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quinta-feira, maio 28, 2015


28 de maio de 2015 | N° 18176
ARTIGOS - GRAZIELLE ARAUJO*

O HAITI É AQUI?

Ao abrir os jorn a i s , d e p a r o com matéria s sobre a chegada de 300 haitianos no Estado. Entre as notícias, há informações de que receberão curso de português e que uma empresa do ramo de estacionamentos já disponibilizou 50 vagas para os imigrantes. Uma discussão sobre de quem é a responsabilidade – federal, estadual ou municipal – reina em cima do assunto.

Diante de tudo isso, me questiono: e os brasileiros que estão sem emprego? E os analfabetos que mal sabem assinar o seu nome? Será que chegamos mesmo a esse estágio, o de receber imigrantes e dar a atenção devida a eles? Como ficam os nossos?

Pode ser hipocrisia, talvez até um certo egoísmo, mas penso que deveríamos fazer primeiro a lição de casa. Sermos exemplos de um povo que beira o mínimo de taxa de analfabetos, de desempregados e de famílias em vulnerabilidade. E a realidade está, infelizmente, bem distante disso.

Vieram ao Brasil buscar refúgio, enquanto, por aqui, estamos procurando o nosso lugar ao sol. Triste constatação, mas não estamos prontos para resolver problemas que não são nossos, mal administramos a nossa realidade. O Haiti está pior do que nós, pura verdade.

Desde o terremoto de 2010, a população foi devastada. Mas o que a nossa pátria amada pode fazer, além de ser gentil? Vamos resolver o problema dessas pessoas, que nos veem como uma única luz no fim do túnel? Ou seremos responsáveis, mais uma vez, pelas coisas não darem certo?

Longe de mim ter pensamentos pessimistas, primo sempre pelo otimismo. Mas essa infinidade de perguntas ainda está sem resposta. Somos exemplo? O que temos mesmo para oferecer? Não há estratégia nacional organizada para acolher essas pessoas.

O governo federal não sabe como melhorar a acolhida. Só que, antes disso, deveria se dedicar a abraçar os milhares de lares que estão abandonados pelas autoridades que prometeram mundos e fundos. Até agora, observamos. O corte de benefícios, a errata de discursos e a incansável busca pelo tempo perdido. O Brasil precisa primeiro tomar jeito para, depois, ter a manha e o orgulho de resolver problemas que não nos pertenciam.


*Jornalista

28 de maio de 2015 | N° 18176
ARTIGO -LEONARDO OLIVEIRA*

VOLTEI DE BOGOTÁ COM INVEJA

Osorriso dos bogotanos evidencia a satisfação com o momento que vivem. Não é para menos. Percebe-se fácil a mão do Estado para beneficiá-los. Trata-se de uma capital que, entre os carros e as pessoas, ficou com as pessoas. Os passeios são largos e ajardinados. As ciclovias se estendem por 269,3 quilômetros, conforme o site oficial da cidade.

As ciclorrutas, como eles chamam, estão integradas aos BRTs, criados há 15 anos pelo prefeito Enrique Peñalosa, que veio a Curitiba copiar a ideia. Os articulados zunem por 104 quilômetros de corredores de concreto. Em cada estação envidraçada e ampla (e sem pichações ou cartazes de shows baratos), há boxes com ganchos para que os ciclistas pendurem suas bicicletas. São saídas para amenizar o trânsito pesado, que ainda exige rodízio de placas na hora do rush.

Bogotá é uma cidade para ser conhecida a pé – apesar da altitude. A segurança se faz presente nas ruas. É ostensiva. Tanto a pública quanto a privada, em que homens caminham sempre ladeados por cães. A luta contra o narcotráfico foi vencida, mas é nítido que a Colômbia não baixa a guarda. Labradores são parceiros inseparáveis de policiais e seguranças. Farejam veículos na entrada do estacionamento dos shoppings enquanto o porta-malas é revistado.

Quem entra a pé no shopping também passa por revista, com detector de metais. Ninguém reclama ou franze o cenho. Os bogotanos sabem o quanto foi dura a vida. E quanto ela melhorou. Por isso sorriem e se orgulham da sua cidade.


E isso, confesso, me fez trazer na mala uma ponta de inveja.

28 de maio de 2015 | N° 18176
DAVID COIMBRA

O traidor da pátria

A professora avisou que iríamos discutir uma reportagem do New York Times em aula. Tive medo. Entenda: assino o Times “de papel”. Sou daqueles que gostam de apoiar o tornozelo direito no joelho esquerdo e abrir o jornal em cima da canela, enquanto bebo café. Ocorre que quase nunca há nada sobre o Brasil no NYT.

O correspondente, que, se não me engano, mora no Rio, deve viver na praia.

Dias atrás, porém, saiu uma matéria alentada, de capa, a respeito da violência da polícia brasileira. Compreensível: violência policial é o assunto do ano nos Estados Unidos.

Meu medo era de que a professora tivesse trazido justamente essa matéria. Não que queira esconder a realidade, mas não gosto de falar mal do Brasil para estrangeiros. Nós que tratemos de nossas mazelas internamente.

Bem. Era a maldita matéria.

O texto começa com a morte daquele menino no Complexo do Alemão, no mês passado, e segue descrevendo o “massacre de crianças e adolescentes pela polícia”. A folhas tantas, um diretor do Instituto Sou da Paz declara que a classe média brasileira “aceita assassinatos feitos pela polícia como uma prática legítima”.

A classe média. Sempre aprontando...

Os outros alunos me olharam, e havia certa censura no olhar deles. Preferi calar. Mas, por deboche do destino, esse gozador, havia um brasileiro novo na aula. Era a primeira vez que aquele cara aparecia, um economista de algum lugar como, sei lá, Goiânia. Esse brasileiro era desinibido e ficou excitadíssimo porque estavam falando do Brasil. A todo instante, fazia intervenções:

– Recomendo que vocês nunca visitem o Rio! Nunca! Lá, as pessoas são assassinadas a facadas em pontos turísticos!

Todos me olharam de novo.

