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segunda-feira, janeiro 16, 2017



16 de janeiro de 2017 | N° 18743
EDITORIAIS

A CRISE DA SEGURANÇA

O registro de mais uma rebelião em penitenciária, desta vez no Rio Grande do Norte, ratifica a falência do sistema prisional e amplia a responsabilidade dos poderes no enfrentamento da segurança pública. Assim como ficou evidente em motins anteriores, também no mais recente estão presentes questões como a superlotação, o descaso com a ressocialização dos detentos e a força de facções criminosas, que atuam livremente dentro e fora dos presídios. 

Ainda assim, as alternativas contra o caos não podem se restringir a medidas óbvias, que já deveriam ter sido tomadas há mais tempo, nem a simples tentativas de resposta diante da pressão dos acontecimentos, como é o caso da construção de presídios.

Além da ampliação da capacidade das cadeias para atender à demanda, prevista no Plano Nacional de Segurança a ser anunciado nesta semana, o país precisa acelerar providências como as defendidas pela presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia. Uma delas é o prometido esforço concentrado para avaliar quem precisa de fato estar ou não detido.

É inadmissível que um país sem condições de cumprir mais de 500 mil mandados de prisão, em grande parte por falta de vagas, registre um percentual de 40% de presos provisórios em suas cadeias. Uma das provas do desinteresse oficial pela situação das prisões, com reflexos sobre a segurança pública de maneira geral, é o desconhecimento do governo sobre o número total de presos no país.

Só a combinação perversa de falhas legadas pelo descaso oficial nessa área ajuda a explicar o fato de o ano recém ter começado e já se registrar quase um terço de todas as mortes em prisões ocorridas em 2016. O morticínio em nível inaceitável nos presídios exige uma reação proporcional do governo, junto com os Estados, para tranquilizar quem está dentro e fora das celas. O poder público precisa ir além de medidas apressadas na área de segurança pública, assumindo o controle da situação para tranquilizar a sociedade.



16 de janeiro de 2017 | N° 18743 
CÍNTIA MOSCOVICH

Copacabana, Alemanha

Para quem gosta de boas histórias – mas boas histórias mesmo, aquelas que fazem com que a gente não desgrude da leitura por nada no mundo –, a grande recomendação é, sem dúvida, O Romance Inacabado de Sofia Stern (Record, 256 páginas), terceiro livro do escritor carioca Ronaldo Wrobel.

O enredo envolve um jovem advogado que recebe um telefonema da Alemanha avisando que sua avó, a Sofia Stern do título, está sendo procurada por uma juíza de Hamburgo. Num susto, o advogado, também de nome Ronaldo, fica sabendo que sua avó, que se refugiou no Brasil escapando do nazismo, é a suposta proprietária de uma caixa de joias perdida desde a II Guerra Mundial e que vale, por baixo, 6 milhões de euros. 

Para garantir a fortuna, Ronaldo e Sofia devem viajar para a Alemanha. Se inicia um turbilhão de episódios, com direito a diários de juventude, a descoberta de uma amizade que nem a guerra destruiu, a um romance com desfecho lastimável – e até ao desaparecimento da avó, que só vai ser encontrada, madrugada alta, cantando ébria numa boate de Copacabana.

Reunindo literalmente o melhor de todos os mundos, baseado em sólido trabalho de pesquisa e de recriação de época, O Romance Inacabado de Sofia Stern une a malemolência carioca à severidade europeia e à moral esfacelada dos tempos de guerra, junção que resulta num texto fluido, preciso e consistente. Thriller dos bons, como nas melhores histórias de suspense – todas as histórias são de suspense, diria nosso Luis Fernando Verissimo –, há um mistério ao qual vão se sobrepondo outros mistérios, tudo isso aliado ao silêncio da avó, que aos poucos perde a lucidez e a própria identidade.

Autor elegantíssimo e com grande senso de proporção, Wrobel consegue manter o fio da prosa sempre tenso: as informações vêm em hora precisa e na medida exata, virtude que faz com que o leitor se sinta recompensado. Valendo-se do recurso de romper a linearidade narrativa, com idas e vindas no tempo e no espaço, Wrobel consegue a proeza que já obtivera com Traduzindo Hannah, seu romance anterior: escrever um grande livro.


16 de janeiro de 2017 | N° 18743 
DAVID COIMBRA

Três gigantes

Gosto de registrar, a cada ano, o significado do feriado de hoje nos Estados Unidos. Dia de Martin Luther King.

King foi um gigante da estatura de um Gandhi, de um Mandela. Esses três grandes entre os grandes provaram, na prática, que o cristianismo funciona.

Quando digo cristianismo, o leitor pensa em religião. O que é ruim. A religião, como a ideologia, depende mais da crença do que da lógica. Todo dogma, por natureza, é redutor.

Não se trata de dogma nem de fé. Trata-se de filosofia. A peça central da filosofia de Jesus é o Sermão da Montanha. Ele abre avisando que os mansos herdarão a Terra e recomenda que os homens amem seus inimigos. Finalmente, ressalta que cada um julga os outros com sua própria medida – você vê nos outros o mal que está dentro de você.

É complexo, em sua simplicidade. Tanto que quase ninguém consegue aplicar. Em geral, as pessoas buscam uma filosofia que se ajuste à sua vontade, e não o contrário.

Na história de Jesus, inclusive, há passagens que se prestam a interpretações de ocasião. Outro dia, vi alguém citando uma frase famosa de Jesus: “Não pensem que vim trazer a paz; vim trazer a espada”. Se você tira essa sentença do contexto, ela vira a alegria de Hitler, Stálin, Mao e tantos outros monstros que foram o flagelo da humanidade. O que Jesus queria dizer é que seus seguidores sofreriam para defendê-lo e que o debate de seus ensinamentos causaria muita luta e muita dor.

E foi o que se deu.

Mais de 1.800 anos depois de ele ter dito isso tudo, um americano aqui de Massachusetts, Henry David Thoreau, mudou-se para os fundos da propriedade rural de um amigo, situada a 30 quilômetros de Boston. Lá, à beira de um lago, construiu uma cabana com as próprias mãos e passou a viver em simplicidade, sem ter nem relógio para medir o tempo. Thoreau gostava de passear pelo campo e pensar na vida. Registrou seus pensamentos em livros, um deles pregando a resistência não violenta como forma de melhorar o mundo.

Os livros de Thoreau, a filosofia de Jesus e, de certa forma, também a de Buda, mesclaram-se para moldar as cabeças desses três homens, King, Gandhi e Mandela.

King tinha uma nêmesis no movimento pelos direitos civis: Malcolm X, pastor dos Muçulmanos Negros, tão agressivo e belicoso quanto carismático. No começo, Malcolm desprezava King. No fim, aproximou-se e reconheceu que ele tinha razão.

Mandela foi os dois em um só. Era Malcolm, tornou-se King e, sendo King, transformou seu país.

Gandhi reuniu todos: viveu na África do Sul de Mandela e aprendeu que a discriminação tem a mesma natureza em qualquer parte, ainda que pareça diversa: é, apenas, o medo do diferente. Ao ler Thoreau, Gandhi desenvolveu os princípios de desobediência civil. Ao ler Tolstoi, bebeu do cristianismo.

As ideias desses homens que citei, Mandela, Gandhi, Tolstoi, Jesus, Buda e King, continuam obscuras para a maioria. Cada vez mais se ataca o preconceito com a luta, e nunca com a paz.

A postura agressiva e excludente dos que acham estar combatendo o bom combate traz apenas mais agressividade. É a reação ao politicamente correto que gera figuras como Trump. Que, nesta semana, sucederá a um presidente negro, algo com que sonhou Martin Luther King.

As pessoas não suportam mais dedos acusadores. As pessoas não suportam mais serem julgadas. Agora, também estão julgando. E, como advertiu Jesus, com a mesma medida com que foram julgadas.


