incentivador da possessividade.

Qualquer exagero sem intimidade prova uma carência descomunal e perigosa.

Quem arranha a pele arranhará o seu carro numa despedida. As unhas serão pontas das chaves depois em sua lataria.

Os ataques sadomasoquistas somente se agravam com a progressão da convivência, a ponto de normalizar discussões e barracos.

Se o par amoroso tem o costume de se irritar quando você visualiza as mensagens e não responde em poucos minutos, não compreenda como sintoma da saudade, ele será capaz de persegui-lo pelas ruas no fim da relação.

Se ele não gosta quando sai com decotes ou com o corpo mais à mostra, não aceite como preocupação pertinente ao seu modo de vestir, pois tratará de insultar a cada foto acompanhada de um colega de trabalho.

Se ele não suporta likes de amigos e comentários engraçados em suas redes sociais, não veja como vigília bem-intencionada contra prováveis críticas, é mais um trailer do filme de terror, inventará fakes para infernizá-lo no fim do namoro.

Há tipos que não acolhem a contrariedade e a recusa e se debruçam sobre a missão suicida de explodir com as suas conexões sociais. Mergulham no ressentimento puro e escolhem a vingança como uma forma de continuar amando. Não desejam a sua felicidade, mas dominá-lo a ponto de não ter mais ninguém por perto.

A polidez no início da relação e o receio de falar a verdade permitem a criação de monstros. Eles não crescem desprovidos de sua concordância e de seu carinho na cabeça.

Corte o mal pela raiz antes de ser obrigado a morder os frutos envenenados da obsessão.

CARPINEJAR

23 DE JUNHO DE 2018
THAMIRES TANCREDI

Não passarão


Nem o cabelo do Neymar ou o gol espetacular do Philippe Coutinho. Quando se fala em Copa do Mundo, o assunto que tomou conta das timelines e grupos de WhatsApp ao longo da semana foi o vídeo em que um grupo de torcedores brasileiros na Rússia aparece cercando uma jovem loira, que visivelmente não entende nada de português, enquanto gritam ofensas em referência à genitália dela. Bastou as imagens começarem a pipocar para que as redes sociais se inflamassem em repúdio ao ato machista. Só para ter uma ideia, foram mais de 55 mil tuítes sobre o tema até o fim da tarde de terça-feira, segundo um levantamento realizado pela FGV DAPP. Uma verdadeira enxurrada de manifestações contra um ato sexista e misógino, que só revela o quanto a sociedade brasileira precisa evoluir quando o papo é machismo.

Depois de assistir às imagens com o estômago embrulhado, deu até um quentinho no coração ver tanta gente botando a boca no trombone. De celebridades como Ivete Sangalo e Astrid Fontenelle a pessoas comuns como eu e você, feministas ou não, muita gente fez questão de se pronunciar. E sabe o que isso significa? Que, cada dia mais, a hashtag #MachistasNãoPassarão extrapola o limite do virtual. A gente está aprendendo a expôr aquilo com que não concorda, a xingar quando precisa e a cobrar quando é cabível. 

Não ficamos mais quietinhas por pudor de acharem que somos barraqueiras. Estamos perdendo o medo de apontar o machismo e fazer ouvir a nossa voz. Não conseguimos mais nos calar, e é justamente essa soma de força e vozes que tem conseguido vitórias mundo afora - ou você acha que o aborto ter sido aprovado na Câmara Federal na Argentina não tem a ver com as mulheres gritando nas ruas, hein?

Machismo existe desde que o mundo é mundo. Entram nessa longa lista todas hashtags que têm por trás um movimento tanto espontâneo quanto organizado: #MeuPrimeiroAssédio, #ChegadeFiufiu, #MexeuComUmaaMexeuComTodas, #MeToo e por aí vai. A novidade é que não ficamos mais caladas e paralisadas diante de assédio, de desigualdade de gênero, de falta de equidade salarial e tantas outras demandas que todas nós conhecemos bem. E nem precisa ser feminista para isso.

Sabe do que mais? Não toleramos mais desculpinha esfarrapada para justificar machismo - como um dos brasileiros que aparecem no vídeo tentou nos enfiar goela abaixo para tirar o seu da reta. "Entrei de gaiato na história. Foi uma brincadeira de muito mau gosto. Lamento ter aparecido nisso, mas brasileiro, quando vê uma câmera, quer se meter na frente", afirmou o cara identificado apenas como Josué em entrevista à Folha de S. Paulo. Brincadeira, amor? 

