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segunda-feira, setembro 26, 2016


26 de setembro de 2016 | N° 18644 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

QUANTO A INTERNET PEGOU FOGO



E voltou uma das melhores entre as melhores, Halt and catch fire, que nos mostra o passado da internet, um passado, caros leitores, que chega a ser mais fascinante do que o futuro.

Houve uma vez um mundo sem e-mail. Sem arquivos anexados. Sem jpg, sem mp3, mp4, sem @ ou www. Esses elementos foram surgindo e se construindo e transformando a vida. Assistir a essa transformação é uma oportunidade incrível, ainda mais quando muitos de nós vivemos no mundo antes, durante e depois, até mesmo porque a internet como a conhecemos existe há uns 20 anos, mais ou menos.

HCF é a história das pessoas que criaram esse admirável mundo novo. Primeiro, produzindo computadores pessoais, os PCs, acessíveis pra pessoas como o senhor aqui ao lado e esse que vos atormenta. Depois, criando programas capazes de transformar o PC no melhor amigo que a gente jamais teve. E então criando a internet, que conectou a todos esses PCs com as pessoas diante deles no mundo inteiro.

Halt and catch fire narra essa nova era desde o início, e por isso mesmo é tão boa de ver. Quem resiste a um bom modem, daqueles de linha discada, rangindo pra nos conectar a 14,4 k quando tudo dava certo? Eu nem tento resistir, e espero que o mesmo aconteça com vocês. Eles gastam um certo tempo com os dramas das pessoas, quando eu gostaria de passar mais tempo vendo as maquininhas surgindo. Mas, como sempre lembro, eu sou um insensível, e vocês, não. Aproveitem onde e quando der.

Fica a dica.



26 de setembro de 2016 | N° 18644 
CÍNTIA MOSCOVICH

BRAVO!

Em O inverno e depois, seu mais novo romance, Luiz Antonio de Assis Brasil volta a três temas que lhe são caros: a música, o confronto entre a civilização e a barbárie e a evocação da memória através dos sentidos.

Contando a história de Julius, um músico gaúcho que estudou na Alemanha, integrante de uma orquestra paulista e que volta à estância da família para recolher-se e estudar – finalmente se encoraja a executar o concerto para violoncelo de Dvorák, sonho da vida –, o livro convoca os sentidos com uma profusão de aromas, formas, cores, texturas, sons e muita, muita música.

Fiel à busca pela essencialidade e precisão a que se entregou especialmente na trilogia de livros curtos de Viajantes ao Sul, Assis Brasil chega aqui a um meio termo entre as obras brevíssimas e as mais alentadas, aquelas de início de carreira. Com um sentido de prosódia muito refinado, o autor se mantém atento à sonoridade e à harmonia, com ritmo e encadeamento de prosa que não são menos que impressionantes.

Dono de uma ironia e de um humor muito peculiares, Assis constrói um protagonista incapaz de agir de forma espontânea e que elabora mentalmente frases com que tenta tornar lógico o cipoal de sentimentos que o assola. Ao mesmo tempo, leva seu leitor por ruas e ambientes europeus e pelo descampado do pampa e suas construções precárias, numa espécie de comunhão do melhor de dois mundos.

Ex-violoncelista da Ospa, amante inveterado de Mozart, o autor faz da música um personagem praticamente autônomo e que colore a narrativa de brilho e vida, tanto que, sem medo ao exagero, se pode afirmar que é possível ouvir evoluções de vários instrumentos - com o bônus de narrativas tão vibrantes que chegam à beira da exaltação.

Explorando as virtudes do cello, estabelecendo uma relação sensual com o instrumento, o escritor vai formando um tecido narrativo que é leve mas espesso, uma armação voluptuosa e delicadíssima, como se, com seu texto, tocasse a intimidade de um corpo - ou como se as palavras pudessem compor uma orquestra. Ou contar, como contam, uma história de amor.

26 de setembro de 2016 | N° 18644 
DAVID COIMBRA

Mais 500 brigadianos nas ruas


É bom escrever sobre filho pequeno. Você escreve sobre seu filho pequeno e o leitor apita. Uóóó...

O cronista que consegue fazer o leitor apitar é o cronista realizado.

O problema é que essa fórmula só funciona até a adolescência. Chega a adolescência e seu filho vira petista. Todo adolescente é petista e todo petista é adolescente. Ninguém vai fazer uó para um petista.

Eu, por enquanto, ainda posso explorar meu filho. Ele está com nove anos de idade. Mas agora deu para fazer o que nunca tinha feito: acorda-se no meio da noite e vai para a cama dos pais. Uma chatice.

Ontem, no café da manhã, ao comentar a respeito, reclamei:

– Quando tu era pequeno, tu não sentia medo de dormir sozinho!

E ele, depois de respirar fundo, argumentou:

– Naquela época, eu não sabia como era o mundo...

Não fiz uó. Suspirei de resignação. A culpa é minha, por ter deixado que ele assistisse ao Jornal Nacional.

Meu filho sente medo da violência urbana DE PORTO ALEGRE. E ele vive em um lugar a 8.300 quilômetros de distância, em que foi registrado um único assassinato nos últimos 10 anos.

É a globalização. O mundo está realmente interligado.

Conto isso para repetir o que tenho dito: resolva o problema de segurança pública no Brasil e 70% dos problemas estarão resolvidos. Com segurança, todo o resto ficará mais fácil. E é claro que segurança não é apenas polícia na rua. Polícia na rua é parte da solução – só que parte fundamental.

Portanto, vou insistir: a Brigada poderia, sim, fazer o trabalho dos agentes de trânsito, os azuizinhos, o que daria maior sensação de segurança à população.

Foi o que escrevi no fim de semana, e recebi grande apoio. Mas também recebi contestação. Entre elas, a do coordenador de comunicação da EPTC, o muito competente e muito afável jornalista Cláudio Furtado. Ele me escreveu um e-mail respeitoso e esclarecedor. Reproduzo abaixo:

“Perguntaste, na tua coluna de ZH, ‘para que serve o azulzinho’. Respondo: antes de tudo, para ser respeitado como uma autoridade civil, sem arma na cintura, com a missão de reduzir a acidentalidade a partir da aplicação das leis do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Sua presença nas ruas não impede, e até facilita, as ações da Brigada Militar nas questões da segurança pública. EPTC, BM e Polícia Civil realizam diversas ações conjuntas, como as atividades do Balada Segura, mas cada entidade de acordo com suas atribuições.

Gostaria de lembrar, também, que além dos 500 agentes, entre os mil funcionários da EPTC estão arquitetos, engenheiros, advogados, técnicos especializados em planejamento do trânsito e transporte, também na implantação e manutenção do mobiliário urbano e da sinalização da cidade, além de administrativos, todos concursados. Realizam atividades diárias no gerenciamento da mobilidade”.

A correspondência do Cláudio reforçou minha convicção. Sou pela manutenção da EPTC, com seus funcionários de burocracia e de administração. E pela incorporação da Brigada às tarefas de vigilância do trânsito. É só treinar o brigadiano. Imagine Porto Alegre com 500 brigadianos a mais nas ruas. Seria quatro vezes mais do que o efetivo enviado pela Força Nacional de Segurança. Não seria a solução, sei bem. Mas ajudaria, e muito. Tudo para que os gauchinhos não sintam mais medo à noite.


26 de setembro de 2016 | N° 18644 
L.F. VERISSIMO

Filhote

No seu discurso de encerramento da Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas realizada em Bretton Woods em julho de 1944 para combinar como seriam as relações comerciais depois da II Guerra Mundial, que chegava ao fim, lorde John Maynard Keynes, um dos inspiradores e o principal participante do time inglês no encontro, disse que se a cooperação que as nações tinham demonstrado durante a conferência continuasse, “o pesadelo em que a maioria de nós passou tempo demais das suas vidas terá acabado”, e “a irmandade dos homens terá se transformado em mais do que apenas uma frase”. A competição monetária e os conflitos e barreiras que tinham levado a duas guerras mundiais deixariam de existir.

