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quarta-feira, junho 29, 2016


24 de fevereiro de 2016 | N° 18455
ARTIGO | MARCELO RECH

O PROBLEMA ESTÁ NAS TRUCAGENS

No fundo, o problema não é João Santana, Eduardo Mendonça ou milhares de outros marqueteiros que fazem seu trabalho ou doadores e empresas com interesse em adular o governo. O problema central é que as campanhas aos principais cargos no Brasil se travestiram em programas para a TV a custos estratosféricos e roteiros concebidos para mostrar tudo, menos a verdade sobre o que o candidato fará se eleito for.

Tem-se a propaganda eleitoral gratuita como um fato inexorável, como a chegada do inverno. Não precisaria ser assim. Em muitos países, a campanha se centra em entrevistas, debates, na cobertura pela imprensa, nas redes sociais e no contato direto, olho no olho, com os eleitores. É mais difícil enganar o eleitor, é mais difícil o eleitor se enganar por trucagens e scripts apelativos. 

No Brasil, vive-se uma aberração, sobretudo desde que Collor de Mello provou, em 1989, que uma superprodução era capaz de eleger um político inexpressivo de um partido mais ainda. E o que é ainda mais grave: as alianças partidárias se subordinam à necessidade de engordar o tempo de TV. Ou seja, a disputa pela telinha sela acordos de ocasião e gera uma feira política onde uma infinidade de partidecos põe à venda seus apoios, contaminando a escolha do eleitor e governos eleitos.

Como distorção adicional, a propaganda gratuita passou a punir os menos abastados – a classe média, sempre que irritada pelo confisco da novela, se refugia nos canais a cabo ou vai navegar na web. Para a pureza do processo eleitoral, o ideal seria acabar de vez com o horário gratuito e suas consequências funestas, como nas cidades onde não há emissoras de TV, onde, nem por isso, candidatos são mal escolhidos. 

Como é improvável que partidos abram mão da exposição gratuita, os joões santanas perderiam muito de seu protagonismo se, ao menos, a legislação restringisse o horário eleitoral ao estúdio e a candidatos vendendo seu peixe sobre fundos neutros. Os efeitos especiais sumiriam e o custo desabaria. Sobrariam o botox e a maquiagem, mas esses não fazem mal ao Brasil.

O colunista Moisés Mendes está em férias



29 de junho de 2016 | N° 18568 
MARTHA MEDEIROS

A vida sob outra perspectiva


Uma relação amorosa vale quando você sai dela mais madura do que quando entrou. Uma viagem vale por termos voltado para casa mais abertos do que quando embarcamos. E um livro, mesma coisa: ele compensa quando a gente percebe que encerrou a leitura mais consciente do que quando a iniciou.

Foi esta a sensação que me deu ao terminar o livro da cantora Olivia Byington, O que é que ele tem. Conheço Olivia, já estivemos juntas algumas vezes, temos uma grande amiga em comum, mas nunca soube dos pormenores de sua vida íntima. Então, descubro que ela teve um primeiro filho com uma síndrome rara, e é sobre ele que Olivia escreve, escancarando um mundo novo para nós. Um mundo novo que não deveria ser novo, pois ela fala basicamente sobre delicadeza.

Acontece que a delicadeza tem sido mais rara do que a síndrome de Apert, que gera as terríveis deformações que tornaram o filho da Olivia diferente, e esse é o tema do livro: como lidar com a diferença. Não apenas a diferença entre uma criança com ou sem síndrome: a diferença entre um ser humano com delicadeza e outro não – e aí ela se refere a nós.

Eu sei que é difícil a gente não reagir com estranhamento diante do que é incomum, mas quanto tempo deveria durar um estranhamento? Em quanto tempo ele deveria evoluir para o acolhimento, o afeto, a compreensão?

O livro é tocante por inteiro, mas tem dois momentos que me emocionaram além do previsível. Um deles é quando Olivia narra a dificuldade em matricular o filho João nas escolas, e mesmo quando consegue, sofre com a maneira como ele é tratado. Ela então faz uma defesa incontestável da inclusão: quando uma criança com deficiência convive com crianças sem deficiência, são as “perfeitinhas” que ganham com isso, pois têm a oportunidade de desenvolverem a tolerância, aprenderem sobre superação e abrirem-se para a complexidade da existência. Óbvio. Olivia mostra com clareza como a convivência com os diferentes potencializa nosso aprendizado e nos faz valorizar ainda mais nossas bênçãos.

Outro momento que me fez suspirar. João passou por inúmeras cirurgias de reconstrução de face e órgãos, sofreu o diabo, submeteu-se a verdadeiros suplícios e flagelos para que seu organismo se adaptasse minimamente a fim de ter uma vida normal – um normal bem longe do que conhecemos. Ainda assim, em uma das vezes em que saiu do longo período no hospital e retornou para casa depois de mais um calvário, instalou-se em seu quarto e, pelo simples acesso a este pequeno conforto, exclamou:

– Ah, que vida boa. A gente reclama do que mesmo?

29 de junho de 2016 | N° 18568
EDITORIAL

A LEI DETURPADA


A Polícia Federal deflagrou ontem uma operação destinada a apurar fraudes na polêmica Lei Rouanet, criada para incentivar a cultura, mas nem sempre utilizada com esse propósito. De acordo com os investigadores, grupos especializados conseguiam aprovar projetos no Ministério da Cultura e depois procuravam a iniciativa privada para negociar a renúncia fiscal com vantagens para as duas partes e prejuízos para o governo. Assim, por meio de superfaturamentos, apresentação de notas fiscais alteradas ou projetos simulados, conseguiam desviar recursos para os próprios bolsos.

As fraudes vêm ocorrendo há vários anos por falta de controle e fiscalização. Tanto que a Lei Rouanet já passou por uma série de questionamentos, especialmente quando artistas consagrados utilizaram recursos de renúncias tributárias em espetáculos e obras de alta rentabilidade comercial. 

Como a lei não faz distinção entre quem precisa do incentivo e quem não precisa, essa depuração deveria ser feita pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, colegiado formado exatamente para avaliar propostas e autorizá- las ou rejeitá-las. Infelizmente, o órgão não tem cumprido adequadamente o seu papel.

Além de eventuais abusos, porém, o que mais preocupa são as fraudes, como as que agora estão sendo apuradas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União. As investigações flagraram empresas e escritórios especializados em pagamento de propinas para produtores culturais, com o propósito de subtrair recursos públicos que poderiam ser utilizados em benefício da sociedade. 

A Operação Boca-Livre, como foi batizada pela Polícia Federal, escancara a incompetência do poder público para a autofiscalização. E evidencia uma verdade inquestionável: a transparência continua sendo o melhor desinfetante moral.


29 de junho de 2016 | N° 18568
ARTIGO -  LEANDRO BRIXIUS*

RELAÇÕES NADA REPUBLICANAS


No início desta semana, fomos surpreendidos com a informação de um encontro entre o presidente interino Michel Temer e seu correligionário e presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, no domingo à noite. Detalhe: não constava na agenda de ambos e só ficamos sabendo por conta de vazamentos à imprensa. 

