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sexta-feira, março 24, 2017


Jaime Cimenti

Feliz Porto Alegre! 

Porto Alegre é demais, está de aniversário e acaba de ganhar um presente gigante: a reforma e ampliação do aeroporto Salgado Filho. Que venham os alemães, aumentem a pista e facilitem os voos para as oktoberfests e para o resto do planeta. Wunderbar! Parabéns! Zum geburtstag viel glück - Portinho cervejeira e alemãzinha! 

Uns porto-alegrenses aí, bem, tipo assim, porto-alegrenses, gostam de dizer que Porto Alegre é um bom lugar para voltar. Verdade. Viajar, andar pelo mundo com planos ou sem destino, com malas e sem malas, é quase sempre ótimo. Mudar a paisagem da solidão, como disse o Quintana, e sentir-se outros, reinventar-se. Bom, normal. Voltar para a casinha, para o velho travesseiro, para os parentes do bem e os amigos, idem. Isso é mais velho que andar a pé ou que a Sé de Braga. 

É do tempo que se amarrava cachorro com linguiça. Porto-alegrenses viajam, se divertem, protagonizam - internacionalmente - feitos relevantes em plagas distantes, gastam bastante em restaurantes e hotéis no exterior ou em outros estados brasileiros sem reclamar muito e trovam, cantam e dançam por este mundo de Deus. 

No amargo ou no doce regresso, quando o avião vai sobrevoando o belíssimo Delta do Jacuí (a oitava maravilha do mundo, segundo alguns bairristas) e a gauchada enxerga a ponte do Guaíba, aí a coisa muda. Muitos fecham a cara, ficam carrancudos e voltam para o clima de Portinho, a açoriana ainda meio tímida, séria, meio bicuda, mas também meio simpática e malandra. 

Se a volta não for em abril ou outubro, os únicos meses de clima realmente bom por aqui, e lá fora a chuva forte guasqueada estiver embolada com os ventos que parecem chicotes de feitor de escravos, a cerração e o frio, aquele de renguear pinguim, bom, aí o bicho pega. Aí até temos motivos para fazer aquele carão de caranguejo bravo, pronto para as peleias variadas que enfrentamos há séculos com os estranjas e entre nós. Não faz muito, as finanças da cidade eram superavitárias; agora, a capital está endividada até o pescoço da girafa. Tomara que a gente saia limpo do atoleiro, como disse o outro. 

De preferência, sem ter que pagar, para variar, mais e mais impostos. Pagar imposto e morrer, as únicas certezas futuras...Os governos sabem bem disso. Precisamos todos, juntos, dar um jeito de fazer Porto Alegre sorrir de novo. Caso contrário, muitos vão embora, e aí a capital não será mais o lugar bom de voltar. Precisamos de união, de diálogo pacífico e produtivo. Não é fácil, mas vamos acreditar que não seja impossível, vai. 

É o que temos para hoje. Temos de entender que, se a gente não se entender, os outros, os de fora, vão tomando conta cada vez mais, e a gente sabe que não é fácil ter que comer pelas mãos deles. Nada de bairrismo estéril e anacrônico num mundo globalizado, mas tudo a favor de melhores conversas entre nós, tantas vezes caranguejos dentro do mesmo balde. Vamos costurar e erguer uma bandeira azul e vermelha, e aí seguiremos com nossos feitos relevantes, em plagas distantes... a propósito... Torço para que sejam desarmados os criminosos, para que a população não precise andar armada. 

Torço para menos baganas de cigarro e lixo de vários tipos jogados nas ruas e nos arroios, entupindo nossos bueiros. Torço para cercamento em alguns locais, em alguns parques, como já temos em alguns casos, com bom resultado. Torço para que a gente limpe o Guaíba, pare de aterrá-lo tanto, e torço para que nosso cais finalmente deixe de ser encalhado e possa ser local de negócios, lazer e caminhadas de amigos, pais e filhos. 

Torço pelo Inter, mas não quero mal ao Grêmio, que tantas vezes valoriza, com garbo e competência, nossas vitórias nos Grenais. Coirmãos sim, inimigos não. Falei coirmão e não corrimão, como dizem uns metidos a engraçadinhos que andam por aí. Eu pego eles! ( - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/553067-o-imperio-romano.html)

Jaime Cimenti

O Império Romano 

Os primeiros mil anos de Roma seguem importantes e nos influenciam até hoje para tentar entender o mundo e nós mesmos. Da alta cultura à comédia barata, passando pela economia e pela política, os romanos cresceram de uma insignificante vila na Itália Central à primeira potência mundial. SPQR - Uma história da Roma Antiga (Planeta, 576 páginas, R$ 79,90) da inglesa Mary Beard, professora de clássicos em Cambridge, é obra monumental sobre o Império Romano, fruto de mais de 40 anos de estudos e pesquisas da autora e que, merecidamente, esteve por mais de ano em listas de best-sellers nos Estados Unidos e na Europa.

Com base em mais de 100 ilustrações e inúmeros mapas, e com décadas de trabalho, leituras e pesquisas, a autora mostra o Império de maneira clara e precisa, com muita paixão e sem jargões técnicos. Sobre o livro, registrou o The Economist: "Magistral. Um caso exemplar de história popularizada, de leitura envolvente, mas sem simplificação excessiva, que oferece uma visão abrangente e também detalhes íntimos que dão vida ao passado distante".

O lendário The New York Times, por sua vez, disse: "Beard revela os segredos do sucesso de Roma com uma clareza resoluta e impiedosa que não vi igualada em nenhum outro lugar". SPQR é a abreviatura que os próprios romanos criaram para seu Estado e significa Senatus Populus Que Romanus - ou O Senado e o Povo de Roma. Nessa história cruel, mas instigante, a autora faz uma análise eloquente da História de Roma e mostra como se formaram a identidade e a cidadania romanas.