O otimismo declarado por lorde Keynes só se explica pelo seu cavalheirismo ou gosto pela retórica. Ele tinha sido derrotado na reunião que se encerrava. Em Bretton Woods, as boas intenções esconderam a questão real do encontro: a que Roosevelt já tinha proposto a Churchill quando condicionou a entrada dos Estados Unidos na guerra ao fim dos mercados cativos coloniais e do império econômico britânico, e a necessidade de garantir mercados livres para a produção americana que se multiplicaria com a mobilização para a guerra.

Enquanto Keynes acreditava que o Banco Mundial – insistência sua – realmente favoreceria a irmandade entre os homens, o secretário do Tesouro americano, Henry Morgenthau, mais interessado no Fundo Monetário Internacional, empenhava-se na mudança do centro financeiro do mundo de Londres para Washington e Wall Street.

O que venceu em Bretton Woods não foi o espírito público de Keynes, mas o espírito prático dos americanos. Morgenthau estava lá para sacramentar a transferência do poder econômico da Inglaterra para os Estados Unidos, a única nação que sairia da guerra em condições de impor sua vontade. E impôs. O discurso de Keynes prevendo que a cooperação entre as nações traria uma era de inédita prosperidade universal foi muito aplaudido, mas o resultado prático de Bretton Woods foi que os americanos ganharam acesso aos mercados antes dominados pelo desdentado império britânico e a prosperidade universal que veio se concentrou principalmente nos Estados Unidos.

Keynes morreu pouco depois de Bretton Woods. A derrota da sua visão do que poderia ter sido, pela imposição americana, tem uma ponta de ingratidão: afinal, foi ele o teórico do dirigismo econômico de Roosevelt que salvou o capitalismo americano de si mesmo na crise dos anos 30. Filhotes do keynesianismo, como no Brasil do PT, tiveram a mesma sorte das boas intenções do lorde. O discurso foi bonito, mas ganhou o outro lado. E o pesadelo continua.

domingo, setembro 25, 2016


YOKO OGAWA - tradução RITA KOHL
25/09/2016  02h05

Leia trecho inédito de romance de Yoko Ogawa


SOBRE O TEXTO O trecho abaixo abre o terceiro capítulo do romance "O Museu do Silêncio", da japonesa Yoko Ogawa, que a Estação Liberdade lança no começo de outubro. O enredo gira em torno da contratação de um museólogo por uma senhora que deseja organizar uma coleção de peças que sintetizam a existência de seus proprietários, todos mortos.

A sala que ela chamava de acervo era a antiga lavanderia, na extremidade oeste do porão. No instante em que a porta se abriu, senti o cheiro de tecido mofado, ou de plantas murchas, enfim, o cheiro que a matéria exala quando apodrece.

Era um espaço amplo, mas sujo e muito bagunçado. Coisas diversas (talvez as peças da coleção?) estavam espalhadas aqui e ali, sobre armários, cômodas e mesas, dispostas desordenadamente. Nada parecia estar no lugar certo. Mas o que estava me incomodando não era a situação caótica da sala, era outra coisa. Demorei algum tempo para compreender o quê.

Andamos, os três, até o centro da sala. Era preciso prestar atenção a cada passo para não esbarrar em nada. Eu não queria nem imaginar como a velha esbravejaria se por acaso eu derrubasse ou quebrasse alguma coisa. O chão tinha um design moderno, com ladrilhos em padrão xadrez. Graças às janelas estreitas no alto das paredes, pelas quais se via o céu e as plantas do jardim, a iluminação era boa, apesar de estarmos no subsolo. Havia varais pendurados no teto, ferros de passar e antigas máquinas de torcer roupa caídos pela sala, vestígios do tempo em que ali funcionava uma lavanderia.

As salas de acervo, de qualquer natureza, costumavam ser lugares familiares para mim. Eu gostava de passar o tempo encarando os arquivos, fechado naquele cômodo absolutamente silencioso onde os visitantes não podiam entrar. Mas aquela era diferente de qualquer sala de acervo que eu conhecesse. Era como se cada objeto se impusesse livremente, segundo seus próprios caprichos, criando uma dissonância insuportável. Mesmo em depósitos muito desorganizados sempre paira no ar um senso de solidariedade entre todas as peças reunidas por um mesmo museu. Mas ali não havia nenhum vínculo, nenhuma união. Elas não tinham consideração suficiente nem sequer para voltar o olhar para os seus companheiros. Isso me deixava aflito.

Um carretel, um dente de ouro, luvas, um pincel, botas de alpinismo, um batedor de ovos, gesso ortopédico, um berço... Experimentei olhar com cuidado para cada uma das coisas próximas a mim, mas de nada adiantou. Só fiquei mais desorientado.

– São objetos de recordação dos mortos –disse a velha. – Todos deixados pelas pessoas da vila.

Sua voz ecoou muito mais próxima do que na biblioteca.

– Quero que você faça um museu para expor e conservar isso tudo.

Nesse momento finalmente percebi o motivo do meu desconforto. A velha não estava de chapéu como de costume. Por entre o cabelo branco e ralo que ainda lhe restava, espiavam duas orelhas minúsculas, pequenas demais mesmo levando-se em consideração sua estatura. Eram como duas folhas secas amarrotadas presas às laterais da cabeça. Tinham perdido completamente a forma de orelhas, eram apenas cicatrizes ao redor dos buracos dos ouvidos.

– Nossa, são muitos... –comentei devagar, tentando desviar a atenção das orelhas.

– Comecei a reuni-los no outono dos meus onze anos. Essa coleção tem uma história longa demais para ser narrada. E ela ainda continua, daqui pra frente.

A menina sustentava a velha com segurança, com o braço direito ao redor do seu ombro e a mão esquerda apoiada no quadril. Parecia já saber perfeitamente quanta força era necessária, e onde aplicá-la. As duas estavam unidas como se fossem parte uma da outra.

– Sempre que alguém da vila morre, recolho um único objeto relacionado àquela pessoa. É uma vila pequena, como você sabe, então não é como se morresse alguém todo dia. Mas não é fácil reunir esses objetos, algo que descobri na prática. Talvez fosse pesado demais para uma criança de onze anos. Mas, mesmo assim, consegui fazê-lo por muitas décadas. A minha maior dificuldade é porque não me contento com uma recordação qualquer. Nunca dei um jeitinho pegando qualquer coisa fácil, uma roupa que a pessoa vestiu uma ou duas vezes, uma joia que viveu fechada no armário, uns óculos feitos três dias antes de morrer. O que eu quero são coisas que guardam, da forma mais vívida e mais fiel possível, a prova de que aqueles corpos realmente existiram, entende? Algo sem o que os anos acumulados ao longo da vida desmoronariam desde a base, algo que possa eternamente impedir que a morte seja completa. Não são lembrancinhas sentimentais, não tem nada a ver com isso. E claro que o valor financeiro também está fora de questão.

A velha engoliu a saliva e afastou, irritada, o cabelo que caía sobre a testa. Pela janela, vi um passarinho cruzar o céu alto. As recordações continuavam todas quietas ao nosso redor.

– Esta aqui é um bom exemplo. A um sinal de seus olhos, a menina estendeu a mão, pegou um único objeto em meio à bagunça e me mostrou. – O que é isso?

Era apenas um anel, simples demais para um acessório, frágil demais para ser uma peça de máquina.

– Há mais ou menos cinquenta anos uma prostituta de meia-idade foi assassinada em um hotel da vila. Além de ter sido esfaqueada, seus mamilos foram cortados e levados embora. Foi o assassinato mais sórdido da história da vila e, desde então, não houve mais nenhum caso de homicídio. Por causa da sua profissão, não apareceu nenhum parente, e eu fui a única pessoa que foi à sua cremação. Eu disse que era a sua única amiga e me deixaram participar. Claro que isso era só uma mentira para conseguir algum objeto de recordação. Depois que ela foi queimada, encontrei isso aí em meio às cinzas. Quando peguei, ainda estava quente, como se guardasse o calor do seu corpo. Decidi que essa seria a sua recordação. É um DIU1, anticoncepcional. Bom, o próximo...

1. Nota da tradutora: Embora atualmente o DIU (dispositivo intrauterino) apresente a forma de T, os primeiros modelos tinham forma de anel.

