Follow by Email

sexta-feira, outubro 24, 2014

Jaime Cimenti

Eleições 2014. Diga lá, meu Deus!

Pois é, Mr. Phillipson, nós também procuramos entender o que está acontecendo por aqui, nestas trepidantes e mutantes eleições de 2014. Se para o senhor, que é estrangeiro e experiente brasilianista, não está fácil entender o panorama nacional, imagine para nós, envolvidos racional e emocionalmente com a coisa e sofrendo, tantas vezes, os efeitos da miopia da proximidade.

Está difícil. Estamos divididos e, por vezes, os divididos de um lado se bandeiam, de uma hora para outra, para a outra banda. Nulos, indecisos, abstenção, votos de último minuto, não é mole. Haja instabilidade e fragmentação pós-moderna. Metamorfose ambulante é coisa do passado, estamos agora em tempos de metamorfose volátil, no mínimo.

Os analistas políticos, os historiadores e os institutos de pesquisas, ao invés de nos fornecerem alguma luz, na maior parte do tempo nos deixam ainda mais atarantados, com suas dúvidas, incertezas, entrelinhas e margens de erro. As estranhas e por vezes inexplicáveis coligações, os anúncios, acordos e apoios de última hora, as notícias e tudo o mais, nos deixam numa situação de querer opinar. Se ficamos quietos, é porque estamos em cima do muro; se opinamos, aí é risco de perda de amizades e afetos. Complicado.

Neste domingo, após mais acontecimentos, verdades, inverdades, nascimentos, mortes, denúncias e até anúncios de alguma coisa em termos de planos de governo, vamos, democraticamente, às urnas, que, esperamos, estejam em boas condições e reflitam exatamente o conteúdo dos votos nelas depositados. Ainda bem, ainda bem que estas eleições têm data para terminar. Ninguém aguenta mais.

Após as lutas eleitorais, os feriados, as festas de fim de ano, do verão e do carná, no início efetivo de 2015, lá por março, acho que precisaremos fazer um esforço mínimo de união em torno do que interessa ao Brasil e aos brasileiros.

Agora, é tentar votar com os possíveis amor, razão, emoção, humor, paciência, gana e paz e brigar o mínimo que der com o próximo, por causa dessas políticas e políticos. Eles, como todos  nós, sabem que o parto do Brasil é demoradíssimo, que esse País não é para principiantes e que, quase sempre, é bem mais fácil amar o Brasil do que tentar entender suas intermináveis mazelas. Tomara que, ao fim e ao cabo, aconteça o melhor para todos, “ditos” vencidos e vencedores, mas irmãos nascidos na mesma terra tropical, graças a Deus, ele também brasileiro. Em quem será que ele vai votar? Diga lá, meu Deus!
Jaime Cimenti


Jaime Cimenti

Afinidade, gentileza, culpa e reparação

O conto do covarde (Editora Bertrand Brasil, 378 páginas, tradução de Sibele Menegazzi), romance da escritora inglesa Vanessa Gebbie, foi considerado, não por acaso, um dos melhores lançamentos de 2011. Com suas muitas qualidades, uma passagem do romance venceu o prestigiado prêmio Novel in a year do jornal Daily Telegraph. Autora de duas coletâneas de contos, muitos premiados, Vanessa vive atualmente em Sussex, na Inglaterra. O conto do covarde, narrativa que trata de afinidade, gentileza, culpa e reparação, é dessas histórias que permanecem na mente dos leitores e que chegam, mesmo, a mudar a vida deles.

Mesclando emoção, sensibilidade e técnica narrativa apurada, a autora faz o leitor se sentir parte dos acontecimentos, rindo, chorando ou surpreendendo-se. O menino Laddy Merridew foi enviado para morar com a avó em uma pequena comunidade do País de Gales.

Lá, inicia uma improvável amizade com Ianto Passchendaele Jenkins, o mendigo contador de histórias da cidade que é guardião do legado da Gentil Clara, uma antiga mina da região que explodiu há muitos anos e que deixou marcas nas gerações futuras. Através das histórias do amigo, o menino é envolvido pelo passado da cidade e pelos enigmas do presente.

Por que Ícaro Evans, o professor de marcenaria, passa a maior parte da vida tentando fazer folhas de madeira capazes de flutuar? Por que Tsc-Tsc Bevan, o papa-defunto, quer encontrar um caminho com linha reta que corte a cidade? Por que James Little, o cobrador de gás, cava sua horta à noite?

E por que o limpador de janelas Judah Jones leva folhas de outono para uma capela vazia? Esses e outros homens da cidade, bem como as mulheres que os geraram, as que casaram com eles e as que lamentaram suas mortes estão na comovente e, por vezes, bem-humorada narrativa, interligados pela tragédia de Gentil Clara e pela misteriosa figura de Ianto Jenkins.

Lealdade, perda, traição, amor, afinidade, sustos, gentileza, culpa e reparação são os componentes da fascinante colcha de retalhos que brota das histórias contadas pelo mendigo Jenkins, um covarde assumido, que será amigo de Laddy Merridew, um menino assumidamente chorão.


Os leitores vão gostar da perspicácia das palavras, que ressalta a doçura, e da generosidade da narrativa, gerada a partir do sofrimento da perda.

24 de outubro de 2014 | N° 17962
EDITORIAL ZH

O ÚLTIMO ATO

O debate programado para a noite desta sextafeira, na Rede Globo, será o último confronto público entre os candidatos à Presidência da República e também a derradeira oportunidade para que os dois pretendentes ao principal cargo executivo do país convençam particularmente os eleitores indecisos de que são a melhor opção para o governo.

Serenada a animosidade dos primeiros debates e selado o pacto de não agressão, esperase que a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB) aproveitem o momento de extrema visibilidade para se comprometer com as demandas reais da população, que podem ser sintetizadas nos seguintes pontos: um país com democracia estável, economia sólida, inflação controlada, segurança, saúde e educação em patamares dignos.

