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sábado, abril 29, 2017



29 de abril de 2017 | N° 18832 
LYA LUFT

Intimidades

Quando menina, acreditei no Papai Noel até uns seis anos, no Coelho da Páscoa, mais ou menos isso, e na cegonha, até uns oito. Eram outro século, outras gentes, outras ideias e outras vidas. Além disso, sempre fui considerada meio pateta e desligada para esses assuntos. Até que um dia, num grupinho de amigas de oito e nove anos, do qual eu era a maior e mais novinha – e não me deixavam entrar em certos segredos –, alguém perguntou se era possível que eu ainda acreditasse na cegonha.

Não sei o que respondi, mas fiquei muitíssimo humilhada, ainda sinto vermelhos rosto e orelhas, e claro que as outras começaram a rir. A mais velha, gravemente, disse: “Então eu vou te ensinar”. A plateia fez um círculo, atentíssima. Gelei, entre curiosa e amedrontada. Ali vinha algo muito inquietante, e eu por qualquer bobagem me inquietava.

A história, grotesca, para mim então assustadora, era mais ou menos isto: “Os nenês são miudinhos assim, do tamanho de um grão de feijão, e estão na barriga do pai. Um dia, o pai os passa pra barriga da mãe por uma borrachinha, e depois de uns meses a gente nasce”. Fui poupada do detalhe da dor ou de abrirem a barriga com uma faca, mas mesmo assim passei dias imaginando, entre comovida a aterrada, os bebezinhos minúsculos passando pela tal borrachinha, e em que circunstâncias isso se daria.

Não acho que as coisas hoje sejam piores do que nossa ignorância de então. Mas comentários sobre sexo “fluido”, isto é, sem gênero específico, entre pré-adolescentes, além de beijo rolando à solta, e o comentário de um menino, “Ué, a senhora nunca ouviu falar em sexo casual?”, numa festinha outro dia, me fizeram pensar. Não fiquei muito espantada, mas mesmo assim depois ri de mim mesma: também, o que poderia esperar de quem acreditou na cegonha até os oito?

Acho bom sermos naturais e sinceros. Detesto hipocrisia e falso moralismo. É bom sermos instruídos e não abobados. Mas me preocupa um pouco esse sexo fluido ou casual entre jovenzinhos. Sei que não são todos, talvez nem a maioria, quem sabe ainda se preserva alguma coisa de mágico, romântico, como sexo com alguém muito especial – coisa que nem acho ridícula, nem ultrapassada, mas humana, madura, e bela. 

Lógico que sou antiquada. Minha adolescência foi há décadas atrás. Mas não fiquei com a alma enrijecida. Amo e prego a liberdade, que seja com cuidado. Com gentileza, com alguma sabedoria, pois, mesmo – ou especialmente – quando adolescentes, não somos obtusos.

As delícias e sustos do namoro, do amor, da paixão, do sexo com paixão, ternura e alegria, a graça de ver alguma graça em tudo o que implica relações humanas amorosas, mesmo em idade precoce comparando a anos atrás, tudo isso não deveria se perder. Há muita bazófia entre jovenzinhos: “Eu já transei, eu já beijei, já fiquei. Beijei quinze meninas ontem à noite, fiquei com seis rapazes ontem à tarde”. O que significa isso? 

Que sentimos carinho, encantamento, ou mesmo êxtase, com uma porção de parceiros e parceirinhas? Ou é uma moda, uma espécie de obrigação, que mais se finge e se fala do que de verdade se pratica? Não sei. Pouco sabemos uns dos outros. Mas, no fundo mais fundo, queria que algo se preservasse de íntimo na intimidade das gentes.



29 de abril de 2017 | N° 18832 
MARTHA MEDEIROS

Apoteótico

Nada de traje passeio ou passeio completo. Era assim mesmo que estava escrito no convite: “Dress code: apoteótico”

Recebi convite para uma festa, mas não qualquer festa. O aniversariante era um dos ícones da cena cultural brasileira e o evento prometia parar a noite de São Paulo. Me dei conta do tamanho da encrenca quando li o dress code sugerido: apoteótico. Nada de traje passeio ou passeio completo. Era assim mesmo que estava escrito no convite: Dress code: apoteótico.

Nem o descolado guia da Mauren Motta, Socorro! Com que Roupa Eu Vou? havia me preparado para esse desafio. O que seria uma roupa apoteótica? Teria que fazer uma busca no closet da Claudia Raia? Apelar para alguma rainha de bateria? Cheguei a pensar que um jeans rasgado e uma camiseta branca poderia causar um efeito triunfal às avessas, e já estava quase levando essa ideia a cabo quando minha mãe me mostrou uma foto da minha festa de 15 anos, em que aparecíamos abraçadas. Ela perguntou: o que você acha deste vestido?

Pânico. Até então sua atividade cerebral andava perfeita, como poderia ter degringolado tão rapidamente?

“Mãe, você está sugerindo que eu vá com o meu vestido de 15 anos?”

Ela: “Martha, você não guarda nem o recibo da conta de luz, acha mesmo que eu acreditaria que guarda um vestido que usou aos 15 anos? E mesmo que guardasse, ele hoje estaria completamente amarelado e com mais rombos do que esse jeans destruído que você não tira do corpo”.

Ufa. Atividade cerebral em pleno funcionamento.

“Estou perguntando sobre o meu vestido, Martha, o meu!”

Minha mãe guarda não só todos os recibos da conta de luz desde que Thomas Edison inventou a lâmpada, como tudo o que tiver valor afetivo, e pra ela tudo tem – incluindo roupas que inexplicavelmente não amarelam e não são devoradas por traças. Olhei bem dentro dos seus olhos a fim de detectar algum prenúncio de loucura, mas ela continuou me encarando como se estivesse em seu juízo perfeito.

Na festa havia mulheres deslumbrantes vestidas com muito brilho (uma inclusive com lampadinhas acesas por baixo de uma saia de tule – medo!), outras vestindo quase nada, algumas com roupas de princesa, outras fantasiadas de personagens que não conheço e adivinhe quem roubou a cena? Claudia Raia, claro. Poderosa numa túnica longa de tecido dourado reluzente e com um capuz misterioso na cabeça, de um glamour a toda prova.

Eu fui com o vestido preto que minha mãe usou na minha festa de debutante – há exatos 40 anos. Segui a tendência de Hollywood: moda sustentável, elegância vintage, espírito retrô – só a cara de pau ainda estava com a etiqueta. Apoteose? Temos.



29 de abril de 2017 | N° 18832 
CARPINEJAR

Vi e Mari

Sempre eu me espantava o tanto que os meus filhos cresceram. Nas roupas, nos gestos, nas tiradas, na defesa dos argumentos. Pasmo que o tempo vai nos empurrando para a frente e não traz nenhuma pausa para repetir as cócegas na barriga deles ou carregá-los na garupa durante os shows de música.

Vicente, 15 anos, ultrapassou a minha altura até então imponente na casa. Mariana, 22, decidiu corrigir meu português até então indefectível na casa. O pai idealizado vai sendo substituído pelo amigo humano, imperfeito e feito de falhas perdoáveis e cômicas.

Logo mais cederei o meu lugar na cabeceira da mesa. Naturais o crescimento e a crítica cada vez mais exigentes.

Como não existe como segurar a idade, o que noto em mim é uma metamorfose do olhar. Há uma inversão de minha mirada diante dos filhos. Como eles amadureceram rapidamente, deixo de procurar em suas feições os adultos que se tornaram para reaver as crianças que um dia foram. Cato e recolho agora resquícios da infância em suas atitudes.

Mudei minha expedição: não perseguir mais o futuro, e sim a pureza e a magia da criancice intactas em alguma de suas frases e expressões. Folheio em seus rostos o nosso velho álbum de fotografias. Não me interessa mais saber se são parecidos com o pai ou com a mãe, com o avô ou avó, o que importa é encontrar semelhança com eles mesmos de antigamente.

