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sábado, abril 18, 2015


19 de abril de 2015 | N° 18137
MARTHA MEDEIROS

Camarim

O que eu menos queria naquele momento era comer, mas e a desfeita?

E o desperdício?

Como se sabe, escritores são convidados a palestrar em Feiras do Livro, Bienais e demais eventos literários. É uma forma de passar nossa experiência adiante, de estimular a leitura, de conhecer os leitores e de faturar um cachezinho, já que também pagamos contas.

Trilhei o Estado e boa parte do país realizando esses encontros, porém hoje quase não viajo a trabalho: preciso ficar mais tempo em casa escrevendo, as demandas aumentaram. Mas, de vez em quando, abro exceções, como quando estive numa cidade do interior do Rio. Tinha mesmo que ir para a capital, então dei uma esticada. Tudo certo, até que, dias antes de eu embarcar, a organização do evento me enviou um e-mail pedindo que eu fizesse as exigências de camarim.

Como é que é? Por alguns segundos, me senti o Axl Rose. A Lady Gaga. Me vi diante daqueles espelhos circundados por lâmpadas e elaborei mentalmente uma lista básica: champanhe brut, queijos franceses, bombons trufados, patê de foie gras, torradas italianas e Coca-Cola com meu nome no rótulo, ou nada feito. Acordei do transe com minha própria risada.

Respondi: olha, nem imaginava que haveria um camarim, mas, havendo, ficaria feliz com um banheiro e água mineral. Muito grata, até breve.

Eu não sabia, mas o bate-papo seria no sambódromo local. Havia centenas de pessoas me aguardando. Fui conduzida ao camarim por guarda-costas. Tinha alguma coisa errada: será que me confundiam com a Rihanna? Atravessei um longo corredor no backstage e por fim abriram uma porta com uma estrela dourada, como nos filmes.

Ao entrar, me deparei com uma mesa que humilharia nossos cafés coloniais. Nunca vi quantidade igual de frios, pães, salgadinhos, cachorrinhos, sanduíches, cupcakes, minipizzas, canapés, amanteigados. E, no centro, um grande pote de vidro repleto de MM´s coloridos. Lembrei da banda Van Halen, que sempre exige MM´s antes dos shows, só que sem a casquinha que reveste o chocolate. Os meus tinham a casquinha, era a graça da coisa. Guloseimas com monograma.

Tive vontade de chorar. O que eu menos queria naquele momento era comer, mas e a desfeita? E o desperdício? Havia umas quatro pessoas esperando eu avançar, incluindo um fotógrafo. Alcançavam guardanapos e sugeriam: comece por este, não deixe de provar o folhado, esse bolinho foi minha tia que fez, aquele papo-de-anjo é o predileto da prefeita.


Minha conversa com o público durou uma hora e meia, e passei o tempo todo aflita com um miolinho de pão que teimou em se instalar entre o incisivo e o canino superior. Essa coisa de escritor ser tratado como astro pop, convenhamos, é meio constrangedor. Mas, por via das dúvidas, incluirei na minha próxima lista uma dúzia de escovas de dente. Com cerdas de nylon ultra soft e de alguma marca dinamarquesa, pra não me mixar.

19 de abril de 2015 | N° 18137
FABRÍCIO CARPINEJAR

Homem ideal

A mulher tem implicância com o homem engraçado, diz gostar mas não aguenta. Tem repulsa do piadista, aquele que desfia seu repertório de piadas depois de um almoço ou janta, transforma seus dentes num palco iluminado e mergulha num stand up de duas horas.

Mulher prefere quem entende o momento de rir e de ser sério e não demora demais nem num espírito, nem no outro. Espera versatilidade e pontualidade, que veja a hora de ser leve ou solidário, de modo nenhum alguém que invente comédia e force bom humor quando ela está sofrendo.

Deseja mesmo o gracejo, não o sorriso escancarado de chorar. A mulher reserva a gargalhada para seus amigos, já para seu namorado anseia rir com o rosto, rir bonito, não rir de qualquer jeito.

Complicado corresponder às expectativas femininas. É preciso definir um ponto de equilíbrio. Não encarnar um extremo, mas compor sutilezas dentro do comportamento.

Homem tem que ter firmeza, não força. Demonstrar segurança em suas ideias e atitudes, não necessariamente ostentar músculos e barriga tanquinho. Virilidade vem da determinação, surge do caráter. Carregar a alma de uma mulher é mais difícil do que levá-la nos braços pela casa.

Homem tem que ser corajoso, não confundir com precipitação. Coragem é sequência, manter a vontade imperiosa de amar, apesar das dificuldades e senões. Jamais desistir no primeiro obstáculo.

Homem tem que ser romântico, não desesperado. Surpreender e se declarar como se fosse simples e natural, evitando a soberba da emoção e o autoelogio.

Homem tem que ser sincero, não grosseiro. Pontuar a verdade olhando nos olhos e sempre perguntando como sua companhia vê a situação. Decidir junto enquanto é dúvida, não relatar o que já foi feito.

Homem tem que ser sensível, mas não chorão. É se emocionar sem ocupar o papel central, flertar a tristeza com muita alegria, como faz o samba, e não exagerar na tinta de suas lágrimas.

Homem tem que ser compreensivo, mas não submisso. Ouvir, entender e se posicionar, ainda que provoque discordância.


Homem tem que ser sexy, mas não performático. Não invente de fazer um strip-tease e pole dance. Estragará toda a reputação construída ao longo deste texto.

19 de abril de 2015 | N° 18137
ARTIGOS - NELSON MATTOS*

A INTERNET NÃO ESQUECE

“Tecnologia... nos traz grandes presentes com uma mão e nos apunhala pelas costas com a outra.”

Charles Percy Snow

Os internautas brasileiros já gastam aproximadamente cinco horas por dia conectados à internet a maior parte desse tempo postando no Facebook, LinkedIn, Twitter, conversando no WhatsApp etc. Ao longo do caminho digital, deixam uma vasta quantidade de dados a seu respeito sem pensar nas possíveis consequências. É impressionante como a grande maioria das pessoas compartilha fatos superpessoais como se estivesse tendo uma conversa privada com amigos íntimos.

Facebook conseguiu fazer com que as pessoas falassem delas próprias de uma forma nunca vista anteriormente: orientação sexual, relacionamento atual, escolas frequentadas, árvore familiar, lista de amigos, endereços de e-mail, local de nascimento, histórico profissional, coisas prediletas, hobbies, religião, visão política, afiliações, compras, fotos etc. E esses dados não estão sendo postados somente por você. Seus amigos e sua família também estão constantemente vazando dados a seu respeito quando eles marcam você numa foto, registram o seu aniversário, compartilham a sua localização...

E mesmo que você delete suas contas em redes sociais, seus amigos e parentes vão garantir que o mundo continue sabendo a seu respeito, pois o continuarão marcando, mostrando sua localização, contando acontecimentos a seu respeito etc.