Um dos aspectos promissores do confronto em rede nacional marcado para hoje será justamente a oportunidade oferecida a eleitores indecisos, selecionados em todo o país, de formularem questões sobre temas de interesse nacional. Os brasileiros ainda sem voto definido são os que mais se mostram resistentes ao tom agressivo predominante em situações anteriores, nas quais os pretendentes ao Planalto ficaram frente a frente.

Terão, portanto, uma oportunidade importante de alterar uma pauta que, de maneira geral, até agora foi ditada mais pelos dois postulantes à Presidência. A campanha eleitoral, que tem um ponto alto nos debates, não pode ficar na dependência de temas ditados pelos candidatos, nem sempre de relevância para os eleitores. O que interessa, no caso, não é o que pode render mais voto para um ou tirar de outro. Debates transmitidos para um país de dimensões continentais têm o mérito de expor os candidatos mais como eles são, como pensam e como agem, sem a interferência excessiva de artifícios como os de marketing.


Infelizmente, mesmo em confrontos como o de hoje, quase ao final de uma campanha disputada voto a voto, nem tudo se revela como deveria. O que os eleitores precisam fazer é discernir os excessos, os argumentos distorcidos, as simplificações para facilitar o uso nas redes sociais. O país tem desafios importantes demais para ficar sob o comando de quem hoje busca votos sem um mínimo de clareza e transparência sobre seu projeto de governo.

24 de outubro de 2014 | N° 17962
PAULO SANT’ANA

A resposta dos banrisulenses

Arespeito de minha coluna de ontem, recebi inúmeros comentários de clientes e funcionários do Banrisul, com visões opostas da greve. Como é tradição deste espaço, estou publicando a nota da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS, representativa dos bancários.

A responsabilidade pela greve é do Banrisul

A greve em curso dos empregados do Banrisul tem o objetivo central de conseguir que o banco atenda às justas reivindicações dos seus trabalhadores, aprovadas em fóruns democráticos e legítimos e referendadas nas 38 assembleias dos Sindicatos de Bancários do Estado e tantos outros Brasil afora. Nas negociações, o Banco sistematicamente negou as reivindicações. Por isso, bancários e bancárias não tiveram outro modo de pressionar seu empregador a não ser através do último recurso: a greve. Repete-se: não tiveram nenhum outro recurso.

É lógico que uma greve acaba causando transtornos à sociedade. Porém, o culpado pela paralisação dos serviços é o próprio banco, que não atende às justas e antigas reivindicações dos bancários e bancárias.

Por esse motivo, a coluna intitulada “Uma greve afrontosa”, do jornalista Paulo Sant’Ana, do dia 23 de outubro, é injusta, infamante e presta um desserviço à população e atenta contra a própria liberdade de comunicação que defendemos. O texto da coluna do jornalista é carregado de adjetivações, preconceitos e atribui a responsabilidade pela greve exclusivamente ao que ofensivamente considera como uma “vagabundagem” dos empregados do Banrisul.

O tom do artigo jornalístico é uma absurda injustiça, pois ele esquece por completo que uma greve nunca é responsabilidade de apenas uma das partes. A greve, como um instrumento de equilíbrio do poderio patronal na mesa de negociações, só é utilizada quando as negociações fracassam. A paralisação conta com a participação efetiva dos bancários e bancárias do Banrisul, que estão participando das assembleias e demais atividades inerentes ao movimento paredista e não estão “em férias” como de maneira inverídica e desrespeitosa alega o jornalista.


Quando uma tentativa bilateral fracassa, a exemplo da negociação coletiva, considera-se insensato e desrespeitoso à população leitora responsabilizar apenas uma das partes por tal insucesso. Não é demais lembrar, neste caso, que a categoria está reivindicando direitos legítimos e que são apenas uma pequena parte do que merecem os bancários e bancárias, frente aos grandes lucros auferidos pelo banco.

24 de outubro de 2014 | N° 17962
DAVID COIMBRA

Os derrotados da eleição

Eis. Chega ao fim a mais triste campanha eleitoral da história da República brasileira. Durante meses, os candidatos e seus furiosos apoiadores se empenharam em mostrar ao Brasil e ao mundo quais são os piores entre eles. Conseguiram. A conclusão é que eles são, de fato, horríveis. Ambos.

No primeiro turno, mesmo a distância, assisti ao espantoso processo difamatório movido contra uma das pessoas mais dignas que encontrei na política: Marina Silva. E, não, não sou eleitor de Marina. Se estivesse no Brasil, não votaria nela. Não por ela ser evangélica ou coisa que o valha. Até porque o fato de ela ser evangélica seria um ponto a seu favor, se lhe fosse dar o voto: as pessoas evangélicas que conheci têm mais escrúpulos e menos propensão ao roubo do que a maioria dos católicos e ateus de Brasília.

São outras as razões que fazem com que não seja eleitor de Marina. Mas isso não vem ao caso. O que vem é que a conheci pessoalmente, entrevistei-a, e sei que é uma mulher admirável, honesta, sincera e incapaz de descer ao pântano de que vieram seus acusadores. Por isso mesmo, por estar muito acima dos que trabalharam solertemente para destruí-la, Marina não foi ao segundo turno. O que talvez tenha sido muito bom para Marina, e nem tanto para o Brasil.

A ganância pelo poder e o medo de perdê-lo são tão grandes, que transformaram a eleição num vale-tudo moral. Ou imoral.

Então, passaram para o segundo turno as seguintes opções:

1. O governo do PT, com histórico de casos de corrupção em pelo menos sete ministérios nesta gestão, tendo, por fim, desmantelado moralmente a maior empresa do país, a Petrobras, e sendo apoiado por todos os que o PT sempre combateu: Maluf, Collor, Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros et caterva.

2. A oposição tucana sem nenhuma ideia, sem nenhum projeto, sem nenhuma outra proposta que não seja a de tirar o PT do poder.

Eis. Aqui estamos.

Por que o Brasil não conseguiu construir uma terceira via aceitável? Por que nunca surge um projeto real de país? Esse é o nosso drama. De qualquer forma, seja quem for o vitorioso, ele já começará seu governo derrotado, porque virá do submundo ao qual desceu a campanha eleitoral.