Brincadeira para mim é pique-esconde ou amarelinha. Em entrevista ao Uol, outro dos torcedores flagrados nas imagens disse: "Somos pais de família, trabalhadores e vocês estão acabando com a vida da gente... Quem está brincando carnaval exagera um pouquinho na bebida e às vezes passa do ponto. Peço desculpas às mulheres que possam ter se sentido ofendidas, mas estão transformando um copo d?água em uma tempestade".

Falar da genitália de uma mulher não deveria ser engraçado para alguém que faz um uso mínimo de seu cérebro. Não foi só "mau gosto": foi assédio, sim, porque não precisa haver violência ou estupro para categorizar assédio. E, não, nossa reação não foi exagerada. Vamos combinar: se fosse uma brincadeirinha tão inocente assim, será que tantas mulheres se sentiriam ofendidas? Ouvir o que o outro tem a dizer nunca foi tão importante, ainda mais em tempos de discussões cada vez mais abertas como os que (felizmente) vivemos.

O que fica de lição, gurias? Precisamos parar de botar (ou deixar botarem) panos quentes em babada de macho, cada vez mais. E até em babadas nossas também, porque nenhuma mulher nasce desconstruidona e enxergando machismo em tudo, não é? Mas, principalmente, de nunca mais baixarmos a cabeça. Não somente porque a coroa cai, mas porque assim a nossa voz também não sai. E se acharem que estamos fazendo "tempestade em copo d?água"? Olha, chama Noé porque o dilúvio está a caminho. Machistas passarão cada vez menos.

THAMIRES TANCREDI

23 DE JUNHO DE 2018
PAULO GERMANO

O ALIENADO



Cara, eu amo Copa do Mundo. Nem tanto pelo futebol, mas pelo completo e absoluto sentimento de alienação que me arrebata.

Como é bom se alienar.

Pedi, como costumo pedir em Copas do Mundo, duas semaninhas de férias - portanto, estarei ausente do caderno DOC nos próximos dias - exclusivamente para desfrutar dos inquestionáveis benefícios desse evento mundano. Não vou viajar, não vou ler, não vou passear, vou é ficar vendo Panamá e Tunísia debaixo de um cobertor marrom no sofá da sala, engordando à base de aipim frito e chocolate e rosquinha e pudim, tecendo comentários idiotas sobre o cabelo do Neymar e ignorando solenemente o que de fato merece atenção neste mundo.

Alguém dirá que "enquanto você grita gol, eles te roubam", e eu mencionarei um edificante meme que vi no Twitter, porque hoje não citarei Freud nem Hobbes nem qualquer outro xaropão que adoro citar, vou apenas celebrar a alienação e a cultura inútil, então falarei desse belo meme que, prudentemente, dizia que "eles também te roubam enquanto você assiste àquela folha caindo da árvore no seu filme iraniano".

Portanto, permita-se, liberte-se, aproveite esta oportunidade para perder qualquer rastro de consciência política e social, porque, acredite, você precisa disso. Por duas semaninhas que seja. Eu preciso, o país precisa. Teremos daqui a pouco outra virulenta campanha eleitoral, mais um capítulo dessa interminável agitação que começou lá nas jornadas de 2013 - e aí vieram os protestos contra a Copa, as paralisações do setor público, a eleição de 2014, o processo de impeachment, os atos contra Dilma, os atos a favor de Dilma, o movimento Fora Temer, a eleição de 2016, a rebelião secundarista, as universidades ocupadas, as prisões do PT, as prisões do PMDB, a morte de Marielle, os levantes contra Lula, os levantes pró-Lula, a greve dos caminhoneiros, PELO AMOR DE DEUS, ALGUÉM ME DEIXA VER O DIABO DO JOGO ENTRE JAPÃO E SENEGAL!!!!!!

Porque não há quem aguente. Mais do que um respiro, a alienação é necessária em meio à fúria dos extremos, à difusão de mentiras, ao debate interditado e à estupidez de nossos líderes. Eu quero é o álbum de figurinhas, o cabelo do Neymar, outra goleada da Rússia, a torcida da Coreia, o golaço do Cristiano Ronaldo. E também quero, enfim, sentir um orgulhinho do Brasil. Porque a gente merece, ué.

Então, não me venha com intelectualidades agora. Sugiro uma churrascada para ver Alemanha e Suécia neste sábado, que tal? Daqui a duas semanas eu volto. Falando aquelas abobrinhas muito sérias de sempre.

PAULO GERMANO

sexta-feira, junho 22, 2018


Roberto Brenol 
Notícia da edição impressa de 22/06/2018.

Andrade Frases e Personagens  



Frases e personagens "O Brasil retomou o crescimento, mas ele é lento. Um dos motivos é que as empresas puderam retomar a produção, mas sem contratações. E a recuperação não é sentida, por ser lenta. O momento atual é melhor do que há um ano, mas desafia os empreendedores. Quem enxuga lágrimas não enxerga as oportunidades, é hora de arregaçar as mangas, pois as famílias estão voltando a consumir." 