16 de janeiro de 2017 | N° 18743 
L.F. VERISSIMO

Ser ou não ser


Temos uma maneira curiosa de declarar algumas das nossas predileções. Dizemos “sou Inter” em vez de “torço pelo Internacional”. “Torcer” nos manteria distante do time preferido, na arquibancada, longe das botinadas do inimigo. “Ser” significa nos identificarmos totalmente com nosso time, ser Internacional da cabeça aos pés, padecer do que ele padece, vibrar quando ele vibra – enfim, descer da arquibancada.

Mas o “ser” nem sempre se aplica quando se trata de uma escolha. Certa vez, conversávamos sobre papas e misses, e alguém na roda foi categórico:

– Sou João XXIII e Marta Rocha.

Em tudo na vida, precisamos distinguir entre “ser” e simpatizar. Simpatizo com outras escolas de samba, mas sou Imperadores.

E, em tudo na vida, é preciso deixar claras nossas predileções, e a que grupos pertencemos.

Você, por exemplo, é dos que abotoam a camisa de baixo para cima ou de cima para baixo?

É dos que raspam a manteiga ou tiram pedaços?

É dos que espremem o tubo de pasta de dente da ponta para cima, ou não?

Das Jennifers, prefere a Lopez, a Lawrence ou a Aniston?

Gil ou Caetano?

Melhor Tarzan.

Superman ou Batman?

Falando sério: do jeito que cresce o poder da facções dentro das nossas cadeias criminosamente lotadas, em breve, além do time, da escola de samba, do jeito de abotoar a camisa, de cortar a manteiga e espremer o tubo de pasta de dente, de atriz, compositor, Tarzan, super-herói, papa e miss, teremos que nos definir: para tomar conta do país “somos” Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho ou Família do Norte?

sábado, janeiro 14, 2017



14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
LYA LUFT

Não é dos espertos

“O mundo é dos espertos”, me disseram um dia, ou rolou numa conversa da qual eu participava talvez sem prestar muita atenção. Fiquei pensando nisso, e repensei muitas vezes nestes tempos bizarros em que o pano se abre, e o cenário é de que (quase) todo mundo era corrupto, (quase) todos com rabo preso, e se todos fossem apanhados na Lava-Jato (anda quietinha demais...) não sobraria quem nos liderasse.

Claro que não é bem assim, mas que as coisas andam mal, andam. Porém, há luz no fim do túnel ou já pelas beiradas do horizonte: nunca tanta gente importante foi presa, nunca tanta realidade vergonhosa foi exposta, nunca tivemos tanta esperança de que desta vez a coisa vai. Diante do fato de estarmos quase todos tão empobrecidos, calculando cada real, encolhendo os gastos mesmo não exagerados, repensando as idas ao cinema, cortando aquelas ao restaurante, irritados quando chegam as contas normais e tensos ao entrar no internet banking, acho que somos, sim, bastante corajosos. Pois continuamos vivendo. E não nos vendemos.

Vamos ao trabalho, almoçamos a marmita (neste universo dietético, até virou moda, pode ser marmita chique...), brincamos com filhos e netos, tentamos frear o mau humor porque mulher ou marido não têm culpa, e de repente, numa esquina, numa praça, respiramos fundo e olhamos uma árvore florida, ou abrimos a cadeira de praia na areia (ninguém é de ferro) e aspiramos fundo aquele cheiro de mar e aquele azul cristalino: nossa! A vida ainda pode ser boa.

Mas se a gente não cuida, se a gente não reúne alguma coragem, estes serão tempos de queixas intermináveis e infinitas aflições. Muitas vezes constrangida com o noticioso brasileiro, eu entrava na CNN, na BBC, e outras. O que no começo parecia piada (Trump? Essa é boa! Nem pensar!) se tornou realidade, e uma primeira coletiva nos deixou boquiabertos. Poxa, esse é o novo presidente dos States? E agora, e agora?

Então a gente reaprende o valor das pequenas coisas, como aquela árvore florida, aquele cheiro de maresia, aquele filho ou neto que passou no vestibular, a mulher ou marido que nos recebe com um sorriso e um abraço sem maior razão a não ser a do bem-querer. Um bom filme na tevê. Uma página instigante do novo livro (que ainda pode custar menos que uma ida à lanchonete). Sei lá. Até um sonho daqueles em que retornamos a algum lugar e momento da infância, da juventude, de apenas outro dia, e sentimos de novo todo aquele encantamento.

Se a gente não ficar pessimista demais, chata demais, burra demais, podemos ainda encontrar lá no fundo a coragem de abrir a janela, abraçar o mundo, curtir a vida do jeito que ela é, e agradecer. A quem? Sei lá, depende de cada um. A Deus, aos deuses, à vida, ao destino, a nós mesmos – que conseguimos tanto em meio a tanta confusão e carência: conseguimos ser pessoas legais, gerar sujeitos decentes, ter bons amigos, realizar um trabalho honrado, andar de cara limpa e cabeça erguida, e ainda, no fundo mais fundo, embalar sonhos. Como quem planta flores aparentemente inúteis num vasinho na sacada, e, vejam só, dizemos rindo, elas desabrocharam!

E ainda temos este luxo: a sensação incrível de que o mundo não é dos espertos, é dos corajosos.



14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
MARTHA MEDEIROS

Almas mezzo gêmeas


Almas gêmeas, se existem, estão a muitos quilômetros de distância, com poucas chances de cruzarem olhares e fundarem a relação perfeita. Eu acredito na sorte, mas com parcimônia

Uma leitora perguntou se eu acredito em almas gêmeas e pediu a resposta por escrito, em forma de crônica. Então, atendendo a pedidos: não é que eu não acredite em almas gêmeas, acho até possível que existam duas pessoas com um grau de afinidade absoluto e temperamentos praticamente iguais, sem falar na química que faria corar as paredes do quarto. Se eles por ventura se encontrarem, será o relacionamento dos sonhos, mas o problema é justamente este: o encontro. 

Não seria muita sorte sua alma gêmea, sendo tão rara, frequentar o mesmo bar, estar no mesmo grupo de WhatsApp e ter amigos em comum no Face? Somos 7 bilhões no planeta. Não parece mais lógico que sua alma gêmea esteja vivendo em Macau, em Auckland, em Salzburg? Pense. Ela estaria justamente ali no boteco da esquina, comendo um pastelzinho de camarão com os olhos fixos em você? É mais provável que esse estranho com os olhos fixos em você seja uma alma oposta a ser desbravada. Nada contra. Das aventuras surgem amores não univitelinos, mas que divertem.

Almas gêmeas, se existem, estão a muitos quilômetros de distância, com poucas chances de cruzarem olhares e fundarem a relação perfeita. Eu acredito na sorte, mas com parcimônia. Poucas semelhanças – serve. Temperamentos conflitantes, mas que ajudam a equilibrar a relação – serve também. Diferenças que mantêm a vontade de explorar o universo do outro – serve. Querida leitora, esqueça almas 100% gêmeas, mais vale se contentar com algumas similaridades que dão conta do recado.

Uma biblioteca gêmea, por exemplo. Você entra na casa do cara e descobre que os autores na estante são os mesmos que estão na sua. Comemore. Vocês dois são almas gêmeas, em parte. Não importa se um gosta de cerveja e o outro é abstêmio, se um é crente e o outro um devasso: vocês leem os mesmos autores, estão sintonizados pela boa literatura, a conversa está garantida, não exija mais do que isso, case-se agora.

Uma discografia gêmea. O Spotfy traz a mesma playlist. O que arrepia os pelinhos do braço de vocês é a mesma guitarra de Jeff Beck, o mesmo vocal da Amy Winehouse, o mesmo cenário indie rock, ou o mesmo sertanejo, vá lá, sertanejos também amam, até mais do que roqueiros, reza a lenda. Você tem ideia de como isso facilitará na hora de viajar de carro?

