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segunda-feira, setembro 22, 2014


22 de setembro de 2014 | N° 17930
EDITORIAL

O JOGO DA DESCONSTRUÇÃO

O eleitor espera que a tática da desqualificação do oponente seja substituída pela apresentação de propostas menos superficiais e evasivas.

Algo está muito errado numa democracia quando a tática da desqualificação do adversário se transforma, pela insistência, no aspecto mais percebido das campanhas políticas. O cenário brasileiro indica que a troca de acusações parece ter ultrapassado, a duas semanas do pleito, os limites da crítica a possíveis defeitos e deficiências dos oponentes e de seus planos de governo.

Tem prevalecido, na reta final, a retórica do ataque, não só entre os candidatos que lideram as pesquisas. O que fica dos debates e dos programas na TV e no rádio é a sensação generalizada de que as agressões se sobrepõem à apresentação de propostas. O objetivo é a imposição de uma pauta diversionista, que em nada contribui para a qualidade da campanha e o esclarecimento de pontos de vista.

Compreende-se que, numa disputa acirrada, as posições críticas possam até preponderar, em determinados momentos dos confrontos. Tanto que, segundo os cientistas políticos, a ausência de duelos verbais numa eleição pode ser também o sinal do empobrecimento do debate e do distanciamento da população em relação ao que está em disputa. Por isso são aceitas, como parte da exposição de ideias, as atitudes de quem, na tentativa de impor suas ideias, deprecia a trajetória e as propostas dos adversários. Também é assim que se areja o ambiente democrático, ou a política seria uma atividade condenada ao tédio e à desimportância.

Mas a tática do ataque e da desqualificação não pode ter a hegemonia de uma campanha, como parece acontecer no Brasil, no instante em que as pesquisas indicam oscilações e as mais variadas possibilidades. Além de rebaixar o debate, a linha agressiva adotada por alguns candidatos retira do eleitor a possibilidade de avaliar as reais intenções dos concorrentes. São relegados a um segundo plano os que, eventualmente fora dos confrontos, ainda tentam defender uma postura propositiva.


O país fica sem saber o que os pretendentes à Presidência da República e aos governos estaduais defendem para questões específicas e urgentes, e os planos se diluem em abordagens genéricas, que poderiam ser defendidas por qualquer candidato. O dado positivo, indicado pelos analistas, é o do possível esgotamento da estratégia. O eleitor espera que os concorrentes retomem a apresentação de propostas, desde que não subestimem, com projetos evasivos, a inteligência de quem vai decidir a eleição.

22 de setembro de 2014 | N° 17930
ARTIGO - PAULO BROSSARD*

PROPAGANDA ENGANOSA

Sou obrigado a quebrar a desejada unidade temática do artigo, aliás, já difícil pela redução do espaço a ele reservado, e me sujeito a fatiá-lo, uma vez que vários são os temas dignos de registro. O primeiro diz respeito à suposta separação da Escócia do Reino Unido, com mais de 300 anos de existência e efeitos continentais se fosse aprovada. De resto, o caso não seria indiferente a mais de uma nação e à própria organização internacional.

Especialmente à Inglaterra. Contudo, o caso foi no sentido de manter o consórcio e com isto o Reino Unido, que foi vitorioso na grande guerra, mas enfraquecido, terá continuidade e serão evitados efeitos funestos à sociedade das nações sob vários aspectos.

a) Isto posto, entre os “objetivos fundamentais da República”, mencionam-se como indesejáveis influências derivadas “de origem, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, art. 3º IV da Constituição. No entanto, não tem faltado a criação de “cotas” pendentes a preservar explícitas prescrições constitucionais.

É de notar-se, porém, que o respeito à decisão judicial transitado em julgado tem provocado estranhas reservas sob alegação de denominadas “forças sociais”; desnecessário dizer que esta concessão pode levar a outra de piores efeitos, envolvendo a própria competência do Poder Judiciário, o que importaria na negação da ordem constitucional.

b) A Constituição assegura a qualquer pessoa permanecer calada, e ainda agora determinada autoridade 18 vezes respondeu a todas as inquirições feitas com um “nada a declarar”. Contudo, se calar é reconhecido como uma prerrogativa que dispensa justificação, o silêncio pode ser interpretado.

c) Com pesar, verifico que o horário eleitoral gratuito, destinado a ser uma prerrogativa partidária, transformou-se em sua negação. Em vez de ideias e propostas de candidatos ou de partidos, parece obra de marqueteiros a burilar uma publicidade falsa. Inexiste o compromisso com a realidade e o que é prometido dificilmente poderá ser cumprido. Seria o caso de indagar se, invés do Código Eleitoral, não seria mais útil recorrer ao Código de Defesa do Consumidor diante da propaganda enganosa.


*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

22 de setembro de 2014 | N° 17930
PAULO SANT’ANA

Só casa e comida

Nada se compara ao sofrimento do meu cachorro, o Kunga, da raça lhasa.

Quando sai para a rua o último dos humanos que permanecia em casa, ele deita-se na solidão da casa abandonada e fica à espera de que alguém volte.

É um abandono digno de dar pena.

Ele se deita no assoalho do corredor e lança seu olhar de imediato para a porta de entrada, esperando pelo nada por horas a fio. E ninguém chega para consolá-lo.

É verdade que deixamos para ele a ração num pote no chão e uma vasilha de água.

Mas de que adianta esse suprimento se a solidão esmigalha o ser?

Duas ou três horas depois, hão de voltar os três habitantes da casa para finalmente fazer-lhe companhia.

Mas como ele preenche essas três horas?

Certamente com grandes aflições.

A comida está garantida para ele, mas não basta a comida para realizar qualquer ser vivo.

É preciso atenção, companhia, que são garantia do seu sono. Enquanto não as tiver, será assaltado pela incerteza terrível: voltarão os três seres humanos, eu, minha mulher e minha filha, para aconchegá-lo ou serão por exemplo vitimados por um acidente na rua e não mais retornarão, deixando até de garantir-lhe a água e a comida?

Ele precisa menos da água e da comida do que da companhia dos outros três habitantes da casa.

E quando irrompe na porta um dos três companheiros, é de ver a sua euforia, sacode de modo frenético o rabo, está definitivamente realizado.

Tenho certeza de que o ponto central da sua existência é a volta à casa dos três humanos.

Ele alcança então o ápice da sua estreita vida.