Minha luta é identificar o que mantém de quando eram crianças: talvez a curiosidade, ou a risada desbragada, ou a teimosia de dormir tarde ou a pressa de comer quando amam uma refeição.

Minhas pupilas têm pinças e espátulas para não estragar as asas das borboletas do jardim do Éden.

Todo pai, depois de ser um profeta, converte-se num arqueólogo. Não está centrado em adivinhar quem serão os seus filhos, dispõe a proteger a ternura dos laços primevos.

Eu me esforço em não esquecer o começo. Serei a retaguarda deles por toda a vida. Irei guardá-los quando precisarem recuperar as suas identidades.

Enquanto avançam, recuo nostalgicamente. Não estranho que voltei a adotar os apelidos que usava quando ainda trocavam as fraldas: Vi e Mari. Recorro à diminuição proposital de seus nomes para preservar o amor da filiação.

Assim como meus pais nunca mais me chamaram de Fabrício, porém de Bito. Para não esquecer que serei eternamente uma criança para quem me criou e educou. Maturidade é jamais negar a nossa origem.




29 de abril de 2017 | N° 18832 
DAVID COIMBRA

O mate e os tomates

Faço mate todos os dias. Sou um homem de hábitos. Não diria que arraigados, porque posso, sim, mudá-los, suspendê-los e até extingui-los, dependendo da conveniência. Mas, não havendo conveniência, fico com os hábitos. Não me importo de fazer sempre as mesmas coisas. Aquele restaurante tem bom filé? É lá que vou comer filé. O outro tem bom peixe. É onde comerei peixe. Já acertei, por que mudar?

Mulheres gostam de novidades. “Ai, vamos a um lugar diferente...”. Para quê? Para arriscar, é isso? Além do mais, lá eu não conheço os garçons.

Outra: viagens. Não sinto nenhuma vontade de conhecer lugares exóticos se esses lugares não tiverem hotéis com bons banheiros. O Paquistão, o Uzbequistão e o Afeganistão, o Congo, a Somália e o Zimbábue? Estou fora.

Prefiro ficar em casa, fazendo meu mate. Faço-o com critério. Primeiro, temos a delicada questão do morrinho, que haverá de ser bem alinhado, liso, reto como o caminho da virtude. Mas não admito aplainá-lo com um prato, como muita gente faz. Aplainar morrinho de mate com prato não é gaudério. Aplaine com a mão!

Sei bem que a grande polêmica do mate é a temperatura da água. As pessoas vêm com essa história de “não pode ferver”. Por que não pode ferver? Não me diga que muda o gosto da água. A água, me ensinaram no primário, é incolor, inodora e, sobretudo, insípida. “Ah, vai queimar a erva”. Basta esperar um pouco. Se você esperar um pouco, a água baixa dos 100°C. “Ah, dá câncer de esôfago”. Se você esperou, a água não queimará o seu esôfago.

Deixo a água ferver, portanto.

Assim, é só acoplar a bomba, sempre tapando o bocal com o polegar, para não entupir, e pronto, posso tomar meu mate.

Dizem que o mate ajuda o gaúcho a pensar, sempre repito isso, que gosto. Mas, no caso, é menos pensar e mais olhar. Tem tanta coisa para olhar na internet e na TV, tanta coisa para ler no jornal e ouvir no rádio, que acabo olhando pouco.

Na hora do mate, olho.

Ontem, sentei com meu mate bem aqui na sacada e olhei para baixo e vi uma mãe fazendo uma hortinha com seus dois filhos, na varanda de sua casa. Eram crianças pequenas, na primeira infância ainda, um menino e uma menina. A mãe estava agachada diante de um vaso retangular de cerca de metro e meio de comprimento. Afofava a terra, colocava um pouco de água, pedia uma ferramenta ou outra para as crianças, que pareciam interessadíssimas em ajudar.

Ela explicava o que era cada planta e como iria crescer e que frutos daria. Lembrei que, quando era pequeno, também fiz uma horta com minha mãe, lá na nossa casa no Parque Minuano. Mais do que isso: semeei árvores com minhas próprias mãos, entre elas um abacateiro, que, soube outro dia, ainda vive, firme e robusto. E, pegado à cerca de madeira, num canto do quintal, plantei um tomateiro que cresceu com grande velocidade.

Um dia, ao ir brincar no pátio, encontrei-o, ao meu tomateiro, pejado de tomates verdes, como uma árvore de Natal. Fiquei excitadíssimo, mas minha mãe me convenceu a esperar que os tomates amadurecessem. Esperei com impaciência. Todos os dias ia lá, ver como estavam os tomates. Numa manhã de domingo, por fim, eles se apresentaram belíssimos, redondos, de um vermelho luzidio. Corri para mostrar à mãe e ela acedeu:

– Agora, sim!

Naquele domingo, a salada foi feita com os frutos do meu tomateiro. A melhor salada que jamais comi. Até hoje lembro com orgulho daqueles tomates, que, de certa forma, eram obra minha.

Agora, vendo uma mãe preparando uma horta com seus dois filhos, penso que a vida podia ser sempre assim, transcorrendo do fundo do quintal para a mesa da cozinha, sem grandes mudanças, sem grandes novidades. Para que tanta novidade? Sou, mesmo, um homem de hábitos.



29 de abril de 2017 | N° 18832 ANTONIO PRATA
Antonio Prata

ALERGIAS

Num restaurante em Nova York, ouço o cara da mesa ao lado fazer o pedido. “Esse macarrão oriental com frutos do mar pode vir sem camarão?” “Pode, pode sim.” “É que eu sou alérgico a crustáceo. Tem algum outro crustáceo no macarrão?” “Caranguejo é crustáceo?” “É. Tem caranguejo no macarrão?” “Não sei. Vou ver. Se tiver, peço pra tirar.” “Tirar, não! Tem que ser sem traços de crustáceo. Não pode cozinhar nenhum crustáceo na panela que for cozinhar meus frutos do mar.” “Pode deixar, senhor.” “E o macarrão é do quê?” “De arroz.” “100% glúten free?” “100% glúten free.” “Eu não como glúten faz seis anos.” “É 100% glúten free, senhor.” “Tá certo. E o arroz é orgânico?” “Orgânico.” “Local?” “Andino.” “

Fala mais sobre isso.” “Arroz orgânico andino cultivado pelos índios aimara, triturado pelos cascos das lhamas criadas totalmente soltas e alimentadas só com chia selvagem do nascimento à morte, quando são então veladas pelos antigos rituais quíchuas nas cavernas geladas de Chichuaputxan, ao som de flautinhas de bambu tocando Let it Be. “Tsc, Let it Be... Não sei... E essas almôndegas? Tem GMO no óleo da fritura?”

Por uns momentos, fiquei rindo internamente daquele pobre homem engasgado no Zeitgeist. Lembrei que uns 15 anos atrás, quando “comida” virou “alimentação”, “carne” virou “proteína” e “pão” virou “carboidrato”, meu amigo Chico comentou, sabiamente, que a gente ainda ia ver o dia em que a medicina decretaria: “Comer atrapalha a digestão”. Mas então pensei um pouquinho em mim e, contrito, me dei conta de que também sou cheio de alergias. Pude ver a cena perfeitamente, no caixa de uma mostra de cinema.

“Oi, por favor, esse Crimes e Pecados, do Woody Allen, é comédia ou é daquela fase séria?” “Comédia, senhor.” “É que eu sou alérgico à fase séria do Woody Allen.” “Parece que é comédia.” “Parece ou é? Porque quando eu vi Interiores fiquei todo emperebado. Fui insistir com Setembro e fechou a glote.” “Senhor, eu não vi o filme, mas tá escrito aí que é comédia.” “Ah, mas o pessoal escreve qualquer coisa, vê Woody Allen e já tasca ‘comédia’. 

