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segunda-feira, agosto 21, 2017



21 DE AGOSTO DE 2017
POLÍTICA +

ESCOLA DE LÍDERES


Sob a presidência de Simone Leite, que prega maior envolvimento dos empresários com a política, a Federasul vai criar uma Escola de Líderes. O objetivo é "garantir a participação de líderes empresariais nos espaços de decisão públicos e privados".

A escola vai funcionar em dois sistemas: cursos de formação continuada, com aulas às sextas à noite e aos sábados pela manhã, para permitir a participação de associados do Interior, e orientação individual.

A Federasul planeja fazer convênios com instituições de referência em gestão, como a Fundação Dom Cabral.

rosane.oliveira@zerohora.com.br zerohora.com/rosanedeoliveira @rosaneoliveira


21 DE AGOSTO DE 2017
CELSO LOUREIRO CHAVES

O LIVRO DO TOM

Está nas livrarias Maestro Soberano - Ensaios sobre Antonio Carlos Jobim, publicado pela Editora da UFMG. Livros sobre a canção brasileira não chegam a ser raros e o primeiro volume da trilogia recém iniciada de Lira Neto sobre a história do samba é um deles. Biografias de compositores também não são raras. O próprio Tom Jobim foi biografado por Sérgio Cabral num livro que se tornou clássico. Livros monográficos com ensaios sobre um único compositor é que são bem mais raros e aí entra esse Maestro Soberano.

Nem sempre Tom Jobim foi um compositor consensual na música brasileira e houve até um período, ali pelos anos 70 do século passado, que já ninguém queria saber dele. Depois houve a transformação de Tom em mito e se apagaram um pouco das discussões - e até o descaso - que havia sobre ele, sua música, suas convicções. Como a chamada música popular brasileira também se transformou num dos muitos nichos em que se dividiu a canção brasileira, hoje Tom Jobim é presença inevitável ali naquele nicho - presença soberana, mesmo.

O Maestro Soberano - Ensaios sobre Antonio Carlos Jobim olha para Tom em várias claves - sol, dó, fá e outras tantas que existem. Ou seja: das canções à literatura, da ecologia à arquitetura, da bossa nova à conservação do acervo, está tudo ali. Até um ensaio meu acontece lá a folhas tantas, na terceira vez que escrevi sobre Matita Perê, canção de 1973 que sempre foi uma das minhas obsessões, de tão diferente de tudo que Tom produziu antes e depois. Ana Lontra Jobim também está presente nos ensaios e a inesquecível Santuza Cambraia Naves, grande teórica da música brasileira, comparece com um dos seus derradeiros ensaios.

O livro é cheio de ilustrações tiradas diretamente dos materiais autorais de Tom Jobim conservados no instituto que hoje leva o seu nome. São fotos, manuscritos, letras, músicas, quase um contato direto com o criador e seu processo de criação. Até o manuscrito da letra de Matita Perê foi incluído. Bem interessante esse documento: depois de ler todas as harmonias por onde a canção passa nos seus quase oito minutos, alguém escreveu o que fica sendo uma homenagem ao próprio Tom Jobim e a completeza da sua música: "Grau dez!!!!....".

cglchave@portoweb.com.br

21 DE AGOSTO DE 2017
RBS BRASÍLIA

Equivocado e incompleto


Além de equivocado, o debate sobre o financiamento de campanha está incompleto. Um esquecimento proposital. Depois da repercussão negativa, os deputados estão dispostos a baixar a proposta de financiamento público de R$ 3,6 bilhões para R$ 2 bilhões. Outra corrente tenta trazer de volta o financiamento privado. É a surrada tática do bode na sala. Mas ficam de lado questões fundamentais: aumentará o rigor na fiscalização desses recursos? Há previsão da aplicação de um duro protocolo na prestação de contas? 