Meu cãozinho de quatro anos de idade é castrado, não sei quem lhe fez essa suprema maldade, se os meus parentes ou se o dono que mo vendeu.

Não precisa pois de sexo, o coitadinho, nem lhe passa pela cabeça o devaneio do sexo.

Tirem de um homem ou de uma mulher a ilusão do sexo e lhe tirarão tudo.

Só lhe restarão quem sabe a comida e a companhia solidária. Não será pouco?


Com grande atuação de Geromel, o Grêmio conseguiu uma vitória ontem sobre a Chapecoense e aproxima-se entusiasticamente do G-4.

22 de setembro de 2014 | N° 17930
DAVID COIMBRA

OS HOMENS DA VITÓRIA

A forma como Dudu comemorou o gol da vitória contra a Chapecoense diz muito do que é o Grêmio de Felipão. Dudu correu para abraçar o treinador na lateral do gramado, e atrás dele correram praticamente todos os outros jogadores do time. O pulo de Dudu deu nos braços de Felipão foi tão entusiasmado, tão arrebatado, tão... agradecido, que chegou a machucar o técnico. Dona Olga, agora, deve estar curando algum roxo na base do queixo do marido.

Não foi por acaso que usei a palavra “agradecido”. Dudu decerto que sabe da sua dívida para com Felipão. Porque Felipão apostou nele, na sua velocidade, na sua capacidade de enfrentamento do adversário a drible, fixou-o no ataque, na ponta, e esperou. Felipão provavelmente disse a Dudu que, com tempo e confiança, ele voltaria a fazer gols. Ontem fez um que valeu três pontos e a quinta colocação no Campeonato.

Felipão, a cada jogo, vai ajustando seu time. Está invicto há seis jogos e há cinco não toma gols, descobriu Wallace, fixou Dudu na frente e Geromel atrás, promoveu Fellipe Bastos a centro técnico do time e Biteco a titular, e, para arrematar, aparafusou Barcos dentro da grande área de ataque. Os resultados do Grêmio não estão acontecendo por acontecer. Existe uma mão consciente movendo as peças.


No Inter não é muito diferente. Abel, por mais criticado que tenha sido, continuou confiando no seu centroavante. Colocou-no no time no segundo tempo e foi ele, o vaiado e espezinhado Rafael Moura, o autor do gol da vitória. Dudu e Rafael Moura, os homens das vitórias, são também os homens de seus treinadores.

22 de setembro de 2014 | N° 17930
L.F. VERISSIMO

Pós-Fukuyama

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado. O muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não tem mais a certeza de um futuro só deles nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita. Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vítimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto devem ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam. Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?


Num livro recém publicado, a ex-mulher do François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer. A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

domingo, setembro 21, 2014

Pessimildo x Otimildo: por que o governo dá boas razões para temer o pior

Daniel Jelin

Na tentativa de neutralizar os críticos, campanha petista lança cruzada pelo pensamento positivo. Em entrevista ao site de VEJA, o filósofo inglês Roger Scruton, autor de "As Vantagens do Pessimismo", analisa os riscos do "otimismo inescrupuloso"

Pessimildo, o ranheta da propaganda petista


Pessimildo, o ranheta da propaganda petista (Reprodução/VEJA)

Um ranheta contumaz que torce para que o Brasil dê errado. É essa a imagem que a candidata Dilma Rousseff tem de seus críticos, a julgar pela cruzada contra o pensamento negativo que o PT levou ao horário eleitoral essa semana. A campanha é estrelada por um boneco batizado Pessimildo, de sobrancelhas grossas, olhos cansados e queixo protuberante — parece uma mistura do Seu Saraiva, o personagem de Francisco Milani no Zorra Total; com Statler, o crítico rabugento dos Muppets;

Carl, o viúvo solitário de Up - Altas Aventuras; e Gru, o vilão de Meu Malvado Favorito. No vídeo levado ao ar, Pessimildo passa a noite em claro "para ver o pior acontecer" e se diverte com a perspectiva de que o desemprego cresça no Brasil — o que, hoje, é bem mais do que uma perspectiva. Um narrador de tom jovial faz pouco caso do fantoche: "Vai dormir, vai'.

Pessimildo é uma caricatura, mas bastante reveladora das obsessões da campanha petista. Desde o início da corrida eleitoral, a presidente Dilma Rousseff tem atacado os "nossos pessimistas", que "desistem antes de começar". Para ela, como para seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, "pessimismo" se opõe a valores como "verdade", "vitória" e "progresso". "Pense positivo, pense Dilma (sic)", recomenda a campanha petista, à maneira dos manuais de autoajuda.

As armadilhas deste otimismo desmedido são analisadas em The Uses of Pessimism ("As Vantagens do Pessimismo", em edição publicada em Portugal), que o filósofo inglês Roger Scruton lançou em 2010.

Não se trata de defender a melancolia, a desesperança, a indiferença ou o ressentimento — o livro não tem nada de sombrio. Seu alvo é o "otimismo inescrupuloso". E, com frequência, o Otimildo da campanha petista é aquele que constrói sua mensagem com base em falácias, exageros, ilusões — ou na pura e simples manipulação da verdade e dos números.

"Pessoas verdadeiramente alegres, que amam a vida e são gratas por esta dádiva, têm grande necessidade do pessimismo — em doses pequenas o bastante para que sejam digeríveis", escreve Scruton


FERREIRA GULLAR

O sonho acabou

O que move defensores da legalização da maconha é a necessidade que têm de se opor ao que é 'careta'

Falando com sinceridade, confesso que não consigo entender a razão que leva certas pessoas a defenderem a legalização do uso da maconha, e entendo menos ainda quem defende o mesmo para as drogas mais pesadas.

Mas fiquemos na maconha. Os defensores de sua descriminalização valem-se de argumentos que exaltam as virtudes dessa erva. Segundo eles, a maconha possui virtudes medicinais inegáveis.

Para outros, ela é inofensiva e deve ser liberada para lazer, muito embora, conforme afirmam médicos psiquiatras e pesquisadores, trate-se de uma erva com inegável poder alucinógeno.

Eu mesmo, que não sou médico, garanto-lhes que a maconha provoca alucinação e o digo por experiência própria, por fatos ocorridos com meus filhos e com meus amigos.

Em alguns desses casos, poderia ter morrido alguém, tal o descontrole em que ficaram os maconhados.