Uma cinefilia gêmea. Vocês veneram os mesmos diretores, os mesmos tipos de filme, mesmo que, no reduto do lar, se desesperem na hora de educar os filhos (um liberal, outro repressor) ou na escolha do cardápio (um vegano, outro carnívoro). Mas, quando vão ao cinema, as mãos não se desgrudam no escuro. Acredite, isso faz mais por um relacionamento do que as promessas matrimoniais ditas no altar.

Sou romântica o suficiente para acreditar que partículas de afinidade bastam pra começar uma história de amor. Almas mezzo gêmeas – serve.


14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
CARPINEJAR

Bom-dia, alegria


Não confio em pessoas sempre, mas sempre alegres. São mentirosas, megalomaníacas, exageram e distorcem os fatos. Não aceitam as pequenas derrotas, os números quebrados, as desilusões, não pedem desculpa, sufocam as contradições naturais do temperamento.

Quem sempre se acha não se conhece, está próximo da loucura.

Todos os meus amigos têm uma pequena melancolia no olhar. Uma tristeza nos fundos dos hábitos. Não são depressivos nem chatos, muito menos pessimistas. Não reclamam de tudo, só que não aboliram a contemplação de seus dias. Entenderam que a tristeza é fundamental, como a solidão, a fé, o amor.

Ficam quietos por horas a fio lendo um livro e vendo um filme, sem aquela ansiedade histérica e falsa do alegre em tempo integral.

A tristeza é como uma doença benigna, que não mata e não atrapalha, que apenas precisa tomar cuidado para não se agravar.

Meus amigos estudam a si mesmos, para as provas dos relacionamentos. Reservam um momento para examinar seus atos. Não somente põem a mão na consciência, lavam as mãos na consciência.

Essencialmente sadios porque conservam este sentimento reflexivo guardado. Já perderam alguém importante, já enterraram um familiar, já sobreviveram a romances errados. Não foram sempre felizes, descobriram que a felicidade acaba e se transforma em esperança.

Persevera neles uma honestidade da imperfeição que resulta nos conselhos mais ajuizados.

Meus amigos não experimentaram uma infância idealizada, cresceram entre encrencas familiares e não se fizeram de vítima. Não namoraram o menino e a menina mais famosos da escola, não há glórias unânimes no passado, sofreram bullying e não se diminuíram.

Doces porque deram espaço para amargura. Cumprimentam com ternura, abraçam com cuidado, mantêm um pouco da fragilidade de vidro na pele.

São meus soldados com cicatrizes das batalhas no corpo.

Não aplacaram essa sensação miúda de desencanto e humildade. É como assobiar sem querer, ou suspirar fundo sem motivo. Não acreditam no sucesso e no fracasso, ambos sinônimos da farsa.

Uma tristeza que é charme, que é simpatia, que convida para a conversa, engajada nos problemas e ruminando soluções em segredo.

Uma tristeza que se contenta com pouco, que oferece pão aos peixes. Uma tristeza subterrânea, necessária para melhorar o mundo. Uma nostalgia do futuro, de escrever cartas e não mandar.

Uma tristeza que veio de algum lugar longe da memória, de uma desconfiança, de uma lealdade quebrada, de uma viagem adiada.

Uma tristeza que não salva o pensamento, e sim conforta e acalma. Uma tristeza sábia, que não é excluída do contentamento.

Uma tristeza capaz de dizer bom dia para a alegria e esperar a resposta.

Meus amigos não choram com esta tristeza, podem estar rindo. E ninguém notar que estão tristes. Demonstram o sorriso sereno de descoberta das limitações de cada um.

Uma tristeza de saber que as coisas não são como a gente gostaria, porém são como a gente pode, que dar o melhor de si ainda não é dar o melhor para os outros e que tudo bem, a vida não é nossa, é somente emprestada para aprendermos a nos despedir.



14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
L.F. VERISSIMO

Um cronista! Um cronista!


O Antonio Prata escreveu sobre seu sentimento ao ouvir, dentro de um avião, a aeromoça perguntar se havia um médico entre os passageiros. No fim, a emergência não era tanta, era só alguém passando mal, prontamente atendido e recuperado. Mas o Antonio ficou pensando: quando, numa situação parecida, ele ouviria uma aeromoça dizer “Atenção, senhores passageiros, caso haja um escritor a bordo, favor se apresentar a um dos nossos comissários”? Ele se apresentaria, resolveria o problema de uma hipotética senhora gorducha ansiosa com as sacudidas do avião, talvez contasse uma história ou duas para acalmá-la, e voltaria para seu assento, sob os olhares de admiração de todos. Como um médico.

Pois é, Antonio. Numa emergência, cronistas não servem para nada. Jamais ouviremos alguém dizer “Um cronista, pelo amor de Deus, um cronista!”. Não temos remédios para os males do mundo, não salvamos vidas. Num naufrágio, pela ordem de importância, seríamos os últimos a sair ou afundaríamos junto com a banda. Quando nos olham com admiração, vai ver é comiseração, pela nossa insignificância.

– Há um escritor a bordo?

– Eu! – O que o senhor escreve?

– Crônicas. – Precisamos de um escritor de verdade!

Existem várias histórias sobre o mesmo tema. Num teatro lotado, ouve-se uma voz de senhora.

– Há um médico na plateia? – Eu – apresenta-se alguém.

E a senhora: 

– Esta é a minha filha Sara, dezenove anos, cozinha bem...– Há um médico na plateia?

Silêncio.  – Há um enfermeiro na plateia? 
Silêncio.

– Há um estudante de Medicina na plateia? Silêncio.

– Há um charlatão na plateia?

14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
DAVID COIMBRA

Correção


Outro dia, escrevi James Jean em vez de James Dean e umas pessoas disseram que sou idiota. Sorte minha. Esse foi dos erros menos graves que cometi. Tivessem descoberto as dezenas de outros, me amarrariam na cadeira elétrica lá do Alabama e ligariam a chave.

Ora, não passou de uma distração, como se tivesse escrito “Michael Jackson”. Quem não sabe que o verdadeiro James Jean foi outro personagem? E, não, não foi o inventor do jeans, como muitos haverão de pensar. Esse foi o Almirante Lee, herói da Guerra de Sucessão, representado, depois, no famoso seriado Viagem ao Fundo do Mar, que se baseou no livro de Julius Vermes.

O Almirante inventou essas calças belas e resistentes para melhor vestir os soldados do Sul, que, em meio à pugna renhida, como se dizia na época, viam seus uniformes em frangalhos. Donde, aquela também foi chamada de Guerra dos Farrapos, como a nossa, de 1893.

Deu certo. O Sul venceu e as calças jeans se popularizaram, ganhando o codinome de Calças Lee devido ao Almirante.

Bem mais tarde é que viria o Brim Coringa, assim denominado porque o arquirrival do Batman, o Pinguim, trajava-se totalmente de azul, a cor exclusiva dessas calças, os blues jeans. Aliás, não é por outro motivo que os asseclas do Pinguim, que usavam uniforme azul, eram conhecidos como os Blues Mans, e seus descendentes até hoje fazem shows e propaganda de telefônica.

Mas é importante registrar que, no inglês, a palavra “blues” não significa apenas “azul”. Não. Significa também “triste”, porque os blues mans, depois de finalmente capturados por Batman, Robin e a Mulher-Gato, foram mandados para a terrível prisão de Attica, aquela da qual era impossível fugir. Lá, naturalmente chateados, eles cantavam melancólicas canções, lembrando de seus tempos felizes na cidade de Metrópolis.

Por sinal, Metrópolis, todos sabem, é o nome fictício da capital americana, Nova York. Já o jornal em que Batman trabalhava, o Planeta Diário, é, na vida real, o Post.