Para deixar ainda mais interessante a história, o Planalto confirmou a reunião. Cunha, não. O que teriam a conversar que não deveríamos saber? Por que o deputado afastado nega o convescote? A explicação de Temer é de que trataram da sucessão da presidência da Câmara, mas podemos pensar que também seria pertinente falarem sobre a cassação do parlamentar e o processo de impeachment, não?

Esse encontro furtivo do interino faz lembrar de outra agenda oculta no Palácio do Jaburu: a visita do ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, em um sábado à noite, em meio a um feriadão no qual Temer estaria, oficialmente, com a família em São Paulo. Na versão relatada por ambos, o papo girou em torno de verbas para as eleições municipais, mas nas duas Cortes correm processos de interesse particular do interino: Lava-Jato, impeachment e cassação da chapa Dilma- Temer de 2014.

Aos poucos, fica- se sabendo de outros encontros, alguns extraoficiais, do titular provisório do Planalto. No fim de semana passado, para intensificar o corpo a corpo com senadores em busca de votos pelo impeachment de Dilma, Temer foi ao aniversário do senador Wilder Morais, em Goiás, que ainda não revelou seu voto. 

Senadores, inclusive, estão cobrando do governo interino nomeações para cargos em estatais e até mesmo o comando do BNDES em troca de apoio – e muitos são recebidos em almoços e jantares no Jaburu para tratar do assunto. Alguns já levaram o que pediram, como Romário (uma vaga na diretoria de Furnas) e Zezé Perrella (o filho, Gustavo, assumiu a Secretaria Nacional do Futebol e de Defesa dos Direitos do Torcedor).

Os encontros, furtivos ou não, de Temer mostram a dedicação a uma prática que deveria ser sepultada em nome da transparência e melhoria da gestão pública no país. Negociações na penumbra ajudaram a instalar a corrupção no Brasil, justamente o que ansiamos que fique para trás em uma nova fase a ser vivida por todos nós em nossa ainda jovem democracia.

*Editor de Notícias de Zero Hora

29 de junho de 2016 | N° 18568
ARTIGOS - LUCIANE FERNANDES RODRIGUES*

OS PROFESSORES MUDOS


Cresci vendo meus professores lutando por conquistas que vêm sendo gradativamente retiradas do nosso plano de carreira. Amedrontada, a categoria encolheu. Não sei se esse termo ainda se aplica ao conjunto de professores! Ainda somos categoria, quando cada um defende não os seus direitos, mas sim as suas “razões”? Eu não posso fazer greve, senão eu perco...! Quando o correto seria fazer greve para ninguém perder. Já pensou perder o IPE? Uma categoria defenderia o seu plano de saúde.

Quais seriam as razões dos colegas contratados? Professores que, não sendo concursados, salvo exceções, não se sentem seguros para defender o direito de todos. Estes não terão o que defender quando não houver mais concursos a disputar, quando forem profissionais terceirizados, sem estabilidade, que na condição de contratados também não têm, mas desejam. Pois não defendendo essa condição agora, tentando evitar a aprovação do PL 44, que privatiza a educação, não terão o que defender amanhã.

E os professores com convocação, principalmente os que estão próximos de se aposentar, roucos de tanto gritar em greves anteriores, o que os fez emudecerem? Todos, não, há colegas com TI em greve. No entanto, devo concordar, os seus contracheques são invejáveis! Professores de nível 6 e classe E ou F e que ainda conseguem dobrar isso com uma convocação. Realmente, não é, lutar pra quê? Por quem? Pela categoria? Mas em breve ninguém irá se aposentar nessas condições. As promoções têm se tornado cada vez mais raras. Níveis e classes fazem parte do nosso plano de carreira, as promoções fazem parte do passado.

Tantas são as “razões” que os emudecem! Acrescentem-se a estas os professores com FG, os que estão em estágio probatório, os contratados que aguardam nomeação, os que aguardam aposentadoria, os que só estão fazendo bico, os que acham que não adianta lutar porque o governador garantiu os votos quando deu aumento para os deputados (aliás, nisso eles têm razão).

Eis uma nova categoria: os professores mudos! Essa categoria não faz greve, não corre riscos, não precisa recuperar aos sábados, aliás, só faria greve se não precisasse recuperar, prefere “dar milho aos pombos” e, se os grevistas ganharem alguma coisa... Eu não faço parte dessa categoria! Gosto de falar, de defender os meus direitos, mas, principalmente, gosto de lutar quando esta parece ser a única saída. Eu faço greve!

*Professora de língua portuguesa, especialista em desenvolvimento humano

terça-feira, junho 28, 2016


28 de junho de 2016 | N° 18567 
CARPINEJAR

Francesca


Não quero vê-la sofrendo, minha irmãzinha. Eu assumiria o seu lugar e me colocaria como escudo de suas dores, espuma de sua raiva. Mas não há como: a dor é uma ilha rodeada pelo oceano de lembranças absolutamente pessoais.

Não acharei conselho para afastar os maus pressentimentos e a sensação de ter vivido à toa. A separação é cruel de qualquer jeito, para os fortes e fracos, para os corajosos e covardes, é fazer nascer a própria velhice, tolerar a perspectiva assustadora de ficar sozinha e envelhecer sozinha, sem ajuda de parteira. É esvaziar a casa para descobrir o que ainda é seu. É colocar para fora do ventre alguém que já é grande demais para o nosso corpo. Leva tempo, só não quero que leve o seu riso ingênuo e a sua vontade de amar de novo.

Que não morra no parto da separação. Muitos ficam viúvos dos filhos que não tiveram, dos sonhos que não cumpriram, das viagens que não decolaram.

Não sei como convencê-la de que você é belíssima. Não existe colo que restaure a vaidade. Não enxerga o seu brilho porque se acostumou a se enxergar pelos olhos de quem foi embora e apenas mantém à frente uma imagem distorcida de sua estatura, impregnada de carência, pequeneza e orgulho ferido.

O que posso dizer é: amarre a sua sapatilha, que enfrentará o seu mais complicado salto, saltar sobre si.

Você é uma bailarina acostumada a torcer o calcanhar pela obediência acrobática do voo. Quantas vezes quebrou o pé e seguiu dançando mesmo assim? Voar é segurar o corpo com as mãos. Não pense no sofrimento, pense em terminar os movimentos: tendu, jenté, rond de jambé, grand battement...

Um de cada vez, esqueça a ferida, siga a elasticidade do gesto, complete a coreografia, este quebra-cabeça feito de pesada leveza. Às vezes não dá para andar, mas dá para dançar. É dançando que não doemos.

Não contará com a parceria para o pas de deux, apoie-se em sua respiração, nos seus projetos, não deixe os dias livres e vazios para esperar uma reconciliação que não virá, senão vai cair, crie o seu apoio. Será agora o passo de um. Terá que flutuar no palco com o terceiro pé da persistência. Espante as dúvidas e incertezas, não é momento de vacilar, um espetáculo a aguarda, permita o que aprendeu nas barras vir à tona, o músculo é o nosso melhor conselheiro, atenda aos pedidos do corpo que não cansa de levantar toda manhã apesar dos pesares.