Patrícia Palermo, economista-chefe do Sistema Fecomércio-RS. "Há outro cenário que provoca incertezas, que é o eleitoral, cuja perspectiva é de processo confuso e incerto, onde não há um favorito conforme as pesquisas. E o mercado vai reagir durante a campanha, dependendo do que os presidenciáveis defenderem a respeito das reformas, especialmente a previdenciária. Se vencer candidato que rompa com as reformas, o processo econômico volta a retroceder." Também Patrícia Palermo. 

"A atividade econômica precisa ter novo fôlego e a redução dos juros é um fator que pode ajudar nesse processo de recuperação pós-crise. A permanência da Selic em 6,5% ao ano foi uma decisão correta." Vitor Augusto Koch, presidente da FCDL-RS. "A liberdade de expressão é um dos pilares do regime democrático, com a circulação de ideias e informações, um pressuposto de sociedades abertas e plurais, condição básica para o estabelecimento de democracias sólidas." Claudio Lamachia, presidente nacional da OAB. 

"Senadora Gleisi Hoffmann, a sua defesa mostrou que a Lava Jato construiu uma denúncia falsa a partir de depoimentos negociados com criminosos, em troca de benefícios penais e até financeiros. Pela primeira vez o STF reagiu diante da indústria das delações em um caso concreto, desmoralizando o discurso e a prática da Lava Jato." Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ex-presidente, em carta à presidente nacional do PT.

 "Nós não temos como fechar a fronteira. Isso seria uma coisa inapropriada. Estamos todos de acordo, mas também não há como abandonar as necessidades do estado de Roraima." Michel Temer (MDB), presidente da República, sobre a fronteira com a Venezuela. 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/frases_e_personagens/2018/06/634236-frases-e-personagens.html)
Argentina apoia a inovação 


Brasileiros podem se aventurar em Buenos Aires PATRICIA KNEBEL/ESPECIAL/JC As startups brasileiras que quiserem se aventurar na América Latina podem começar a considerar a internacionalização a partir da vizinha Argentina. Depois de anos com uma política mais restritiva nessa área, as coisas começaram a mudar. 

O governo local passou a apoiar a criação de um ecossistema de inovação, como ao criar a Lei de Pymes, que incentiva as pequenas empresas por meio de redução de impostos e das burocracias, e o Academia BA Empreende, programa de capacitação gratuito em habilidades empreendedoras e métodos ágeis. 

Sem falar nas iniciativas voltadas para a incubação, busca de investimentos e programas de inovação social. Os resultados começaram a aparecer e, em 2015, a capital argentina foi eleita a cidade do empreendedorismo global. Buenos Aires é hoje um dos principais celeiros de startups de sucesso na região. 

Foi de lá que vieram empresas como Decolar.com, OLX e Mercado Livre - este é hoje o sétimo site de e-commerce mais acessado do mundo, e a plataforma de varejo líder em visitantes únicos nos 19 países onde atua. São empresas que nasceram na Argentina e que souberam entrar de forma agressiva no mercado brasileiro a ponto de quase serem confundidas como players locais. O governo brasileiro está atento a essa oportunidade (que tem como alinda ainda a proximidade geográfica) e quer incentivar esse intercâmbio. 

Tanto que começou pela Argentina o StartOut Brasil, programa que tem levado startups brasileiras para imersões em ecossistemas de inovação do mundo. A missão para o país vizinho foi uma espécie de projeto-piloto, deu certo e já encaminhou outras iniciativas similares para Paris e Berlim. 

As portas estão abertas.  

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/mercado_digital/2018/06/634063-argentina-apoia-a-inovacao.html)


22 DE JUNHO DE 2018
ARTIGO

ALÉM DE EMOÇÃO, LÓGICA E RAZÃO A HORA DO ENTENDIMENTO

É lamentável que, até agora, as autoridades não tenham chegado a uma conclusão definitiva sobre a origem do maior surto de toxoplasmose do Brasil. A entrevista no programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, em que o ministro da Saúde, Gilberto Occhi, apontou a água como responsável em Santa Maria não ajudou. Fontes de água costumam estar na origem de casos semelhantes. Ainda assim, é importante evitar precipitações que, neste momento particularmente tenso e delicado, podem estimular uma parcela de gaúchos hoje mais exposta à doença a se descuidar de providências essenciais de prevenção. Isso só contribuiria para agravar ainda mais um problema que é sério e inquieta a todos.