Acima de tudo, revela porque essa cultura influencia o mundo no século XXI. Em entrevista, disse a autora: "De certa forma, explorar a Roma antiga a partir do século XXI é um pouco como andar em uma corda bamba, um ato de equilíbrio muito cuidadoso. Se você olhar para baixo, de um lado, tudo parece bastante familiar: você ouve conversas em que poderia se juntar, sobre a natureza da liberdade ou os problemas do sexo; você vê edifícios e monumentos que reconhece e a vida familiar vivida de forma que conseguimos entender, com todos os seus adolescentes problemáticos; e ouvimos piadas que entendemos.

Por outro lado, temos a impressão de que é um lugar completamente estranho. Isso não significa apenas a escravidão, a sujeira (não havia praticamente nada como coleta de lixo na Roma antiga), o abate humano na arena e a morte oriunda de doenças cuja cura, que, hoje em dia, não damos o devido valor; mas também os recém-nascidos abandonados em montes de lixo, as noivas-crianças e os extravagantes sacerdotes eunucos".
É isso.

PQR é obra altamente diferenciada, referencial e fundamental.

lançamentos 


Press - Advertising Ano 20 (Edição 175), revista dirigida por Julio Ribeiro, tem matéria de capa sobre automação e transformação no jornalismo e publicidade, entrevistas com David Coimbra e Susana Kakuta, mais detalhes da palestra de Flávio Presser no Clube de Opinião do RS, sobre PPP na Corsan e outras contribuições interessantes.

Pequena madrugada antes da meia-noite (Modelo de Nuvem, 104 páginas), do poeta uruguaianense Marco de Menezes, apresenta poemas com versos bem elaborados, que tratam de pessoas, de coisas, de passado e muito mais, numa permuta intensa entre o local e o universal.

Morte lenta (Faro Editorial, 320 páginas), do professor de literatura e escritor norte-americano Matthew Fitzsimmons, thriller poderoso movido a adrenalina, tem profundidade emocional, trama complexa e política, assassinato e suspense, na história sobre Suzanne, 14 anos, filha de senador, que sumiu sem deixar vestígios. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/03/colunas/livros/553067-o-imperio-romano.html)


24 de março de 2017 | N° 18801
CLÁUDIA LAITANO

Patrícios


Na cidade de colonização alemã onde passei parte da infância, muitas das minhas colegas falavam alemão em casa – o que dava a elas uma entonação que me divertia e fascinava ao mesmo tempo. Nascida e criada no centro de Porto Alegre, descendente de pais e avós porto-alegrenses, qualquer traço cultural mais pronunciado da nossa origem italiana parecia diluído em relação à notável presença cotidiana da cultura alemã nos hábitos e na linguagem das minhas amigas de Novo Hamburgo. Não demorou muito para eu adotar o “ach du lieber Gott!” como se tivesse nascido comigo.

A melhor festa da cidade naquela época, levando-se em conta o que eu entendia sobre festas aos oito anos de idade, não era um kerb, mas o magnífico, aos meus olhos, São João promovido na escola por professoras com sobrenomes como Schneider, Weissheimer, Snel. A festa de São João, como o Carnaval, não nasceu no Brasil, mas se aquerenciou de forma tão natural por aqui, que hoje é um dos símbolos mais reconhecidos da nossa brasilidade. (No Rio Grande do Sul, prosperou uma curiosa versão sincrética que acolhe caipiras de bombachas e gauchinhos de chapéu de palha.)

Culturas se misturam. Ainda assim, cresce nas redes sociais a discussão sobre a chamada “apropriação cultural”. Pode mulher branca usar turbante sem ofender a cultura afro? Pode negra usar colete de franjas sem desrespeitar a cultura indígena? Cheio de boas intenções (promover o respeito a culturas subjugadas por grupos sociais dominantes), esse debate sempre me pareceu ir contra o fluxo naturalmente caótico (e rico) do encontro de culturas e tradições diferentes. 

Porque tudo que reconhecemos como “nosso” é resultado de misturas, adaptações, imitações. Como o São João, que nasceu pagão, virou cristão, saiu da Península Ibérica, chegou ao Brasil e acabou no pátio da minha escola em Novo Hamburgo – fazendo a alegria da alemoada que dançava quadrilha (inspiração francesa) com bombachas e vestido de prenda.

Porto Alegre começou, há alguns anos, a comemorar a festa de Saint Patrick – um santo irlandês que caiu no gosto de devotos de todos os cantos do mundo onde se apreciam bebedeiras pesadas e conversas leves. O que será dessa festa daqui a 20 ou 30 anos? Impossível prever. Como outras manifestações culturais importadas (ou inventadas), vai crescer e se reproduzir – ou murchar e desaparecer. 

Tenham origem religiosa ou pagã, comercial ou histórica, tradições culturais cumprem seu ciclo de vida adaptando-se às condições mais ou menos favoráveis do ambiente. Ou seja: tudo é possível. Inclusive um porto-alegrense da gema como eu, daqui a cem anos, achar que a festa de São Patrício é a mais gaúcha que há.


24 de março de 2017 | N° 18801
DAVID COIMBRA

Abuso de poder


Há muita gente preocupada com o que chamam de “abuso de poder”, no Brasil. Gente como Renan Calheiros, Sarney, Lula, Dilma, Cunha, Jucá, entre outros. Todos eles, curiosamente, poderosos.

Eu aqui não tenho poder algum, mas também me preocupo com o abuso de poder.

Por exemplo:

O poder de nomear apaniguados para diretorias de grandes empresas estatais e órgãos de fiscalização.

O poder de beneficiar empreiteiras em obras do Estado.