Estarei no fundo do público, naquela cadeira que reservou para mim, com os dedos estirados em sua direção, prontos a disparar aplausos. Você não cai, minha bailarina, você muda o chão com os seus passos.


28 de junho de 2016 | N° 18567
ARTIGOS - LASIER MARTINS*

VIRAR A PÁGINA

O Brasil vive uma situação surreal: dois presidentes convivem vizinhos de muro e compartilhando a mesma equipe de segurança da Guarda Presidencial. A presidente afastada Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada, o presidente interino Michel Temer no Palácio do Jaburu.

O que se discute no Senado Federal é qual dos dois vai ficar no Palácio do Planalto até o fim do mandato, em 31 de dezembro de 2018. Neste momento, a balança pende acentuadamente para o lado de Temer. Mas Dilma não perde esperanças de voltar.

Por último, mas nem tanto, há uma ação no Superior Tribunal Eleitoral pedindo a anulação do pleito de 2014. Uma possibilidade remota.

A volta de Dilma significaria um governo minoritário, sem apoio político, com governabilidade nula. A presidente afastada, para manter-se no poder, teria de se apoiar numa militância estridente, que pudesse botar o país contra a parede e assim acuar o parlamento e a sociedade. Seria o caminho mais rápido à recessão profunda e desabastecimento geral ao triste modelo venezuelano.

O presidente interino, em vias de se tornar definitivo, não é um padrão de alta popularidade, mas nas poucas semanas que está governando já apresenta alguns resultados que estão animando os agentes econômicos a retomarem os investimentos e reativarem seus negócios. Isto é a base efetiva para deter a recessão, recuperar o emprego e botar o Brasil de volta nos trilhos.

Entre seus feitos nestes primeiros momentos está a integração de uma equipe econômica de primeira linha, capaz e confiável, ação efetiva para obter no parlamento os consensos. E arbitrar os conflitos com credibilidade.

Esses são fatores essenciais para o país deixar para trás esse baixo-astral que vem angustiando todos os brasileiros desde janeiro de 2015. É preciso virar a página. Embora Dilma prometa, se voltar ao governo, mudar tudo o que fez, mais prudente é dar força a este governo interino que se coloca com humildade e objetividade. Não há milagre, mas trabalho, diz Temer, resgatando o lema da bandeira: ordem e progresso.

A sorte está lançada e tudo faz crer na continuidade de Temer pelos votos de dois terços dos senadores. Pior sorte seria de re-entronar Dilma. Nas pesquisas de opinião a população diz que preferiria nova eleição. Mas quem dirá que o ministro presidente do TSE está pensando nisso?

Senador (PDT-RS)

28 de junho de 2016 | N° 18567 
DAVID COIMBRA

Caçapava vive

Caçapava morreu. Caçapava também podia morrer – uma surpresa. Ninguém imaginaria isso, nos anos 1970. Naquele tempo, Caçapava parecia indestrutível.

Caçapava foi o primeiro volantão do Brasil, o primeiro centromédio cão de guarda, o buldogue na frente da área, o protetor dos zagueiros, o zelador das laterais. Zito foi seu antecessor, mas Zito era uma bandeirante perto de Caçapava. Em geral, os centromédios eram jogadores como o volante que disputava posição com Zito na Seleção: Dino Sani, um clássico, um distribuidor de jogo, antes de um marcador. Clodoaldo, tricampeão do mundo em 1970, seguia essa tradição. E Falcão também.

Caçapava mudou tudo. O futebol brasileiro mudou um pouco por causa de Caçapava. Por causa de um determinado jogo: a semifinal do Campeonato Nacional de 1975, Inter versus Fluminense.

O Fluminense era o favorito. Sua equipe era chamada de supermáquina, montada graças às habilidades e à ousadia do presidente Francisco Horta, que conseguiu fazer trocas vantajosas com os outros clubes do Rio e, o mais importante, conseguiu contratar o melhor jogador do Brasil, Roberto Rivellino.

Mas o Flu não tinha só Rivellino: tinha Paulo César Caju, Dirceu, Marco Antônio, Carlos Alberto Pintinho, Doval... Era mesmo uma máquina.

Até aquele jogo, no Maracanã, o meio-campo do Inter formava com Falcão e Carpegiani mais atrás e Escurinho na frente. Na véspera da partida, o técnico Rubens Minelli reuniu os jogadores e perguntou:

– Vocês querem ganhar esse jogo?  Claro que todo mundo queria. Então, Minelli acrescentou:

– Para isso, temos que jogar com o Caçapava no lugar do Escurinho. A missão de Caçapava seria, justamente, anular Rivellino.

Falcão me contou que era o colega de quarto de Caçapava na concentração. No sábado que antecedia o jogo, Falcão disse para ele:

– Seguinte, negão: cuida a perna esquerda dele. Não o deixa dominar a bola com aquela perna esquerda. Aquela perna esquerda é um perigo!

– Pode deixar – rosnou Caçapava.

No dia seguinte, na primeira bola que foi passada a Rivellino, Caçapava chegou com o peito, com o pé, com os dois pés, com tudo, e o mandou para a lateral. Rivellino levantou-se a custo, espanou a poeira do uniforme, cofiou o bigode e estremeceu. O resto da tarde foi igual. A célebre canhota de Rivellino quase não tocou na bola, e o Inter venceu e se classificou para a final.

Essa façanha, de certa forma, fez do Inter o que o Inter é hoje. Aquela marcação irrecorrível de Caçapava no grande Rivellino permitiu o primeiro grande título do clube e solidificou o maior time da história do Inter.

É famosa e sempre citada a frase de Figueroa: “Com Caçapava na frente da área, jogo até os 45 anos de idade”. Porque se tratava de uma verdade líquida. Caçapava esbarrava nos atacantes e quebrava a jogada, para Figueroa sair limpo com a bola, de peito estufado e cabeça erguida. Figueroa podia ser elegante porque, antes dele, Caçapava fora grosso. Era uma dupla que se completava. Um dia, Figueroa me contou que ele passava o jogo orientando o Caçapava:

– Pega o cara na esquerda! Volta! Agora passa ali! Dá aqui!

Achei que talvez Figueroa estivesse se exibindo. Que nada. Quando fui falar com Caçapava, ele relatou, sem que perguntasse:

– Era o Figueroa que me dizia o que fazer, quando eu retomava a bola. Um humilde, o Caçapava.

Depois dele, o chamado “primeiro volante” se transformou no guardião da defesa. Vitor Hugo, Dinho, Batista, Dunga, Mauro Silva, todos são herdeiros de Caçapava.

Havia quem achasse Caçapava um tosco, mas com o tempo ele foi adquirindo confiança e demonstrando sua técnica. Começaram a ser notados o passe escorreito, o lançamento preciso e até o chute forte de meia distância. Acabou na Seleção.