Conscientes de que o momento se presta mais para esclarecimento com base em informações precisas, e não para pânico, organismos de saúde e o próprio ministério apressaram-se em divulgar comunicados que não endossam a fala do ministro. O único fato concreto, porém, é que as dúvidas em relação à presença ou não na água do DNA de Toxoplasma gondii, o agente causador da doença, se mantêm. Dois meses depois da confirmação do surto no Estado, a população segue às escuras sobre a causa e vem sendo submetida a uma confusão de dados e a declarações divergentes.

Diante de tantas incertezas, as pessoas precisam se proteger, seguindo as recomendações básicas de prevenção. É dever de todos, incluindo o poder público, reforçar para os gaúchos a necessidade de persistirem em cuidados básicos, como manter as mãos limpas, cozinhar bem os alimentos e ferver a água para consumo. Ao poder público, cabe assegurar, no devido tempo, o acesso aos medicamentos necessários e ao tratamento recomendado.

O surto de toxoplasmose desafia as autoridades da área da saúde a se entenderem sobre a causa e o combate ao que já é um dos maiores dramas sanitários da história recente no Estado. Diante da gravidade assumida pelo problema, é importante também que seu enfrentamento possa superar entraves como os impostos pela burocracia, permitindo maior celeridade na adoção de providências. Só haverá avanços na rapidez necessária com maior integração entre técnicos de diferentes instâncias da federação, sem qualquer margem para divisionismos em relação a um desafio que precisa ser enfrentado com a união de todos.

Futebol é esporte, mas com fortes elementos cênicos, dramatúrgicos e estéticos.

A energia gerada numa partida faz nascer novos heróis.

O jogador poderia ser o ator. O técnico seria o diretor de teatro, sendo que este, durante o jogo, pode mexer no time que está em ação. Outra diferença é que no teatro o público entra e encontra o cenário pronto, enquanto na partida é o jogador quem depara com o cenário montado na arquibancada.

Mas qual o motivo de o futebol transcender todas as fronteiras de emoção, lógica e razão?

Talvez esteja no fato de que numa peça a pessoa pode até se identificar com um dos personagens, vibrar pelo vencedor, mas há uma distância entre ela e o personagem. No futebol, o torcedor é de fato o vencedor, quando seu time ganha. A torcida delira, uma verdadeira catarse, e sem dúvida nenhuma é a principal envolvida no jogo. Afinal, toda a máquina esportiva existe por causa dela.

A torcida é um corpo vivo e ver aqueles milhares de torcedores chegando juntos, num movimento orgânico, rumo às arenas, tem uma emoção especial. Não há entretenimento em geral sem um local adequado e essas arenas são projetadas para a participação pacífica de multidões. Talvez nada se pareça mais com um estádio de futebol do que um teatro grego. Teatro e futebol, em seus aspectos originais, representam um diálogo entre a experiência terrena e as dimensões divinas de nossa existência. Tudo para celebrar o tempo presente, para aproximar os mortais dos imortais.

Com relação ao tempo, o futebol é mais regrado. Mas, para os dois, o tempo não passa, ele voa. E não há segredos que o tempo não revele. Até hoje não entendo como pode ter faltado tempo na Copa de 1982 para o Brasil marcar mais gols, ou como Julieta não acordou a tempo para salvar Romeu e viver seu grande amor. Que nesta Copa o tempo esteja a nosso favor.

BOB BAHLIS


22 DE JUNHO DE 2018
SEGURANÇA

CPI apura 50 denúncias contra seguradoras

DEPUTADOS VERIFICAM CASOS de supostas práticas ilegais, como não trocar peças de automóveis no RS
Deve ir a votação até o final do mês o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa que apura supostas práticas ilegais de seguradoras de veículos. Conforme o presidente do colegiado, deputado Enio Bacci (PDT), foram recebidas mais de 50 denúncias de clientes e proprietários de oficinas.

Com o objetivo de investigar as suspeitas de desrespeito aos consumidores, na manhã de ontem, foi realizada blitz surpresa em oficinas mecânicas da zona norte da Capital credenciadas por seguradoras. Participaram 35 policiais, peritos, agentes do Procon, engenheiros e integrantes da comissão. Três oficinais credenciadas por seguradoras foram autuadas e tiveram peças recolhidas.

Na semana passada, quatro seguradoras conseguiram na Justiça mandado de segurança para evitar que prestassem depoimento na CPI. As empresas argumentaram que, sem acesso aos depoimentos e os nomes dos depoentes, não poderiam preparar as defesas. Até o momento, os deputados identificaram a suspeita de formação de cartel, por meio da combinação de preços entre as seguradoras, e relação desigual das empresas com os clientes, afirma Bacci, que já foi presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia.