É verdade que isso não ocorre com todo mundo, pois também conheço gente que fuma maconha há anos e nunca agrediu ninguém. Mas, se alguns podem ser levados ao delírio, por que dizer que essa erva não é ofensiva? Aliás, ela abre caminho para as drogas pesadas.

Argumentam eles que o álcool é pior que a maconha, mas não é proibido. Pode ser, mas estou certo de que muito menos gente consumiria bebida alcoólica se isso fosse proibido, o que é inviável.

No Brasil, são milhões de alcoólatras, causando uma despesa, para tratá-los, de mais de meio bilhão de reais aos cofres públicos.

A legalização da maconha certamente levará ao aumento de consumidores e das despesas com seu tratamento. O que o país ganharia com isso? O certo seria uma campanha educativa em larga escala para mostrar aos que ainda não usam drogas que usá-las é autodestruir-se.

Posso estar enganado, mas percebo, em meio a essa polêmica pela legalização da maconha, algo mais que uma simples disputa em defesa da saúde ou do direito de todo cidadão usufruir do que lhe dá prazer.

Na verdade, o que move alguns dos defensores da legalização é a necessidade que têm de opor-se ao estabelecido, ou seja, ao que é "careta".

Para entender o problema basta lembrar como foi que tudo começou, quando se drogar se tornou o modo de afirmação dos jovens. Esse foi um fenômeno de abrangência mundial, ligado à nova música que tomou conta da juventude nos anos 1960 e 70. A guitarra elétrica e a entrega ao delírio das drogas são frutos de um mesmo momento.

Esse fenômeno teve o seu ápice nos espetáculos musicais que reuniam dezenas de milhares de jovens e que eram uma espécie de entrega coletiva ao delírio ampliado pelo consumo de cocaína, maconha, ácido lisérgico e tudo o mais.

Com o passar dos anos, alguns dos ídolos desse período morreram de overdose, enquanto os que sobreviveram continuaram cantando e tocando, mas já envelhecidos e fora de moda como o prestígio das drogas que, não obstante, apropriadas pelos traficantes, consolidaram-se num mercado internacional clandestino, que movimenta bilhões de dólares.

Assim, a dependência, nos viciados, tomou o lugar do sonho (que acabou), enquanto a sociedade burguesa, que aquela geração abominava, voltou a ser vista como o caminho mais seguro a seguir.

Por outro lado, a repressão contra as drogas se intensificou, mas sem grandes resultados. Daí a tese de que o mal maior é o tráfico e que a legalização das drogas acabaria com ele.

Acabaria mesmo? Para que isso aconteça será preciso manter a venda de drogas no nível atual (ou certamente ampliado) e que o comércio legal passe a comprá-las dos produtores clandestinos, na Colômbia, na Bolívia, no Paraguai e sabe-se onde mais. Isso porque, se a oferta de drogas aos viciados não for satisfatória, eles recorrerão aos traficantes.

A mais nova proposta é que a legalização das drogas seja feita por todos os governos do mundo. Se isso ocorresse, os governos teriam que criar uma espécie de ministério específico, com centenas ou milhares de funcionários para atender a produção, distribuição e venda das drogas e, ao mesmo tempo, preparar-se para o tratamento médico de uma população de dependentes que, com a liberação, como as bebidas e o cigarro, atingirá a casa dos milhões e milhões.


Pois é, e tudo isso por culpa dos Beatles e dos Rolling Stones.
HELOISA BRENHA DE SÃO PAULO

Com água de reúso, Grande SP teria mais 2 Cantareiras

Técnica que 'recicla' esgoto pode ser usada para abastecimento, diz especialista

Professor afirma que uso de medida em cinco estações de esgoto na Grande SP poderia gerar água para 4,8 milhões

Na Grande São Paulo, um estoque de água equivalente a dois sistemas Cantareira, capaz de sanar a crise de abastecimento, é ignorado.

Essa é a visão do professor de engenharia hidráulica da USP Ivanildo Hespanhol sobre os cerca de 60 mil litros de esgoto que calcula serem produzidos na região metropolitana a cada segundo.

Uma das maiores autoridades do país em reúso, ele defende que a técnica seja usada para "reciclar" a água, tornando-a própria. Compartilham dessa perspectiva especialistas como a relatora da ONU para a questão da água, Catarina de Albuquerque, para quem é preciso "olhar o esgoto como recurso".

No Brasil, a água de reúso não é usada para beber, mas para processos como limpeza de calçadas, irrigação de jardins e na produção industrial.

Ainda falta regulamentar seu emprego no abastecimento, como em cidades inteiras de países como EUA, Austrália e Bélgica --muitas delas misturando a água de reúso com a convencional.

"Temos cinco estações que tratam esgoto em nível inicial. Poderíamos completar o tratamento incluindo mais etapas, capazes de tornar a água potável", diz o professor, que comanda o Cirra (Centro Internacional de Referência em Reúso de Água), da USP.

Ele afirma que só nessas cinco estações, seria possível obter mais 16 mil litros de água potável por segundo para a Grande São Paulo, o suficiente para abastecer cerca de 4,8 milhões de pessoas.

Segundo o professor, não há estimativas dos custos para implantar o reúso potável na região metropolitana, mas cerca de 2/3 dos gastos referem-se à rede distribuidora ""que já existe e poderia incorporar a água "reciclada".

Ele diz que o custo de produção é mais alto --nos EUA, mil litros de água de reúso potável saem por cerca de US$ 3, mais que o triplo da comum--mas compensa se comparado à construção de sistemas de abastecimento.

Para efeito de comparação, o sistema São Lourenço, uma obra de R$ 2,2 bilhões, que trará água de uma represa a quase 100 km da capital, produzirá 4.700 l/s a partir de 2017.

"A tecnologia do reúso já é avançada o suficiente para produzir água limpa e segura para beber. Há parâmetros para controlar sua qualidade, que pode superar a da água captada dos rios", diz.

Ele cita o caso da represa Billings (zona sul), de onde são retirados 4.000 litros de água por segundo para abastecer a Grande São Paulo --o suficiente para atender cerca de 1,2 milhão de pessoas.

"A Billings recebe esgoto de uma sequência de rios muito poluídos: Tamanduateí, Tietê e Pinheiros. E sua água já é captada para abastecimento", afirma.

