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quinta-feira, janeiro 29, 2015


29 de janeiro de 2015 | N° 18057
CIDADANIA CONTRA O PRECONCEITO

O casamento de Gloria

NO DIA DA VISIBILIDADE TRANS, travesti que é secretária-adjunta da Livre Orientação Sexual da Capital oficializa união

Com a noiva de vestido branco, empunhando um buquê de rosas da mesma cor, a cerimônia que vai oficializar hoje à tarde um relacionamento de 15 anos tem um objetivo mais audacioso do que o de apenas reunir familiares e amigos para celebrar o amor e renovar os votos de dedicação e lealdade. A travesti Gloria Crystal, 50 anos, secretária- adjunta da Livre Orientação Sexual de Porto Alegre, primeira representante da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e travestis (LGBT) a ocupar um cargo desta estatura no país, vai se casar no civil com o autônomo Thiago Pereira da Silva, 34 anos, no Dia da Visibilidade Trans.

– Vou chorar. Já estou quase chorando agora, falando contigo. Muitos LGBTs não sabem desse direito regularizado. É uma conquista – diz a noiva, que vestiu o traje das núpcias para a entrevista.

O pedido de matrimônio surpreendeu Gloria na virada do ano, e ela teve de correr para preparar tudo em menos de um mês. Também marcando a data nacional em homenagem à população trans, a Defensoria Pública realizará mutirão para troca de nome civil (só para os inscritos previamente) na prefeitura. A madrinha Karina D’Ávila, secretária-adjunta dos Povos Indígenas e Direitos Específicos, auxiliou na compra das alianças e da roupa. A noiva, também atriz e apresentadora, acostumada à exuberância das performances em boates, se empolgou, imaginando um vestido coberto de paetês para a solenidade diurna, em um cartório do Bom Fim.

– Gloria, isso não é show! – censurou a amiga, bem-humorada.

Se não ler esta reportagem, o noivo, que já viu o vestido da amada, terá pelo menos uma surpresa quando os convidados estiverem reunidos no Chalé da Praça XV, a partir das 18h, para a confirmação dos votos: a cantora transexual Valeria Houston vai entoar a música Só Hoje, da banda Jota Quest, tema romântico do par.

– Vou chorar – repete a secretária-adjunta. – E ele também.

A mãe de Thiago é quem vai colocar as alianças nas mãos dos cônjuges. O espaço para a festa comporta 300 pessoas, e o convite está aberto a todos os interessados, ao preço de R$ 25, com direito a bufê de petiscos. Prevê-se lotação completa.

– Vivemos em uma sociedade preconceituosa, mas avançamos muito – atesta Gloria. – Que as pessoas tenham coragem.

larissa.roso@zerohora.com.br



29 de janeiro de 2015 | N° 18057
L. F. VERISSIMO

“Banlieues”

Houve um tempo em que se dizia “o que será do Rio quando os morros descerem?”. Os morros já tinham favelas e as favelas, além de enfearem a paisagem, eram viveiros de “maus elementos”, outra frase da época. Mas era um tempo em que ainda se podia romantizar os morros, lá onde os pobres viviam pertinho do céu, o luar furava os tetos de zinco e salpicava de estrelas o chão dos barracos e a cabrocha e o violão bastavam para se ter felicidade.

As pessoas conviviam com o morro romantizado para não ter que pensar no inevitável: e quando os morros descerem para o asfalto e não for Carnaval? E quando a miséria real, nos morros e nos arredores da cidade, derrotar qualquer tentativa de poetizá-los? O inevitável, como se lê no noticiário do Rio de todos os dias, já aconteceu.

Seria exagero chamar os “banlieues” de Paris de favelas. São, na sua maioria, edifícios construídos para uma população de baixa renda e que acabaram concentrando imigrantes do Magreb, da África Equatorial e do Oriente Médio. A maior parte dos jovens de “banlieue” é de desempregados, e os índices de crimes violentos nessas periferias são enormes.

Mas ao contrário do Rio, onde você nunca perde o contato, pelo menos visual, com uma favela, de qualquer ponto da Zona Sul, em Paris você não vê vestígio da existência dos “banlieues”, salvo em alguma correria atrás de um batedor de carteira no metrô ou numa manifestação com quebra-quebra na rua, quando os jovens dos “banlieues” monopolizam a violência.

E desaparecem. A Paris que a gente conhece é apenas o centro de uma cidade que, assim como preservou sua arquitetura e seus monumentos, conserva sua solene indiferença ao cinturão de pobreza e ressentimento que a cerca. E lá também se pergunta, como no Rio antigo: e quando o cinturão apertar e a periferia invadir o centro?

Experiência pessoal. Por alguma razão, me convidaram para falar sobre um livro meu recém traduzido para o francês na biblioteca de um “banlieue” de Paris e escalaram um professor de literatura para me acompanhar. A plateia para assistir ao meu vexame consistia de quatro pessoas, e duas destas eram minha mulher e minha filha.


Na saída, ficamos esperando enquanto o professor ia buscar seu carro. O professor custou a voltar, e voltou com uma cara assustada. Tinha sido assaltado por um bando. Levaram seu casacão e seu dinheiro – provavelmente o cachê pago para me entrevistar – e deixaram sua resolução de nunca mais aceitar um convite para assessorar escritor brasileiro num “banlieue”.

29 de janeiro de 2015 | N° 18057
DAVID COIMBRA

O fim de São Paulo

Um dia São Paulo iria acabar. Isso era óbvio. Bem... falta pouco. Quem vai querer viver num lugar em que os habitantes ficam cinco dias por semana sem água e cinco horas por dia presos em engarrafamentos?

Digo que era óbvio o fim de São Paulo porque essa é uma cidade pouco inteligente. Uma cidade sem estrelas. Uma cidade sem horizonte. À noite, você olha para o céu e vê uma capa cinza-chumbo. De manhã, você abre a janela e seu olhar esbarra numa parede. São Paulo não foi feita para as pessoas, nem foi feita para os automóveis. Para que foi feita São Paulo? Brasília, outra cidade pouco inteligente, por outros motivos, pelo menos foi construída para os automóveis. São Paulo, eles foram montando de improviso. A força da grana foi erguendo e destruindo coisas belas aleatoriamente, sem planejamento.

Agora a falta de planejamento está cobrando a conta.