YOKO OGAWA, 54, escritora japonesa, é autora de "Hotel Íris" (Leya). - RITA KOHL, 32, é tradutora e intérprete do japonês.

MARCOS MENDES
25/09/2016  02h04

O teto de gastos e a proteção aos pobres


RESUMO Autor, que assessora equipe econômica, defende a proposta de estabelecer um teto ao gasto público. A PEC 241, proposta pelo governo, levaria a uma racionalização das despesas que seria fundamental para o reequilíbrio fiscal, a volta do crescimento e a queda da inflação –em benefício dos setores mais pobres.

Entre 1997 e 2015, a despesa primária (despesa total menos juros da dívida) anual do Governo Central triplicou em termos reais. Isso equivale a um crescimento médio de 6,2% ao ano acima da inflação. Se a despesa continuar a crescer nesse ritmo, não haverá dinheiro para pagá-la.

Com dispêndio crescente, o governo precisou extrair mais dinheiro da sociedade. A carga tributária subiu fortemente, chegando a 32,7% em 2015, valor muito acima da média de países emergentes. Mas não se pode continuar aumentando a carga tributária indefinidamente. Os impostos já sobrecarregam as empresas e as famílias.

Arrecadação estagnada e despesa crescendo resultam em deficits primários maiores a cada ano, chegando a R$ 170 bilhões (2,7% do PIB) em 2016. Em má situação financeira, o governo acaba tendo que pagar juros mais altos, pois o seu risco de default aumenta. Deficits primários e juros mais altos aceleram o crescimento da dívida bruta, que disparou de 53,8% do PIB para 69,5% em apenas dois anos.

Quando as empresas percebem que o governo está em dificuldade financeira, passam a temer aumentos abruptos de carga tributária, aceleração da inflação e instabilidade política. As agências de avaliação de risco rebaixam a nota de crédito do governo. Nesse cenário de perda da confiança no futuro de seus negócios, as empresas, num primeiro momento, evitam investir; posteriormente, passam a demitir. Instala-se a recessão.

CICLO VICIOSO

O crescimento mais baixo prejudica a receita do governo, agravando o quadro fiscal. Entra-se em um ciclo vicioso: o desequilíbrio fiscal derruba a economia, e a retração da economia piora a situação fiscal. Estamos em situação difícil: não há como financiar o crescimento real de 6% ao ano dos gastos públicos, e a economia já acumula queda do PIB de 7% em dois anos.

É nesse contexto que se está propondo a PEC 241/2016, que estipula limite para o crescimento da despesa primária. A regra é simples: se em um determinado ano a inflação for, por exemplo, de 5%, no ano seguinte o gasto primário da União poderá crescer, no máximo, 5%.

A aprovação da PEC atuará na causa fundamental do problema fiscal –o crescimento acelerado do gasto–, sinalizando para a sociedade que o desajuste será resolvido. Haverá aumento da confiança das empresas, que retomarão os investimentos, gerando crescimento econômico. As receitas públicas reagirão, iniciando o processo de ajuste fiscal.

Ao mesmo tempo, o Tesouro Nacional precisará de menos empréstimos para financiar um deficit decrescente. Sobrarão mais recursos no mercado para financiar o investimento privado, o que levará à queda da taxa de juros, que impulsionará o investimento e o crescimento. Juros mais baixos vão desacelerar o crescimento da dívida pública. Também aumentarão a viabilidade dos investimentos privados em concessões de infraestrutura, reduzindo a necessidade de subsídios creditícios do governo aos concessionários, o que contribui tanto para o crescimento quanto para o ajuste fiscal.

A ideia de conter o crescimento da despesa gera o temor de que políticas sociais sejam afetadas, prejudicando os mais pobres. Na verdade, a população de baixa renda será beneficiária do ajuste. Estamos com 12 milhões de desempregados, que dependem da recuperação da economia para voltar à ativa. Os pobres são os maiores prejudicados pelo desemprego recorde.

Segundo o Ipea, em 2014, a taxa de desemprego era de 20% para os trabalhadores situados entre os 10% mais pobres, enquanto o índice estacionava nos 2% entre os 10% mais ricos. Além disso, os pobres não têm poupança acumulada para enfrentar o período de desemprego, geralmente não têm parentes ricos para lhes emprestar dinheiro, e seu acesso ao crédito bancário é limitado e caro.

A mais importante política social é a recuperação da economia e do emprego. Adicione-se a queda da inflação que advirá do ajuste fiscal. Os pobres são os mais prejudicados pela carestia.

Os mais pobres também ganharão com a PEC porque hoje não são os maiores beneficiários do gasto público. O Orçamento tem gordas dotações que beneficiam estratos sociais mais altos. Controlando-se a expansão desses gastos, restarão mais recursos para financiar programas que efetivamente atendem os pobres.

A queda da despesa com juros também favorecerá os pobres. Os juros são pagos a famílias de maior renda, que são aquelas que dispõem de reservas financeiras aplicadas em títulos públicos. Menor pagamento de juros resulta em redução do superavit primário necessário para manter a dívida sob controle, permitindo, mais adiante, a expansão de programas sociais. Ademais, ao facilitar as concessões de infraestrutura, a queda dos juros permitirá a expansão do saneamento básico e dos transportes coletivos.

Há também no Orçamento perda de recursos por ineficiência. Esse custo não é desprezível. Por exemplo, entre 2004 e 2014, o Ministério da Educação aumentou seus gastos, em termos reais, em 285%, mas isso não parece ter se refletido em melhoria significativa no aprendizado, em especial dos alunos do ensino médio. Nesse nível, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica mantém-se em 3,7; pela meta estabelecida, já deveria ter chegado a 5,2.

A fixação de um teto de gastos induzirá a administração pública, sujeita a maior controle do gasto, a buscar eficiência, beneficiando a todos. O Ministério da Saúde já deu a largada: com medidas gerenciais e renegociações de contrato, reduziu seu gasto anual em mais de R$ 1 bilhão.

SAÚDE E EDUCAÇÃO

A PEC também tem sido questionada por propor mudança na vinculação de recursos da saúde e da educação. A ideia é que o gasto mínimo (o piso) nesses setores deixe de ser calculado com base na receita do governo, passando a ser corrigido pela inflação. Há o argumento equivocado de que a receita crescerá mais rápido do que a inflação, de modo que a troca do indexador levaria a perda de recursos.

É incorreto comparar os cenários "com aprovação da PEC" e "sem aprovação da PEC" supondo que o crescimento econômico e o desempenho da receita serão iguais nos dois casos. Sem a aprovação da PEC e, portanto, mantendo-se a atual regra de correção do gasto mínimo em saúde e educação, o crescimento econômico e da receita serão muito baixos, implicando baixa correção da despesa mínima. Quando o PIB cai, como está ocorrendo agora, a correção pela receita é uma opção pior. Pelos dados dos últimos anos, a correção pela inflação geraria valores maiores que a indexação à receita desde o exercício de 2013. O critério proposto na PEC protege a saúde e a educação durante as crises.

É preciso computar o aumento de demanda por serviços públicos gerado pela deterioração econômica. Pesquisa recente da CNI (Confederação Nacional da Indústria) apurou que, em 2016, 34% dos entrevistados pararam de pagar planos de saúde e 14% transferiram os filhos da escola privada para a pública. Se não houver a aprovação da PEC e a recuperação da economia, mesmo que seja destinada uma dotação maior para saúde e educação, haverá pressão de demanda, prejudicando os usuários.

Deve-se considerar o estrago que a deterioração econômica gera na escolaridade dos mais pobres. Entre 2015 e 2016, a taxa de desemprego para jovens entre 14 e 17 anos, apurada pelo IBGE, subiu de 24% para 39%, refletindo um quadro de abandono dos estudos em busca de emprego. Essa é uma perda para a educação que independe de haver mais verbas destinadas para o setor.

É essencial lembrar que a PEC deixa fora do limite de gastos as transferências federais para o Fundeb, que financia a educação básica, mais importante etapa educacional no fortalecimento do capital humano dos mais pobres. E a complementação da União vai justamente para os Estados mais pobres.