- Em primeiro lugar, porque o consumidor não tem autonomia ou liberdade para escolher a oficina de sua confiança. As seguradores induzem, impõem e exigem que sejam oficinas chamadas credenciadas. E quando o veículo é consertado, a situação é alarmante: as seguradoras exigem que, primeiro, as oficinas tentem recuperar peças e, depois, se não conseguirem, seriam autorizadas a substituir peças.

Segundo o parlamentar, o conserto da peça e não a substituição estaria ocorrendo para gerar economia às seguradoras. ZH teve acesso a documentos que comprovam a prática. Um deles é de um Gol cujo proprietário é de Santo Ângelo, que teve dano na caixa de câmbio - com a quebra de um dos pinos de sustentação. No relatório do perito, consta que "houve negociação" e a peça "pode ser substituída por usada ou recuperada". O conserto da caixa de câmbio custaria R$ 350, já a compra de nova seria R$ 6.284 - custo 1.695% maior.

TROCA DE PEÇA GEROU ECONOMIA DE R$ 2,4 MIL

Outro caso envolve a substituição de um chicote - cabo que liga fusíveis ao painel de controle. Em vez da troca, ocorreu conserto. A economia seria de R$ 2,4 mil, segundo a comissão. Um investigador da Polícia Civil, que trabalha na CPI, identificou que o cabo já está danificado, o que poderia gerar pane no carro. Os parlamentares também apuram, a partir das denúncias, a exigência do uso de peças que não são da montadora.

No mercado automotor, há dois tipos de produtos "genéricos". As originais são produzidas pelas fábricas que fazem para as montadoras, mas as peças apresentam diferença em relação às genuínas devido à patente. Também há as paralelas, de indústrias chinesas, de desmanches ou veículos roubados.

HYGINO VASCONCELLOS

22 DE JUNHO DE 2018
GERAL

Como partir prevenido


Quando uma viagem é planejada, o turista raramente pensa em problemas que pode ter no passeio. Mas o imponderável pode acontecer, e, para estar preparado, a recomendação de especialistas é contar com um seguro-viagem.

O valor de cobertura das apólices é variável e, por isso, é recomendado avaliar os detalhes do contrato. Os seguros também oferecem auxílio em diversas áreas, como perda ou extravio de bagagens e assistência jurídica, explica o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav-RS), João Machado:

- Mesmo para países em que o seguro não é obrigatório, é de extrema importância viajar com um, já que a assistência médica fora do país costuma ser cara, e é bastante comum as pessoas apresentarem alguns problemas de saúde em viagens ao Exterior, como gripes devido às mudanças de temperatura e problemas intestinais pelos diferentes temperos, entre outros.

Há inúmeras opções de seguradoras e planos, que vão desde a cobertura de esportes radicais aos planos-família. A primeira questão a qual o viajante deve ficar atento, alertou Claudia Almeida, advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), é o tipo de contrato: existe diferença entre seguro-viagem (serviço no qual a operadora reembolsa despesas que o viajante tiver e que estejam previstas na apólice) e assistência­viagem (fornece rede conveniada para que o viajante utilize os serviços oferecidos no contrato sem precisar desembolsar o valor).



22 DE JUNHO DE 2018
CAMPO ABERTO


PIB COM ATRASO, MAS SEM SURPRESAS


Não há mistério nos números do PIB do Rio Grande do Sul finalmente divulgados, tanto em relação a 2017 quanto ao primeiro trimestre deste ano. Fazendo jus a projeções feitas, o Estado fechou o ano passado com crescimento ancorado na agropecuária, segmento que cresceu na casa de dois dígitos: 11,4%. Da mesma forma, é o resultado negativo do setor que puxa para baixo o desempenho da economia gaúcha no primeiro trimestre, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) - leia mais na página 14.

Em comum, nesses desempenhos antagônicos, está a relevância do setor primário. Quando o campo vai bem, a cidade também vai. Se o campo vai mal, a cidade repete o movimento, diz a máxima.

- Não chega a supreender. Significa que a gente teve uma safra enorme em comparação com o ano de 2016 - observa Antônio da Luz, economista-chefe do Sistema Farsul, sobre o crescimento do ano passado.

Ou seja: o avanço da economia do RS reflete a supersafra colhida em 2017 - a soja, por exemplo, atingiu patamar histórico de 18,7 milhões de toneladas.

Com essa base de comparação elevada e uma colheita com volume menor, já se previa recuo para 2018. Há ainda que se considerar o fato de que, no Estado, o grosso do efeito da colheita de verão - que inclui soja e milho - aparece no segundo trimestre.