Prevejo anos difíceis para o Brasil.

Mas espero que o próximo governo seja, pelo menos, honesto. Seria uma base para se construir uma nação de verdade, uma nação que zele igualmente por todos os seus cidadãos, mas que proteja os mais fracos, como crianças, mulheres e idosos;


uma nação que entenda que ter autoridade é diferente de ser autoritário; que mantenha os bandidos na cadeia, mas que a cadeia seja um lugar em que um ser humano possa viver com dignidade, porque a sociedade pode e deve punir, e nunca, nunca se vingar; uma nação que devolva a cidade às pessoas, que resolva conflitos em vez de promovê-los, que compreenda que a cidadania se forma na infância, com educação básica e fundamental; que proteja a natureza da cobiça; que saiba que a beleza e a arte fazem bem ao pobre e ao rico na mesma medida; que tenha claro nas consciências que todas as pessoas, de qualquer cor, credo ou classe, sentem a mesma necessidade universal, básica e fundamental: de viver, trabalhar, criar seus filhos e morrer em paz.

quinta-feira, outubro 23, 2014


23 de outubro de 2014 | N° 17961
CAPA

Dias de fúria

COM RICARDO DARÍN no elenco, Relatos Selvagens renova a força criativa do cinema argentino com coletânea de histórias sobre pessoas em situações que provocam desejo de vingança

Damián Szifrón garante que o acaso está na gênese de Relatos Selvagens, filme argentino que estreia hoje no Brasil no embalo da aclamada recepção no Festival de Cannes e do imenso sucesso de público em seu país 3 milhões de espectadores, número raro para o circuito local. Representante da Argentina na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, Relatos Selvagens reúne seis histórias curtas com pessoas vivendo situações-limite que deságuam em um irrefreável sentimento de desforra.

– Cheguei a esse filme de forma involuntária, enquanto exercitava argumentos para novas histórias – diz Szifrón, em entrevista a ZH. – Nunca pensei em fazer um longa no formato de antologia, mas percebi que as histórias que escrevi para me divertir, desconectadas, tinham essa ligação temática.

Se o imponderável acendeu a fagulha criativa do diretor, e o elenco formado por talentosos nomes do cinema argentino – entre eles, Ricardo Darín – é um forte atrativo, a exitosa realização de Relatos Selvagens decorre de um somatório de acertos. O mais notável é a unidade narrativa do diversificado conjunto, pouco comum em projetos nesse formato, fruto de roteiros lapidados que fazem cada história atingir a força máxima rumo ao clímax.

Nos seis segmentos, Relatos Selvagens apresenta uma diversidade de tipos, situações e gêneros: passageiros de avião descobrem ter ligação com um rapaz que prejudicaram no passado; garçonete reconhece que o cliente grosseiro é o homem que arruinou sua família; dono de carrão e motorista de uma lata velha discutem em estrada deserta; engenheiro especialista em implosões (Darín) acha injustas as multas que leva; milionário tenta colocar um falso culpado em cena de atropelamento; noiva descobre, na festa de casamento, que o noivo é um pilantra.

Trabalhar sobre a linha tênue que separa civilização e barbárie com pitadas de humor negro, flertando com o fantástico, o suspense, o road movie e o melodrama, fez Relatos Selvagens chamar a atenção de Pedro Almodóvar. O cineasta espanhol, junto com seu irmão Augustín, assegurou a produção do longa assim que leu o roteiro de Szifrón. Conhecido por filmes como O Fundo do Mar (2003) e Tempo de Valentes (2005), Szifrón se destaca na Argentina também com seriados de TV que circulam em toda a América Latina, como Os Simuladores (2008).

– Não há fórmula mágica para criar um sucesso de público e também de crítica – afirma o diretor. – O importante é trabalhar com liberdade antes de pensar na reação dos outros. É uma discussão velha falar se um veículo é superior a outro. A TV nos permite trabalhar histórias de maior duração, impossíveis de desenvolver no cinema.

marcelo.perrone@zehora.com.br



23 de outubro de 2014 | N° 17961
ARTIGO - JOSÉ ROBERTO GOLDIM*

BIOÉTICA, BIOPOLÍTICAE BIOPODER

Algumas empresas norte-americanas estão incluindo, entre os benefícios aos seus trabalhadores, o pagamento para o congelamento de óvulos. Esse é um exemplo do que Foucault denominou de biopoder, entendido como sendo uma forma de “explorar numerosas e diversas técnicas para subjugar os corpos e controlar a população”.


O congelamento de óvulos humanos, projetado para tratar ou evitar a infertilidade de mulheres, não é isento de riscos, pois as expõe à estimulação hormonal e à coleta invasiva de óvulos. A taxa de sucesso desse procedimento é inversamente proporcional à idade da mulher no momento da coleta dos óvulos.

O biopoder, antes associado aos Estados, agora é exercido pelas organizações. Esse procedimento médico é utilizado, indevidamente, como uma estratégia biopolítica, considerando o corpo como um mero objeto. A antiga biopolítica, que era entendida como “matar ou deixar viver”, passou a ser “fazer viver e deixar morrer”, e agora como “adiar o fazer viver”.

Como em várias outras situações, o que foi um desenvolvimento científico voltado a melhorar o viver das pessoas acaba sendo utilizado com outras finalidades.

Financiar esse procedimento como um benefício associado ao trabalho das pessoas pode ser entendido como uma indução a postergar o projeto de ter filhos, com a finalidade de reduzir o afastamento do trabalho e de não interromper a carreira profissional. Paradoxalmente, o sistema de saúde do Reino Unido negou a solicitação de pagamento para o congelamento de óvulos, visando a uma reprodução futura, para uma paciente com indicação de realizar uma quimioterapia. Não se garante o financiamento para a real finalidade desse procedimento, mas sim o seu desvio.

O impacto e as repercussões dessas novas estratégias e apropriações na vida e no viver das pessoas exigem que se faça uma reflexão bioética de forma compartilhada com toda a sociedade. É necessário que se incluam diferentes referenciais teóricos a essa reflexão, ultrapassando apenas a questão da autonomia das pessoas e dos benefícios eventualmente associados.