São Paulo tornou-se o inferno, mas isso não quer dizer que Porto Alegre seja o paraíso. Porto Alegre padece dos mesmos males de São Paulo, só que sem dinheiro. Sem a força da grana, as coisas belas são destruídas e, em seu lugar, são erguidas as de mau gosto.

Numa cidade que valoriza as pessoas, o tamanho e a arquitetura dos prédios, por exemplo, são controlados com rigor e critério. Vou citar dois pequenos exemplos: o Menino Deus e o Moinhos de Vento são bairros com evidente vocação residencial, e também para o comércio de rua e para a vida noturna amena, mas, a despeito dos protestos dos moradores, alguns edifícios de altura e arquitetura grotescas estão se levantando do chão já há anos, e vão continuar se levantando, e vão desfigurar ambas as regiões.

O planejamento urbanístico preserva as melhores características de uma cidade, preserva o meio ambiente e, por consequência, preserva os seres humanos. A falta de planejamento, como prova a iminente extinção de São Paulo, não apenas destrói as coisas belas erguidas pelo homem: destrói a vida ao redor.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, foi um ministro da Educação volta e meia equivocado, mas ele tem boas ideias para a cidade, pelo que li em várias de suas entrevistas. Não estou falando das ciclovias que ele mandou pintar nas avenidas – ciclovias são algo positivo, mas não passam de paliativo. Na questão do trânsito, especificamente, Haddad quer transformar o transporte público paulistano em um sistema exemplar, com internet, ar-condicionado, conforto e rapidez em ônibus e trens. Em contrapartida, pretende taxar fortemente a circulação dos carros particulares.

Perfeito.

Em Porto Alegre, a prefeitura deveria cobrar uns R$ 10 ou R$ 20 a hora pelo estacionamento em vias públicas e reverter esses recursos para a qualidade dos ônibus, dos lotações e dos trens.


Porto Alegre ainda pode se salvar. São Paulo, mesmo com as boas intenções do seu prefeito, talvez não.

29 de janeiro de 2015 | N° 18057
ARTIGOS - JOSÉ ALBERTO WENZEL*

REAÇÃO EM CADEIA

Com menos água, diminui a produção de energia, estabelecendo-se a cadeia do abalroamento. Altas temperaturas evaporam ainda mais água dos solos e plantas, com reflexos diretos sobre agricultura, indústria, comércio e serviços. Quadro visibilizado por torneiras secas, mas de moldura muito mais abrangente. Quando se mexe na sanga, interfere-se no mar.

Constrangedoramente, como humanos da virtualidade tecnológica, nos assemelhamos aos nossos ancestrais, que tinham por urgência a satisfação das suas necessidades primordiais: água, abrigo e alimento. Seu atendimento dependia essencialmente da natureza. Observando, os animais sabiam onde encontrar fontes e córregos. Assim como, então, pode faltar tudo, menos água. Indubitavelmente ainda nos mantemos como corpos hídricos movidos a energia solar, inseridos na cadeia da fotossíntese.

Quando definham gigantes como os reservatórios da Cantareira e de Paraibuna, a sequên- cia natural dos eventos tende à aceleração incontrolada, uma vez que não são meramente os depósitos em si que secam, mas revelam as condições das suas bacias hidrográficas.

Se sabe que o leito de um rio ou o armazenamento de água não dependem exclusivamente de chuvas, que por sua vez resultam de uma série de fatores concatenados.

Quando as florestas viram campos, lavouras e cinza, quando o petróleo que levou milhões de anos para se formar no subsolo é jogado em poucas décadas para a atmosfera, quando as concentrações urbanas modificam as densidades da superfície terrestre e impermeabilizam os terrenos e, quando imensas massas de água derretidas das geleiras se misturam a correntes marinhas; quando a tudo isso se somar as pequenas inconformidades quotidianas de cada um de nós, precisamos perguntar: “Até quando?”.


*GEÓLOGO

quarta-feira, janeiro 28, 2015


28 de janeiro de 2015 | N° 18056
MARTHA MEDEIROS

Aos remos

Não sou só eu que tenho a impressão de que estamos sentados sobre um barril de pólvora. É só dar uma espiada nos comentários deixados nas redes sociais, em conversas de bar, nas trocas de mensagens por WhatsApp, nos telejornais. O Brasil descarrilou, e agora?

Apagões, crise hídrica, obras superfaturadas que não terminam, escândalos de corrupção em todas as esferas, ausência crônica de segurança, aumento de impostos, saúde e educação vergonhosas, desgoverno evidente e início de uma recessão de que não se conhece ainda as consequências. Uma amiga pergunta no Facebook: “Todo mundo já decidiu para onde vai se mudar?”.

Ah, se fosse fácil assim. Fazer as malas e se mandar para algum lugar em que se pudesse caminhar pelas ruas sem medo, em que os policiais fossem bem treinados, em que houvesse metrô e muitas ciclovias, em que não se racionasse nada, a luz não caísse no meio da tarde e os tributos pagos revertessem em uma vida digna. É claro que qualquer nação tem problemas, mas o Brasil abusou da prerrogativa.

Eu adoraria fechar minhas contas e zarpar. Tenho condições de que raríssimas pessoas dispõem para fazer isso, a começar pelo meu trabalho, que não depende de nada a não ser de um laptop. Ainda assim, é muito difícil deixar amigos e familiares. E é frustrante desistir. Quem deserta está colocando um ponto final na confiança que um dia teve.

Por ora, ficarei, mas me pergunto: como ajudar este raio de país? De nada adianta declarar guerra à ponderação e incitar a violência. Em termos coletivos, o melhor caminho continua a ser a defesa da imprensa livre e sair todos às ruas de forma pacífica, como fizeram recentemente os parisienses por ocasião do atentado à Charlie Hebdo, como fizeram os argentinos por ocasião da morte do promotor Alberto Nisman, como fizemos nós mesmos em 2013 – é o jeito de exercer pressão e mostrar que nosso povo não é tão mole quanto parece.

Detalhe: de cara limpa, sem máscaras, sem queimar ônibus e destruir agências bancárias. Depredações são prova de fraqueza, não de força.

Nossa indignação coletiva precisa ser fotografada, filmada e difundida para o Planalto e o planeta, sem deixarmos de lado as atitudes particulares, que são fundamentais. É hora de agir com total responsabilidade dentro de casa, apagando as luzes, fechando as torneiras, economizando os gastos do prédio, do condomínio, da empresa.