Claro que ele não ia trabalhar no jornal fantasiado de Batman. Ele se apresentava com sua identidade civil, o bilionário Bruce Willys.

Eu, que sempre fui admirador do seriado, sempre lembro da cena do Batman saindo da batcaverna com seu jato particular, o Aéreo Willys, veículo que angariou tantos fãs no mundo inteiro, que um deles, no Brasil, batizou seu filho com esse nome. E quem não é ele senão o nosso senador, o Dean Willys?

Mas agora estamos entrando no terreno pantanoso da política, onde qualquer erro vale ofensa nas redes sociais. Prefiro não me aventurar. Basta ter sido açoitado e vilipendiado pelo cometimento daquele errinho de nada com o nome do velho e bom Jean.


14 de janeiro de 2017 | N° 18742 
ANTONIO PRATA

TRUMP E OH! O SEXO



Apior víbora daquele serpentário chamado Família Soprano era Livia, a mãe que tentou matar o próprio filho, Tony. Seu nome deve ter sido uma cândida ironia dos roteiristas, pois Livia quer dizer clara, alva, verdadeira. Outro ser humano péssimo com um nome ótimo, na série, era Uncle Junior. Tio Junior soa cômico como um “Seu Neném”, um velho e uma criança vivendo na mesma pessoa. De criança, porém, Junior só tinha o sadismo, um sadismo de menino rodriguiano, que cega gato e decepa perna de passarinho. A segunda pior pessoa do seriado, definitivamente, era ele.

Tio Junior matava, esfolava, extorquia. Não tava nem aí. Houve um momento, contudo, em que ele tremeu nas bases e sentiu escorrer pelo queixo a baba da vergonha: foi quando uma amante resolveu se gabar, no salão de cabeleireiro do bairro, de que o mafioso lhe dava prazer com sexo oral. Para aquele velho “capo”, cuja moral sexual deve ter sido talhada em algum rincão da Itália, antes da II Guerra, sob influência de gângsteres e Mussolini, fazer sexo oral numa mulher era emascular-se, rebaixar-se abaixo da linha do chão. 

No episódio em questão, a obsessão do criminoso é evitar que a fofoca chegue aos ouvidos de seus comparsas e, principalmente, de seus inimigos. Caso soubessem o que ele fazia entre quatro paredes, perderia toda a moral – e a moral é, como se sabe, ao lado da metralhadora e de um bom balde com cimento fresco, dos principais ativos de um mafioso.

Deu no New York Times, na terça. FBI, CIA e NSA entregaram a Trump, Obama e outros líderes americanos um dossiê comprometedor sobre o presidente eleito. O dossiê, cujo conteúdo não foi comprovado, traz acusações que vão de negócios suspeitos com Moscou a encontros com espiões russos para hackear Hillary Clinton. 

O que saracoteou nas redes sociais como uma bola de pinball, contudo, foi a notícia de que existiriam vídeos em que Donald Trump faz sexo com prostitutas russas, na suíte presidencial do Ritz Carlton de Moscou. Nessas farras, Trump teria recebido “golden showers” das garotas de programa, prática que consiste em ser urinado por alguém.

Pense o que quiser de mim, pudico leitor, carola leitora, mas imaginar Donald Trump, tão orgulhoso do seu poder, da sua macheza, tão cioso do seu arquitopete laqueado, deitado numa cama, nu, provavelmente bêbado, tendo seu “combover” arruinado por uma torrencial chuva dourada disparada por um pelotão de alvas dominatrices da tundra fez com que eu, pela primeira vez, o visse como um ser humano, um frágil, patético e desejante irmão.

“Agora ele cai!”, “Agora ele cai!”, torcem milhões, mundo afora. Seria uma queda triste. Não um passo se afastando dos valores enferrujados que tornaram Trump presidente dos EUA, mas, sim, outra volta no parafuso do conservadorismo. Tá, tá certo que pode haver interesses escusos por trás desse sexo (se é que o sexo existiu), que a chuva dourada pode estar facilitando ou comemorando algum suspeitíssimo ouro de Moscou. 

Mas vocês acham que é com os russos que a geral tá preocupada? A mesma opinião pública que elegeu Donald Trump pode em breve derrubá-lo, pois mais grave que racismo, machismo, xenofobia, pior que o ódio de qualquer espécie, pior que as ameaças de muros, deportações em massa e bombas nucleares, já 17 anos adentro do terceiro milênio, ainda é – oh! – o sexo.

sexta-feira, janeiro 13, 2017


Jaime Cimenti
O Centrinho de Atlântida

Sou veranista de Atlântida há uns 43 anos. Sou do tempo que não havia muros, cercas, casas de dois andares e prédios altos. Sou do tempo do Magro Miguel, da Stereomoto e do chubidu, mas não sou saudosista. Acho que águas passadas devem mover alguns moinhos, inclusive o Moinhos de Vento, mas isto é outro papo.

A praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião, diz o verso do frevo imortal do Caetano. O Centrinho também é do povo. De todo o povo e do povo da ordem, como mandam as leis. Algumas partes são de propriedade do município de Xangri-lá, ou seja, também do povo. Os problemas com o prédio do centro da praça, administrado pelo município (que foi faxinado há pouco por um grupo de veranistas), e os problemas com limpeza, segurança, som em excesso, crimes, venda de bebidas a menores e outras mazelas colocam em evidência questões que, infelizmente, não são apenas de Atlântida, mas estaduais, federais e, em alguns casos, internacionais.

Questões relacionadas à utilização das verbas do IPTU, do orçamento municipal, das relações dos veranistas com a administração municipal e com os moradores, em época de veraneio, sempre voltam com força e, quase sempre, no início de março, ficam para o ano seguinte, ano seguinte, ano seguinte. Como em outros cantos do planeta, as coisas infelizmente vão se agravando.

Nas redes sociais grupos se formaram, com centenas de pessoas, para buscar soluções, dialogar com a prefeitura, com a Brigada, com os vereadores, comerciantes e etc. para melhorar o Centrinho. Algumas coisas já foram feitas, mas muito há por fazer. Nestas horas, sempre pensamos que um diálogo maior e melhor entre veranistas, moradores, administradores, políticos e outras autoridades públicas (especialmente da área de segurança), é vital, necessário, para ontem. Não dá mais para ficar parado. Se ficar, as ondas nos levam.

É pena a transferência do movimento e vida saudáveis do Centrinho para outras partes do balneário, por causa de problemas de segurança e outros. Melhor recuperar, revitalizar o Centrinho e não botar para perder um patrimônio tão bonito, construído há mais de seis décadas por moradores e veranistas. Mesmo quem está no conforto e na proteção dos condomínios, com certeza, pretende ver o Centrinho limpo, seguro, elegante e saudável.

Ainda nesta semana, na ZH, o jornalista Tulio Milman noticiou a "Ocupação do bem" e a faxina do prédio abandonado da Praça Central de Atlântida por veranistas e a realização de uma passeata neste fim de semana. Existem ideias para utilização do prédio e, novamente, muitos veranistas pensam em transferência de seus títulos eleitorais para Xangri-Lá, para influírem diretamente na política e na administração municipal.

Algumas obras foram feitas pela administração anterior do município, e o prefeito, reeleito, ao que se sabe, dialoga com os veranistas, o que deve ser elogiado e incentivado. Alguns vereadores, especialmente o Dalagnol, que é comerciante do Centro de Atlântida, procura abraçar reivindicações dos veranistas junto à prefeitura e autoridades.
a propósito...

Será que não seria interessante fazer uma consulta pública com os moradores e veranistas de Atlântida para saber o que fazer com o prédio da praça? Há quem fale que vão demoli-lo para aumentar a área da praça. Não sei se é a melhor solução. Acho que todos precisam ser ouvidos. A praça é de todos. A criação de associações de cidadãos está sendo pensada. Já tivemos algumas, e outras ainda existem. Enfim, só com o diálogo, a união e o esforço de todos vamos sair dessa. A administração municipal tem o papel principal nisso tudo. Ela deve ser a protagonista, junto com os outros poderes. 

