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quinta-feira, agosto 25, 2016




25 de agosto de 2016 | N° 18617
GENTE

Vida que se renova

MECÂNICO ATINGIDO POR TREM DE POUSO no Salgado Filho em julho morreu sem saber que seria pai. Virgínia Cunha Betiatto descobriu a gravidez 21 dias após acidente que matou o seu marido
Sufocada por lembranças, Virgínia Cunha Betiatto reluta em assimilar a morte do marido, atingido pelo trem de pouso de um avião da Latam Airlines na madrugada de 11 de julho, em Porto Alegre. 

O mecânico de aeronaves Adriano Luiz Schuch, 34 anos, estava no pátio do aeroporto Salgado Filho quando o veículo em que trabalhava foi movimentado e passou sobre sua perna esquerda e parte do tórax. Por 21 dias, Virgínia permaneceu em tristeza profunda, sentimento que foi atenuado com a confirmação, 24 dias atrás, de que carregava um pedaço de Adriano consigo: a bancária de 28 anos está grávida. O filho foi planejado por ambos para vir ainda neste ano, mas a notícia da gravidez o mecânico não teve tempo de receber.

A morte do marido e a gestação, que completou 10 semanas segunda-feira, fazem com que Virgínia transite repetidamente entre o sofrimento e a felicidade. Ao falar sobre Adriano e seu filho, cujo sexo ainda não sabe, a mesma lágrima de dor e saudade que escorre por seu rosto transforma-se, no instante seguinte, em choro de alegria ao lembrar do bebê.

– No primeiro momento é um susto, mas, depois, é um conforto, porque uma parte dele ficou aqui com a gente – explica Virgínia.

Para ela, a mudança pela qual seu corpo está passando representa a continuidade dos laços matrimoniais firmados diante do altar há três anos e nove meses. Com uma única correção nas falas dos noivos: “na alegria e na tristeza, além do fim das nossas vidas”.

– Tem horas que me conforta saber que va ter um bebê, uma criança. Saber que, de certa forma, a nossa história vai continuar – comenta Virgínia, exibindo um sorriso.

Passado mais de um mês do acidente, ainda é difícil vê-la falar de Adriano sem que a voz embargue. Após uma respiração pausada, sucedida de um riso tímido, que contrasta com a vermelhidão dos olhos, ela descreve o companheiro, a quem começou a namorar em 2004, como o parceiro de todas as horas:

– Nunca falava não, estava sempre disposto. Se eu tinha que fazer alguma coisa, ele ia, participava, estava sempre junto.

Moradores de Cachoeirinha, na Região Metropolitana, Adriano e Virgínia haviam se mudado para a casa nova no início de abril. Já tinham, até, reservado um quarto para o filho, que sonhavam em ter juntos ainda neste ano.

– Cada hora que eu lembro é um susto, porque parece que não aconteceu. Ele estava bem, sabe? Vi ele sair de casa. Estava tudo bem – lamenta Virgínia.

Chovia forte na madrugada de 11 de julho, quando três funcionários da Latam, entre eles Adriano, trabalhavam na manutenção de uma aeronave estacionada no Salgado Filho. A vítima, próxima ao trem de pouso, acabou esmagada pelo veículo por volta das 3h30min. Socorrida ao Hospital Cristo Redentor, na Capital, chegou a ter a perna amputada antes de morrer, 10 horas após o acidente.

Conforme apuração do delegado Cleber Ferreira, devido ao mau tempo, somente Adriano e o colega que estava na cabine do avião tinham comunicação via rádio portátil. O motorista do pushback (trator de reboque) mantinha apenas contato visual com a vítima.

– Como estava chovendo muito, a comunicação visual era péssima e ele (colega de Adriano) entendeu que era para movimentar a aeronave – disse Ferreira.

“ATÉ HOJE, NINGUÉM VEIO FALAR COM A GENTE”

O inquérito, que foi remetido à Justiça há cerca de 15 dias e está sob análise, indicia o operador do pushback por homicídio culposo (sem intenção de matar), por imperícia e negligência. Para o delegado, ele deveria estar atento a quais equipamentos eram necessários naquela madrugada, levando em conta todas as circunstâncias – inclusive as condições climáticas.

– No meu entendimento, houve falha do operador, por isso os donos da empresa não estão sendo indiciados – explica Ferreira.

Abalada, Virgínia tem feito acompanhamento psiquiátrico. A casa em que morava com o marido, em Cachoeirinha, virou local de visita, já que o seu novo endereço passou a ser o mesmo da mãe e do padrasto.

– Até vou lá (na casa do casal), mas ficar sozinha não dá – conta Virgínia, ao lembrar que a Latam nomeou uma assistente social para prestar apoio à família, mas o serviço durou somente até o sepultamento de Adriano, no dia seguinte.

Mãe de Virgínia, Núbia Susana Santos da Cunha, 49 anos, ressalta que a empresa aérea divulgou nota colocando-se à disposição para qualquer eventualidade, o que não vem sendo cumprido, segundo ela.

– A minha filha precisa de uma assistência psiquiátrica especializada, alguém que venha prestar socorro, que dê uma continuidade. Porque, para nós, com a morte do Adriano é que começou todo o processo. Está começando agora um outro tipo de vida. Mas o tempo está passando, e as pessoas, esquecendo. Até hoje, ninguém veio falar com a gente – reclama.

Em nota, a Latam se ateve a dizer que “está prestando a assistência à família de seu funcionário”, mas não respondeu quais são os serviços oferecidos. Também explicou que “está colaborando com as autoridades responsáveis pelo caso” e “que segue os mais elevados padrões de segurança do mundo”.

marcelo.kervalt@zerohora.com.br

25 de agosto de 2016 | N° 18617
ARTIGO - LUCAS DO NASCIMENTO

COMPETÊNCIAS DOS MUNICÍPIOS


Diante do quadro de violência vivido em nosso Estado, espera-se que os candidatos a prefeito proponham soluções à crise na segurança pública. Nesse cenário, questiona-se o que os municípios podem realizar na matéria.

A Constituição da República estabelece que a segurança pública deve ser exercida para a preservação da ordem pública, da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Atribui essas funções às polícias federal e rodoviária federal, às polícias civis, bem como às polícias e aos corpos de bombeiros militares, subordinando-os à União ou aos Estados.

Quanto aos municípios, dispõe que “poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei”, e desde a EC 82, de 2014, que a segurança viária, “para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias públicas”, também compete às municipalidades.

Com base no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), órgãos municipais podem fiscalizar o trânsito e multar. Assim decidiu o Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do RExt 658570: as guardas municipais têm competência para fiscalizar o trânsito e impor quaisquer multas previstas no CTB.

Já pela Lei 13.022/14, as guardas municipais possuem as competências de: proteção sistêmica da população; atuação integrada com órgãos de segurança pública; prevenção, inibição e repressão a infrações contra os bens, serviços e instalações municipais; encaminhamento de infrator ao delegado de polícia, diante de flagrante delito, entre outras.

Percebe-se extensão das competências das guardas para além da proteção dos bens, serviços e instalações dos municípios, alcançando a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas desde 2014. Estima-se que o STF julgue constitucional a ampliação, no julgamento da ADI 5156.

Nos limites constitucionais e legais, portanto, a competência das guardas municipais abrange a prevenção e repressão a ilícitos em geral.

Advogado de Direito Constitucional e Administrativo, mestrando na UFRGS*


25 de agosto de 2016 | N° 18617 
DAVID COIMBRA

Como será o discurso de Dilma

Dilma começa a ser julgada hoje. Em outros tempos, o país viveria o clima fremente da decisão do campeonato. Agora, parece notícia de anteontem. Muita gente ainda não percebeu, mas o Brasil já foi em frente. O Brasil já mudou.