Infelizmente, as pessoas ignoram totalmente o fato de que dados raramente “desaparecem” da internet. Comportam-se como se não soubessem que a internet não “esquece” e que os dados acumulados ao longo do tempo podem ser usados contra elas em situações nunca previstas anteriormente. Por exemplo, um terço dos casos de divórcio nos Estados Unidos em 2011 tinha referências ao Facebook nos documentos submetidos à Corte.

Oitenta e um por cento dos advogados americanos de varas familiares admitem fazer buscas nas redes sociais à procura de evidências que possam ser usadas contra o cônjuge do seu cliente. Aquelas fotos inocentes tiradas nas festas com uma bebida na mão ou com os olhos vermelhos podem passar a ser evidências de que você não tem condições de ter a tutela dos filhos. O perfil que você criou num site de relacionamento indicando que era solteiro é um prato quente para os advogados da sua esposa em caso de divórcio.

Os dados pessoais que postamos podem nos afetar não somente num caso de divórcio, como também na procura de emprego. Uma pesquisa recente mostrou que 70% dos profissionais de recursos humanos já rejeitaram candidatos baseados em informações encontradas online. E as coisas vão piorar ainda mais, pois alguns empregadores já exigem o acesso às contas de candidatos para verificar seu passado e bons antecedentes.

Governos também usam as informações que deixamos para trás na internet. Nos Estados Unidos, 86% dos departamentos de polícia rotineiramente executam buscas em redes sociais como parte de suas investigações criminais. A Receita Federal faz o mesmo e também o Serviço de Imigração. Isso pode causar grandes problemas, como no caso dos turistas britânicos Leigh Van Bryan e Emily Bunting. Eles fizeram comentários em redes sociais que foram mal interpretados pelo serviço de imigração americano. Foram suspeitos de serem terroristas e, quando chegaram ao aeroporto de Los Ângeles, foram presos, interrogados e revistados por agentes federais e, depois de uma noite na prisão junto com criminosos comuns, foram deportados de volta ao Reino Unido.

Além de se expor e permitir que informações a seu respeito sejam usadas no futuro de formas que você nunca tinha pensado, você está também permitindo que empresas faturem à sua custa. Existe uma quantidade de empresas que vivem de vender informações sobre pessoas a empresas de varejo, cartões de crédito, bancos, financiadoras, seguradoras, empresas de marketing, e até mesmo agências governamentais. Diariamente você entrega de graça no Facebook, Twitter etc. uma quantidade fantástica de informações a seu respeito, que é catalogada, geocodificada e agregada ao seu perfil mantido por tais empresas.

Uma dessas empresas, Acxiom, possui informações sobre 96% dos lares americanos e 700 milhões de perfis de pessoas do mundo todo. Tais perfis chegam a ter 1,5 mil atributos diferentes, incluindo raça, sexo, número de telefone, endereço, tipo de carro, tipo de residência, locais onde passa as férias, compras recentes, problemas de saúde, parentes, cônjuges, amantes etc. De onde será que veio toda essa informação? Quanto mais você posta, mais essas empresas sabem a seu respeito!

E não pense que somente as postagens explícitas nos criam problemas. A área de análise de dados já é tão sofisticada, que é fácil descobrir novos dados pessoais que você não divulgou na internet. Um estudo feito pelo Massachusetts Institute of Tecnology mostra que uma análise da rede social de qualquer pessoa determina com 78% de precisão se a pessoa é homo ou heterosexual.

Imagine o que isso pode causar nos 76 países do mundo onde o homossexualismo é ilegal, incluindo países onde o homossexualismo é punido com a morte. E a coisa vai muito além de determinar a orientação sexual das pessoas. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos mostrou que a análise da rede social de uma pessoa e dos seus “likes” permite que se determinem detalhes muito pessoais e características da personalidade com uma precisão impressionante, e.g., se a pessoa tem um QI alto ou baixo, se é emocionalmente estável, se vem de uma família com problemas etc.

E não pense que você consegue se esconder atrás de pseudônimos. Já existem empresas de tecnologia que conseguem identificar as pessoas e, com isso, determinar seus nomes basea- dos nos pseudônimos que eles usam em blogs, fóruns de chat, Twitter...

Não tem como se esconder nas redes sociais! As pessoas se expõem demais, sem pensar que toda informação colocada na internet pode ser usada contra elas de maneiras jamais imaginadas. A internet não esquece e, assim, o melhor mesmo é pensar duas vezes antes de postar qualquer coisa.


nelson.m.mattos@gmail.com

19 de abril de 2015 | N° 18137
MOISÉS MENDES

O vídeo-zumbi

Pedro Barusco, o ladrão avulso, cumpre prisão domiciliar num apartamento no Rio ou numa casa em condomínio de luxo em Angra dos Reis. Corruptos confessos como ele, que guardava US$ 97 milhões na Suíça, têm o privilégio de domicílios diversos.

Barusco, na verdade, está solto. Paulo Roberto Costa, o outro ladrão confesso, também. O doleiro Youssef, o grande dedo-duro dos roubos na Petrobras, delatou meio mundo nos anos 90, no caso Banestado (de remessa ilegal de dólares para o Exterior), e também foi premiado na época com a liberdade.

Mas Youssef está preso de novo porque voltou a agir e comandou as operações de leva e traz de dinheiro da Petrobras. Operava para todo mundo. Uma das revelações de Youssef está num vídeo que circula há dois meses na internet, mas é anterior à Lava-Jato.

No vídeo, ele é interrogado por um procurador, no final do ano passado. Diz que ficou sabendo, pelo deputado paranaense José Janene (PP), que o então deputado mineiro Aécio Neves (PSDB) recebia propina de uma empresa que prestava serviços à Furnas, subsidiária do setor elétrico do sistema Eletrobras.

Janene, sócio e compadre de Youssef, seria ligado a Aécio e era o intermediador. O pagamento mensal de US$ 100 mil a US$ 120 mil, entre 1996 e 2001, saía da firma Bauruense.

O dinheiro, disse Janene ao compadre, ia para uma irmã de Aécio Neves. Mas Aécio tem duas irmãs. E Janene, quadrilheiro do mensalão, com atuação multipartidária, morreu em 2010. No vídeo, o procurador interrogador diz que vai mostrar uma foto de Andréa Neves. Youssef afirma que não tem como reconhecê-la, porque nunca a viu.

Um sócio da Bauruense, segundo o doleiro, queixava-se a Janene das mordidas do PSDB, como o próprio Youssef testemunhava. O vídeo que corre pela internet tem quase 14 minutos de duração (procure por youssef furnas no YouTube) e mostra um interrogatório conduzido com frouxidão.

Por decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Aécio ficou de fora da lista de políticos enviada ao Supremo com o pedido de licença para abertura de inquérito. Disse Janot que os episódios do caso Petrobras e do caso de Furnas “são fatos completamente diversos e dissociados entre si”.

