Follow by Email

sábado, maio 28, 2016


28 de maio de 2016 | N° 18537 
MARTHA MEDEIROS

Pés no chão

A simplicidade é o novo luxo. Aliás, sempre foi, apenas está recebendo o status merecido diante da falência econômica mundial

Saí de férias nas últimas semanas e não levei nenhum sapato de salto alto na bagagem. Nada contra, acho bonito, só que uso pouco. Salto agulha, só em festas de casamento e similares. Já um saltinho médio, tipo tacão, em botas e sandálias, ok. Mas dessa vez eu saí do país apenas com rasteirinhas e tênis e descobri que estava sintonizada com os atuais costumes, mesmo sem me dar conta. Depois de umas perambulações por lugarejos praianos e vilas medievais, passei três dias em Paris, meca da alta-costura, capital da elegância feminina, e não vi uma única mulher usando salto alto. Sério. Nenhuma.

Por alguma conexão cósmica, no mesmo dia em que percebi isso, li a notícia de que Julia Roberts havia circulado pelo tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes com os pés descalços, em protesto contra a expulsão de algumas mulheres que não seguiram o protocolo ano passado, enquanto que a jornalista Mauren Motta postava em seu perfil no Facebook o apoio à britânica Nicola Tharp, uma recepcionista de 27 anos que se recusou a trabalhar nove horas em pé usando salto e foi demitida.

Não sou partidária do desrespeito ao dress code estipulado por empresas e pelo bom senso: acho que vestir-se convenientemente, de acordo com a ocasião, é uma questão de bons modos. Mas nada impede que a gente repense a obrigatoriedade dos maiores ícones masculinos e femininos: a gravata e o salto alto. O uso de um e de outro deve ser facultativo, não uma imposição.

Posto isso, mudo de assunto, mas nem tanto. Voltei da Europa convencida de que o glamour tornou-se obsoleto. O mundo está em constante mudança, e é hora de sermos mais realistas e práticos. Glamour e ostentação não significam a mesma coisa, mas confundem-se. Tudo o que é over resvala para a cafonice. A simplicidade é o novo luxo. Aliás, sempre foi, apenas está recebendo o status merecido diante da falência econômica mundial.

Não estou falando apenas de consumismo, mas de atitude, de cultura, de estilo de vida. “Menos é mais” já deixou de ser uma tendência para virar um clássico. A Europa não é o paraíso: tem gente nas esquinas pedindo esmola, tem desemprego, tem greves, tem escândalos, nada está assegurado, o pulso pulsa.

Mas pulsa sem espalhafato. A Europa se manifesta num tom mais baixo e nem por isso deixa de ser escutada. Mantém a compostura. Não há celulares em cima das mesas dos restaurantes. Não há barulho excessivo. Não há cores gritantes. Não há tanto agrotóxico, maquiagem, pressa, televisão, grosseria, suores, botox. Não há tanto enfeite, não há tanta sedução ostensiva, não há tanto. As coisas funcionam sem os excessos. Há valores máximos dentro do mínimo.

Voltei sonhando (alto) com um Brasil mais pé no chão.


28 de maio de 2016 | N° 18537 
CARPINEJAR

A matemática do amor


Por mais que se perca a razão no amor, o sentimento guarda uma matemática secreta. Há uma equação escondida debaixo das tormentas do relacionamento. Ninguém levanta alicerces para o edifício das palavras e das juras a dois sem recorrer à trigonometria. Dentro da poesia aparentemente passional, caótica e temperamental da coreografia emocional, é possível localizar a precisão da engenharia e a sustentabilidade da arquitetura.

Na separação, eu realizo um cálculo objetivo que costuma funcionar. A felicidade sempre tem que pagar comissão para a dor. Não é uma taxa opcional – todos serão obrigados a participar.

É um coeficiente mínimo de esforço e sacrifício que cada um vai arcar para se desapegar do ex ou da ex. O separado precisa experimentar um isolamento e expiação proporcional ao tempo da relação. Se você viveu vinte anos com alguém, atravessará dois anos de luto. Se viveu dois anos com alguém, serão dois meses de luto. 

Se viveu dois meses com alguém, a conta de angústia fica em dois dias. Depois da alegria do banquete, cabe separar dez por cento da duração da união para o sofrimento. A saúde de um novo romance depende dessa estranha contabilidade. Encurtar ou alargar o período prejudicará o andamento das suas convicções – ou desistirá do romantismo ou emendará lastros com pessoas erradas e inoportunas.

O mundo adulto é feito de tributações. Onde predominou esperança restará um dízimo de frustração a quitar, onde reinou a ilusão sobrará o pedágio de desapontamento a superar, onde vigorou confiança aparecerão pendências para serem solucionadas. A fórmula da felicidade inclui tristeza e solidão com a ruptura. Depois de ser dois, voltar a ser um requer recuperar a metade doada.

O sofrimento é um garçom implacável de gravata-borboleta. Não achará forma de enganá-lo e fugir da dívida. Com o término do prazer e da idealização, ele estará diante de você com a caderneta preta da fatura na mão direita e a maquininha na mão esquerda:

– Crédito ou débito?

Melhor escolher o débito logo. Adiar o pagamento só aumentará os juros do recalque.

Mas há aquele que trai a objetividade e se separa dentro da relação. Parcela o fim em vinte e quatro vezes, a cada briga e discussão, e quando sai porta afora já não deve mais nada.


28 de maio de 2016 | N° 18537
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O QUE PLANTAMOS


Os poderosos inteligentes sabem o quanto é admirável exercer a humildade

A sensação de poder exige do poderoso algumas virtudes. A mais importante delas é a perspicácia de entender que, neste terreno pantanoso, nada é absoluto nem ilimitado.

Os poderosos inteligentes descobrem precocemente o quanto é fácil e admirável nesta condição o exercício da humildade. Ao contrário dos subservientes por necessidade, os poderosos seduzem quando deixam claro que o poder “não lhes subiu à cabeça”.

Infelizmente, na maioria das vezes, a consciência da supremacia sobre seus pares gera comportamentos extravagantes e repulsivos que, como era de se prever, abrem caminho para a solidão e o abandono no futuro. Em algumas circunstâncias, em que a duração da idolatria é preestabelecida, seja pelo tempo de mandato do homem público ou pela transitoriedade do apogeu físico do atleta ou do artista, mais se exige inteligência na semeadura de afetos respeitosos ou não, que reverterão, logo adiante, em agradecimentos ou retaliações. 

Negligenciar esse destino é negar a inflexibilidade de vida, que só reserva para colheita o que plantamos. A constatação tardia do fracasso na construção desse futuro explica as atitudes destemperadas de políticos pós-mandato e os altos índices de drogadição entre ex-atletas e ex-famosos.

O riograndino apresentou as suas credenciais na primeira consulta. Tinha agendado para o primeiro horário e, quando a secretária lhe perguntou se cederia a vez para um paciente dependente de oxigênio, que confessara o temor de que seu reservatório pudesse terminar antes de chegar em casa, ele simplesmente disse: “O meu horário foi marcado com antecedência e não tenho nada a ver com isso!” Só soube desta cena no fim das consultas, mas ela teria sido apenas um prenúncio da trajetória de desamor que marcou a passagem dele pelo hospital. 

A ostentação e o desapreço que ele dedicou aos funcionários mais humildes encontraram ressonância na atitude dos filhos, que mantinham em relação a ele uma distância compatível com uma rigidez afetiva crônica. As referências elogiosas a mim sempre foram vistas com as reservas esperadas para uma relação em que um dos envolvidos estaria anestesiado e o outro empunharia um bisturi.

A evolução pós-operatória foi ótima, a internação foi curta, não houve tempo nem motivação para que nos gostássemos. E não nos gostamos.

Foi só na terceira ou quarta revisão semestral que “conversamos” pela primeira vez. Empobrecera, e a mulher bonita, mais jovem do que seus filhos, apresentada como esposa lá no início, era a parceira do quarto casamento e recentemente o abandonara. Não restara nada da arrogância antiga, e a necessidade de conversar era o preço da solidão. Nova e pungente. Ao sair, perguntou-me se podia me dar um abraço como agradecimento por tê-lo ouvido, e então senti uma dor por ele e cedi o abraço, não como quem simplesmente consola, mas como quem sente a necessidade aguda de compartilhar sofrimento. 

Só percebi a volubilidade da minha opinião depois que ele partiu. Bastou uma confissão de abandono para que eu sentisse uma pena enorme e esquecesse o quanto aquela punição tinha sido regada por uma vida de egoísmo e desamor. Talvez a minha comiseração tenha sido influenciada pelo pesar atávico que sinto dos ricos que viveram só para si e um triste dia descobriram, com desespero, que todo o dinheiro pode acabar antes que a vida termine.