Nada impede que o Congresso decida alocar recursos para saúde e educação acima do mínimo (como está sendo feito no Orçamento de 2017), desde que reduza despesas em outras áreas, para respeitar o teto. Esse é um ponto que ilustra outra virtude da PEC. Ela induz o Congresso e a sociedade a definir prioridades. Não será mais possível adotar a prática atual de superestimar receitas para incluir o máximo possível de despesas no Orçamento. O Congresso recobrará o seu papel de fórum de discussão das prioridades nacionais.

Ao fortalecer a restrição ao crescimento do gasto, a PEC induzirá a recuperação da economia e do emprego; beneficiará os mais pobres; criará restrições à obtenção de privilégios por grupos de renda alta; estimulará a racionalização e eficiência dos programas públicos; e permitirá o planejamento fiscal de longo prazo. Essa medida é a primeira peça da reforma do gasto, que prosseguirá com a reforma previdenciária. Sem conter os gastos, será difícil superar o cenário de deterioração das contas públicas, baixo crescimento e empobrecimento.

MARCOS MENDES, 51, economista especialista em finanças e políticas públicas, é chefe da Assessoria Especial do Ministro da Fazenda. 


Um país onde a justiça varia não pode ser considerado democrático
25/09/2016  02h09


Aquela foi uma semana marcada por importantes acontecimentos. Começou com a cassação do mandato de Eduardo Cunha por um escore arrasador, seguiu-se a posse de Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, depois as acusações contra Lula por procuradores da operação Lava Jato e finalmente a resposta do ex-presidente negando fundamento às acusações.

A maneira como aquelas acusações foram feitas não pegou bem, e pior é que, como este jornal divulgou, elas se apoiam numa delação que foi cancelada.

Quero me ater, no entanto, à significação que tem para o país a presença da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, conforme constatamos nas mais diversas manifestações de apoio e otimismo pelo acontecimento. E, se ele já valeu por si só, cabe ressaltar a significação da cerimônia de posse em si mesma.

Essa cerimônia se caracterizou pela presença de políticos de diversos partidos, além de personalidades como os ex-presidentes José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva, bem como intelectuais, advogados e artistas. Isso indicava, por um lado, o prestígio pessoal da nova presidente do STF, mas também o que significa essa instituição, no momento particularmente crítico da vida política nacional, o que ficou evidente nos discursos proferidos durante a cerimônia, expondo implicitamente essa realidade.

Nesse particular, deve-se ressaltar o discurso da ministra Cármen Lúcia que, não por acaso, fez questão de mostrar que as diversas instituições que expressam o poder do Estado brasileiro, a exemplo do Judiciário, são, de fato, instrumentos da manifestação do verdadeiro poder que emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Foi quando ela disse:

"Inicio quebrando um pouco o protocolo ou, pelo menos, interpretando a norma protocolar diferente de como vem sendo interpretada e aplicada: determina se comecem os cumprimentos pela mais elevada autoridade presente. E e justo que assim seja. Principio, pois, meus cumprimentos dirigindo-me ao cidadão brasileiro, princípio e fim do Estado, senhor do poder da sociedade democrática, autoridade suprema sobre nós, servidores públicos, em função do qual se há de labutar cada um dos ocupantes dos cargos estatais".

Por isso mesmo, como diria ela, adiante, irá informar-se de todos os dados relativos aos gastos institucionais e trazê-los ao conhecimento da população, com toda a transparência, para deixar clara a posição que adotaria em face disso. Essa questão envolve o discutido aumento salarial para os ministros do Supremo, que, por sua vez, desencadearia aumentos salariais nos vários setores judiciais, agravando a situação financeira do país.

Outro ponto importante de seu discurso diz respeito à modernização e ao aperfeiçoamento do Judiciário brasileiro, que não atende às necessidades da população, particularmente dos mais pobres que constituem a maioria.

De fato, um país onde a aplicação da Justiça varia de acordo com a classe social a que pertence o cidadão não pode ser considerado efetivamente democrático.

Se o discurso da presidente Cármen Lúcia foi essencialmente institucional, o do ministro Celso de Mello, decano do STF, tocou o cerne do problema que hoje atinge, de maneira alarmante, a vida política nacional.

Para o constrangimento de alguns políticos e autoridades ali presentes, que são investigados pela Operação Lava Jato, ele se referiu aos "marginais da República" que, "por intermédio de organizações criminosas" obtêm "inadmissíveis vantagens e [...] benefícios de ordem pessoal, ou de caráter empresarial, ou, ainda, de natureza político-partidária".

Também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abordou o tema da corrupção, destacando a atuação do Ministério Público, que tem desempenhado um papel altamente positivo no combate à ação criminosa de políticos, empresários e altos funcionários de empresas estatais.

A posse da ministra Cármen Lúcia, se teve o significado que teve, deveu-se particularmente ao papel que a Justiça passou a desempenhar publicamente na vida nacional. E a razão disso não é outra senão o alastramento da corrupção exercida, como disse o ministro Celso de Mello, pelos "marginais da República".

sábado, setembro 24, 2016



24 de setembro de 2016 | N° 18643 
MARTHA MEDEIROS

A colunista está em férias. Esta coluna foi originalmente publicada em 15 de junho de 2003

Ilustríssimos


Por que cargas d’água somos tratados tão respeitosamente quando alguém está com vontade de nos enforcar?

Sua família sempre lhe chamou de Guto, tanto que você já nem lembra que nome realmente tem. É Guto pra lá e pra cá. Guto no jardim de infância, Guto no colégio, Guto no clube. Você tem todos os motivos, portanto, para ficar lívido e com as pernas bambas quando sua mãe grita lá da sala: Ricardo Augusto, venha já aqui. Ricardo Augusto??? Alguma você aprontou.

Por que cargas d’água somos tratados tão respeitosamente quando alguém está com vontade de nos enforcar? Sua mulher sempre lhe chamou de Beto: só lhe chama de Valter Alberto quando está a ponto de pedir o divórcio. E seu pai só lhe chama de Ana Beatriz quando avisa que a mesada será cortada. Por que cortar a mesada da sua Aninha, papai? A senhora sabe muito bem por quê. Você acaba de virar senhora com 14 anos.

Recebo um monte de e-mails carinhosos que começam com um simples Martha, ou Cara Martha, ou Prezada Martha, uma intimidade natural, já que de certo modo participo da vida das pessoas através do jornal. Mas, quando entra um e-mail intitulado Dona Martha, valha-me Deus. Respiro fundo porque já sei que vão me detonar de cima a baixo, vão me chamar das coisas mais horrendas, vão me humilhar até me reduzirem a pó. Mas leio tudo, pois lá no finalzinho encontrarei o infalível “Cordialmente, fulano.” Cordialmente é ótimo. Cordialmente, fui esculhambada.

E quando chega uma correspondência pra você em que no envelope está escrito “Ilustríssima”? Penso três mil vezes antes de abrir. Mas abro, mesmo sabendo que não é convite pra festa, pré-estreia de filme, desfile de moda, sessão de autógrafos ou inauguração de restaurante. Ilustríssima? Só pode ser convite para a palestra de algum PhD em física quântica, para comemoração do bicentenário de uma loja de molduras ou convocação para reunião de condomínio. Os ilustríssimos não merecem se divertir.

Agora, pânico mesmo, só quando me chamam de Vossa Excelência. Como não sou o Presidente da República, volto a pensar 3 mil vezes antes de abrir a correspondência, mas resolvo não abrir coisa nenhuma. Só pode ser do Judiciário. Intimação pra depor.


24 de setembro de 2016 | N° 18643 
CARPINEJAR

Chorar sobre o xampu derramado

A grande prova do amor feminino é dividir o xampu.

É um dos produtos que ela mais briga para conservar e menos se dispõe a partilhar. A cada banho, verifica o decréscimo dos mililitros. Aliás, xampu merecia vir com régua de mamadeira do lado de fora, tamanho o controle do néctar.

A guerra das mulheres contra bárbaros e invasores advém de longa data. Na infância, eram obrigadas a se precaverem da curiosidade dos irmãos e do pai e fiscalizarem o desperdício com rigor e olhar clínico. Para não correrem riscos desnecessários, algumas meninas não deixavam o pote à mostra na bandejinha aérea.