Todos os times queriam ter um Caçapava na frente da área, porque ele facilitava o jogo dos zagueiros e dava liberdade aos meias. Falcão pôde sair das imediações da meia-lua e alvoroçar-se no campo de ataque graças a Caçapava. Se em 1982 houvesse um Caçapava na frente de Oscar e Luisinho, hoje uma sexta estrela estaria costurada no peito da camisa da Seleção Brasileira.

Caçapava amuralhava uma defesa. Caçapava dava segurança ao time. Caçapava parecia impossível de ser driblado, impossível de ser vencido, impossível de se cansar, impossível até de morrer. Mas morreu. Ou talvez não. Porque, na galeria dos heróis do futebol, Caçapava vive.


28 de junho de 2016 | N° 18567
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD

A QUEDA


O esquema desvendado, se isto vier a ser confirmado, é simbolicamente aterrador. O partido teria roubado de funcionários públicos, da ativa e aposentados, por meio de desvio de recursos do crédito consignado. Teria roubado dos mais necessitados, daqueles que recorrem a empréstimos na ausência de outro meio para o pagamento de suas contas.

Não é nem mais a história de Robin Hood, daquele que rouba dos ricos para distribuir para os pobres. É a nova história do PT, a de roubar dos pobres em proveito próprio ou para o partido. O escândalo do ponto de vista moral salta aos olhos.

Parece não haver nem mais traços do partido de antanho, que vendia a imagem de ser o veículo partidário da ética na política. A traição às suas próprias bandeiras exigiria, pelo menos, um ato público de contrição, de desculpas por toda a sua série de crimes. Há, no entanto, crimes que são imperdoáveis.

Inclusive a sede nacional do PT foi objeto de um mandado de busca e apreensão. O próprio partido está sendo investigado. O alvo foi claro: a sala do tesoureiro. Pudera, dois ex-tesoureiros estão presos, outro foi condenado e preso, além de vários líderes partidários estarem atrás das grades, outros sendo investigados e denunciados. Para um partido político, é a pior das imagens.

Isto significa que o próprio partido é visto como responsável pelos crimes cometidos. Não se trata do desvio de conduta de um militante ou outro, mas de um comportamento que seguia uma orientação partidária.

Fala-se, inclusive, de uma suposta “leniência partidária” sendo cogitada por iniciativa de petistas presos e sem perspectiva de saída. Do ponto de vista individual, querem safar-se. Contudo, o que chama atenção é um esboço, mesmo enviesado, de reconhecimento coletivo de culpa.

A “leniência partidária”, enquanto instituto jurídico, é hoje inexistente. Foi acolhida, porém, com simpatia por outros partidos que procuram safar- se, por sua vez, de condenação semelhante. Ela é, contudo, reveladora não somente da decrepitude do sistema partidário em sua maior parte, mas, sobretudo, daquele partido que se apresentou como a redenção nacional.

A sua queda é livre! Até os seus símbolos e bandeiras foram para o espaço.

Professor de Filosofia*

segunda-feira, junho 27, 2016


Autor de pedido contra Janot tem 21 anos, diploma do MIT e livro de direito

Arquivo Pessoal
Gustavo Haddad Braga, 21, que pediu o impeachment de Rodrigo Janot, em sua formatura no MIT, em 2014
Gustavo Haddad Braga, 21, que pediu o impeachment de Janot, em sua formatura no MIT, em 2014

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O décimo pedido de impeachment protocoladocontra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tem como autor um engenheiro de 21 anos, formado pelo MIT (Massachussetts Institute of Technology) e calouro da Faculdade de Direito da USP.

Gustavo Haddad Braga é o autor do documento protocolado na quarta-feira (22) no Senado. O prodígio, morador de São José dos Campos (SP), diz no texto que o procurador-geral descumpriu suas prerrogativas ao pedir a prisão de Renan Calheiros (PMDB-AL) e outros líderes da cúpula do PMDB, no começo de junho.
"É um flagrante desrespeito a qualquer tipo de norma, em especial a Constituição", disse ele à Folha. "Tem um intuito claramente político."

Além disso, ele alega que o procurador trocaria informações confidenciais de empresas como a Petrobras com governos estrangeiros, principalmente o dos Estados Unidos, para embasar suas denúncias.

O jovem disse que decidiu protocolar o pedido porque, como engenheiro, sempre gostou "de identificar problemas e de resolvê-los". "Então me senti na obrigação moral de denunciar o caso à autoridade competente, no caso, o Senado Federal."
Ele diz ter feito "uma interpretação correta" dos fatos apresentados porque teria começado a estudar direito aos 15 anos, por conta própria. Na mesma idade, foi aprovado pela primeira vez no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), considerado o mais difícil do país.


Em seguida, em 2012, aos 17 anos, foi aprovado, além do ITA novamente, na Faculdade de Medicina da USP, no IME (Instituto Militar de Engenharia), na Universidade Harvard e no MIT. Foi para o último e retornou ao Brasil engenheiro eletricista em apenas dois anos.


De volta, decidiu criar um cursinho pré-vestibular, cujo mote é "passe no ITA ou seu dinheiro de volta". Em posts feitos na página do Facebook do cursinho, Braga diz coisas como: "Se você consegue estudar durante 10h por dia, das duas, uma: ou você está a caminho de ganhar o próximo Nobel, ou não está estudando do jeito certo" –a promessa do curso é fazer com que os alunos passem no vestibular do instituto com apenas 5 horas diárias de estudo.

Foi, diz ele, com o intuito de "se manter atualizado" –já que é professor– que Braga prestou Fuvest novamente em 2015 e passou, desta vez na Faculdade de Direito. Matriculado, ele diz que frequentou apenas algumas aulas.

Nos grupos de Facebook da faculdade, no entanto, teve participação bastante ativa nos seus poucos meses. Em 18 de fevereiro, menos de um mês após ter sido aprovado, escreveu um texto questionando a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que tornou possível a execução da pena após a segunda instância. Intitulada "desfazendo um mito", a postagem acabou lhe rendendo o apelido de "calouro mito" entre os alunos e, segundo pessoas ouvidas pela Folha, fez com que até mesmo professores fizessem piadas em sala com o estudante.

O pedido repercutiu entre os alunos da faculdade e ganhou texto no "Jornal Arcadas", produzido por um grupo de estudantes. "Ele voltou! Depois de José Eduardo Cardozo, Albert Einstein e dois séculos de filosofia do direito, 'calouro Mito' ataca outra vez e desmistifica o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot", diz a chamada do texto, em referência às polêmicas do aluno.

Ele garante, no entanto, que não foi por isso que decidiu não prosseguir com o curso. "Não consegui efetivar minha mudança para São Paulo. E ainda faço parte desses grupos, mesmo afastado da faculdade", diz.

A falta de estudo formal em direito não foi uma barreira para que ele, no entanto, escrevesse um livro sobre direito constitucional –a mesma especialidade de nomes como Ives Gandra Martins e Michel Temer, presidente interino. "O Estado Constituído" deve sair em agosto, diz ele, pela editora carioca Lumen Juris ("pronuncia-se 'iumen'", esclarece ele à reportagem).