28 de maio de 2016 | N° 18537 
DIANA CORSO

VOCÊ LEMBRA DO SEU PONTO ZERO?


Se alguma época da vida se assemelha a um casulo às vésperas de ejetar seu conteúdo, essa é a do final da puberdade. A adolescência já engloba as primeiras coisas que ocorrem do lado de fora. Os adolescentes têm amigos e experiências eróticas que, mesmo quando parcos, são suficientes para ignorar que há uma família ansiosa pelo seu destino. Para eles, uma história pessoal começou a acontecer, o que significa que já conseguiram atravessar a soleira da porta de casa. 

Antes disso, estão de pé, apoiados no marco, meio tontos, tentando ficar surdos aos sons domésticos que, às suas costas, chamam para ficar. Nesse momento, os olhos estão voltados para fora, mas ainda não têm forças para dar o passo libertário que os levará a partir. O tempo e o lugar desse impasse seriam o Ponto Zero, título do filme de José Pedro Goulart, que retrata o momento da vida em que esse passo acontece.

Você lembra? Ir e vir da escola, ser extremamente tímido, sentir-se derretendo quando é preciso falar na frente de todo mundo. Desejar e admirar gente que sequer sabe que se existe, provavelmente mais velha. Com sorte, não apanhar de uns caras mais fortes. Ser objeto de olhares de desprezo ou sentir-se transparente, excluído em todos os lugares. Masturbar-se sempre que possível. 

Encontrar alívio no ferrolho do computador: jogos, música, filmes, seriados, animes, mangás, para alguns poucos, leitura. Dormir muito. Responder com monossílabos. Começar a olhar a família como se não se estivesse no recinto, mas sentir urticária até com as vozes deles. Sentir-se preso. Esconder-se dentro do cabelo e de moletons folgados. Espinhas e cabelo sebento. Dormir de roupa, acordar e sair sem se trocar, de estômago vazio. Comunicar-se, no máximo, com um amigo, talvez virtual.

Como essas experiências, o filme é de intensa coloração dramática, contrastando com a quase ausência de ação da vida de um garoto de 14 anos. Ênio é, como todos da sua idade, quase mudo, feito só de olhos que tudo enxergam, embora sem maior expressividade. Olhares que não mostram o que se pensa. Ele tem a falsa quietude de um vulcão, por fora pedras, por dentro a lava borbulha. Quando finalmente sai, sua jornada é de solidão e atos desesperados. O filme é quase alegórico, não importa muito o que de fato acontece, tampouco eu faria aqui a descortesia de revelar. O certo é que, passado o patamar dessa primeira aventura, não há volta.

Não são necessários dragões, zumbis, duendes, mutações ou batalhas épicas para que uma história tenha efeitos metafóricos. Vivências psíquicas são suficientemente fantásticas para evocar significados máximos em eventos mínimos. A magia do filme de Goulart é levar-nos para dentro da cabeça de um quase adolescente que, por fora, pareceria insignificante e imóvel.

Por meio dos seus olhos observamos a falência do casamento dos pais, a distância hipócrita do pai, as chantagens emocionais da mãe, enquanto sua irmã adolescente fala ao telefone e vive tranquila, alheia ao cenário de brigas e sofrimento. Ênio é quieto, tenta minimizar sua presença ao máximo. Esse recurso ao silêncio é mais verdadeiro, pois os pensamentos nessa época não são muito claros, mais feitos de sentenças breves, de desfeita e desprezo, do que de longos parágrafos.

Chega a ser cômica a representação dessa ausência de palavras do protagonista no filme: ninguém realmente escuta as pessoas dessa idade, elas são ignoradas ou destinatárias de sermões e monólogos. Todos lhes falam e nunca os ouvem, nem mesmo quando estão respondendo às perguntas que lhes são feitas. Ponto Zero é uma ótima experiência de dar visibilidade à mais injustiçada época da vida. Prensada entre a infância e a adolescência, a puberdade é uma aventura e tanto. Por isso, seu final é um drama que merecia um retrato como esse.



28 de maio de 2016 | N° 18537 
ANTONIO PRATA

TECLA SAPDO HUMOR

Algum dia, essa nuvem negra estacionada entre o Guaíba e o Amazonas há de se dissipar, o Congresso deixará de ser o valhacouto dos velhacos, o covil dos covardes, o desvão dos desvios e o Legislativo finalmente retratará os múltiplos interesses nacionais. Neste dia glorioso, entre deputadas vegetarianas e senadores hip hop, entre ianomâmis e sadomasoquistas, empresários e budistas, hackers e nudistas, nerds e skatistas, cristãos, judeus, muçulmanos, ateus, punks e umbandistas, me sentirei enfim representado por uma bancada: a bancada dos humoristas – um conjunto de homens e mulheres sérios, empenhados em derrubar o verniz de seriedade que nos impede de enxergar o ridículo de todas as coisas deste mundo.

Enquanto o sol não vem – o cumulonimbus da mesquinharia parece bem fixo sobre nós –, dou aqui minha imodesta sugestão para os excelentíssimos comediantes: sugiro um projeto de lei tornando obrigatória, em todo o território nacional, a tecla SAP do humor. Em qualquer filme de cinema ou programa de televisão, de pronunciamento oficial a novela das oito, de Godard a comercial de margarina, do chamego sob os edredons do BBB aos grampos dos caciques do PMDB, em se apertando a tecla SAP do humor, teríamos a versão paródia do que estivesse sendo exibido. (Para pessoas com problemas auditivos, haveria legenda ou um mímico fazendo umas patacoadas num quadradinho, embaixo da tela).

Aparece o Temer, você aperta a tecla SAP e ouve a Tatá Werneck falando uns absurdos. William Bonner daria notícias delirantes sobre, digamos, uma chuva de cupcakes em Quixeramobim – com a voz do Pato Donald. Donald Trump só falaria espanhol, com sotaque árabe – sobre sexo. Debates entre políticos seriam dublados ao vivo pelo pessoal do extinto Rock Gol, da MTV. Marcelo Adnet recriaria os textos de todas as novelas bíblicas. 

Gregório Duvivier seria o encarregado pela Iurd. Pedro Cardoso faria a voz nos filmes do Bruce Willis. Bruno Mazzeo narraria todos os jogos de futebol e todos os jogos de futebol seriam do Vasco e o Vasco ganharia tudo, da série C de Santa Catarina a Champions League. (Se já houvesse a tecla SAP do humor na semifinal da Copa de 2014, Vasco x Alemanha teria terminado 7 a 1 pro Vasco – o Vasco seria o time de camisa branca, claro, a Alemanha, aqueles perdidões de amarelo).

Se você quisesse, poderia passar o dia com a tecla SAP do humor apertada: seria como assistir à realidade a contrapelo, ao mundo bizarro no desenho do Superman, ao lado de lá em Alice através do Espelho, seria o Porta dos Fundos entrando pela porta da frente nos lares e Cinemarks da nação.

Haveria apenas duas exceções em que a tecla SAP do humor não funcionaria: no horário eleitoral e em votações do Congresso. Ver a bancada da bala defender a vida, o Partido da Mulher Brasileira criticar o feminismo e religiosos usarem o nome de Cristo para reduzir a maioridade penal já é patético o suficiente. (Pensando bem, o 7 a 1 tampouco precisaria ser dublado. Melhor seria assistir a ele sem falas, em preto e branco, com um pianinho animado ao fundo, como uma boa comédia do Chaplin ou do Buster Keaton.)

28 de maio de 2016 | N° 18537 
DAVID COIMBRA

Mais punição é igual a mais humanidade

As feministas têm razão quando dizem que todo homem é um estuprador em potencial.

Você, homem tão sofisticado que se detém para ler o jornal, haverá de protestar:

– Eu não sou estuprador! Decerto que não. Como não é assassino. Mas tem, no recôndito mais sombrio da alma, potencial para ser ambos.

O homem é naturalmente mais agressivo. Vide a população carcerária, majoritariamente masculina. Vide os acidentes de trânsito fatais, quase sempre causados por homens. Mas não tem de ser assim. Não deve. Nem pode.

Mata-se, no Brasil – 60 mil pessoas por ano. Estupra-se, no Brasil – 13 mulheres por dia só no Rio de Janeiro. A diferença é que mesmo o matador mais frio está consciente de que cometeu um crime monstruoso. O estuprador, não. Os 30 homens que estupraram uma jovem no Rio, dias atrás, jactaram-se do que fizeram e postaram cenas na internet. Como se fosse natural.

Não é. Porque não somos bichos. Somos homens. Tornamo-nos homens. A cultura do estupro é ancestral.