– Não é bem assim... – tentei argumentar. – Existe violência em algumas regiões, como em qualquer lugar, mas o Rio é a cidade mais linda do mundo. Vale a pena ver.

– Na Lagoa! – gritou o brasileiro. – Estão matando na Lagoa!

– Mas as pessoas não são presas no Brasil? – perguntou a chinesa.

– São, claro. Há 500 mil presos no Brasil e...

– Mas eles são soltos! – atalhou o economista. – Presos de manhã e soltos à tarde!

– É verdade? – quis saber o russo neoliberal.

– É verdade, mas existem 500 mil presos. Quer dizer: muita gente está presa, mesmo que muita gente seja solta quando é presa...

Vi que eles ficaram confusos. E eu também. Como explicar aquilo? E em inglês?

– Os presídios lá são desumanos! – interrompeu o espanhol comunista.

– E a polícia mata crianças! – acrescentou a ucraniana, já levemente emocionada.

– Não é bem assim – protestei, temendo que a ucraniana chorasse. – No meu Estado, por exemplo, é diferente. Eu sou do sul do Brasil, e lá...

Mas ninguém me deixava concluir. A italiana havia se virado para o espanhol comunista e comentava, para que todos ouvissem:

– Eu li que os presídios do Brasil são horríveis, pior que pena de morte.

– Você deve ter lido sobre o Pizzolato – observei. – Esse caso é complicado. Esse homem é um ex-diretor do Banco do Brasil que foi condenado por corrupção. Ele alegou a má condição dos presídios brasileiros para não ser deportado, mas, na verdade...

– Ah, o Pizzolato! A corrupção no Brasil! – exaltou-se o economista. – Vocês tinham que ver o que é a corrupção no Brasil!

Suspirei. As chamas da revolta consumiam a aula inteira. A ucraniana estava prestes a chorar. Olhei para o brasileiro traidor da pátria.

– Não basta a Alemanha? – rosnei, em português.


Ninguém entendeu. Ele, sim.

28 de maio de 2015 | N° 18176
L. F. VERISSIMO

Quinta divisão

Há dias, escrevi aqui que o Paris Saint-Germain era o Racing de Paris com outro nome. Ledo e ivo engano. O leitor Chico Izidro me corrigiu: o Paris Saint-Germain nasceu em 1990 da fusão do Paris de Football Club e do Stade Saint-Germain. Quanto ao Racing, faliu, voltou cambaleante e hoje está na quinta divisão francesa. Talvez eu já soubesse isso e tivesse apagado da memória por razões sentimentais. Racing era o nome do meu time de futebol de calçada, quando garoto.

O time não tinha uniforme, não tinha escudo, não tinha nada, mas tinha o nome forte. Só não me lembro se o homenageado era o Racing de Paris ou o Racing de Buenos Aires. De qualquer maneira, não envergonhamos o nome. Por pior que fôssemos, jamais cairíamos para uma quinta divisão.

Um país da quinta divisão da União Europeia, a Grécia, está assustando os da primeira divisão com sua rebeldia. A Grécia é o primeiro país em que a reação à receita de sacrificar a maioria para resolver a crise tomou forma política. Foi eleito um partido de esquerda disposto a não seguir o caminho da austeridade, e sua atitude malcriada está assustando todo o mundo.

A reação ganhou uma cara e um estilo na figura do ministro da Fazenda escolhido pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, Yanis Varoufakis, que tem percorrido a Europa falando com os chefes da economia com o que o International New York Times chamou de uma “voz desafiadora” e não deixando ninguém menos nervoso com o que diz.

Varoufakis tem pinta de rock star, usa casacos de couro e anda de motocicleta, e o que tem dito para os seus pares europeus é que a crise tem um componente moral que não pode ser omitido do debate econômico. Não é moral que uma geração inteira seja martirizada para debelar uma crise da qual ela não é culpada. Seus críticos dizem que a União Europeia não é lugar para pruridos morais e que o importante é seguir as regras para que o mercado comum sobreviva e que, no caso de uma debacle do mercado, a maior prejudicada seria a própria Grécia.


Varoufakis contra a “troika” – a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI, que pregam a austeridade doa a quem doer – pode ser comparado a um Racing x Paris Saint-Germain. Mas quem garante que um time da quinta divisão, ou até o meu Racing de calçada, não possa um dia derrubar um PSG do seu pedestal? Só não faça apostas.

quarta-feira, maio 27, 2015




27 de maio de 2015 | N° 18175

MARTHA MEDEIROS


  • Mexicanas

    “Ando tão mexicana...” Certa vez, coloquei essa queixa na boca de uma personagem de um livro para resumir como ela se sentia depois do fim de um amor. Ela chorava muito, tinha reações extremadas, dramatizava sua situação como se estivesse enfiada num vestido floreado e com uma flor vermelha no cabelo: uma mulher sofrendo sem nenhuma sobriedade.

    O que eu sabia do México na época em que escrevi o livro? Que era um país colorido, apimentado e de emoções exuberantes – certamente eu estava induzida pela imagem que tinha de Frida Kahlo, cuja vida e obra se misturaram adquirindo uma potência que é hoje reconhecida por todos. O México me parecia um país cuja história e costumes estavam sempre escancarados, um país sem bastidores, apenas palco. Sofrer com sobriedade é para escandinavos, não para latinos.

    Uma visão estereotipada, reconheço, mas depois de ter conhecido o México, de onde voltei recentemente, pude comprovar que eu não estava tão enganada. É um país que não engaveta seu passado e cujas cores berrantes nas fachadas, no artesanato e nos murais são um atestado de bravura e de orgulho. O México se expõe. Eu tinha razão ao adjetivar como mexicana uma mulher com suas feridas abertas.

    Só não sabia que isso nada tinha a ver com vitimização.