A Sabesp tem gastos altos para preservar a represa e monitorar a qualidade de sua água. Segundo seu último relatório de sustentabilidade, em 2013, foram R$ 48,4 milhões em um programa envolvendo a Billings e sua vizinha Guarapiranga --onde até há remoção de plantas e lixo.


Segundo Hespanhol, a poluição de cursos d'água pode encarecer o tratamento convencional e gerar um "reúso inconsciente e não planejado" em diversas regiões do país.
ELIANE CANTANHÊDE

Gatos e ratos

BRASÍLIA - "Não é função da imprensa fazer investigação", decretou a presidente e candidata Dilma, numa das suas entrevistas diárias no Alvorada a uma multidão de representantes da própria imprensa.

No fundo, Dilma queria dizer: "A função da imprensa é publicar as versões oficiais, as declarações que eu quero e tudo o que contribui com a minha campanha e atrapalha a dos os meus adversários".

Não chegou a tanto, mas disse que nenhum órgão da imprensa tem o status da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo, esses, sim, aptos a investigar e/ou julgar. E o PT, tem ou não?

O partido nasceu, cresceu, encorpou e ganhou a Presidência, entre 1980 e 2002, justamente em aliança com a PF, o MP e... a imprensa, vasculhando tudo e todos e criando duas categorias de políticos no país: "nós, os puros e éticos, e todos os outros, impuros e antiéticos".

Quem comandou as investigações e a CPI que aniquilaram Collor, hoje amigão de Lula e aliado de Dilma? Quem esteve por trás da divulgação dos escândalos envolvendo qualquer um não petista? O PT, que entrou para a história como o grande partido ético e o grande partido de oposição.

Era ele quem, infiltrado em diferentes instâncias da máquina pública, levantava as suspeitas, fazia dobradinha com policiais e procuradores e pautava os jornalistas. Eles iam à luta, confirmavam a veracidade, colhiam os detalhes e faziam as manchetes. Ou seja, investigavam.

O PT não resistiu à mudança de posição. O gato virou rato, e a imprensa, de "amiga", passou a "inimiga", quando não foi e não é nem uma coisa nem outra. Apenas deve cumprir o seu papel, inclusive o de investigar.

Graças a ela, o país soube dos escândalos dos governos de Sarney, FHC, Lula e Dilma. Entram aí o mensalão, o doleiro camarada, os Correios, o Banco do Brasil, a Petrobras.


Não seja ingrata, presidente! O Brasil precisa cada vez mais dos jornalistas investigativos.

sábado, setembro 20, 2014


21 de setembro de 2014 | N° 17929
MARTHA MEDEIROS

Obrigação

Uma pesquisa revelou que 61% dos eleitores rejeitam a obrigatoriedade do voto. A desilusão com a política é apontada como um dos motivos. Sendo o voto um instrumento de transformação, eu jamais abriria mão dele, mesmo que fosse opcional, mas concordo: quem dera todos votassem por consciência em vez de fazerem uni-duni-tê em frente à urna apenas por dever cívico. Obrigação é uma palavra que me arrepia. Desde garota. Passei a infância desejando crescer porque intuía que a espontaneidade vivia no lado maduro da existência.

Sei que cada criança processa os ensinamentos que recebe através de um código muito particular, mas o fato é que eu me sentia numa camisa de força. Horário de ir para cama, ter que raspar o prato mesmo estando sem fome, a televisão racionada, o dever de só tirar notas boas. Obrigações que resultaram numa mulher responsável e bem-criada, ao contrário de tantas outras crianças que fazem o que bem entendem e viram adultos mimados e despreparados para lidar com frustrações. Só que, aos oito anos de idade, eu não sabia nada sobre pedagogia. A teoria sobre criação de filhos não fazia parte do meu repertório. Eu só sabia das minhas vontades. Eu queria ser livre porque me parecia o único jeito de ser honesta com meus sentimentos e pensamentos.

Não queria fazer nada por obrigação. Nem comer, nem dormir, nem ser feliz por obrigação. Considerava uma violência quando, ao perguntar aos adultos “por que desse jeito?”, ouvia como resposta “porque sim e pronto” ou “porque é assim que tem que ser”.

Obedecia militarmente “a hora certa” de fazer as coisas como se houvesse um relógio universal regendo uma orquestra de bons moços a serviço do andamento do espetáculo. Não que me fosse custoso cumprir. Só era custoso entender.

Pior do que me comportar como “todo mundo” era viver uma afetividade também regida por regras. Não parecia que as pessoas se encontravam por saudades, por afinidades ou para repartir calor humano. Parecia obrigação também. A obrigação das datas festivas. A obrigação dos domingos. A obrigação dos parentescos.

Ai de mim se gostasse mais de uma avó do que de outra. Ou se não quisesse sair do quarto para jantar. Ou se me recusasse a ir à missa. Ao colégio eu sabia que tinha que ir, não questionava. Só questionava o que me parecia facultativo.

Apesar dos meus “facultativos” não baterem com os dos meus pais, optei por não dar trabalho, segui a cartilha da boa menina. Fiz minha parte e eles a deles – benfeita, diga-se, ou não seria quem sou.


Mas quem eu sou mesmo? Cumpridora, pontual, educada, porém, hoje, profundamente intolerante a tudo o que não for espontâneo, ao teatro das convenções, às blindagens contra a intimidade, ao que serve apenas para manter a orquestra tocando.

21 de setembro de 2014 | N° 17929
ANTONIO PRATA

Garagem

Sempre achei acordar um negócio terrível. Seja cutucado pela luz ou estapeado pelo despertador, abro os olhos com um profundo sentimento de injustiça: por que já?! Por que eu?! Tende piedade, Senhor, dai-me mais cinco minutinhos – e abençoai, se tiverdes tempo, o inventor da “Função Soneca”.

Quando eu era adolescente, pensava que o problema fosse a escola. Afinal, quem quer sair da cama às 6h da madrugada pra estudar adjuntos adnominais e alcalino-terrosos? (Melhor ficar adjunto do travesseiro, como que embalado por alcaloides-celestiais.)

Anos mais tarde, já livre da gramática e da tabela periódica, passei a achar que o sofrimento viesse dos freelas chatos que eu tinha que encarar, logo depois do café: um capítulo sobre sustentabilidade na produção de celulose pro livro comemorativo de vinte anos de uma fábrica de guardanapos; a matéria 10 programas nota 10 neste Dia das Crianças, pra revista Kids; a revisão dos textos publicitários a serem estampados sobre a imagem de crianças loiras correndo num parque, no fundo de uma caixa de cereais – “Funflakes é pura diversão!”.