Uma das principais armas de desmoralização do inimigo, nas guerras, é o estupro. No caminho para a tomada de Berlim, na II Guerra, os russos estupraram 2 milhões de alemãs, debaixo de consentimento e até incentivo oficial.

Quando você ouvir falar em “rapto” de mulheres na Idade Média ou na Antiguidade, entenda “estupro”.

Os romanos primevos raptaram as sabinas e as tomaram como esposas – depois de violentá-las, claro. Os sabinos, furiosos, queriam a guerra. Mas as sabinas, tendo passado algum tempo com os romanos, argumentaram que eles já tinham se tornado seus maridos. “Se houver guerra e vocês perderem”, argumentaram elas, “perderemos nossos pais e irmãos. Se vocês vencerem, perderemos nossos maridos”. Os sabinos se deixaram convencer e os povos se fundiram, em vez de se dizimarem.

Perceba a naturalidade com que a violência era encarada.

Gengis Khan, o maior estuprador da História, dizia:

– Não existe prazer maior do que derrotar o inimigo, tomar suas posses, cavalgar seus cavalos e violar suas mulheres.

Seguindo essa máxima, Gengis Khan se tornou um sucesso genético: calcula-se que cerca de 32 milhões de pessoas descendam dele hoje, mil anos depois de sua morte. São os filhos de milhares de estupros.

Se o macho humano pudesse, continuaria vivendo como bicho. Foi assim na maior parte do tempo. Se for verdade que o Homo sapiens surgiu há 200 mil anos, 95% desse período ele o passou em nomadismo, quase sem regras, a não ser a do mais forte.

Foi a mulher que civilizou o homem. Mais especificamente, a mãe. Não é por acaso que as deusas das épocas remotas da humanidade eram deusas-mães. Venerava-se A Grande Mãe. Porque, quando não se sabia nem qual era o papel do homem na reprodução, a mãe era a referência.

As necessidades da mãe criaram a civilização. Quando grávida, a mulher tem dificuldades para se deslocar. Quando pequenas, as crianças demandam cuidados. É preciso ficar, não estar em movimento. As mulheres, as mães, inventaram o sedentarismo, a agricultura, a propriedade privada, o capitalismo e a civilização.

E qual é o significado real de civilização? É repressão.

A civilização nada mais é do que o controle do instinto humano.

Que se dá através dos costumes. Que se transformam em lei.

Voltamos agora ao caso do crime horrendo ocorrido no Rio. Por que aqueles homens cometeram tamanha brutalidade contra aquela garota?

Porque podiam. Porque a lei brasileira é leniente. É permissiva e, sendo permissiva, “permite” qualquer coisa a qualquer um.

Os menores que violaram a menina não serão presos. Se forem detidos, estarão soltos em no máximo três anos. Os adultos tampouco ficarão muito tempo na cadeia.

Eles sabem disso. Isso tem de mudar. A lei nos humaniza. A repressão nos civiliza. Há que se endurecer a lei para casos de estupro. Há que se tratar monstruosidades, como a que ocorreu no Rio, exatamente como o que são: monstruosidades.

O Brasil precisa de repressão. Precisa de punição. A punição educa. Lembre-se: a punição educa.

sexta-feira, maio 27, 2016



RICARDO NEVES
06/05/2016 - 19h30 - Atualizado 10/05/2016 16h49

Se você é jovem, é hora de você dizer "Adeus, Brasil!"

Você tem entre 20 e 30 anos? Não desperdice a sua entrada na vida adulta aguardando uma chance para sua decolagem. O país ainda vai ficar no chão por vários anos

Fique certo de que o Brasil vai ficar taxiando no solo ao longo dos próximos anos. Pelo menos até 2020 vamos ter de resolver em primeiro lugar um amargo, profundo e complexo ajuste fiscal. Isso mesmo. Aquele que foi prometido e alardeado no início de 2015 por Dilma Desastre e que não saiu do lugar.

Em paralelo com o tal ajuste que deve vir aí, o país vai assistir a um processo político-jurídico similar ao Julgamento de Nuremberg ao final da Segunda Guerra. Isso mesmo. Após a saída da Dilma, não vai dar para simplesmente virar a página e tocar em frente.

Nós vamos assistir ainda ao prosseguimento da Lava Jato até o final deste ano e na sequência o maior julgamento da história deste país. Neste julgamento teremos com réu pelo menos um ex-presidente, muito provavelmente dois, e muitos outros peixes grandes. E isso, fique certo, vai durar anos até saírem as sentenças.

>> As jovens empresas que, na crise, emprestam a juros mais baixos que os dos bancos

As empresas vão ter que se espremer e se reinventar para voltar a crescer neste cenário de terra arrasada que Dilma Desastre deixa para trás. Não veremos uma volta por cima da economia como gostaríamos. Vai ser um trabalho árduo para adultos calejados, que têm responsabilidades que você, jovem, ainda não tem; e que não têm também as alternativas de flexibilidade que você tem. Não tem caminho mágico e fácil à frente.

Você é daqueles jovens identificados como “concurseiro”? Sinto muito. Não aposte suas fichas nisso. O ajuste fiscal e a reconfiguração que vão delinear o novo setor público brasileiro nos anos à frente vão restringir novas contratações de maneira severa.  A máquina pública está inchada e é pouco produtiva.

>> O desemprego entre jovens levará milhões à pobreza, diz pesquisadora da FGV

A austeridade de governo aqui no Brasil deverá seguir regras similares da austeridade em outros país que já fizeram o ajuste. Por exemplo, em Portugal a regra de contratação no setor público agora é chamada “2 para 1”, isto é, dois funcionários da ativa precisam sair para que seja contratado um novo.

Não perca tempo. Aproveite que a terceira década é a melhor para que o ser humano desenvolva uma cabeça global. É justamente entre os 20 e os 30 anos que uma pessoa aprende a operar multiculturamente, isto é, a entender e participar em ambientes diferentes do seu habitat natural, local e nacional.

>> Vote: se você fosse um cientista importante, você deixaria o Brasil?

Jovens com cabeça global constituem um dos principais ativos, um dos principais recursos para que um país se desenvolva e participe com protagonismo do ambiente global. Todos os países que se tornam grandes players devem superar aquela linha mágica de ter metade de seu PIB resultante de exportação. E não é exportando commodities, como nos acostumamos. É exportação de produtos e serviços de alto valor agregado.

É o que mostra a história da economia desde o final da Segunda Guerra Mundial com os exemplos de Alemanha, Japão, Coreia do Sul e agora China -- países que atingiram essa marca mágica de exportar pelo menos a metade do que produzem.

Nem nos melhores momentos o Brasil nunca passou de 20% de seu PIB gerado por atividades de exportação, sendo que infelizmente a maior parte da riqueza exportada não foi de produtos de alto valor agregado, como a produção de aeronaves da Embraer, por exemplo. Riqueza de alto valor agregado demanda gente qualificada e com cabeça global e é isso que você deve considerar como seu passaporte de retorno ao Brasil.

Compre uma passagem pra o exterior imediatamente e monte lá uma rede de conhecidos no que o ajude nos primeiros meses. A internet está aí para isso. Aproveite a sua juventude e seja ousado.

Se não tiver dinheiro para passagem e para as primeiras semanas, passe o pires na família. Ou então faça um livro de ouro. Rife alguma coisa. Faça uma vaquinha na internet, o tal do crowdfunding. Mas vá.

Não desperdice uma chance de ouro num momento em que esse país ainda está na UTI e de onde não vai sair tão breve. Vá! Vá e viva no mínimo uma grande aventura. Nós vamos ficar aqui tentando -- mais uma vez! – consertar esse Brasil desandado, legado de Dilma Desastre. Vocês sempre terão um lugar aqui entre pais, avós e amigos. E vai fazer muito bem a vocês voltarem com cabeça mais cosmopolita e globalizada.

WALCYR CARRASCO
24/05/2016 - 08h00 - Atualizado 24/05/2016 17h02

A eterna busca de alguém

Casamentos não são mais feitos para durar. Insatisfações do cotidiano tornam-se fardos insuportáveis


Casais que duram a vida inteira são tão raros como zebras. Existem, mas são admirados como bichos no zoológico.

– Imagine, completaram 30 anos de casados! Os amigos, filhos, parentes aplaudem e tentam entender.

– Como se suportaram tanto tempo?

Nunca falta quem faça uma lista de defeitos dos cônjuges.

– Mas também aguentar aquele velho chato a vida toda!

– Ela manda nele, é insuportável.