O poder de afastar do caminho fiscais que estejam fazendo o seu serviço corretamente.

O poder de comprar e vender medidas provisórias.

O poder de usar dinheiro do contribuinte para financiar blogs de propaganda política.

O poder de governantes se associarem a empresários para que ambos se locupletem com recursos do Estado.

Isso, de fato, é abuso de poder.

Sempre se abusou do poder no Brasil. Sempre se disse que esses poderosos jamais seriam alcançados pela lei, que eles podiam fazer o que quisessem, que no Brasil valia tudo para quem tinha dinheiro e... poder.

Mas agora é diferente. Agora, os poderosos também estão respondendo pelos seus atos. É a isso, a essa responsabilização, que esses poderosos chamam de “abuso de poder”.

Outros, nem tão poderosos, fazem coro. Também acham que a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça praticam abuso de poder. Compreensível. A ideia de que todos são iguais diante da lei ainda é chocante no Brasil, um país em que os maiores valores são, precisamente, dinheiro e poder.

Observe como o país reagiu à Operação Carne Fraca. Só o que se fala é nas exportações, nas vendas da carne brasileira. Ou seja: no dinheiro que a carne gera.

E a saúde das milhares, talvez milhões de pessoas que se alimentaram com carne estragada durante tanto tempo?

Nós entrevistamos, no Timeline, o fiscal que fez a denúncia desencadeadora da operação. Entre outras revelações, ele contou que esse escândalo ocorre há mais de 10 anos, que os antigos ministros da Agricultura sabiam do que acontecia e que, em muitos casos, a carne podre ficava mergulhada em produtos químicos por 30 horas para ganhar aparência saudável no supermercado.

Você comeu essa carne. Os seus filhos comeram.

O que pode ter ocorrido com sua saúde e a de seus filhos, com a saúde de multidões de brasileiros que se alimentaram com esse veneno por mais de 10 anos?

Por que ninguém nem sequer especula sobre isso?

Por que só se fala nas exportações e no que as empresas vão perder com as denúncias?

Porque, no Brasil, o dinheiro é mais importante. O poder é mais importante.

Eles têm dinheiro. Eles têm poder. Eles abusaram do poder. E só o que querem é continuar abusando.



24 de março de 2017 | N° 18801
NÍLSON SOUZA

    PORTO DE TODOS

    Minha aldeia, cidade adotiva de Erico Verissimo, tem uma orquestra sinfônica (que não tem sede própria, mas, pelo menos, já ganhou um espaço para ensaiar).

    Minha aldeia, que também adotou Paixão Côrtes, tem um colosso de bronze a guarnecê-la com o seu laço de 12 braças (encurtado para não pesar muito, pois o dono anda meio estropiado pelo tempo, mas já está recebendo curativos).

    Minha aldeia tem um jardim botânico com todos os tons de verde que te quero verde (ainda que constantemente ameaçado pelo cinza da crise, da insensibilidade e da ganância).

    Minha aldeia tem um rio (que é o rio mais belo que corre pela minha aldeia porque é o rio da minha aldeia e, como Fernando Pessoa travestido de Alberto Caeiro, eu sei para onde ele vai e de onde ele vem).

    Minha aldeia tem uma ponte sobre o seu belo rio (que sobe para passar o navio e desce para os motoristas de automóveis e caminhões escaparem dos arrastões).

    Minha aldeia tem uma usina de cultura com uma chaminé que alcança as nuvens, quase o céu de Mario Quintana (Ó céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o céu?).

    Minha aldeia tem um mercado de cheiros, especiarias e histórias (que resiste bravamente a incêndios, pichações e restaurações).

    Minha aldeia tem um charmoso chalé europeu (cenário encantado de velhos namorados e assombrado pelos fantasmas dos lambe-lambes que ainda habitam o seu redor).

    Minha aldeia tem uma Redenção no seu coração (além do Marinha, do Parcão e de muitos outros espaços para o bate-papo e o chimarrão).

    Minha aldeia tem um teatro com th, galerias e um lustre de cristal (abençoado pelo padroeiro do Estado e muito bem cuidado pela dona do espetáculo).

    Minha aldeia tem um brique dominical e uma feira só de livros (onde se encontram com o distinto público artistas, artesãos, editores e escritores).

    Minha aldeia tem dois templos de luxo para a bola (que rola em vermelho e azul nesta capital do eterno Gre-Nal que divide e une o povo gaúcho).

    Feliz aniversário, cidade do meu andar, de todos os andares, de todos os nativos e visitantes que te fazem tão humana e aconchegante.

quinta-feira, março 23, 2017



23 de março de 2017 | N° 18800
ECONOMIA

Deputados aprovam terceirização ampla

COM 231 VOTOS a favor e 188 contra, texto aceito pela Câmara passa a incluir todas as atividades e vai à sanção de Temer, defensor da proposta

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou ontem projeto de 1998 que regulamenta a terceirização no país, liberando-a para ser usada em qualquer ramo de atividade das empresas privadas e de parte do setor público. A proposta também amplia a permissão para contratação de trabalhadores temporários, dos atuais três meses para até nove meses – seis meses, renováveis por mais três.

Atualmente, há o entendimento de que jurisprudência da Justiça do Trabalho veda a prática na chamada atividade-fim. Ou seja, uma fábrica de sapatos não pode terceirizar qualquer etapa de sua linha de produção, mas sim atividades não diretamente relacionadas ao produto final, como serviço de copa e cozinha, segurança e limpeza.

O painel eletrônico mostrou 231 votos a favor da medida, contra 188 votos e oito abstenções. Todos os destaques (emendas que poderiam alterar o projeto) foram rejeitados. Com isso, o texto vai à sanção do presidente Michel Temer, que é defensor da proposta.