Melhor assistir a outro filme.” “Tem esse novo do Paolo Sorrentino.” “Pao- lo Sorrentino é aquele do A Grande Beleza?” “Aham.” “Deus me livre. Tenho intolerância a Paolo Sorrentino. É igual alergia a pólen. Sinto um Paolo Sorrentino no ar, aquela morrinha de Fellini embolorado, aquela catinga de propaganda de Campari aspirando a David Lynch, é 40 graus de febre, na hora. Sorrentino, jamais.” “Antonioni?” “Hmmm. Antonioni é bom, mas é difícil de digerir, né? Antonioni e pimentão, sempre fico na dúvida...” “Tem Apocalipse Now, do Coppola.” “Genial!” “É a versão do diretor.” “Ah, não. 

A versão do diretor... Tem aquela digressão de 40 minutos sobre a presença francesa na Indochina, nada a ver com a história, tudo muito bonito, tudo muito bem filmado, tudo muito chato. Será que não dá pra pedir o Apocalipse Now, mas, no lugar da Indochina, vir esse curta aqui do Buster Keaton?” “Senhor, infelizmente nós não fazemos alterações no cardápio.” “Entendo.” “Tem Ettore Scola, também. Um Dia muito Especial.” “Lindo! Viva Ettore Scola! Sophia Loren! Mastroianni! Vê um ingresso pro Scola, por favor.” “Aqui. Ettore Scola, Um Dia muito Especial. Pipoca?” “Hmm... O óleo da pipoca é 100% sem GMO?”



29 de abril de 2017 | N° 18832 
PALAVRA DE MÉDICO - J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre

Felicidade é o que conta

A vida sem desafios é a antecipação da aposentadoria

O mundo seria insuportavelmente monótono se as pessoas fossem iguais. Mas, como felizmente são diferentes, os protocolos de felicidade não podem ser estereotipados como propõem os livros de autoajuda que, mais do que tudo, ajudam os autores.

Isso pressuposto, vamos excluir da discussão que pretendemos os conformados e os pacíficos, esses que só querem ganhar seu dinheirinho para garantir estabilidade e a volta sossegada para casa depois de mais um dia de trabalho monótono que copiou ontem e se repetirá amanhã. Fixemo-nos, então, nos inquietos, os que consideram que a vida que vale a pena não prescinde da sensação de que ela só se justificará se for alimentada pela adrenalina de quem busca, incessantemente, expandir os seus próprios limites.

Esses tipos, rotulados de sonhadores ou delirantes, sofrem o mais pobre dos bullyings: o promovido pela inépcia dos que não suportam que outros façam mais do que a sua própria mediocridade limitou. Mesmo respeitando a atitude dos que pensam que viver e durar são a mesma coisa, fico constrangido de ver jovens acomodados e pachorrentos, desperdiçando aquela idade em que se devia ambicionar a reforma do mundo e, mesmo não conseguindo, morrer de velho com a convicção intacta de que era possível. E que só por falta de sorte não deu, mas foi por pouco!

Em mais de uma oportunidade, durante nossos congressos, me senti desconfortável ao ver simpósios sobre procedimentos de alta complexidade com salas vazias porque, ao lado, os jovens se acotovelavam no anfiteatro maior para ouvir as novidades sobre técnicas que não têm o que mudar de tão prosaicas que são.

Refiro-me ao médico desta geração que odeia desafios e se satisfaz em fazer coisas simples, que combinem preguiçosamente facilidade de execução, baixo risco e remuneração adequada.

É evidente que a alta complexidade é mais exigente e mais árdua. É certo que a pobreza das nossas instituições e o numeroso time dos que puxam para trás vão fazer a sua trajetória ainda mais difícil. Mas pense na alegria de conseguir o que os miúdos de espírito ironizavam. Não tenha medo de sentir medo, e quando isso ocorrer, e ocorrerá, corra para frente, porque é para lá que vão os que conquistam o direito de sentir orgulho por ter vivido.

Claro que, se vivemos mais, ao olharmos para a frente, teremos menos horizonte, mas em compensação, olhando para trás, há uma longa estrada, que tendo sido percorrida com gana e devoção, ensinou tantas coisas, boas e más, que só um ingênuo e pretensioso não pararia para ouvir. Então, ouça: a vida sem desafios é a antecipação da aposentadoria.

É uma passagem sem escalas da juventude para a senilidade. Se você é jovem, acredite: mesmo o velho mais festejado por ter sido bem-sucedido morre de inveja e trocaria tudo o que conquistou pela sua idade e a chance maravilhosa de fazer tudo outra vez. Mais e melhor. Se não acreditar nisto, comece a ser tolerante com seus amados porque eles também terão dificuldade de disfarçar o desconforto do convívio com sua apatia. E se quiser ser respeitado com os netos no colo, esqueça as desculpas e arranje uma vida que resulte, ao menos, em boas histórias para contar.



29 de abril de 2017 | N° 18832 
L.F. VERISSIMO

Filhos


Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos, Adão e Eva. Naquele tempo, não precisava mãe. O pai fez o que pôde pelas crianças. Elas tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro ou um macaco para brincar, o pai fazia. 

Se queriam uma pizza, o pai criava, ou mandava buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que não precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram felizes porque não sabiam.

Adão ainda era acomodado, mas a Evinha... Um dia, o pai a pegou descascando uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da menina descobriu e, antes que ele pudesse dizer “Dessa fruta não co...”, ela já tinha comido. E gostado. 

Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros, e determinar quais frutas do jardim podiam e não podiam ser comidas, e escolheu uma fruta como a mais proibida, pois se comesse dela a menina saberia. Saberia o quê? O pai não especificou. Só disse que o que ela saberia seria terrível, e que depois não se queixasse.

Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber, e que nunca mais seria a mesma.

– O que eu sei de tão terrível que não sabia antes? – perguntou Eva, ainda mastigando a fruta proibida.

– Que você pode desobedecer. Que você pode escolher, e pensar com a própria cabeça, e me desafiar.

E então o pai disse a frase mais triste que um pai pode dizer a um filho:

– Que você não é mais uma criança.

E Eva cresceu diante dos olhos do pai, e no momento seguinte já estava dizendo que queria morar sozinha, e fazer bolsa de inglês em Nova York, e saber como era o mundo lá fora. E Deus disse que ela podia ir, e que levasse o palerma do Adão com ela. E que os dois jamais voltassem e pedissem sua ignorância de volta.

sexta-feira, abril 28, 2017


Jaime Cimenti

Gaivotas no triplex do Guarujá 

Antigamente, as gaivotas viviam tranquilamente entre as areias e as ondas do Guarujá, sem preocupações, comendo, voando, sentindo os dias, as noites, o sol, a chuva e as estrelas passarem naturalmente, aguardando, sem medo, a hora de desencarnar.

Aí então alguns líderes do grupo das gaivotas do Guarujá descobriram que havia um triplex desocupado, à beira-mar, e resolveram dar um voo alto e se instalar no terraço do apartamento. Não sabiam de nada sobre o local e foram permanecendo. Gaivotas são pacíficas, democratas, simples e não aspiram muito.

Para elas, viver, comer, dormir, saber voar e apreciar a natureza bastam. A não ser para o Fernão Capelo Gaivota, do livro célebre do Richard Bach, que resolveu inovar, voar mais alto e diferente e transformar a vida do seu clã. Mas isso é outra história, outra ficção.

As gaivotas do Guarujá sabem, meio por cima, das questões que envolvem o famoso triplex e aguardam, serenamente, que as coisas se decidam. No início, nem se preocupavam com o assunto, depois resolveram acompanhar os fatos e as notícias. Gaivotas não se preocupam com papéis, compras, shoppings, consumo, competição e outras modernidades dos humanos. Elas simplesmente vivem, voam e sobrevoam, desde nem sabem quando e até quando também não sabem. Não estão preocupadas com fim de mundo, distopias, utopias e outras considerações demasiado humanas para elas.

Mas no mundo as coisas mudam, evoluem. Na vida, na ciência e na arte, a coisa é assim meio tipo infinita, todo mundo sabe. Há quem diga que o bando de gaivotas do Guarujá está usando redes sociais e se comunicando com gaivotas de todo o País e até do exterior para uma realizar uma grande assembleia à beira-mar e pensar na realização de ações com vistas às reformas e mudanças necessárias.