Dor de cotovelo. Poucos conseguem manter uma relação durante tanto tempo. Mais complexo, há um consenso de que a separação é algo bom. Muitos filhos, inclusive, estimulam as mães a separar-se. Conheci um rapaz que fortaleceu as divergências entre mãe e pai. Depois da separação, o pai se recusou a dar pensão. Sobrou para ele, que trabalha que nem doido como comissário de bordo. A mãe faz o que pode, mas era dona de casa em tempo integral.

– É muito bom, ela está numa nova fase. Exatamente. Uma fase solitária. O filho voa de um lado para o outro, namora. Ela, à espera. Mas o rapaz anda insatisfeito:

– Agora que tenho de segurar as pontas da minha mãe, não posso casar!

Casamentos não mais são feitos para durar. Às vezes, nem dá tempo de os dois abrirem os presentes. Um casal de atores casou-se apaixonado. Na volta da lua de mel, ele se separou no aeroporto. Já estava com outra. Pequenas insatisfações do cotidiano, que no passado seriam absorvidas em nome da família, dos filhos, tornam-se fardos insuportáveis. Juro, é verdade: um conhecido sempre jogava a toalha molhada em cima da cama, ao sair do banho. Ela reclamava. 

Ele jogava. A toalha tornou-se motivo de disputa e tortura psicológica. Ela se separou antes de um ano de casada. Um rapaz namorou cinco anos com uma garota. Durante esse tempo, fumava e jogava baralho. Assim que se casou, ela passou a reclamar do cigarro. Ele parou. Em seguida, ela atacou o baralho. Ele deixou o grupo. Também parou de jogar futebol. Chegou a vez da sogra: ela não suportava. Depois dos cinco anos de amizade no namoro, as duas viviam um inferno. Ele se afastou da mãe. A mulher passou a reclamar da situação financeira. Ele arrumou outro trabalho. Cumpria dois períodos. Ela se separou:

– Você não me dá mais atenção. Vive na rua.

O marido de uma secretária que conheço perdeu o emprego. Aos 50 anos, é difícil arrumar outro. Ela manteve a casa. Ele montou uma van de hot dog. Não deu certo. Impossível segurar a família. Ela o atacou. Como se a culpa não fosse dele, da idade, da crise. Foi para a casa da mãe com as filhas. Mas a sogra não queria saber do genro. A última notícia que tive: ele foi morar na rua. O sonho de uma garota de Brasília era casar com um diplomata. Bastava pertencer ao Itamaraty, ela se interessava. Achou um. Seis meses de namoro, casaram-se. Não deu um ano e meio, separaram-se. O argumento da moça.

– Ele viaja demais. Mas não era diplomata?

Há homens que casam com uma garota de 20. Tudo é felicidade. Quando ela começa a amadurecer, separam-se. Ele arruma outra, de 20. E depois... é tudo igual. Suas ex-­mulheres formam uma escadinha de idades, frequentemente com o mesmo tipo físico.

É uma época de impaciência para com o outro. O amor é volátil, como um líquido que evapora ao contato com o casamento. Tanto que, nas plantas de apartamentos de luxo, vem a grande opção: um banheiro para cada um. Já ouvi de uma amiga:

– Eu não conseguiria continuar casada se tivéssemos o mesmo banheiro.

Que amor é esse, que depende do banheiro?

Todo relacionamento vive impaciências. Dificuldades. Pequenas chatices do dia a dia no passado seriam relevadas. Quando alguém se casava, queria que fosse para sempre. Atualmente, parece até que se separar é mais importante que casar. As pessoas acreditam que estão entrando numa nova fase, para preencher o vazio interior. Entram em cursos, buscam novos grupos de amigos. Mulheres mudam o penteado, homens correm para perder a barriga. E depois encontram alguém parecido com quem já tinham, pois a mudança foi somente exterior. Unem-se e, dali a pouco, a rixa recomeça.

A grande questão é que, para amar o outro, é preciso amar a si mesmo. Está difícil, em tempos tão contraditórios. Cada vez que alguém se separa e encontra outra pessoa, não é uma renovação em si. Mas o produto de uma insatisfação interior que não será resolvida pelo par. Resultado: ao primeiro deslize, a separação. Tem muito marido que já perdeu a mulher porque se esquecia de abaixar a tampa do vaso.

j. p. cuenca

Ministério da Educação e da Cultura do Estupro
26/05/2016  16h00


No dia em que virou notícia o caso de uma menor de idade dopada e estuprada por 30 homens, crime exposto em vídeo com risadas e piadas na internet, foi recebido pelo ministro Golpista da Educação e pelo ministro Biônico da Cultura um ator conhecido, entre outras coisas, por ter confessado o estupro de uma mãe de santo na TV –depois disse que aquilo era parte do seu show de stand up, apenas uma piada. Kkkkk.

Ficcional ou não, o relato de estupro foi recebido com aplausos e gargalhadas no programa do mesmo comediante que comentou a gravidez de uma cantora dizendo que "comeria ela e o bebê". O apresentador também disse, num show de stand up, que mulher feia deveria ver estupro como "oportunidade" e não "crime": "Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço". Defendeu-se dizendo que, claro, aquilo era apenas uma piada. Kkkkk.

Os homens que participaram desse estupro coletivo no Rio de Janeiro foram os que violaram a menina, os que a filmaram, os que compartilharam esse vídeo e os que fizeram comentários e piadas na internet sobre as imagens publicadas. Nenhum deles foi capaz de questionar o crime hediondo. Nenhum deles sentiu raiva, nojo, repulsa. Nenhum deles brigou para salvar a garota. Não saiu porrada. Nenhum deles foi a exceção: eles são a regra. No vídeo há gargalhadas. Em redes sociais, riram da mulher desacordada e sangrando assim: Kkkkk.

Todos eles também devem achar as piadas de Alexandre Frota e Rafinha Bastos sobre estupro muito engraçadas. Kkkkk.

Os números oficiais afirmam que uma mulher é estuprada no Brasil a cada 11 minutos. Como o crime é o mais subnotificado de todos, acredita-se que apenas entre 10% a 35% registrem queixa à polícia. Conhecendo nossa polícia, faz sentido. Estudos do Ipea apontam justamente para o pior cenário: 476 mil casos de estupro em 2014 no Brasil, cerca de um estupro por minuto. Segundo pesquisa Datafolha, 90% das brasileiras têm medo de ser vítima de agressão sexual. Faz sentido. Enquanto você leu os parágrafos acima, duas brasileiras devem ter sido estupradas.

O apelido do criminoso que divulgou o vídeo desse estupro é Michel Brasil. Faz sentido. Nesse país machista, autoritário, patriarcal e violento, onde culpar a vítima é regra e a impunidade de gente como ele está garantida, ele está em casa.

Não só ele. Nós. Todos os homens somos responsáveis pela manutenção da violência contra a mulher.

Não precisamos atacá-las fisicamente ou fazer piadas misóginas naturalizando violência para isso. Ao negar sua voz, ao tratá-la como nossa propriedade, ao objetificar sua existência, ao sermos os prepotentes narcisistas perversos e opressores que costumamos ser: o problema é nosso, a culpa também.

Só ficar consternado e escrever textinho oportunista pra ficar bem na fita não adianta. Existe um abismo de empatia que precisa ser atravessado –e isso é uma batalha diária que precisamos travar contra nós mesmos, contra nossa própria covardia e privilégios de gênero. Do contrário, nossas atitudes e palavras em momentos como esse terão a mesma substância de um livro de mesa de centro.

Autocrítica ou desconstrução é pouco: precisamos de uma autodemolição. 
Notícia da edição impressa de 13/05/2016. Alterada em 12/05 às 21h31min