A Justiça Eleitoral aumentará o seu poder de controle? Estamos falando de verba pública que irá para as mãos de partidos. Siglas, hoje, comandadas por protagonistas da Lava-Jato. Os presidentes do PMDB e do PP são Romero Jucá e Ciro Nogueira e a presidente do PT é Gleisi Hoffmann. No PSDB, o interino é Tasso Jereissati, mas Aécio Neves não está totalmente afastado. A reforma que será retomada nesta semana tem o objetivo de resolver o problema de quem quer garantir os mandatos. Coordenador do gabinete eleitoral do Ministério Público/RS, Rodrigo Zilio lembra, por exemplo, que quem já teve contas rejeitadas vai poder concorrer:

- Sem falar que é zero a garantia de que não haverá caixa 2 - reforça.

Quer dizer, tudo indica que a bandalheira continuará, mas com ainda mais recursos públicos envolvidos.

O nome de Germano Rigotto voltou a ser citado por peemedebistas para concorrer a uma vaga ao Senado em 2018. Consultado, ele não nega, mas afirma que tomará uma decisão até o final do ano. O ex-governador alega que depende de como ficarão o sistema eleitoral e as coligações que o partido fará no Estado.

Presidente do PMDB no Rio Grande do Sul, Alceu Moreira afirma que a maioria da bancada gaúcha votará contra o fundão. Hoje, haverá reunião da executiva ampliada do partido para encaminhar uma proposta à Câmara.

Em nota à coluna, o secretário da Fazenda, Giovani Feltes, nega que exista "irritação" de sua equipe com deputados da bancada que estão disputando o apadrinhamento do acordo de recuperação fiscal do Estado. Ele acredita também que não existe esse cabo de guerra.

@Carolina_Bahia


21 DE AGOSTO DE 2017
DAVID COIMBRA

Infidelidade conjugal

Infidelidade conjugal. Houve duas palpitantes manifestações de mulheres brasileiras a respeito de infidelidade conjugal nos últimos dias. A ex-namorada de um guitarrista da banda Apanhador Só publicou um texto no Facebook revelando (denunciando?) que ele a traíra 40 vezes. Antes disso, a atriz Deborah Secco reconheceu (confessou?) em uma entrevista que traiu todos os seus ex-namorados e ex-maridos, sem exceção e com gosto.

A declaração de Deborah foi recebida com certa naturalidade. O texto da outra moça, não. A banda Apanhador Só teve até de cancelar um show que faria em Belo Horizonte, devido à repercussão negativa.

Pouco me importa analisar se Deborah e a namorada do guitarrista estavam certas ou erradas ao expor desta forma suas intimidades. Ninguém sabe o que se passa no âmbito de um casal. Muitas vezes, cada um dos dois integrantes do casal tem uma versão diferente sobre o que acontece com eles. Também não quero especular se o guitarrista agrediu ou não a namorada. Agressão sempre é grave e condenável, mas levaria o texto para outro lado.

O que achei mais interessante foi, exatamente, o fato de elas se manifestarem de público a respeito da questão da infidelidade conjugal. Demonstra uma mudança importante na sociedade brasileira.

A noção de infidelidade é exclusivamente cultural. Há casais que toleram a infidelidade, há os que até a incentivam, há de tudo. Quando surgiu, porém, o interdito ao que se chama modernamente de "traição" tinha um objetivo prático.

A cornice foi inventada pelo capitalismo.

Durante centenas de milhares de anos, o ser humano foi nômade. Movimentava-se em pequenos grupos sobre a Terra. Ninguém tinha casa ou gleba, ninguém era dono de nada, exceto, talvez, poucos objetos de caça e sobrevivência. Não havia, tampouco, ideia de família como a concebemos hoje. Em geral, grupos nômades funcionam como clãs, com a coletividade cuidando das crianças e dividindo a comida e os bens de que necessitam. Nesses clãs, vigora bastante flexibilidade sexual. Ou seja: ninguém é de ninguém.