Disseram que algumas gaivotas pensam em escolher novos líderes, se envolver com a realidade, dar uma renovada em velhos hábitos do mundo. Outros dizem que as aves chegaram a pensar numa revoada de milhares, milhões, em direção às sedes dos poderes para protestos, ocupações, bicadas e bombas de "napalm" intestinal nas cabeças dos poderosos e cobrança de novas atitudes. Há quem diga que isso tudo é ficção, fruto da imaginação de algum poeta ou escritor delirante ou devaneador.

Por enquanto, as gaivotas tomam sol, dormem e acordam no terraço do triplex. Se afastam para uns voos, pegar uma praia e buscar alimento. Algumas gaivotas mais experientes dizem que o futuro a Deus pertence, que é preciso ter calma, esperar pelo melhor. Outras, especialmente as mais jovens, estão impacientes pelas definições e assim, em meio ao choque de gerações, la nave vá. O gaivota professor-doutor Sócrates Tropical de Oliveira lembrou do filme Os pássaros, de Alfred Hitchcock, e espera que, se algo acontecer, não haja violência como no filme, mas lembra que uma união de aves revolucionárias pode trazer consequências imprevisíveis. a propósito...

Há quem diga que alguns líderes dos poderes, preocupados, estão pensando em conversar com o grupo de gaivotas para troca de ideias e entendimento em relação ao futuro. Não se sabe ao certo quem são os líderes, se realmente vai ocorrer a reunião e muito menos o local e a data. Não se sabe ao certo a pauta da reunião, mas todos sabem que essas conversas e mudanças são lentas, que é preciso calma, clareza, esperança e boa vontade. Uns dizem que isso tudo é produto da cabeça de algum sonhador.

O tempo, sempre o senhor da razão e de outras muitas coisas, dirá. Não se sabe o prazo. Mas as gaivotas, dizem, estão olhando para seus cronômetros, tipo árbitro de futebol no início do jogo.  - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/559106-elogio-filosofico-e-literario-do-sexo.html)

Jaime Cimenti

Elogio filosófico e literário do sexo A profundidade dos sexos 


(É Realizações, 264 páginas, R$ 59,90), do professor de filosofia e literatura Fabrice Hadjadj é, antes e acima de tudo, um elogio filosófico-literário à prática sexual, que encontra seu fundamento em um local onde menos se espera: na teologia cristã. Hadjadj colabora com o jornal Figaro Littéraire e dirige o Philantropos, instituto de estudos em Antropologia sediado na Suíça.

Casado, pai de seis filhos, de formação judaica e ascendência árabe, nasceu em 1971 na França, filho de revolucionários maoístas. Foi ateu na juventude e depois converteu-se ao catolicismo.

Recebeu inúmeros prêmios importantes, como o Grande Prêmio Católico de Literatura e o Espiritualidades de Hoje. Intelectual público, tem protagonizado debates com escritores do porte de Michel Houllebecq, a crítica Catherine Millet e o matemático Laurent Lafforgue. O tema sexo é dos mais comentados de todos os tempos. Hadjadj lhe reserva um olhar especial, profundo, que recupera e descobre aspectos escondidos, relações inusitadas e comparações surpreendentes.

O autor mostra a íntima associação do sexo com o cristianismo ou o catolicismo, desbravando e jogando por terra argumentos moralistas. Ele eleva o sexo a uma espécie de prece, de consagração, mostrando que a religião contém o sexo e este precisa do caminho daquela para chegar ao patamar do sublime.

Com elegância e humor, fala de dignidade do corpo e da beleza do amor, do senso do prazer, do dom e da vida conjugal, sem discursos estereotipados nem fingimentos. Cântico dos Cânticos, Homero, Baudelaire, Sade, Nietzsche, Foucault, Pasolini e Bataille aparecem nos textos, para apoiar a tese de que o sexo está no âmago da salvação do homem. Para o autor, o ato carnal não é essencialmente prazer, mas comunhão de duas pessoas e deve buscar equilíbrio entre prazer e dor.

O que moveu Hadjadj é a convicção de que prazer e significado são mesmo indissociáveis e só podem ser plenamente explorados pela síntese aparentemente paradoxal de uma "mística da carne". E não se trata de uma intromissão da teologia em um assunto em si mesmo mundano: o problema é, precisamente, que o sexo foi tornado etéreo, informe, desprovido de peso propriamente corporal.

A cibernética o tornou robótico, virtual. Psicanálise e sociologia transformaram-no em "sexualidade" e algo longe do toque. Como se vê, mais uma contribuição relevante para o eterno e milenar debate sobre um dos grandes temas da humanidade.

De quebra, uma bela crítica do hedonismo, uma busca de entendimento e equilíbrio.


lançamentos 


Dieta dos Casais (Sextante, 224 páginas), da conhecida nutricionista e proprietária de clínicas Patricia Davidson Haiat, traz um plano completo para emagrecer a dois, com saúde, baseado em princípios da nutrição funcional.

No instagram.com/patriciadavidsonhaiat ela tem mais de 300 mil seguidores. Espero por você (Novo Conceito, 382 páginas, tradução de Leonardo Gomes Castilhone) de Jennifer L. Armentrout, traz a jovem Avery fugindo de casa para buscar calma na faculdade, longe de acontecimentos fatídicos.

Lá está Cameron, olhos azuis, perigoso, mas que leva Avery a mudar de pensamentos. Contos contemporâneos (AGE Editora, 176 p.) são contos de Alda Paulina Borges, Amauri A Confortin, Clarissa Mazon, Cris Romagna, Fernanda Martins, Ione Russo, Lígia Messina, Luciana Zart, Lucio Feliciare Maria Codorniz, Maria Forneck, Nara Nubia Pereira, Roque Palermo e Sonia Ferreira, da oficina literária de Alcy Cheuiche. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/559106-elogio-filosofico-e-literario-do-sexo.html)

28 de abril de 2017 | N° 18831 
NÍLSON SOUZA

UMA TORRE NO CÉU


Adoro Khalil Gibran. Ele escreveu tudo o que eu gostaria de ter escrito, com sabedoria e poesia. Seu livro mais famoso, O Profeta, é um conjunto de reflexões feitas pelo personagem Al Mustafá ao povo de Orfalese, onde viveu durante 12 anos, enquanto o navio que o levaria de volta à terra natal se preparava para partir.

Ninguém foi tão certeiro para falar sobre o amor.

“Quando o amor vos fizer sinal, segui- o, ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis. E, quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos, ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.”

Sua conhecida lição sobre os filhos é definitiva.

“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E, embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos. Porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas. Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.”

Vejam que maravilha sua visão sobre o trabalho.

“Quando trabalhais sois uma flauta através da qual o sussurro das horas se transforma em música. Quando trabalhais, estais a preencher um dos sonhos mais importantes da terra, que vos foi destinado quando esse sonho nasceu, e quando vos ligais ao trabalho estais verdadeiramente a amar a vida, e amar a vida através do trabalho é ter intimidade com o segredo mais secreto da vida.”

Sobre a amizade, uma frase basta.

“A amizade é sempre uma doce responsabilidade, nunca uma oportunidade.”

O mesmo vale para a sabedoria.

“A simplicidade é o último degrau da sabedoria.”

Por fim, um trecho sobre despedida.

“Foi apenas ontem que nos encontramos em um sonho. Cantastes para mim em minha solidão, e eu construí, com vossa nostalgia, uma torre no céu. Se no crepúsculo da memória nos encontrarmos novamente, de novo conversaremos, e cantareis para mim uma canção mais profunda. E, se nossas mãos se encontrarem em outro sonho, construiremos outra torre no céu.”