Vale a pena experimentar os limites da paixão da sua namorada por você. Não se furte do embate. Escolha o menor frasco (sempre o mais caro), encha a mão e espalhe com vontade pelo seu couro cabeludo. Gaste generosas quantidades durante uma semana sem parar, para consolidar a baixa no volume. Se ela não vier perguntar se anda usando o xampu dela e fingir que nada aconteceu, você conquistou definitivamente o coração de sua musa. Está acima do bem e do mal, dos cuidados com as mechas e madeixas, da neurose consumista.

Já aconteceu de namorada parar de falar comigo dois dias inteiros porque notou, quando foi me beijar, que colocava o seu xampu mais caro na barba:

– Não duvido que não tenha usado no sovaco e nos pentelhos.

Eu tinha, mas não confessei.

Passei por outra que terminou o relacionamento pois derrubei um pote de seu xampu Joico de R$ 200. Considerou o gesto da envergadura de uma infidelidade. E não qualquer infidelidade. Parecia que eu havia comido a sua melhor amiga. Gritava diante da cornitude da espuma.

Lembro o epitáfio verbal de nosso amor:

– Eu economizando e você joga tudo no chão. Não cuida de minhas coisas, nem vai cuidar de mim.

Liberdade mesmo encontrei com a minha esposa, Beatriz. Inventei de pôr uma máscara de caviar da Kérastase que achei em seu banheiro. Deve ser um salário mínimo em forma de condicionador. Faz um tempão que venho aproveitando o seu poder restaurador, com o claro objetivo de lustrar e perfumar a minha careca. Ela não reclamou até agora. Se bem que o grande teste virá quando ler o meu texto.


24 de setembro de 2016 | N° 18643 
PIANGERS

Nunca vamos ficar ricos


Uma amiga minha, a Bia, decidiu trabalhar só meio período depois que o filho nasceu. Quer participar de cada momento. Mas, Bia, assim você não vai ficar rica nunca!, alertou um amigo. É verdade. A Bia ganha menos dinheiro. Mas eu conversei com ela esses dias, e ela estava mais feliz que o Bill Gates.

No almoço, um colega do trabalho disse que não vai aceitar uma promoção. Quer continuar com as manhãs livres, curtindo a filha. “Não vale a pena”, ele disse. Está certíssimo: entre abraçar todos os dias de manhã uma menina linda de pijama ou mais R$ 500 na conta, com qual você ficaria? Tem vezes que a promoção não paga nem a creche que você vai ter que contratar. Tem vezes que não paga nem a gasolina.

Participar do crescimento dos filhos tem uma série de vantagens, para crianças e adultos. Eles aprendem mais rápido, se desenvolvem com mais confiança. A gente libera um monte de hormônios de prazer, por estar por perto de coisas fofas que fazem gugu e dadá. Vivemos mais felizes, menos estressados, o coração batendo que é uma beleza.

“Mas você precisa investir na sua carreira”, e eu concordo com isso. Todos os dias, depois de fazer minhas filhas dormirem, volto pro computador pra trabalhar. Estou escrevendo este texto às 04:29 da madrugada de um feriado. O que eu fiz foi uma lista de prioridades, família no topo, e tudo aquilo que dava pra dizer “não” eu fui dizendo. Não me arrependo.

“Mas eu nunca abriria mão da minha vida para criar um filho.” É importante dizer que não dura a vida toda. Dura uns 15 anos, depois dos quais é o seu filho que não vai mais querer você por perto. A partir dali é casa de amigo e praia no fíndi. Daí a gente vai cuidar da nossa vida. Fazer um curso, tentar um negócio. Quem sabe, aprender a usar o Snapchat.

Pode ser que a gente nunca fique rico, é verdade. Mas tanta gente trabalha como condenado e também não fica. O nosso tesouro a gente sabe onde está.



24 de setembro de 2016 | N° 18643 
DAVID COIMBRA

Para que serve a aula de artes


O governo quer acabar com as aulas de artes na escola, o que tem causado grande comoção na sociedade brasileira.

Tive aula de artes. Chamava-se educação artística. Não era uma disciplina que levava a sério, confesso, pejado. Classificava educação artística no nicho de moral e cívica, religião e OSPB. Quer dizer: uma chatice. Só ia para não rodar por ausência.

Agora, ao pensar no assunto, seguro o queixo com o polegar e o indicador, olho para o céu da Nova Inglaterra e me pergunto: será que mesmo os professores levavam a matéria a sério? Eles entravam na sala e davam argila para a gente fazer... coisas. Terá algum de meus colegas se revelado um Michelângelo tropical graças às aulas de artes?

Vai saber...

De toda forma, vendo hoje tantas pessoas a protestar que a educação de nossas crianças será destruída com a supressão das aulas de artes, sinto-me culpado retroativamente por ter desprezado a educação artística.

Igual com a sociologia. É tão bonito ouvir um sociólogo falando... O que mais gosto é de quando os sociólogos criticam a sociedade hipócrita e tentam mexer com nosso espírito entorpecido pelo consumo e pelos valores midiáticos. Basta que eles comecem a falar e já sinto o meu espírito entorpecido se mexendo todo. Se tivesse levado mais em consideração as aulas de sociologia, hoje escreveria belezuras como “conceitos heurísticos” ou “empoderamento”.

Perdi oportunidades na vida, essa é a verdade.

O fato de não ter dado bola a disciplinas tão preciosas me faz pensar que a discussão sobre o currículo das escolas é quase irrelevante.

Fico pensando que o que realmente é importante são boas escolas e professores bem remunerados e bem preparados, com tempo para estudar e organizar seu trabalho, mas que também sejam cobrados pelo que fazem e pelo que não fazem. Fico pensando que esse debate é superficial e que ter ou não artes no currículo só faria diferença se houvesse ótimos professores de artes, ensinando em escolas com ótima estrutura para as aulas de artes. Fico pensando isso. Mas posso estar errado. Posso ter ficado com o espírito não apenas entorpecido, mas também embrutecido pelo desdém que senti pelas aulas de artes. Vai saber...

Para que serve o azulzinho

Se o Google não me iludiu, e o Google é como uma mulher, que ilude e negaceia, mas se desta vez não me iludiu, a EPTC tem 1.117 funcionários.

Toda essa gente, claro, não fica apenas cuidando do trânsito. A EPTC cumpre várias funções, que sei.

Mas nem todas as cidades do mundo contam com órgãos similares à EPTC. Aqui onde moro, por exemplo, quem controla o trânsito é a polícia.

O policial fica na esquina, observando o tráfego. De repente, se acha que as pessoas estão tempo demais na calçada, esperando para atravessar a rua, ele simplesmente invade o leito por onde passam os carros, ergue um braço e manda todo mundo parar. Todo mundo para sem reclamar. É ele quem decide. Faz parte de sua autoridade.

Outro dia, vi um parar um carro. O motorista tinha feito algo errado, não sei o que foi. Sei que o policial passou-lhe uma descompostura tão feroz, que deixou a mim envergonhado, eu, que estava só assistindo. O cidadão reagiu com humildade. Baixou a cabeça, disse “yes, officer” e foi-se embora ganindo baixo. Os policiais são respeitados – se alguém os confronta, eles o derrubam, põem o pé em seu pescoço, algemam-no e o levam preso.

Esse policial que está vigiando o trânsito vigia também as ruas, as pessoas e o comércio. Se alguém quiser fazer algo errado, não fará perto desse policial. Talvez fizesse, se em seu lugar houvesse um agente de trânsito.

Então, pergunto: Será que Porto Alegre não seria uma cidade mais segura se os mais de mil funcionários da EPTC trabalhassem na Brigada Militar?

Será que os candidatos a prefeito de Porto Alegre não poderiam pelo menos cogitar essa possibilidade?

O que você prefere ter diante da sua casa: um azulzinho ou um PM?

Responda, por favor.



24 de setembro de 2016 | N° 18643 
ANTONIO PRATA

DIA DA FANTASIA


Na escola da minha filha, toda quarta é dia da fantasia. Vou levá-la até a sala e quase sou atropelado por um Homem-Aranha em fuga, perseguido por uma Frozen e uma bailarina. No tanque de areia, um urso panda briga com uma Peppa Pig por causa de um baldinho. Encostado numa pilastra, com ar superior, um Superman afirma, categórico: “Odalisca não existe, tá?”. A odalisca chora.