Agora, porém, virando de um lado pro outro na cama, dividido entre a preguiça e a culpa, tento amaldiçoar alguma tarefa enfadonha que supostamente me aguarda na primeira esquina depois da escova de dentes, mas não encontro nada horroroso por lá. Hoje é quinta, dia de escrever a crônica. Gosto de escrever a crônica.

Da sala, vêm os gritinhos da minha filha. Tenho saúde, amor, amigos, uma churrasqueira e, além de tudo, faz sol lá fora, esse sol da primavera que não está aí para solapar ninguém, mas para deixar o céu mais azul e a grama mais verde, como no parque em que corriam as crianças loiras, na caixa de “Funflakes”. Acordar, no entanto, não é “pura diversão!”: acordar continua sendo um saco.

Sei que reclamo de barriga cheia. 99% da humanidade desperta pra vidas bem piores que a minha. Passam os dias a apertar parafusos, cruzam montanhas atrás de água, fogem de balas e leões. Um terremoto na Conchinchina, contudo, não nos impede de reclamar da nossa dor de dente. Acordar é a minha dor de dente.

Olha, eu não faço o tipo blasé, que se arrasta por aí com a cabeça baixa e um olhar superior, como se a inteligência levasse inevitavelmente ao niilismo e o comentário mais sagaz sobre a existência fosse o bocejo. Desconfio desses tipos, aliás: acho que o que move essas casmurrices é muito menos um arraigado ceticismo do que um apurado senso estético. “um homem com uma dor”, escreveu Leminski, “é muito mais elegante/ caminha assim de lado/ como se chegando atrasado/ andasse mais adiante”.). Não, não faço esse tipo. Uma vez acordado e de banho tomado, existir me parece um programa bem razoável. O meu problema não é no carburador, é no motor de arranque.


Pensando bem, não há nada de estranho nisso. Sou um carro a álcool do fim dos anos setenta. Antes de ir pra rua, tenho que ficar um tempo na garagem, esquentando. Sou um velho Passat verde. Não, Passat é muita presunção, sou uma Brasília, uma velha Brasília bordô. Talvez escreva sobre isso, mais tarde. Mais tarde: agora, aperto a “Função Soneca” do despertador e viro de lado, agradecendo ao Senhor por mais cinco minutinhos nas brumas dessa garagem.

21 de setembro de 2014 | N° 17929
FABRÍCIO CARPINEJAR

O coração cuspindo

Quando você não tem como resgatar uma história de amor, meu amigo, meu irmão, o coração vai cuspindo. O coração está gripado. Está doente. Você respira bem, mas o coração não. Não criaram uma aspirina para o coração.

Não tem como tomar um remédio. Ou esquecer. Seu coração cospe o nome dela, as imagens dela em cada tentativa de romance. As mulheres com quem vai sair não notarão o seu peito apertado. O seu peito confrangido. O seu peito constrangido. O seu peito doendo a falta de esperança.

Mas, entenda, seu coração vai cuspir muito ainda. Talvez seja pneumonia do coração. Seguirá com a vida porque não tem o que fazer: ela arrancou o futuro da relação, a esperança, ela não mudará, continuará lhe destratando, sendo grosseira, muda, fria, insensível.

Ela não dará jamais as respostas que deseja. A saúde que espera. O arrependimento que anseia. Cuspirá, meu querido. Nas calçadas e nos canteiros, cuidando para não ser visto. Um exorcismo que não termina, fracassando para jogar fora o excesso não vivido a dois.

Sofre da nostalgia do que não viveu e não viverá mais. Ela não merece seu amor - o que agrava a sua angústia. Pertencimento e merecimento não andam lado a lado, descobriu isso, infelizmente.

Você já cansou de rezar. A tosse é o cansaço da memória. O cansaço do silêncio. O cansaço de Deus. O cansaço da insistência: esta insistência cansada na desistência. O amor pulsa inteiro entre palavras quebradas. O amor bate inteiro com a fé estraçalhada.

Tudo foi piorando de tal forma que ou você afundava junto com ela, humilhado, ou você emergia, sozinho e ferido. Todo amor a uma mulher deve coincidir com o amor à vida.

Seu coração tosse quando janta acompanhado em um restaurante diferente e percebe que sua ex poderia gostar de um prato, da decoração, quando seu pedido no cardápio é mais o pedido dela do que o seu, quando você tem vontade de sair dali para contar para ela que precisa conhecer um novo restaurante, que é a sua cara.

Mas ela não escutará você. Porque estará de mau humor, estará cobrando novamente, sempre insatisfeita, sempre infeliz.

Você tentou fazê-la feliz e ela somente lhe machucou. Já conclui que ela odeia sua felicidade, ama seu amor e odeia sua felicidade. Não dará importância à sua poesia, aos seus detalhes, ao tempo que leva reunindo a saudade de lugar a lugar para oferecê-la.

Seu coração tosse sem parar quando busca se envolver com uma pretendente. Depois da euforia do sexo, da inconsciência do sexo, ficará com uma vontade imensa de se isolar e mandar a companhia embora. Terá que ser educado para disfarçar a tosse e não transmitir a sensação que usou a pessoa. Você vem se usando, não usando ninguém.

A tosse é indelicada e convence seu rosto a mergulhar na tristeza. Não consegue conversar, pois seu coração quer cuspir. De novo e de novo.

Você não fala mais com ela. Você não telefona. Você não manda mensagens. Você não tem nenhum motivo ou pretexto. A tosse é a paixão sufocada. A paixão por dentro sem voz, sem comunicação, sem nada.

Ela tampouco imagina que seu coração está cuspindo. Seu coração cospe. Intervalos longos em que o mundo para e desaparece. Seu coração resmunga. Seu coração não é seu, ainda é dela, até quando?

21 de setembro de 2014 | N° 17929
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

Era só um pardal

Vinha caminhando pelo bulício do centro de Boston e vi um ajuntamento. Seis ou sete pessoas em roda, olhando para baixo, para algo na calçada. A cena deu uma espetada na minha curiosidade. O que seria? Parei. Fui lá.

Era um passarinho.