28 de abril de 2017 | N° 18831 
DAVID COIMBRA

Isis versus Bruna

Vi, na novela da TV, uma cena em que se confrontavam duas atraentes atrizes: a loira Bruna Linzmeyer e a morena Isis Valverde. Não prestei atenção aos diálogos, mas, pelo que compreendi, elas disputavam o amor de um rapaz, o filho do Fábio Júnior, que, por Deus, chama-se “Fiuk”.

Essa Bruna tem boca de Sophia Loren e olhos de Charlize Theron. É bonita, sem dúvida, mas de uma beleza estranha, levemente excessiva, suavemente agressiva. É muita polpa naquela boca, é muito azul naquele olho, e ela parece malvada.

Na verdade, acho que é de fato malvada. Prova: uma vez, assisti a um pedaço do programa do Serginho Groisman e ela estava lá. Na parte que vi, apresentava-se um desses youtubers que têm milhões de seguidores. Seu nome é ainda mais esquisito do que o do filho do Fábio Júnior: Whindersson. 

Ele fazia uma apresentação, espécie de stand up, e a Bruna aparecia sentada bem atrás. No começo, Whindersson imitou alguns cantores de quem nunca ouvi falar, e ela sorriu. Depois, ele começou a contar piadas. Bem. Aí a Bruna fechou aqueles lábios de gomo de bergamota poncã e não abriu mais. Não riu nenhuma vez. Nem um sorriso forçado, nem um esgar. O rapaz se esforçava, dizia besteiras, gozava de si mesmo, representava, e ela impassível, como se estivesse vendo uma sessão do Senado.

Aquilo foi me dando uma angústia. Não era possível que ela não desse uma risadinha, apenas por solidariedade. Mas nada. Zero.

Uma mulher que não gosta de piada. Desconfie de mulheres que não gostam de piada.

Então, essa era a loira da novela. Já a morena Isis era a própria brejeirice brasileira. Um pouco ingênua, mas maliciosa. Insinuante, mas infantil. Lindíssima em sua simplicidade. Na minha imaginação, estava de vestido de chita e pés descalços. Podia estar vestindo qualquer outra coisa, podia estar de paletó e gravata, só que a via como uma cabocla que só quer, só pensa em namorar.

Foi aí que suspirei: como seria bom se o mundo fosse assim esquemático. A frieza de olhos de mar da mulher europeia versus a lânguida morenice da mulher brasileira, o cálculo versus a intuição, o cérebro versus a emoção, a preparação física versus a técnica, a dureza versus a ginga, os certinhos versus os malandros.

Nós, claro, seríamos os malandros, nós sempre nos achamos malandros. Diga-me uma coisa: você já tentou ser malandro fora do Brasil? É curioso: o malandro brasileiro, quando se muda para a Europa ou para os Estados Unidos, deixa de ser malandro. Ele trabalha, ele vive sua vida, ele respeita os outros, ele cumpre regras. Que mágica geográfica é essa, que transforma a malandragem presuntivamente genética do brasileiro em ordem e progresso?

É que, olhando de longe, o brasileiro percebe que o Brasil é um país de otários. Os malandros são os mesmos, e são poucos: um Lula negando o inegável, um Emílio Odebrecht traduzindo propina por ajuda, um Renan Calheiros jurando que defende a democracia, esses e os amigos deles. Faz tempo que eles se cevam na nossa trouxice, nos elogiando e afagando. Dizendo que somos malandros.

Tomara que isso mude. Tomara que o brasileiro se torne mais certinho, mais duro, mais cerebral, mais calculista. O que, é certo, nos tornará menos otários.

Mas pode deixar a Isis Valverde com vestidinho de chita. Essa brejeirice fica como está.


28 de abril de 2017 | N° 18831 
CLÁUDIA LAITANO

A boa vida


Dizem que nenhum livro muda o mundo. Livros mudam pessoas que, com algum esforço, tentam mudar o mundo. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso que o livro não apenas proponha uma nova maneira de pensar ou sentir, mas que chegue aos leitores no momento certo – nem antes nem depois. Se O Segundo Sexo, clássico feminista de Simone de Beauvoir, tivesse sido escrito 50 anos antes, talvez nem chegasse às livrarias. Cinquenta anos depois, teria causado pouco ou nenhum impacto. Em 1949, provocou uma pequena grande revolução.

Quando se trata daquele mundinho íntimo formado pelas ideias ou sentimentos que impactam as nossas vidas de forma marcante, funciona mais ou menos do mesmo jeito. Temos que estar prontos para que livros (ou filmes, músicas, peças de teatro...) mudem as nossas vidas – ou pelo menos criem a sensação de que isso aconteceu. 

Mas mesmo quem gosta muito de ler não encontrará, ao longo de toda a vida, mais do que cinco ou seis experiências capazes de provocar essa sensação de Queda da Bastilha interior. Um livro que fique na memória não apenas pelo impacto estético que proporcionou, mas por causar um tipo de curto-circuito que, ao contrário de apagar todas as luzes, ilumina.

Na segunda-feira à noite, quando começaram a chegar as notícias sobre a morte do escritor norte-americano Robert M. Pirsig (1928-2017), autor de Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas (1974), uma frase se repetia com alguma frequência nos comentários dos seus leitores: “Este livro mudou a minha vida”. Li o romance aos 19 anos e nunca voltei a ele, mas também fui profundamente impactada pela história desse pai que vai para a estrada, de moto, na companhia do filho de 11 anos, refletindo sobre aquilo que alguns filósofos chamam de “a boa vida”.

Numa interpretação muito singela, encontrar “a boa vida” é descobrir qual é a sua no mundo e fazer o possível para não se perder muito nos atalhos. Aos 19 anos, não poderia ter recebido um conselho mais decisivo.

Quem gosta de ler abençoa todos os dias a facilidade de acesso proporcionada por livros e jornais digitais. Então fica aqui a dica para os leitores que ainda não se aventuram muito no mundo da leitura digital: quem é assinante da versão impressa da Zero Hora tem acesso a todo o conteúdo online sem custo adicional. Basta fazer o cadastro em zerohora.com/cadastro para folhear a réplica do jornal no computador, no celular ou no tablet. Em qualquer lugar do planeta – e sempre no momento certo.

quinta-feira, abril 27, 2017



27 de abril de 2017 | N° 18830
REPORTAGEM ESPECIAL


POLO NAVAL LUTA PARA SOBREVIVER

SEM ENCOMENDAS NOS ESTALEIROS, sul do Estado se mobiliza para recuperar parte dos 17 mil empregos perdidos nos últimos anos. Prioridade é finalizar casco da P-71, que está pela metade
O oceano de incertezas que cerca os estaleiros também ameaça pôr a pique o polo naval do sul do Estado. Após o ressurgimento há cerca de uma década, entre a euforia vivida até 2013 e o início do declínio marcado pela crise na Petrobras e a eclosão da Lava-Jato, um novo movimento ganha corpo para reemergir o setor, mesmo que longe da exuberância imaginada há não muito tempo.

No início de 2013, os estaleiros do país tinham na carteira 13 plataformas, 16 montagens ou integração de módulos, 28 sondas de perfuração e 26 petroleiros. Ao final do ano passado, eram somente 11 petroleiros e oito projetos de integração de módulos em andamento, segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval). Mesmo com demanda bem menor, o esforço une agora estaleiros e fornecedores para que a estatal revise sua nova política de priorizar a encomenda de plataformas no Exterior, diretriz que sustenta ser baseada em custos menores e maior agilidade na entrega.

Os reflexos atingem em cheio os estaleiros gaúchos. Em Rio Grande, o QGI trabalha na montagem dos módulos das plataformas P-75 e P-77, dando trabalho a cerca de mil pessoas. Depois, nada à vista. No estaleiro Rio Grande, da Ecovix, há apenas cerca de 200 funcionários na manutenção da área após a Petrobras levar a construção de cascos para a Ásia e rescindir contratos. No EBR, na vizinha São José do Norte, são cerca de 2,2 mil envolvidos na montagem de instalação dos módulos da P-74. A tarefa deve ser concluída até o final do ano e não há perspectiva de novo contrato. Em 2013, eram mais de 20 mil empregados. Hoje, são menos 3 mil e há risco de todos serem perdidos.