Essa corja política não merece nossos sacrifícios, eu sei, mas não podemos continuar esperando que eles resolvam hoje o que nunca os preocupou antes. Temos que tomar conta do Brasil, assumir este país que deu profundamente errado, mas que é nosso. Porque até aqui, perdemos de lavada. Eles lavavam dinheiro e nós lavávamos as mãos. Deu no que deu: escassez de água e de futuro.



28 de janeiro de 2015 | N° 18056
EDITORIAL

DILMA ASSUME AJUSTE COMO REVISÃO DE ERROS

Pronunciamento da presidente da República, na primeira reunião ministerial, oferece sinais de que o bom senso pode substituir o populismo do primeiro mandato.

Depois de um longo período de silêncio, a presidente da República emitiu ontem os primeiros sinais de como pretende conduzir as prioridades do início do segundo mandato. O desafio, disse a senhora Dilma Rousseff, passa a ser a busca do reequilíbrio fiscal, para que a partir daí o governo possa perseguir a queda da inflação e das taxas de juros e a retomada do crescimento. Os rumos dos próximos quatro anos foram apresentados no pronunciamento da abertura da primeira reunião ministerial do ano.

Além do compromisso com a austeridade, que marcou as palavras iniciais, ficou evidente na fala da presidente o desejo de reconquistar a confiança de quem produz. Era o que o país esperava, desde a posse, para que as intenções do Planalto não sejam assumidas apenas pelas manifestações do ministro Joaquim Levy.

É uma categórica revisão de posturas em relação ao primeiro mandato. O projeto de equalização de receitas e despesas, completamente desprezado, passa a ser um compromisso público da presidente da República. Até agora, isso não estava muito claro, como se o ônus de medidas consideradas pouco simpáticas pudesse ser transferido somente ao comandante da Fazenda. Deve ser reconhecida a sinceridade da presidente, admitindo finalmente que a economia vivia sob os riscos da irresponsabilidade fiscal, ao referir-se agora às primeiras ações na área como um “ajuste com medidas corretivas”.

Há uma visível alteração de rumos porque a orientação da economia vinha sendo errática e populista. O mérito do pronunciamento está, além do conteúdo em favor da austeridade, no fato de que expõe prioridades das quais a presidente não poderá se afastar, sob pena de comprometer seus próprios projetos e desmoralizar a imagem que pretende construir.

Nesse sentido, foi incisiva a sua afirmação de que o país não pode mais aceitar distorções na concessão indiscriminada de benefícios, como o seguro-desemprego e as pensões previdenciárias. Também merece destaque a ênfase dada ao esforço para aumento das parcerias entre o setor público e as empresas privadas, dependentes de atitudes capazes de superar o imobilismo dos primeiros quatro anos.

Outras questões abordadas, como o rigor no combate à corrupção e o empenho pela reforma política, além da promessa de simplificações tributárias, eram temas previsíveis no discurso, mas nada significarão sem gestos concretos. O que fica de positivo, como essência do pronunciamento, é o recado dado a todos os ministros de que não haverá crescimento, pleno emprego e preservação de conquistas sociais sem que as contas públicas estejam em ordem.

EM RESUMO


Editorial reconhece a decisão do governo de reafirmar que somente com medidas corretivas nas contas públicas o país terá a chance de voltar a crescer.

28 de janeiro de 2015 | N° 18056
ARTIGOS - ALFREDO CANTALICE NETO*

O RISCO DE GENERALIZAR

Esta passagem de ano foi marcada por três acontecimentos que o c u p a r a m a s atenções da imprensa e nos transmitiram sentimentos de decepção, insegurança e equivocada generalização.

No âmbito mundial, os terríveis atentados na França, especialmente o ataque à revista Charlie Hebdo, levaram a uma reação local de responsabilização das pessoas da mesma religião, logo difundida pelo mundo. Mas o bom senso imperou e a realidade desnuda mostrou que quase todas as religiões têm representação na população francesa e a radicalização religiosa é uma exceção.

Em outra esfera, o escândalo da Petrobras e suas denúncias, que se multiplicavam a cada dia, causaram um descrédito total na estatal. Adicionalmente, aventou-se a possibilidade de envolvimento de líderes políticos nacionais, derivando, então, para uma impulsiva generalização de má índole de nossos dirigentes. Evidentemente, esse sentimento foi seguido pela percepção de que o grupo de criminosos está sendo identificado e punido. Mais uma vez, o bom senso nos mostrou que, por outro lado, a empresa é composta por um número bem maior de funcionários honestos e trabalhadores.

Em meio a esses acontecimentos, foi denunciada na área da saúde uma prática criminosa, realizada contra pessoas submetidas a cirurgias para colocação de próteses, envolvendo profissionais e hospitais. Imediatamente nos identificamos e ficamos chocados com a possibilidade de cirurgias desnecessárias, superfaturamento e comissões milionárias que teriam sido pagas a profissionais e hospitais. Seguiu-se, novamente, uma sensação de dúvida sobre a índole de todos os médicos.

Nesse caso, também os médicos, a exemplo de qualquer infrator da lei neste país, devem ser julgados e, se forem culpados, deverão sofrer os rigores da lei e do processo ético-disciplinar dos conselhos esta- duais e federal de medicina, sob a luz de nosso Código de Ética Médica. Afinal, a confiança é basilar não apenas na construção do atendimento ao paciente, mas em todas as relações sociais. Façamos, cada um de nós, a justa distinção desses casos. Assim, também estaremos exercendo a cidadania.


*Presidente da Amrigs

28 de janeiro de 2015 | N° 18056
FÁBIO PRIKLADNICKI

O OUTRO BUENA VISTA

Ainda não consegui deixar de me impressionar com as delícias do mundo da música por assinatura – conhecido, no Brasil, como streaming. Estou falando de Spotify, Deezer e que tais.

É estranho imaginar que até o ano passado, quando aderi a um destes, tinha que garimpar raridades em lojas de CDs importados – sim, porque muito da world music e da música clássica não estava disponível sequer para download. Agora, o problema é outro. Com um catálogo que parece infinito à disposição 24 horas por dia, a dificuldade é ouvir um disco até o fim: quero tudo ao mesmo tempo. Espero que seja uma fase.