Os pecados de Dilma e a guerra dos cabides



REPRODUÇÃO/JC
O festejado jornalista Ricardo Noblat apresentou, na versão impressa de O Globo e em seu blog, uma análise sobre o comportamento da presidente afastada Dilma Rousseff (PT) nos seus cinco anos e quatro meses de poder. O relato vem recheado por detalhes de situações pitorescas, humilhantes. Os dois mais notórios são o de uma ex-ministra que fez pipi na roupa e o da camareira que enfrentou a presidente em uma "guerra de cabides". Eis o resumo:
1. GULA - Dilma emagreceu 20 quilos no período de pouco mais de um ano e emagreceu também o País ao fazê-lo mergulhar na pior recessão de sua história desde os anos 30 do século passado. Nem por isso ela deixou de atentar contra o pecado da gula. Presidente algum, nem mesmo os da ditadura de 1964, se empenhou tanto em concentrar o poder como Dilma o fez. Seu apetite era insaciável. Confiou em poucos auxiliares. E mesmo desses costumava duvidar quando lhe diziam o que não queria ouvir. Foi uma gerente à moda antiga e, como tal, ineficiente. Na organização de esquerda na qual militou nos anos 1970, ganhou fama como tarefeira. Fazia o que lhe mandavam. E só se distinguiu por isso.
2. AVAREZA - O dicionário capenga de Dilma não tem o vocábulo "elogio". O que move pessoas, levando-as a superar limitações, é o reconhecimento. Sem ele não se consegue desempenho acima da média. A maioria dos ministros escolhidos por Dilma destacou-se por sua mediocridade ou falta de iniciativa. Mesmo os melhores acabaram se igualando aos demais por falta de incentivo. Fernando Haddad (PT), atual prefeito de São Paulo, largou o Ministério da Educação. Nelson Jobim (PMDB) deixou o Ministério da Defesa, para não ter que brigar com Dilma. "Não, você não entende de nada disso", gritava se a opinião de um ministro ou assessor a contrariasse. Certa vez, de tão assustada com o que Dilma lhe disse, uma ministra da área social fez pipi na calça, em plena reunião ministerial.
3. LUXÚRIA - O desejo egoísta por todo o prazer corporal e material está longe de marcar o desempenho de Dilma como presidente. Mas a vontade de sentir-se superior em relação aos semelhantes é também uma forma de luxúria. Humilhou Geddel Vieira Lima (PMDB), então ministro da Integração Nacional, num encontro dos dois com Lula (PT). Desde que eleita, exigiu ser tratada como "presidenta" e, para tanto, até sancionou uma lei (nº 12.605/12), que só faltou ter a fotografia dela, ao determinar o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas. Expulsou um general do elevador privativo do Palácio do Planalto. Fez chorar José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. E deixou em pânico o jardineiro do Alvorada ao culpá-lo pela bicada de uma ema no cachorro que ela ganhara de presente de José Dirceu (PT).
4. IRA - Um dos ministros do governo inicial de Dilma anotou os frequentes surtos presidenciais. Quando ele já colecionava 16 episódios em dois anos, desistiu, porque a ira já havia se banalizado. Dentre eles, o que ficou conhecido como "A guerra dos cabides". Irritada com a arrumação do seu guarda-roupa no Alvorada, a presidente começou a jogar cabides em Jane, a camareira. Esta reagiu jogando os objetos de volta. A servidora acabou demitida, mas depois foi presenteada com outro emprego, em troca do seu silêncio.
5. INVEJA - A inveja de Lula responde por uma série de atritos que Dilma teve com ele, prejudicando seus governos. Logo de saída, tentou mostrar que não seria tolerante como Lula fora com os suspeitos de corrupção. Considerava-se a "faxineira ética", capaz de demitir sete ministros em menos de um ano. Nos anos seguintes, aconselhada por Lula, ela readmitiu alguns e empregou representantes dos outros para garantir apoio à sua reeleição. Descumpriu um pacto, não escrito, assumido com Lula que permitiria o retorno dele à presidência em 2014.
6. PREGUIÇA - Não fugia de longos expedientes e de meter-se em tudo, inclusive no que não deveria. A preguiça de Dilma foi a de não ouvir, não conversar, não trocar ideias e não gostar de conviver com pessoas. Dilma é uma mulher solitária; amava o pai; não se dá bem com a mãe. Quando a Câmara aprovou o impeachment, o ministro Jaques Wagner (PT) sugeriu a Dilma que telefonasse para cada um dos 137 deputados que haviam votado a favor dela, a quem entregou a lista dos 137 com pelo menos dois ou três números de telefone de cada um. Destacou quatro telefonistas para as ligações. Dilma não quis. Entrementes, Michel Temer (PMDB) telefonou para todos os 367 deputados que votaram a favor do impeachment. Muitas razões explicam a queda de Dilma, mas talvez a principal seja o fato de ela não gostar de ninguém e de ninguém gostar dela.
7. SOBERBA - Desprezou os políticos em geral, e a maioria deles em particular. Evitou aproximar-se deles e recebê-los. Tratou-os como cargas que era obrigada a carregar. Um exemplo: há mais de três anos, o ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pede, sem sucesso, para ser recebido por ela. Diante do risco de a Lava Jato bater à sua porta antes da reeleição, Dilma divulgou uma nota que afastava qualquer culpa dela, mas que deixava Lula exposto à suspeita de que a roubalheira na Petrobras fora obra dele, sim. Pode ter sido. Mas pode ter sido de Dilma também. Por mais que a soberba a impeça de reconhecer, ela e Lula estarão ligados para sempre pela história do País.

Responsabilidade dos notários

Foi a última canetada legal de Dilma, antes da queda. Ela sancionou anteontem a Lei nº 13.286, que dispõe sobre a responsabilidade civil de notários e registradores, alterando o art. 22 da Lei nº 8.935/1994.
Entra em vigor a seguinte nova redação: "Os notários e oficiais de registro são civilmente responsáveis por todos os prejuízos que causarem a terceiros, por culpa ou dolo, pessoalmente, pelos substitutos que designarem ou escreventes que autorizarem, assegurado o direito de regresso".
A pretensão de reparação civil prescreve em três anos, contado o prazo da data de lavratura do ato registral ou notarial.

Falência da autoridade política

Quando Fernando Collor caiu, na última semana de dezembro de 1992, o jurista gaúcho - e ex-presidente do Grêmio Porto-Alegrense - João Leitão de Abreu foi entrevistado pelo jornalista João Bosco Rabello, de O Globo. Apontando para uma pilha de livros sobre Direito Constitucional e Introdução à Ciência do Direito, Leitão explicou que "estas são obras muito boas sobre Direito, mas nenhuma delas faz referências à falência da autoridade política". Collor caiu por isso.
Dilma repetiu a falência da autoridade política. O que ela dizia deixou de valer; o que ela determinava que fosse feito era ignorado. A presidente passou a viver em um mundo de ficção. E assim será até que sua sorte seja definitivamente selada dentro de seis meses.

O presidente 'picante'

O novo presidente brasileiro é "um reconhecido advogado constitucionalista, que tem aparência ligeiramente gótica e que, a despeito da expressão impassível, tem uma vida pessoal um pouco picante", afirmou, na quarta-feira, o jornal londrino Financial Times, num perfil sobre Michel Temer. Conforme a publicação, ele terá a tarefa de "resgatar a maior economia da América Latina de uma profunda recessão e restaurar a fé pública na classe política que foi devastada pelo escândalo de corrupção na Petrobras".
O perfil explora especialmente os aspectos pessoais da vida do vice-presidente, como o casamento e as poesias escritas por ele. Chegar ao Palácio do Planalto, diz o jornal, "vai levar o ex-professor de Direito, cuja expressão impassível esconde uma vida pessoal mais picante, ao centro das atenções".
A publicação relembra que, "casado três vezes, Temer começou a namorar a terceira esposa, Marcela, uma ex-modelo, 40 anos mais jovem do que ele, quando ela ainda era uma adolescente. Sua aparência ligeiramente gótica também levou um rival a rotulá-lo como "mordomo da casa do terror". O texto menciona uma entrevista à revista TPM, em que Marcela diz que o marido parece ter 30 anos de idade e o classifica como um homem "extremamente charmoso".
O perfil arremata que o novo presidente, porém, "pode ser ameaçado pelo esquema de corrupção na Petrobras, pois seu nome foi citado por algumas testemunhas ouvidas pela investigação". O jornal ressalva que "porém Temer não está sendo investigado oficialmente e nega qualquer irregularidade no caso".

A piora do Congresso

O deputado Ulysses Guimarães espantou muita gente quando disse, em 1990, uma frase que passou a se constituir num autêntico teorema político: "Um novo Congresso será sempre pior do que o anterior". Que o confirme, agora, o desastrado Waldir Maranhão (PP-MA).
A "rádio-corredor" do Conselho Federal da OAB "cunhou" agora (é bem esse o verbo) o que se chama de "Teorema do Cunha": "Como é certo que, a cada quatro anos, alguns novos deputados vão se corromper, e que nenhum dos corruptos já estabelecidos vai se regenerar, assim se explica porque, a cada legislatura, o Congresso está piorando".

Getúlio Vargas no divã


Getúlio Vargas (1882-1954), para muitos, ainda, o maior presidente brasileiro, já foi objeto de inúmeros estudos, livros, reportagens, artigos, filmes, documentários, debates, teses acadêmicas e permanece como tema inesgotável para nós, por sua personalidade fascinante, pelo tempo que permaneceu no poder e por ter sido um dos grandes líderes políticos do século XX. Concordando ou não com suas ideias, gostando ou não de suas realizações, o fato é que não se pode entender, conhecer e analisar o Brasil sem passar pela vida pessoal e pela trajetória política do "Pai dos pobres", para muitos, e "Mãe dos ricos", para outros.