Apenas a título de curiosidade, a Farsul estimava, em seu tradicional balanço de final de ano, queda de 3% para o PIB da agropecuária em 2018 - como Fipe mudou a metodologia, o economista afirma que ainda não é possível traçar um paralelo. Apesar do dado estatístico negativo, o cenário não é visto como ruim.

- É muito mais um efeito percentual em relação à base de comparação do que o desempenho do setor em si - acrescenta Luz.

MARCADA PARA segunda-feira, audiência pública sobre transporte e exportação de animais vivos foi adiada para 9 de julho. Em nota, a deputada Regina Becker (PTB), proponente do debate, e o presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia, Altemir Tortelli (PT), explicam que o cancelamento ocorreu porque foi negada a concessão do espaço da Câmara de Vereadores de Rio Grande, local do evento.

VALORIZAÇÃO PÓS-GREVE

A redução no volume captado no período da greve dos caminhoneiros ajudou a elevar os preços do leite da indústria para o varejo. Nos primeiros 10 dias de junho, o UHT aumentou 14,71%, conforme o Conseleite. O valor ao produtor também subiu: 6,76%, comparando preço projetado no mês com o consolidado em maio.

Ainda assim, são valores inferiores aos de 2017 - no acumulado do ano, 5,5% menores, no caso do leite longa vida.

- Não se pode considerar que a valorização dos produtos foi boa porque, ao mesmo tempo, houve redução de produção com a greve. O prejuízo foi diferente de empresa para empresa, mas a queda de quantidade trouxe impacto direto no lucro das indústrias - observa Eduardo Finamore, professor da Universidade de Passo Fundo.

As indústrias gaúchas venderam em maio 16,7% menos do que em abril - 108 milhões, ante 126 milhões de litros.

A paralisação não é o único motivo da valorização. Alexandre Guerra, presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados, explica que o frio, aguardado para turbinar o consumo, veio com força. E a variação cambial torna as importações de leite menos atrativas.

Dois Estados em uma só disputa

A qualidade dos rebanhos e os investimentos dos criadores da região reforçam a aposta em mais uma seletiva do Freio de Ouro de alto padrão. O município de Ponta Grossa (PR) recebe neste final de semana a classificatória de Santa Catarina e Paraná. Estarão em jogo 16 vagas (oito machos e oito fêmeas) para a final da competição, no primeiro final de semana da Expointer, em agosto.

- São regiões de investimento muito alto no cavalo crioulo, que contam com os maiores rebanhos da raça depois do Rio Grande do Sul. E o Paraná, especificamente, tem investimento muito pesado em genética, tendo um dos melhores rebanhos, com grandes criadores e criatórios de muito capricho e zelo na raça - observa César Hax, vice-presidente administrativo e financeiro da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC), que organiza a prova.

O outro lado do moeda

Se por um lado a desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar tem ajudado a valorizar as commodities em reais, por outro, alimenta a alta dos custos de produção.

É o que mostra o levantamento mensal da inflação do agronegócio, medido pela Federação da Agricultura do Estado (Farsul).

A elevação da taxa de câmbio foi determinante, segundo a entidade, para o aumento nos custos de produção em maio, que avançaram 2,19%.

No acumulado do ano, a alta chega a 3,03%, mais do que o dobro do IPCA registrado no período.

O peso de produtos mais caros, sobretudo fertilizantes, que são importados e, portanto, têm elevação com a desvalorização do real frente ao dólar, deve aparecer com maior força mais para frente, no período de plantio da próxima safra de verão.

Por ora, existe um cenário favorável ao produtor. No acumulado do ano, os preços recebidos avançaram 15,44%.

GISELE LOEBLEIN

quinta-feira, junho 21, 2018


21 DE JUNHO DE 2018
ROSANE TREMEA

Dez anos



Uma frase martelou a semana inteira na minha cabeça. É do professor Flávio Comim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):

- Dez anos podem não ser nada na vida de um país, mas são muito na de uma pessoa. Ela ilustrava uma pesquisa do Datafolha mostrando que 62% dos jovens brasileiros iriam embora do país se pudessem. Entre os adultos, mais da metade daqueles com nível superior também sairia do Brasil para qualquer outro lugar.

Na mesma reportagem em que o professor era entrevistado, uma das personagens justificava a disposição para partir:

- Não faz sentido ficar só porque sou brasileira e não desisto nunca.

Essa vontade de pular do barco tem menos a ver com covardia - como aquela que fez o ex-comandante Francesco Schettino abandonar o navio Costa Concordia, no famigerado naufrágio de 2012, no qual morreram 32 pessoas, por exemplo - e mais com desesperança.