"É sobre uma doutrina chamada originalismo. Ela é muito difundida nos EUA, mas pouco aqui. Quis trazê-la para o país, acho que o Brasil poderia se beneficiar." 



27 de junho de 2016 | N° 18566
ARTIGO - MELISSA GUIMARAES CASTELLO*

BREXIT: A SAÍDA DO PONTO DE VISTA JURÍDICO

Na condição de cidadã britânica, acordo triste com o resultado do referendo ocorrido no Reino Unido (UK), pois acredito que o modelo de integração regional da União Europeia (UE) trouxe grandes avanços para seus membros. Não obstante, os britânicos optaram por sair do bloco no qual ingressaram em 1972, e se impõe a análise das consequências jurídicas dessa saída.

A UE é um bloco regional que busca assegurar a livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais. Para assegurar essas quatro liberdades, há um sistema legislativo chamado direito comunitário europeu. Esse direito é escrito com base na autorização que cada país-membro dá ao ratificar os tratados internacionais. O que acontece com o direito comunitário, agora que o UK não quer mais ser membro da UE?

Os tratados internacionais devem ser denunciados, ou seja, o UK deve formalmente informar que não quer mais ser parte deles. Nos termos do art. 49-A do Tratado da UE, o país deve notificar sua intenção ao Conselho Europeu, e serão negociados os termos da saída. Os tratados continuam aplicáveis ao UK até a data em que o acordo de saída entrar em vigor, ou até dois anos após a notificação. Portanto, ainda há muita negociação pela frente, antes da efetiva saída.

Os regulamentos europeus – direito comunitário imediatamente aplicado, que independe de qualquer ato legislativo do país-membro – são a parte mais sensível da transição. Eles abarcam as mais variadas áreas do direito, estabelecendo standards, tais como limites máximos de poluição. Quando o UK sair da UE, os regulamentos simplesmente deixarão de existir no país, e os britânicos terão que recriá-los através de leis internas.

A delicada situação dos regulamentos evidencia que o processo de saída deve ser lento, gradual e bem pensado. Os britânicos precisarão de tempo para legislar internamente sobre assuntos que eram tratados no âmbito da UE. Há muito trabalho pela frente para o parlamento britânico!

*Mestre em Direito pela Universidade de Oxford, procuradora do Estado do RS, professora de Relações Internacionais na ESPM


27 de junho de 2016 | N° 18566 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

GAME OF GIRLS

Escrevo esta coluna antes de assistir à final da sexta temporada de Game of thrones, ainda sob o impacto da batalha do penúltimo episódio. Quem viu, viu. Quem não viu, que não leia estas maltraçadas linhas.

Você viu? Que épico, minha gente. A batalha dos bastardos poderia ter sido dirigida por Akira Kurosawa, de tão incrível no detalhe e no macro. As falas entre Daenerys e Tyrion – o maior dos estadistas que Westeros jamais viu – e com os irmãos Greyjoy são dignas de qualquer filme do Scorsese e seus gângsteres. Game of thrones botou para quebrar, e com isso ganhamos todos, inclusive este que vos coluneia semanalmente, que achava que GOT havia perdido seu mojo.

Não perdeu, e ainda ganhou uma nova forma, e ela é, definitivamente, feminina. E vai ser girl power para sempre, ao que vemos. Daenerys comanda milhares de dothraki, os navios Greyjoy e ainda uns dragões que fazem as vezes de artilharia aérea dotada de napalm biológico. Difícil segurar a moça daqui pra frente.

Na frente da batalha por Winterfell, as péssimas decisões passionais de Jon Snow só não levaram ao desastre campal por conta de Sansa, que abre o caderninho e vai buscar Little Finger, que estava ali por perto com alguns milhares de soldados, olhem só a coincidência. Sansa vence ao final, e ver o trágico e doloroso fim do malvadíssimo Ramsay lhe traz um sorriso ao rosto, porque assim são as mulheres poderosas.

As coisas tomam forma, e o novo poder será feminino, é o que GOT tem para nos contar. Falta Cersei se livrar do fanático e sem vergonha High Sparrow e passar ela também a mandar na banda. Essa pode ser a maior contribuição de GOT para o grande debate ocidental sobre o feminismo. As mulheres têm que mandar muito mais para o mundo ficar – mais do que justo, equilibrado. As mulheres de GOT estão assumindo a responsabilidade pelo que virá no mundo do inverno que chega. De várias formas, isso é uma sorte, e o que de melhor pode acontecer naquele mundo, como nesse aqui.


27 de junho de 2016 | N° 18566 
DAVID COIMBRA

O quinto Beatle


Cá estou, fazendo minha lista de craques da humanidade, que sou fazedor de listas. Já citei dois: Mandela e Churchill. Citarei mais oito, para fechar em número redondo como a vida não é:

O terceiro: Martin Luther King, que, como Mandela e Churchill, venceu pela palavra.

“Eu tenho um sonho”, discursou Luther King, e, de certa forma, seu sonho se realizou.

Depois, Freud, que explicou previamente por que Mandela, Churchill e King venceriam pela palavra. Freud demonstrou como a palavra pode explicar ao homem quem o homem é.

Mais um: Kant, que foi o precursor de Freud ao mostrar que existe uma inteligência antes da inteligência. Michelângelo também não pode faltar. Ele criava vida a partir do mármore.

E, agora, quatro genialidades musicais, porque a música não é palpável como uma escultura de Michelângelo, nem pode ser verbalizada como as palavras de Churchill, Mandela, King, Kant e Freud, mas a música igualmente fala, estabelece comunicação direta com a alma e desperta sentimentos nos seres vivos.

Digo “seres vivos” porque os bichos também se deixam enlevar pela música. É célebre a história que contava Schopenhauer sobre um violinista da sua cidade que, uma noite, tendo se regalado em demasia com a boa cerveja alemã, virou valente, como viram alguns bêbados. Então, fez uma aposta temerária: entraria no pátio de uma empresa que era guardada por cães ferozes.

Entrou mesmo, pulou a cerca e, nem bem chegou ao chão, viu-se cercado dos cachorros com os dentes à mostra, prontos para reduzi-lo a carne de cheesebúrguer. Não é preciso dizer que o porre passou na hora. Tanto que ele teve presença de espírito suficiente para sacar do violino e tocar a música mais encantadora e suave que conhecia. Deu certo. Os bichos se acalmaram e, antes que ele pudesse dizer ufa, jaziam aos seus pés, mansos como bons maridos.

Outro que bem poderia estar nessa lista, Darwin, tocava piano para as minhocas. Ele tinha um viveiro de minhocas e estudava as reações que a música produzia nelas.

Portanto, se até minhocas se emocionam com a música, os craques dessa atividade também merecem estar na minha lista. Aí vão eles:

Beethoven, Mozart e Bach. E os Beatles. Considero os Beatles um único exemplo de craqueza, embora fossem quatro. E então penso nele, George Best, “o quinto Beatle”. Que craque, Best.