Mais recentemente, os três volumes de Lira Neto sobre Vargas vieram a somar-se, com brilho, às obras do historiador Hélio Silva, de Alzira Vargas (filha de Getúlio) e de muitos outros e, agora, o psicanalista, professor universitário e jornalista João Gomes Mariante, colaborador do Jornal do Comércio, lançou Getúlio Vargas - O lado oculto do presidente (Sfera, 184 páginas), no qual apresenta uma análise psicanalítica apurada de um de nossos maiores personagens históricos.

Mariante, porto-alegrense nascido em 1918, com seus mais de 60 anos de experiência na área psicanalítica e jornalística, utilizando elementos de história, documentos e com base em sua enorme cultura e erudição, convida os leitores a percorrerem os muitos labirintos das incontáveis facetas da mente e da personalidade de Getúlio. Dr. Mariante é membro efetivo da Associação Internacional de Psicanálise, da Associação Brasileira de Psicanálise, da Associação de Psicologia e Psicoterapia de Grupos em Buenos Aires, membro da Academia Sul-Riograndense de Medicina e foi professor universitário em Buenos Aires e São Paulo.

No prefácio, o médico e escritor J.J. Camargo relata: "o Professor Mariante, com sua percepção psicanalítica apurada enriquece o entendimento do personagem que desde muito cedo revelou uma fixação pela ameaça da própria morte como um instrumento de barganha política (...) E por fim ele cumpriu o que parecia ser uma mera chantagem emocional, e deixou o Brasil com sentimento de culpa por não ter percebido o tamanho do seu desconsolo a tempo de confortá-lo. 

Constrangidos de tê-lo abandonado a uma solidão intolerável, os seus amados preferiram ignorar seu fracasso como ser humano e trataram de ungi-lo à condição de herói nacional. Foi por isso que se chorou tanto pelas ruas e avenidas do País naquele fatídico agosto que reluta em terminar no coração dos que o amaram".

Mariante, que foi chamado pelo próprio Vargas para seu círculo de amizades, ao lado de informações e comentários sobre os vários períodos da vida de Getúlio e do Brasil, acrescenta, na obra, citações e ensinamentos de mestres da psicanálise, da psicologia, da filosofia, da literatura e os relaciona com a vida e a trajetória política de Getúlio Vargas.

A propósito...

"Pai dos Pobres", "Mãe dos Ricos", "Esfinge dos Pampas", herói, vítima, ditador, democrata, muitas definições, muitos Getúlios passam pelo olhar atento do Dr. Mariante, que, antes, nos livros Os ases de 30 e Três no divã, já havia estudado e interpretado o falecido presidente. Getúlio lia escritores suicidas, flertou com a morte desde a infância, e este livro nos ajuda a compreender os posicionamentos políticos, a personalidade, as influências, as emoções e a depressão que marcaram sua existência.

Notícia da edição impressa de 27/05/2016. 
Alterada em 25/05 às 19h36min


Aventura e castigo no clássico de Conrad
O romance é uma clássica história de aventura, traição e castigo

Um pária das ilhas (Artes e Ofícios, 304 páginas, R$ 49,00, tradução de Jorge Ritter), romance do genial ucraniano Joseph Conrad (1857-1924), é uma clássica história de aventura, traição e castigo. Conrad é filho da nobreza polonesa, cujos pais foram presos e condenados a trabalhos forçados na província russa de Vologda, junto com ele, de quatro anos. A mãe morreu pouco tempo depois de tuberculose e o pai quando o menino tinha 11 anos.

Aos 16 anos, em Marselha, Franca, Conrad ingressou na marinha mercante e nela ficou por 20 anos, viajando pela Ásia, África, América do Sul, Oceania e Europa. A experiência marcou sua vida e sua literatura. Ele é autor de clássicos como O coração das trevas, Nostromo e Lord Jim. Escreveu 17 romances, sete novelas, livros de memórias e ensaios, além de textos sobre suas próprias obras.
Um pária das ilhas é seu segundo romance. O primeiro foi A Loucura de Almayer. 

Seus textos ficcionais têm em comum o tema do conflito do homem contra o próprio homem, dos limites da natureza humana e do confronto do homem frente a natureza selvagem. Escreve o autor: "Um pária das ilhas é um desses romances que nunca foram deixados de lado e, apesar de me trazer o rótulo de 'escritor exótico', não creio que seja de forma alguma justificável. Realmente não consigo ver o menor espírito exótico na concepção ou estilo deste romance. Certamente é a mais tropical de minhas histórias passadas no Oriente."

Sobre o protagonista Willems, Conrad contou que ele não era particularmente interessante. O interesse foi despertado por sua posição dependente, seu status estranho, incerto, de um europeu esgotado, sem a confiança e a amizade de ninguém, vivendo da tolerância relutante daquele assentamento escondido no coração da floresta, subindo aquele arroio sombrio no qual o nosso barco era o único de homens brancos que havia para se hospedar.

Com suas faces encovadas e barbeadas, um farto bigode grisalho e olhos sem qualquer expressão, sempre vestido com um pijama imaculado bem amarrado a frente, o que deixava seu pescoço magro totalmente descoberto, e com os pés descalços em um par de chinelos de palha, ele vagava silenciosamente entre as casas durante o dia, quase tão taciturno quanto um animal e pelo visto muito mais desamparado.

A narrativa de 1896 detalha a vida e a ruína de Peter Willems, homem de má reputação, imoral, que, fugindo de um escândalo em Macassar, encontra refúgio em uma aldeia nativa, só para trair seus benfeitores pelo desejo sobre a filha do chefe tribal.

Os leitores que o conhecem Conrad já sabem, e os que não o leram vão observar por que ele é um dos grandes autores da língua inglesa - língua que ele aprendeu realmente depois de adulto, apesar de ter tido os primeiros contatos ainda quando criança, ao ver seu pai traduzir Shakespeare e outros autores.

Lançamentos

O livro é uma biografia em quadrinhos do fundador da Apple

Espia só - As músicas de Octávio Dutra - songbook com 56 páginas e CD mais o livro A trajetória musical de Octávio Dutra (118 páginas), da Laser Press, textos de Márcio de Souza e coordenação de Omar de Barros Filho, com produção de Carlos Peralta, apresenta obras do compositor, violonista, arranjador, maestro porto-alegrense e precursor do chorinho entre nós.

Soldados da borracha: o exército esquecido que salvou a II Guerra (Edipucrs, 244 páginas), do consagrado brasilianista e jornalista Gary John Neelman e de sua esposa, a professora e escritora Rose Neelman, trata de uma das mais dramáticas e não contadas histórias da Segunda Guerra. Milhares de homens trabalharam e morreram para ajudar os Aliados, buscando borracha em um período crítico.

Steve Jobs - Gênio do Design (Escrituras, 104 páginas), de Jason Quinn e Amit Tayal, com tradução de Luiz Gadelha, traz uma bela biografia em quadrinhos do homem que ousou pensar diferente e mudar o mundo em que vivemos, bem como a maneira de trabalhar e de se divertir. Uma história de paixão e inovação.

27 de maio de 2016 | N° 18536 
MÁRIO CORSO

O valor da língua


O neurocientista Carl Hart lançou uma obra extraordinária sobre a questão das drogas: Um Preço muito Alto (Zahar, 2014). Com ampla explanação, mostrando estudos e pesquisas, o autor vai contestando e demolindo o edifício mítico em que se assentam nossas crenças sobre as drogas.

Quando entramos nos domínios do prazer, a inteligência nos abandona e tanto julgamos quanto classificamos as pessoas pelas suas formas de gozo. Funciona ao modo de: diga como obtém prazer e direi se te aceito. Assim é no sexo e assim é com as drogas.

O autor é negro nascido na Flórida. Pai alcoolista, mãe atrapalhada, criado por parentes, viu a irmã recebendo uma bala perdida, os amigos e colegas indo presos. Recebeu o cardápio básico de violência e exclusão das comunidades pobres. Por viver isso, e ver o vício como causador da miséria real e moral de sua comunidade, Carl decide estudá-lo. Partiu daquilo que ainda é o senso comum sobre as drogas, e por isso nos convence ao mostrar como suas ideias tomaram outros rumos.

O livro é ímpar: vida, formação e teoria se misturam. Também é valioso para pensar o racismo, mas o que mais me interessou foi como ele se tornou cientista. Nessa trajetória árdua, ele insiste na dificuldade que foi sair do inglês das ruas e adquirir um domínio maior de sua língua. Afirma que, sem adquirir uma forma mais complexa de expressar-se, nunca teria virado cientista nem entendido o mundo. É um relato sincero e raro da sua limitação, e do esforço que fez para superá-la.