O empresariado e parte da base governista dizem que isso irá estimular a criação de empregos e tirar travas à competitividade das empresas. Os críticos dizem que o objetivo é reduzir o gasto com pessoal, com prejuízo claro aos trabalhadores.

A aprovação foi polêmica não só pelas críticas da oposição, para quem a medida representa um salvo-conduto para a precarização da mão de obra no país, mas também porque não houve o aval da maior parte dos atuais senadores. No sistema legislativo brasileiro, as leis são feitas mediante a aprovação das duas casas que formam o Congresso, a Câmara e o Senado.

Sob a batuta do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), hoje preso sob a acusação de envolvimento na Operação Lava-Jato, a Câmara aprovou a regulamentação da terceirização em 2015. Mas o texto tramitou lentamente no Senado, já que o ex-presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), dizia ver riscos ao trabalhador.

TENTATIVA DE BARRAR NO STF A MANOBRA

Com isso, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM- RJ), recorreu a uma manobra, com o apoio da base de Michel Temer: desengavetou uma proposta similar de 1998, apresentada pelo governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Esse projeto havia sido aprovado no Senado em 2002, com relatório de Romero Jucá (PMDB-RR), atualmente líder do governo no Senado. Só 12 dos atuais 81 senadores estavam no exercício do mandato na época. A oposição diz que recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a manobra.

O projeto que está no Senado também pode ser votado nos próximos dias. Com isso, Temer pode combinar a sanção e veto de trechos dos dois textos.

O projeto que agora vai à apreciação do presidente traz bem menos salvaguardas para o trabalhador do que o debatido em 2015. Desaparece, por exemplo, a obrigação de que a empresa que encomende trabalho terceirizado fiscalize regularmente se a firma que contratou está cumprindo obrigações trabalhistas e previdenciárias. Somem também restrições à chamada “pejotização”, que é a mudança da contratação direta, com carteira assinada, pela contratação de um empregado nos moldes da contratação de uma empresa (pessoa jurídica) prestadora de serviços.

Ao defender o projeto de 1998, Maia afirmou que “muitas salvaguardas que foram criadas por bem têm gerado mais desemprego no Brasil e mais emprego no Exterior”. Havia no atual projeto uma anistia a multas e penalidades aplicadas até agora pela Justiça Eleitoral, mas esse artigo foi retirado pelo relator, Laércio Oliveira (SD-SE).


23 de março de 2017 | N° 18800
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Saber de cor

VOCÊ SABE QUAL é o significado da expressão formada pela preposição de e pelo substantivo cor?

Um leitor gentilíssimo, cujo nome deixarei em segredo, manda uma mensagem que me deixa assaz embaraçado: “Antes de expor minha dúvida, caríssimo professor, não posso deixar de louvar sua generosidade cristã ao disponibilizar na internet, gratuitamente, o seu Guia Prático do Português Correto. Já baixei os quatro volumes no computador e estou bebendo aos poucos o conhecimento que transborda em cada página! 

Agora, a minha pergunta: numa circular que estou mandando aos membros do clube que presido, quero recomendar que todos memorizem a letra do nosso hino. A forma correta seria “Vamos saber decor nosso hino”? Ou seria décor, como já vi escrito por aí? Adianto ao mestre que já procurei nos bons dicionários e não encontrei a palavra”.

Caro amigo, agradeço muito o tom elogioso com que você se refere ao meu trabalho. Contudo, antes de passarmos à resolução de sua dúvida, sinto-me obrigado a desfazer um pequeno equívoco: como minha formação me impede de colher os louros que pertencem a outrem, preciso informar que foi outro cristão, certamente um verdadeiro patife, que colocou o Guia Prático na internet. Você há de convir que eu estaria fora do meu juízo se praticasse um ato de pura pirataria contra mim mesmo...

Agora, vamos à sua pergunta: o amigo nada encontrou nos dicionários porque estava à procura de um vocábulo só, sem perceber que estamos aqui diante de duas palavras autônomas – a preposição de e o substantivo cor (com O aberto, como a primeira sílaba de porta), forma herdada do Latim cor, cordis (“coração”). Saber de cor é, no fundo, saber do fundo do coração – ideia que fica muito mais evidente no Inglês e no Francês, que dizem by heart e par coeur, respectivamente.

Para que a expressão tenha sentido, é importante lembrar que o coração foi, por muito tempo, considerado a sede da coragem (olhe aí uma palavra da mesma família!), dos sentimentos e da inteligência. A Ciência moderna, é claro, passou a coroa e o cetro para o cérebro, mas mesmo assim, no nosso imaginário, o coração continua soberano. 

Quando anunciaram o primeiro transplante de coração, feito pelo Dr. Barnard, em 1967, não foram poucas as vozes na imprensa que perguntaram como o transplantado iria conviver com os sentimentos do doador... A tanto eu não chego, mas confesso que ainda acho natural, por exemplo, que seja para ele, e não para o cérebro, que Cupido continue dirigindo suas flechas traiçoeiras.

Em decorar e recordar, não por acaso, o mesmo radical de cor está presente, a sugerir, portanto, a existência de uma ligação subterrânea entre memória e sentimento. Num século intelectualmente tão miserável quanto este, em que os pedagogos tratam o ato de decorar como Maomé tratava o toucinho, devíamos dar mais ouvidos à sábia voz de George Steiner, grande defensor da memorização: saber de cor um texto clássico permite travar com ele um diálogo interminável e cada vez mais rico, pois o prazer estético e o ensinamento que dele podemos extrair vão crescer à medida que cresce nossa própria experiência.