    Voltemos a Frida: teve poliomielite aos seis anos de idade. Aos 18, sofreu um acidente de ônibus que deixou sequelas graves – um pedaço de ferro entrou pelo seu quadril e saiu pela virilha. Passou por 35 cirurgias. Engravidou três vezes – e três vezes sofreu abortos espontâneos, não conseguindo realizar o desejo de ser mãe. Foi amada por seu marido Diego Rivera, mas teve que dividi-lo com várias outras mulheres, entre elas sua irmã mais próxima. Esse é apenas um resumo acanhado da biografia da pintora, sem entrar no mérito de sua arte e de seu engajamento político. Frida passou por dores torturantes, tanto físicas quanto emocionais, e em nenhum momento a gente tem dela a imagem de uma coitada. Por quê?

    Porque, ainda que ela tenha revelado todo o seu drama nas telas que legou ao mundo, choramingar não era seu verbo. Viver, sim. Sofreu sem jamais perder o viço, o gosto e o entusiasmo pelos dias.

    O sofrimento é um velho conhecido de todos nós, mas costumamos ter pudor com nossas lágrimas. A maioria das pessoas reparte sua infelicidade só com dois ou três amigos, às vezes com ninguém. Poucos sofrem com a vitalidade de Frida, que transformou sua dor em uma causa.

    Quando minha personagem disse “ando tão mexicana”, ela não sabia o que falava e eu não sabia o que escrevia. Ambas reclamando de uma intensidade que só hoje reconheço como virtude. Agora sei que sentir-se mexicano é um elogio, não um estigma.

27 de maio de 2015 | N° 18175
MOISÉS MENDES

A missão de Levy

Nada é mais excitante para quem torce contra o governo do que imaginar a saída do ministro da Fazenda. Para Joaquim Levy, a questão pode ser outra: nada pode ser mais ameaçador do que se imaginar de volta ao banco, para cuidar de rotinas tediosas com assessores entediantes. Ou alguém imagina que Levy pode ter alguma vantagem trocando a aventura no governo pela pachorra de um banco em que a decisão mais aguda a tomar envolve a calibragem do juro?

Bancos têm de decidir hoje se o juro do cartão será de 290,3% ou de 289,5% ao ano. Há quem diga, e não são poucos, que esse é um juro de exceção. Que a taxa de atraso no pagamento do cartão é a punição para os que não sabem controlar seus gastos. Sabemos muito bem quem são os punidos com esse juro.

O juro-aberração do cartão pune o povo desinformado sobre as armadilhas financeiras e o assalariado que se perdeu nas contas ou perdeu o emprego. Não há espertos entre devedores dos cartões. O devedor do cartão é o enforcado que pode inviabilizar sonhos e projetos por anos, porque o banco decidiu que ele deve pagar o juro mais alto já praticado em toda a história da humanidade.

Nenhum agiota, desses que quebram dedos de devedores, se sentiria moralmente autorizado a multiplicar por quatro, em apenas um ano, a dívida de quem comprou uma geladeira e não consegue pagá-la. Mas, no Brasil, tudo é normal.

A taxa do cartão ficou agora próxima do patamar de março de 1999, quando o juro básico (a tal Selic) era de 44,95% ao ano. A Selic é hoje de 13,25%. Saberemos um dia, quem sabe, por que lidamos com naturalidade com o absurdo do juro no Brasil, como se a mais brutal transferência de renda para o setor financeiro estivesse no contexto do que é assustador e ao mesmo tempo razoável.

Joaquim Levy não cuidava de juros no Bradesco, nem cuida disso no governo, porque essa é uma tarefa do Banco Central. Era chefe da gestão de ativos, a área que trata da engenharia financeira. Imagine o mais poderoso ministro de Dilma, incumbido até de tarefas políticas pelo Planalto, de volta à sua sala no banco, onde a rotina será de despachos limitados ao campo de visão de seus subordinados.


A ampla missão de ajudar a salvar o Brasil – um país que pode acabar a qualquer momento, segundo alguns videntes – seria reduzida à tarefa de assegurar rentabilidade ao patrimônio do banco que o emprega. Seria pouco para Levy. Mas esse é o grande sonho da oposição.

27 de maio de 2015 | N° 18175
EDITORIAL

IMIGRAÇÃO ORGANIZADA É MAIS HUMANITÁRIA

Um país formado por imigrantes não pode negar receptividade humanitária para estrangeiros que buscam sobrevivência e vida digna em seu território, mas para garantir uma acolhida eficaz é preciso de um mínimo de organização.

A chegada crescente de haitianos e africanos exige uma política de imigração clara e transparente, além de mobilização efetiva das autoridades para que a legislação seja cumprida e para que os migrantes tenham oportunidades efetivas e não venham apenas engrossar o cinturão de miséria que cerca as grandes cidades brasileiras.

Trata-se de um tema complexo, que não pode ser encarado com simplificações. Em primeiro lugar, é urgente acionar os mecanismos diplomáticos internacionais e os organismos policiais para controlar o tráfico humano e a clandestinidade. Para tanto, o ingresso de estrangeiros nas fronteiras brasileiras precisa ser efetivamente fiscalizado – evidentemente, sob a ótica de respeito aos direitos humanos, mas também de combate ao crime.


Outras preocupações devem ser evitar que os estrangeiros sejam jogados de um lado para o outro e também fiscalizar as relações trabalhistas para que não sejam explorados por empregadores inescrupulosos. Se as autoridades e lideranças da sociedade não agirem logo, com organização e não com improvisos, poderá crescer o já latente sentimento de rejeição e xenofobia que começa a aflorar nas redes sociais, num momento em que muitos brasileiros também se preocupam com o desemprego e com a deterioração das condições de vida no país.

27 de maio de 2015 | N° 18175
ARTIGOS ZH - CLAUDIO LAMACHIA

MAIS UM DEBOCHE COM O CIDADÃO

Há poucos dias, o Congresso Nacional, ao não derrubar o veto da presidente da República à correção da tabela do Imposto de Renda, perdeu uma extraordinária oportunidade de fazer a justiça social que tanto se espera dele. Agora, foi a vez de o Executivo devolver o gesto ao sancionar sem veto mais uma sangria dos cofres públicos, ofertando R$ 867,5 milhões para a festa dos partidos.