Gosto de uma expressão cara ao Luís Augusto Fischer: a cultura é algo que necessita receber uma demão por dia. É a esse sem-número de referências que quem é bem-nascido, ou teve boas escolas, ganha cotidianamente, sem dar-se conta, que Carl refere-se. Quem não passou por isso sente-se fora do jogo, não sabe se o lugar citado pertence à geografia ou a um mundo imaginário, não entende alusões a coisas que deveria saber, nem pistas tem do que seja. Citações elementares como: um sorriso de Mona Lisa, ou o calcanhar de Aquiles, ou ainda o que sejam os brioches de Maria Antonieta já o derrotam. Até aqui estamos no âmbito da cultura, mas ele também fala do léxico e de adquirir possibilidades de traduzir matizes mais sutis de significados.

Gostei do depoimento, porque a forma mais equivocada de tratar a questão da defasagem cultural passa por tentar valorizar a suposta benesse da forma simples da linguagem, confundindo cultura popular com carência educacional. A primeira acrescenta, a segunda priva. Ao transformar a deficiência em virtude aliena-se ainda mais quem não teve acesso ao patrimônio cultural comum. Como todo populismo, parece que protege o fraco, mas o deixa ainda mais desguarnecido.


27 de maio de 2016 | N° 18536 
NÍLSON SOUZA

O LOBISOMEM DE SÃO SEPÉ


Uma das minhas frustrações é nunca ter visto nada de sobrenatural ou extraterrestre. Tenho um companheiro de trabalho, lúcido, sério e recatado, que garante ter visto um disco voador. Conheço uma jovem que afirma ter flutuado acima do próprio corpo – fenômeno que a ciência explica como catalepsia projetiva, uma ação cerebral que se dá entre o sono e o estado de vigília. Nunca saí da cama antes do meu corpo. Nem jamais vi alma de outro mundo, lobisomem ou mesmo o fantasma da ópera.

E admito que não sou dos mais corajosos: uma vez estava sozinho no cemitério num final de tarde, olhando para um desses monumentos de arte tumular, quando tocou a sirene de encerramento das visitas. Foi o mais perto que me ocorreu de sair do próprio corpo, pois as pernas ficaram paralisadas e o coração disparou. Mas passou logo.

Mesmo sendo cético de carteirinha, gosto de histórias de assombração e de realismo fantástico. Outro dia reli os Doze Contos Peregrinos, de García Márquez, e voltei a me encantar com a história do castelo de Ludovico, que coincidentemente se chama Assombrações de Agosto. Logo o meu mês de nascimento, sobre o qual já escrevi vários desagravos, contrariado com o rótulo de mau agouro que lhe atribuem alguns nativos de outras partes do calendário. Pois a crônica da passagem do escritor colombiano pela fortaleza italiana tem um desfecho arrepiante, que me reservo o direito de não contar aqui.

O que conto, depois desse preâmbulo todo, é a minha dificuldade para atender o pedido de uma colega de ofício que trabalha para a TV japonesa. Ela me escreveu solicitando informações sobre o lobisomem de São Sepé, que teria atacado uma jovem da cidade em 2009. A moça disse que foi agarrada e arranhada por um ser peludo, de quase dois metros de altura, que fugiu em quatro patas quando uma vizinha acendeu a luz. Teve ocorrência policial e tudo. O delegado chegou a suspeitar de que alguém estava usando uma fantasia para assustar a população. Mas a investigação, pelo que se sabe, deu em nada.

Agora, os japoneses querem ressuscitar a história. Se alguém souber de algo a respeito – mesmo que seja o próprio lobão –, por favor me escreva que repasso à coleguinha. Leia outras colunas em zhora.co/nilson_souza

quinta-feira, maio 26, 2016

pasquale cipro neto

26/05/2016  02h00

O sempre intemporal Padre Vieira

Dia desses, uma manchete ruim (mais uma) de um site me trouxe à mente uma velha questão da Fuvest baseada num trecho de um sermão de Vieira. A manchete era esta: "Corinthians e Grêmio lideram possíveis baixas que a Copa América trarão".

Há um erro de concordância nesse título. Flexionada no plural, a forma "trarão" deve ser trocada por "trará". É a Copa América que trará as baixas: "...lideram possíveis baixas que a Copa América trará".

Esse título me trouxe à mente uma questão da Fuvest baseada neste fragmento do intemporal "Sermão de Santo Antônio aos Peixes", de Vieira, pregado em São Luís em 1654: "A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande".

O candidato deveria reescrever o segundo período do trecho substituindo "escândalo" por "escândalos" e fazendo as adaptações necessárias. Foi esta a resposta dada por boa parte dos que erraram: "Grandes escândalos são estes, mas a circunstância os fazem ainda maiores".

De novo, apareceu um plural indevido. A forma verbal "fazem" deve ser trocada por "faz", já que o seu sujeito é "a circunstância"; é ela, circunstância, que faz ainda maiores os escândalos. Vamos lá: "Grandes escândalos são estes, mas a circunstância os faz ainda maiores".

O erro provavelmente decorre da influência que o termo mais próximo do verbo (o pronome "os") exerce sobre o redator ou falante.

Vale a pena aproveitar esse maravilhoso sermão para destacar um fato linguístico interessante. Releia: "Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos". O caro leitor notou o valor das formas verbais "fora", "era", "comeram" e "bastara"?

Como se sabe, os tempos verbais não podem ser tomados só pelo seu valor específico. É pobre, por exemplo, limitar a definição do presente a algo como "tempo que indica o fato que ocorre no momento da fala". Esse é o valor específico do presente, o que não anula o seu emprego em construções como "Volto amanhã", "Todo homem é mortal" etc.

O mesmo ocorre com o pretérito mais-que-perfeito, que, como vimos recentemente, indica fato passado perfeito, ou seja, totalmente concluído, anterior a outro, também perfeito. Vieira emprega o mais-que-perfeito com valores diferentes do específico: "fora" está por "fosse"; "comeram", por "comessem"; "bastara", por "bastaria". E "era", do pretérito imperfeito do indicativo, está por "seria", do futuro do pretérito do indicativo. Tudo dentro dos cânones da língua literária (de ontem e de hoje, é bom que se diga).

"E eu? Menos a conhecera mais a amara?" Isso não tem três ou quatro séculos, não. Está na canção "O Estrangeiro", de Caetano Veloso. Vamos à "tradução": "E eu? Se a conhecesse menos, mais a amaria?".

Não resisto à tentação de exaltar a atualidade de Vieira ("Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos."). Qualquer semelhança com o que anda acontecendo no Brasil... É isso. 



Cliente e empresa trocam poemas sobre reclamação em conta de água
MARINA ESTARQUE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
26/05/2016  02h00 - Alan Marques/Folhapress

Como dizia o poeta Castro Alves, livro caindo na alma é chuva que faz o mar. Na alma da funcionária Aline Santos, o poema do cliente Luiz Carlos Garcia, 64, também fez desaguar: as lágrimas.

A carta de Garcia, com 160 versos rimados, era uma reclamação por cobranças indevidas à Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal, a Caesb.

BRASÍLIA, DF, BRASIL, 25.05.2016. Luiz Carlos Garcia mora sozinho e passou a receber contas de água de mais de mil reais. Trocou os canos de casa, para evitar vazamentos, mas a conta continuou alta. Decidiu escrever um poema, direcionado ao presidente da Caesb (empresa de saneamento), descrevendo o problema. A empresa resolveu a falha e uma funcionária respondeu ao cliente também com uma poesia. 

Luiz Carlos Garcia, que recebeu contas de água abusivas e fez reclamação em forma de poema
Apesar de morar sozinho em uma casa em Brasília, o valor da conta mensal de água de Garcia atingiu R$ 1.150. Em vez de um telefonema raivoso ou de um e-mail malcriado, Garcia, que é consultor de projetos, escreveu: "O hidrômetro que marca e conta/a água que aqui consumo/é como fumaça que espalha/de um cigarro que não fumo."

Inspirado nos versos de Castro Alves, um dos seus escritores preferidos, e também na Terceira Lei de Newton (da ação e reação), Garcia quis fazer a queixa da forma mais "gentil e delicada" que podia. "Se você trata o outro com respeito e dignidade, é isso que você recebe de volta. É uma questão de posicionamento na vida", justifica.

CONSUMO MODESTO

Ao longo do texto, Garcia conta que mora sozinho, faz um consumo modesto do serviço e, mesmo assim, a cobrança teria sido muito alta. "Nem para beber uso água/que da rede aqui deságua/das minerais me abasteço/e disso não guardo mágoa."

Garcia descreve também que fizera uma obra para trocar o encanamento da casa e corrigir eventuais vazamentos. Entretanto, depois da reforma, a conta continuava muito superior à dos vizinhos.