23 de março de 2017 | N° 18800 
DAVID COIMBRA

O frio civilizatório

“É o frio!”, dizia aquele velho anúncio das Casas Pernambucanas à entrada de cada inverno, e é o que diz também a tese do Zé Pedro Goulart acerca da principal razão de as coisas não darem certo no Brasil.

É o frio! Ou a ausência de. Segundo o Zé, fosse o Brasil um país de frios extremos, tudo funcionaria a contento.

É plausível e lógico. Em países de temperaturas muito baixas, o trem haverá de chegar na hora certa, o aquecimento não poderá quebrar, a neve terá de ser removida das ruas, caso contrário as pessoas correrão risco de, simples e definitivamente, morrer.

A necessidade, portanto, leva à eficiência. Por que o baiano há de abandonar o embalo da rede, vivendo ele em meio ao mormaço aplastante e úmido do trópico, ouvindo o sonolento ronronar das ondas de Itapuã, sabendo que, perto dele, o coqueiro dá coco e do mar se colhe o peixe?

O calor se presta ao usufruto dos dias. O frio, à frenética produção. Donde, tudo há de ser preciso onde faz muito frio.

Certo. Bem pensado. Mas e a Rússia?

Na Rússia faz tanto frio, que torna o interior da sua geladeira mais aconchegante do que a rua. No inverno, Moscou registra, sem sobressaltos, 45 graus abaixo de zero. Os exércitos de Hitler e Napoleão foram derrotados pelo General Inverno quando ousaram invadir aquelas terras geladas.

Na Rússia, portanto, faz muito frio. E a Rússia é um Brasil.

Conheço russos, e um deles, certo dia, disse-me que na Rússia muitas coisas também são resolvidas com jeitinho. Na Rússia, os serviços públicos são precários. Na Rússia, o sistema capitalista adotado não é capitalista de verdade, é o capitalismo patrimonialista, de compadrio, no qual o capitalista não assume riscos.

Na Rússia, as mulheres são belas.

Tudo isso temos em comum com os russos. A vantagem deles, certamente, é a literatura. A nossa, a música. E a democracia. Os russos jamais experimentaram um regime democrático legítimo. Ou foram oprimidos pelos czares, ou pela Nomenklatura comunista, ou por Putin, o envenenador.

Assim, a tese do Zé Pedro de que o frio extremo produz civilização cai pelas estepes congeladas e rola Sibéria abaixo.

Alguém poderá achar que se trata de um desalento para o Brasil. Ou seja: nem o frio nos salvaria.

Ao contrário, é um alento. Porque significa que podemos vencer a geografia. Se a Rússia é exceção climático-político-administrativa, por que nós não poderíamos ser também, só que pelo lado positivo? Um país quente que funciona.

Acredito nisso. Acredito que o Brasil possa evoluir, e já estamos caminhando nessa direção. No Brasil de hoje, os poderosos também são punidos. Gente com muito dinheiro e muito poder, tendo errado, está indo para a cadeia. Outros irão. É uma base sólida de nação, sim. Por demonstrar, na prática, que ninguém é diferente diante da lei. Estamos nos distanciando da Rússia. E o melhor: com temperaturas amenas e mulheres lindas.


23 de março de 2017 | N° 18800 
L.F. VERISSIMO

A carne

Temos, ai de nós, uma Polícia Federal satírica. Não sei se existe alguém na PF encarregado de dar codinomes aos seus investigados e nomes às suas operações. Se tiver, é um novo Jonathan Swift, um Voltaire redivivo. Deveria se identificar, para receber nossos aplausos. Essa de chamar de Carne Fraca a operação contra a corrupção nos frigoríficos e o escândalo dos fiscais da indústria de alimentos que recebiam propina para não fiscalizar nada é genial. 

A ação poderia se chamar Carne Podre, ou Nome aos Bois, mas aí não teria o mesmo valor literário e irônico. Carne Fraca é perfeito. Serviria mesmo para todo o conjunto das ações policiais e jurídicas a partir do começo da Lava-Jato.

A corrupção existe, afinal, porque a carne é fraca. Como disse o Oscar Wilde – outro que teria emprego garantido como frasista na Polícia Federal –, “eu resisto a tudo menos à tentação”. A tentação é demais. Somos pobres almas inocentes reféns da nossa própria carne e das suas fraquezas. De certa maneira, Carne Fraca é quase uma absolvição da corrupção epidêmica que assola o país. Rouba-se tanto porque a carne não se satisfaz com pouco, é incapaz de se contentar com o que já tem. Porque a carne é insaciável.

Nenhum corrupto racionaliza a sua fome de ter mais, sempre mais. Nenhum decide: quero tanto e chega. Tenho um Lamborghini e dois Porsches, um para cada pé, piscina aquecida em forma de trevo, uma mulher com menos dedos e orelhas do que o necessário para usar todas as joias que lhe dou, contas na Suíça e em Lichtenstein, apartamento em Palm Beach – e pronto. Não preciso de nem um centavo a mais.

O centavo a mais é a perdição dos nossos corruptos. O centavo a mais é a tentação irresistível de Wilde resumida numa frase. O centavo a mais é uma metáfora para o excesso, para não saber quando parar. É difícil identificar o momento em que a ganância transborda e o centavo a mais bate na porta do corrupto e o leva coercitivamente para a cadeia, o corte zero do seu cabelo, as manchetes dos jornais e a execração pública. 

É um pouco como o paradoxo do balão: só se descobre a capacidade máxima de um balão, o ponto em que um sopro a mais o estouraria, quando o sopro a mais é dado e ele estoura. Só se descobre quando era o momento de parar de roubar quando o momento já passou.