Ao que tudo indica, as vozes das ruas não estão efetivamente sendo ouvidas por nossos representantes. Como pode um país que se diz sem condições econômicas para atualizar a tabela do IR ou para investir em políticas públicas básicas, como saúde, segurança e educação, triplicar a verba partidária para facilitar o financiamento dos partidos políticos?

O que pode e deve a sociedade pensar de tudo isso? Em 1994, o fundo partidário era de R$ 729 mil. Um custo de R$ 1,4 mil por deputado. No mesmo período, o salário mínimo era de R$ 64,79. Neste ano, o custo bate em R$ 1,662 milhão por deputado. Aumento de 1.586% em 21 anos, com o que é justo se concluir que o salário mínimo deveria ser de R$ 77.127, se tivesse aumentado na mesma proporção do fundo partidário.

Há legendas que têm como fonte de renda apenas o dinheiro público. Ou seja, não possuem qualquer representatividade junto à sociedade. Atuam como siglas de aluguel, mantendo boa vida àqueles que se utilizam das brechas legislativas para uso indevido de algo que deveria ser tão nobre.

Uma sociedade que se pretenda justa, igualitária e democrática não pode aceitar tamanho desrespeito. Estamos assistindo mais uma vez ao Congresso Nacional legislando contra o cidadão, agredindo frontalmente a sociedade e arranhando os alicerces da democracia.

E não se diga que a ampliação do fundo partidário é necessária justamente para que se afastem as empresas das campanhas. A OAB defende o fim do financiamento por empresas porque entende que, como está hoje, é um dos principais alicerces da corrupção.

Defendemos, sim, mas com a manutenção do financiamento privado por pessoa física, com limitações das contribuições. Nosso atual modelo político está esgotado e todos sabemos disso. Falta apenas os nossos representantes!


*Advogado e vice-presidente nacional da OAB

27 de maio de 2015 | N° 18175
DAVID COIMBRA

Seja assassinado corretamente

Os Titãs estavam errados. Pobrezas são mais diferentes do que riquezas. Ser pobre na Alemanha é uma coisa. Vá ser pobre no interior da Síria, quero ver se você é macho.

No Brasil, o pobre tem sua quota de sofrimento, como sói acontecer com pobres, mas pelo menos ela vem cercada por uma aragem de santidade. O pobre, no Brasil, é pobrezinho, fica em geral entre a vítima e o herói. É por isso que Mujica, por levar uma vida simples, sem ambições materiais, gera tanta louvação entre brasileiros.

As pessoas se encantam: oh, ele anda de Fusca. Ei! Eu não tenho carro, não tenho relógio, nunca tive máquina fotográfica, meu celular, foi o Juninho quem me deu, praticamente não compro roupa, mas quem diz que, por essa razão, posso ser presidente do Uruguai?

Não, eu não teria capacidade para ser presidente do Uruguai, nem de nada além. Aí está uma coisa que nunca serei: um presidente. Fico triste. Queria ser um presidente.

O Mujica, sim, ele foi presidente, e parece ter sido bom. Então, é por isso que admiro o Mujica, não por ele andar de Fusca. Qualquer David pode andar de Fusca, mas você terá de ser um Mujica para ser presidente.

No Brasil, a pobreza tem certa beleza, o que até rende rima. Ao rico está reservada profunda antipatia, mas quem diz que o rico se importa com isso? Ele não está nem aí. Ele está no Caribe.

Agora, a classe média, sim. A classe média, no Brasil, é um caso diferente das outras classes médias. Porque, no Brasil, a classe média tem os ônus das outras classes médias, sem usufruir dos bônus. Em todos os países do mundo, é a classe média quem sustenta a economia, paga os impostos, consome e produz.

Você mede a justiça social de um país pelo tamanho da sua classe média. No Brasil, também. Mas, no Brasil, a classe média, chamada com desdém de “pequena burguesia”, é desprezada. Intelectuais do governo, como aquela professora da USP, proclamam: “Eu odeio a classe média!”, e um ex-presidente da República ri à grande ao ouvir isso.

A classe média paga impostos para a educação, a saúde e a segurança, e também escolas particulares, planos de saúde e vigilância privada. A classe média gasta em dobro, mas não deve reclamar, porque, supostamente, ela está se sacrificando em nome da felicidade dos pobres. É o que o governo alega. O governo é dos pobres, os pobres agora rodam em carros melhores do que o Fusca do Mujica, viajam de avião e fazem faculdade. Os pobres brasileiros são felizes. E a classe média, se não está contente, é egoísta.

A classe média não aprende a se resignar nem quando morre. Outro dia, um médico foi esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas porque um sujeito precisava da bicicleta que ele pedalava. Um latrocínio na Lagoa, à luz do sol, equivale a um na Times Square, na Fontana di Trevi, no Portão de Brandemburgo ou no pátio do Palácio de Buckingham.

Como reagiriam os Estados Unidos, a Itália, a Alemanha e a Inglaterra se isso ocorresse? Com escândalo, obviamente. Seria um absurdo impensável. Manchetes. Revolta. Afinal, se não existe segurança num lugar turístico desses, imagine no Harlem, na Suburra, no Mitte ou em Stratford? Um assassinato como o da Lagoa, em outros países, traumatizaria a população não pela vítima, mas pelo local em que ocorreu.

No Brasil, não. No Brasil, os intelectuais gritaram: “Por que não falam tanto assim dos mortos pobres dos morros?”.


É preciso ter cuidado, neste nosso país de paladinos intelectuais. No Brasil, você tem de ser assassinado na classe social certa.

terça-feira, maio 26, 2015


26 de maio de 2015 | N° 18174
CARPINEJAR

:-( >:-( x-(

Não existe maior frustração que somente falar por emoticons e emojis.

É uma praga infantil.

Tem sido um mico participar de grupos no WhatsApp. Das 140 mensagens, 138 são de carinhas, corações, joaninhas e bichinhos.

Não se encontra nenhuma frase inteira, com nexo, verdadeira, inspirando reações diferentes e singulares.