O único tucano da lista de Janot, agora sob investigação, é o ex-governador e atual senador mineiro Antonio Anastasia. A suspeita: um policial federal diz ter entregue um pacote com R$ 1 milhão a Anastasia, na campanha ao governo do Estado, em 2010, por ordem de Youssef.

Alguém com conhecimento de meia dúzia de leis livra Anastasia dessa enrascada. O policial não conhecia Anastasia (que teria sido reconhecido depois por uma foto), e Youssef nega que tenha mandado o dinheiro.

O que intriga é o caso Furnas. Essa história tem toda pinta de que vai virar lenda, como o mensalão tucano. Sobrará apenas esse vídeo-zumbi, que eu, você e a torcida do Flamengo recebemos toda semana.

É de se perguntar, então: as pistas do doleiro não serviram para coisa alguma porque os casos são desconexos? O MP e a Justiça não conseguem avançar além do que lhes é oferecido de mão beijada pelos delatores?


E Barusco será mesmo apenas um ladrão avulso que começou a roubar na Petrobras durante o governo do PSDB e acumulou US$ 97 milhões? Ou é o grande laranja (de quem?) ainda encoberto na feira da Petrobras? São muitas perguntas associadas entre si para que fiquem sem resposta – e que talvez por isso mesmo acabem ficando.

19 de abril de 2015 | N° 18137
L.F.VERÍSSIMO

Cafés

Depois de uma visita à Espanha, escrevi sobre uma tradição dos bares de Madri: a tertúlia, a arte da conversa, ou a conversa transformada em ritual. A conversa não precisa ser sobre nada específico, e pode ser sobre tudo, dos touros à vida alheia. A única regra da tertúlia é que local, hora e periodicidade sejam fixos – um determinado café, no fim da tarde, todas as quintas-feiras, por exemplo. A conversa como uma das artes existe na Espanha desde o século 18, e grandes movimentos artísticos, literários e políticos nasceram em tertúlias famosas de bar.

Houve uma época – segundo o autor de um guia que nos acompanhou na visita a Madri – em que a importância da tradição era tão grande, que não se concebia que um escritor, um artista, um filósofo ou um político não tivesse talento para a tertúlia. De um intelectual que se negava a frequentá-las se dizia “lhe falta café”.

Diminuiu a importância das tertúlias, mas elas continuam em cafés, como o Gijón e o Comercial. O mesmo autor citado encerra seu texto assim: “Não se pode imaginar a Espanha, e Madri especialmente, sem tertúlias. Hoje, como ontem, parece pertinente o conselho de um velho ‘concertulio’ que dizia: ‘En la vida, son fundamentales três elecciones: estado, profesion y café’”.

Pensei nisso porque descobri um livrinho – livrinho mesmo, 66 páginas fora introdução e notas – do George Steiner chamado A Ideia da Europa, em que ele começa escrevendo sobre a importância do café na história do continente. Na política e na cultura europeias, certamente nunca faltou café. E Steiner cita desde o café favorito de Fernando Pessoa em Lisboa até os cafés frequentados por Kierkegaard em Copenhagen, passando pelo café favorito de Stendhal em Milão, o de Casanova em Veneza e os de Baudelaire em Paris.

Os cafés não eram apenas lugares para intelectuais se inspirarem ou se consolarem – e tomarem café, claro –, mas também foram notoriamente locais de conspiração, debate político e tertúlias históricas. Quem quisesse encontrar Freud, Musil e Karl Kraus num mesmo local sabia exatamente em que café de Viena procurá-los.

Danton e Robespierre, os dois líderes da Revolução Francesa, encontraram-se pessoalmente pela última vez no Café Procope, que ainda existe em Paris, invadido por turistas. Talvez, naquele último encontro, conjeturassem sobre qual dos dois seria o primeiro a ser engolido pela revolução. Num café de Genebra, Lenine escrevia suas teses, só parando para jogar xadrez com o Trotsky.

Os protótipos de cafés europeus, para Steiner, devem ser os da sua juventude na Alemanha, lugares para ler jornais de graça, escrever poemas ou tratados explosivos, fugir do frio e passar o dia. E o contrário dos cafés idealizados por Steiner é o bar americano, que tem a sua própria mitologia, mas nada a ver com a ideia da Europa mantida viva nos seus cafés.


Ou alguém pode imaginar Sartre escrevendo sobre a fenomenologia no balcão de um bar americano, arriscado a ser corrido do local por estar consumindo pouco?
WALCYR CARRASCO
14/04/2015 08h00

Dilma, você votaria em você?

A presidente faz tudo diferente do que acredita ou acreditou. Quais são suas crenças, seus valores?

A presidente Dilma Rousseff lutou contra o governo militar. Tem orgulho disso, porque é um tema que gosta de frisar. Foi presa e cumpriu uma longa pena. Conheci três mulheres que cumpriram pena com Dilma – no mesmo período, cadeia, e por acusações semelhantes. Há muito não temos contato. Mas duas delas foram amigas próximas, na juventude e na maturidade. Com Márcia, a mais próxima, montei um grupo de teatro popular que se apresentava na periferia de São Paulo.

Nunca participei da esquerda radical, como Dilma. Boa parte de meus amigos, porém, foi presa e torturada. Outros desapareceram nas mãos dos militares. Quando descobriram o cemitério secreto de Perus, onde vários corpos foram encontrados, lembrei-me de um amigo desaparecido há décadas. Estaria lá? Ainda continuamos sem saber o que realmente houve com ele. Até hoje, muitos corpos da Guerrilha do Araguaia permanecem sem identificação. Mães ainda choram os filhos desaparecidos. Ao menos, queriam saber seus destinos.

Não fui um radical de esquerda, só estive próximo. Entre meus amigos está Flávio Tavares, este sim, um dos mentores dos primeiros movimentos guerrilheiros e jornalista preso não só no Brasil, como, mais tarde, no Uruguai, por militares. Moramos juntos no México e nossa amizade será para sempre. Também tive a honra de conhecer de perto, ser vizinho e filar almoços e jantares na casa de Francisco Julião, já falecido, líder do movimento camponês. Acompanhei o modo de ser de minha geração, onde, quem não era de direita, pró-militares, inevitavelmente tornava-se esquerda.

Compareci à missa da morte de Vladimir Herzog, aos primeiros discursos de Lula no ABC, às movimentações populares que levaram ao Diretas Já. No dia da eleição de Collor, o presidente  “colorido”, me vesti de preto. O motorista de um carro me agrediu. Collor ganhou e deu no que deu. Mas foi parte de um processo político, que amadureceu a democracia.

Acompanhei a vida de uma geração que se voltou para a política. Contribuiu para a queda do governo militar e mudou o Brasil. Nunca um país será melhor com uma ditadura do que com a democracia. Pior se os jornais não puderem noticiar escândalos, corrupções. Era muito pior quando a sanha de perseguição dos militares obrigou até mesmo Dias Gomes a escrever uma novela com o pseudônimo de Stella Calderón – caso contrário não iria ao ar.