Ele aponta então o responsável pelas falhas, "mui" respeitosamente: "A Caesb é empresa séria/não há dúvidas que eu levante então nessa minha história/o hidrômetro é o meliante". A carta, endereçada ao presidente da companhia, foi protocolada em março. Um dia depois, o cliente recebeu uma ligação do vice-presidente, que prometeu investigar o caso.

Passado cerca de um mês, a carta chegou às mãos de Aline Santos, 46, encarregada de redigir uma resposta à altura. A empresa havia identificado um vazamento na rede e pretendia devolver, por meio de descontos, o valor já pago pelo "consultor poeta".

Assim que leu o poema, na frente dos outros funcionários, Aline começou a chorar. "Todo mundo riu, eu sou frouxa mesmo", diz. Além de supervisora do escritório de atendimento ao cliente, ela é formada em letras e apaixonada por poesia. É conhecida na empresa por cobrar da equipe o uso correto da língua portuguesa.

ATÍPICO

"O poema foi algo totalmente atípico. Me tocou porque me senti respeitada como empregada e como pessoa. Geralmente o que a gente encontra aqui é o extremo oposto. As pessoas quando vêm reclamar já chegam com pedras nas mãos", conta.

Aline levou o texto de Garcia para casa e elaborou outro poema, como réplica oficial da empresa. "Vimos pelo presente documento/Apresentar os resultados apurados/Na esperança de que com esse intento/Encerremos seus desagrados."

A funcionária da companhia diz que costuma escrever prosa –contos que ainda não saíram da gaveta–, e não poemas, mas que se esforçou para manter o estilo de Garcia. "E eis que ficou constatado/A ocorrência de um vazamento/Comprovadamente sanado/No mais curto espaço de tempo", prosseguiu.

"Quis fazer uma homenagem. Ele humanizou uma relação comercial, e isso é fantástico", diz a supervisora. Garcia ficou surpreso com a resposta –"Uma gentileza maravilhosa"– e com as contas dos meses seguintes. Os valores caíram drasticamente até atingir R$ 127.

Ele aconselha: "Quando você tem um problema e a solução depende dos dois, é melhor tratar o outro como fonte de ajuda, e não como um obstáculo". Com a conta de água em seu preço justo e o desperdício interrompido, o consumidor poeta se permite um trocadilho: "A história desaguou em um final feliz".

Confira abaixo a troca de poemas.

Poema do cliente para a empresa


Senhor Presidente

Venho mui respeitosamente à presença de vossa senhoria para apresentar e requerer o que se segue:

Venho à vossa senhoria
externar o que me aborrece
se não pode perseverar
aquilo que me entristece

O hidrômetro que marca e conta
a água que aqui consumo
é como fumaça que espalha
de um cigarro que não fumo

Desde que foi instalado
o novo tecnológico instrumento
a cada leitura nele feito
perco até os movimentos

Preocupado com a conta
que sempre me mostra aumento
até contratei uma empresa
que se diz caça-vazamento

Na verdade o que queria
na lucidez do momento
era encontrar uma forma
para estancar o tormento

E um trabalho dedicado
puseram-se os homens a fazer
na busca de saber se o indicado
eles poderiam resolver

Depois de muito procurar
em canos, válvulas e torneiras
disseram-me algo encontrar
que explicasse d'água a peneira

Puseram-se então a falar
na rede, este trecho é o problema
se os canos daqui, for trocar
resolvemos o seu dilema

Cem metros de cano comprei
cola, lixa e conexões
depressa do comércio voltei
atendendo as orientações

Fizeram toda tarefa
da rede modificar
depois foram-se embora
p'ra outras casas visitar

Grande foi a minha surpresa
que nem sei como contar
fui consultar o hidrômetro
e ver o que ele estava a marcar

Quando o olhei atentamente
com tudo na casa fechado
lá estava o renitente
a se mover, desesperado

Acreditar? já não podia
naquilo que ali, eu via
restou-me naquela agonia
me apegar n'alguma magia

Aqui moro sozinho
sem filhos, mulher, empregado
não lavo roupas, nem cozinho
só no banho, o líquido é usado

Nem para beber uso água
que da rede aqui deságua
das minerais me abasteço
e disso não guardo mágoa

Também não recebo visitas
que a água pudessem consumir
por isso procurar respostas
é no que preciso insistir

Minha casa é bem pequena
apenas cem metros quadrados
nela só faço dormir
e preservar meus guardados

Não levo os jardins a regar
nem carros eu deixo lavar
calçadas com a água esfregar
por onde esta água escoar?

Faxino a casa com balde
e um pano p'ra no chão passar
diz minha consciência em alarde
a água é p'ra se economizar

Uma coisa é verdade
que aqui preciso indagar
como pode uma só pessoa
tanta água no mês gastar?

Um mistério se formou
se esta água aqui entrou
se dela pouco se usou
a maior parte evaporou?

A vários vizinhos perguntei
e a pessoas que conheço:
da água que consomem por mês
na conta vem qual o preço?

Quando minha conta os mostrei
consternação demonstraram
_ao sentir o quanto assuste,_
procure a Caesb, falaram

Até mesmo em casas grandes
de famílias numerosas
os valores lançados nas contas
não são de montas onerosas

Em outros tempos diria
quando a rede era antiga
mesmo achando água cara
a conta era bem mais amiga

Depois dessa rede mudada
p'ra outra que diferença não vi
me chega a conta inusitada
a cobrar o que não consumi

Recibos passados eu junto
para sustentar o que escrevo
pois como um bom cidadão
sempre pago o que devo

A Caesb é empresa séria
não há dúvidas que eu levante
então nesta minha história
o hidrômetro é o meliante

Sei que não posso acusar
se provas me estão a faltar
mais se a suspeição está no ar
é preciso investigar

Peço a vossa senhoria
que mande me socorrer
pois se a conta assim ficar
de infarto posso morrer

Com licença, peço aos peritos
dessa Companhia honrada
para o indivíduo estudar
e esta situação aclarar

Com suas técnicas e instrumentos
sobre o dito cujo, aplicados
saberemos se seu trabalho
é correto ou é viciado

Se inocente estiver
desculpas já devo pedir
mais recolhido deverá ser
se nele a culpa recair

Se comprovado, o erro for
de quem o consumo media
devolva-me com prontidão
o que paguei e não devia

Ou se preferir modo outro
proponho a vossa senhoria
descontar o tal valor
quando faturar a Companhia

Pois se assim não for feito
outro caminho não há
se não o de ir a justiça
o meu direito reclamar

Rogo vossa senhoria
uma providência tomar
pois não é justo essa conta
eu ter que continuar a pagar

Assim, deixo o meu pedido
em forma de poesia
se escrever é uma arte
que me enche de alegria

E, antes que se faça tarde
neste tempo, o que pronuncia
antecipo meus agradecimentos
junto a vossa senhoria

Como nos ensina a lição
que nos vem d'antigamente
despeço-me no último verso
com um gentil, cordialmente.

Poema da funcionária da empresa para o cliente

Sr. Luiz Carlos

Em resposta à sua manifestação
Sob o n.º 1.723/2016 protocolada
Na qual nos chamou atenção
O brilhante uso da nossa língua falada
Vimos pelo presente documento
Apresentar os resultados apurados
Na esperança de que com esse intento
Encerremos os seus desagrados

A fim de verificar
A situação apresentada
Pusemo-nos a vistoriar
As instalações internas afetadas
E eis que ficou constatado
A ocorrência de um vazamento
Comprovadamente sanado
No mais curto espaço de tempo

Para assegurar um fornecimento
Contínuo, lhano e escorreito
Fora instalado um equipamento
De precisão, em seu conceito
E ao fim de 58h constantes
Registrou o importante instrumento
Não haver na rede pressões variantes
Que provocassem um derramamento

Desta forma, concluímos que o vazamento
Ocorrido em sua residência
Tratou-se de um fortuito acontecimento
Lamentável em sua essência
E, atendendo a Resolução da Adasa
Que norteia os procedimentos desta Casa
Foram concedidos os descontos possíveis
Aos casos de vazamentos imperceptíveis

Estão creditados para os próximos faturamentos
Valores resultantes das revisões das contas
Limitadas a dois consecutivos eventos
Com prazo de 12 meses para nova remonta
Mas sabendo dos hábitos conscientes
Por V. Sª praticados
Certamente não será recorrente
O evento outrora cessado

Pessoalmente quero aqui registrar
Minha admiração e meu mais profundo respeito
Posto que, lamentavelmente, não é comum encontrar
Quem faz do uso da palavra um belo feito
Compartilhando da mesma paixão
Me despeço com leniência
E digo com admiração
Receba minha reverência