Quem recorre aos emojis e emoticons não prioriza a conversa que trava com você. Não é importante o suficiente para receber a dedicação exclusiva do texto.

É uma sensação de descarte e superficialidade. Aquele que insere um macaquinho ou um gatinho dá a ideia de distração, de ocupação, de envolvimento simultâneo em diversas janelas. Deseja se livrar da resposta o quanto antes.

Somos mais selos do que correspondência. Emburrecemos emocionalmente. Regredimos para atender ao maior número de contatos e não deixar ninguém esperando. O falso excesso de amigos vem atrofiando nossa percepção do mundo.

Uma mãe de 50 anos hoje é capaz de estar se comunicando igualzinho à sua filha de cinco anos. Trocou sua maturidade pela velocidade.

Voltamos ao jardim da infância da linguagem. Nem é o pré, só falta colocar avental com o nosso nome bordado e fazer fila indiana.

É fofinho usar uma carinha ou outra, mas não sempre e indiscriminadamente. Torna-se decepcionante como receber um ok depois de escrever vários parágrafos para alguém.

Não tem como não se indispor. Você faz uma longa declaração de amor e recebe um dedo para cima. Você explica suas dificuldades familiares em cuidadosa linha de raciocínio e ganha duas palmas coladas rezando.

Não há aquele esforço de parar e refletir e encontrar a melhor expressão, de fugir do repertório básico, de inventar arranjos e improvisos de pensamento.

Se alguém demora muito para digitar, levará pedrada. Toda demora sugere mentira. Pois a pausa é malvista e o rigor com o outro é desprezado.

Derrapamos na imediaticidade que é pura preguiça. Concordamos, aplaudimos, festejamos e nos assustamos por símbolos.

Explicamos o que somos por desenhos, sem nenhum comprometimento e pessoalidade. Empregamos os mesmos códigos para qualquer um, esclarecendo se estamos felizes ou emburrados ou chateados ou surpresos, mas nunca definindo a particularidade de cada momento.

O celular apita várias vezes ao dia e, na maior parte, são adesivos de agendas escolares.

É o medo da expressão, é o medo da vírgula, é o medo das palavras erradas, é o medo das pessoas certas.


Não precisamos voltar a escrever cartas escritas a punho, mas tampouco precisamos amputar as mãos.

26 de maio de 2015 | N° 18174
EDITORIAL

REFORMA DA DISCÓRDIA

A dificuldade do Congresso de levar adiante um projeto de reforma política é ilustrativa da incapacidade dos parlamentares de ver além de seus próprios interesses. Há divergências sobre questões essenciais entre partidos e, internamente, entre integrantes de uma mesma bancada. Câmara e Senado não demonstram o menor entendimento sobre o tema, reprisando um comportamento que tem caracterizado a discussão do assunto nos últimos anos. Nesse ambiente, não surpreende que o debate passe ao largo de questões decisivas para a moralização da política, como a redução do número de partidos, para que sejam mantidos apenas os capazes de defender uma ideia programática com um mínimo de coerência.

Um dos assuntos mais discutidos, sem nenhum avanço, é o que se refere ao financiamento de campanhas, cujas distorções estão, comprovadamente, na origem da maioria dos casos de corrupção. A única novidade com alguma chance de avançar é a exigência de que as doações sejam feitas a partidos, e não a candidatos.

Se aprovada, a proposta reduziria ainda mais a transparência do processo, confirmando as previsões de que uma reforma poderia piorar ainda mais o que já é inaceitável sob o ponto de vista dos eleitores. Subsídios privados só existem porque os financiadores de candidaturas oferecem suporte a quem poderá, no poder, ser cúmplice de seus interesses.


Mesmo que sistema nenhum esteja totalmente isento de riscos, o Congresso tem a chance de considerar o financiamento privado apenas de pessoas físicas, dentro de um certo limite a ser fixado em lei. Estariam criadas as condições para o início de um maior controle das finanças de partidos e candidatos. Não fazer nada significa compactuar com um modelo viciado, que corrompe e distorce a própria democracia.

26 de maio de 2015 | N° 18174
EDITORIAL ZH

A SAÚDE NEGLIGENCIADA

Por mais que representantes das três instâncias da federação se esforcem em encontrar explicações, são inconcebíveis as desculpas para o fato de um elevado número de Unidades de Pronto Atendimento terem se transformado em verdadeiros elefantes brancos. Em todo o Estado, nada menos de 16 UPAs se encontram prontas, mas fechadas. Outras 15, atualmente em obras, correm o risco de seguir pelo mesmo caminho, por falta de acerto financeiro entre União, Estado e municípios.

Enquanto isso, milhares de pacientes ficam sem atendimento em seus municípios, contribuindo para superlotar ainda mais as emergências de hospitais das cidades de maior porte.

Integrantes do Sistema Único de Saúde (SUS), as UPAs têm como objetivo fazer a intermediação entre as Unidades Básicas de Saúde e os hospitais, tentando aliviar um quadro de sofrimento permanente para quem precisa de auxílio médico. Por isso, ainda que a escassez de verbas oficiais seja uma realidade, não dá para entender como políticos eleitos como gestores públicos não conseguem cumprir sua parte numa área da qual depende em muito a qualidade de vida dos cidadãos.


A sociedade gaúcha tem o direito de saber quem não está cumprindo a sua parte nesse caso e o que pode ser feito. Líderes políticos do Estado, particularmente os ligados aos municípios prejudicados, precisam reagir contra essa situação inaceitável, buscando providências imediatas para acabar com o impasse.

26 de maio de 2015 | N° 18174
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

QUE VOLTEM OS CRÍTICOS!

Luciano Alabarse publicou na semana passada uma coluna sobre a função da crítica. Volto ao assunto porque não me conformo com a ausência da crítica nos nossos jornais. O foco do texto do Luciano foi como as coisas devem ser ditas. O foco do meu texto é a necessidade de ser dito, seja como for.