A batalha entre os fabricantes nacionais e a Petrobras está centrada na encomenda de uma plataforma destinada ao campo de Libra, no pré-sal. A estatal quer liberação da Agência Nacional do Petróleo para ter zero de conteúdo nacional. Em tensa audiência pública, semana passada, no Rio, a empresa alegou que, se fosse feita no Brasil, o custo seria 40% maior e haveria risco de atraso – o prazo é de 38 meses.

Sindicatos dos metalúrgicos e das empresas, fabricantes de máquinas e estaleiros gaúchos ainda pressionam. Associado a uma companhia internacional convidada para a concorrência, o QGI tenta um quinhão. A Ecovix argumenta que tem pronto em Rio Grande mais da metade do casco da P-71, cujo contrato foi rescindido pela Petrobras, e teria condições para adaptá-la às especificações com custo menor. Apesar do histórico de atrasos, o vice-reitor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Danilo Giroldo, presidente do Arranjo Produtivo Local (APL) Polo Naval e de Energia, vê sentido:

– A P-71 está dentro do dique seco, 55% pronta. A nossa estimativa é de que custaria mais R$ 200 milhões.

O histórico, porém, joga contra. Com contrato de US$ 3,46 bilhões, o estaleiro deveria entregar oito cascos entre 2013 e 2015. Apenas três foram concluí- dos, e com atraso somado de três anos.

Em entrevista à Rádio Gaúcha no início do mês, o próprio presidente da Petrobras, Pedro Parente, jogou um balde de água fria na esperança de retomar a atividade no estaleiro da Ecovix, ao citar os atrasos nas entregas dos casos. Reforçou ainda que a P-71 não terá uso pela Petrobras. Mas sinalizou que vê viabilidade na montagem de módulos para plataformas, como fazem hoje QGI e EBR.

O vice-presidente do Sindicatos dos Metalúrgicos de Rio Grande, Sadi Machado, diz que o principal motivo da mobilização é pela retomada da construção do casco que corre o risco de virar sucata. No sábado, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff participam de ato na cidade. Uma frente parlamentar em defesa do polo naval foi formada e há expectativa de audiência com o presidente Michel Temer na próxima terça-feira.

caio.cigana@zerohora.com.br Rio Grande


27 de abril de 2017 | N° 18830 
CARLOS GERBASE

MUSEUS DE GRITOS E SUSSURROS

Os gritos mais assustadores que ecoam na grande crise brasileira são os que pedem a “volta dos militares”, o que implica pedir a volta da ditadura. Ou alguém pensa na candidatura de um militar da ativa nas próximas eleições? Não tenho a menor dúvida de que existem generais democráticos e com espírito patriótico, mas duvido que algum deles vá fazer política nesse cenário conturbado. 

Vou ignorar quem grita pela ditadura com plena consciência do que aconteceu no Brasil entre 1964 e 1988. Esses não têm remédio, embora a loucura, em especial dos poderosos, deva ser sempre bem vigiada. Escrevo para os que gritam na perigosa corrente da inconsciência histórica, navegando na própria ignorância.

Em Lisboa, no prédio que abrigou uma das prisões do regime salazarista, funciona o Museu do Aljube (do árabe “poço sem água”). Portugal enfrentou 48 longos anos de ditadura (1926 a 1974) que só terminou com a Revolução dos Cravos. O que aconteceu nesses anos todos pode ser revisto e relembrado nos três pisos desse museu: celas minúsculas, julgamentos de fachada, sessões de tortura, deportação para as colônias e assassinatos. 

Em Santiago do Chile, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em prédio imponente, cumpre a mesma função, mostrando o que fez Pinochet em seus anos de despotismo absoluto. Quem vai a esses lugares não busca obras de arte, nem alimento para o espírito. Mesmo que busque, encontrará apenas o testemunho de décadas de gritos de dor e sussurros de esperança.

Ouvi dizer que aquele sobrado amarelo na descida da rua Santo Antônio, em Porto Alegre – um centro clandestino de tortura conhecida como Dopinha entre 1964 e 1966 –, poderá ser transformado em sede de um memorial semelhante aos existentes em Lisboa e Santiago. É importante que isso aconteça, e logo. 

Há milhões de jovens que querem, de coração, um Brasil melhor, mais honesto, mais justo, mas são levados por espertalhões a acreditar nos benefícios de uma intervenção inconstitucional que elimine a democracia. Eles precisam olhar pelas janelinhas das celas do Aljube ou do Dopinha e perceber que ali poderia estar um parente, um amigo, ou eles mesmos. Precisamos, urgente, de mais museus de gritos e sussurros.


27 de abril de 2017 | N° 18830 
DAVID COIMBRA

Sou contra

Sou contra ketchup na batata frita. É das poucas instituições que desprezo na admirável civilização americana. Não consigo entender esse hábito, cultivado inclusive pelo presidente da República, Donald Trump. E se trata de algo ubíquo, porque a batata acompanha tudo por aqui. Eles botam batata frita no prato com bife e ao lado do hambúrguer, é claro, mas também no peixe e até, Cristo!, na massa.

Tenho uma teoria a respeito: o exagero da batata se deve à imigração irlandesa. Os irlandeses, como se sabe, padeceram com a Grande Fome da Batata, no século 19. Uma praga atacou as batatas de lá e um quarto da população irlandesa morreu de inanição. Ao fugir da miséria, eles se homiziaram nos Estados Unidos e, agora, enfim prósperos, pelo que anseiam? Obviamente, pelo que não tinham: a batata.

Muito natural, muito humano, mas por que o ketchup? Ketchup estraga a batata. Francamente. Aliás, sou contra sal no abacate, preciso deixar isso sublinhado. E sou contra morango na salada.

Sou contra lacinho no mocassim. Sou contra mocassim sem meia. Na verdade, sou contra mocassim. Mocassim é coisa de índio, e índio americano, não índio brasileiro. Índio brasileiro anda de chinelo de dedo, calção Adidas e cocar. E atira flecha na polícia do Congresso.

Vi os índios dando flechadas na polícia do Congresso, nesta semana. Ninguém saiu ferido, prova de que nossos índios são como o Pedro Rocha: não têm pontaria. São aculturados, talvez.

Conto sempre aquela história que li no livro do Peninha, sobre os ferocíssimos índios goitacazes: eles eram ótimos nadadores. Mergulhavam no mar do Rio de Janeiro com um pedaço de pau na mão. Procuravam o lugar que estivesse infestado de tubarões. Quando o tubarão atacava, querendo comer o índio, o índio metia aquela vara na boca do bicho e assim o imobilizava. O tubarão não conseguia mais mover a mandíbula. O índio, em seguida, enfiava o braço goela adentro do tubarão, até alcançar suas entranhas. Localizava o coração e o arrancava de um repelão.

Era desse jeito que os goitacazes caçavam tubarão.

Certamente não havia um só goitacaz entre os índios que desferiram flechadas inócuas na polícia de Brasília.

De qualquer forma, sou contra pessoas que atiram flechas em outras pessoas.

Quando guri, eu tinha um arco e flecha de plástico, com ponta de borracha para grudar na parede. Atirava na parede e nunca grudava. Uma tristeza. Sou como os índios inofensivos de Brasília, não como um goitacaz arrancador de corações de tubarão.

Uma vez, comi caldo de barbatana de tubarão, em um restaurante chinês. Foi horrível. É forte demais, fiquei três dias com o gosto daquela barbatana na boca.

Comida chinesa não é para mim. Em Pequim, eu e o Tulio Milman fomos a um restaurante e pedi peixe assado. A garçonete deslizou para a cozinha e voltou de lá com uma caixa de plástico do tamanho de um engradado de cerveja. Dentro, havia água. Na água, nadava um peixe.

– Esse? – ela me perguntou.