A música por assinatura é o sonho dourado dos adolescentes que, até a década de 1990, trocavam precárias fitas cassete com amigos para descobrir novos sons. Agora, temos o que gostamos na palma da mão, literalmente. Aí está uma questão curiosa: mesmo podendo ouvir qualquer coisa, seguimos com os mesmos. Em vez de três discos do Led Zeppelin, devoramos todos.

Há uma ferramenta no Spotify que recomenda músicas com base no que você tem escutado. Não funciona direito pra mim. Ouvi Elis Regina e me apresentaram Maria Rita. Gostaria de descobrir coisas que ainda não sei que vou gostar. Uma boa ideia seria gerar sugestões baseadas em critérios mais interessantes, como “música com percussão tocada em colcheias e semicolcheias”.


Tive mais sucesso em diversificar minhas audições seguindo playlists do Spotify, que é o mais próximo que podemos chegar das antigas fitas gravadas por amigos. Achei uma que é The Hot Sounds of 1926 e constatei que só tinha coisa boa naquele ano: Fletcher Henderson, Al Jolson, Jelly Roll Morton. Acabei me demorando mesmo na playlist Global Music Day, onde conheci o Sierra Leone’s Refugee All Stars, tipo um Buena Vista Social Club dos refugiados de Serra Leoa. O álbum Radio Salone (2012) é um primor. E pude – veja só – me regozijar com percussão tocada em colcheias e semicolcheias.

28 de janeiro de 2015 | N° 18056
MOISÉS MENDES

Las paletas

Tenho quatro ou cinco grandes ideias num ano. Só aqui no jornal, já tive tantas ideias, que enchem um caderno. Estão num arquivo que se chama novas ideias. Algumas têm mais de 10 anos. Mas nunca tive um projeto que se traduzisse em ganhos financeiros.

Uma ideia que gostaria que fosse minha é esta de vender no Brasil as paletas mexicanas. Os picolés gigantes atraem filas aos quiosques de Los Paleteros nos shoppings e já têm imitações.

As paletas superam, como invenção, o Google Glass, os óculos que o Google criou com conexão à internet. Os óculos que manteriam você todo o tempo ligado à rede não duraram dois anos, nem como experimento. Los Paleteros – os fabricantes das paletas – chegam ao terceiro veraneio no Brasil.

Há paletas por tudo. Em lojas de 1,99, em óticas, em sapatarias. Meu amigo Beto Zaccaro conta esta. Num sábado, numa fila enorme de um açougue de Belém Novo, fez o pedido:

– Uma paleta. – De quê? – perguntou o açougueiro.

– De ovelha, ora bolas – disse o Zaccaro.

Não tinha. Tinha paleta de uva, de chocolate, de abacaxi, de doce de leite. Até açougue vende paleta mexicana. O picolé substituiu a moda do iogurte gelado.

Dois amigos de Curitiba, Gean Chu e Gilberto Verona, são os caras das paletas. Mas a ideia original não foi deles. As paletas já existiam no Paraná, sem uma grife forte. Em 2012, eles foram ao México e aperfeiçoaram a ideia dos outros. Botaram marketing, marca e qualidade no picolé.

Têm uma fábrica em Curitiba e no ano passado venderam mais de 10 milhões de paletas em 71 lojas, a maioria de franqueados. Faturaram R$ 70 milhões. Ficaram ricos aos 24 anos.

Se você estiver pensando em abrir uma franquia das paletas, espere um pouco. No início de janeiro, 8 mil candidatos a franqueados estavam na fila. Sim, 8 mil.

Eu provei paletas pela primeira vez em fevereiro de 2013 em Balneário Camboriú. Li agora a história dos sócios e fiquei pensando em como uma ideia espera por você em algum lugar. Essa dos paleteros deveria estar no México, dependurada num cáctus, desde o tempo do Pancho Villa.


Mas claro que a moda das paletas também vai passar. Que outra ideia poderá ser trazida do México? Tortillas, empanaditas, chalutas? Ou sombreros, quem sabe? Claro

terça-feira, janeiro 27, 2015


Marta Suplicy:
27/01/2015  02h00

O diretor sumiu

Tenho pensado muito sobre a delicadeza e a importância da transparência nos dias de hoje. Temos vivido crises de todos os tipos: crise econômica, política, moral, ética, hídrica, energética e institucional. Todas elas foram gestadas pela ausência de transparência, de confiança e de credibilidade.

Se tivesse havido transparência na condução da economia no governo Dilma, dificilmente a presidente teria aprofundado os erros que nos trouxeram a esta situação de descalabro. Não estaríamos agora tendo de viver o aumento desmedido das tarifas, a volta do desemprego, a diminuição de direitos trabalhistas, a inflação, o aumento consecutivo dos juros, a falta de investimentos e o aumento de impostos, fazendo a vaca engasgar de tanto tossir.

Assim que a presidenta foi eleita, seu discurso de posse acompanhou o otimismo e reiterou os compromissos da campanha eleitoral: "Nem que a vaca tussa!".

Havia uma grande expectativa a respeito do perfil da equipe econômica que a presidenta Dilma Rousseff escolheria. Sem nenhuma explicação, nomeia-se um ministro da Fazenda que agradaria ao mercado e à oposição. O simpatizante do PT não entende o porquê. Se tudo ia bem, era necessário alguém para implementar ajustes e medidas tão duras e negadas na campanha? Nenhuma explicação.

Imagina-se que a presidenta apoie o ministro da Fazenda e os demais integrantes da equipe econômica. É óbvio que ela sabe o tamanho das maldades que estão sendo implementadas para consertar a situação que, na realidade, não é nada rósea como foi apresentada na eleição. Mas não se tem certeza. Ela logo desautoriza a primeira fala de um membro da equipe. Depois silencia. A situação persiste sem clareza sobre o que pensa a presidenta.

Iniciam-se medidas de um processo doloroso de recuperação de um Brasil em crise. Até onde ela se propõe a ir? Até onde vai o apoio à equipe econômica?

Para desestabilizar mais um pouco a situação, a Fundação Perseu Abramo, do PT, critica as medidas anunciadas, o partido não apoia as decisões do governo e alguns deputados petistas vociferam contra elas. Parte da oposição, por receio de se identificar com a dureza das medidas, perde o rumo criticando o que antes preconizou.

O PT vive situação complexa, pois embarcou no circo de malabarismos econômicos, prometeu, durante a campanha, um futuro sem agruras, omitiu-se na apresentação de um projeto de nação para o país, mas agora está atarantado sob sérias denúncias de corrupção.