Um pardal vulgar, cinzento, desses que pousam em todos os cinamomos de Porto Alegre, que são encontrados em qualquer cidade do mundo, seja em meio aos pombos da Praça de São Marcos, em Veneza, seja debaixo do grande cartaz do Mao, em Pequim. Devia estar passando por alguma dificuldade, o pardal, porque pardais não ficam parados para que pessoas os contemplem em roda, pardais, no máximo, podem colher uma migalha de alimento de uma mão humana e logo alçam voo preventivo para o galho mais seguro.

Um pardal com problemas de saúde, era o que havia ali. E os humanos em volta discutiam vivamente, em bom inglês bostoniano, o que fazer dele. Não fiquei para descobrir a que conclusão chegaram, tinha lá meus compromissos. Mas segui caminho intrigado com o interesse dos americanos pelo pardal, e perplexo com minha própria insensibilidade aviária.

Tenho a maior simpatia pelos pardais, esses sobreviventes da urbe, esses personagens quase invisíveis do asfalto duro, mas não sei se participaria de um seminário para decidir o futuro de um deles, como faziam os bostonianos. Um gato ou um cachorro, talvez; um canarinho amarelo-vivo, certamente; mas um pardal... Realmente, não sei se um pardal ganharia 15 minutos do meu dia. Por isso, admirei aqueles americanos. Estavam me dando uma lição.

Será que os new yorkers fariam o mesmo? Nova York tem lá suas selvagerias. Você passa um tempo em Boston e, quando vai a Nova York, se espanta com a sujeira, por exemplo. Há ratos do tamanho de um gato, em Nova York. Tantos ratos, que alguns nova-iorquinos saem à noite com seus cães, a fim de caçá-los. Mandaram-me um filme em que uma dessas ratazanas gigantes é a protagonista. Ela passeava preguiçosamente pela fachada de um edifício, meio desafiadora. Tinha o rabo da grossura de uma mangueira de jardim e era gorda como um pequeno leitão. Um troço assustador.

O trânsito da Big Apple também não tem nada da paciência civilizatória dos motoristas da Nova Inglaterra. Outra noite, eu e a Marcinha fomos a um lugar muito bom chamado Minetta Tavern, recomendo vivamente para você que está vindo a NY. Estávamos em meio à animação do Green Village, já próximos da dita taverna, quando um carro parou na frente do nosso táxi, fechando a rua. Dele desceu uma moça de minissaia curtíssima e pernas longuíssimas. Ela saiu ondulando pela calçada, enquanto o motorista do táxi abriu a janela e reclamou em tom nada amigável. Sem nem se virar, a menina ergueu o dedo médio, mostrou-o para o taxista e se foi, rindo com todos os seus dentes alvíssimos faiscando na noite, sempre com aquele dedo em riste, enquanto o motorista desfiava palavrões na língua de Shakespeare. Olhei para a Marcinha e comentei, não sem antes fazer um entediado tsc-tsc:

– Na nossa Boston isso nunca aconteceria...

Lembro de uma cena do grande filme Perdidos na Noite em que o caubói interpretado pelo Jon Voight, ator também conhecido pelo título de O-Homem-Que-Gerou-Angelina-Jolie, caminha por Nova York, acho que pela 5ª Avenida, e vê um sujeito caído na calçada. O homem deitado está de paletó, bem vestido, não parece um mendigo. Jon Voight se detém um segundo, olha, hesita, está prestes a se agachar para ajudá-lo, mas as centenas de passantes ao redor fazem o que em geral fazem passantes: passam. E nem sequer olham para o corpo estendido no chão. Voight, então, desiste de se deter e também segue seu rumo.

Se nova-iorquinos não ligam para um semelhante em apuros, por que se abalariam por um insignificante pardal? Se bem que aqueles eram nova-iorquinos dos anos 70. Nova York mudou, desde então. Tornou-se uma cidade menos violenta e, com menos violência, tornou-se mais calma, as pessoas passaram a reparar mais nas outras pessoas, o que não deixa de ser uma mensagem para nós, brasileiros: a violência embrutece a todos, mesmo os que só tomam conhecimento dela de ouvir falar e por notícia de jornal.


Assim, fico aqui com minha angústia: um pardal combalido terá chance de sobrevivência na cidade que nunca dorme? E no avesso do avesso do avesso do avesso? E na cidade maravilhosa? E naquela cidade que um dia foi chamada de “Cidade Sorriso” e que hoje não sorri mais, vive tensa por ataques de sequestradores de semáforo e flanelinhas riscadores de carro? Eis aí uma medida de humanidade, uma medida de civilização. Como queria, um dia, me tornar tão humano a ponto de mudar meu dia por um pardal ferido.

21 de setembro de 2014 | N° 17929
PAULO SANT’ANA

A delação premiada

Estou agora aqui escrevendo a minha segunda coluna depois da minha volta das cirurgias.

E constato que, até o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa ter sido pilhado em corrupção, nunca antes se havia topado com corrupção na estatal do petróleo.

O que quer dizer que ali onde menos se espera é que há um ninho de ladrões se corrompendo.

Agora, o ex-diretor da Petrobras corrupto foi levado a Brasília para depor no Congresso. E lá se recusou a falar. Mas é lógico, ele já tinha falado para um delegado federal e para um procurador em troca de delação premiada.

O que iria ganhar para falar na CPI? Nada. Então, não falou.

O negócio quente da delação premiada ele já tinha feito, era melhor não falar no Congresso para não se complicar.

Paulo Roberto Costa se corrompeu no governo Lula. Continuou como diretor de Abastecimento da estatal no governo Dilma.

Mas a presidente Dilma teve um cutuco e demitiu-o do cargo, sem alarde, sem inquérito, mesmo porque então não se tinha descoberto nada contra ele.

E agora, em seguida, estourou o escândalo.

Paulo Roberto Costa, diz o noticiário, denunciou já 23 políticos envolvidos no recebimento de propina em troca da delação premiada.

Ou seja, havia corruptos de montão na volta da Petrobras, escondidos com a aparência de honestos.

É a tal coisa, se não se fizesse o acordo de delação premiada com ele, não se descobririam os corruptos.

A delação premiada é eticamente um trambolho moral. Mas em nome da apuração real dos fatos ela é erigida. Engole-se assim a delação premiada como uma espécie de útil falcatrua processual.

Em nome dela, livra-se um dos indiciados e põem-se na cadeia aqueles que ele delatou.

É uma transação negocial altamente discutível no campo ético.