Quando cheguei a Porto Alegre, 45 anos atrás, circulavam na cidade sete jornais diários – Folha da Manhã, Folha da Tarde, Correio do Povo, Última Hora, Zero Hora, Diário de Notícias e Jornal do Comércio. Neles, escreviam regularmente sobre teatro Fernando Peixoto, Aldo Obino, Antonio Hohlfeldt, Marcelo Renato, Décio Presser, Luiz Carlos Lisboa, Caio Fernando Abreu, Maristela Bairros, Claudio Heemann e alguns outros, inclusive eu. Hoje, de todo esse time, restou o Hohlfeldt, o último a resistir ao modelo jornalístico que aboliu a opinião especializada em nome da mercantilização da arte.

Mas volto às minhas reivindicações. Crítica é memória, polêmica, discussão. Troca, argumentação, diálogo. O crítico é aquele que percebe e proclama o novo ao mesmo tempo em que fareja e revela o equívoco e a incompetência. Uma arte sem crítica está ameaçada por perigos avassaladores, mediocridade, estrelismo, fórmulas prontas, modismos e muitas outras coisas que estacionam na periferia da criação artística.

E a função do crítico se amplia na medida em que o palco é um espaço de atualização do texto, de interpretação do texto, de contextualização do texto. Ainda mais em tempos de indefinição dos gêneros, teatro, dança, vídeo, performance, instalações e o diabo a quatro. Ainda mais diante da ação imperialista do modelo televisivo brasileiro. É aí que entra o crítico, o bom crítico, aquele que tem formulado para si o que a arte deveria ser, muito embora não hesite em colocar em dúvida todas as suas certezas ao se confrontar com um novo acontecimento teatral.


Que voltem os críticos! Até mesmo no estilo Paulo Francis – que o Luciano tanto odiava, mas que pelo menos dizia tudo o que devia ser dito.

26 de maio de 2015 | N° 18174
DAVID COIMBRA

A casa número 59

Esta foto não é do Kadão. É minha, um canhestro que nunca teve máquina fotográfica. Precária foto, portanto. Mas a imagem ilustra o que pretendo dizer.

Essa casa número 59 fica na periferia de Boston. Apesar da fachada pretensiosa, com pilares e tudo mais, trata-se de uma residência de classe média. Não classe média alta; média média. O jardim não tem cerca – fiz a foto pisando na grama. Note à direita, ao pé da escadaria, uma bola de basquete cor de laranja. Acima, uma caixa retangular de papelão – alguma mercadoria comprada pela internet. No outro lado, encostados na cadeira, estão um patinete e uma muleta.

É uma cena comum por aqui. As casas não são cercadas, e os moradores deixam suas coisas no alpendre ou no jardim: rádios, carrinhos de bebê, ferramentas, brinquedos, pequenos armários e todo tipo de encomendas, inclusive TVs.

Como pode isso? Por que ninguém rouba? Será a educação americana? Sempre ouvi que segurança pública se resolve com educação. Mas não pode. Aqui, vive gente do mundo inteiro. Já contei que só nas escolas de nível básico de um único distrito são faladas, oficialmente, 50 línguas. Brasileiros, por exemplo, há às dezenas de milhares.

Então, não é educação.

Policiamento ostensivo, talvez? Também não. É verdade que há bastante polícia, mas não em todo lugar. Quando tirei essa foto, a rua estava deserta. E não há câmeras de vigilância por lá.

O que poderá ser?

Direi: é a compreensão que existe nos Estados Unidos do que é a democracia.

A democracia é o cumprimento do que Rousseau chamava de “contrato social”. Todos os que vivem no país têm de cumprir esse contrato, que é definido pela lei.

Quem faz a lei? O povo, através de seus representantes no Legislativo.

Essa noção é fundamental: é o povo quem faz as leis. Quando alguém infringe a lei, agride o povo. Donde, nos julgamentos, se diz: “O povo versus fulano”. E, se você descumprir a lei, deve ser punido sem ponderações de qualquer ordem. A punição é dura e certa.

Aí está. Existe desigualdade nos Estados Unidos. Existe injustiça social nos Estados Unidos. Muita coisa errada ocorre todos os dias nos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos, desde a sua fundação, são uma democracia sólida, aceita e compreendida.


Por isso aquela bola laranja fica intocada no jardim. Porque democracia é mais do que voto. Democracia é saber que você tem de cumprir a regra que você mesmo escreveu.

segunda-feira, maio 25, 2015


25 de maio de 2015 | N° 18173
ARTIGOS -  CLÁUDIO BRITO*

POLÍTICA E DIREITO

Provocado e inspirado pelos estudantes de Direito da Unifra, em Santa Maria, que realizaram a 3ª Jornada Internacional Política e Direito, fui à cata de conceitos, pontos e contrapontos. Aristóteles, Bobbio, Ruy, Hungria, Iering e outros pensadores ocuparam minhas horas de leitura. Mas não esqueço de uma lição de João Dib, quando prefeito de Porto Alegre: fazer política e governar é eleger prioridades.

Em outras palavras, administrar a escassez. Fazer o bem comum, exercer o poder e realizar uma gestão transparente, honesta. E, então, o Direito jamais estará ameaçado. Nenhum conflito com a Política, pois as diretrizes seguidas pelos bons governantes serão sempre as tendentes à plenitude do que é justo, do que cabe a cada um, contemplados todos os termos de um conceito correto do que seja adequado e jurídico.

E surge a inquietante indagação: se vivemos uma crise imensurável em nosso país, se assistimos em pânico ao público e o privado confundidos deliberadamente por mãos sequiosas que só pretendem amealhar fortuna fácil, então o Direito naufragou?

Longe disso. Ainda há quem compartilhe e curta bastante o que é Direito. Como aqueles jovens santa-marienses, dedicados a mergulhar no oceano turvo das ideias conflitantes e, depois de muita luta intelectual, emergir com todas as respostas.

Hoje, nenhuma dúvida. Sabemos que há a necessidade de alguma nova ordem. Seja a reforma política pontual ou inteira, seja até o chamamento a uma nova pactuação, da qual restasse um novo texto constitucional. Do jeito que está, é que não pode ficar. A Política precisa alimentar-se de Direito. Os princípios jurídicos mais significativos terão que inspirar nossos legisladores.