Eis duas das maiores qualidades desta terra banhada pela merencória luz da Lua – o Brasil é dinâmico e é dotado de uma capacidade que os psicanalistas valorizam muito: a de resiliência. Socialmente e economicamente. A economia do Brasil sempre cresce, a despeito dos governos. Não vá usar os últimos como exemplo, para não gerar polêmica vã; pegue um governo notoriamente ruim do passado, como foi o de José Sarney, com a inflação invencível, como Phelps e Bolt, e o nível de emprego caindo sem parar, como o Inter na tabela do Brasileirão. Pois, mesmo no tempo de Sarney, o Brasil cresceu.

Voltará a crescer ainda neste ano, depois do afastamento oficial de Dilma. E ano que vem será bom.

Consigo sentir a reação dos brasileiros talvez porque observe à distância. É como aquele amigo que você reencontra de vez em quando e, se você está com o seu filho, ele se espanta:

– Como cresceu!

Estive no país em abril. Sorvi o clima tenso dos dias. Voltei em meados de junho, trabalhei em Porto Alegre, cobri a Olimpíada e, como todos os brasileiros, também suspirei de alívio porque tudo correu bem. Agora, nestes estertores de agosto, observando o rito final do impeachment, sei que é isso mesmo, apenas um rito, uma formalidade.

Li que os aliados de Dilma aconselham-na a “chorar e fazer chorar” em sua fala no Senado. Seria um discurso com eloquência suficiente para comover o país e mudar o rumo da história. Algo dramático e inesperado como a Batalha dos Aflitos. Ou como o julgamento de Frineia no tribunal de Tebas, 23 séculos atrás. Frineia era uma hetaira, espécie de prostituta de luxo. Seu advogado, Hipérides, encontrava-se na situação de José Eduardo Cardozo no caso de Dilma: já tinha esgotado toda a sua verve para salvar Frineia da morte. Não adiantava. 

Os severos juízes tebanos mostravam-se decididos a condená-la. Hipérides, então, resolveu tomar uma medida drástica. Chamou Frineia ao centro do tribunal. Ela foi. Era belíssima, a ponto de servir de modelo para o escultor Praxíteles, quando ele teve de fazer a estátua de Afrodite, a deusa do amor. Seu olhar triste comovia os homens. Chamavam-na de “clausigelos”, ou “a que chora sorrindo”. Com Frineia de pé em frente aos juízes, o advogado não falou mais nada. Apenas puxou-lhe a túnica com força, e ela ficou completamente nua. Ante o óóó dos vetustos tebanos, Hipérides juntou um só argumento:

– Pode um ser com esse corpo fazer o Mal?

Frineia foi absolvida.

Quer dizer: um tribunal pode se deixar impressionar por um truque de última hora.

Como será o discurso de Dilma? Terá o poder literário de um Churchill dizendo que não tem mais nada a oferecer, senão sangue, suor e lágrimas, ou jurando “We shall never surrender!”? Terá a carga passional de um Marco Antônio arengando aos romanos, com o manto ensanguentado de César nas mãos? Ou será a Dilma do improviso tragicômico da ode à mandioca?

É só o discurso de Dilma que me desperta a curiosidade no julgamento que começa hoje. Ela fez questão de falar. Deve estar preparando algo contundente. Quero muito ouvir. E depois, como a maioria dos brasileiros, seguir em frente.


25 de agosto de 2016 | N° 18617 
L.F. VERISSIMO

Toots, Sérgio e Luan


Diziam (com algum exagero) que só duas coisas produzidas pela Bélgica valiam a pena: a cerveja e o Toots Thielemans. Toots tocava harmônica, a popular gaitinha de boca, como ninguém, e morreu nesta semana, com 94 anos, em Bruxelas. Ele começou tocando guitarra no início dos anos 40 e depois passou para harmônica. O violão e a guitarra são instrumentos, digamos, íntimos, que você toca com eles perto do coração. Toots quis uma intimidade ainda maior e preferiu a gaita, o único instrumento de sopro em que a espiração é tão sonora quanto a expiração – salvo o assovio, o primeiro instrumento h-umano, que Toots também dominava. 

Ele foi um dos melhores improvisadores do jazz, tocou com todos os grandes e gostava muito da música brasileira. Uma das melhores faixas do seu CD The Brazil Project é uma interpretação da sua composição Bluesette que reúne uma espécie de linha de frente de instrumentistas e cantores brasileiros, como João Bosco, Caetano Veloso e outros. E, uma raridade, Chico Buarque cantando em inglês. Mesmo que não tivesse feito mais nada – e fez de tudo –, Toots Thielemans mereceria todas as honras e homenagens póstumas que lhe serão feitas só por ter composto Bluesette. É o que será tocado no seu enterro, não duvido. Numa versão andante majestosa.

Por falar em coisas boas (e no Chico), está sendo lançada pela Companhia das Letras uma edição crítica de Raízes do Brasil, com todo o texto histórico de Sérgio Buarque de Holanda e mais ensaios sobre a obra, de gente como Antonio Candido. Muitas das teses revolucionárias, para a época do seu lançamento (1936), de Raízes do Brasil foram questionadas e pelo menos uma, a do brasileiro como um ser cordato, não resiste a um inventário das nossas violências nestes 80 anos, mas o livro permanece extraordinariamente atual. Extraordinário, também, é o esmero da Companhia das Letras, que nos presenteia com edição com capa dura, belíssima.

Uma injustiça flagrante na convocação para a Seleção Brasileira do Tite foi a ausência do Luan, um dos melhores da seleção olímpica. Tite nem pode dizer que não o viu jogar: estava presente em todos os jogos da olímpica. Só não viu o que todo o mundo viu, até colorados.

quarta-feira, agosto 24, 2016



24 de agosto de 2016 | N° 18616 
MARTHA MEDEIROS

Em slow

Ao assistir a uma das provas de salto sincronizado na Olimpíada (eu sei que o assunto é antigo, não vou me demorar nele, um pouquinho de paciência), o que mais me impressionou não foi a destreza das atletas, e sim a precisão da comentarista. As meninas pulavam do trampolim e em dois segundos entravam na piscina, e então a comentarista, muito antes do replay, dizia exatamente qual delas tinha tocado primeiro com a mão na água, se a perna direita estava esticada e se a esquerda estava levemente flexionada, como se o salto não tivesse ocorrido durante uma piscadela. 

Quando vinha o replay em slow, bingo: tudo o que a comentarista havia percebido a olho nu estava ali, confirmado. O mesmo se dava com os comentários da Daiane dos Santos sobre as piruetas da Simone Biles. Como é que a Daiane conseguia contar quantos mortais haviam sido dados pela americana supersônica antes do replay?

Queria ter esse preparo. Estou mais para faísca atrasada. Meu dinamismo não consegue mais acompanhar o looping vertiginoso da vida.

Um dos meus hobbies favoritos tem sido descobrir coisas que, mesmo em sua velocidade normal, parecem estar em slow (eu sei que não é um hobby, o nome disso talvez seja escapismo, mas tenha paciência comigo um pouquinho mais). Um exemplo? Um camelo caminhando pelas dunas do deserto. Um camelo, em velocidade normal, caminha mais devagar do que o Usain Bolt em câmera lenta. A girafa, a mesma coisa. Ela esbanja elegância em sua falta de pressa – e mesmo que estivesse apressada andaria com a mesma languidez.

Tenho exemplos melhores, calma. O avião.

Pensa. O avião, o meio de transporte mais rápido que conhecemos, decola como se fosse uma bolha de sabão e aterrissa suavemente, como uma folha caindo de uma árvore – bolhas e folhas jamais atingirão o efeito fast forward. E não bastasse a sofisticação da decolagem e da aterrissagem, o avião cruza os céus lá em cima como se estivesse a 20 km/h, enquanto um periquito passa pelos nossos olhos a jato.