A presidente fez parte dessa geração de militantes. Deixou a cadeia, entrou para o PDT e mantém o discurso de distribuição de renda. Mas, na campanha eleitoral, prometeu uma coisa e depois fez outra. Aliás, corretamente, porque o ajuste fiscal é necessário. Só que ela sabia disso, não? Conheci gente que me garantiu:

– Se o Aécio ganhar, acaba o Bolsa Família.

Invenção de campanha, que ninguém sabe de onde saiu. Mas sabemos. Também se disse que a eleição era uma batalha entre elites e pobres deste país. Mentira. Explodem escândalos. Um, que não deve ser minimizado, é o dos médicos cubanos. Seu salário é pago diretamente ao governo cubano, que repassa muito menos. Dilma disse que se tratava de uma “bolsa”, quando chegaram.

Mas se fosse uma “bolsa” seriam estudantes. Os brasileiros são o que, suas cobaias? São médicos, sim. Agora o governo cubano ordena a repatriação de seus familiares, para não se fixarem no país. Como alguém vive no Brasil às margens das leis trabalhistas e submete-se, a si mesmo e à família, diretamente ao governo cubano?

A trajetória de alguém como Dilma teria sido mais lógica se ela se tornasse oposição. Cobrasse promessas de campanha. Talvez entrasse até para o PSOL, mais radical. Na primeira campanha, ela falou até em descriminalização do aborto. Mais tarde, calou-se a respeito. É um tema controverso, concordo. Mas Dilma, pessoalmente, pensa o quê? No primeiro mandato, proibiu a distribuição de um kit gay nas escolas, para não desagradar aos evangélicos.

Respeito os evangélicos, todo mundo tem direito a ter sua crença e seus valores. Mas quais são os da presidente? Faz tudo tão diferente do que acredita ou acreditou. Hoje, com mais de 60% de imagem negativa, ela se mantém isolada, fazendo acordos, distribuindo cargos, silenciando sobre a corrupção, com um PT acusando a elite, que só protegeria seus próprios interesses. Diga lá: 60% no país é elite?

Eu penso: Dilma, esse é o futuro lógico de alguém com seu passado? Falando francamente: Dilma, você votaria em você?


RUTH DE AQUINO
17/04/2015 20h36

O enigma do tesoureiro

Tesoureiros têm a chave do cofre e apenas obedecem. Vaccari não é diferente de Delúbio Soares ou PC Farias

Decifra-me ou te devoro. João Vaccari Neto não é boquirroto, não ergue punho cerrado, fala baixo e sempre arrecadou quieto para o PT. Bancário e sindicalista, Vaccari é considerado um soldado do Partido dos Trabalhadores. Aos 56 anos, com olhar triste ou resignado e aquela barba branca de ursinho fofinho, o agora ex-tesoureiro do PT, afastado após meses de corda bamba, parece ter a consciência tranquila de quem apenas cumpriu ordens. E com eficiência.

Essa é a sina dos tesoureiros. Eles têm as chaves do caixa e do cofre e apenas obedecem. Vaccari não é diferente de Delúbio Soares, o operador do mensalão. Não é diferente de PC Farias, o tesoureiro de campanha de Fernando Collor nas eleições de 1989. PC Farias foi acusado de ser testa de ferro de Collor em vários esquemas de corrupção.

A diferença, a favor (?) de Vaccari, é o valor. PC Farias teria arrecadado de empresários privados o equivalente a US$ 8 milhões em dois anos e meio do governo Collor (1990-1992). O “esquema PC” movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos. Tudo fichinha diante dos atuais desvios denunciados pela Lava Jato – apenas a Petrobras admite um prejuízo de R$ 6 bilhões.

Vaccari não poderia ser abandonado por Lula e Dilma até cair. Por mais que setores do PT alertassem para afastar o tesoureiro antes da tragédia anunciada, como abandoná-lo sem que ele se sentisse traído? Alguns dirigentes do partido têm medo que Vaccari possa, encarcerado, virar um “homem-granada”, depois de ter adquirido, com razão, a fama de “arrecadador eficiente”. O caixa do PT era um antes dele. E outro depois. Em 2007, o PT arrecadou R$ 8,9 milhões; em 2009, R$ 11,2 milhões. Em 2010, Vaccari passou a comandar a tesouraria. Sucesso absoluto. Em 2011, o PT arrecadou R$ 50,7 milhões; em 2013, R$ 79,8 milhões.

Presidente do Sindicato dos Bancários desde 1994, Vaccari entrou no Banespa aos 19 anos como escriturário. Sindicalista de alma e ação, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). De lealdade canina ao PT, Vaccari age como os que servem ao chefe e à chefa sem perguntar o que é moral, amoral ou imoral. O tesoureiro não move um músculo do rosto quando acuado, só as rugas de expressão na testa denunciam o desamparo. Disse candidamente à CPI da Petrobras que não sabe por que motivo foi ao encontro do doleiro Alberto Youssef.

Em fevereiro, recusou-se a abrir o portão de sua casa para a Polícia Federal. Os policiais pularam o muro para cumprir mandado de busca e apreensão. Vaccari já flertava com o malfeito havia tempos. É um dos réus no Caso Bancoop. Acusado de crime de formação de quadrilha, estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, por desvios milionários e prejuízo a cooperados que não receberam suas casas.

Vaccari foi finalmente preso no dia 15 de abril. Essa prisão, que envolve acusações à família do tesoureiro – mulher, filha e cunhada –, é mais que simbólica. A história contemporânea dos tesoureiros é prova disso. Eles podem levar a culpa por tudo. Podem fugir para a Europa, para a Tailândia. E até ser assassinados, como PC. O ex-patrão de PC, Collor, tornou-se amigo dos reis. Dá para entender a amizade. É a “nomenklatura”. Eles se reconhecem, se afagam, se solidarizam.

Não sei se Dilma Rousseff hoje se vangloria de ter vencido as eleições. O preço é alto demais. A cada manhã, ela depara com uma nova denúncia. A cada fim de tarde, sofre uma nova derrota. A cada divulgação de números – do PIB à Educação, passando por todos os setores essenciais –, Dilma se confronta com o fracasso de seu primeiro mandato e com o desperdício de anos de irresponsabilidade fiscal e gastos desmesurados da máquina, comprometendo os bancos públicos.

Dilma poderia hoje estar apenas pedalando sua bicicleta caso tivesse perdido as eleições. O Brasil deve esquecer essa história de impeachment. A presidente tem de expiar publicamente seus pecados, submeter a economia e a política a ajustes de valores numéricos e morais e recolocar o país num rumo que reverta a herança maldita.