*Professor de bioética - JOSÉ ROBERTO GOLDIM

23 de outubro de 2014 | N° 17961
CARLOS GERBASE

A ÉTICA DOS CRIMINOSOS

Entrevistado pela Folha de S. Paulo no último dia 7, o ministro do STJ Gilson Langaro Dipp, que criou varas especiais para o julgamento de crimes financeiros e tem se destacado na luta contra a corrupção, inclusive no próprio judiciá­rio, fez uma pergunta aparentemente retórica: “Existe ética em organizações criminosas?”. Dipp defende a delação premiada, que acaba de favorecer o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, e critica advogados de defesa que se afastam de delatores.

Eu tenho uma resposta: é claro que as organizações criminosas, por mais terríveis e condenáveis que sejam, têm a sua ética. O roteiro da série A Família Soprano, sobre a máfia de New Jersey, é pródigo em cenas que mostram essa ética em ação. Vários componentes da famiglia são presos, e o que se espera deles é que aguentem firme na cadeia, sem delatar ninguém. Quase todos aguentam. Quando saem, são recebidos com beijos e abraços. E a vida (de crimes) continua.

Já os que caem na tentação de aliviar a pena colaborando com a polícia ou com a Justiça, se descobertos, são sumariamente executados. Isso é ética particular e ilegal, mas continua sendo ética. O interessante é que ela não é tão particular assim. Advogados que abandonam dedos-duros, na ficção e na vida real, não querem ter clientes inconfiáveis. Ex-amigos e ex-parceiros de alcaguetes os consideram covardes e egoístas por pensarem em si mesmos, antes de pensarem no grupo de que faziam parte. Johnny Sack, que não é da famiglia de Tony Soprano, quando preso não delata Tony e diz para seu advogado: “Pedir para ser um rato, de onde eu venho, é como pedir a alguém como você, que vem de onde vem, ser um nazista”.


Talvez o ministro Dipp considere desprezível toda a norma ética que se afasta de uma lei escrita, mas, filosoficamente falando, as leis derivam da ética, e não o contrário. A ética surge nas relações humanas, no dinâmico embate de nossos instintos contra nossa cultura. Como demonstrou Nietzsche, ela é histórica, geográfica, mutante, escorregadia e sempre sujeita à crítica. Um ministro do STJ que não compreende a ética dos criminosos – mesmo que a ache desprezível – não está preparado para enfrentá-los.

23 de outubro de 2014 | N° 17961
MÁRIO CORSO

Gosma

Esses tempos, o nosso poeta Nei Lisboa afirmou que no Rio Grande do Sul temos cinco estações: primavera, verão, outono, inverno e gosma. É por essas coisas que não se pode deixar ciência na mão de artista. Qualquer gaúcho percebe a imprecisão conceitual, o descaso pelo detalhe. Ele não faz a clara distinção que existe entre gosma quente, gosma fria e instabilidade gósmica.

Como talvez seja lido por estrangeiros, explico o que é gosma. Claro que existe a umidade, mas ela é um estágio anterior, mais tênue, da gosma. A umidade aumenta a sensação térmica, a gosma a multiplica. Logo, a gosma é quando realmente a coisa pega. Dizem que nos dias de gosma se poderia deixar os peixes soltitos fora do aquário, só não recomendo porque ainda não testei.

O nome vem dos efeitos. Tudo, e quando digo tudo é tudo mesmo, fica recoberto por uma camada fina e pegajosa, uma fase anterior ao bolor, um bolor líquido. Você lava o cabelo e duas horas depois parece que não o lava há uma semana? É dia de gosma. Dói a cicatriz do nono? É gosma. Nosso corpo sua mesmo que esteja muito frio? Gosma na certa.

Talvez outro conceito que atrapalhe os não nativos seja o conceito de instabilidade gósmica, que é quando o clima não se decide pela modalidade gósmica e deixa o vivente indeciso entre bota ou alpargata. São os dias em que o clima faz que vai, mas não vai e acaba indo na direção contrária da que pensamos. A instabilidade gósmica, também chamada de gosma oscilante, é o momento gósmico bipolar em que as gosmas freneticamente se alternam.

Portanto, se você quer entender o nosso clima tem que partir do básico: temos sete estações no Estado. E elas se sucedem como em todos os lugares, mas aqui podem rodar várias no mesmo dia, quando não todas.

Difícil é fazer os outros nos entenderem. Sabe aquele desânimo que bate quando um amigo de fora está para vir e nos pergunta: o que que levo de roupa? A gente tem que dizer: tudo! Claro, existem parâmetros básicos: não precisa de japona em janeiro, como não é preciso trazer Havaianas (aquele chinelo de borracha brasileiro que infelizmente pegou por aqui) em julho, mas fora isso, vai que é uns dias de gosma, melhor estar prevenido. Em resumo, vem moda, sai moda, o que não muda é que gaúcho se veste como uma cebola, em uma sucessão de camadas que podem ser retiradas e recolocadas ao longo do dia.


É equivocado dizer que o Cléo Kuhn não acerta. Ele acerta, apenas não se rende aos conceitos locais. Ele se sente no dever de usar o vocabulário comum, da meteorologia tradicional, utilizada no resto do mundo e não afina a sintonia do vocabulário correto para nosso Estado. Dissesse ele: “Olha gente, hoje vem muita gosma”. Nem precisaria dizer qual, a gente já entende que é para se precaver para tudo.

quarta-feira, outubro 22, 2014

Miro Saldanha-Nem eu sei

Perfil Gaúcho - Miro Saldanha

Miro Saldanha-Primavera Pampeana


Miro Saldanha - Covardia

22 de outubro de 2014 | N° 17960
MARTHA MEDEIROS

Sem arrego

“Resmungos e ranger de dentes não vão ajudar, as coisas mudaram e precisam ser assimiladas o quanto antes, porque vieram para ficar. Resistir ao que de todo modo vai acontecer seria falta de sabedoria e perda de tempo.”