“Carne Fraca” tem algo até de carinhoso, na sua ironia. A Polícia Federal, ou o autor do nome da operação, reconhece que não é fácil deixar de roubar, com tanto dinheiro voando por aí, com tantas oportunidades que o Brasil oferece para a maracutaia e o molha a mão. O que “Carne Fraca” diz é que a Polícia Federal não perdoa, mas entende.

quarta-feira, março 22, 2017



22 de março de 2017 | N° 18799 
MARTHA MEDEIROS

Cachê vexame


Uma ideia criativa alavanca as vendas. Slogans como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “não é nenhuma brastemp” e “bonita camisa, Fernandinho” ficaram no imaginário coletivo e são alguns dos cases que orgulham a propaganda brasileira. Porém, na ausência de uma sacada genial, o recurso é buscar o depoimento de pessoas famosas, já que elas encurtam o caminho até a aceitação do consumidor.

Esta eficiência, claro, tem um preço. Já vi atriz que mora na Barra da Tijuca anunciar um condomínio em Porto Alegre dizendo que era o lugar onde sempre sonhou morar. Por que uma atriz global iria querer morar aqui no Sul? Por nenhum motivo. Ela jamais cogitou essa hipótese. Queria apenas embolsar os 50 mil do cachê para terminar de pagar seu apartamento de frente para o mar. Pareceu-lhe um preço justo pelo vexame de ter que aparecer em horário nobre dizendo uma inverdade.

Por um dinheiro extra – não qualquer dinheiro, mas um extra de muitos dígitos –, há quem deixe o ego de lado. Quem não se lembra de Gloria Pires dizendo que iria nos contar um segredinho? “O Orlando tem caspa”. Pois é, o Brasil inteiro descobriu que o marido de uma de suas mais talentosas atrizes tinha caspa e havia resolvido o problema com determinado xampu. Beleza. Logo o comercial saiu do ar e o casal recebeu sua grana honesta. 

Se o Orlando tinha caspa mesmo, ou ainda tem, será sempre uma incógnita que roubará nosso sono. O que importa é que nenhum crime foi cometido – o consumidor sabe que propaganda testemunhal não é feita por filantropia.

Os cachês são altos porque os riscos também são. Maitê Proença vendeu sua credibilidade para anunciar uma marca de anticoncepcionais que se revelou fraudulenta: algumas mulheres engravidaram por ingerirem pílulas de farinha. A empresa foi autuada e ainda teve que pagar indenização para a atriz, que fez muito bem em buscar seus direitos.

Por essas e outras, é bom pensar direitinho antes de usar a própria imagem para vender detergentes, remédios, sabonetes, cervejas. Vá que o dono da empresa esteja usando uma tornozeleira eletrônica, vá que baratas estejam perambulando perto demais dos estoques, vá que esqueceram de comentar esses detalhes no contrato.

A repercussão da Operação Carne Fraca pode ser exagerada, mas o estrago está feito: Tony Ramos se queimou por enaltecer as virtudes de uma empresa sob suspeita. Diante de uma oferta milionária, não titubeou– alguém iria?

O Brasil não é um bom distribuidor de renda, mas o vexame está ao alcance de todos.


22 de março de 2017 | N° 18799
ARTIGO

COMO VAMOS TRANSPORTAR?

A colheita dos grãos cultivados no Rio Grande do Sul, cerais e, especialmente, oleaginosas, registra números exponenciais. O transporte desta safra 2016/2017, nos números em que ela vai se consolidando, com destino ao porto de Rio Grande exigirá uma eficiente mobilização de transportes. As empresas transportadoras e os caminhoneiros autônomos, como sempre aconteceu, darão conta de levar a carga até Rio Grande. Basta que tenham estradas adequadas, bem sinalizadas e fiscalizadas para que o fluxo não sofra solução de continuidade.

Transitando com frequência pela BR-116 até Rio Grande, o que sentimos é um panorama desalentador. Deveríamos ter uma rodovia duplicada. Com pistas com as dimensões recomendadas pelos manuais de trânsito para, em primeiro lugar, evitar acidentes com os trabalhadores. Antevemos uma crise. Mas o Estado do Rio Grande do Sul está mobilizado e trabalhando para garantir condições de escoamento. E o governo tem bem presente o que precisa ser feito. 

Inclusive projeta licitar balanças para as rodovias. Caminhões com excesso de carga ajudam a deteriorar a qualidade da malha viária. Mas isso não é impedimento para que governo obtenha os recursos federais indispensáveis para duplicar a BR-116 no trecho Porto Alegre- Pelotas-Rio Grande. O porto está aparelhado para armazenar os grãos, receber os navios e, em tempo ágil, escoar os produtos.

Nós do sul do Estado, e especialmente de Rio Grande, estamos mobilizados com relação a esta importante obra. Dados consolidados pela administração do porto de Rio Grande apontam que 80% de todas as cargas movimentadas no complexo portuário tem sua chegada/saída pelo modal rodoviário. Milhões de toneladas passam pelo porto. 

Números que, em termos de economia, evidenciam a importância da rodovia. Os recursos para a continuidade das obras estão contingenciados. A mobilização é geral, governo, setor empresarial, imprensa e sociedade que estão apoiando a duplicação e a conclusão da obra.

*Secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul


22 de março de 2017 | N° 18799
ARTIGO I | ARTIGO - FRANCISCO TURRA*

GENERALIZAR TAMBÉM FAZ MAL


O Brasil detém 36% da exportação global de frango, e a carne suína segue se consolidando e abrindo novos mercados. Ao todo, mais de 160 nações compram essas variedades de proteína animal de nosso país. Não por obra do acaso somos referência em qualidade e status sanitário. Não seria possível atingir esse patamar e superar adversários competitivos sem uma reputação sólida, amparada por um trabalho sério.