Nada foi explicado ao povo brasileiro, que já sente e sofre as consequências e acompanha atônito um estado de total ausência de transparência, absoluta incoerência entre a fala e o fazer, o que leva à falta de credibilidade e confiança.

É o que o mercado tem vivido e, por isso, não investe. O empresariado percebe a situação e começa a desempregar. O povo, que não é bobo, desconfia e gasta menos para ver se entende para onde vai o Brasil e seu futuro.

Acrescentem-se a esse quadro a falta de energia e de água, o trânsito congestionado, os ônibus e metrôs entupidos, as ameaças de desemprego na família, a queda do poder aquisitivo, a violência crescente, o acesso à saúde longe de vista e as obrigações financeiras de começo de ano e o palco está pronto.

A peça se desenrola com enredo atrapalhado e incompreensível. O diretor sumiu.

MARTA SUPLICY é senadora pelo PT-SP. Foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e ministra da Cultura (2012-2014)



27 de janeiro de 2015 | N° 18055
LUÍS AUGUSTO FISCHER

HENRIQUEDO VALLE

Saiu, em bem cuidada edição do Instituto Estadual do Livro – ei, vai sobrar IEL no novo governo? –, a Obra Reunida de Henrique do Valle, poeta. Quem organizou e prefaciou o livro, com mão técnica certa e coração também certo de contemporâneo e colega de ofício, foi o professor da UFRGS Paulo Seben.

No livrão de 439 páginas, há um mundo particular. Bem, sempre é assim, em matéria de poesia, porque poeta é justamente o sujeito que funda seu mundo, um tanto para lá ou para cá do mundo real, este aqui em que o senhor e eu usamos as palavras de modo servil e raramente temos voz individual. Poeta sempre tem voz individual: faz mais de um quarto de milênio que poeta é o que primeiro sofre, ou o que mais sofre, ou o que mais sabe dizer do sofrimento, ou tudo isso junto.

Sou da mesma geração do Henrique, que só conheci de vista (ele viveu entre 1958 e 1981, quando morreu de overdose), e do Seben, de quem sou amigo há quase quatro décadas – tempo que passa rápido, esse. Lendo as palavras do apresentador e as do poeta não tenho como escapar da leitura diante do espelho. Que desespero é aquele ali, que o poema diz como um uivo, mas também como um suspiro? Não era exatamente o mesmo que eu vivi, sob o céu cinza da ditadura militar?

Sim, era. A apresentação mostra os caminhos estéticos escolhidos – a franqueza de alma triste transformada em modalidade de discurso, a abolição da pontuação como uma reivindicação de liberdade em ato – e os poemas dão a ver muito mais do que os sofrimentos do jovem transtornado, uma espécie de beatnik com diagnóstico psiquiátrico, remédios e internações.


O grande Aníbal Damasceno Ferreira dizia que Qorpo-Santo tinha, quando menos, a importância dos cometas: ao passarem, efêmeros, dão a ver muita coisa, para além de sua própria figura, porque permitem medir distâncias relativas com outros corpos celestes. A comparação quadra bem à poesia de Henrique do Valle, voz que fixou a experiência de uma fatia histórica de nossa sensibilidade.

27 de janeiro de 2015 | N° 18055
ARTIGOS ZH

KISS, DOIS ANOS E AS FALSAS LÁGRIMAS

Simboliza, também, o egoísmo coletivo, escondido na emoção inicial conjunta do primeiro momento de ardor vertido em caudalosas lágrimas, mas que se esvai, como a fumaça do próprio sinistro, apagando-se processualmente com o passar de pouco tempo.

Não me refiro apenas à impunidade que impera até hoje, após 730 dias, soando como um deboche institucional à dor dos sobreviventes e dos familiares das vítimas.

E nem ao manto de esquecimento com que muitos veículos de comunicação cobriram as decorrências do episódio, depois da efervescência emotiva inaugural que o horror inusitado da mortalidade ampliada despertou nos seus ouvintes, leitores e telespectadores.

A própria descaracterização posterior da legislação de segurança e prevenção contra incêndios, elaborada em comissão especial do parlamento, que tive a tarefa honrosa e a responsabilidade de presidir ainda em 2013, é resultado desse sentimento, que tenta eliminar más lembranças da memória, para evitar o compartilhamento da culpa de todos pela conivência com a omissão com que se trata o caso até hoje.

Na tribuna do Legislativo, acentuei, repetida e recorrentemente – mas em vão – sobre os graves riscos da flexibilização da chamada Lei Kiss, que teve o rigor original abatido por emendas parlamentares. Sobretudo a partir de pressões de setores propondo excepcionalidades que legitimam o “jeitinho”, condenado na legislação anterior, pela defesa de interesses econômicos particularistas ou mesmo inconfessáveis. Felizmente, a última tentativa foi vetada pelo governador Tarso, mas voltará à apreciação do parlamento.

De tudo, ficou a dúvida sobre se o que importa mesmo é a preservação da vida humana.

Ou se, na verdade, ela vale menos que alguns metros quadrados de construções que revertem em tributos arrecadatórios, lucros imobiliários ou ganhos de alguns.


Professor, engenheiro e deputado - ADÃO VILLAVERDE

27 de janeiro de 2015 | N° 18055
DAVID COIMBRA

Mulheres gordas e mulheres retas

Um americano criou um blog listando 20 coisas que odeia no Brasil e nos brasileiros. Ele morou no Brasil e, está claro, não gostou.

Eu poderia listar 20 coisas ruins dos Estados Unidos e dos americanos, mas isso não seria inteligente. Prefiro ver o que há de bom nos Estados Unidos e nos americanos. Para sorver melhor o tempo em que vivo aqui, sim, mas também, e principalmente, por pensar no Brasil. O que há de certo no Norte que poderíamos aplicar no Sul? É o que estou sempre me perguntando. Não que minhas conclusões venham a fazer a menor diferença, mas, puxa, sou brasileiro e me interessa pelo menos especular sobre o bem do Brasil.

Os Estados Unidos não são melhores do que o Brasil, os americanos não são melhores do que os brasileiros, mas, não há dúvida, os americanos vivem melhor do que os brasileiros. Por quê? Por vários motivos, mas um mais do que todos: os americanos, em geral, aceitam o seu acordo social. Existe um parâmetro aqui, que é o cumprimento da lei e das normas de convívio.