Jaime Cimenti
Demétrio Pretto, vida e obra


Ao lado de Maria - Uma herança italiana (Dublinense, 114 páginas) traz depoimentos autobiográficos do empreendedor Demétrio Pretto à jornalista e escritora Luciana Thomé, retratando muitas décadas de uma vida plena de acontecimentos familiares, profissionais e sociais. O volume contém dezenas de fotos, algumas ilustrações e foi realizado com cuidados editoriais - como, aliás, merece Pretto, pioneiro na indústria gráfica na região do Vale do Taquari.

Pretto, descendente de imigrantes italianos, nasceu em Encantado, em 1931, e faleceu em Porto Alegre, em 2016. Casou-se com Maria Pretto, também descendente de italianos, em 1953 e, assim, o casamento permaneceu por mais de seis décadas, até a morte dele. O casal teve três filhas: Marylin, Silvana e Beatriz, netos e bisnetos, e a união foi marcada por grande cumplicidade, humildade, amor e muitas realizações profissionais.

Pretto estudou o ginásio em Lajeado, parte do científico em Porto Alegre e, depois de conhecer a redação e as oficinas do Correio do Povo, decidiu seguir sua vocação de empreendedor no setor gráfico. Em Encantado, onde foi, entre outras coisas, bem-sucedido locutor de rádio, criou e desenvolveu a Gráfica Encantado (Grafen), que funcionou por várias décadas e marcou a atividade gráfica no vale do Alto Taquari.

Pouco antes de falecer, Pretto deixou os depoimentos da obra para Luciana Thomé e lembrou que sempre gostou de livros, que fazia questão de deixar uma mensagem para família e os amigos, que valorizava e agradecia as pessoas, especialmente sua esposa, Maria. Pretto ressaltou os ensinamentos da mãe, que é preciso lidar com os imprevistos, que se deve ser firme, ético, bom e, principalmente, pensar positivamente. Ele lembrava sempre das palavras da mãe: "Não pensa em coisas ruins, guri! Pensa em coisas boas!".

Criativo, Pretto pensava em algum equipamento futuro que gravasse nossos pensamentos e que a gente deve ter sonhos e ideias para ser, sempre, melhorar.

Ele fez questão de deixar, manuscrita, a Oração pela paz da família: "O infinito amor de Deus flui para o meu interior e em mim resplandece a luz espiritual do amor. Esta luz se intensifica, cobre toda a face da minha família e preenche o coração de todos nós com o espírito de amor, paz, saúde, alegria e bem estar. Obrigado meu Deus por todos os benefícios que temos recebido e todos os benefícios que iremos receber".

Os relatos sobre a vida e a obra de Demétrio Pretto vão muito além dos registros pessoais e familiares. São inspiradores e exemplares, num momento em que nós e o País buscamos caminhos e modelos que nos levem a um futuro melhor e mais esperançoso.
lançamentos

A graça do dinheiro - As melhores charges da New Yorker sobre economia - 1925-2009 (Zahar, 256 páginas), organizado por Robert Mankoff, tem quase 400 cartuns com empresários mandões, executivos assanhados, fiscais da Receita e acionistas menosprezados. Ninguém escapa das tiradas da revista.

O garoto do cachecol vermelho (Verus Editora, 292 páginas), romance de estreia da adolescente Ana Beatriz Brandão, trata do dilema: viver um grande amor ou realizar o sonho de sua vida? Melissa, a garota linda e mimada, deve ser uma grande bailarina ou seguir o garoto misterioso que mudou sua vida?

Lobo da Costa - O poeta andarilho - Vida e obra (Partenon Literário Editora, 120 páginas), do pesquisador e escritor Benedito Saldanha, é uma homenagem a um dos maiores poetas brasileiros. Pelotense, romântico, Lobo da Costa faleceu aos 35 anos e deixou versos imortais.



13 de janeiro de 2017 | N° 18740 
CLAUDIA LAITANO

Como as estrelas se apagam

Dois documentários que estrearam nos últimos dias na televisão nos convidam a pensar sobre a morte. Não a morte sem posfácio de pessoas como eu e você, fadados a sermos esquecidos, com sorte, depois de duas ou três gerações de descendentes, mas aquela das pessoas que contemplam a possibilidade concreta de permanecerem vivas, muito além da própria vida, através da arte.

No último sábado, estreou na emissora britânica BBC 2 o filme The Last Five Years, sobre os anos finais do ídolo David Bowie, que morreu no ano passado. Na segunda-feira, estreou na HBO brasileira o documentário Bright Lights, sobre a relação das atrizes Debbie Reynolds e Carrie Fisher, mãe e filha, que morreram, com um intervalo de poucas horas de diferença, no final de dezembro. Bowie encenou sua saída de cena em quase todos os detalhes, e o filme é o registro do seu último projeto artístico – a própria morte. Debbie e Carrie foram apanhadas pelo acaso: morreram, quase ao mesmo tempo, poucos meses depois de o documentário ficar pronto.

Quando lamentamos a morte de um ídolo somos confrontados com o contraste evidente entre a efemeridade da vida e a permanência da arte – vita brevis, ars longa. Ídolos envelhecem, adoecem e sofrem com as transformações do corpo, como todos nós, mas, como artistas, cumprem uma jornada paralela de extensão imprevisível. Alguns morrem, como ídolos, muito antes de morrerem fisicamente. 

Outros, mais raros, têm a sorte de permanecer produzindo e se reinventando até o fim. Há os que tomam a decisão de se despedir do público no auge da fama para se proteger da decadência ou desfrutar da liberdade de uma vida anônima, e outros que permanecem em cena, honrando o próprio legado ou como sombras do que foram, até que o último holofote se apague. Há quem seja reconhecido apenas depois de morto e quem faça sucesso em vida mas é ignorado pela posteridade.

Em Bright Lights, quase esquecemos que os nomes de Debbie Reynolds e Carrie Fisher estão gravados para sempre na calçada da fama de Hollywood. Nem todo mundo tem uma mãe que cantou com Frank Sinatra e dançou com Gene Kelly, mas muita gente sabe o que é sofrer com a decadência física dos pais ou tentar, à certa altura da vida, fazer as pazes com as mágoas de um passado comum. É um filme que nos comove pela frágil humanidade de personagens tão famosas.

Já em The Last Five Years o que impressiona não é a tragédia de um homem que morreu de câncer aos 69 anos, em pleno vigor criativo, mas a capacidade do artista de transformar os próprios medos em algo que o ultrapassa. É um filme sobre a transcendência da arte – e sobre o privilégio de compor um posfácio para a própria vida capaz de tocar tantas outras vidas também.


13 de janeiro de 2017 | N° 18740 
DAVID COIMBRA

La La Land, Kafka e Florentino Ariza

Detesto filmes musicais ou românticos. La La Land é ambas as coisas. Mas, como tem conquistado todos os prêmios e deverá conquistar muitos outros ainda, fui assistir, como uma espécie de obrigação cinéfila. Bem.

Saí do cinema com o sentimento renovado: detesto, realmente, filmes musicais ou românticos.

Não que tenha detestado La La Land, não se trata disso. O filme tem méritos, sobretudo no final, que não conto. É que, para mim, o ideal seria que não tivesse atores cantando, não tivesse dança e não tivesse tantas cenas de amor. Se fosse só o final, seria perfeito. E mais curto: uns 10 minutos.

Mas não deixe de ver o filme, não se guie por mim. Eu é que tenho preconceitos contra essas coisas da paixão. Camões dizia que o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer, mas ele estava errado. Isso tudo não é o amor: é a paixão.