Me senti uma garotinha de cinco anos ao ler esse puxão de orelhas que havia sido direcionado a mim. Em três linhas eu havia sido chamada de birrenta e burra. Tranquei o choro.

Mas logo me dei conta de que eu não tinha mais cinco anos e que não deveria levar a reprimenda tão a sério, afinal, foi direcionada a mim, mas também a outros tantos, e por alguém que nem me conhece direito. Resolvi achar graça e tocar minha vida sem me perturbar com questões menores.

Mas ele não se abalou com meu pouco-caso e seguiu com a artilharia pesada.

“Tenha cuidado com esse cansaço que pesa sobre a alma, pois é ele que induz a acreditar na ilusão de que os problemas poderiam ser resolvidos de uma tacada só, com fórmulas mágicas. Isso não acontecerá de jeito nenhum.”

Rogando praga. Insolente. Quem disse que estou com cansaço na alma, quem?

Resolvi ler o que ele dizia sobre os outros signos. Realmente, ele não era um representante da geração paz & amor, mas pegava mais leve com Áries, Gêmeos, Libra. Comigo é que a rudeza imperava. Perseguição nítida.

A solução era simples: deixar de dar ibope para as suas ralhações astrológicas. Ignorar. Estava decidida a fazer isso a partir do dia seguinte. Porém, o novo dia amanheceu, como sempre amanhece, e eu me vi espichando o olho para aquele quadradinho minúsculo com três pequenas linhas onde cabia toda a ira do universo contra mim. Foi então que compreendi como funciona a cabeça dos leitores que odeiam certos colunistas do fundo do coração. Xingam, rosnam, ofendem, mas não os abandonam nem sob decreto.

“Nada que for feito intempestivamente ajudará a resolver coisa alguma. Certamente, não será fácil conter os impulsos, mas, se você não se empenhar nesse sentido, sua alma não merecerá ser chamada de humana. Contenha-se!”

Nunca homem algum ousou mandar eu me conter, o abusado foi o primeiro – e ainda usou ponto de exclamação!

Mas se há algo que sobra em mim é resiliência. Se ele acha que vou bater em retirada, engana-se. Vou continuar aqui, pode continuar me atacando, eu aguento.

“Os temores arraigados em sua alma (lá vem ele com essa história de alma outra vez) têm sobre você o poder que você lhes outorgar, nem um pouco a mais do que isso. Esses temores são fantasmas que assombram a perspectiva de progresso que se encontra disponível”.

Entendi. É tudo coisa da minha cabeça. Sou responsável pelas minhocas que coloco na cabeça, e você é apenas um filósofo a serviço dessa reles criatura que teima em não evoluir.


Não me faltava mais nada. Humilhada pelo meu próprio horóscopo.

22 de outubro de 2014 | N° 17960
EDITORIAIS ZH

A LEI E A VIDA

Tirar a farda, no caso, não significa rendição. Embora seja um reconhecimento de que a criminalidade se expandiu acima da capacidade e da competência do poder público para contê-la, é uma medida preventiva sensata. Claro que é péssimo para a sociedade constatar que integrantes da principal força ostensiva também estão encurralados pelos marginais.

Mas é a realidade. Neste contexto, não se pode exigir que os brigadianos sejam mandados para o sacrifício em circunstâncias completamente desfavoráveis para a própria segurança. Por que os legisladores e as autoridades não substituem a exigência do uniforme por um cartão de passe livre ou algum tipo de vale-transporte?

O equacionamento desta demanda é urgente, pois vidas estão em risco, mas também é imprescindível que se desencadeie uma operação eficaz de vigilância no transporte público, para que os usuários tenham mais segurança e para que os delinquentes sejam tirados de circulação. Esse quadro perverso – cidadãos amedrontados e criminosos impunes – precisa ser invertido.

Nada devolverá a vida do soldado morto nem atenuará a dor de seus familiares, amigos e colegas de farda. Mas os governantes, os legisladores e os empresários da área de transporte de passageiros estarão prestando uma homenagem à sua memória se agirem rápido, no sentido de evitar que outras vidas sejam colocadas em risco.


Porém, a sensação de insegurança da população só será atenuada quando o policiamento ostensivo inibir a ação dos delinquentes e quando os criminosos forem efetivamente punidos.

22 de outubro de 2014 | N° 17960
LUIS AUGUSTO FISCHER

Até wi-fi

Vamos começar pelos descontos. Paris é uma cidade mundial, que há séculos sabe que é uma cidade grande. Centro de antigo império, teve e tem grana para fazer coisa boa e bonita.

Mais um: minha família está vivendo num bairro de classe média confortável. Há gente com menos grana, gente com mais grana, mas em geral é gente educada, com boa escola e saúde.

Tudo isso tem que descontar. Mas nada disso diminui o valor das pracinhas de Paris.

Aqui no 15º distrito, onde estamos vivendo, tem umas quantas. Num raio de 6 ou 7 quadras, há quase dez, que fomos conhecendo aos poucos. Uma é um pequeno parque, ajardinado, com uma fonte em que crianças se banham no calor, com uma pequena concha acústica para apresentações singelas, mais gramados e árvores e ambientes com brinquedos (e um carrosselzinho, ia esquecendo). Detalhe: toda a topografia é plana, mas o inventor da praça criou um desnível no terreno para dar dinâmica ao local, com plantas e tal.

Nas outras, menores, igualmente há esses brinquedos, ou brinquedões, com percursos, escadas, cordas, desafios. Tudo de material forte, com design inteligente. Em volta deles, sempre há um piso emborrachado, que atenua o impacto de qualquer queda.

Em boa parte das praças, há também mesas fixas, de pedra, para pingue-pongue (a rede é de metal). Em algumas, jardins e trilhas em que se pode correr. Em todas elas, bancos e árvores. Nada ostentatório, tudo funcional. Os parisienses parecem que pegam qualquer retalho de terreno, mesmo sem acesso à calçada, e transformam em ambiente para a criançada.