Quando eles estão insatisfeitos com algo, como agora com o comportamento da sua polícia, eles tentam mudar a lei. Não desrespeitam a polícia nem a lei; tentam mudá-las. Quer dizer: as instituições são preservadas, ainda que sejam imperfeitas. Isso dá segurança às pessoas, porque elas sabem o que esperar do Estado e dos demais cidadãos.

Vejo isso de bom nos Estados Unidos, entre outras qualidades. Pena que o americano do tal blog não tenha enxergado pelo menos uma característica do povo brasileiro que o torna distinto de todos os outros povos do mundo: no Brasil, a despeito da fragilidade do nosso acordo social e da insegurança das nossas normas de convívio, as pessoas são naturalmente tolerantes. Não que o brasileiro seja cordial. Não é. É tolerante.

A respeito do brasileiro cordial, aliás, essa afirmação de Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico, Raízes do Brasil, foi mal interpretada. Buarque de Holanda não fazia um elogio ao brasileiro; na verdade, quase fazia uma crítica. A cordialidade, no caso, vinha do sentido etimológico da palavra: vinha do coração. Só que essa cordialidade no âmbito pessoal é um predicado: é a tolerância de que falo. Na esfera pública é um defeito: é a permissividade dos nossos governantes e o comportamento individualista do povo, o que horrorizou o americano esse.

Mas o americano não viu, e muitos brasileiros não veem, que a nossa sociedade aceita as diferenças sem precisar de doutrinações. Repare nos casos da gordinha de Canguçu, que desfilou na passarela do Garota Verão, e da Fernanda Gentil, que não tem bunda, ou está sem bunda, e entrou num biquíni e foi à praia no Rio. Quando um site escreveu, grosseiramente, que a Fernanda Gentil “é reta”, o Brasil se levantou em sua defesa.


Quando a gordinha de Canguçu pisou na passarela, o público se levantou para aplaudi-la e ovacioná-la. Melhor ainda: tanto Fernanda Gentil quanto a gordinha reagiram com bom humor aos eventuais comentários de mau gosto sobre seus corpos. Nenhuma das duas tremulou bandeiras, nenhuma das duas deu discurso, se revoltou ou bradou contra o preconceito da sociedade, blá-blá-blá. Uma lição de tolerância de ambas e da sociedade em geral. Tudo muito natural. Tudo muito bonito. Tudo muito brasileiro.

27 de janeiro de 2015 | N° 18055
MÁRIO CORSO

O ódio na internet

Quando usamos a palavra nazista para quem chutou um cachorro em um dia de fúria, que palavra vamos usar para quem comete regularmente crimes hediondos contra a humanidade? Mas a grande questão não é o desgaste semântico e o julgamento sumário. A pergunta mais procedente é: a internet revela a agressividade que está latente em nós ou é ela mesma que propicia um comportamento um tom acima do que já usamos?

Acredito na segunda hipótese, porque somos a primeira geração que massivamente usa a internet. Ainda não temos uma cultura de convívio, uma etiqueta peculiar para esse espaço. Recém chegados e broncos, ainda escarramos no chão e não sabemos nos comportar. Somos os inventores e as cobaias dessa nova experiência de convívio.

Agregue a isso a ausência física do interlocutor, não há corpos presentes. Quando a distância do outro aumenta, seu olhar não é visível, todas as ovelhas viram lobos e a bravata toma conta. Acrescente ainda o imediatismo, a rapidez da rede que permite fazer sem pensar. Escrever uma carta despendia tempo, até mandá-la tínhamos refletido melhor. Agora, usamos o calor do momento, que é péssimo conselheiro.

As redes sociais são um meio quase de mão única: muita exposição e pouco retorno. Somos narcisistas, mas acima disso somos carentes, queremos é ser notados, admirados. Para tanto, num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros. Tendemos ao exagero, ao insólito, ao bizarro, para nos destacar da massa.

Talvez a causa mais importante seja a sensação de irrelevância política dominante. O cidadão médio considera-se impotente perante a realidade. Não se sente representado por ninguém, as grandes discussões são complexas e ele pouco entende. A rede é porosa para o desabafo do seu mal-estar. Acredita que pode fazer política, ainda que minúscula, com suas investidas indignadas contra tudo e todos. O efeito é apenas catártico, uma caricatura de intervenção social. Não passa de ressentimento destilado, mas alivia.

Talvez nosso olhar viciado coloque o termômetro em lugares errados. Por duas razões: o que é bom não dá manchete, e compartilhamos uma ideia difusa de que vivemos um momento de declínio moral e espiritual. Alardeamos que o tempo da utopia acabou, viveríamos a época das distopias. Acalentamos, sem nenhuma base na realidade, a crença de que enquanto civilização estaríamos, como nunca anteriormente, rumando em direção à barbárie. Procuramos indícios do mito da decadência para referendar essa tese e, para isso, nada melhor do que as besteiras ditas sem pensar na internet.


De qualquer forma, se o ministério do bom senso existisse, advertiria: aprecie as redes sociais com moderação.

segunda-feira, janeiro 26, 2015


26 de janeiro de 2015 | N° 18054
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

Mozart para todos

Pois a Amazon chegou lá. A empresa que se especializou em bagunçar a vida da internet não se deu muito bem nas suas primeiras tentativas de criar conteúdo próprio. Uma coisa é ter uma lojinha e outra coisa é ter um estúdio de cinema, não é mesmo?

Quem saiu na frente foi a Netflix, que tinha mais DNA de Hollywood e logo acertou com House of Cards e Orange Is the New Black, mais a nova temporada de Arrested Development. A Amazon tentou, fez umas experiências, sem grande impacto. Pois essa fase passou. Com Transparent, premiada no Globo de Ouro (melhor série de comédia e melhor ator, como o maravilhoso Jeffrey Tambor), e a sensacional Mozart in the Jungle, a Amazon chegou lá, e chegou bem.

Mozart in the Jungle é uma deliciosa história sobre a vida duríssima dos músicos, especialmente os aspirantes a alguma coisa; a competição sem limites em uma sinfônica de alto nível; os egos galácticos dos grandes maestros; as picuinhas e as genialidades de pessoas que realmente amam a música acima de tudo. Ah, e Mozart.