Agora, o tesoureiro está preso. Em entrevista à CNN espanhola, Dilma foi categórica. “Estou segura de que minha campanha não tem dinheiro de suborno.” Dilma tem “certeza” disso porque suas contas da campanha foram todas “auditadas” e “aprovadas”. “Gostaria de dizer o seguinte: se alguma pessoa ganha dinheiro de suborno, essa pessoa será responsável. É assim que deve ser.” Quem será essa pessoa que transformou propina em doação legal? Quem será?

O procurador Deltan Dallagnol disse que “Vaccari tinha consciência de que os pagamentos eram feitos a título de propina”. A denúncia foi aceita pela Justiça Federal do Paraná. Vaccari pertence à mesma corrente do PT de Lula, José Dirceu e Antonio Palocci, chamada “Construindo um Novo Brasil”. Ele é hoje a esfinge a ser decifrada.



18 de abril de 2015 | N° 18136
ARTIGOS - JOABEL PEREIRA*

NOSSAS POBRES ESCOLAS

Afalta de professores nas escolas públicas estaduais já não é notícia. Assim como as justificativas – muitas plausíveis, é certo – de aposentadoria, licença-saúde ou afastamento definitivo. Talvez isso explique por que nossas escolas não sejam respeitadas por alunos, comunidade e até professores.

Sem pretender apontar soluções definitivas, parece justo dizer que há duas questões a considerar: a falta de planejamento e o desinteresse pela educação. E imediatamente as críticas e responsabilidades são atribuídas ao governo, que não providencia as condições para pleno e regular funcionamento das escolas.

E onde está e o que faz a chamada “comunidade escolar”, constituída por professores, alunos e familiares destes? Vejamos um exemplo, o prédio do Instituto de Educação Flores da Cunha, que agora será recuperado. Quase uma centena de vidros quebrados, assim como janelas danificadas, paredes pichadas e lixo acumulado em quase toda a área externa.

É possível qualidade de ensino onde a disciplina foi afastada das regras de convivência? Por que os vidros das janelas vão sendo quebrados um a um, sem nada acontecer?

Assim como as classes, os banheiros e bebedouros são danificados e ficam à espera do conserto por parte do governo?

A conservação das escolas não precisa nem deve ser responsabilidade única do Estado. A comunidade escolar tem que assumir a sua parte, partindo do simplório princípio de que, quebrou, pagou. É assim na vida real, cabendo ao causador do prejuízo a sua reparação. Mas para isso é preciso administração atenta e comunidade participativa.

A escola não pode se limitar a transmitir conhecimento, tem que ajudar na educação, principalmente numa sociedade em que pais e responsáveis cuidam do sustento, transferindo boa parte da responsabilidade pela criação dos filhos às escolas. Só a responsabilidade, não a autoridade. Enquanto a comunidade espera pelo governo e o governo não tem como fazer, a solução pode ser a solidariedade.

Professores, alunos e familiares, todos ajudando a manter condições satisfatórias para que o aluno aprenda a gostar, ainda mais, de estudar. Mas, para isso, precisamos de mestres e não só de professores. E de pais comprometidos. Fora disso, continuaremos reclamando dos governos e convivendo com nossas pobres escolas.


*Jornalista

18 de abril de 2015 | N° 18136
NÍLSON SOUZA

MARGENS PLÁCIDAS

O rio atrai. Deve haver uma explicação atávica para isso. Viemos da água, dizem os cientistas. Talvez do barro, se quisermos ficar com a versão teológica. Mas, em ambos os casos, a água estava presente na nossa origem. Somos água, quase 80% da nossa composição corporal quando bebês e pouco mais de 50% no outono de nossas existências. Crescemos e desidratamos. Talvez isso explique nossa atração pelos mares, pelos lagos, pelos rios e até mesmo pelo esguicho da mangueira do jardim.

Quando digo que o rio atrai, estou me referindo exatamente ao Guaíba, o lago/estuário que jamais deixará de ser rio para os porto-alegrenses. Assim como atraiu os casais açorianos que deram início à cidade, porque certamente precisavam da água para beber e para tocar a parte líquida da vida, continua atraindo caminhantes e ciclistas para as suas margens, além de velejadores, jetesquistas e agora esses equilibristas de pranchas, que deslizam serenamente pelas partes rasas, impulsionados por um remo.

Num dia desta semana, quando dava minha caminhada matinal pela orla de Ipanema, todos esses personagens estavam por lá, mas encontrei também outras tribos pouco habituais naquela paisagem. Vi, por exemplo, num recanto sombreado, cinco freiras num curioso retiro improvisado às margens plácidas do rio. Eram todas jovens, vestiam hábitos negros e conversavam em voz baixa, como se estivessem rezando para alguma divindade das águas.

Mais adiante, deparei com um grupo de pessoas idosas, conduzido por três jovens vestidos de branco. Era evidente que se tratava de pacientes de uma dessas instituições que abrigam homens e mulheres carentes de memória e de atendimento especial. Caminhavam lentamente, olhando para o chão. Quando se aproximaram da água, porém, seus olhos voltaram a brilhar, alguns começaram a falar sozinhos, outros sorriram e um relâmpago de vida surgiu naqueles rostos sofridos. Todas as águas são milagrosas.

Também observei tipos solitários – o homem magro que fumava compulsivamente, outro que lia um livro grosso de capa preta, vários que se exercitavam, um pescador com água pela cintura pronto para lançar sua tarrafa, a adolescente que dedilhava furiosamente o seu celular, a mulher que lançava um galho para o cãozinho buscar – visitantes e habitantes daquele paraíso líquido, todos enfeitiçados pelo brilho mágico das águas tranquilas.


O rio atrai, encanta e desperta a imaginação.

18 de abril de 2015 | N° 18136
DAVID COIMBRA

Café da manhã

Tem uma coisa que eles falam aqui. Uma expressão. “Bring home the bacon.” A tradução literal seria “trazer o bacon para casa”. Quando um americano diz isso a respeito de si mesmo, está dizendo que ele é o arrimo da família. É ele quem sustenta o lar.

Para você ver como o bacon é um alimento importante para os americanos. Eles adoram bacon frito, servido em fatias bem finas, da espessura de uma capa de caderno de espiral. Estava dizendo isso na aula, outro dia, e os demais estrangeiros concordaram comigo, e todos nos espantamos de os americanos comerem bacon no café da manhã, e alguém, acho que a italiana, me perguntou como é o café da manhã no Brasil.

Sorri. O café da manhã no Brasil. Não pensem naquele café da manhã de hotel, disse-lhes. Não, não pensem em mamão, suco de laranja, cereais e bolos, não pensem em ovos duros, cozidos por dois minutos e meio, ou mexidos, temperados com salsinha. Não pensem nem na popular dupla queijo & presunto. Nada disso.