A sociedade precisará instigá-los à melhor prática, lembrando-os da sagrada missão que lhes outorgaram os eleitores. As leis não podem ser oportunistas, nem devem favorecer grupelhos de fraudadores. Devem contemplar o que é correto e mais abrangente. Política é instrumento para realização plena do Direito. Ou, se preferirem, o Direito é o controle e a limitação indispensáveis à Política, para que esta não seja apenas a estrada do poder. Não há oposição entre Política e Direito, que se completam ou não estão presentes.

*Jornalista claudio.brito@rdgaucha.com.br


 

25 de maio de 2015 | N° 18173
DAVID COIMBRA

O lado selvagem

Fazia um sábado azul, amarelo e verde-claro e a brisa soprava macia e cheguei para meu filho e disse:

– Hey, man! Que tal sairmos por aí sem destino, rodando pelas estradas de New England?

Ele sorriu um sorriso de sete anos de idade.

– Boa ideia, papai! Ganhamos a rua.

Não tenho carro. Faço quase tudo que tenho de fazer a pé, ou uso trem, ou o Uber, que sei que já existe no Brasil. Quando quero um carro, como no sábado, valho-me de um sistema parecido com esse de empréstimo de bicicletas, que tem em Porto Alegre: o Zipcar. Há milhares de carros espalhados pelas ruas. Escolho um pela internet, marco por quanto tempo quero e vou até o lugar em que está estacionado, geralmente bem próximo.

Passo um cartão no para-brisa e as portas se abrem. A chave está no console. Não precisa nem pagar gasolina, porque eles deixam um cartão de crédito para isso no porta-luvas. São sempre carros ótimos e novos. Mostrei as fotos para o Bernardo escolher em qual iríamos passar o dia. Ele apontou para uma BMW.

Agora fui eu que sorri um velho sorriso.

– Grande escolha, man!

Entramos no carro. Conferi o painel, para ver se entendia como funcionava. Dei a partida. E o motor ronronou. Enquanto rodávamos devagar, liguei o rádio, sintonizei na WROR e Lou Reed começou a cantar: “Hey honey! Take a walk on the wild side!”.

O Bernardo apurou o ouvido:

– O lado selvagem, papai? Ele está falando dos bichos, como os tigres?

– Não – respondi, enquanto pegava a estrada. – Ele está falando do lado selvagem da vida. Às vezes, a gente tem de andar pelo lado selvagem da vida, entende?

– Mas não é perigoso?

– Não tem de ser perigoso. Nem para nós, nem para ninguém. Mas às vezes você tem de simplesmente fazer o que não está acostumado a fazer, entende? Pode ser algo pequeno e singelo, como ver filme na TV até de manhã, tomar champanhe na segunda-feira, preparar uma massa à bolonhesa às duas da madrugada, pegar um trem para Nova York só para ver a grande cidade, comprar um carrinho de bombeiros novo para o seu filho sem motivo algum, levar rosas para a sua mulher no fim da tarde de quinta-feira, mandar um cartão-postal para um amigo dizendo que ele é um grande cara ou sair por aí sem destino, como nós estamos fazendo agora. O lado selvagem da vida pode ser doce!

Meu filho ficou pensando. Nesse momento, rolava outra velha canção na WROR. “Please, tell me who I am”, pedia o Supertramp. Por favor, me diga quem eu sou. Combinava com o dia. Que importa quem eu sou?, pensei. O que importa é viver este sábado azul, amarelo e verde-claro e poder sair por aí com meu filho e ouvir um rock’nd’roll suave e ver esse mar imenso que vejo agora pela janela do carro e saber que está tudo bem e...

– Papai... – meu filho interrompeu o devaneio.

– O que é? – Eu vou ganhar aquele carrinho de bombeiros mesmo?


– Por que não, garoto? E lá fomos nós, pelo lado mais ou menos selvagem da vida.

25 de maio de 2015 | N° 18173
MOISÉS MENDES

Pobres bancos

Perdi parte da tarde de sábado com a leitura de uma reportagem sobre o temor dos bancos com o aumento de 15% para 20% na alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, a tal CSLL. Foi o “social” que tocou ao sistema financeiro no ajuste fiscal.

Li e tive a certeza de que me informava sobre um mundo surreal. O texto dizia que os bancos não sabiam ainda como lidar com a surpresa. Bancos não têm muitas surpresas no Brasil.

Está lá no texto: “Para amenizar essa despesa e manter a rentabilidade em alta, os bancos devem fazer alguns malabarismos em uma engenharia financeira que inclui planejamento tributário, busca por maior eficiência e aumento de tarifas e juros”.

Um economista explica na reportagem que a medida do governo pressiona as ações dos bancos no curto prazo. Os papéis em bolsa de Itaú, Bradesco e Banco do Brasil tiveram queda de mais de 3% em poucos dias.

Fiquei pensando no esforço do planejamento tributário, da margem de manobra para aumentar juros e tarifas, enfim, no vasto drama enfrentado pelas direções dos bancos brasileiros nesse momento difícil para eles.

Outro economista diz na análise que uma alternativa aos bancos seria aumentar a distribuição de juros sobre capital próprio (JCP) aos acionistas. E continuava: esse tipo de provento leva em conta o patrimônio das empresas e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que foi elevada de 5,5% para 6% ao ano.

Peço desculpas pela reprodução das informações sobre proventos, juros e patrimônios. Mas o país discute o impacto dos cortes no seguro- desemprego, o aumento da tarifa de luz e a poda no orçamento para educação e saúde e eu perco parte do meu fim de semana na leitura de uma notícia sobre o que os bancos precisam fazer para ganhar mais e compensar o aumento do imposto sobre lucros.

É como se as aberrações do sistema financeiro nacional enfrentassem dilemas semelhantes ao meu, ao seu e até ao do trabalhador do salário mínimo. Estamos, finalmente, equiparados ao Bradesco, ao Itaú, ao Santander, ao Banco do Brasil e à Caixa.