Tive belos momentos na infância assistindo à Ospa, tive a glória de ver a Berliner Philharmoniker, e aqui em SP vou até a excelente Sala São Paulo me hipnotizar com a Osesp. Ouvir uma sinfônica ao vivo é a experiência que mais nos aproxima de alguma coisa, hummm, superior?

Escolher esse cenário é um dos achados de Mozart in the Jungle. O outro grande acerto é Gael García Bernal no papel do genial, genioso, excêntrico e latino prodígio da música erudita mundial, aka Rodrigo. Nesse personagem pop, o mundo erudito busca a salvação, ou o público, e a questão é esta: vai funcionar, ou simplesmente transformar uma grande orquestra em um grande anúncio da Apple?

Gael é encantador, Malcom McDowell exagera como o aposentado maestro emérito, todos os demais cumprem seus papéis com competência, e Mozart in the Jungle tem apenas um grave defeito: curtos 30 minutos de duração, o que deixa a mim, a você, ao senhor aqui ao lado, querendo mais, como tem mesmo que ser.


26 de janeiro de 2015 | N° 18054
DAVID COIMBRA

Panquecas para Gisele Bündchen

Aqui em casa quem cozinha sou eu. A Marcinha às vezes faz um macarrão e tal, mas é raro. O verdadeiro rei das caçarolas e das frigideiras é este que vos escreve.

Sou um cozinheiro de comidas simples. Lembra da minha receita de tortilla de Ruffles?

Pois é. Ultimamente, tenho me especializado em panquecas. Preparo-as basicamente em três modalidades:

1. Com molho vermelho e carne moída, que supera o molho do cachorro-quente do Rosário.

2. Com a tradicional dupla Queijo & Presunto.

3. Com banana frita salpicada de canela.

Uma manhã de sábado, estava começando a primeira de várias panquecas e a Marcinha veio com uma foto que a Gisele Bündchen postou em alguma rede social. Era o marido dela, o Tom Brady, fazendo, exatamente, panquecas. A legenda dizia algo como: “Tom Brady, the Pancakeman”.

Ora, ora. Duvido que as panquecas de Tom sejam melhores do que as minhas. Somos vizinhos, eles moram aqui perto. Um dia, vou bater lá na casa de Gi e desafiar Tom para um concurso de panquecas. Eles vão ver quem é o Pancakeman.

Suspeito de que a intenção de Tom, ao cozinhar para sua família, seja a mesma que a minha: praticar uma ação de amor. Partilhar refeições já é um ato de congraçamento; cozinhar, muito mais. As pessoas evitam sentar à mesma mesa com quem acham desagradável, alegando que isso lhes faz mal. E faz mesmo. O que você come é absorvido pelo seu corpo, se transforma em parte de você. Você não vai querer que parte de você seja também parte de quem você não gosta.

Jesus valeu-se muito disso em suas pregações. Ele partilhava refeições com as pessoas e assim se aproximava mais delas. Não por acaso, a comunhão é feita através de uma refeição simbólica. Dividir refeições une as pessoas.

Certa feita li um conto de Michael Downs em que a protagonista é uma cozinheira de presídio. Ela acredita que as pessoas se tornam mais respeitáveis quando diante de uma refeição requintada e tenta provar essa tese preparando pratos delicados para os presos embrutecidos. Então, chega o momento em que ela descobre que terá de cozinhar a última refeição de um condenado à morte.

A cozinheira se informa sobre o que o homem fez, e o que ele fez foram coisas terríveis. O tempo vai passando, o dia da execução se aproxima, e a cozinheira descobre mais e mais crimes abjetos do sentenciado. Ela passa a sentir ódio dele. Na hora de preparar-lhe a derradeira refeição...

Não vou contar o final e estragar o seu prazer de ler o conto. O que interessa é que me lembrei dessa história no dia em que eu e Tom preparávamos panquecas para as pessoas que amamos. Nesse mesmo dia, aquele brasileiro sentenciado à morte comeu sua última refeição na Indonésia. Li que uma tia levou-lhe doce de leite do Brasil. Terá ela feito o doce de leite com suas próprias mãos? O que sente alguém que prepara a última refeição de um homem que vai morrer?


Pena de morte não é dramática só para o condenado. Pena de morte muda a alma de um país. Não, não, pena de morte não combina com o Brasil.

26 de janeiro de 2015 | N° 18054
MOISÉS MENDES

A seca dos outros

Estão enfiando brocas nos pátios das casas em São Paulo em busca de água. Um poço artesiano, na região nobre dos Jardins, custa até R$ 150 mil. Não é água para beber, mas para as plantas, lavar o carro, fazer faxina.

Leio, ouço e vejo tudo sobre a falta de água. Vi na TV um funcionário do que seria um hotel fino de São Paulo jogando água no chão. O repórter perguntou por que ele lavava a calçada e o homem respondeu que cumpria ordens.

Vi as cisternas de gente pobre do Nordeste que recolhe água da chuva. Pesquisadores descobriram como separar a primeira água que cai do telhado, que pode estar contaminada, e só depois canalizar a água limpa, para uso da família. Vi a faceirice das pessoas com as cisternas e aquelas redes de canos.

E li ontem, na manchete da Folha de S. Paulo, que os paulistas e os moradores de mais quatro das 10 áreas metropolitanas do Brasil correm o risco de ficar sem água. São as regiões de Belo Horizonte, Campinas, Recife e Rio, com 48 milhões de pessoas. Podem ficar sem água e sem luz.

Nós, aqui da nossa Capital, temos esse riozão, ou lagão ou estuário ao nosso lado. Ficamos até meia hora no banho (eu fico só um pouco menos). Lavamos carro e calçada com água tratada. E esbanjamos a nossa abundância. No Brasil todo, o desperdício de água tratada é de 37%.

Nós desperdiçamos sem culpas porque estamos longe dos problemas deles e porque nosso medo não é de que um dia o Guaíba seque, mas que invada de novo a cidade.

Tente pensar, não na enchente, mas no dia em que também Porto Alegre poderá estar na situação de São Paulo – não como praga, mas como ameaça real.

O dia em que as crianças perguntarão a pais, avós e professores sobre a utilidade do muro da Mauá. Quando o Guaíba estiver raso como os rios e as represas de São Paulo e quando o muro estiver ainda de pé apenas como deboche.