O peixe ficou me olhando, enquanto eu dizia que, sim, é esse mesmo. Aí ela saiu para matar o peixe. Aquilo me deixou meio chateado. Fiquei me lembrando da forma como ele me olhava. Não gosto de ver minha comida viva.

Comida chinesa é exótica em demasia para mim. Comida coreana, pior. Na Coreia do Sul, eles usam pimenta como os americanos usam batata. Qualquer comidinha de aparência inocente se transforma nas chamas do inferno quando você coloca na boca.

Sou contra comidas apimentadas demais. Na Coreia do Norte, eles colocam ainda mais pimenta do que na do Sul. Tem até um prato de ostras que eles cozinham com gasolina. Gasolina, por Deus. Sou contra.

Mas o pior da Coreia do Norte é aquele ditador deles. É agressivo, meio esquisito, não parece uma pessoa sensata. Inconfiável.

Só que o Trump pode ser descrito com as mesmas palavras. Ou seja: dois homens poderosos e pouco confiáveis se desafiando. Pode acabar em guerra. Todos somos contra a guerra.

O Trump, em vez de mandar submarinos nucleares para a Coreia, podia ficar quieto na Casa Branca, comendo batata frita com ketchup. Seria mais cauteloso.

Cautela: sou a favor.




27 de abril de 2017 | N° 18830 
L.F. VERISSIMO

Empate

Nosso tamanho nos torna megalomaníacos natos. Não sabemos pensar no Brasil a não ser em superlativos. Somos amazônicos tanto nas nossas vaidades quanto nos nossos remorsos. A Arena, o braço desarmado do poder militar, podia dizer que era o maior partido do mundo porque, em números, era mesmo, tantos foram os políticos que a integraram naquela democracia de faz de conta. Outra maneira de dizer a mesma coisa seria nos chamarmos de a maior sabujocracia do mundo, embora nem todos do grande partido fossem servis aos militares. 

Muitos fizeram respeitáveis carreiras no partido oficial, e, se foram cúmplices na farsa, o MDB, ao seu modo, também foi. Depois, com o fim do regime militar, o voto obrigatório nos autorizou a dizer que éramos, em proporção à população, a maior democracia de verdade em funcionamento no mundo.

O que sentimos ao descrever nossas mazelas gigantescas só pode ser descrito como orgulho desvairado, quase uma forma de ufanismo. As revelações da Lava-Jato nos permitem dizer que nenhum outro país é tão corrupto quanto o nosso. E estamos sempre superando nossas próprias marcas. O escândalo do mensalão era o maior de todos os tempos. Agora o escândalo do propinato é maior do que o escândalo do mensalão. Eta nóis!

Não quero desiludir ninguém, ainda mais depois do golpe na autoestima nacional que foram os 7 a 1 na Copa, mas os americanos nos ganham em matéria de corrupção. Ou pelo menos empatam. Notícias do superfaturamento, dos custos fictícios e outras falcatruas de empresas americanas contratadas para reconstruir o Iraque – apenas um exemplo –, depois da destruição que eles mesmos provocaram, fizeram murchar minha megalomania. 

Não era só o volume de dinheiro desviado, maior do que qualquer concebível escândalo brasileiro. A Bechtel, a Halliburton, ligada ao então vice-presidente Dick Cheney, e outras empresas americanas ganharam, com exclusividade (“Nossa sujeira limpamos nós” é o lema implícito) e sem licitação, os contratos para reparar os estragos feitos, subsidiadas pelo Pentágono. E mesmo com os bilhões de dólares gastos e roubados depois da queda do Saddam, o Iraque continua em ruínas.

E o pior para o nosso ego é que, com tudo isso, você não ouve os americanos dizerem que são os mais corruptos do mundo. Ainda por cima nos arrasam com sua modéstia.

quarta-feira, abril 26, 2017



26 de abril de 2017 | N° 18829 
MARTHA MEDEIROS

Oásis

Os desertos me atraem. O silêncio absoluto em meio a um universo infinito. Nenhuma ansiedade, apenas o contato profundo consigo mesmo.

Vivo no oposto de um deserto, numa urbe habitada por muita gente, sonorizada por buzinas e freadas. Uma cidade que, como outras, induz a um comportamento automático e racional: trabalhar para ganhar meu sustento, trazer comida pra casa, combater meu sedentarismo com atividades físicas, socializar com meus pares, me informar sobre o que acontece no mundo, compartilhar minha opinião nas redes sociais, cuidar da minha saúde e da minha aparência. Nada disso é um castigo, mas toma todo o meu dia e, quando dou por mim, é hora de ir para a cama e dormir.

Algumas pessoas meditam, outras rezam, outras ainda se refugiam num bom livro – as escapatórias necessárias, uma volta para dentro de si, aquele momento chamado “seu”, fundamental.

Tenho os meus, e hoje em dia eles têm acontecido com mais regularidade dentro de uma sala de cinema. Nem Netflix, nem Now, nem DVD, nada se compara ao deslocamento físico e à introspecção buscada: ainda não abro mão do ritual do ingresso, assento, luzes apagadas, foco. É onde todos os meus instintos afloram (inclusive os assassinos: se você também não suporta quem faz barulho com sacos de balas e pipocas, testemunhe a meu favor caso eu vá a julgamento).

Nesta semana, assisti a Paterson, de um dos meus cineastas prediletos, Jim Jarmusch. Nada mais precário que um resumo de filme em três linhas, mas é sobre um motorista de ônibus que todos os dias, após o trabalho, leva seu cachorro pra passear pelo mesmo trajeto, toma uma cerveja no mesmo bar e volta para os braços da sua linda e mesma esposa, dormindo o sono dos justos – entrementes, escreve poemas num caderninho.

Só isso. Tudo isso.

Por tudo, entenda-se: todo dia repetitivo é também um novo dia. É preciso delicadeza na prática de qualquer convivência. Há poesia no cotidiano. Carinho também é amor. Ninguém é igual aos outros e ninguém é muito diferente dos outros. O que nos comove está sempre no subtexto.

Paterson é um oásis neste deserto às avessas, em que vivemos em meio a muito barulho sem sentimento, muito movimento sem pausa, muita relação sem entrega. Um momento seu para extrair de dentro da alma. Esta mesma alma que me escapa agora pela ponta dos dedos.



26 de abril de 2017 | N° 18829 
EDITORIAL

FOGO AMIGO NO MP

Ganha repercussão nacional uma questão interna da Procuradoria-Geral da República, que pode fragilizar a Operação Lava-Jato e favorecer os suspeitos de envolvimento com a corrupção. Por iniciativa da subprocuradora-geral Raquel Dodge, uma das candidatas à sucessão de Rodrigo Janot, o Conselho Superior do MP propõe que seja fixado em 10% o limite de transferências de procuradores a outras áreas por necessidade de serviço. 

A resolução, que já conta com votos favoráveis de sete dos 10 conselheiros, terá o efeito prático de desmantelar a equipe de procuradores federais que assessoram Janot e que já estão familiarizados com os processos em andamento. O retardamento é tudo o que os advogados dos réus desejam para procrastinar julgamentos e conseguir que as ações penais de seus clientes prescrevam.

Por isso, a proposta provocou reação forte de Rodrigo Janot, que atualmente conta com sete auxiliares requisitados de instâncias inferiores. Tudo indica que questões corporativas e vaidades estão sendo colocadas acima dos interesses do país e da própria missão do Ministério Público. E não se pode desconsiderar a possibilidade de que tal manobra tenha origem no estamento político, que vem articulando sub-repticiamente maneiras de sabotar a Operação Lava-Jato.

O procurador-geral da República fez bem em dar visibilidade à questão, pois assim a população brasileira pode acompanhar de perto uma disputa corporativa com potencial para interferir na maior investigação de fraudes da história do país. O que ocorre nos bastidores do poder é do interesse de todos, pois a transparência, definitivamente, passou a ser um poderoso antídoto para a corrupção.