Equipamentos urbanos e o sentido de conviver

E em quase todas tem wi-fi. Funcionando, e de graça, por cortesia da prefeitura. Basta o vivente se inscrever na hora, dando nome e email, e voilá.

Em Porto Alegre, por contraste, creio que só em clubes privados haverá algo parecido, em todos os sentidos. Por quê?

Sim, em parte porque temos menos história e menos dinheiro. Nunca controlamos um império para sugar dinheiro e energia. Temos muito mais pobres do que eles. Mas damos muito menos força à invenção do que eles – agora mesmo, quantos empreendedores talentosos não teriam sugestões bacanas para equipar pracinhas e lugares públicos, mas não são ouvidos, dada a burocracia?

Mas nos falta outra coisa: um sentido mais difundido, idealmente consensual, de que conviver é algo a ser preservado. Conviver: respeitar o que é comum, o que é de todos, para que cada um possa usufruir. Respeitar sem roubar, seja o dinheiro dos impostos, seja o banco da praça.


* Professor de Literatura Brasileira na UFRGS, escritor, colaborador do jornal Zero Hora, atualmente mora em Paris para estudos. O seu livro mais famoso é o Dicionário de Porto-Alegrês, pela L&PM.

22 de outubro de 2014 | N° 17960
PAULO SANT’ANA

Distrações

Ando precisando urgentemente de um preceptor. Esses dias usei durante três dias, pingando nos olhos, um remédio que era para os ouvidos.

E o mais grave: usei durante uma semana um comprimido que bebia com água. Ledo engano, tratava-se de um supositório. E o mais irônico é que curei a doença.

No outro dia, em vez de pegar a bengala, antes de sair, peguei um cabo de vassoura. Quando saí na rua, vi que as pessoas riam de mim, é que a vassoura veio junto com o cabo.

Já me apanhei certo dia em uma solenidade de chinelos, eu jurava que estava de sapatos.

Também já me aconteceu de errar de torre no edifício onde moro. E o incrível é que a chave do meu apartamento serviu no outro, surpreendi as pessoas jantando e estupefatas que eu tivesse penetrado em seu ambiente.

Outra distração que já me aconteceu duas vezes foi sair à rua de pijama, telefonando ou dirigindo meu carro. Também me apanho, em vez de mascar chiclete, vendo que peguei do bolso errado e veio um objeto qualquer que tentei mascar. Já me caiu um dente por causa dessa distração.

Uns três meses atrás ia para casa e fiquei esperando um táxi na Protásio Alves.

Passou um carro particular, o motorista me conheceu e perguntou se eu queria carona. Aceitei. Quando vi, estava perto de Viamão. Perguntei ao motorista: “Mas onde é que estou indo?”.

Resposta: “Tu não me disseste aonde ias e eu pensei que querias ir perto da minha casa”.

Canso de chegar em casa com um guarda-chuva que não é meu. E já tenho em casa uns oito guarda-chuvas que não sei a quem pertencem. É um risco, podem me acusar de estar furtando guarda-chuvas.


O pior é que não uso guarda-chuva.

terça-feira, outubro 21, 2014


21 de outubro de 2014 | N° 17959
EDITORIAL ZH

A VOLTA DA SENSATEZ

Quando o passionalismo impera entre os candidatos e a população, cessa a objetividade necessária para debater programas, e todos perdem – políticos e eleitores.

As intervenções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na propaganda da campanha presidencial e a rejeição inequívoca do público levaram os candidatos a retomar o bom senso nos debates televisivos. Ao menos, foi o que transpareceu no encontro do último domingo, na TV Record, no qual a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB) trocaram acusações, divergiram e até ironizaram, mas deixaram de lado as ofensas envolvendo familiares e comportamentos pessoais.

Ganham os eleitores, particularmente os indecisos. Na reta final da campanha, é uma oportunidade a mais de se inteirarem do que pensam os presidenciáveis sobre questões que, em maior ou menor grau, têm alguma influência em suas vidas.

A preocupação de conquistar quem ainda não consolidou sua intenção nas urnas ajuda a explicar o fato de os candidatos insistirem em contornar temas mais controversos, preferindo se concentrar numa pauta mais convencional. Infelizmente, sempre que colocados sem uma mediação mais incisiva, políticos em campanha tendem a optar por uma agenda com mais potencial para assegurar votos do que em contemplar de fato os eleitores. A insistência na repetição de determinados assuntos pode até favorecer alguma candidatura ou ajudar a desgastar outra, mas acaba contribuindo para diminuir ainda mais o interesse pela política.

Um aspecto positivo é que o eleitor dispõe cada vez mais de meios para interferir no nível dos debates, sob o ponto de vista dos temas e do tom das discussões. A possibilidade é favorecida por recursos como pesquisas qualitativas bancadas pelos partidos e pelo uso das redes sociais, tanto por políticos quanto pelo eleitorado. A particularidade de mais da metade da população acessar hoje a internet aumenta a responsabilidade no uso dessas ferramentas para fins eleitorais. Em qualquer país, quando o percentual de pessoas conectadas atinge esse patamar, o uso das redes sociais e a forma como isso ocorre realmente tendem a fazer diferença no resultado das urnas.

Mesmo sob a emoção da reta final, é importante que o tom mais ameno dos confrontos se mantenha até o final da campanha, cujo ponto alto será o debate de sexta- feira, na Rede Globo. Quando o passionalismo impera entre os candidatos e a população, cessa a objetividade necessária para debater programas, e todos perdem – políticos e eleitores.



21 de outubro de 2014 | N° 17959
LUÍS AUGUSTO FISCHER

O CARA CANTANDO

Absorto no vagão de metrô apenas cheio, ouço um cara começar a cantar. Eu media o número de pessoas que, no meu campo de visão, mexiam em celular, em contraste com os que liam livro ou outro papel. O canto me convocou.