O (este, sim) imperdível livro de García Márquez O Amor nos Tempos do Cólera deveria ser A Paixão nos Tempos do Cólera. Se bem que a paixão de Florentino Ariza era atípica: uma paixão velha de 50 anos.

A paixão, em geral, tem autonomia para, no máximo, 18 meses. Depois disso, o doente vai se curando sozinho, como se fosse uma conjuntivite. Com sorte, aquele Mal se transforma no Bem, transforma-se no amor seguro e tranquilo, um sentimento muito mais sólido. E verdadeiro. O amor é que é real, não a paixão.

É fácil de saber se você realmente ama a outra pessoa. Você vê os defeitos dela e fica incomodado com eles? Parabéns: é o amor que mexe com sua cabeça e o deixa assim.

Falo com propriedade porque já padeci do feio mal da paixão. Sei como é ruim. Também já vi dezenas de amigos sendo contaminados e testemunhei o quanto sofreram.

Kafka escreveu, em A Metamorfose: “Ao despertar de um sonho inquieto, certa manhã, Gregor descobriu que se havia transformado num gigantesco inseto”.

Há várias interpretações sobre o que aconteceu com o protagonista, Gregor Samsa. Todas equivocadas. Kafka escreveu, tão somente, sobre um homem que se apaixonou.

Otto Maria Carpeaux , gênio da raça (austríaca), encontrou-se com Kafka em Berlim, no começo do século 20. Descreveu-o como um rapaz “franzino, magro, pálido, taciturno”. Carpeaux achou que ele tinha essa aparência por causa da tuberculose, que o mataria poucos anos depois. Pode ser. Mas esses, igualmente, são sintomas da paixão.

Imagine que você é um rapagão tipo Ryan Gosling e conhece uma inhugazinha tipo Emma Stone. Vocês começam a sair e ela é tão querida, tão calma, tão bem-humorada e tolerante, e além disso tem boas pernas. Vocês se envolvem mais a cada dia, trocam mensagens pelo celular e curtidas no Facebook. Lindo. Até que, certa manhã, ao despertar de um sono inquieto, você descobre que se transformou em um gigantesco verme: você está apaixonado.

Pronto. Aconteceu o que jamais devia acontecer. Vermes rastejam, lembre-se. Em pouco tempo você estará rastejando. E sentindo dor, porque a paixão é ferida que dói e se sente. Não duvido que, em dado momento, escreva algum e-mail de amor ridículo – Fernando Pessoa já notou que todos os e-mails de amor são ridículos. Quer dizer: amor, não; paixão. A paixão não tem graça. Não gosto de filmes de paixão.



13 de janeiro de 2017 | N° 18740 
NÍLSON SOUZA

VOZES DO BRASIL

Eta coisa emocionante esse The Voice Kids, que a Globo joga na sala da gente nas tardes de domingo. Não há como não se comover com a espontaneidade das crianças que se apresentam para a seleção dos jurados e para a disputa de um lugar ao sol no mundo do espetáculo. Tudo é bonito no programa, a começar pelas vozes maravilhosas e pelo talento das crianças do Brasil, passando por flashes da vida pessoal dos cantores e concluindo com a extrema sensibilidade dos artistas escolhidos para fazer o papel de juízes e treinadores. Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e a dupla Victor e Leo tratam a garotada com doçura e justiça, tanto para o aguardado “sim” das viradas de cadeiras quanto para o consolador “não desista”, que nunca é um “não” desanimador e definitivo.

Claro que todos torcemos para os nossos conterrâneos e para os pequenos, mas há um momento em que o valor supremo da música se impõe. No ano passado, lembro, muita gente ficou decepcionada com o resultado final, quando a carismática Rafa Gomes, de 10 anos, perdeu para o adolescente Wagner Barreto, de 15. Mas a reconhecida técnica vocal do rapaz foi decisiva para dar-lhe o primeiro lugar.

A vida é assim, desde os tempos primitivos. Como disse o profeta, muitos serão chamados, poucos serão escolhidos. Assim como esses meninos e meninas selecionados para ir ao ar na competição televisiva, deve haver milhares de crianças por todo o país com afinação e vocação para cantar. Mas o funil do destino é inexorável.

O que mais encanta nos pequenos artistas é a determinação para enfrentar um teste público estressante, sem deixar que o coração dispare mais do que a voz. Mesmo quando o nervosismo é visível, eles conseguem levar a canção até o fim. E o telespectador vai junto, não tem como não ter empatia. Até mesmo porque um programa que reúne tantas fofuras acaba servindo de contraponto à realidade cruel dos noticiários e à violência generalizada dos filmes, das novelas e até dos desenhos animados.

Precisamos muito ouvir mais esse Brasil do futuro que canta e encanta.

quinta-feira, janeiro 12, 2017



12 de janeiro de 2017 | N° 18739
VERÃO

O chocolatão sumiu no Litoral

FAMOSO PELAS ÁGUAS MARRONS que chegam a turvar a espuma das ondas, o mar da orla gaúcha tem se apresentado límpido e até cristalino nesta temporada

Por anos a fio, o mar gaúcho carregou a alcunha de “chocolatão” em razão de suas águas marrons, mas tão marrons, que chegavam a escurecer até a crista das ondas. Por isso, a sucessão de dias com ondas limpas – por vezes cristalinas, como ontem – vem impressionando os banhistas no Litoral Norte. E desperta entre eles um questionamento: que fim levou o célebre chocolatão?

Desde o início deste veraneio, o Atlântico vem brindando os frequentadores de praias como Tramandaí, Capão e Torres com água limpa. Mesmo nos piores dias, de mar mais mexido, sua coloração pode até ficar opaca, mas em nada lembra os tons barrentos tão familiares a qualquer banhista da costa rio-grandense.

Ontem, o tom esmeralda que tomou conta da orla encantou os veranistas e repetiu o espetáculo vislumbrado no primeiro dia do ano. Mesmo quem não estava preparado para tomar banho, em razão do tempo que amanheceu nublado, não resistiu aos encantos quase caribenhos da água.

– Só vim para a beira-mar para dar uma corrida. Mas, quando vi o mar desse jeito, pedi para uma senhora cuidar das minhas coisas e tive de dar um mergulho. Realmente, neste ano a água está muito boa, limpa. E não está gelada – vibrou a estudante de Direito Louise Zwartjes, 21 anos, recém-saída das ondas em Capão da Canoa.

Se nos dias de chocolatão as crianças são a maioria dos banhistas, ontem até quem tem quase um século de vida se aventurou no mar. O aposentado João Atílio Rosa Gobo, 90 anos, de Ijuí, se tocou para dentro d’água com a ajuda do filho Pedro Luiz Gobo, 61.

– Tenho que cuidar porque minhas pernas já andam meio bambas, mas não tinha como não tomar um banho – afirmou seu João Atílio.

CONJUNÇÃO DE FATORES EXPLICA O MAR CLARO

O geógrafo Nelson Gruber, integrante do Centro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica (Ceco) da UFRGS, afirma que a coloração do mar gaúcho está sendo favorecida por uma complexa conjunção de fatores climáticos, que incluem desde o fenômeno La Niña até a atuação de um centro de alta pressão subtropical. Esse centro, localizado sobre o Oceano, vem favorecendo a propagação de ondas do Sudeste, mais limpas.

Quando essas ondulações não encontram ventos muito fortes vindos de nordeste (o famoso Nordestão), que reviram muito o mar, a tendência é de ondas mais claras. O vento Nordeste tende a deixar mais areia em suspensão e favorecer a multiplicação de algas – parte importante da receita para “achocolatar” a orla.

Em resumo, não significa que o Litoral Norte ficará para sempre com ares de Santa Catarina. Mas, pelo menos por algum tempo, a tendência é de que os gaúchos possam aproveitar águas que em nada lembram chocolate.