A onda no mar. Talvez o exemplo mais hipnótico. Toda onda se forma com preguiça e quebra como se fosse um movimento de tai chi chuan. O oceano pode estar revolto, uma tempestade se formando, e mesmo assim a ondulação das águas se parece com as mãos de um maestro regendo um compasso tranquilo.

Por que perco tempo com isso? Justamente para tentar segurar o tempo, esse senhor afobado. Quanto mais ele se precipita e dispara, mais eu ajusto o foco e reconheço a nobreza do vagar. Do fluir. Do flanar.

Um beijo, um sentimento ou mesmo uma reflexão. Tanta coisa que eu não queria que passasse ligeiro – mas passou. Obrigada pela paciência.



24 de agosto de 2016 | N° 18616 
ARTIGO - Odacir Klein*


HORA DE SEMEAR

No primeiro semestre de 2016, o BRDE contratou R$ 1,84 bilhão em financiamentos para projetos de todos os portes e em todos os setores da atividade produtiva. No mesmo período do ano passado, havia contratado R$ 1,76 bilhão.

Em momentos de desequilíbrios macroeconômicos, quando as instituições privadas de crédito se tornam mais avessas ao risco, os bancos de fomento desempenham uma função anticíclica. Criam condições para que a economia produza efeitos compensatórios, como preconizado por Keynes, motivador dos técnicos fundadores do BRDE. 

Hoje isso significa financiar o desenvolvimento sustentável, em especial em segmentos estratégicos como infraestrutura, especialmente energias limpas, agricultura, industrialização e inovação, bem como inclusão financeira e financiamento para micro, pequenas e médias empresas, de forma que permaneçam gerando emprego e renda.

Na condição de principal agente repassador de recursos do BNDES na Região Sul, o BRDE também ajuda a formular programas regionais a partir de apenas três agências, localizadas nas capitais do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Santa Catarina, e escritórios de representação no interior dos Estados e em Mato Grosso do Sul.

Na sua ação de financiador do desenvolvimento, o BRDE desconcentra o crédito através de sua presença em 1.081 municípios, atendendo a 34.725 clientes, com quadro de 563 funcionários. Nesse sentido, possibilitou, também, a geração de R$ 70 milhões em impostos e a criação de 19 mil empregos, no período.

Tudo isso é resultado de trabalho planejado. Assim como a conquista da medalha olímpica pela atleta Mayra Aguiar. A Sociedade Ginástica de Porto Alegre, a Sogipa, planejou o seu Projeto Olímpico e o BRDE o apoiou por meio da Lei do Esporte. O resultado foi colhido.

O BRDE acredita na retomada da economia. Para isso, a hora é de semear.

*Diretor-presidente do BRDE


24 de agosto de 2016 | N° 18616 
DAVID COIMBRA

Eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho. Meu sonho não é ver ressoar a liberdade, como sonhava Martin Luther King. Tampouco é algum pleito tipicamente brasileiro, como o encarceramento de todos os corruptos de Brasília ou a vitória suprema dessa ou daquela facção ideológica, confirmando esse ou aquele dogma.

Não. Meu sonho é mais funcional. É um sonho bem simples, até prosaico. Sonho com o Brasil desenvolvendo três grandes áreas por meio da escola pública: educação, esporte e cultura.

Os países em que as pessoas usufruem dos mais altos níveis de bem-estar, justiça e liberdade, todos eles, todos, sem exceção, têm como cimento da sociedade a escola pública.

A lista desses países vencedores em qualidade de vida não por acaso praticamente reproduz a lista dos vencedores da Olimpíada do Rio, disputada tanto tempo atrás, na semana passada. Tire dali a Rússia e a China, que ganham medalhas devido ao seu tamanho, e o que se vê são as grandes democracias. Todas essas nações reúnem educação, esporte e cultura no ambiente da escola pública. Todas elas cuidam das suas crianças.

Nós, de quatro em quatro anos, ao cabo de cada Olimpíada, deitamos falação sobre como tem de ser o investimento no esporte no Brasil. Fosfato queimado em vão, porque, uma semana depois da cerimônia de encerramento, ninguém mais pensa no assunto.

O certo seria não precisar pensar no assunto. O certo seria o esporte e a cultura serem tratados como parte do sistema de educação.

No Brasil vive-se uma contradição – a escola pública é desimportante, ao mesmo tempo em que se espera dela o mais importante: que forme o caráter do aluno. As duas coisas estão erradas. A escola é muitíssimo importante, mas não pode assumir essa tarefa. A principal função da escola não é dar educação: é transmitir conhecimento. A educação tem de ser dada em casa, pela família. Mas a escola pode ajudar, ensinando o cumprimento de regras e incentivando, exatamente, o esporte e a cultura.

O esporte ensina a ganhar e a perder, ensina a disciplina, ensina a trabalhar em equipe, ensina a cumprir regras, ensina a respeitar os outros. E é com o consumo da cultura que o estudante irá aprender a pensar, no momento em que ele discutir um livro, um filme, uma peça de teatro.

Não faz muito, o governo tentou unir os ministérios da Educação e da Cultura em um só. Não conseguiu, devido aos protestos da classe artística, sobretudo dos grandes atores e músicos brasileiros.

Duvido que o governo tivesse interesse em melhorar esses setores; a ideia era só cortar gastos.

O governo, qualquer governo, prefere investir no adulto – na universidade ou no atleta já formado. Dá mais prestígio. Dá mais voto. O investimento na criança só apresenta resultados a longo prazo e não garante reeleição. Assim, tudo fica como sempre esteve. Assim, daqui a quatro anos, depois da Olimpíada japonesa, voltaremos a discutir sobre o que o Brasil tem de fazer para ganhar mais medalhas. E eu voltarei a escrever sobre o meu sonho. Um sonho tão simples e tão prosaico. E tão difícil de ser realizado.



24 de agosto de 2016 | N° 18616 
FÁBIO PRIKLADNICKI

ECLÉTICOS E ORTODOXOS


Foi sob influência de Freud – Além da alma (1962) que decidi procurar um psicanalista, há cerca de 15 anos. Foi um desses momentos raros de descoberta em que somos apresentados a algo que – sabemos de imediato – mudará nossa forma de ver a vida. Eu havia assistido ao filme de John Huston com meus colegas em uma aula de psicologia na universidade e achei que estava ali a solução das angústias juvenis. Em poucos anos, tudo estaria resolvido. Bem, foi uma década de divã e – alerta de spoiler – muitos problemas continuaram. Mas a vida certamente tem sido melhor do que seria sem análise.

Como se sabe, há muitas correntes disponíveis no mercado: os freudianos, os lacanianos, os junguianos e tal. Mas nem tudo é simples. Alguns freudianos são até mais kleinianos. Também tem a psicoterapia de orientação analítica. Correndo por fora da psicanálise, vem a terapia cognitivo-comportamental. Não é apenas uma loucura de psicanalistas e terapeutas. Os pacientes também se identificam com determinadas correntes, por vezes experimentando mais de uma – o que não é nenhum pecado, embora haja quem pense que é.

Alguns pacientes acreditam que devem a certa orientação psicológica uma fidelidade religiosa ou conjugal. Certa vez, conheci uma estudiosa que sabia exatamente quantas vezes certo conceito aparecia em um texto de Freud. Mas nem os fiéis religiosos são tão rigorosos assim (pense no nosso sincretismo brasileiro) e nem a fidelidade conjugal é tão... Bom, você sabe.

Talvez por isso tenha me surpreendido ouvir recentemente um terapeuta dizer que é eclético. Quero dizer, não lembro se a palavra foi essa, mas certamente é uma boa definição. Era minha hora de rever conceitos, inclusive em outros domínios da vida. Um exemplo: por que alguém no mundo acadêmico deveria aderir a uma corrente teórica pela vida inteira? Uma pensadora da cultura como Gayatri Spivak nos mostra que você pode conjugar desconstrução, feminismo e marxismo. A pergunta é: por que não?