Deixo minha filha (Pequena Sereia) na classe e, atravessando aquele carnaval, me volta a eterna constatação de quem convive com crianças: como adulto é chato, como com o passar do tempo vamos abaixando o volume, equalizando graves e agudos, deixando que, por timidez, covardia ou, pior, por preguiça, o olhar fosforescente dos primeiros anos se transforme nesse mingau bege da maturidade.

Na mesma noite, porém, vou ao Shopping Frei Caneca assistir a um filme, entro na fila e, ainda contaminado pela visão daquele pátio, percebo que eu estava redondamente enganado: os adultos também estão fantasiados, muito mais fantasiados – e não só às quartas-feiras.

Primeiro, vejo o magrelo de boina, óculos de aro fininho e suspensórios. Veio vestido de cinéfilo, é claro. Não de qualquer cinéfilo, mas de amante do cinema francês (boina) dos anos 1960 (aro fininho) puxando um pouco para o neorrealismo italiano (suspensórios).

Atrás do cinéfilo, um lutador de jiu-jítsu com orelha de couve-flor, bermuda, chinelo Rider, camiseta com um urso e os dizeres “Team Guigo” está vestido não para entrar no cinema, mas no “octagon” do UFC. Imagino que, passada a catraca, vá pedir uma pipoca com açaí e um Sprite com proteína de soja.

A namorada do lutador usa uma saia tão curta, mas tão curta, que consegue driblar as leis da física: a barra parece estar acima da cintura. O top mal contém os enormes peitos de silicone, e o perfume, se espraiando pela fila, não deixa dúvida sobre qual fantasia ela veste (ou despe?): fantasia sexual.

Mais à frente, um garoto de camiseta Lacoste, bermuda jeans, cinto de couro trançado e mocassins sem meia está fantasiado de “trabalho-no- mercado-financeiro-e-vou-ganhar-meu-primeiro-milhão- antes-que-vocês-terminem- suas-pipocas”. A mulher, de cabelo loiro até a bunda, dentes brancos e perfeitos, toda trabalhada na power yoga, parece dizer “mozinho-serei- sua-esposa-fiel-e-cuidarei-da- casa-e-dos-filhos-enquanto- você-garantir-as-viagens-na- primeira-classe”.

O casal é olhado com desprezo pelas moças de cabelo curto, regata e calça militar: “rejeito-a-feminilidade-padrão-‘ninguém-nasce-mulher- torna-se-mulher’-e-vocês- erraram-de-shopping-aqui-é- Frei-Caneca-porra!”.

Observando a tudo, um sujeito de calça jeans, Hering preta, velhos Nikes de corrida e barba por fazer talvez pretenda emplacar um: “sou- desencanado-estou-acima- dos-ditames-da-moda-roupa- pra-mim-é-conforto”, mas os óculos de tartaruga o denunciam: “sou-artista-barra-intelectual-minha-falta-de-apuro- é-muito-bem-apurada-como- um-traço-de-distinção-um- troféu-tipo-não-vou-ficar-rico- como-o-da-Lacoste-nem-dar- porrada-como-o-da-couve- flor-mas-pelo-menos-posso- andar-mulambento-por-aí”.

Perto de tamanho apuro cenográfico, a saia de sereia da minha filha e a máscara de Peppa da amiga parecem coisa de criança.



24 de setembro de 2016 | N° 18643 
LYA LUFT

Belos, cálidos dias


A gente nasce sem querer, numa família não escolhida (ou cada alma escolhe a sua?), com uma bagagem de genes que nem Deus sabe direito no que vão dar – lançados no grande mundo, ainda por cima tendo de desempenhar direito nosso papel.

Que papel? O que a família exige? O que a sociedade espera? O papel que cobramos de nós mesmos enquanto corremos entre acertos e trapalhadas, dor e graça, tateando num nevoeiro de confusões, emoções, razões e desesperos – ou contentamento? Atores sem preparo, sem roteiro, sem papel e sem alguém que nos sopre nossas falas, nesse palco desmesurado e instável. Se for difícil demais, nos matamos de tristeza, de tédio, de medo, de solidão e vazio, ou por vingança por algo demais cruel. É quando não conseguimos desempenhar papel nenhum: escolheremos então o nada, se é que a morte é nada.

Mas em geral gostamos da vida, não nos matamos, até nos sentimos bem. Não que eu ache que somos farsantes ou falsos. Apenas fomos aqui plantados, em geral desejados, quase sempre amados, algumas vezes desamados, mal criados e erradamente educados. A gente comparece do jeito que dá, desde quando começa a ter consciência – acho que isso também ninguém ainda determinou (o Google não me deu muita certeza): quando começa a consciência de existir, e das coisas ao redor?

Minhas memórias se iniciam aos dois anos e pouco, deitada no assoalho claro da casa, espiando embaixo de um móvel grande e escuro, admirando bolinhas de poeira que dançavam segundo minha respiração: para mim, eram seres vivos. Ou sentada no assoalho da casa da avó que costurava, eu espiando alfinetes cintilantes entre as frestas das tábuas. Tudo era mágico naquele tempo, e eu não precisava ser nenhum personagem.

Mas a vida se impõe, com chamados, deveres, conselhos, promessas, agrados, punições, por mais brandas que fossem: havia uma ordem em tudo. E a gente tinha de se adaptar, para que os castigos (não ganhar sorvete, não poder brincar com as amigas) não fossem mais numerosos do que as alegrias. Na verdade, os castigos eram poucos, quase bobos, mas eu me assustava: alguma coisa chamada “des-ordem” existia, eu me enredava com ela. Todo mundo devia ser calmo, acomodado, pressuroso, obediente, não lembro mais todas as qualidades que nos faziam boas meninas e bons meninos naquele tempo quase remoto.

E as perdas: amados e amigos se vão, jovens ou já velhos, a gente soltando pedaços. Ou os afetos simplesmente empalideceram. Mas há os que chegam: maravilhosamente chegam filhos, netos, novos amigos, velhos amigos permanecem, os livros, os filmes, os quadros, as músicas, a montanha, o mar, as horas de encantamento, as viagens – e voltar para casa, doce “zona de conforto”. Acolhimento, segurança dentro do possível neste mundo em que o crime compensa, o cinismo floresce, a autoridade fracassa, a confusão impera, a mediocridade se impõe. Seja como for, vamos desempenhando ou reinventando nossos papéis, ou não os cumprindo e levando rasteira. Não é ruim, não é bom: é a vida.

Belos, cálidos dias de primavera. O país, quem sabe, começando a se mover para se recompor. Aquela criaturinha chamada esperança canta no peitoril da minha janela. Quem sabe, quem sabe?

sexta-feira, setembro 23, 2016


23 de setembro de 2016 | N° 18642
REPORTAGEM ESPECIAL

PRENDE E SOLTA EM NOVA POLÊMICA DA LAVA-JATO

EX-MINISTRO GUIDO MANTEGA foi detido em hospital no qual acompanhava a mulher em tratamento de câncer e libertado horas mais tarde. Ele é acusado por Eike Batista de ter pedido R$ 5 milhões para pagar dívida do PT com marqueteiros

O que seria mais uma retumbante fase da Operação Lava-Jato, com a prisão de um ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, ganhou ingredientes polêmicos extras ao prender Guido Mantega enquanto acompanhava a mulher em uma cirurgia e, horas mais tarde, determinar sua soltura. Batizada de Arquivo X, a etapa investiga, entre outros pontos, a atuação do petista na transferência ao Exterior de recursos que se destinavam a custear despesas do PT.

A suspeita tem origem em depoimento do empresário Eike Batista, que chegou a ser incluído entre os mais ricos do mundo por conta de seus empreendimentos principalmente na exploração de petróleo. Ao Ministério Público Federal (MPF), ele relatou que, em 1º de novembro de 2012, recebeu pedido de Mantega, então presidente do Conselho de Administração da Petrobras, para que fizesse pagamento de R$ 5 milhões em favor do PT.