Paulo Roberto Costa, como Eike Batista, terá que retornar à classe média. Como agora estão-lhe sendo sequestrados seus patrimônios oriundos da corrupção, talvez ele tenha que mudar de vida. Terá mesmo enriquecido com a corrupção e empobrecido com a descoberta de sua infração?

Mas será que está entregando tudo que roubou de volta para as autoridades? Ou escondeu um pouco do produto roubado?


Nunca se sabe...

21 de setembro de 2014 | N° 17929
L. F. VERISSIMO

Maus modos

Se fossem os índios que tivessem desembarcado em Portugal e ficado, pode-se imaginar o que estaria acontecendo por lá hoje, 500 anos depois. A irritação dos portugueses com os visitantes teria chegado ao máximo, e ninguém disfarçaria seu descontentamento. “Mas esses gajos não vão embora?” Passados 500 anos, e não havendo mais dúvidas de que os visitantes não eram turistas, só a boa educação explicaria que a visita se prolongasse sem protestos, sem nenhuma indireta.

Foi a boa educação dos nativos daqui que permitiu aos portugueses e outros europeus se estabelecerem no Brasil. Houve revoltas esparsas, é verdade, mas foram exceções. Em geral, os índios foram amáveis com os visitantes. Gostaram dos brancos e até comeram alguns, no que podem ser descritas como provas de afeição extrema.

É possível que a tolerância com os “descobridores” se devesse a, mais do que bons modos, um mal-entendido. Haveria a expectativa entre os nativos de que os portugueses cedo ou tarde iriam embora. Quem fica na terra dos outros durante tanto tempo sem ser convidado?

O mal-entendido e os bons modos atravessaram a história da conquista do Novo Mundo, que só era novo para os conquistadores, pois estava aqui, e habitado, há séculos. Roubo, genocídio, catequese forçada, tudo teria sido tolerado com o pressuposto de que era temporário. Afinal, por pior que uma visita se comporte em sua casa, existem os deveres da hospitalidade. Vá que a visita se sinta ofendida por alguma reação impensada e decida ficar ainda mais tempo.

Finalmente, 500 e tantos anos depois, não parece haver mais dúvida de que não era apenas uma visita e os invasores não eram turistas. Acabou o mal-entendido e acabaram os bons modos. A nova insubmissão às mentiras da História oficial é uma insubmissão a todas as versões oficiais de todas as histórias de subjugação e exploração neste lado do mundo e serve como padrão para a revolta contra qualquer tipo de “bullshit”, ou bosta de touro, vigente, como a da nossa velha e conveniente cordialidade e nossa harmonia racial.


Negros brasileiros – para pegar apenas um exemplo de maus modos – se revoltam contra antigos estereótipos, levantam a voz contra uma história decididamente malcontada e pedem justiça mesmo que tardia. Já os índios, se pudessem, proporiam aos portugueses devolver os espelhinhos e as miçangas e receber de volta o Brasil. Mas isso seria, literalmente, pedir demais.

WALCYR CARRASCO
16/09/2014 07h00 - Atualizado em 16/09/2014 08h55

O amor é interesseiro

Estou aqui, com mais de 60, há alguns anos sozinho e me considero, enfim, na roda. E daí?

Amar é difícil. Principalmente, porque a gente costuma se apaixonar por alguém que não existe e coloca todas as expectativas na primeira pessoa que aparece pela frente. Bastam alguns miados e pronto – já se fala em amor, em compromisso e relação. Você e eu somos românticos, apesar de todos os ossos que tivemos de roer na vida. Acreditamos naquele amor puro, translúcido como um cristal. Ah, meu Deus, será que algum dia existiu? Só se for na imaginação dos escritores românticos.

Mesmo um grande autor de livros românticos como Machado de Assis a certa altura mudou de gênero. Tornou-se realista e criou uma suspeita Capitu, que ninguém nunca saberá ao certo se traiu – nem mesmo seu sofrido marido, Bentinho. O que terá feito Machado de Assis tornar-se realista? Talvez tenha descoberto que o amor não é um sentimento único como um vaso de alabastro, mas um conjunto de sensações e, sim, interesses.

Estou aqui, com mais de 60, há alguns anos sozinho e me considero, enfim, na roda. Sempre ouço perguntas, se tento um novo relacionamento.

– O interesse não é porque você é autor de televisão? – Tem certeza de que não é pela grana? – Será que gostam de você por você mesmo?

Aí me faço a pergunta: quem sou eu mesmo? Que identidade é essa, única, inexplicável, que define uma pessoa? A alma? Mas alguém está habilitado a decifrar minha alma? Sinceramente, nem eu! Meu corpo? Uau! Depois dos 60, é preciso ser sincero consigo mesmo. Não ganharei mais o título de Mr. Brasil, não serei campeão de natação, muito menos terei barriguinha de tanque. Posso fazer um esforço para não me tornar um barril, mas é isso aí. “Eu mesmo” é uma entidade que não existe de modo absoluto. E se fosse mendigo e pedisse esmola nas ruas? Seria “eu mesmo”? Em tese, continuaria a mesma pessoa. Mas meus sentimentos, raivas, aparência física seriam bem diferentes. Talvez me apaixonasse por alguém que me oferecesse um prato de macarrão. Perdidamente! Sim, poderia continuar a ser um sujeito sensível.

Mas alguém descobriria, se eu catasse lata pela rua? E se tivesse seguido uma de minhas outras vocações e fosse pesquisador de biologia, área que amo? Ou historiador (cheguei a cursar até o 3o ano da faculdade de história da USP)? Meus papos seriam outros, minhas companhias também, talvez até meus dentes. As possíveis vidas que poderia ter tido (um acidente, uma deficiência também contam) me levariam a diferenças na forma de ser. Talvez nem sorrisse – mas grunhisse diante de uma existência malévola. Não seria esse “eu mesmo” que sou agora. Recentemente, um ator famoso, com mais de 80, casado com uma moça na casa dos 20, rebateu as críticas:

– Ela cuida de mim agora. Quando me for, cuidarei dela.

Sim, ela pode ter interesse na herança. E daí, se proporciona uma vida agradável a seu velhinho? Conheci uma mulher de família rica que, depois de dois maridos, casou-se com o personal trainer. Um cara ótimo. Ajuda com os filhos dela, nos cuidados da casa, tudo. Aceita alegremente os luxos que ela proporciona. Ouvi muitas críticas ao rapaz. Mas quem é o interesseiro? Ele no dinheiro dela? Ou ela em seu corpo jovem, musculoso e na dedicação? Para mim, é apenas uma troca justa. A gente costuma ser dramático e achar que, um dia, ela aparecerá estrangulada, enquanto ele foge com as joias. Na maioria dos casos, não é o que acontece. Eles vivem a relação, sentem-se felizes, e acham que isso é amor.