A vida é muito curta para frequentar apenas uma vertente psicológica, uma teoria acadêmica ou uma escola econômica. O ecletismo, dizem os estudiosos, é uma característica da pós-modernidade. Vivemos um tempo em que muitas visões de mundo coexistem. Talvez tenha sido sempre assim, mas hoje temos uma boa desculpa para não ser ortodoxos.

terça-feira, agosto 23, 2016


23 de agosto de 2016 | N° 18615 
CARPINEJAR


Saideira da cerveja ou do batom?

Não sei quem mente mais: o homem dizendo que está voltando ou a mulher avisando que está saindo? A saideira da cerveja ou a do batom?

O homem é uma criança com os horários. Sua dificuldade de relacionamento é antes com a verdade. Não teria nenhum problema em permanecer na mesa conversando e bebendo com os amigos. Sua mulher não demonstrou nenhuma insatisfação ao longe. A questão é que ele inventa de ser melhor do que realmente é, antecipar um bom comportamento e manda mensagens falando que já está a caminho de casa quando está a caminho de uma nova loira no copo. Incrimina a si mesmo de graça.

Talvez seja um recalque infantil, ele se vê culpado por permanecer na rua e confunde a esposa com sua mãezinha no passado.

Depois da primeira mentira, não há como reaver a pureza. Ele vai atualizando o seu fictício retorno ao lar, com um delay de uma hora.

– Estou me despedindo dos amigos.

– Estou no carro. – Estou no meio do caminho. – Estou quase chegando.

– Estou subindo. – Estou na porta.

Nessa enrolação sem fim, pode mandar uma mensagem avisando que está na cama também, porque ela tratou de ir embora de tanto esperar.

Homem, quando exagera com detalhes, indica que vem aprontando. Nunca manda um WhatsApp para nada e de repente faz boletim minuto a minuto? É óbvio que cometeu alguma bobagem. Jamais dá satisfação espontaneamente, para começar a se explicar de uma hora para outra, é que perdeu o domínio dos fatos.

E não adianta alegar engarrafamento (é madrugada!) ou lamentar que foi pego numa blitz (com notícia nas redes sociais). Mais fácil se ele tivesse uma bolsa para lamentar que não ouviu o celular.

Da mesma forma, a mulher se arrumando é uma boataria. Ela não precisava anunciar o tempo exato de sua preparação, porém morde a língua e congela o cronômetro: só 10 minutinhos.

Em 10 minutinhos, ela ainda toma banho. São 10 minutinhos intermináveis. Ela passa correndo nua de toalha na cabeça para dar uma falsa noção de pressa. Toda mulher faz isso quando está atrasada. Cruza a frente da televisão enquanto o homem espera.

Ela descreve suas ações com uma única frase “agora é rapidinho, só falta...”

Só falta secar os cabelos. Só falta escolher o vestido. Só falta alisar os cabelos. Só falta se maquiar.

Só falta achar o maldito sapato que combina com aquele vestido, senão ela terá que começar tudo de novo.

Você levanta diante das várias insinuações de que finalmente vai sair, segura a maçaneta, abre a porta, cumprimenta o vizinho da porta da frente e volta para dentro. Mulher é uma permanente ameaça de bomba. Obriga o homem a evacuar o prédio sempre com seus alarmes falsos.

Não sou capaz de definir quem mente mais. O que sei da vida é que a mulher deveria se arrumar enquanto o homem volta do bar.


23 de agosto de 2016 | N° 18615
CAMPO ABERTO | Joana Colussi

MENOS SÓDIO, MAIS SAÚDE E MESMO SABOR

Participantes de acordo feito com o Ministério da Saúde para reduzir a quantidade de sódio nos alimentos processados no Brasil, as indústrias estão adaptando seus processos para cumprir a meta estabelecida. O desafio é manter o mesmo sabor e textura dos produtos para agradar ao paladar dos brasileiros mais salgado do que a média mundial.

A meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que o consumo diário seja de até cinco gramas por dia em 2025. No Brasil, o consumo atualmente é de 12 gramas. A ingestão excessiva do mineral é associada a problemas cardiovasculares.

Ontem, a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, anunciou a redução de 30% do teor de sódio de 40 produtos da Sadia – o equivalente a 70% do volume comercializado pela marca. Dentre os alimentos que já estão no mercado, estão frango temperado, lasanha pronta, presunto e salsicha. Para isso, a BRF desenvolveu um ingrediente à base de proteína de carne. O processo de desenvolvimento levou cerca de um ano.

– A redução de sódio dos alimentos é uma mudança gradativa, que não pode ser feita de uma hora para outra – explica Rui Vargas, vice-presidente técnico da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), signatária do acordo fechado ainda em 2011 com o governo federal.

Desde então, as indústrias garantem estar trabalhando para diminuir o teor do mineral em diversas categorias de alimentos, como salgadinhos, margarinas vegetais, mistura para bolos, biscoitos e maionese. Até 2020, a meta é reduzir em 20 mil toneladas o consumo de sódio.

Além do sabor, o mineral é responsável pela conservação dos produtos, afastando o risco de micro-organismos nos alimentos.

– A substituição do sódio requer o desenvolvimento de produtos que mantenham o mesmo padrão de qualidade e não resultem em custos muito maiores, já que são alimentos populares – afirma Vargas.

GELEIA DE MORANGO PROIBIDA
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda de um lote de geleia de morango produzida pela Cooperativa Piá, de Nova Petrópolis. Exames laboratoriais detectaram a presença de fungo, larvas mortas e pelo de roedor no produto da marca.

O órgão determinou a retirada do mercado das geleias de sabor morango do lote 02, com validade até 19 de novembro deste ano.

Em nota, a Cooperativa Piá informou que o problema já havia sido detectado antes mesmo da decisão da Anvisa, e que o lote foi recolhido do mercado no dia 25 de maio. Segundo a indústria, a origem do problema é a própria matéria-prima, no caso, o morango, utilizado na produção da geleia – já que os animais entram em contato com o fruto nas lavouras antes de chegar à indústria.

XÔ, CARRAPATO
Alertados sobre a alta incidência de carrapatos no rebanho bovino gaúcho neste ano, os fiscais agropecuários estão redobrando os cuidados no exame clínico feito na chegada dos animais ao parque Assis Brasil, em Esteio. Após conferir a documentação e os exames obrigatórios, os técnicos fazem a inspeção visual para garantir que nenhum bovino ou bubalino infestado seja liberado.

– O risco é de contaminação de outros animais na feira. Todas as inspetorias de defesa foram orientadas a redobrar a atenção para afastar esse risco – informa Aurélio Maia Vieira, fiscal estadual agropecuário.

Até as 20h de ontem, primeiro dia de chegada dos animais, 632 entraram no parque. Do total, 253 equinos, 80 bovinos, 168 ovinos e 131 aves. O primeiro a chegar foi um carneiro da raça texel, da Cabanha Oliveira, de Uruguaiana.

Até sexta, 4.285 animais de argolas deverão ingressar no parque. Outros 2 mil rústicos, que normalmente não concorrem a premiação, chegarão ao longo da feira – que começa sábado e vai até 4 de setembro.

– Todos devem obedecer aos mesmos requisitos sanitários – resume Pablo Charão, chefe do Serviço de Exposições e Feiras da Secretaria da Agricultura.

CAR PARA LICENCIAR
O Cadastro Ambiental Rural (CAR) passará a ser exigido na concessão de licenciamento ambiental para atividades desenvolvidas em propriedades do Rio Grande do Sul.

A portaria instituindo a obrigatoriedade do cadastro foi publicada no Diário Oficial do Estado na última sexta-feira. A medida passará a vigorar em 60 dias após a publicação da medida.