Após a operação da Polícia Federal, no final da semana passado, fomos tomados por uma avalanche de notícias, reais e fictícias, que semearam desconfiança e temor. Como saber se é seguro consumir a carne produzida no país diante dos fatos alardeados? Pois bem, é hora de separar o joio do trigo. Fui ministro da Agricultura, percorri diversos países, mostrando a qualidade dos nossos produtos. E posso atestar: casos pontuais não enterrarão uma história construída com dedicação e competência.

A própria investigação aponta que as irregularidades são pequeníssimas frações dentro de um universo gigantesco. Ao todo, 21 plantas são alvo da iniciativa em um contexto de mais de 4,8 mil. Para seguir no raciocínio matemático, representam apenas 0,004%.

Falhas que venham a ser comprovadas não refletem o trabalho de empresas comprometidas em oferecer produtos de excelência. Eles são auditados continuamente, tanto por órgãos nacionais como por técnicos de mais de 160 países importadores. Além disso, legislações internas e globais regem o trabalho realizado pelas agroindústrias.

Nossa posição de destaque internacional não chegou à toa. Esse é o resultado de um trabalho de toda a cadeia produtiva, desenvolvido por organizações que investem forte em pesquisa e tecnologia e por profissionais cada vez mais especializados. Com isso, conquistamos até as nações mais exigentes do planeta.

A operação prestou um grande serviço ao desvendar os crimes que estavam sendo cometidos. As vítimas são as mais diversas: consumidores, companhias que sempre agiram com correção e mais de 4 milhões de trabalhadores. Que os criminosos sejam punidos. Esperamos também que a investigação aponte detalhadamente os infratores, sob pena de dar sequência a essa injusta generalização. Com responsabilidade, corrigindo o que precisa ser corrigido, o Brasil vai avançar.

*Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e ex-ministro da Agricultura



22 de março de 2017 | N° 18799 
DAVID COIMBRA

As mulheres russas

Mulheres russas. Basta escrever essas duas palavras, sem complementar, sem colocar nem sequer um só verbo, para deixar o leitor especulando.

Com carradas de razão. Ocorre que as mulheres russas gozam da boa fama de serem lindas e insinuantes e cálidas, e isso vem de longe.

A antiga czarina Elizabeth, ou Isabel, que reinou entre dois grandes, Pedro, “o Grande”, e Catarina, “a Grande”, essa Elizabeth o que tinha de grande era a sua beleza. Destacavam-se nela, além do rosto lindíssimo, as pernas.

Naquela época, meados do século 18, as mulheres não exibiam as pernas nuas como hoje. A abençoada inglesinha Mary Quant ainda não havia inventado a minissaia, e as moças tinham de se submeter a repolhudos vestidos montados com armação de metal, parecidos com os que as rainhas das cidades do interior do Brasil usam hoje nos festivais de tubérculos, embutidos ou tantos outros alimentos produzidos neste imenso país agropecuário.

Como, então, as pernas de Elizabeth se tornaram célebres, se eram clandestinas?

De duas formas. Uma, devido à indiscrição dos muitos homens que partilharam com ela o leito real e angariaram o prazer de ver aquelas pernas longas, torneadas e macias como a neve de São Petersburgo; outra, porque a própria dona das pernas, orgulhosa de sua graça, deu um jeito de mostrá-las com um estratagema ardiloso. 

Este: como as calças masculinas de então eram apertadas e permitiam a visão do contorno das pernas, Elizabeth passou a promover festas travestis. Os homens eram obrigados a se vestir com roupas femininas e as mulheres eram obrigadas a se vestir com roupas masculinas. Assim, aqueles vetustos nobres russos ficavam ridículos, mas Elizabeth podia entrar em calças justíssimas e se exibir pelos salões, provocando comentários admirados:

– Viu as pernocas da rainha? Mas, se você acha que Elizabeth era bonita, precisava ver a irmã dela, a princesa Ana. Os homens ficavam mesmerizados quando a encontravam. O embaixador da Prússia a descreveu assim:

“Não acredito que haja na Europa uma princesa que possa competir com a princesa Ana em beleza e majestade. Ela é morena, mas com uma pele vividamente branca. Suas feições são tão perfeitamente belas que um artista consagrado, julgando-a segundo os mais rigorosos padrões clássicos, nada mais desejaria. Mesmo quando está em silêncio pode-se ler a magnanimidade e a amabilidade de seu caráter em seus olhos grandes, lindos. Seu comportamento não tem afetação, ela é sempre a mesma, e mais séria do que alegre. Desde a juventude tem se dedicado a cultivar a mente. Fala francês e alemão com perfeição”.

Uau! 

Essa louvação foi escrita há quase 300 anos. De lá para cá, a genética russa só tem evoluído, graças aos evidentes benefícios da miscigenação, gerando beldades como Yelena Isinbayeva, Maria Sharapova e Natalia Vodianova, aquela modelo que causou fremente polêmica ao proferir uma frase que, a mim, pareceu singela:

“É melhor ser magra do que ser gorda”. E é. Não é?

Claro que sim, senão por motivos estéticos, pelo menos por questões de saúde, e não vá me chamar de gordófobo, até porque eu mesmo, confesso, tenho de perder uns três ou quatro quilos.

Mas voltemos às mulheres russas. Pensei nelas, e na Rússia, por causa de algo que o Zé Pedro Goulart me disse, outro dia. Mas já escrevi em demasia, terei de contar mais amanhã. Seja paciente, espere um pouco. Ou pergunte o que é para o Zé Pedro.



22 de março de 2017 | N° 18799
POLÍTICA + | Rosane de Oliveira

CPI DA PREVIDÊNCIA PARA INGLÊS VER

Com a assinatura de 63 dos 81 senadores, foi protocolado pelo senador Paulo Paim (PT) o requerimento para criação de uma CPI destinada a investigar eventuais desvios de recursos da Previdência Social. O fato de tantos senadores da base do governo Michel Temer terem assinado o requerimento deixa no ar uma pergunta legítima: o que estará por trás de tanto desprendimento? Em geral, os governos fogem de CPIs porque sabem como começam, mas não têm ideia de como terminam.