Em Torres, por via das dúvidas, a estudante de Venâncio Aires Marília Schuh, 20 anos, deu um jeito de garantir a lembrança desses dias de águas catarinenses em mar gaúcho:

– Vou tirar fotos e mandar revelar algumas, que é para garantir que não vão se perder.

marcelo.gonzatto@zerohora.com.br

12 de janeiro de 2017 | N° 18739
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Bodum

CONHEÇA UMA DAS CURIOSAS propriedades do sufixo "-um"


Nesta primeira coluna do ano que inicia, aproveito para saldar as dívidas do ano que terminou. O leitor João Paulo K., por exemplo, quer saber por que o mês sempre começa com um numeral ordinal (primeiro), enquanto todos os demais dias são numerais cardinais (dois, três, etc.). A causa, caro leitor, desconheço – mas esse é o costume no Brasil, ao contrário de Portugal, que usa o cardinal para todos. Lá se comemora o Dia do Trabalho no um de maio, e os portugueses mais desavisados levam todo tipo de trote no um de abril. Cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso.

Já a leitora Ritinha, de São Gabriel, quer saber o que significa a palavra avec numa frase que encontrou em suas leituras: “Quem quiser vir avec, tudo bem, mas para o bem da sua felicidade matrimonial, não recomendo”. Ora, Ritinha, isso é gíria dos anos 60. A palavra avec quer dizer “com”, em Francês (Il est venu avec sa femme fica, em vernáculo, “ele veio com sua esposa”). Lembro que, no meu tempo de estudante de Letras, um convite para festa ou jantar muitas vezes especificava se era para a gente ir avec ou não – isto é, sozinho ou acompanhado. Era empregado até como substantivo, no sentido genérico de cônjuge, namorado(a), amante, caso, rolo e outros quetais: “O compositor e sua avec foram recebidos pelo presidente”.

Por sua vez, Anita P., de Curitiba, traz uma queixa mansa: “Eu sempre digo muito dó, no masculino, mas quase todos os meus colegas me criticam, alegando que é feminino. Mostrei o dicionário para um deles, mas ele não acreditou. O que posso fazer? O que o senhor recomenda?”. Olha, Anita, não há muito o que fazer contra a ignorância proativa. Não dê atenção à opinião desses colegas e siga em frente, com a espinha ereta, atravessando essa horda de bárbaros. Todos os dicionários registram dó como masculino, assim como pó ou nó; os escritores dizem amém (“Tanta lástima e carinhos, tanto dó, nenhum rigor!” – Garret; “Os perros não houveram nenhum dó de nós” – F. Mendes Pinto). O que mais eles querem?

Por fim, o leitor Mengálvio G., escrevendo de lugar incerto e não sabido, comparece com uma pergunta interessante: “Professor, se gado vacum vem de vaca, posso concluir que bodum vem de bode?”. Confesso que nunca tinha pensado nisso; fui estudar o esquisitíssimo sufixo -um e... bingo! Não é que nosso leitor tinha razão? Uma das propriedades deste sufixo é justamente formar adjetivos que têm “relação com animais, predominantemente domésticos”. Além de vacum, temos ovelhum e cabrum (“O gado ovelhum e cabrum é de 145 cabeças, não se incluindo nesse número a criação pertencente aos colonos” – Afonso Arinos). 

Houaiss também registra carneirum, gatum (relativo ao gato – e praticamente irmão do gatuno) e galinhum (credo!). É nesse rol que entra o bodum, que Bluteau já definia como “mau cheiro do cabrão ou bode”. É claro que esta pitoresca terminação não poderia deixar de atrair os que brincam e se divertem com as palavras; em 1871, o Alabama, “periódico crítico e chistoso”, fala de um sítio que reúne não só numeroso “gado vacum, mas também gado porcum, carneirum, bodum, patum, galinhum e principalmente cachorrum”. Que beleza!

Cláudio Moreno, escritor e professor, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.


12 de janeiro de 2017 | N° 18739 
DAVID COIMBRA

Na tarde quente, o vendedor grita

Antigamente, dizia-se que laranja “de manhã é ouro, de tarde é prata, de noite mata”. Escrever “antigamente” é coisa de gente antiga, sei. Mas gosto. Dá um ar nostálgico ao texto. O sujeito ouve um antigamente e já encomprida o olhar.

Pois antigamente dizia-se isso da laranja. Por que seria? Tenho cá que todos esses velhos ditados e expressões foram criados a partir de fatos concretos. Claro que alguns ainda carecem de investigação aprofundada.

Por exemplo: por que os pintos ficam felizes quando estão no lixo? Isso é perturbador. Porcos eu entenderia, mas pintos? Minha avó tinha galinheiro, lá havia galinhas poedeiras, um galo orgulhoso e vários pintinhos. Não lembro de um que chafurdasse na imundície, feito um deputado.

Outra: “Apanhar como boi ladrão”. Então, bois roubam? O que poderiam roubar? Ou será que esse é um problema exclusivamente do Brasil, onde até bois são corruptos?

Pintos e bois. Mistérios zoológicos que pretendo resolver mais tarde. Agora me ocuparei dos botânicos. A que se deve a má fama noturna da laranja?

Bem. Meu avô, que era antigo como todos os avós, contava uma história ocorrida com um amigo dele. Esse homem, quando jovem, foi acometido de uma doença que parecia incurável. Sentia dores horrendas nas entranhas, os médicos não conseguiam descobrir as causas do problema ou sua solução. Ele já não saía mais da cama, entrevado e desenganado. Seus familiares perderam as esperanças, chegaram a chamar um sacerdote para lhe ministrar a extrema-unção.

Foi aí que um estranho bateu à porta. Era um homem sério, que não disse nem bom dia e nem se apresentou. Apenas comunicou: – Sei que nesta casa tem uma pessoa que está à morte. Posso salvá-la.

Como os parentes estavam desesperados, deixaram o homem entrar e perguntaram o que teria de ser feito. Ele disse que precisava ficar alguns momentos a sós com o moribundo, em seu quarto. Nada mais. Eles se entreolharam, desconfiados, mas concluíram que não custava arriscar. Permitiram que o desconhecido se trancasse no quarto com o doente. Após alguns minutos de ansiedade, ele abriu a porta. E disse:

– O rapaz está dormindo. Quando acordar, se sentirá melhor. Amanhã estará curado. Agora vou embora. Todos perguntaram o nome do homem, queriam saber quem era. Ele respondeu com voz decidida:

– Isso não interessa – e já ia saindo, já estava com a mão na maçaneta, mas, antes de passar pela porta, advertiu: – Só tem uma coisa: ele nunca mais vai poder comer laranja. Nunca mais.

E se foi.

O rapaz, de fato, se curou rapidamente. Desenvolveu-se forte e sadio, arrumou bom emprego, casou-se com uma mulher que reclamava pouco. Teve filhos. Vivia feliz em sua casinha com cerca branca, até uma calorenta tarde de verão em que viu um vendedor de laranjas passar por sua rua.

– Laranjas fresquinhas! – apregoava o homem. – Laranjas refrescantes! As melhores laranjas que você já provou!

Fazia seus anúncios com tamanha convicção, que nosso amigo salivou de desejo. Desde que havia se curado daquela obscura doença, muitos anos atrás, jamais provara uma única laranja ou tomara um só copo de laranjada. Observava os outros seres humanos se deliciando com laranjas amarelíssimas, de aparência suculenta e nunca ousara comer um gomo. Raciocinou: não seria aquilo uma bobagem? Já havia consultado médicos e agricultores. Todos diziam que laranja não faz mal. Só podia ser besteira. Coisa de gente antiga. Por que se privar de uma fruta tão maravilhosa?

Comprou uma laranja. Descascou-a. Admirou-a, assim nua, por alguns segundos.

Arrancou um gomo. Levou-o aos dentes. Comeu. Morreu na hora, fulminado, sem dizer um ai.