23 de agosto de 2016 | N° 18615 
DAVID COIMBRA

O Brasil está mudando. Para melhor

Passei pouco mais de dois meses no Brasil. Nessa pequena lasca de tempo, posso dizer que o país que me entregaram é diferente do que entreguei.

O Brasil está mudando rapidamente. Para melhor.

De tudo o que vi no patropi, o sinal mais luminoso dessa melhora foi emitido no mais luminoso dos eventos planetários: a Olimpíada. Numa Olimpíada, o país-sede vira a sede do mundo. Todos estavam olhando para o Rio e para os brasileiros. Todos estavam nos avaliando.

E foi tudo bem.

Problemas houve, é claro, sempre haverá. Na Vila Olímpica, foram registradas, em média, quatro ocorrências de furto por dia. Até medalhas foram roubadas. Os integrantes da delegação da Nova Zelândia, apavorados, decidiram fazer a limpeza dos alojamentos eles próprios. Em outras equipes, como a búlgara, as camareiras chegaram a ser expulsas dos quartos a vassouradas.

Bem. Todos sabemos que essas coisas acontecem no Brasil. No Brasil, rouba-se. Mas, a favor do brasileiro, conta um bom humor que andava meio aprisionado e que se soltou nessas últimas semanas. Foi, de certa forma, uma liberação de nós mesmos.

Há diversos episódios que provam o que digo. Conto alguns.

Sexta-feira à noite, a lua cheia lançando uma luz amarelada sobre o Rio de Janeiro, o calor ameno do inverno dos trópicos convidando ao usufruto da existência, e, mesmo assim, a Arena do Futuro recebia grande público para assistir à semifinal de handebol entre Polônia e Dinamarca.

Na assistência, brasileiros à mancheia. O que eles tinham a ver com a Polônia? O que eles tinham a ver com a Dinamarca? O que eles tinham a ver com o handebol? Nada. Mas eles estavam lá. E, como não tinham nada a ver com uma equipe ou outra, decidiram torcer pelas duas. Gritavam, das arquibancadas:

– Polska-Denmark! Polska-Denmark! Polska-Denmark!

Certamente, os aplicados jogadores da Polska e da Denmark não entenderam lhufas. Quem entenderia?

Dois dias antes, numa das arenas cariocas, foram os americanos que ficaram perplexos com a torcida brasileira. Estados Unidos e Argentina se enfrentavam no basquete. Os torcedores brasileiros, provocando os argentinos, cantavam a musiquinha dos mil gols:

– Mil gols... mil gols... mil gols, mil gols, mil gols... Só Pelé, só Pelé-é...

Os argentinos rebatiam do outro lado. E os brasileiros retrucavam. Foi assim o tempo inteiro. Em certo momento, os jogadores americanos pararam na quadra e ficaram olhando para cima, tentando compreender o que ocorria. Os repórteres dos Estados Unidos procuraram os colegas brasileiros para perguntar o que a torcida cantava. Quando ouviram a resposta, ficaram embasbacados:

– Mas por que eles estão cantando isso num jogo de basquete?...

Imagina se os americanos vissem a luta de boxe que havia ocorrido no dia anterior. Enfrentavam-se um pugilista do Azerbaijão e um do Cazaquistão. O árbitro era um brasileiro com o improvável nome de Jones Kennedy do Rosário. Para quem os brasileiros torceriam: Azerbaijão ou Cazaquistão? Nem um, nem outro: torceram pelo árbitro. Cada vez que Rosário apartava os lutadores, a torcida urrava das arquibancadas:

– Eeeeeeeeeeee!

O confronto terminou com o canto:

– Rosário é melhor que Neymar!

A ironia, a sacanagem, a malandragem, a brejeirice da torcida brasileira foi recuperada na Olimpíada do Rio. Só quem está de bem com a vida é capaz de brincar com tanta inocência e, ao mesmo tempo, com tanta malícia. Que alívio. Estamos indo em frente.



23 de agosto de 2016 | N° 18615 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

PIAUÍ

Nelson Rodrigues, o cronista, uma vez passou semanas em volta do Piauí. Era uma pegação de pé, que começou de modo eventual – ele um dia constatou que aquele Estado brasileiro não tinha produzido intelectuais salvo o então ministro Reis Velloso. Logo apareceram respostas de instituições piauienses para rebater a desinformação do Nelson, que então ainda lembrou que, feito um exame de consciência rigoroso, não pensava no Piauí desde O meu boi morreu, um canção popular da infância dele.

E o senhor, caro leitor, há quanto tempo não pensa no Piauí?

Olhe o caso da revista Piauí, a sensacional revista mensal de reportagens, que dão gosto de ler (salvo algum pedantismo intelectual que acomete uns 10% dos textos). Ela tem esse nome não para pegar no pé daquele Estado brasileiro, o de menor faixa litorânea num país que ainda vive pensando que é praia, apenas praia. O nome é uma referência à mais antiga civilização humana presente no território brasileiro – que ocorreu justamente no Piauí, nas profundezas do sertão.

Há quanto tempo? Pois há uma forte chance de aquilo lá ter registro humano há uns 50 mil anos. Sim, 50 mil. Muito além dos 14 mil que a arqueologia norte-americana hegemônica admite. A pessoa que mais contribuiu para essa datação se chama Niede Guidon, tem agora 83 anos e acaba de jogar a toalha.

Depois de batalhar, empenhar sua vida e mesmo seu dinheiro pessoal para manter aberto em condições mínimas o Parque Nacional da Serra da Capivara, ela precisou anunciar ao mundo que desiste, porque não há como.

Dizem que o Parque é a “área de maior concentração de sítios pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade – Unesco, e “contém a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo”. Eu não sei dizer se sim ou não, mas sei que é simplesmente inaceitável que nosso país deixe isso acontecer.

segunda-feira, agosto 22, 2016



22 de agosto de 2016 | N° 18614
EDITORIAL

OURO EM AUTOESTIMA

Os brasileiros conquistaram nestes Jogos um valor mais precioso do que as medalhas dos vencedores: a confiança de que somos capazes de reconstruir um país digno para todos.

Se os sentimentos dos brasileiros em relação aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro fossem expressos na simbologia do pódio, poderíamos nos autoconceder a medalha de bronze em questões que não chegaram a comprometer o evento, prata em organização e um ouro inquestionável em autoestima. 

O Brasil sai dessa experiência olímpica bem melhor do que entrou e muito acima das expectativas internacionais, que oscilaram do desastre preanunciado para o sucesso inequívoco na medida em que a competição avançou. Ao final, ficou a sensação de dever cumprido e o orgulho de constatar que somos, sim, capazes de fazer bem as coisas e que podemos até mesmo transferir o êxito da experiência olímpica para áreas essenciais ao desenvolvimento do país.

O público brasileiro se comportou muito bem, superando com alegria, hospitalidade e espírito festivo indelicadezas isoladas, como a manifestação infeliz do prefeito da cidade sobre as reclamações dos australianos ou mesmo as vaias inoportunas para o atleta francês que competia com o brasileiro no salto com vara. Para compensar, a torcida inteira do Maracanã aplaudiu o time alemão na entrega das medalhas do futebol – exemplo claro de reconhecimento, aprendizado e adaptação ao espírito olímpico.

Em relação ao planejamento e à organização da Olimpíada, beliscamos o ouro. Mesmo que algumas acomodações da Vila Olímpica tenham sido entregues sem estarem completamente concluídas (daí a reclamação dos australianos) e que tenha havido filas e falta de alimentos na largada, todos os problemas foram superados rapidamente. Tudo funcionou: segurança, transporte, áreas de lazer, acomodações para os atletas, estádios confortáveis e informações aos visitantes. O Rio construiu um Parque Olímpico tão bom quanto os demais, ampliou a linha do metrô, implantou o VLT e os BRTs, urbanizou a área do Engenhão, revitalizou o porto e deixa uma infraestrutura qualificada para uso dos cariocas.