O café da manhã clássico do Brasil é simples, mas precioso. Consiste em uma xícara cheia com três quartos de leite e um quarto de café, acompanhada por uma fatia de pão com dois dedos de altura e um palmo de comprimento, com a superfície coberta por uma camada delicada de manteiga sem sal. A manteiga tem de estar em processo de derretimento devido ao calor do pão recém-saído do forno, e o café há de ser adoçado por duas colheradas de açúcar tirado de um açucareiro de louça branca.

Você pode tomar esse café lendo o jornal do dia, mas o ideal é deixar o jornal de lado, dobrado em forma de canudo, num canto da mesa, para que você possa conversar com as pessoas que ama, que estão com as caras ainda perplexas pelo sono há pouco quebrado. A conversa será amena, porque a manhã ainda tem o frescor da juventude e o ar é fino e talvez algum passarinho cante pela vizinhança.

Se o rádio estiver ligado, que não noticie nada de grave. O importante, nessa hora, é saber se você deve levar o guarda-chuva ao sair de casa, não muito mais do que isso.

Esse café da manhã pode ser tomado na cozinha quente de um apartamento no Centro, na sala de jantar de uma casa de subúrbio ou, quem sabe, num bangalô de praia, com o mar bem diante de seus olhos, e o seu ouvido relaxando ao rumorejar das ondas e às risadas leves dos bons amigos em torno à mesa. Você morderá o pão e beberá um gole do café e suspirará, sorrindo, porque tudo está bem.


Este é o café da manhã clássico do Brasil, contei para meus colegas estrangeiros, e eles sorriram para mim.

18 de abril de 2015 | N° 18136
CLÁUDIA LAITANO

Por que parou?

Gisele se aposentou “Oprah style”. Chegou um pouco atrasada, porém, para batizar o estilo – lançado quatro anos antes pela apresentadora Oprah Winfrey.

Para aposentar-se “Oprah style”, é preciso ser o número 1 inquestionável naquilo que você faz. Não espere tornar-se o segundo do ranking ou sequer ter um vice mordendo seus calcanhares. Deixe uma lacuna impreenchível como recuerdo para os fãs. Lembre-se também de anunciar fartamente sua despedida, para que todas as lentes estejam prontas para capturar seu melhor ângulo e, claro, a gota de lágrima que vai escorrer no cantinho do olho.

Jamais, porém, aja com inconsequência: ao se aposentar, tenha na gaveta projetos de trabalho tão ou mais ambiciosos do que aqueles que você desempenhou até então – e uma conta bancária que garanta o sustento e a tranquilidade de duas gerações depois da sua.

A grande vantagem de aposentar-se “Oprah style”, contudo, não é sair de cena (ou apenas trocar de palco) no auge da fama e da fortuna, mas poder determinar o momento do adeus. Aposentar-se por opção, e não compulsoriamente, como se envelhece, é um luxo.

Oprah e Gisele escolheram datas redondas – a primeira, os 25 anos do programa, a segunda, os 20 anos de carreira – para encerrar uma fase e iniciar outra quando nem sequer se cogitava que houvesse alguém fazendo o que elas faziam melhor do que elas.

Timing é tudo na aposentadoria “Oprah style”, e mesmo sem precisar descer do Olimpo das megacelebridades milionárias, é possível encontrar, vagando no limbo do olvido, criaturas melancólicas que não souberam parar ou se reinventar na hora certa.

Aqui embaixo, no reino dos aflitos, as preocupações com a vida pós-trabalho ou com a reinvenção da carreira depois de uma certa idade costumam ser soterradas por angústias bem mais comezinhas. Manter o padrão de vida, para alguns. Sobreviver, para outros. A maioria de nós, brasileiros, parece ser surpreendida, financeira e psicologicamente, pelo momento em que deve parar de trabalhar ou mudar de atividade.


A aposentadoria “Oprah style”, infelizmente, é para poucos, mas serve para lembrar que nem mesmo as estrelas contam com o brilho eterno.

sexta-feira, abril 17, 2015


VINICIUS TORRES FREIRE

Pedalando no impeachment

Oposição fica ouriçada com a ideia de derrubar presidente por descumprir lei de gastos públicos

A OPOSIÇÃO acredita que encontrou o caminho das pedras para colocar uma pedra final no caminho do governo de Dilma Rousseff. Deseja acusar a presidente de descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ontem, a oposição no Senado dizia coisas como "encontrou-se o elemento jurídico que faltava" para um processo de impeachment; "o governo cometeu vários crimes, mas vai cair como Al Capone caiu, por causa de crime contra o fisco".

A administração dos dinheiros públicos foi de fato um escândalo sob Dilma 1. Daí a provar crimes, atribuí-los também a Dilma Rousseff e obter apoio político para a tese é um caminho longo.

O Tribunal de Contas da União está à beira de concluir que autoridades do governo Dilma 1 descumpriram a lei que regula o gasto público, mas ainda não o fez, pois vai ouvir os acusados. O que houve?

Grosso modo, duas categorias de problemas.

Primeiro, o governo atrasou pagamentos de benefícios sociais a fim de maquiar a desordem em suas contas, o que vem sendo chamado de "pedalada": atrasando os pagamentos, o deficit "não aparecia". A Caixa Econômica Federal (CEF), agente pagador do governo no caso, pagava as contas, ficando a descoberto. Na prática, era como se emprestasse dinheiro ao governo, o que seria proibido.

Segundo, o governo deve bilhões a bancos estatais. A dívida vem do fato de que a banca pública empresta a juros subsidiados, barateados, com o compromisso de o governo bancar a diferença. São os casos de empréstimos do BNDES a empresas industriais, do Banco do Brasil a empresas rurais, dos subsídios ao Minha Casa, Minha Vida, por exemplo. Trata-se de gasto escondido, que se tornou dívida não declarada ou registrada, também chamado de "pedalada", mas mais parecido com os esqueletos revelados nos anos 1990.

O caso da CEF se tornou escândalo em meados de 2014. O banco registrou que tinha bilhões de atrasados a receber do governo. A CEF e também o Banco Central levantaram dúvidas jurídicas a respeito da legalidade da operação, que parecia antecipação de receita via empréstimo de banco estatal. Houve arranca-rabo no governo e, para meio que abafar o caso, Dilma "mandou parar com as pedaladas".

Assim, os deficit até então maquiados, mas já muito feios, explodiram. A imagem e o crédito do governo entraram em colapso terminal.

Isto posto, o rolo da relação da CEF com o governo, regulado por contratos não muito claros, é juridicamente complicado. Muita vez o governo antecipa pagamentos à CEF, que em tese ganha com isso. Noutras, atrasa, como o fez descaradamente em 2014, com o que a CEF faz na prática um empréstimo, de resto sem receber juros. Qual o saldo para a CEF? Curiosamente, os contratos preveem atrasos dos repasses do governo à CEF. Atrasos de que duração configurariam empréstimo do banco ao governo?