Em regra, quem pede dinheiro dentro dos vagões (nem tanta gente assim) não canta: ou toca algum instrumento, ou então faz um discurso sobre dificuldades da vida. Mas este cantava. Virei a cabeça e o vi: um homem adulto, entre 30 e 45 anos, cabelos pretos e cara de indiano. Não olhava para nada em particular – sustentava o olhar numa direção neutra, talvez para para não precisar encarar ninguém.

Não dava para entender nenhuma palavra do que cantava. Zero. Cantava em uma língua não ocidental, com sons que não sabemos fazer. Mas o temperamento do que cantava era claro: uma canção dolente, triste, com vogais prolongadas, esticadas em direção a algum tema, lugar, rosto, algo de que ele tinha saudade, me parece. Ou o que era?

Casinha Pequenina. Se Esta Rua Fosse Minha. Negrinho do Pastoreio. Serenô, que cai, que cai. Terezinha de Jesus. Algo assim?

Quando passou ao meu lado vi seus pés imundos, chinelos em estado lamentável, rimando com a latinha pobre em que es­perava receber moedas, as distraídas moedas da caridade trivial. Não tinha moedas comigo, passei a vez.

(Minha mulher, que também presenciou a cena, me contou depois que, ao irromper o canto, imediatamente tentou ver a roupa do cantor – tinha medo de que estivesse com um capote, porque lhe passou na cabeça a hipótese de um homem-bomba.)

Era mesmo saudade? De que horizonte ele sentia saudade? De que laço amoroso? De que época? Paris deve ter desmentido seus sonhos, negou lugar integrado a ele, talvez a sua família toda. Sobrou a alternativa do metrô – não a estação, em que há de tudo, de uma jovem folk estilosa até uma banda inteira de excelentes músicos dos Bálcãs, nos dois casos com CDs à venda, e sim o inóspito vagão, em que pouca gente vai achar graça colaborar.


O que era que o cara cantava?

21 de outubro de 2014 | N° 17959
MOISÉS MENDES

A volta da censura

O Tribunal Superior Eleitoral vem decidindo que não cabe aos adversários, na propaganda partidária, fazer a exposição de detalhes considerados comprometedores da trajetória dos oponentes. Por deliberações em liminares, mas que teriam se transformado em consenso entre os ministros, o tribunal determina que os políticos em campanha devem se dedicar apenas a questões propositivas.

O argumento do TSE é de encabular diretor de internato de adolescentes. Disse um ministro que a propaganda de um candidato não pode conter “críticas destrutivas”.

O TSE tenta enquadrar os dois candidatos em disputa pela Presidência porque é preciso conter ataques, intensificados em um debate da semana passada. Para o bem e para o mal, é também atacando que se faz política. E também é assim que o eleitor constrói sua opinião e faz escolhas.

O que seria o limite do baixo nível virou pretexto para que o TSE decida, em detalhes, o que o eleitor deve ver e ouvir. Quem tem mais de 50 anos sabe o que significa uma propaganda restritiva e inodora, como a do tempo da ditadura (apenas com o retrato do candidato), quando adultos eram considerados imaturos para saber o que os políticos tinham a dizer.

Ninguém que saiba como foi esse tempo deveria abrir mão do direito de avaliar como um candidato se comporta ao atacar e ao se defender das acusações de que empregou um irmão ou que refugou o bafômetro.

Que se torne pública a consistência ou a fragilidade de seus argumentos. E que se considere que bafômetros e irmãos podem ser parte de um debate sobre condutas e passados visíveis ou camuflados, aqui, na Eslovênia ou nos Estados Unidos.

A reparação por exageros – inverdades, injúrias, difamações – está prevista nos códigos escritos, inclusive na legislação específica das questões eleitorais. A proibição da abordagem de determinados assuntos (já tratados à exaustão pelos jornais) é censura, na sua forma clássica, e quem a viveu sabe do que se trata.

A capacidade de reagir a bordoadas é a grande prova da política. Sempre foi assim e continua a ser – desde Getúlio, Juscelino, Fernando Henrique, Lula, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama.

O antagonismo que tem amplificado o debate da corrupção e do histórico dos candidatos deve ser entendido no contexto da realidade brasileira, dos nossos aprendizados e das circunstâncias dessa campanha em que o passado pode informar mais do que lero-leros genericamente propositivos para saúde, educação, segurança ou fator previdenciário.

Quem se sentir ofendido com os ataques e com a sensação de vazio, que desligue a TV e vá participar de um duelo de baixarias no Facebook. E depois, no domingo, faça o que seu poder lhe assegura: não vote, ou anule o voto, ou vote em branco, em protesto contra o que possa ser a desqualificação da política (sabemos de alguns que gostariam de pedir a volta da ditadura).

Mas não aceite sem reclamar que o TSE seja legislador e tutor das nossas decisões e imponha os temas diários que não podem ser abordados na propaganda política.


Prepare-se para a lista da censura que nos vê como incapazes de entender e de decidir a partir do que se passa numa campanha eleitoral. Que pelo menos os comícios, as redes sociais e o jornalismo não sejam vigiados.

21 de outubro de 2014 | N° 17959
FABRÍCIO CARPINEJAR

Tem a bênção, meu filho!

Ele pode ser um publicitário famoso, colecionar vários prêmios no currículo, enfileirar leões de Cannes na estante, conduzir uma agência, mas se não tem o reconhecimento dos pais nunca estará satisfeito. Ele pode ser um arquiteto requisitado, ser chamado de Niemeyer, ganhar convites para idealizar museus no mundo inteiro, mas se não tem o reconhecimento dos pais nunca estará satisfeito.

Em toda profissão, nunca estaremos satisfeitos sem receber o apoio paterno e materno. É uma sina depender eternamente da atenção dos pais, mas não existe jeito de escapar. Nenhum filho estará resolvido emocionalmente sem o carinho dos pais.

O sucesso, os troféus, a fama não são nada se não há um pai ou uma mãe para se orgulhar daquilo que a gente faz.

O que deve sofrer um bailarino que nunca teve seus pais na plateia. O que deve sofrer um artista plástico que nunca contou com seus pais numa exposição. O que deve sofrer um escritor que nunca foi folheado pelos seus pais.