Encerrado o evento, sem grandes incidentes e com o reconhecimento da mídia internacional, fica como maior legado a recuperação da autoestima do povo brasileiro, abalada por conta da crise política e econômica, da corrupção e do desemprego. Evidentemente, o sucesso dos Jogos Olímpicos não resolve tais problemas. Mas comprova que os brasileiros podem aproveitar o conhecimento adquirido para planejar e executar um novo país. Podem aproveitar o exemplo do esporte, que transforma pessoas humildes em grandes campeões, como evidenciaram muitos dos nossos medalhistas, para enfrentar mazelas crônicas como a violência, o tráfico de drogas, as deficiências de educação, saúde e segurança.

Com esforço, criatividade, trabalho coletivo e tenacidade, os brasileiros conquistaram nestes Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro um valor mais precioso do que as medalhas dos vencedores: a confiança de que somos capazes de reconstruir um país digno para todos.



22 de agosto de 2016 | N° 18614 
PAULO GERMANO

Para que serve um velho


Sinto falta dos velhos. Eles sumiram. Há os que se esconderam, porque ninguém mais quer ouvi-los, e há os que se portam como jovens, na ânsia de serem ouvidos. O velho mesmo, o velho clássico, o velho sábio que nos fazia baixar as orelhas e sentar de perna de índio em volta da cadeira, esse velho nós estamos matando.

Ponha-se no lugar dele: quando era jovem, há algumas décadas, sua meta era entrar no mundo dos velhos – porque eram os velhos que detinham o poder, o saber e o sucesso na carreira. Agora que virou velho, sua meta é entrar no mundo dos jovens, porque são os jovens que detêm o poder, o saber e o sucesso na carreira. Quem aguenta uma rasteira dessas?

O publicitário Dado Schneider, 55 anos, repete em suas palestras que, justo na vez dele, justo na hora de ele ficar velho, houve essa transformação inédita na história da humanidade: um volume brutal de conhecimento passou a ser transmitido das gerações mais novas para as gerações mais velhas. E há um efeito hediondo nessa inversão de papéis.

Porque, se os jovens agora gozam de poder e saber, que serventia têm os velhos? Se o nosso guru se chama Google, se o modelo de sucesso é Zuckerberg – 32 anos –, se a compreensão do mundo parece melhor na juventude, qual é a vantagem da velhice? Quem vai parar para ouvir um velho? Pior: quem vai aceitar ser velho?

É triste que o velho mesmo, o velho clássico, o velho sábio que nos fazia baixar as orelhas e sentar de perna de índio em volta da cadeira, morra no momento em que mais precisamos dele – um momento em que “estamos nos afogando em informações mas famintos por sabedoria”, como disse o biólogo E. O. Wilson.

Quer dizer: temos acesso ao conhecimento como ninguém jamais teve, mas falta quem nos oriente. Falta quem nos situe nessa biblioteca de fragmentos, quem nos ajude a filtrar essa enxurrada de informações que mais atormenta do que educa. Falta quem nos ensine a lidar com essa nova vida – ou, em outras palavras, nos falta sabedoria. Que nada mais é do que saber empregar o conhecimento.

Em toda a história da civilização, os velhos exerceram um papel crucial. Na Roma antiga, o conselho de anciãos, que já era comum nas sociedades orientais, ganhou o nome de Senado – e os anciãos passaram a fiscalizar autoridades e a controlar as finanças públicas. Porque o jovem, ele é importante quando precisamos de iniciativa, ímpeto e energia, mas nada disso basta sem prudência, traquejo e paciência. Aos 30 anos de idade, Alexandre, o Grande, já havia conquistado o mundo, mas seu maior conselheiro era o velho Aristóteles.

Que conselheiro nós temos hoje? Qual foi a última vez que você parou para ouvir um velho, frente a frente, sem qualquer obrigação familiar, apenas pelo prazer de beber um pouco de sabedoria? Ainda dá tempo, mas seja rápido. Porque esse velho nós estamos matando.


22 de agosto de 2016 | N° 18614 
L.F. VERISSIMO

Os jogos


Na capa de uma revista New Yorker recente, aparecem quatro atletas numa pista de corridas, correndo. A referência clara é às Olimpíadas, uma simpática homenagem da revista, pensa você, aos Jogos no Rio. Mas um exame mais demorado da capa revela que os quatro atletas não estão competindo numa prova, estão fugindo, em pânico, de uma nuvem de mosquitos, supostamente portadores do vírus da zika.

Entre todas as previsões dos riscos de realizar a primeira Olimpíada num país tropical, e logo um país em crise, a mais catastrófica – mais do que assalto ou desorganização – era a do contágio por picada de mosquito. Houve assaltos e alguma desorganização, mas os mosquitos não atacaram e a Olimpíada chega ao fim como um sucesso inegável. Eta, Rio.

A cobertura dos Jogos feita pela nossa mídia – descontados alguns excessos de entusiasmo não justificados pela atuação dos nossos atletas, que mesmo assim não deram vexame – foi ótima. O difícil era decidir o que ver. Entre o pingue-pongue e o hipismo, a escolha era grande. Alguns esportes aos quais nunca se tinha prestado muita atenção por aqui foram revelações. Exemplo: o handebol, uma mistura de basquete, futebol e judô.

E acho que o badminton (tênis com peteca), a esgrima e o hóquei sobre grama poderiam fazer uma Olimpíada à parte, só dos chatos. No caso do polo aquático, outro que pode competir na Olimpíada dos chatos, o que impressiona é a vitalidade dos jogadores, obrigados a se manter à tona, controlando a bola e ao mesmo tempo tentando se proteger da marcação do adversário, que, presumivelmente, inclui pontapés, puxões no calção e outros acontecimentos abaixo da linha da água que o juiz não pode ver.

Mas eu fico falando mal de esportes que não me interessam sem medir as consequências dos meus preconceitos. Se eu aparecer um dia com uma peteca na boca, marcas de golpes com um taco de hóquei sobre a gra ma por todo o corpo, trespassado por um sabre e todo molhado, saberão por quê.



22 de agosto de 2016 | N° 18614
DAVID COIMBRA


A VAIA QUE LAVA

Nunca ouvi vaia igual. Vi Ronaldinho ser vaiado pelos gremistas quando marcou um gol, porque antes traíra o Grêmio. Vi o imponente Estádio Olímpico de Berlim estremecer com a vaia ao juiz que expulsou Zidane na final da Copa de 2006. Vi Lula ser vaiado no mesmo Maracanã, na abertura do Pan, em 2007. Mas nunca tinha visto ou sentido algo semelhante ao que se deu no sábado passado.

Durante cinco minutos, o Maracanã vaiou. E, durante cinco minutos, a Alemanha jogou. Era quase inacreditável, mas os jovens jogadores alemães não se deixaram perturbar por aquela vaia que desabava sobre eles como o piano que cai do oitavo andar. Continuaram trocando passes com competência germânica, chegaram à área do Brasil e por uma canela de zagueiro não fizeram o gol.

Isso, talvez, desestimulasse a torcida brasileira. Mas não. Os torcedores continuaram apupando com toda a gana, sem desistir, sem arrefecer, sem diminuir o volume do berro.

É possível que os alemães não tenham se incomodado com a vaia porque a compreenderam: aquela não era uma vaia “negativa”. Não era uma vaia de censura, como em geral as vaias são. Era uma vaia “positiva”, de apoio à Seleção.

O público se manifestava porque estava tentando ajudar. Cada torcedor fazia força para empurrar a bola com a voz. Porque existia um sentimento conjunto permeando os brasileiros que estavam no Maracanã e possivelmente todos os outros que assistiam ao jogo pela TV: era preciso vencer aquele jogo. Porque era mais do que um jogo; era um símbolo.