Com o que, ingresso no mundo do futebol.

Depois de passar dias falando em homens especiais da humanidade, parece vulgaridade descer ao degrau do futebol. Errado. O futebol é o esporte mais popular do planeta porque reproduz a vida. Então, há que se reverenciar ingleses como Best ou Stanley Matthews, franceses como Zidane ou Platini, alemães como Beckenbauer ou Schuster, argentinos como Messi, Di Stéfano ou Maradona e brasileiros como Pelé, Garrincha, Rivellino, Zico, Renato, Falcão, Ronaldo, Ronaldinho, Romário... são tantos os brasileiros...

Ou eram.

Por isso o meu lamento. Falta-nos o craque. Nosso último foi Ronaldinho. Neymar é subcraque, não tem grandeza de bola e de alma para ser o centro da Seleção Brasileira.

Você pode achar pouco esse drama, enquanto o país se consome na tragédia política. Não é. O futebol faz parte da nossa identidade e, pela primeira vez em mais de cem anos, não temos um craque sequer. Luan? Gabriel de Jesus? Alguém pode se tornar craque, entre os jovens jogadores do Brasil? Um craque pode ser construído aos poucos, a cada rodada, um tijolinho de talento depois do outro?

Não sei. Precisamos de um craque. Se nunca fizemos um Beethoven, um Freud ou um Luther King, é certo que sabíamos fazer pelo menos um Rivaldo, um Edmundo, um Jairzinho. Temos de fazer outra vez. Para podermos sonhar, em meio à realidade áspera. Para acreditar que estar por aqui, afinal, vale a pena.


27 de junho de 2016 | N° 18566 
L.F. VERISSIMO

A escolher


Escrevo sem saber se os ingleses decidiram ficar na comunidade europeia ou dar no pé. O que faz lembrar aquele comentarista esportivo que tinha dois textos prontos sobre um jogo que ainda não acontecera, “Por que ganhamos” e “Por que perdemos”. Se os ingleses optaram por sair, dizem que será ruim para eles e, por tabela, ruim para todo o mundo – menos para os cronistas. Teríamos mais teses a oferecer, começando com a mania dos ingleses de serem diferentes, e não só porque dirigem do lado errado da rua, e de infernizarem a vida dos europeus.

Foi Napoleão Bonaparte quem primeiro imaginou um Estado comum europeu – dominado pela França, claro, mas abrangente e racional. A derrota do Grande Armée pelos ingleses em Waterloo acabou com todas as grandes ideias de Napoleão, inclusive a de uma Europa unificada. Uma ideia que só deu fruto muitos anos mais tarde, e foram necessárias duas calamitosas guerras mundiais para que ela ressurgisse.

Um bom tema para desfiar: a rejeição da comunidade europeia como uma repetição de Waterloo e de outros exemplos da implicância inglesa com a Europa. Uma rejeição alimentada pelo pânico com a invasão de imigrantes e refugiados por uma persistente convicção da excepcionalidade britânica. Os ingleses não perdoam o resto do mundo por não ser inglês.

Mas a votação pode ter terminado com a vitória dos que querem ficar, e neste caso esqueça tudo que eu disse. A esperança venceu o medo e a soberba, e uma sociedade que talvez seja o melhor exemplo de convivência multicultural do mundo, hoje, preferiu o bom senso à xenofobia e à intolerância. E ainda por cima foi uma derrota – espera-se, também exemplar – da direita radical.

Portanto, ou foi uma vingança de Napoleão e da sua visão sobre Wellington e seu exército, ou foi Waterloo de novo. A União Europeia estaria se desintegrando aos poucos e uma vitória dos ingleses que querem sair seria um golpe, não mortal mas estonteante, com repercussões globais. Foi bem mais do que um plebiscito o que aconteceu na Inglaterra, na última quinta-feira.

sábado, junho 25, 2016



25 de junho de 2016 | N° 18565 
MARTHA MEDEIROS

Fator de descarte 2

Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”. Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender

Anos atrás, escrevi uma crônica chamada Fator de descarte, em que eu perguntava qual seria o deslize fatal que desmotivaria o prosseguimento de uma relação. Na época, dei o exemplo de uma amiga que estava no carro com o rolo novo e que o dispensou assim que ele, ao ouvir uma canção do Tom Jobim, disse que não suportava aquele xarope.

Amor não é coisa que tem dado sopa por aí, então, mesmo o cara tendo péssimo gosto musical, convém dar mais uma chance a ele – eu daria. Porém, nem todos são tão complacentes. Um amigo me disse, outro dia, que estava começando a trocar mensagens com uma garota, até que ela escreveu que adorava percorrer a orla de biscicleta. Biscicleta com sc foi o fator de descarte dele.

De fato, é grave, mas nestes tempos em que todo mundo tem iniciado relações através das redes sociais, sendo obrigado à escrita, é bom reduzir o grau de exigência, senão adeus cobertor de orelha para atravessar o inverno.

Erros clássicos proliferam: “despretencioso”, “encomodar”, “excessão”. Recentemente, uma escritora escreveu de forma errada a palavra exceção em seu Facebook: quem nunca? Na pressa em digitar um post contra a bandalheira do país, escapou um erro ortográfico sem revisão. Pelo mesmo motivo (a política), um músico escreveu que estávamos no fundo do posso. Ó, céus. Se até com eles, que dominam o português, acontece, imagine com quem não tem o hábito de ler livros, que é a maioria.

Muitos leitores me mandam e-mails bacanas e, ao final, pedem desculpas antecipadas por alguma eventual mancada na digitação. Quase sempre, são justamente eles que não cometem mancada alguma. Digo para relaxarem, pois costumo ficar mais ligada no conteúdo do que na forma. Eu mesma, em mensagens ligeiras, escorrego. E inclusive nas nem tão ligeiras: outro dia, numa crônica, troquei “sobre” por “sob” e não me conformo, como deixei passar? Vacilei. Não me descartem por isso, tenho defeitos piores.

Escrever corretamente é uma obrigação. Nada causa melhor impressão do que um texto limpo, claro e bem escrito, mas diante da falência da nossa educação e do lamentável índice de leitura do país, melhor ampliar nosso crédito amoroso para com os descuidados. Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”, assim, tudo junto. 

Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender. Se a pessoa aceita e agradece quando é carinhosamente corrigida, está salva, é sinal de que é inteligente. Mas se fica ofendida, aí o problema não é o erro gramatical, e sim a falta de humildade e a tacanhice em não querer melhorar. Pra essas, condescendência zero – agora sim, com sc.



25 de junho de 2016 | N° 18565 
CARPINEJAR

Sou um homem do rádio


Eu me arrepio quando vou ao estádio e vejo alguém com radinho de pilha grudado na orelha. Nenhuma tecnologia, nenhum fone, nenhum wi-fi do celular, com o radinho mesmo, do tamanho de um tijolo, carregado até a cabeça.

Lembro de meu pai.