Moral da história: comer fruto proibido sempre dá problema.



12 de janeiro de 2017 | N° 18739
L.F. VERISSIMO

Alusões


O discurso da Meryl Streep foi o mais contundente, mas a cerimônia de entrega dos prêmios Golden Globe esteve cheia de referências à eleição de Donald Trump e ao próprio presidente eleito. A começar pelo apresentador Jimmy Fallon, que, no seu monólogo inicial, destacou que os premiados da noite tinham sido os mais votados, uma alusão ao fato de, nas eleições recentes, a candidata Hillary Clinton ter recebido quase 3 milhões de votos a mais do que Trump, e perdido. 

Depois, Hugh Laurie, ao receber seu prêmio como melhor ator coadjuvante de uma série de TV, disse que o nome da Associação dos Jornalistas Estrangeiros de Hollywood, que distribuía os prêmios, continha três palavras com um novo significado em tempos de Trump – que ataca a imprensa, quer expulsar estrangeiros e abomina Hollywood.

Outros premiados falaram da importância da diversidade e de evitar divisões étnicas, em críticas abertas ou veladas a Trump e ao governo que se aproxima, o mais contestado – mesmo antes de tomar posse – da história do país. Hollywood terá outra chance para atacar Trump na próxima entrega dos Oscars, e Trump terá os meios de se vingar de Hollywood depois de empossado. Vai sair faísca.

“Hollywood” tem uma história nem sempre louvável de relações com governos. Na época do macarthismo, executivos da indústria cinematográfica deram repetidas mostras de canalhice na submissão aos inquisidores de Washington, colocando atores, escritores e outros supostos simpatizantes da esquerda nas famosas listas negras de banidos, impossibilitados de trabalhar ou obrigados a usar pseudônimos. 

“Hollywood” também produziu alguns políticos lamentáveis, como o ultraconservador Ronald Reagan e, mais recentemente, o Schwarzenegger. A contestação ao governo Trump exemplificada pelo discurso da Meryl Streep e pelos outros pode não significar nada, ou pode representar o clima de insurgência que dominará o país a partir de agora. Por enquanto, tivemos apenas um trailer.

OUTROS

Nada contra o Cristiano Ronaldo e o Messi se alternarem como craques do ano, mas sempre me intrigou a ausência de outros nomes entre os vencedores, entra ano e sai ano. Por que nunca se lembraram do holandês Robben? E o inglês Gareth Bale, do Real Madrid? São jogadores tão completos quanto os multipremiados. Mistério.

quarta-feira, janeiro 11, 2017



11 de janeiro de 2017 | N° 18738 
MARTHA MEDEIROS

Acompanhantes

Já que recentemente lancei um livro com relatos de viagens, uma revista especializada pediu que eu definisse, em duas palavras, a melhor parceria para uma travel experience. Duas palavras? Andam confiando demais no meu poder de síntese.

Quando as pessoas decidem sair de férias, pensam no roteiro, no limite do cartão de crédito, na meteorologia, no que colocar dentro da mala, e estão certas, têm juízo: todos esses cuidados conduzem ao sucesso da empreitada. Mas sobre a companhia pouco nos dedicamos. Não estou falando da companhia aérea, mas a companhia propriamente dita, aquela que estará sentada no assento ao lado. Sendo íntima, estará salva a jornada? Não mesmo.

Pra início de conversa, ajudaria muito se ela não fosse, justamente, aérea. Sabemos que sempre há alguém que assume o papel de “chefe de excursão”, aquele que fica atento ao painel de decolagens, à chamada para embarque, à apresentação dos documentos. Até aí, normal: um desliga-se enquanto o outro se liga, mas o desligado que, uma vez estando no destino, acorda de manhã sem saber em que cidade está, que se perde ao dar a volta no quarteirão e sempre esquece o passaporte no banheiro do restaurante não deveria ser forçado a sair de casa, deixe-o seguro em seu hábitat.

Deduz-se que quem vai para o Caribe goste de mar, que quem vai para Nova York goste de agito, que quem vai fazer o caminho de Santiago de Compostela goste de andar, então preste atenção antes de convidar um albino para ir a Aruba, uma monja budista para percorrer todos os bares do East Village e um sedentário para peregrinar. Exemplos meramente figurativos a fim de sugerir: não seja teimoso, não queira mudar o estilo de vida dos outros a fórceps.

Mesmo que você esteja viajando com o amor da sua vida, pergunte-se: somos capazes de desgrudar? Até uma relação Superbonder precisa levar em conta a necessidade do “cada um na sua”, nem que seja por meia hora. Ele encasquetou de comprar uma chave-inglesa numa loja de ferramentas que um amigo indicou e cujo endereço fica duas ruas depois do fim do mundo. Em vez de ir emburrada, não vá. 

Aproveite a folga para revirar uma livraria ou experimentar todas as ofertas de uma loja de cosméticos – e no final da tarde encontrem-se num bistrô morrendo de saudade um do outro e com histórias novas para compartilhar. O mesmo vale para amigos, famílias, turmas – menos para crianças, lógico, não perca o tino.

Poderia escrever várias páginas a respeito, mas já me estendi o suficiente para quem foi estimulada a resumir o assunto em apenas duas palavras. Aliás, me ocorreram agora duas: bom humor. Se existe uma coisa que exige jogo de cintura é viagem – não queira estar ao lado de alguém inapto para o imprevisível.


11 de janeiro de 2017 | N° 18738
ARTIGO - VÍTOR BLEY DE MORAES*

A CULPA É DOS CCs


Tornou-se habitual culpar os cargos em comissão, os CCs, por tudo de ruim que acontece na administração pública. São acusados de incompetentes e até de vagabundos. Quando um governante quer fazer algo de impacto, logo anuncia o corte de CCs. Mas será que isto é verdade? No caso de um servidor relapso ou sem competência para o cargo, a culpa é dele ou de quem o contratou? 

Por outro lado, multiplicam-se os comentários de que no serviço público é preciso ter servidores concursados. É bom observar que um servidor CC pode ser exonerado a qualquer momento. O servidor de carreira, que teve o mérito de ter passado num concurso público, tem a garantia da estabilidade. Só pode ser demitido se houver falta grave e após uma sindicância rigorosa. Até pouco tempo, o servidor de carreira aposentava-se com salário integral, levando consigo todas as vantagens adquiridas. A carga horária de um CC normalmente é superior à dos concursados.

Eu trabalhei no serviço público como CC até pouco tempo. Sempre fui comprometido e responsável. Tive a sorte de ter colegas extremamente profissionais tanto entre os comissionados quanto entre os de carreira. Mas um momento me chamou a atenção: colega jornalista nomeada por concurso não sabia redigir release, atividade básica em jornalismo. Daí, coloquei em dúvida a validade dos concursos. Parece que, muitas vezes, são mais um teste de atenção e de conhecimentos teóricos do que uma avaliação técnica para o cargo. Em outras ocasiões, como greves e protestos, apenas os CCs ficavam trabalhando.

O concurso não tem o poder de tornar o servidor isento de paixão partidária nem de torná-lo íntegro. Há funcionários de carreira e CCs envolvidos com corrupção, desvios etc. A falta de sintonia partidária do servidor com quem está no poder pode causar desleixo na função. Também não são raras as greves, em todas as esferas, meramente ideológicas. Atribuir as mazelas aos CCs parece uma atitude simplista. Relembrando: o CC é exonerado a qualquer tempo, sem aviso prévio, FGTS e aposenta-se pelo INSS. 

O servidor concursado tem estabilidade, todas as vantagens inerentes ao cargo e se aposenta com quase a integralidade dos seus proventos, que em alguns casos é repassada para a filha solteira. Analisando friamente a questão, será que a crise financeira e os maus serviços prestados pelo poder público são culpa apenas dos CCs?

*Jornalista vibleymor@gmail.com