Para operacionalizar o repasse da quantia, o executivo foi procurado e teria falsificado contrato com empresa ligada ao marqueteiro do PT João Santanna e a sua mulher, Monica Moura, denunciados pela Lava-Jato por lavagem de dinheiro e liberados da prisão após aceitarem pagar fiança de R$ 31,26 milhões.

Após uma primeira tentativa frustrada de repasse em dezembro de 2012, em 19 de abril de 2013 foi realizada transferência de US$ 2,35 milhões, no Exterior, entre contas de Eike e do casal – o destino foi a offshore panamenha Shellbill Finance, onde também foram depositados R$ 7,5 milhões da Odebrecht e do operador de propinas Zwi Skornicki. A informação sobre essa transação consta de um dos anexos da delação premiada de Monica, ainda não homologada pela Justiça, mas que vazou na imprensa. Ao saber disso, Eike teria buscado os procuradores para esclarecer a operação.

ETAPA UTILIZOU INFORMAÇÕES COLETADAS EM FASES ANTERIORES

O repasse seria uma compensação pelo fato de ter ganho o contrato, em julho de 2012, de construção das plataformas P-67 e P-70 – unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência de petróleo voltadas à exploração dos campos de pré-sal. O grupo OSX, de Eike, participou do consórcio que construiu as plataformas, o Integra Ofsshore, formado também pela empresa Mendes Júnior. O serviço foi orçado em US$ 922 milhões.

É por envolver as empresas X – marca de Eike – que a etapa desencadeada ontem chama-se Arquivo X. São alvos dessa fase, além de Mantega, executivos das empresas Mendes Júnior e OSX Construção Naval, assim como representantes de empresas por elas utilizadas para o repasse de propina. Segundo o MPF, as consorciadas sequer tinham tradição no mercado específico de construção e integração de plataformas, mas, mesmo assim, ganharam o contrato porque repassaram propina a partidos e políticos. A operação está embasada em depoimentos de testemunhas e colaboradores, na apreensão de documentos, na quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático, assim como na análise da base de dados coletada ao longo das 33 fases anteriores.

JOSÉ DIRCEU TERIA SOLICITADO REPASSE DE R$ 6 MILHÕES

O MPF afirma ter colhido indícios de que cerca de R$ 7 milhões foram transferidos, entre fevereiro e dezembro de 2013, pela Mendes Júnior para um operador financeiro já condenado no âmbito da Lava-Jato. Os repasses foram viabilizados mediante a interposição de empresa de fachada, que não tinha uma estrutura minimamente compatível com tais recebimentos.

Foi identificado também, segundo a investigação, repasse de outros R$ 6 milhões pelo Integra Ofsshore com base em contrato falso firmado em 2013 com a Tecna/Isolux. O valor teria sido transferido a pedido do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que atualmente cumpre pena no âmbito da Lava- Jato, e de pessoas relacionadas a ele. 

Por fim, empresas do grupo Tecna/Isolux repassaram cerca de R$ 10 milhões à Credencial Construtora, já utilizada por Dirceu para o recebimento de vantagens indevidas. Também foram identificados, entre março de 2013 e junho de 2014, repasses de mais de R$ 6 milhões da Mendes Júnior a empresas ligadas a um executivo do grupo Tecna/Isolux.


23 de setembro de 2016 | N° 18642 
NÍLSON SOUZA

O FIM DO SÉCULO

Com alguns intervalos para leituras, digamos, mais recreativas, terminei de ler a trilogia O século, do britânico Ken Follett. Haja fôlego para as 2.855 páginas somadas das três obras que contam a história da humanidade no século 20, sob a ótica de cinco famílias – norte-americana, inglesa, galesa, russa e alemã. É ficção, mas tão fiel à realidade, que o leitor, especialmente aquele que viveu boa parte dos acontecimentos relatados, sai dessa experiência literária com uma visão muito mais abrangente e humana da história linear relatada pelos livros didáticos.

A I Guerra Mundial e a Revolução Russa são os focos do primeiro volume, Queda de gigantes, que nos apresenta os personagens que efetivamente sofreram as consequências das transformações políticas e sociais comandadas por reis, presidentes e generais. São pessoas do povo – mineradores, operários, soldados, professores – que irão contar essa saga.

A ascensão do nazismo, a Guerra Civil Espanhola e a II Guerra Mundial compõem o cenário bélico do segundo livro, Inverno no mundo, que relata a vida, os amores e os dramas das famílias referidas, já entrando na segunda geração. O fascismo, o comunismo e todos os ismos do conflito de ideias e ideologias desabam sobre os integrantes dessas famílias, e também sobre nossos pais, nossos avós e todos os que já viviam na metade do século passado.

Essa era sangrenta gerou a Guerra Fria, rótulo para um mundo amedrontado pela perspectiva do conflito nuclear e do ódio político. O terceiro volume, denominado Eternidade por um fio, documenta a queda do Muro de Berlim e incontáveis mudanças sociais e comportamentais, que vão da afirmação dos direitos civis à consagração do rock como marca da juventude. Mais uma vez, a história é contada por pessoas comuns, que amam, trabalham, se divertem, fazem política e conduzem os destinos da humanidade com seus atos e seus sentimentos. Somos nós.

Ken Follett é o cara.

Quem tiver fôlego para chegar à página 1.070 do terceiro volume não vai se arrepender. Mesmo que leve um século para concluir a leitura.


23 de setembro de 2016 | N° 18642 
DAVID COIMBRA

Por que depor um governo tão bom?

Um governo que faz dobrar o número de empregos na indústria merece ser deposto?

Um governo que faz a taxa de mortalidade infantil cair em mais de 50% merece ser deposto?

Um governo que faz triplicar o número de venda de livros merece ser deposto? Um governo que propicia aumento de renda per capita em mais de 50% merece ser deposto?

Um governo que reduz o índice de analfabetismo em 30% merece ser deposto?

Um governo que faz com que o volume de exportações aumente mais de 20 vezes merece ser deposto? Um governo que aumenta a rede de estradas asfaltadas no país em mais de 15 vezes merece ser deposto?

Um governo que faz o país crescer mais do que qualquer outro país do mundo merece ser deposto?

Merece. Esse governo, o governo dos índices que apresentei acima, foi o governo militar.

Para você ver como os números são escorregadios. Você toma uma estatística e joga com ela como bem entender, sobretudo em um país do tamanho do Brasil.

Você pode também usar exemplos particulares, para tornar a coisa mais humana. Depoimentos pessoais geram convenientes reações emotivas. Eu, por exemplo: neto de um sapateiro que teve de aprender a fazer contas sozinho, filho de uma professora primária que tinha de sustentar três filhos, sem contar com pensão, eu, oh, que vida dura, só estudei em escola pública e fiz faculdade graças a um programa do governo federal. E a minha mãe, a tal professora primária, só conseguiu comprar nosso apartamento no IAPI graças a um programa do mesmo governo federal.

Que governo benfazejo foi esse?

O governo militar. Então, o governo militar não foi maravilhoso?

Não. Foi péssimo.

Porque o governo militar, ao funcionar como uma ditadura, corroeu o país por dentro. A ditadura por princípio é ruim, e não apenas por ser totalitária, mas por tirar do cidadão a responsabilidade pela formação do Estado. Quem manda é o ditador; logo, a responsabilidade é dele. O cidadão olha para cima, para onde ele acha que se assenta o Estado, e lava as mãos. O cidadão apenas se queixa.

Um governo não pode pretender ser a salvação de um país. Basta o governo acreditar que tem essa missão para corromper a sociedade. É a sociedade que se salva, com todas as suas instâncias, com seus instrumentos, com o “sistema”, jamais com o governo. O governo é apenas parte do Estado, é o executivo, que vai gerir o serviço público de acordo com parâmetros já definidos pela sociedade.

Um governo populista, como foi o do PT, faz o mesmo tipo de trabalho corrosivo que fez a ditadura, ainda que legitimado pelo voto. O pai Lula. A mãe Dilma. O partido de homens iluminados que defendem o pobre negro da elite branca malvada. Não existe diferença entre essas crenças e a crença no que se chamava de “governo forte”. É esse primitivismo que amassa o Brasil.

O Brasil não tem que esperar por um bom governo. O Brasil não necessita de um bom governo. O Brasil precisa desconfiar de todos os governos.