O meu pai com o seu rádio velho ajeitando a antena de um lado para o outro, mexendo no dial com a precisão de um cofre. Ele levantava um haltere permanentemente com seu braço esquerdo. Não praguejava o incômodo. Colocava o volume ao máximo, feliz com seu aparelho de estimação, aquele que, acreditava, se esquecesse em casa, seu time perderia o jogo.

Havia sempre uma arte de estar em dois lugares ao mesmo tempo, sintonizado na narração e também atento aos sons de ebulição do estádio. Um fanático de um clube que não se isolava em si mesmo, não se fechava na cabine tecnológica, capaz de entoar os cânticos da torcida e colher as informações com os comentaristas quando não enxergava direito o que aconteceu num lance.

Da mesma forma, apesar dos aplicativos que me facilitam escutar qualquer música sem interrupção, prefiro as estações do rádio. Sou ligado ao improviso, à possibilidade de ser surpreendido por uma canção inesperada, algo que não sei ou não tinha noção. Fico no carro ou na residência navegando em minha estação predileta, deixando o coração suspenso pelos próximos acordes.

Não recrimino os comerciais, não censuro os boletins noticiosos, aguardo que venha uma melodia do acaso, potente o suficiente para me despertar lembranças longínquas e me inspirar a cantar alto refrões que não suspeitava recordar. É a adrenalina de reaver a memória amorosa por trás das camadas das idades. Recupero uma reunião dançante, a trilha de uma viagem, um hábito de infância. Exercito um descontrole generoso da vida. Penso que aquela música aparecendo do nada é um sinal de que devo telefonar para um amigo esquecido. A rádio é o interurbano que recebo diretamente do destino.

Hoje existe um controle excessivo dos ouvidos. Ouvir tudo o que se quer é surdez.

A rádio quebra as obsessões e me abre para a diversidade. Trata-se de um lançamento de um ritmo que nunca descobriria em meus filtros, de uma cantora que jamais tomaria conhecimento, de uma banda que passaria despercebida entre as modinhas.

O que quero mesmo é ser incomodado pelas emoções, ser levado para um destino espiritual que estava dentro de mim e é absolutamente desconhecido para o meu GPS.



25 de junho de 2016 | N° 18565 L.F. VERISSIMO
Por fora
Senador, o senhor sabe por que nós estamos reunidos aqui. Lideranças de todos os partidos com representação no Congresso, membros do Judiciário, líderes de todas as denominações religiosas do país, chefes militares, empresários – enfim, a nação.

Como o senhor também já sabe, fizemos um plebiscito interno no Congresso para escolher o mais íntegro e impoluto entre nós, para resgatar a reputação dos políticos, esta classe tão desmoralizada e tão desacreditada, principalmente depois dos últimos escândalos. A escolha foi fácil, foi quase unânime, pois nenhum outro político brasileiro tem a sua reputação de seriedade e honestidade.

O que lhe oferecemos é uma espécie de ditadura branca. O senhor nos governaria, por um período a ser determinado, até que a classe política recuperasse seu bom nome e a população voltasse a confiar nos seus representantes. As instituições da República continuariam funcionando, não haveria censura ou qualquer outro resquício de uma ditadura real, mas o senhor teria a palavra final – sobretudo da política econômica à escalação da Seleção.

Sua honradez é notória, mas mesmo assim precisamos sabatiná-lo, antes de nomeá-lo. Uma mera formalidade.

– Pois não. – O senhor tem conta não declarada na Suíça ou em algum paraíso fiscal?

– Não. – E truste? – Nem sei o que é isso.

– O senhor foi delatado ou está sendo investigado pela Lava-Jato?

– Não.  – E sua vida amorosa? Existiu algum caso que possa embaraçá-lo, se vier à tona durante seu mandato?

– Estou casado com a Josefa há 40 anos e nunca olhei para outra mulher.

– Acho que temos o homem ideal para governar o país. Não precisaremos de eleições. O país está cansado de tanta falcatrua e apoiará sua eleição por aclamação. O senhor aceita?

– Aceito. – Seu salário, por sinal, será o de presidente da República.

– Epa. Não tem algum por fora?


25 de junho de 2016 | N° 18565 
DAVID COIMBRA

O texto que salvou a Europa


Tenho em casa 10 alentados volumes encadernados em couro contando a história da II Guerra Mundial. Autoria: Winston S. Churchill.

Churchill assinava seus livros com o S de Spencer porque havia então outro escritor com o mesmo nome, um romancista americano, que, na época, era bem conhecido.

O Churchill britânico não era ficcionista, mas escrevia melhor do que seu homônimo.

Churchill ganhou o Prêmio Nobel de Literatura por sua obra. Mas isso até foi pouco: ele salvou a Europa com seu texto. Sim, porque foram os discursos de Churchill que inspiraram o povo inglês e o tornaram resiliente o suficiente para resistir ao muito mais poderoso exército do III Reich. Quando Churchill jurou: “We shall never surrender!”, Nós nunca nos renderemos!, começou a ganhar a guerra.

Mas o melhor de Churchill é que ele fez o que fez devido ao poder do seu texto. Ouça seus discursos, há vários no YouTube. Ele fala mal. Não chega a ser uma Dilma, mas não tem impostação alguma, enrola-se nas palavras e, o pior, falta-lhe interpretação.

Hitler era muito melhor orador. Não havia comparação entre um e outro na declamação. Hitler era histriônico, dramático, você lhe assiste discursando e fica hipnotizado. Alguns oradores têm essa capacidade. Se ele estivesse lendo a lista do súper, seria capaz de empolgar as multidões. Churchill, se você parar para ouvi-lo, é capaz de pegar no sono.

Mas também não havia comparação entre um e outro no texto. Li o infame best-seller de Hitler, Mein kampf. É mal escrito, confuso, ruim na forma e no conteúdo.

Churchill, ao contrário, era dono de texto elegante e capaz de criar frases imortais, como a famosa “nunca tantos deveram tanto a tão poucos”, a respeito da atuação da Real Força Aérea na Batalha da Grã-Bretanha, ou de tiradas devastadoras, como aquela na discussão com uma deputada no parlamento inglês. Ela, que o odiava, rosnou:

– Se eu fosse sua mulher, derramaria veneno no seu café.

Churchill, impávido, retorquiu:

– Se a senhora fosse a minha mulher, eu beberia.

Churchill enfrentou o nazismo com a força da palavra escrita. E venceu.

É um herói. É desses que tornam especial a breve existência do ser humano debaixo do sol.

Era um craque. A vida precisa de craques.

Tenho outros, cá para mim, na minha lista de craques da humanidade.

Nelson Mandela.

Estive frente a frente com Mandela, olhei-o nos olhos. Contei essa história, aconteceu em 1991, não vou contar de novo. Podia ter aproveitado melhor o encontro e tirado dele algum ensinamento, mas pelo menos tenho a lembrança particular daquele homem alto, sorridente, de aparência serena.

Mandela, na juventude, foi lutador de boxe e guerrilheiro, manejou bombas, planejou atentados, pregava a violência. Então, foi preso pelo regime racista da África do Sul.