Até os anos 1990, nós achávamos que o Brasil não tinha jeito mesmo. Era inflação, era ditadura, era desemprego e, para arrematar, era uma Seleção que havia mais de 20 anos não ganhava uma Copa. Aos poucos, porém, conseguimos restabelecer a democracia, vencemos a inflação, o país começou a crescer e até a Copa nós conquistamos. O Brasil, enfim, era um Brasil novo.

Tudo estava dando certo e, de repente, tudo deu errado.

Em poucos anos, com a velocidade da peste, o Brasil, simplesmente, fracassou. E o signo desse fracasso foi o revés na Copa do Mundo brasileira: os 7 a 1 para a Alemanha.

Dois anos depois, cá estávamos nós outra vez. Nesses dois anos, o Brasil purgou. O Brasil sofreu. Agora, se não eram exatamente os mesmos Brasil e Alemanha que se enfrentavam, ainda eram Brasil e Alemanha. E no Maracanã. Não poderia haver arena melhor para essa final. O Maracanã do Maracanazo, o Maracanã de Pelé e Garrincha, o Maracanã da bela cerimônia de abertura da Olimpíada e, também, o Maracanã que vaia.

Pois o Maracanã vaiou, só que, desta vez, não vaiou contra: vaiou para jogar junto. O Brasil tinha de vencer aquela decisão, sentiam todos no estádio. Tinha. Para mostrar aos brasileiros que o pior já passou e que é possível ver o sol nascendo no horizonte.

Por tudo isso, a festa da vitória no Maracanã foi uma festa de desabafo. De alívio. O Brasil se depurou debaixo dos braços abertos do Cristo Redentor. Saiu de medalha dourada pendurada no pescoço. Sentindo-se um Brasil novo. De novo.


domingo, agosto 21, 2016


Claudia Gasparini Claudia Gasparini, de EXAME.com

Cortella diz qual é o segredo para acordar feliz na 2ª feira



São Paulo — Encontrar alegria na carreira é um sonho antigo da humanidade. O filósofo chinês Confúcio (551 a.C.- 479 a.C) já arriscava um plano: “Busque um trabalho que você ame, e nunca mais terá que trabalhar um dia em sua vida”.

No Brasil de 2016, o velho ideal parece especialmente distante. Combine crise econômica, instabilidade política, conflitos sociais e desemprego galopante, e está pronta a receita de veneno para a motivação de qualquer profissional.

Para o filósofo, educador e palestrante Mário Sérgio Cortella, os problemas conjunturais do país têm impacto inegável sobre a disposição do brasileiro para o trabalho. Mas o desânimo para levantar na segunda-feira de manhã também admite outras explicações, inclusive de natureza existencial.

Em entrevista exclusiva a EXAME.com, o estudioso discute os mecanismos por trás da motivação para o trabalho, o segredo para encontrar alegria na obrigação, entre outras questões centrais de seu novo livro, “Por que fazemos o que fazemos?” (Editora Planeta, 2016).

Na conversa, Cortella desconstrói o mito de que rotina e felicidade não se misturam, mas dá um puxão de orelha nos jovens que só esperam fazer o que gostam em suas carreiras. “É preciso ter o prazer como uma das referências para o trabalho, mas não como referência exclusiva”, afirma. “Sempre é necessário um desgaste para que você atinja um resultado”.

Confira a seguir os principais trechos da conversa com o filósofo, em que ele diz o que pensa sobre temas como propósito, obsessão pela carreira e equilíbrio entre lazer e trabalho: 

EXAME.com - Em seu novo livro, você discute uma das maiores fontes de mal-estar do mundo contemporâneo: a dificuldade de encontrar motivação para o trabalho. Essa é uma questão sentida especialmente pelos jovens?

Mário Sérgio Cortella - Antes de tudo, é preciso distinguir motivação e incentivo. Motivação é aquilo que move, que movimenta, como um motor. É, portanto, algo interno, precisa estar dentro de nós. É possível incentivar outra pessoa, dar estímulos. Mas não dá para motivá-la.

Hoje, o jovem tem esse “motor interno" pouco acelerado em relação ao trabalho. As gerações anteriores, ao contrário, viam no trabalho uma obrigatoriedade, porque não dava para viver sem trabalhar e era preciso começar cedo.

Acontece que, nas últimas décadas, o Brasil construiu condições econômicas mais sólidas e uma parcela das famílias decidiu que iria subsidiar a ausência de ganho dos seus filhos. Isso faz com que o jovem tenha uma motivação muito menor. Se eu tenho 18, 19 anos, por que investir na carreira, se posso dedicar o meu tempo ao lazer? Uma parte dos pais e mães enfraqueceu a formação dos filhos nessa direção. Sob o pretexto de poupá-los, produziu e produz um efeito que é danoso.

EXAME.com - E agora? O que faz um jovem ter disposição para acordar na segunda-feira de manhã e ir trabalhar feliz?

Mário Sérgio Cortella - Em primeiro lugar, o propósito. Ele só ficará motivado se enxergar que aquilo para que vai se esforçar tem uma finalidade clara para ele.

Reconhecimento também é essencial, é a coisa de que o jovem mais necessita. Ele precisa ser entendido como alguém importante, porque a questão autoral se tornou central. O profissional não quer mais ser tratado apenas como uma peça de uma grande máquina, ele quer ser autor de algo. É a mesma lógica da matéria assinada por um jornalista: aparece lá o nome dele, mesmo que seja pequenininho. No mundo do trabalho, o reconhecimento se tornou mais importante do que a própria sobrevivência.

EXAME.com - Quando falam sobre seus ideais de carreira, muitos jovens dizem que querem “fazer o que gostam”. Eles estão confundindo prazer e obrigação?

Mário Sérgio Cortella - Uma das melhores coisas da vida é fazer o que se gosta. Só um tonto vai querer fazer algo desagradável. O que não posso esquecer é que, para chegar ao resultado de que eu gosto, há várias etapas pelas quais eu passarei que serão desagradáveis. Sempre é necessário um desgaste para que você atinja um resultado.

Os nossos medalhistas de ouro na Olimpíada precisaram fazer várias coisas de que não gostavam para chegar ao lugar de que gostaram, que é o primeiro lugar do pódio. É preciso ter o prazer como uma das referências para o trabalho, mas não como referência exclusiva. Se não for assim, haverá muita tristeza e frustração.

EXAME.com - Por mais prazeroso que seja, qualquer trabalho implicará repetição e rotina. É possível ter uma rotina prazerosa, ou isso é um paradoxo?

Mário Sérgio Cortella - É possível sim. Rotina é simplesmente uma forma de organização do trabalho. Não devemos confundir rotina com monotonia. Todos os dias eu levanto cedo, vou para meu escritório, sento para escrever, dou palestras. É uma rotina, isto é, uma atividade organizada, estruturada. Ela não produzirá distração nem chateação, a não ser que vire monotonia.

Quando eu entro num avião, quero que o piloto siga a sua rotina, mas não quero que ele entre num estado de monotonia. A rotina será prazerosa se eu enxergar o resultado dela como prazeroso. Quando deixa de ser assim, vira monotonia. É quando eu não vejo a hora de ir embora, de deixar tudo para trás.


EXAME.com - O excesso de trabalho está roubando cada vez mais tempo do lazer e da convivência familiar. Num mercado tão competitivo, ainda é possível ter uma carreira de sucesso sem sacrificar a felicidade em outros âmbitos da vida?

Mário Sérgio Cortella - É evidente que você precisa se dedicar à carreira, mas não pode deixar que apenas um aspecto da vida obscureça todos os demais. É preciso buscar um equilíbrio entre as diversas faces da existência. E esse equilíbrio é igual ao necessário para andar de bicicleta: você precisa estar sempre em movimento para não cair.