Mas há cerca de 12 mil anos o ser humano se fixou à terra para a lida da agricultura. Criou, assim, a propriedade. Criando a propriedade, criou o roubo. Para preservar sua propriedade do roubo, para mantê-la com ele e com os seus, o homem precisava de uma família forte, formada por filhos leais. Por isso, era fundamental que seus filhos fossem realmente dele. Num tempo sem teste de DNA, só a mãe tinha certeza absoluta de que o filho era dela. Afinal, o filho saíra de dentro dela. Ao homem restava a desconfiança.

Como garantir que aqueles filhos eram mesmo dele e que sua herança seria conservada em sua família e não passaria para a de algum aventureiro metido a garanhão?

Resposta: garantindo que a mulher faria sexo exclusivamente com ele. Donde, a valorização da virgindade e da fidelidade.

É por esse motivo que a mulher que traía era vilipendiada e o homem que traía era incensado. Porque o homem estava se comportando como conquistador, espalhando seus genes e, quem sabe, amealhando propriedade e poder desta maneira, enquanto que a mulher comprometia a família com sua infidelidade.

Isso mudou por várias razões, a maioria delas econômicas, como a necessidade de a mulher ingressar no mercado de trabalho nas duas guerras mundiais. Assim, a infidelidade conjugal feminina não é mais vista com escândalo, no Ocidente. Uma mulher como Deborah Secco pode contar que traiu todos os ex-namorados e ex-maridos e ninguém pensará em apedrejá-la por isso. Mas o guitarrista que traiu, sim, foi apedrejado. Uma virada espetacular. Uma nova moral. Um novo tempo.

DAVID COIMBRA

domingo, agosto 20, 2017

Drama médico 'Sob Pressão' é melhor série exibida pela Globo em 2017

Um paciente com morte cerebral, vítima de um acidente com moto, jaz no leito da emergência de um hospital público em uma área carente do Rio. De um lado, sua mãe, religiosa, ainda acredita num milagre e, por isso, se recusa a autorizar doação de órgãos do rapaz. Do outro lado, o diretor do hospital pressiona o cirurgião a resolver logo o impasse, pois precisa dos equipamentos que estão sendo usados para manter o paciente respirando.

"Se você desligar a máquina, o coração para e não tem doação", argumenta o médico. "Mas eu não posso abrir precedente. Encara a realidade, Evandro", responde o diretor. "É o que eu faço aqui todos os dias", suspira o cirurgião. Esta cena, do terceiro episódio, é exemplar das muitas qualidades de "Sob Pressão", série que a Globo está exibindo às terças-feiras, no seu horário nobre.

O primeiro ponto positivo, que logo salta aos olhos, é que o programa, deliberadamente, dá as costas ao que se consagrou como o modelo do drama médico na TV: as séries americanas. Trata-se de um segmento importante na teledramaturgia, desde sempre. E que, no imaginário dos mais jovens, é representado por dois sucessos criados na década passada, "House" e "Grey's Anatomy".

Realizado em parceria com a Conspiração Filmes, "Sob Pressão" ambiciona retratar a realidade da saúde pública brasileira –da falta de recursos, equipamentos e médicos aos muitos dramas do cotidiano, frutos da miséria e da desinformação.

Evandro (Julio Andrade) descobre no segundo episódio que o hospital está pagando R$ 1 milhão por um tomógrafo que, na realidade, custa R$ 500 mil. Samuel (Stepan Nercessian), o diretor do hospital, não vai ganhar nada com a mutreta, mas entende que aceitar o golpe é a única forma de conseguir o equipamento, tão necessário. E convence o seu cirurgião a dar aval à aquisição.

No primeiro episódio, sem drenos para colocar em uma paciente na mesa de cirurgia, Evandro recorre a um pedaço da mangueira utilizada para limpeza. Na definição bem-humorada dos próprios roteiristas, o protagonista é uma espécie de "MacGyver do SUS".