23 de setembro de 2016 | N° 18642 
CLAUDIA LAITANO

Retalhos


Ao lado da minha cama, ocupando a função de arranjo de flores e o lugar de um despertador, a caixa dos contos completos do Tolstoi vela meu sono. Não está ali para disputar a vez na fila de leituras nem pela ausência de outros espaços na casa onde pudesse descansar com a devida privacidade. Está na minha cabeceira pelo que representa (Tolstoi, muito à vontade no cargo, simbolizando todos os escritores a quem um dia jurei amor eterno) e pelo prazer que me dá olhar para um livro bonito todas as noites antes de dormir. Esta obra-prima editorial, um dos últimos lançamentos da Cosac Naify, pode ser comprada no site da Amazon, que adquiriu parte do acervo da editora, por pouco mais do que R$ 100 – menos do que uma pizza por cada um dos três volumes.

Ninguém apostaria que uma editora que tratava o livro como objeto de arte teria uma vida muito longa no mercado editorial brasileiro. Quando o editor Charles Cosac anunciou que estava encerrando as atividades da casa, no final do ano passado, muita gente lamentou, mas ninguém se surpreendeu. O Brasil lê pouco e mesmo que a minguada fatia leitora comprasse livros da Cosac Naify regularmente ainda assim seria difícil que um negócio tão ambicioso (e, dizem, caótico nas contas) prosperasse por aqui, menos ainda em tempos de crise.

Perder uma editora é sempre triste. Atrás de cada empresa ou pessoa que trabalha com livros no Brasil, há uma aposta no futuro – nas crianças, na educação e na improvável (e resistente) corrente formada por leitores que formam leitores em um país onde o incomparável privilégio de adquirir o hábito da leitura é quase um pequeno milagre.

Ontem ficamos sabendo que existe, sim, algo ainda pior do que perder os livros que nunca serão publicados: destruir aqueles que já existem. O site de notícias Publishnews, especializado em mercado editorial, revelou que os livros em estoque da Cosac Naify que não forem vendidos até o final do ano serão transformados em papel picotado. O diretor financeiro da editora argumenta que é muito caro guardar tantos livros e que doar é contabilmente inviável. Ao que tudo indica, a prática é mais comum do que se imagina, ainda que ninguém goste muito de falar sobre o assunto, por razões óbvias.

Triste e injusto destino. Enquanto alguns livros velam o sono dos seus leitores – caídos no chão, empilhados na cabeceira, abraçados nos óculos embaixo da cama – outros deixam de ser sem nunca ter sido. Por motivos estupidamente contábeis.

quinta-feira, setembro 22, 2016



21 de setembro de 2016 | N° 18640 
FÁBIO PRIKLADNICKI

TEATRO RENOVADO


No final dos anos 1960, um grupo de críticos decretou a morte do autor. A causa era boa: eles queriam que o significado das obras não fosse atribuído mais exclusivamente à suposta intenção do autor ao criá-la. Algum tempo depois, outra geração de especialistas retomou a importância da experiência do autor, sob outros termos. Esses teóricos estavam interessados em questões como gênero, raça e nacionalidade. Assim, era importante analisar o lugar de onde se fala, considerando a vivência daquele que cria uma obra.

É nesse contexto que vale a pena ficar de olho em uma vertente da produção teatral vislumbrada em alguns espetáculos do 23º Porto Alegre Em Cena que tematizam questões da identidade e da cultura afro- brasileira, assim como da posição dos negros na sociedade hoje. Os tópicos apareceram em produções gaúchas como AfroMe, sarau performático do jovem grupo Pretagô, e Dança do tempo, peça da veterana Usina do Trabalho do Ator (UTA).

Festivo e contundente, AfroMe toca em feridas da sociedade brasileira e, em específico, da gaúcha. Denuncia o apagamento dos negros da história do Estado e sua contínua expulsão para regiões periféricas da cidade. Uma das canções questiona, como um mantra: “Tá bom? Pra quem?”.

É bonito ver os jovens do Pretagô, dirigidos por Thiago Pirajira (que também está em Dança do tempo, ao lado da experiente Celina Alcântara e outras atrizes), arejarem a cena porto-alegrense com vontade e criatividade, de alguma forma dando continuidade ao grupo Caixa-Preta e à UTA. É um exemplo de que o debate se renova com a única certeza de que o teatro é um espaço privilegiado para cantar que a situação no país não está boa para todo mundo.


21 de setembro de 2016 | N° 18640 
DAVID COIMBRA

O melhor prefeito para Porto Alegre


Um bom prefeito para Porto Alegre seria um homem chamado Tito Flávio Sabino Vespasiano. Pena que ele morreu há 20 séculos. Já naquele tempo, porém, Vespasiano identificou um problema que aflige a capital de todos os gaúchos.

Vespasiano ocupava um cargo ligeiramente mais importante do que o de prefeito: era imperador de Roma, senhor do mundo, dono da vida e da morte de milhões de seres humanos e bichos. Mas sua administração estava enfrentando uma crise financeira e ele precisava de dinheiro. Então, o imperador fez como os presidentes do Brasil fariam milênios depois: começou a inventar impostos absurdos. Um deles, sobre os banheiros públicos.

A respeito dos banheiros públicos da Roma Antiga, é preciso entender que eles não funcionavam como os de hoje. Frequentar o banheiro era uma atividade social. Os assentos sanitários eram postos lado a lado. O sujeito convidava um amigo para fazer suas necessidades fisiológicas, eles se acomodavam e ficavam conversando. Conversando e obrando, conversando e obrando. Havia mais de 140 locais desse tipo na cidade.

Vespasiano pretendia cobrar uma taxa pelo uso dos banheiros. O filho dele, Tito, escandalizou-se com a ideia. – Cobrar por isso? – reclamou. Vespasiano pegou uma moeda e meteu-a debaixo do nariz do rapaz.

– Que odor você está sentindo? – perguntou. Tito, surpreso, respondeu:

– Nenhum... Ao que Vespasiano cunhou uma frase milenar, que, como já disse, serviria para Porto Alegre:

– O dinheiro não tem cheiro.

Digo que serviria para Porto Alegre porque, não raro, alguns porto-alegrenses parecem sentir nojo do dinheiro. O dinheiro é como a internet: é uma ferramenta. Em sua essência, não faz bem nem mal. A força da grana pode destruir coisas belas, sim. Mas também pode erguê-las. Depende de quem usa.

O capitalismo é responsável por grande destruição na história do planeta, decerto que é. Mas nenhum outro sistema preservou mais o planeta do que o capitalismo. Não são os índios, nem os anarquistas, nem os socialistas, nem os povos negros da África, nem os orientais, nem os hindus, não são esses os responsáveis pelas mais importantes iniciativas de preservação da história. São as democracias capitalistas ocidentais. A vastíssima maioria dos programas de proteção a animais e à natureza e quase todo o desenvolvimento da ciência em favor da conservação de recursos naturais é obra da civilização ocidental.

Logo, o dinheiro pode proporcionar coisas boas ou más.

Em Porto Alegre, tudo o que vem do dinheiro ou que pode gerar dinheiro é visto com desconfiança por lideranças intelectuais da cidade. Existe a ideia pobre de que pobre gosta de lugar pobre.

Pense no rico ostentação. No rico perdulário e exibicionista. O rico nojento de tão rico. Talvez você o considere insuportável e não queira beber um chope cremoso com ele, mas, se você for dono de um boteco, certamente vai querer vê-lo todos os dias lá, sorvendo o champanha da viúva por mil dólares a garrafa. Você vai querer, o garçom que ganha uma nota de cem de gorjeta vai querer, o funcionário que guardou a Ferrari do rico ostentação e levou cinquentinha por isso vai querer. Vai ser bom para todo mundo. O dinheiro do rico ostentação fará a roda do mercado girar mais rápido.

Porto Alegre precisa chamar o dinheiro. Para isso, precisa ter lugares em que o dinheiro mereça ser gasto. Os donos do dinheiro têm que querer gastá-lo em Porto Alegre, não em outro lugar. Porque, seja em Porto Alegre, seja em Nova York, seja em Paris, seja na Roma de qualquer tempo, o dinheiro não tem cheiro.