Equilíbrio significa ser capaz de ir aos extremos sem se perder neles. Você pode ter uma alimentação equilibrada mas, de vez em quando, mergulhar com alegria numa garrafa de vinho, num churrasco. Mas não vai fazer isso todo dia, toda hora. Da mesma forma, quando as pessoas fazem cursinho pré-vestibular, elas não têm fim de semana, não têm balada, não têm nada. Mas ninguém vai passar o resto da vida fazendo cursinho, se não enlouquece.

Uma pessoa que passa o tempo todo obcecada pela carreira está adoentada. É preciso cautela, porque isso vai torná-la infeliz. Há momentos na vida em que você vai se dedicar mais aos filhos do que à sua carreira. Em outros, você precisará trabalhar por 12,13 horas por dia e ficará menos tempo com a família. O importante é não se perder nos extremos, mas saber transitar entre eles.

EXAME.com - Não vivemos numa cultura que incentiva os extremos?

Mário Sérgio Cortella - Sem dúvida. Existe a ideia de que  sucesso significa trabalho contínuo, que você deve esquecer os outros aspectos da vida. Nossa cultura incentiva isso, suga as pessoas, vai exaurindo suas forças, transformando cansaço em estresse. O cansaço resulta de um esforço intenso. O estresse é quando você já não tem compreensão do que está fazendo.

No entanto, o que é imposto pela cultura não é obrigatório. É preciso andar na contramão dessa ideia e tentar buscar o equilíbrio entre as diversas faces da vida. Não é fácil, mas também não é impossível.

sábado, agosto 20, 2016



20 de agosto de 2016 | N° 18613 
MARTHA MEDEIROS

Vida dura comparada com a de quem?

Há mil jeitos de aliviar a dor dos outros. Ficamos com a parte mais fácil, tenha certeza


Vamos supor que a mesa da sua cozinha tenha sido atacada por cupins, que você esteja de relações cortadas com sua mãe, que venha sofrendo uma dor-de-cotovelo daquelas, que tenha engordado durante o inverno, que esteja estremecida com uma amiga com posição política oposta à sua, que tenham batido no seu carro estacionado e não deixaram nem um bilhete no para-brisa. Continue supondo: fez as contas e não vai dar para viajar no fim do ano, seu filho admitiu que fuma maconha, e seu patrão encasquetou que você está fazendo corpo mole no trabalho, mas a única coisa mole é seu tríceps.

Sem falar que anda frio, que sair à noite anda perigoso e você andou se estressando com comentários deixados nas redes sociais. O peixe que comeu no almoço estava estragado, e sua prima perdeu o livro que você emprestou. Convidaram você para um casamento, e você não tem roupa. Um maluco caçando pokémons pisou em cima do seu yorkshire. Será porque é agosto?

Pode nada disso estar acontecendo com você, mas certamente você tem sua lista de queixas. Todos nós temos. Mas queixas comparadas com o quê?

Passei uma tarde na Kinder, uma entidade que reposiciona nossos valores. Há mais de 25 anos, oferece educação especial e reabilitação a 300 crianças e adolescentes carentes com sérios comprometimentos neurológicos e físicos. Emprega cerca de 50 profissionais, entre pedagogos, fisioterapeutas, educadores. Mantém uma sede ampla, limpa e bem equipada – tudo mantido com doações privadas e repasses públicos. 

O que acontece lá dentro é um milagre. Cada funcionário trabalha com um baita sorriso no rosto, como se estivesse na Disney. Atendem meninos e meninas com deficiências de moderadas a graves (não há caso leve por lá) e se sentem orgulhosos e plenamente gratificados por fazer diferença na vida de quem nasceu em total desvantagem em relação a nós. Desvantagens como não conseguir falar, não conseguir ficar em pé sozinho, não ter articulação motora.

Quem começou tudo isso foi, de certa forma, uma refugiada. Barbara Fischinger chegou novinha aqui no sul, vinda da Alemanha, e não poupou esforços até realizar seu sonho de viabilizar um projeto de assistência aos que têm comprometimentos múltiplos. O que ela fez e ainda faz é de uma importância que até nos deixa acanhados, nós que nos julgamos especiais sei lá por quê. 

Especiais são aqueles que se dedicam a projetos de inclusão social e o fazem com amor e entrega ilimitada. A nós, resta colaborar. Podendo, entre no site kinder.org.br. Há mil jeitos de aliviar a dor dos outros. Vamos dar uma mão para que esse pessoal prossiga com o que começou. Ficamos com a parte mais fácil, tenha certeza.



20 de agosto de 2016 | N° 18613 
CARPINEJAR



Solidão não é estar sozinho, mas é não conseguir ficar sozinho, não se suportar sozinho.

Assim como a solidão não tem conexão com o deserto e o isolamento. Pode acontecer casado, acompanhado, cheio de gente ao lado.

Solidão é uma insuficiência que cresce: é a infinita capacidade de piorar o mundo para melhorar as reclamações.

Solidão é não encontrar ânimo tanto para acordar quanto para dormir, é quando o desespero desemboca em angústia.

Solidão é guerrear com a imaginação, lutar com a memória, combater os pensamentos. É se posicionar contra o perdão.

Solidão é uma saudade de si.

Solidão é rir sem vontade mais do que ter vontade de chorar.

Solidão é parar de achar graça quando as coisas dão errado.

Solidão é não ser compreendido. É explicar o que machucou e não receber o curativo da atenção.

Solidão é ser desacreditado sempre que se conta a verdade. É revelar uma urgência e ser menosprezado. É expor uma necessidade e não ser levado a sério.

Solidão é a incomunicabilidade. É conviver com alguém e não ter como falar o que incomoda, é perder o ritmo da confissão, é não saber mais como começar uma conversa.

Solidão é ser assaltado várias vezes pela mesma tristeza. É não resolver nunca o problema, é aceitar a falta de solução.

Solidão é jamais encerrar as mágoas, adiar a despedida para fingir que a relação não acabou.

Solidão é não terminar mais nenhum livro e ouvir uma única música ininterruptamente.

Solidão é forjar respostas para não enfrentar as perguntas.

Solidão é chegar muito atrasado na emoção. É um desabafo feito exclusivamente de soluços.

Solidão é ir substituindo a vida por mentiras, é ir substituindo o compromisso pelas desculpas.

Solidão é assumir a culpa por aquilo que não aconteceu e, ironicamente, fugir da responsabilidade por tudo aquilo que aconteceu.

Solidão é ser desajeitado para amar e ser incompetente para odiar.

Solidão é quando o silêncio vira fardo.

Solidão não é o vazio, é ocupar o coração pela pessoa errada.

Solidão é manter um quarto infantil para um filho adulto.

Solidão é lembrar o aniversário um dia depois.

Solidão é um asilo para crianças, um orfanato para velhos.

Solidão é desinteressar-se pelas palavras e, em seguida, desinteressar-se pelo corpo.

Solidão não é ausência de sexo, é ausência de prazer.

Solidão é extraviar o contato com a família e não ter a humildade de reatar.

Solidão é desaparecer para os amigos durante a alegria e depois ver os amigos desaparecendo nos momentos da tristeza.

Solidão é pagar mesada aos defeitos e salário para as dores e não sobrar nada para agradecer aos céus.

Solidão é enjoar de tudo o que antes lhe inspirava, é quando a felicidade transforma-se em tédio.

Solidão é rastejar com asas, não dispor da concentração mínima para recuperar o que era importante.

Solidão é não ser mais solidário consigo.

Solidão é recordar os bons momentos somente para se torturar.

Solidão é inventar doenças e morrer de desgosto pelo excesso de saúde.

Solidão é se sentir só ainda desejando estar só.