Fui criado para acreditar no sentimento avassalador, do príncipe que dança com Cinderela e se apaixona perdidamente. Bem, vamos combinar, Cinderela era interesseira. Nem conhecia o rapaz, mas, já que era príncipe e tinha castelo, casou. O príncipe provavelmente era podólatra, pois saiu de sapatinho na mão, em busca do pezinho da moça. Não importavam o rosto, os cabelos cheios de cinzas e gravetos, nada. Só o pezinho. Não diz a lenda que foram felizes para sempre?

Meses atrás, um amigo diretor, já bem maduro, saía com uma moça lindíssima, cobiçada pelo país todo. Perguntei:

– Mas ela gosta de você?

Ele respondeu, sábio: – Sabe, sou um pacote. Do pacote, ela gosta sim.


Nunca ouvi maior verdade. Sou um pacote, você provavelmente também é. É esse o grande segredo do amor. Não é uma coisa única, quase uma entidade que nos possui. Mas um belo pacote, bom de desembrulhar.

20 de setembro de 2014 | N° 17928
ARTIGO - MARCELO RECH*

PIOR DO QUE ESTÁ, FICA

Ao longo da sua história, o povo brasileiro foi sendo simplificado por estereótipos, que são, como se sabe, carimbos para poupar explicações e economizar palavras. Honesto ou desonesto, trabalhador ou preguiçoso, cordial ou violento – qualquer definição se encaixa na gigantesca e diversificada floresta de índoles dos mais de 200 milhões de brasileiros. Tentar enquadrar o brasileiro em uma sentença, portanto, é uma temeridade que leva a exclusões das complexas camadas e teias de grupos sociais que se movimentam pelos 8,5 milhões de quilômetros quadrados.

Mesmo assim, diante do andar da carruagem desta e das eleições até onde a memória alcança, vou arriscar em tascar mais um estereó- tipo no sacrificado povo brasileiro: nós somos politicamente ingênuos. O.k., você pode não se sentir assim. Afinal, você lê jornal, compara biografias, estuda planos de governo, perscruta a história e até a alma dos candidatos que escolhe para falar em seu nome e decidir o seu futuro e o da sua família. Mas, convenhamos, a imensa maioria não age assim.

Tome-se o exemplo de São Paulo, para valermo- nos de certo distanciamento. São Paulo não é o sul do Brasil, onde há mais tradição política, mas também não é o Nordeste e o Norte, onde coronéis e capitães do mato ainda dão o tom em algumas eleições.

Pois esta São Paulo, tão educada e industrializada, está para, segundo pesquisa do Ibope, escolher entre seus deputados federais mais votados os seguintes expoentes da política nacional: Tiririca (o palhaço que arrebanhou 1,34 milhão de votos em 2010 e não fez nenhum discurso na Câmara Federal), Celso Russomano (um comunicador de TV da linha sensacionalista), Paulo Maluf (tirem as crianças da sala, por favor), Baleia Rossi (filho de um ex-ministro da Agricultura removido sob suspeita de corrupção) e Pastor Feliciano (que, a cada ataque dos movimentos gays, contabiliza mais 10 mil votos).

Não culpem os paulistas. Há dias, em Brasília, eu questionava alguns locais sobre como podia liderar as pesquisas um ex-governador que ostenta o título de ter sido o primeiro ocupante desse cargo no Brasil a ser preso em pleno mandato, que foi filmado embolsando maços de dinheiro e que foi condenado e encarcerado por improbidade. Os eleitores da capital do Brasil querem um ladrão pego em flagrante a governá-los?

Não se incomodam em devolver um corrupto ao poder? O tal candidato acabou renunciando para não ser barrado na Ficha Limpa, mas entronizou o vice e a mulher para disputar em seu lugar. Uma emenda tão ruim quanto o soneto. O “rouba mas faz” explica muito sobre o que almejamos ser como nação.

Nós (certo: eles, os brasileiros, para não brigarmos) somos ingênuos porque terceirizamos responsabilidades e acreditamos que os outros vão nos salvar. Ficamos boquiabertos com os torcedores japoneses quando constatamos que eles limpavam as arquibancadas nos estádios da Copa. Aliás, outro dia, ao amanhecer, vi um casal varrendo sua rua em Porto Alegre. Eram japoneses. Eles o fazem por uma razão simples: os japoneses, como tantos povos mais civilizados, não esperam graças de terceiros e assumem para si a tarefa de resolver os problemas da forma mais prática e objetiva possível. Já nós (eles, os brasileiros) acreditamos que tudo deve e vai ser providenciado pelo governo.

O grande papai no poder vai contratar mais funcionários, vai aumentar seus salários, vai assegurar mais benesses, vai dar vale-isso e vale-aquilo, vai erguer todas as obras, vai varrer a corrupção e a violência, não vai reduzir nenhuma despesa e, deusnoslivre, não vai aumentar impostos. Estamos em eleições para cargos terrenos ou divinos? Depois, quando os milagres viram pó, vêm a desilusão, a descrença, o desânimo ou a revolta de termos sido iludidos.

No fundo, este cenário de inexperiência e ingenuidade política se deve ao fato de o Brasil seguir aprisionado em três mundos paralelos. Um é letrado, paga impostos pesados mas é compelido a contratar serviços privados e quer se livrar das amarras coloniais para chegar ao Primeiro Mundo. O segundo é o planeta oficial e seus entornos, que vivem do extrativismo estatal e que são sempre a favor dos sacrifícios, contanto que sejam dos outros.

Por fim, há um Brasil vasto, profundo, popular – cortejado por todos e enganado por muitos. Os três países se veem pouco, vivem em bolhas, em um apartheid político que mantém a discussão rasa e o futuro incerto. Enquanto esses três Brasis não amadurecerem e convergirem para uma agenda mínima, os bravos Tiriricas Pior-do-que-está-não-fica seguirão em suas intrépidas trajetórias rumo ao poder de nosso tão vilipendiado e inocente Brasil.


marcelo.rech@gruporbs.com.br