Não haverá aplauso que sacie o orfanato do coração de um filho. Não haverá láurea e diploma que cale as paredes de uma casa onde os pais desprezam a vocação do filho.

É preferível ter um auditório vazio com os pais sentados na primeira fila a um auditório lotado sem o rosto daqueles que nos conceberam.

Qualquer filho que me lê concordará comigo.

Impossível amadurecer o nosso sentimento sobre o assunto, é imutável. Não é problema para ser levado para terapia, é angústia incurável. Queremos que eles sempre estejam presentes, concordando ou não. Pois os pais foram a nossa primeira ovação, nossos primeiros cumprimentos, nossa primeira torcida, formam o nosso início. Não tem como excluí-los de nosso final.

Não há maior carência do que adotar uma trajetória profissional com o desdém dos nossos cuidadores, assumir um trajeto com o despeito familiar.

Ainda que seja consagrado, o profissional será amargurado. Doloroso enfrentar o boicote e se virar sozinho.

Sem a compreensão dos pais, ele jamais vai confiar suficientemente em si, jamais será receptivo à felicidade, jamais será agradecido ao que acumulou com seu esforço. Faltará sempre uma mão antiga e conhecida no ombro da glória.

Nenhum filho se perdoará diante do desprezo dos pais. Carregará a culpa insolúvel de ter feito algo errado, de estar cometendo um crime, de não retribuir a educação que recebeu, de desrespeitar os sonhos filiais.

O que um filho deseja é o amparo do ventre bem depois do ventre, a paz que vem da confiança, a bênção na testa quando sair de casa.

Não suportará decepcionar seus pais. Não aguentará frustrá-los em silêncio. Por mais que se arme um exército invencível de amigos, não se vence a oposição do sangue.

A desfeita é realmente incompreensível: aqueles mesmos pais corujas que não deixavam de comparecer nas exibições da creche e da escola, agora incapazes de abrir os braços para um aperto simbólico; aqueles mesmos pais babões que retratavam a infância com fotos e vídeos, agora incapazes de abrir a boca para um simples elogio; aqueles mesmos pais bajuladores que enchiam o pulmão de alegria para falar o nosso nome, agora incapazes de suspirar de saudade.

É uma dor sem idade. Uma ferida sem consolo.

E como existem pais que jogam seus filhos crescidos para a indiferença, somente porque discordam da opção profissional deles. Advogados que não aceitam filhos cabeleireiros, médicos que não aceitam filhos malabaristas, engenheiros que não aceitam filhos DJs. Como se houvesse uma função maior ou uma menor, uma carteira profissional melhor do que a outra.

Pais que erram a medida da força. Ao procurar demonstrar firmeza, desandam em intolerância.

Pais que consideram que o filho desperdiçou sua vida sem ao menos entender o que ele é e o que se tornou. Pais que julgam um disparate a ausência de estabilidade, que lamentam a pouca ambição do herdeiro, que diz que ele foi preguiçoso e decidiu pelo caminho mais fácil.

Pais que abdicam de décadas ao lado do filho só para provar que têm razão, só para dizer ao final que avisaram do fracasso.

Pais que torcem para que tudo falhe e sua criança grande retorne ao lar, humilhada e constrangida, e aprenda assim a dura lição.

A frieza e o distanciamento não são lições, apenas geram preconceito e arrogância.

A única lição que funciona é o amor, e sua aceitação reverenciada da diferença, e seu colo inadiável da ternura.


Se você é pai, se você é mãe, reconheça a profissão do seu filho antes que seja tarde. Ele está ansiosamente esperando.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Miro Saldanha-Nem eu sei

Perfil Gaúcho - Miro Saldanha


João Chagas Leite-Lágrimas de flor

20 de outubro de 2014 | N° 17958
ARTIGOS ZH

OS DESAFIOS DAS FINANÇAS GAÚCHAS

Entre os muitos desafios das finanças públicas, podem ser destacados quatro. O primeiro é ajustar a defasagem entre o ICMS e o PIB gaúcho. Considerando-se uma série, de 1970 a 2013, verifica-se que, enquanto o PIB gaúcho cresceu quase 347% em relação a 1970, em termos reais, o ICMS reagiu somente com 295% (ambos atualizados pelo IGP-DI). Isso significa que o Estado vem tendo cada vez menos capacidade de se impor para transformar a expansão da base econômica em termos de arrecadação.

O segundo desafio está relacionado com os investimentos públicos. Nos últimos anos, houve uma diminuição gradativa do gasto com investimentos em relação à Receita Corrente Líquida: Britto (16,7%), Olívio (10,6%), Rigotto (6%), Yeda (5,4%) e Tarso (5,2%). Isso indica que os recursos alocados nos últimos anos têm ficado aquém das necessidades do Estado, refletindo a escassez de recursos públicos.

O outro desafio é o quadro de pessoal, que está mostrando uma tendência de aumento dos inativos e pensionistas (aposentados). Enquanto os servidores ativos diminuíram de 228 mil (1991) para 196 mil (2013), os aposentados aumentaram de 127 mil para 198 mil, respectivamente, no mesmo período. Isso significa que o Estado irá gastar o mesmo patamar histórico com pessoal, mas somente um terço dos funcionários prestará serviços à sociedade.

O quarto desafio é o endividamento público crescente. Especificamente, a dívida pública estadual, fundada e consolidada (dívidas interna e externa com vencimento de longo prazo), vem gradativamente crescendo desde o período compreendido entre o final do governo Peracchi (1971) e o ano de 2013, do governo Tarso, e passou, respectivamente, de R$ 1,4 bilhão para R$ 50 bilhões, ou seja, um crescimento de 36 vezes, em valores reais pelo IGP-DI.

Esses quatro desafios – que impactam negativamente o Rio Grande do Sul há bastante tempo – mostram também um lado perverso de todo o sistema tributário nacional, que está a exigir profundas reformas, para que a sociedade possa receber o retorno justo dos impostos que está pagando.

Professor da PUCRS e conselheiro do Corecon-RS


ALFREDO MENEGHETTI NETO