No caso da compensação pelos juros subsidiados concedidos pela banca pública, também teria havido empréstimo: se o governo não pagou o devido no prazo, teve crédito. O problema aqui é que falta clareza a respeito de se haveria artifício ou brecha legal que ao menos maquiasse o esqueleto. De certo, sabe-se que a dívida não foi registrada nas contas do governo.

vinit@uol.com.br
REINALDO AZEVEDO

Governo fora das leis

Pode um presidente cometer um crime para se reeleger e não ter de responder por isso no novo mandato?
A gente percebe a escalada da crise quando se estreita a distância entre um pico de tensão e outro. Sem que houvesse razão para tanto, é bom que se diga, o governo ameaçou comemorar, ainda que discretamente, a suposta baixa adesão aos protestos de domingo... O PT, por exemplo, em seu site, menosprezou os "apenas" (?) 250 mil nas ruas. Ainda que o número estivesse certo (não está), não custa lembrar que, cinco dias antes, os companheiros mal conseguiram lotar uma Kombi no protesto contra a terceirização e em defesa do governo Dilma. O suspiro de falso alívio mal durou 24 horas.

Na terça, dia 14, Leandro Colon, desta Folha, detonava a bomba: a Controladoria Geral da União (CGU) amoitou informação e provas de que a SBM havia pagado propina a funcionários da Petrobras. O início da investigação propriamente, que poderia ter-se dado no dia 29 de agosto do ano passado, foi postergado para 17 de novembro, já selado o destino das urnas. A CGU, como reza a sua página na internet, é um braço da Presidência, cuja titular é Dilma. Toda a hierarquia incidiu na Lei de Improbidade Administrativa, que pode resultar em cassação de mandato.

Raiou o dia 15, e lá estava na cadeia João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT. Há pouco mais de dois meses, ele e Dilma compareceram a um mesmo evento, aplaudindo os 35 anos de fundação do partido, que veio à luz em 1980 prometendo "mais ética na política". Vaccari teve participação ativa nas duas campanhas eleitorais da presidente. Há ali uma mistura de fios desencapados com nitroglicerina. Qualquer movimento brusco, buuummm!!!

A notícia da prisão de Vaccari chegou pouco depois de o Planalto ter tomado ciência de que o ministro José Múcio, do Tribunal de Contas da União, decidira acatar parecer dos técnicos e recomendar que se investiguem as chamadas "pedaladas fiscais", com o que concordaram os seus pares na própria quarta. Para maquiar as contas, o primeiro governo Dilma retardou desembolsos devidos à CEF, ao Banco do Brasil e o BNDES. Esses entes tiveram de arcar com o custo de políticas públicas federais apelando aos próprios recursos, o que caracteriza uma forma de empréstimo ao Tesouro, pratica vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

É crime de responsabilidade. Rodrigo Janot, com a anuência de Teori Zavascki, faz uma leitura rasa da Constituição e assegura que Dilma não pode ser processada por atos anteriores ao mandato em curso. É? Tal dispositivo da Carta antecede o estatuto da reeleição. Duas perguntas para a dupla: a) então um presidente pode cometer um crime para se reeleger --dar pedaladas fiscais, por exemplo-- e não terá de responder por isso no curso do novo mandato?; b) a eleição acontece em outubro; a posse, só em janeiro. Um reeleito, portanto, tem uma janela de dois meses para delinquir contra a responsabilidade, doutores? Que diabo de leitura é essa?

Que Janot mantenha a sua interpretação obtusa --ao menos até que um dos legitimados para tanto recorra contra ela com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Independentemente da Lei de Responsabilidade, a pedalada fiscal também atropelou a Lei da Improbidade Administrativa.

Dilma deve lamentar como nunca o malogro daquela sua lojinha de bugigangas. Poderia ser hoje uma próspera empresária. O negócio não deu certo. Virou presidente do Brasil.

    Jaime Cimenti

    Frank Sinatra, Billie, Lupi, Tom, música

    Documentário da HBO com quatro horas de duração é parte das comemorações dos 100 anos de nascimento de Frank Sinatra e mostra "the voice" contando sua história com suas próprias palavras. No quarto de Frank está uma plaquinha: morre mais feliz quem morre com mais brinquedos. Billie Holiday, one and only, e nosso Lupi, ímpar, também completaram seus primeiros cem. Imaginem os próximos cem. Sarau do São Pedro lá em riba bombando, com o trompete angelical de Louis Armstrong, o pai de todos, as vozes de Nat King Cole e Bing Crosby, os best saxofones do Charlie Parker e do Pixinguinha, pianos do Cole Porter e do Tom Jobim, que, aliás, faz 100 anos daqui a pouco.

    Muita gente lá, muita gente chegando, a porta não fecha, tipo o Bar Bom Fim, esquina da Felipe com a Osvaldo. Elvis, Beatles, Fats Domino, turma do rock, muita gente. Elis Regina ainda é guria nessa turma, mas sempre estrela, ruma para os cem brilhando.

    Eu ia falar de política, de economia, dos trombones sociais protestantes nas bocas de muita gente aí pelo Brasil, ia falar dos rolos econômicos e políticos do País e do Estado, mas resolvi falar de coisa mais séria, divertida e importante: música. Música e amor, nada mais próximo de Deus, um alívio para essa hora mundial e um alívio desde sempre. Bem que o Brasil poderia ser uma grande orquestra sinfônica, afinada, com maestro sereno regendo composições variadas, com músicos diversos, instrumentos múltiplos e, ao final, tocaríamos melodias para todos. Pois é... quem sabe qualquer dia, qualquer hora, a gente se encontra.

    Frank Sinatra, voz do século XX, o maior. Mas ele disse, com sabedoria e humildade, em 1965, que o Tony Bennett era o melhor cantor no showbusiness. Era verdade. Continua sendo. Dizem que a mãe do Frank dizia: canta direito, guri, canta que nem o Tony. Se não for verdade, poderia ser. Tony Bennett, aos quase 89 anos, deu um upgrade para a Lady Gaga e eles pegaram um Grammy. Ela ainda mostrou que é uma cantora gigante, na entrega do Oscar 2015. Beleza.

    O Frank old blue eyes se aposentou em 1971 no comovente show aquele de Los Angeles. A jubilação durou pouco, uns dois anos. Aí veio o maior hit, New York, New York, lançado em 1980, e o resto nunca mais foi silêncio. Ele bateu um bolão até no Maracanã. Tony Bennett também estava esquecido, down, forgotten in Manhattan e renasceu lindamente lá pelos anos 1980 e hoje tem agenda simpática pelo planeta. Cantou aqui em Porto Alegre de pé, a cappella, sem ler nada. Daqui a pouco, ele e Cauby Peixoto fazem cem anos, no maior astral.

    Frank Sinatra se encantou com a bossa nova. Ele e a torcida de todos os times do mundo. Levou Tom Jobim para os Estados Unidos e aí ficou confirmado que a melhor coisa que o Brasil produziu até hoje foi a bossa nova, e o Estados Unidos, o jazz. Com influências recíprocas que renderam, rendem e renderão muita música ótima.

    a propósito...