A matéria-prima da série é o livro "Sob Pressão - A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro" (Globo Livros, R$ 29,90, 136 págs.), escrito pelo cirurgião Marcio Maranhão, com base em sua experiência de 15 anos em hospitais públicos no Rio. Mas o programa da TV vai além do caráter documental, muito bem registrado, diga-se, pelos diretores Andrucha Waddington e Mini Kerti. É entretenimento de primeira, na sua mistura de drama, tensão e, acredite, humor.

O roteiro excepcional de Jorge Furtado (com Antonio Prata, Lucas Paraíso e Marcio Alemão) consegue, em paralelo ao registro dos dramas enfocados, dar alguma humanidade aos pacientes que frequentam o hospital e aos médicos.
Arrisco dizer, ainda faltando alguns meses para o fim do ano, que se trata da melhor obra de teledramaturgia exibida pela Globo em 2017.

Em tempo: seria injusto não registrar que, em 2016, uma outra série de ficção brasileira, com ambição semelhante, buscou retratar a realidade das UBS (Unidades Básicas de Saúde) no município de São Paulo. "Unidade Básica", criada por Helena Petta e Newton Cannito, produzida pela Gullane Filmes, traz Caco Ciocler e Ana Petta como médicos que enfrentam problemas típicos de uma região carente de tudo em São Paulo.

Exibida pelo canal pago Universal, a série tem pontos de contato com "Sob Pressão", mas não alcança um resultado tão forte quanto. Em todo caso, seria um bom momento para o canal reprisar os oito episódios.