O lucro dos cinco maiores bancos somou R$ 60,3 bilhões no passado, 18,5% mais do que em 2013. Nenhum banco no mundo lucra como os nossos, nem se diverte com juros de até 300% ao ano. Mas o que será deles agora, com menos lucros? Pobres bancos. Que ajuste fiscal cruel.



25 de maio de 2015 | N° 18173
L. F. VERISSIMO

A coruja atrasada

Hereges, sodomitas e usurários eram as vítimas preferidas da Inquisição pelo que pensavam e faziam (e judeus só por serem judeus) e muitos acabaram na fogueira, para aprender. Hoje, hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um e a usura legalizada, agora chamada de capital financeiro, domina o mundo.

O que prova que a História é uma velha senhora irônica que só precisa de tempo para virar tudo ao avesso – e tempo é o que não lhe falta. Ateus se arriscam a serem xingados por crentes, mas não mais a serem queimados vivos, a união de homossexuais ainda é resistida mas tem até a bênção implícita do Papa, e a usura se recuperou tão completamente do tempo em que era pecado, que hoje provoca e se redime das suas próprias crises, sem culpa e sem sinal de contrição.

A História poderia defender sua inconstância, ou seu senso de humor, invocando a coruja de Minerva, aquela que Hegel usou como metáfora para a incapacidade dos filósofos de compreenderem seu próprio tempo. Segundo Hegel, a coruja de Minerva, deusa romana da sabedoria, só voava ao anoitecer, quando não há mais luz para enxergar nada, muito menos a verdade do momento.

Vivemos para a frente, mas entendemos para trás, e a filosofia sempre chega atrasada. Foi, acho eu, na sua crítica a essa resignação de Hegel que Marx disse que os filósofos não deveriam se contentar em apenas entender o mundo, mas tentar mudá-lo. Não sei se Marx chegou a encampar a parábola de Hegel, mas ele diria que a coruja precisa voar mais cedo para ver com mais clareza. Outra forma de dizer que filosofia e política precisavam se aproximar na busca da luz.


Como a coruja atrasada do Hegel, que só filosofava sobre uma época quando a época já estava no ocaso, a História pode ser perdoada pelas suas incongruências. A Santa Inquisição se assentava sobre um bloco de certezas que pareciam eternas, com um poder que duraria séculos. Hereges, sodomitas, usurários e judeus não eram apenas aberrações aos olhos do Senhor, sua existência ameaçava a ordem natural de todas as coisas. Que culpa tem a História de a eternidade durar tão pouco, e a ordem natural de todas as coisas ser sazonal?

domingo, maio 24, 2015

O trem do Peru e o filho de Levy

1802
Ouvir o texto
Joaquim Levy não foi assistir ao parto do seu filhote querido, o plano de controle de gastos do governo, o ajuste fiscal. Disseram que o ministro da Fazenda estava gripado. Pode ser. Pode ser também que Levy tenha achado que o filho não fosse bem dele. Gente do Planalto fazia esse tipo de fofoca escarninha, no final da sexta-feira.

Essa foi a primeira e a menos importante das esquisitices da divulgação do Orçamento federal de verdade, o plano de gastos e arrecadação que deve valer até o final do ano. Segunda esquisitice: os gastos de 2015 não serão equivalentes aos de 2013 nem nas promessas de papel orçamentário, como Levy dizia desde fevereiro.

Terceira: o governo espera que a arrecadação de impostos cresça uns 5% neste ano, em termos reais. Mas a receita real até abril caiu quase 3%. Puxado.
Quarta: o governo fez essa estimativa otimista mesmo enquanto o Congresso ainda talha e diminui o pacote fiscal.

Quinta, tendo se arriscado a essas pequenas temeridades, não enfatizou que talvez seja necessário aumentar ainda os impostos.

De mais previsível, o governo indicou que vai cortar mesmo uns 30% da despesa de investimento (em relação a 2014, pelo menos no que diz respeito ao PAC. Imagine-se no resto). Tende a ser mais.

Enfim, em relação a 2014, a promessa é baixar a despesa em 1%, se der tudo certo (em termos reais). Parece pouco, muito menos do que a promessa inicial de cortar 6%. No entanto, mesmo essa redução de 1% é rara. Nos três anos em que foi responsável pelo Orçamento, o governo Dilma 1 elevou o gasto em mais de 6% ao ano, em média.

TREM DO PERU

A presidente Dilma Rousseff tem uma queda esquisita por trens. Não por um "trem bão", como dizem alguns de seus conterrâneos. Mas pelo "trem da alegria" de quem gosta de torrar dinheiro em "viagens".

Antes, viajara na ideia doidivanas do trem-bala, aquele que estaria pronto para ligar São Paulo e Rio já na Copa de 2014. O negócio era um disparate tão grande que, nem com dinheiro quase dado, essas empreiteiras Lava Jato quiseram embarcar.

Agora, a presidente veio com a história do trem do Peru, que ligaria o centro do Brasil ao Pacífico passando em parte pela Amazônia e pelos Andes, "corredor da exportação agropecuário" por onde nem os agropecuaristas querem correr.
O Brasil não consegue terminar a obra de quase 30 anos da Ferrovia Norte-Sul. Não consegue nem começar direito as obras essenciais de ferrovias que ligariam a Norte-Sul a Goiás e ao litoral da Bahia.

O governo não consegue ligar à rede elétrica usinas de eletricidade prontas a fios. Não consegue colocar trilhos nem no sertão desértico da Bahia, por incompetência básica, rolos ambientais e outras burocracias. Mas quer fazer o trem da floresta do Peru. Um negócio da China.

De onde teria vindo essa mania de trens? De uma infância feliz passeando em marias-fumaça mineiras? Da vontade de imitar mais um desastre econômico da ditadura, como a Ferrovia do Aço? Da ideia desenvolvimentista vulgar de que os EUA cresceram porque fizeram ferrovias "coast to coast" no século 19, do Atlântico ao Pacífico?
Trem das Onze? Trem Azul?