    Se você acha que este texto é desafinado, meio sem pé nem cabeça, com harmonia estranha, e que eu não tenho ouvido ou talento privilegiado como o seu, tudo bem. Desculpe, mas não vou sentir uma imensa dor. Vamos ser democráticos, cada um com sua música. Te compreendo, até. Mas saiba que no peito dos desafinados também bate um coração. No peito de todos bate um coração. Saiba que Frank Sinatra adotou Tom Jobim antes mesmo de o Brasil reconhecê-lo. Saudades de Tom Jobim, saudades de umas pessoas, de umas delicadezas, de umas coisas e de uns antigos retratos do Brasil. Saudades do futuro.


    Jaime cimenti

    Solidão e preconceito por Alcy Cheuiche

    Alcy Cheuiche é um dos autores brasileiros mais importantes em atividade, tendo publicado em torno de 20 obras. Ana Sem Terra, seu romance mais conhecido, encontra-se em nona edição pela L&PM Pocket. O mestiço de São Borja; Sepé Tiaraju; e Nos céus de Paris - Romance da vida de Santos Dumont são outros títulos do escritor que a crítica e o público fortemente acolheram.

    Cheuiche já recebeu inúmeros prêmios e homenagens, entre os quais o Prêmio Açorianos, a Medalha Simões Lopes Neto, o Troféu Guri e foi patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2006. Cheuiche tem obras publicadas em vários países e proferiu conferências no Brasil e no exterior. É tradutor e orientador de oficinas de criação literária, sendo que, a partir delas, já foram publicados 35 livros.

    O farol da solidão (AGE, 145 páginas, R$ 35,00) é seu mais novo romance, lançado há poucos dias, e segue na principal tendência do escritor, que é o romance histórico. Cheuiche já retratou Santos Dumont, João Cândido, Sepé Tiaraju, Bento Gonçalves, Garibaldi e Anita, Getúlio Vargas, Otávio Correa e muitos outros. Neste romance, o personagem principal é o falecido deputado estadual Carlos Santos, deputado negro que deixou marcas profundas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Para tanto, o autor recriou o quilombo causador do naufrágio do navio inglês Príncipe de Gales, origem da Questão Christie, que levou Dom Pedro II a romper relações com a Inglaterra.

    O autor une passado com presente através de uma parábola. A história de um homem que decide se isolar para sempre do convívio humano num velho farol perdido nas areias do Atlântico Sul. A vida, através da revoada milenar das aves migratórias, vai buscá-lo de volta. O autor mergulha bem fundo nas questões da solidão e do preconceito, expondo totalmente seus personagens aos olhos dos leitores, trabalhando meticulosamente os detalhes de cada cena abordada, a moldura histórica dos quadros que pinta e os passos das ações.

    O leitor sente-se lendo um thriller de Georges Simenon. Maduro como escritor, Cheuiche, especialista em romances históricos?, refina cada vez mais seus instrumentos de ofício e, assim, saem ganhando os seus leitores.


    Em mensagem ao autor, o professor-doutor Flávio Loureiro Chaves considera O farol da solidão um dos melhores textos do romancista, por resumir, numa narrativa de uma centena e meia de páginas, dois séculos de história, recriando com incrível realismo o quilombo causador do naufrágio do navio Príncipe de Gales e por retratar com talento o isolamento do protagonista e seu retorno à vida.

    17 de abril de 2015 | N° 18135
    DAVID COIMBRA

    Um quilo de nostalgia

    Não é que não exista costelinha defumada nos Estados Unidos. Existe. Mas não como a nossa. Por isso, quando quero preparar um feijão, caminho léguas em busca da costelinha defumada perfeita, e só a encontro num mercado brasileiro situado numa cidade contígua.

    Trata-se de outra cidade, sim, mas essas cidades periféricas das grandes cidades americanas são como os bairros das cidades brasileiras. Ou como distritos. São unidas à cidade-mãe num só corpo. Só que são, realmente, diferentes, porque têm cargas tributárias diferentes e, assim, serviços públicos de qualidades diferentes.

    Nos Estados Unidos, a Educação e a Segurança são municipais. Mas, ao contrário do Brasil, a maior parte dos recursos arrecadados pelos municípios fica nos municípios. Desta maneira, a fiscalização se torna mais fácil e os serviços prestados pelo Estado se tornam mais baratos. Além do mais, você pode escolher o tamanho do seu imposto.

    Por exemplo: se você quiser colocar seu filho em escolas melhores, irá para uma localidade em que as taxas sejam maiores. Essas taxas estarão embutidas no seu aluguel ou no preço da casa que você comprar. Mas, se você é solteiro e está pouco ligando para a excelência das escolas públicas, irá para um lugar em que o aluguel e o valor dos imóveis sejam mais baixos.

    A cidade em que está o mercado brasileiro é dessas com imposto menor. Chama-se Allston. Ali moram russos, chineses, brasileiros e colombianos, quase todos solteiros. Você está numa área de Boston, atravessa uma avenida e, do outro lado, é Allston. De uma calçada para outra, é como se mudasse de país. Você ouve o som do português e do espanhol, o trânsito é mais confuso, as ruas são mais sujas, há mais casas noturnas e bares com música ao vivo.

    Ontem mesmo, caminhei meia hora para ir até lá. Gosto de andar a pé pela cidade, de ver a vida deslizando nas calçadas. Fui ao mercado, abasteci-me de produtos essenciais para um gaúcho desgarrado, como a tal costelinha, erva-mate e algo que acho que só tem no Brasil e que prova a nossa superioridade em questões de higiene culinária: Bombril.

    Pois bem. Vinha saindo com duas sacolinhas nas mãos, quando vi a cena: um homem gemia, sentado nos degraus da porta de um edifício, agarrado fortemente a algo, um saco plástico de algum produto, tipo um quilo de arroz. Ele apertava o pacote contra o peito, balançava-o como se fosse um nenê e suspirava como se estivesse prestes a chorar. Parei. Fiquei olhando. Será que devia falar com ele? Ele não parecia bem. Tinha jeito de brasileiro. Um conterrâneo precisando de ajuda... Talvez fosse minha obrigação socorrê-lo. Além disso, confesso, estava curioso para saber o que tinha nos braços. Então, dei um passo em sua direção. Dois. Ele continuava com a cabeça abaixada. Cheguei mais perto. Aí ele me viu.

    – Tudo bem? – perguntei, em português.


    Ele não falou, apenas esticou a mão e fez um gesto de negativa. Não queria minha presença. Dei de ombros. Fui embora. Mas, antes de me afastar, consegui ver o que embalava. Era um saco de canjiquinha. Um amarelo, singelo, tradicional, brasileiríssimo saco de canjiquinha. Entendi tudo. Era um pacote de lembranças. Um quilo de nostalgia. Aquele homem gania de saudade do Brasil.