Esse episódio, na história de Mandela, é o que o torna um gigante. Ao prender Mandela a fim de se preservar, o regime do apartheid encontrou seu fim. Na prisão, Mandela se libertou. Viu-se livre de muitas coisas, ao ser preso, mas o principal foi ter compreendido que as pessoas são iguais nos sentimentos. Mandela entendeu que o branco opressor também sentia medo e que a única maneira de derrotá-lo era não lutar contra ele.

Um gênio da política.

Não estou exagerando. Estive na África do Sul e vi. Vi a obra de Mandela. Vi como negros e brancos convenceram-se intelectualmente de que tinham de conviver em harmonia, vi que viram como necessitavam uns dos outros.

Mandela fez como Churchill: com o poder do verbo, mobilizou multidões.

O Brasil dividido de hoje bem poderia haurir do exemplo de Mandela e da África do Sul. Mas ainda não cheguei aonde queria chegar. Continuo na segunda.



25 de junho de 2016 | N° 18565
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

O ESCASSO TEMPO DO PERDÃO


Alguns morrem fazendo planos, como se até a conclusão dos compromissos assumidos, a demissão deste mundo pudesse ser protelada. Outros se amarguram por acreditarem que foram menos correspondidos no amor do que fizeram por merecer, e reclamam da mais amarga das solidões: a que não tem depois. Ainda há os que antecipam o epílogo mergulhando em depressão profunda, que é a mais perfeita imitação da morte, e os que falam sem parar como se fosse possível reaver os discursos protelados e as declarações de amor negligenciadas por falta de motivação ou oportunidade. São frequentes os que repetem à exaustão as maravilhas que fizeram, como se ninguém percebesse o desespero de alardear o encanto do que poderiam ter sido e não foram.

A variedade de tipos e reações torna o convívio com o paciente terminal um grande desafio para a sensibilidade do médico que descobriu que a sua missão não termina com o diagnóstico da incurabilidade, e se deixa encantar pelas inesgotáveis lições de grandeza, mesquinhez, generosidade, altivez e hipocrisia. Essa salada que chamamos humanismo.

Os pacientes autenticados pela proximidade da morte, despojados de toda a futilidade que só prospera nas relações sociais entre pessoas saudáveis, são os melhores mestres na seleção dos sentimentos que realmente valem a pena resgatar no inventário final. O Osvaldo nunca aceitou respostas evasivas e explicações pela metade. Quando soube que um melanoma que operara havia quatro anos recidivara, desapareceu por duas semanas e, então, voltou para o que chamou de organização de encerramento. Falava do tempo de vida com a objetividade de um empresário bem-sucedido, que lamentava morrer aos 63 anos, mas se não era mais evitável, achava que não fazia sentido choramingar.

Um dia, já bem próximo do fim, entrei no quarto dele e surpreendi a fortaleza soluçando. Antes que lhe perguntasse qualquer coisa, ele explicou: “Acabei de falar com meu irmão mais moço e, nem acredito, consegui lhe pedir perdão. Não passou um dia da minha vida sem que eu tenha pensado nisso, porque a nossa discórdia não fazia sentido. 

Foi uma bobagem, eu não podia ter dito que nossa mãe ia morrer por causa dele. Ninguém provoca câncer nos outros. Ele não sabe que estou morrendo, mas graças a Deus me ouviu e acabamos chorando juntos. Descarreguei um peso. Era hora de consertar o passado para poupar o presente. Ah, e não faça esta cara Dr., porque eu sei que não tenho futuro, mas ele terá. Sei também que não precisávamos ter sofrido tanto, pois este tempo de silêncio já dura 34 anos”.

Não sei que cara terei feito, mas não disse nada. Não ajudaria ele saber o quanto me pareceu injusto que não houvesse mais tempo depois do perdão. As pessoas afeitas a gestos de tamanha grandeza deviam merecer uma prorrogação.


25 de junho de 2016 | N° 18565 
DIANA CORSO

GENTILEZA POÉTICA

O hidrômetro que marca e conta / a água que aqui consumo / é como fumaça que espalha / de um cigarro que não fumo. Foi com esta estrofe, seguida de uma explicação, também em verso, que um morador de Brasília escreveu à Companhia de Saneamento para reclamar de um provável erro na medição de seu consumo de água.

A funcionária incumbida de redigir a resposta, dizendo que os pagamentos indevidos seriam ressarcidos, não conseguiu conter as lágrimas ao ler para os colegas a missiva recebida. Formada em Letras, acabou respondendo-lhe assim: Viemos pelo presente documento / apresentar os resultados apurados / na esperança de que com esse intento / encerremos seus desagrados.

Prestar uma queixa, solicitar um serviço ou informação, costuma ser um pesadelo. Digite número tal, volte ao menu inicial, informe sua senha, seu número, qual o nome do seu pai, anote seu protocolo. Quando conseguimos falar com um humano, ele nos fornecerá outro número, onde a odisseia das opções recomeçará. Escaldada dessas andanças labirínticas, é como se tivesse sido içada da tristeza pela notícia dessa troca de versos entre um cliente e uma funcionária. 

Ela veio no mesmo jornal onde o caos e o cotidiano desrespeito pela vida e pela palavra chegam-nos em grandes manchetes todos os dias. É possível ficar contente com um evento tão pontual? Sim, por ser algo tão alheio às expressões ríspidas, à conduta intolerante e ressentida que tem transformado diálogos em latidos. Sim, pela gentileza das partes envolvidas, mas principalmente pela poesia.

Tomada pelo desejo infantil de ouvir histórias, ou de que me ensinem algo, perco a oportunidade de ler mais poesia. Quando a deixo entrar na minha vida, descubro a cada vez que os poemas parecem traduzir-nos com assombrosa exatidão. Dá vontade de escrever versos nas paredes para olhar-se neles feito espelhos. O poeta é alguém menos leviano com as palavras do que nós, perdulários, que parecemos ter ganho um estoque infinito delas e as tratamos como itens sem valor. 

Cada uma será escolhida a dedo, mas será trocada sem dó. Caso mantida, ele não vacilará em mudar todo o resto para lhe oferecer melhor companhia. Depois de pronto, o verso passará por inúmeras reformas, até produzir os efeitos de concisão, profundidade e musicalidade requeridos pelo perfeccionismo dos poetas.

Levar o bem dizer para uma cena banal, como uma queixa a respeito da conta de água, é resgatar o valor perdido das palavras. Nós sofremos porque elas nos faltam em meio ao excesso. Carecemos de entender-nos porque raramente as escutamos. Falamos muito, falamos alto, escrevemos e lemos mensagens, postagens, documentos, trabalhos, textos, mas elas escorrem sem penetrar. Luiz Carlos Garcia, o cliente, e Aline Santos, a funcionária, tomaram uma atitude que poderia ser revolucionária se a reproduzíssemos: a gentileza poética, a arte de tratar qualquer assunto com a delicadeza que as palavras e seus portadores mereceriam.