Profissionais usam táticas empresariais para se antecipar ao mercado DE SÃO PAULO
Gerir a própria carreira como se fosse uma empresa -e passar a monitorar o mercado e os concorrentes- pode ser uma boa estratégia para um profissional se destacar no mercado de trabalho.
A tática é baseada na "inteligência competitiva", metodologia adotada pelas organizações na qual são coletadas informações públicas, como demonstrações financeiras e tendências de mercado, que ajudam na tomada de decisões, como por exemplo a de lançar um produto.
Para o profissional, o primeiro passo é simples: ele pode fazer uma lista das suas prioridades. "Basta colocar as oportunidades e os possíveis problemas, como uma nova tecnologia ou a automação de parte das suas funções, e os seus pontos fortes e suas fraquezas", ensina Alfredo Passos, especialista em inteligência empresarial.
Assim, fica mais fácil a pessoa se comparar com seus pares e observar se e quando vale investir em algum outro idioma, em um curso livre ou em um mestrado profissional.
Essa análise é chamada de Matriz Fofa (veja abaixo), acrônimo para "forças, oportunidades, fraquezas e ameaças", e é uma das mais usadas nas empresas.
A especialista em marketing Carolline Volpato, 21, criou um plano de guerra parecido com a Fofa ao largar a faculdade e começar a investir, mesmo sem qualificação formal, em sua nova área.
"Por pressão da família, fui estudar química. Mas, ao ver uma palestra sobre marketing, decidi que era hora de correr atrás da minha vocação. Procurei o palestrante, pedi para acompanhá-lo por uma semana e logo depois ele me deu uma oportunidade.
Bruno Santos/ Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 17-08-2017: O Carreiras dessa semana vai mostrar como aplicar conceitos de inteligencia competitiva (observacao de concorrencia, mapeamento de mercado etc). Na foto a coordenadora de marketing da Easy Carros Carolline Volpato (21), que largou uma faculdade de quimica para correr atras do sonho de virar especialista em marketing. Ela monitora concorrencia, vai atras de conversar com outros profissionais que admira e procura cursos para se tornar competitiva. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-SUP-ESPECIAIS *** EXCLUSIVO FOLHA***
A especialista em marketing Carolline Volpato, 21, na Easy Carros, onde trabalha, na zona oeste de SP
Para aprender mais rápido as habilidades necessárias na nova função, Volpato faz planilhas nas quais lista contatos-chave do setor, cursos e eventos setoriais, com prazo para completar as atividades.
"Às vezes, procuro 'coordenador de marketing' no LinkedIn e confiro a trajetória de quem já está onde quero chegar. Abordo alguns para pedir conselhos", diz.
Essa busca nas redes ajuda Volpato a descobrir como melhorar sua formação.
Para Dimitriu Bezerra, especialista em RH da Votorantim, o profissional não pode esperar que a empresa lhe ofereça subsídios para melhorar a qualificação.
"As organizações incentivam essa busca, mas cada um deve saber como melhorar. Essa iniciativa é levada em conta na hora de promover alguém, diz Bezerra.
Falta essa disposição para quem já tem alguma experiência, mas ainda não chegou a cargo de gestão, segundo Raphael Falcão, diretor da consultoria de RH Hays.
"Essas pessoas entraram no mercado em um período de pleno emprego, por isso não veem como a competição aumentou nos últimos anos."
A advogada Daniella Corsi veio da área tributária. Antes de virar coordenadora, estudou direito previdenciário, cível, criminal e ambiental. Objetivo: ser diretora jurídica.
"De seis em seis meses planejo o que preciso fazer para me manter competitiva, e acompanho novidades do direito, como a ética empresarial, que está em alta", diz.
Mas vale ter cuidado ao abraçar novas tendências para não seguir a multidão sem critério, aponta Edmarson Mota, professor de desenvolvimento humano da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Isso porque há áreas da moda que acabam saturadas com a alta oferta de profissionais. Um exemplo é a análise de grandes lotes de dados (big data), que anos atrás era a promessa do mercado.
"Não adianta só seguir os outros, mas tentar identificar o que vem por aí antes da maioria", afirma Mota.
Para criar uma vantagem sobre a concorrência, avaliar a própria evolução pode ser mais vantajoso do que competir com os outros.
"A pessoa deve se comparar consigo mesma um ano atrás. Se não houve melhora, não significa que está estável, mas que piorou", diz Eugênio Mussak, consultor de RH e professor da FIA (Fundação Instituto de Administração).
Gabriel Cabral/Folhapress
São Paulo, SP, Brasil, 16-08-2017: Daniella Corsi, coordenadora jurídica da Votorantim. (foto Gabriel Cabral/Folhapress)
Daniella Corsi, coordenadora jurídica da Votorantim, na sede da empresa em SP
Editoria de Arte/Folhapress
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ANÁLISE

Tolerância social favorece medo e vergonha de vítimas de estupro


Os raros casos de estupro coletivo que chegam ao noticiário no Brasil nos fazem acreditar que se trata de uma forma de violência contra a mulher pontual ou isolada, apesar de brutal e chocante.

Num país em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, a Folha revela agora que dez são vítimas de estupros coletivos por dia, totalizando 3.526 casos em 2016.

A dissonância entre a percepção sobre a recorrência desses crimes e o volume de registros disponíveis, ainda que marcados pela subnotificação típica das violências sexuais, aponta para o quão distantes estão as mulheres brasileiras da autodeterminação, da igualdade de direitos e da cidadania plena.

Em primeiro lugar, o fato de parte desses estupros serem registrados em foto e vídeo pelos seus autores e disseminados via redes sociais evidencia a tolerância social deste tipo de violência contra a mulher e a presunção de impunidade de seus perpetradores.
Sendo assim, as mesmas imagens que circulam nos meios digitais como peça de ostentação masculina funcionariam como prova do crime no tribunal, se lá chegarem.

Isso porque os abusadores parecem contar com o silêncio das vítimas, uma vez que há vergonha e culpa envolvidas, mas elas estão estranhamente alocadas, não do lado de quem viola o corpo alheio, mas de quem foi violentada. Reforça esse raciocínio torto o descrédito em relação aos relatos das vítimas e as perguntas, comuns tanto quanto impertinentes durante a apuração dos fatos, sobre sua vestimenta, histórico sexual e hábitos, como se fossem determinantes da violência sofrida.