Talvez o Brasil até se ajeite em 10 anos. Quem duvida poderia dar uma olhada no que aconteceu em Portugal nos últimos tempos - nosso antigo colonizador, aliás, é um dos mais visados pelos brasileiros, que estão indo às pencas para lá para estudar, para empreender ou, simplesmente, morar. De um dos mais atingidos pela crise mundial de 2008, passou a ter sua recuperação invejada e estima reduzir o desemprego - um dos principais flagelos lá e cá, hoje em 7,3%, o menor nível desde 2004 - para 5,6% até 2020.

Talvez, como fez Portugal, o Brasil até se ajeite em 10 anos. Mas quantas esperanças terão sido destroçadas em 10 anos? Quantos jovens, sem alternativas de financiamento ou de acesso à universidade pública, terão deixado de chegar ao Ensino Superior? Quantos adolescentes, em colégios derrotados pela violência e por professores mal pagos, terão abandonado o Ensino Médio? Quantas crianças, de famílias desestabilizadas pela falta de trabalho e pela dificuldade de acesso, deixarão de sequer chegar à escola? Esses nunca terão a escolha de partir.

Nunca pensei em deixar o Brasil, nem por desesperança, nem porque sou brasileira e não desisto nunca, talvez um pouco por covardia. Acho que não teria coragem para recomeçar a vida numa terra que não é a minha, mesmo que tivesse condições para isso. Ir embora deveria ser resultado só de uma vontade, e não da falta de opção.

*Até o dia 16 de julho, David Coimbra escreve no Jornal da Copa, encartado nesta edição.

ROSANE TREMEA

21 DE JUNHO DE 2018
ARTIGOS

ROMPENDO FRONTEIRAS


Na segunda conferência desta edição do Fronteiras do Pensamento, ouvimos a escritora Leila Slimani, autora, dentre outras obras, do premiado romance Canção de Ninar. Destaco da sua fala o fato de a escritora ser frequentemente instada a dar explicações sobre quem, afinal, ela é, como se tivesse de fazer uma escolha por ser franco- marroquina. 

Demandada em entrevistas, revela o desconforto que sente em se autocategorizar em percentuais. Quanto por cento marroquina? Quanto por cento francesa? Questões étnicas, ideológicas, religiosas, culturais permeiam essas indagações de pesos e medidas. Acredita que nem tanto o que se é importa. Concordo com ela ao afirmar que aquilo que se faz, sim, é relevante.

Instigante ouvir que a multi- étnica Slimani se considera cem por cento marroquina, diante da origem familiar, do nome, local de nascimento, pele, identidade cultural. E, paradoxalmente, cem por cento francesa, por sua educação, formação intelectual, país de residência, e também identidade cultural.

Ouvindo-a, compreende-se o estranhamento que é capaz de provocar tanto no Marrocos quanto na França. Não opta por um país ou outro, não raro desagradando, por suas posições, a uns e outros. Sente pertencer a esses dois mundos e valoriza o quanto aprendeu e continua a assimilar dessas culturas tão díspares em determinados aspectos, buscando exercer com liberdade e olhar crítico sua particular visão de mundo.

Nesta edição de 2018, conheceremos mais de perto pessoas influentes como Catherine Millet, autora do corajoso relato em que retrata sua movimentada vida sexual, e o filósofo Pondé, autor, dentre outros livros politicamente incorretos, de A Era do Ressentimento e Contra um Mundo Melhor - estes dois os meus preferidos do escritor. 

Pensadores que mostram a complexidade da natureza humana, e que, por isso mesmo, têm muito a nos ensinar. Se construir unanimidades está longe de ser factível, é o conhecimento da perspectiva do outro que nos permitirá a construção de consensos básicos de modo a garantir a sobrevivência desta intrincada sociedade democrática moderna.

Procuradora de Justiça e cronista martalealpach@gmail.com - MARTA LEIRIA LEAL PACHECO

21 DE JUNHO DE 2018
ENTREVISTA

"Fui burra. Levaram tudo o que tinha"

IDOSA DE 74 ANOS - Vítima de golpe do bilhete na Capital


Em recente segunda-feira, uma idosa de 74 anos caiu em um dos golpes mais antigos que se conhece: o do bilhete premiado. Servidora estadual aposentada, retornava de consulta médica no centro de Porto Alegre quando uma mulher lhe abordou. Pediu ajuda para sacar o prêmio na agência bancária. Alegou ser analfabeta e sequer portar documento. Precisava de testemunhas. Em seguida, uma segunda mulher, bem vestida, apareceu. Disse que também a ajudaria, mas que precisariam confirmar a veracidade do bilhete.