INTEGRAÇÃO DO CRIME

As suspeitas de que a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), surgida em São Paulo, teria comandado o mega-assalto de cerca de R$ 124 milhões a uma transportadora de valores em Ciudad de Leste, no Paraguai, contribuem para reafirmar a total perda de controle das forças de segurança sobre o crime organizado. Depois de se disseminarem por diferentes Estados brasileiros, grupos armados como o responsabilizado pelo ataque milionário expandem seus tentáculos para os países do Mercosul. Desafiam, assim, as autoridades de segurança a reunirem condições de empreender ações mais coordenadas e eficazes, o que até agora está longe de ocorrer na prática.

Uma das razões para a criminalidade se planejar de forma tão sofisticada, com divisão detalhada de tarefas e uso de armas potentes, é justamente a ausência de Estado. Livres para agir, as facções passaram a dominar o tráfico de drogas e a exercer o poder nos principais presídios do país. A população do Mercosul só tem razões para se preocupar diante do recrudescimento das garras do crime organizado para além das fronteiras do Brasil.

Os países da região não podem admitir que se consolide um verdadeiro “Narcosul do crime”, como define um dos maiores especialistas do Brasil nesse tipo de atividade. Diante das reiteradas demonstrações de uma ousadia cada vez mais sem limites das facções, em contraste com o desgaste das forças de segurança de maneira geral, é inevitável que a população se atemorize com os resultados dessa queda de braço. O poder público precisa reagir à altura, de forma integrada com outros países da região, para deter o avanço do crime, impedindo sua internacionalização.



26 de abril de 2017 | N° 18829 
PEDRO GONZAGA

HÁBITOS

Muitos autores da antiguidade louvaram o poder do hábito. Creio que num mundo restrito em ofertas materiais, sujeito a severas ameaças quase sempre visíveis no horizonte, esta constância que se constrói como fortaleza de muralhas invisíveis protegia-os do caos de estar no mundo. E porque o mundo não se tornou menos confuso, somos capazes ainda de entender o ganho de conforto, de forçoso sentido à existência, trazido pelas práticas repetidas. 

Há anos guardo o hábito de ler livros com depoimentos de escritores, para saber o que os levou à escrita, quais são seus truques, o que leram para terem o estilo que tem. Faço isso mais pelo gosto do costume que pelo compromisso de transmitir os ensinamentos aos meus alunos nas oficinas, para isso prefiro os manuais americanos, tão mais técnicos.

Dividir leituras em subseções me parecem um hábito que alcança quem muito leu. Porque há um primeiro leitor que lê de tudo, o diabo da tasmânia dos desenhos. Depois surge um segundo que ainda lê de tudo, mas vai estabelecendo nichos, classificações e rotinas: hoje vou ler policiais, ou livros náuticos, ou memórias de escritores. E ao visitar cada um desses lugares, recebe como recompensa uma espécie de conforto doméstico: o hábito é uma casa.

Semana passada chegou às livrarias o novo livro do Haruki Murakami sobre a arte de escrever, chamado Romancista como Vocação. Pareceu-me promissor, porque sua obra anterior no gênero exigia compreender comparações entre escrever e correr maratonas, o que me mataria do coração antes de chegar a alguma ideia sobre o assunto. Depois de algumas páginas, no entanto, fiquei frustrado. Não sei o que passou, mas o livro teve o efeito de me fazer descrer do próprio hábito.

E se me permitem uma teoria, suponho ter encontrado, enquanto escrevo, a razão de ser do hábito. O hábito é como uma seita. Não encontraremos resposta no universo, mas em um seu fragmento. A função da pequena ordem não seria, enfim, conter o caos. Seria esperar por um momento em que o caos irrompesse como experiência inteligível. Em outras palavras, um hábito espera o seu momento de destruição redentora, pois com esta destruição chegará uma resposta, pequena que seja, mas uma resposta.

O triste em perder um hábito é que isso sempre acontece com uma pergunta.


26 de abril de 2017 | N° 18829 
DAVID COIMBRA

A mulher do delegado

Hoje em dia, os homens não se importam mais com a cornitude. Fica feio um homem reclamar da traição. As mulheres o acusam de machista e incivilizado.

As mulheres, sim. As mulheres do século 21 se enfurecem com a traição masculina e acusam o traidor de machista e incivilizado.

Houve tempo, porém, em que o homem traído não raro ficava muito brabo e podia até tornar-se violento.

Justamente nessa época, aconteceu um caso assustador com um amigo meu, cujo nome não posso declinar por razões que logo se tornarão óbvias.

Deu-se assim: ele estava em casa em um sábado à tarde, quando soou a campainha do interfone.

Ué? Quem será? Ele não esperava ninguém... Foi atender e, lá de baixo, veio uma vozinha rouca que ele conhecia bem: era a mulher do delegado.

Esse delegado tinha fama de ser malvado. Tratava-se de um homem grande e sério. Sempre sério.

Já a mulher do dito cujo era uma moça muito alegre, muito bonita e muito mais jovem do que ele. Ela e meu amigo se conheceram porque eram vizinhos, moravam na mesma rua, encontravam-se na vendinha, no bar da esquina, na padaria. A cada encontro, conversavam por bastante tempo, ele dizia bobagens, ela ria.

– Você me faz rir – ela vivia repetindo, e ele se inflava de bobo orgulho masculino.

Mas nada havia acontecido de mais importante. Até aquele sábado.

Pelo interfone, ela pediu para subir ao apartamento dele. Subiu. Quando ele abriu a porta, deparou com ela vestida de abrigo de ginástica e tênis. Ela entrou. Parada na sala, pediu, como se miasse:

– Traz algo pra gente beber?

Ele foi à cozinha e, quando voltou, ela havia tirado o abrigo. Estava só de calcinha vermelha. E tênis.

A partir daí, meu amigo começou a ter um caso com a mulher do delegado. Os outros amigos, ao saber da coisa, advertiam:

– Está louco! Esse cara vai descobrir! Ele vai te matar!

Meu amigo começou a se assustar, mas, ainda assim, não se animava a desfazer o caso. Os amigos insistiam:

– O homem é uma fera! Ele vai te dar choque na delegacia.

Os avisos deram resultado. À noite, ele sonhava com torturas horríveis. De dia, imaginava uma forma de pular fora sem deixar a moça ofendida.

Um dia, ele estava em casa, assistindo ao Jornal Nacional, quando recebeu um telefonema. Era o delegado. Meu amigo estremeceu. Ficou quase sem voz. “Por mil paus de arara”, pensou, “ele descobriu!”.

– Quero te fazer uma pergunta – disse o delegado, com certo tom de ameaça na voz.

Meu amigo sentiu vontade de chorar. Todas as sirenes de perigo uivaram na sua cabeça. Decidiu contragolpear com sinceridade.

– Foi ela quem veio aqui! – gritou. – Foi ela!

Do outro lado da linha, silêncio. Após alguns segundos de tensão, o delegado sussurrou:

– Só estou ligando para pedir ajuda para a delegacia...

Era alguma maldita ação comunitária.

Meu amigo teve de, primeiro, se homiziar na casa dos pais e, depois, se mudar de bairro.

Lembrei dessa história ontem, quando entrevistamos o senador Roberto Requião, no Timeline. Ele falava do Uruguai, por telefone. Foi uma conversa mais ou menos previsível, até que, já nas despedidas, o Potter, sem nenhuma segunda intenção, perguntou:

– O senhor está fazendo o que no Uruguai? Comprando carne?

O homem se espinhou. Rosnou:

– Ô, rapaz, se tu estivesse na minha presença, tu tinha recebido um tapa no focinho por essa pergunta.

Nós todos nos assustamos, a pergunta era descontraída, no tom do programa, sem qualquer malícia. O Potter ainda tentou se explicar, mas Requião chamou-o de moleque e desligou o telefone, nos deixando embasbacados.

Requião se comportou como meu amigo, ao receber o telefonema do delegado.

Será, talvez, alguma culpa recôndita? As culpas, às vezes, gritam sem o dono da culpa perceber.