Mas, claro, pensar nisso tudo é besteira. Falta água no Nordeste, em Minas e até na Califórnia. Já não há quase nada de água em São Paulo e pode faltar água no Rio.


Mas nós, os gaúchos, nunca teremos falta de água. Nós somos um modelo a toda a Terra. Nada nos falta, tudo nos sobra. Temos dois grandes estádios de futebol. Poderemos ter até três aeroportos. Como é bom ser gaúcho.

26 de janeiro de 2015 | N° 18054
COMPORTAMENTO MODELO DA ESTAÇÃO

“Fui lá e arrasei”

CANDIDATA FORA DOS PADRÕES dos concursos de beleza ganhou apoio nas redes sociais após desfilar na escolha da Garota Verão de Canguçu

Para muitos, inspiração, para outros, ato de liberdade, para Vanessa Vöss Braga, oportunidade de enfrentar seus medos. A menina de olhos azuis e sorriso tímido chamou a atenção da internet e se transformou em um viral nos últimos dias ao desfilar de biquíni para mais de 3 mil pessoas na seletiva do Garota Verão em Canguçu.

A estudante de 14 anos, que ficou famosa nas redes sociais, não tem computador nem internet. Vive com a família em uma casa humilde, construída pelos avós na região de Cerro da Boneca, zona rural de Canguçu. A paisagem bucólica, de plantações e estufas antigas para secagem de fumo, fica a mais de 13 quilômetros do centro da cidade, o que impede o sinal de celular e internet chegar à localidade. A ideia de participar do concurso partiu da mãe.

– Ouvi no rádio sobre o Garota Verão e resolvi inscrever a Vanessa. Ela sempre quis participar. No início, ficou com receio, mas eu expliquei que a gente não pode ter vergonha do nosso corpo. Ela é gordinha, mas é linda – conta Cristina Braga.

Vanessa, que foi poucas vezes à praia, comprou um biquíni para desfilar em seu primeiro concurso. No centro de Canguçu, escolheu modelo verde de estampas florais.

– Tenho 1m61cm e 70kg, sempre fui cheinha, mas eu me acho bonita. Adoro meus olhos e cabelo – revela a menina vaidosa, que adora pintar as unhas de rosa.

O nervosismo foi grande durante a semana que antecedeu a disputa e só se dissipou minutos antes do desfile:

– As outras candidatas, todas bonitas de corpo, e eu, gordinha. Fiquei com um pouco de vergonha. Mas quando eu entrei para desfilar, todo mundo gritou meu nome e me apoiou. Daí eu relaxei. E a vergonha passou.

A jovem, que sonha em ser cantora, não esperava tanta repercussão ao ato.

– Não imaginei que iam me notar. Vi que estava errada. Fui lá e arrasei – conta.

FOTO EM PÁGINA DA PREFEITURA TEVE MAIS DE 10 MIL CURTIDAS

Os passos corajosos de Vanessa em volta da piscina lhe renderam o carinho da cidade e das redes sociais. Na página da prefeitura de Canguçu no Facebook (veja abaixo), sua foto teve mais de 10 mil curtidas. Até então, poucos posts do endereço tinham mais de cem likes, para comparação.

– Espero que não seja só a minha filha. Outras pessoas podem pensar: “a Vanessa não ganhou, mas concorreu. Ela enfrentou o medo, foi em frente. Eu também posso”. Vamos pensar assim. Esse é o exemplo – fala o pai, Volnei Braga, orgulhoso.

– As pessoas gordinhas têm mais dificuldade em tudo. Desde comprar uma roupa até aguentar as piadas. Tinha receio de desfilar de biquíni e enfrentei. Se eu tivesse de dar um recado para essas pessoas seria para que não dessem bola – aconselha Vanessa.

Para os fãs e apoiadores, ela avisa:

– Ano que vem, se Deus quiser, vou participar de novo.


felipe.martini@zerohora.com.br</>

26 de janeiro de 2015 | N° 18054
ARTIGOS - JEFERSON FERNANDES - Deputado estadual (PT)

MEU PARTIDO É O RIO GRANDE?

O próprio Sartori alegava não ser conhecido do grande público. Daí que, ao trocar PMDB, seu partido de fato, por “Rio Grande”, o referido slogan criou condições ao então candidato de se apresentar como alguém não submetido a interesses partidários, mas disposto a governar com uma equipe técnica e não política.

Já na campanha eleitoral, alertávamos que era contraditório alguém que milita politicamente desde a juventude depor contra partidos. Nossa denúncia, contudo, soou como mera reclamação de opositores. Mas, analisando agora a montagem do novo governo, há condições de afirmar que a tal frase de efeito não passava de um embuste semântico eleitoral.

Aos fatos: 1 – o governador assume que seu partido é o PMDB, porque é essa sigla que ocupa oito secretarias; 2 – ao descartar um secretário técnico até para a Secretaria da Fazenda, Sartori demonstra que não está nem aí para o não político; 3 – as pastas estaduais estão divididas entre seis partidos da coalizão governista e o perfil de boa parte dos novos secretários pouco ou nada tem a ver com as áreas específicas que assumiram; 4 – a diminuição de 10 secretarias é pura fachada. Exceto os cargos dos secretários, nenhum outro CC ou FG foi extinto.

O constatado não seria nenhum absurdo, não fosse o fato de há tão pouco tempo o candidato Sartori ter falado o contrário do que faz agora. Paradoxalmente, a falácia do marketing usado contribui para aumentar ainda mais o descrédito dos líderes e dos partidos.

Então, mais do que reafirmar o logro do povo gaúcho – que terceiro turno não há – , nossa tarefa é encontrar formas de fortalecer a democracia, melhorando nossos partidos e apresentando bons programas de governo (ao invés de omiti-los), sem o medo de dizer que, sim, uma administração se faz com gestores políticos que não menosprezam o conhecimento técnico.

O contrário é engodo ou ditadura. Aliás, essa também é um engodo, porque geralmente os ditadores estão sob a égide de um partido, mesmo que seja o único.


Mesmo correndo o risco de romper com aquele entendimento tácito tradicional de que não se deve criticar um governo antes dos seus primeiros cem dias, torna-se imperioso alertar o povo gaúcho de que o seu novo governador é, sim, um político. E dos mais tradicionais. Daqueles que não se enrubescem mesmo quando confrontados com a maior das contradições. Sartori despolitizou a campanha para partidarizar o governo.