Este tratamento institucional ensina a mulheres e meninas que elas não têm valor e que o silêncio pode ser boa estratégia de sobrevivência. Exemplos difusos na opinião pública foram recentemente identificados por pesquisas em que 26% dos brasileiros responderam que mulheres que mostram o corpo "merecem ser atacadas" (Ipea) e 42% dos homens concordaram que "mulheres que se dão ao respeito não são estupradas"(Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha).
A este conjunto de fatores, crenças e práticas costuma-se chamar de "cultura do estupro", um ambiente de tolerância, impunidade e desrespeito que perpetua o crime.

O silêncio, no entanto, implica na perda de direitos das vítimas e na aceitação de que estupradores saiam impunes, prontos para novas violações. Seu aliado, o medo, é parte do cotidiano das mulheres, restringindo sua liberdade e participação na vida pública –85% das brasileiras têm medo de sofrer violência sexual.

Desde 2012, porém, esse quadro dá sinais de mudança. No contexto global, foi o estupro coletivo num ônibus em Nova Délhi (Índia) que levou à morte a estudante de fisioterapia Jyoti Singh, 23, que fez eclodirem protestos de mulheres pelo mundo.

No Brasil, foram denúncias de estudantes sobre estupros na faculdade de medicina da USP, em 2012, seguidos das campanhas Chega de Fiu Fiu (2013), #EuNãoMereço SerEstuprada (2014) e #meu primeiroassédio (2015), que trouxeram à tona relatos de famosas e anônimas sobre casos de assédio e estupro, criando uma rede de solidariedade nos meios virtuais.

Como escreveu a historiadora e feminista norte-americana Rebecca Solnit, para quem a denúncia, apesar de difícil, é a chave do combate à cultura de violência contra as mulheres, "o silêncio e a vergonha são contagiosos; a coragem e a fala também".
A raiz dos ódios

RIO DE JANEIRO - Segundo os entendidos, são mais de 8.000 anos do predomínio dos homens no planeta Terra. Pelo calendário gregoriano, são 2017 anos que o cristianismo, religião dominante no Ocidente, prega a igualdade entre os seres humanos, condenando a violência, o racismo e a superioridade de uma raça sobre a outra.

Infelizmente, o atentado desta semana em Barcelona mostrou, mais uma vez, que a humanidade pode superar a brutalidade de certos animais. Nesse particular, tivemos recentemente os casos mais dolorosos da raça humana: o Holocausto nazista, a tragédia de Guernica (na própria Espanha) e os diversos atentados em várias cidades e regiões do mundo em pleno século 21.

Praticamente a cada ano uma grande cidade é devastada por criminosos que, invocando deuses e territórios, colocam a raça humana no mesmo nível dos animais ferozes. O atentado atribuído até agora ao Estado Islâmico é uma prova de que estamos longe de uma sociedade justa. O noticiário desses dias cita os detalhes da carnificina em Barcelona, que se somam às barbaridades de Londres, Nice, Estocolmo, Berlim, Paris, Bruxelas, Munique, Manchester e outras cidades que consideramos civilizadas.

Nesta semana, os atentados de Barcelona e Charlottesville, invocando a supremacia de uma raça sobre outra, demonstram que em pleno século 21 a sociedade humana não aprendeu nem quis aprender os fundamentos básicos da fraternidade que tornariam o mundo mais justo e digno.

Não adiantaram o sonho de Martin Luther King, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi e Jesus Cristo. Com lamentável periodicidade, somos obrigados a admitir o bárbaro estágio em que ainda vivemos.

Infelizmente, o atentado em Barcelona nesta semana não será o último. A raiz dos ódios não foi extirpada dos corações humanos.