Em rápida ligação, no viva voz, suposto atendente da Caixa confirmou os números sorteados. A partir daí, deu-se início a via-sacra pela Capital que duraria quatro horas. A dita vencedora do prêmio daria às mulheres recompensa, mas precisava de garantia em troca. Enganada, a vítima sacou os R$ 10 mil que tinha na conta corrente em três diferentes agências da Caixa. Ainda entregou o cartão do Banrisul para que comprovassem que o saldo estava zerado - e as estelionatárias fizeram compras que ultrapassaram R$ 2 mil.

De sua casa na Zona Norte, contou a ZH o que passou depois de ler sobre a grande operação no fim de semana que desarticulou quadrilha que atuava a partir de Passo Fundo, no Norte. Quer alertar outras pessoas para evitar que também sejam ludibriadas (leia entrevista ao lado).

Ontem, a Polícia Civil informou que quase R$ 5 milhões em bens foram apreendidos na Operação Pólis, que atacou no sábado rede de estelionatários do golpe do bilhete que tem como base Passo Fundo, e que age em diversas áreas do Brasil. Na segunda-feira, a polícia voltou a cumprir mandados de busca. Foram em revendas de veículos e em despachantes da cidade, que seriam usados para lavar dinheiro dos golpes. Foram apreendidos cinco carros dos investigados.

Como aconteceu o golpe?

Vinha pela Avenida Otávio Rocha de consulta médica para pegar a lotação na Rua Doutor Flores. Eram 11h40min. Uma miserável com papel na mão me abordou para saber onde era a tal de Travessa Santos. Disse que tinha de ir no endereço porque se encontraria com a pessoa que a levaria para receber prêmio e mostrou bilhete dobrado da Quina. De imediato, apareceu uma bonitona e perguntou se eu também podia ajudá-la como testemunha e ir ao banco. Essa mulher pegou o bilhete e ligou para um homem, no viva-voz, que disse que era da Caixa e confirmou os números. Passamos na casa dela, que pegou um pacote e disse que eram dólares. Tudo conversa fiada. Me acharam com cara de trouxa e eu caí.

Como você sacou R$ 10 mil?

Fiquei com elas até as 16h. Foram três saques. Queriam que comprovasse que tinha condições para não lográ-las. A mulher que chegou com o papel se fazia de pobre, miserável. Dizia que precisava de testemunhas para sacar dinheiro. Nem sei dizer como caí. Estava com a intenção de ajudar.

A senhora desconfiou?

Ela daria o bilhete para que tirássemos o dinheiro no banco porque não tinha documento, era analfabeta. Uma pobre coitada. Contou história fantástica e me envolveu. Se disser que por um minuto me dei conta que estava sendo lograda, seria mentira. Só percebi quando passava das 16h. Disseram que estavam indo ao banco, pararam em frente a um boteco de esquina e pediram que pegasse duas águas porque estavam com sede. Ainda pediram que pegasse umas sacolinhas para colocar o dinheiro. Quando voltei, não estavam mais.

Nas quatro horas em que esteve com as golpistas, a senhora chegou a passar em casa?

Sim, e passei um "171" no meu marido. Disse que a médica havia marcado exame e que precisava ir ao hospital. Peguei meus cartões e saí rapidinho porque elas diziam para não contar para ninguém. Meu celular tocava e diziam para não atender, não falar onde estávamos. Iríamos sacar muito dinheiro e era perigoso que alguém nos perseguisse.

O que lhe diziam?

Depois que viram que tinha sacado tudo, disseram que precisava comprovar que não tinha dinheiro na conta do Banrisul. A bonitona estacionou na Doutor Flores, deixou o carro ligado e pediu meu cartão. Dei a senha para ela comprovar que estava zerada. Mas sabe o que ela fez? Fez compras. Mais de R$ 2 mil. Em um momento, recebi mensagem no meu celular avisando sobre compra de R$ 600. Disse "ué, que compra, se não comprei nada". Aí, a miserável pegou meu celular e o meu cartão. Fui tão burra que nem questionei.

A senhora considera que foi enganada pela ganância?

Fiquei com compaixão daquela mulher que precisava de ajuda. Fui no intuito de ajudar.

Em algum momento, acreditou que ganharia dinheiro?

Ela dizia, mas falei várias vezes que só queria ajudar.

Por ser golpe antigo, muita gente sente vergonha de denunciá-lo. Por que decidiu falar?

Me senti envergonhada e deprimida, mas decidi ir na delegacia e falar a respeito. Depois que li (em ZH, na segunda-feira) que mais de 130 pessoas caíram... Para mim, foi um consolo. Fui burra. Levaram tudo o que tinha.

DÉBORA ELY