A assinatura do senador Romero Jucá (PMDB-RR) deveria deixar intrigado o próprio Paim, que protocolou o requerimento acompanhado de líderes sindicais que transformaram o ato em uma manifestação contra as reformas previdenciária e trabalhista. O apoio do governo a uma CPI cujo objetivo implícito é implodir a reforma da Previdência soa como um paradoxo, a menos que o objetivo seja dominar a comissão e dar a ela o rumo mais conveniente para o Palácio do Planalto.

Nos últimos anos, as CPIs foram aos poucos perdendo a credibilidade, graças às manobras da maioria governista. Por que seria diferente a da Previdência, no momento em que tramita na Câmara uma proposta que a oposição combate?

Os senadores da base governista têm motivos confessáveis e inconfessáveis para apoiar a CPI. O motivo nobre é o interesse em iluminar as zonas de sombra que envolvem o tema. Interessa a todos os brasileiros conhecer a realidade dos números, saber se quem está certo é o governo, que aponta um déficit bilionário, ou se são seus opositores que, como Paim, sustentam que existe superávit. Paim também diz que outro objetivo da CPI é “combater a fraude, a sonegação e a corrupção” na Previdência.

O motivo inconfessável é que, como a reforma da Previdência afeta a maioria dos brasileiros, não apoiar a CPI pode resultar em perda de votos. E a eleição de 2018 já desponta no horizonte. Dois terços dos senadores terão de renovar o mandato em 2018 ou vestir o pijama.

Consciente da resistência dos aliados à reforma e da perda de espaço na agenda política para outros temas, Temer entrou em cena no início da noite passada para recolocar o assunto em pauta e tentar convencer deputados e senadores de que o crescimento da economia depende das mudanças na Previdência.


EDUCAÇÃO E DOWN
Autor da lei que instituiu a semana da Síndrome de Down no Estado, o deputado Eduardo Loureiro (PDT) participou ontem de um ato com soltura de balões e distribuição de cartilhas educativas sobre o tema, em frente à Assembleia. Hoje, um Grande Expediente será realizado em plenário para falar de inclusão e acessibilidade das pessoas com a alteração genética.

Loureiro tem uma motivação pessoal para liderar a discussão. Pai de Arthur, 10 anos, o pedetista descobriu que o filho tinha a síndrome nos primeiros instantes após o nascimento. Para ele, há diferença no tratamento com o rebento:

– Em um ambiente público, as pessoas ficam observando, não se sentem bem em brincar com ele. Ouvimos comentários e sentimos que há um estranhamento.

À coluna, Loureiro relatou que teve dificuldades em matricular Arthur em colégios particulares:

– As escolas não diziam claramente que não iriam aceitar meu filho, mas não faziam questão de acolher, davam desculpas, não se comprometiam.

O objetivo do programa de orientação e conscientização é promover o acolhimento pela sociedade para que as pessoas com Síndrome de Down tenham um desenvolvimento pleno.

MÍNIMO PODE SER VOTADO NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA

Por um acordo entre os líderes partidários da Assembleia, o projeto que reajusta o mínimo regional em 6,48%, a partir de 1º de fevereiro, foi incluído na ordem do dia e está apto a ser votado na próxima terça-feira. Caso seja aprovado, o salário mínimo do Rio Grande do Sul ficará entre R$ 1.175,15 e R$ 1.489,24, englobando as cinco faixas salariais.

A apreciação pode ser adiada se a pauta do Legislativo continuar trancada, já que outras 10 propostas com pedido de apreciação em regime de urgência impedem novas votações.

Ontem, o deputado Frederico Antunes (PP) propôs ao líder do governo, Gabriel Souza (PMDB), aguardar a aprovação do Plano de Recuperação Fiscal no Congresso para retomar os trabalhos em plenário. Frederico sugeriu a manutenção dos pedidos de urgência. Se o governo endossar a ideia, os parlamentares ficarão mais algumas semanas sem votar.

Para o deputado, a bancada gaúcha na Câmara não é cobrada o suficiente e está “deixando que as coisas aconteçam”, sem a devida participação no plano de recuperação.

DE FILHO PARA PAI

Agraciado com a medalha Cidade de Porto Alegre, o ex-deputado e ex-secretário municipal de Governança Cezar Busatto emocionou-se ao receber a comenda das mãos do filho Leonardo Busatto, secretário municipal da Fazenda.

Ex-titular da Fazenda estadual, Busatto chorou ao falar de sua luta contra o câncer e da importância do amor da família para o sucesso do tratamento.

A entrega da medalha faz parte das comemorações da Semana de Porto Alegre. Neste ano, foram homenageadas 14 pessoas consideradas “exemplos de cidadania”.

– Buscamos lembrar as pessoas que fizeram e fazem diferença no dia a dia da cidade – definiu o secretário municipal da Cultura, Luciano Alabarse.

terça-feira, março 21, 2017



21 de março de 2017 | N° 18798 
CARPINEJAR

Relógio à prova d’água

Hoje vejo celulares à prova d’água, os donos entram na piscina para fotografar ou o deixam cair de propósito na pia fingindo susto e depois se regozijam da durabilidade. Eu entendo o que é isso, já fui adolescente.

Em uma época em que existia apenas telefone fixo e tudo era dividido com os irmãos, eu me senti poderoso quando recebi um relógio à prova d’água aos 13 anos de meu tio Otávio. Era a maior tecnologia daquele tempo.

Quando ele me presenteou, destacou a longevidade: – Pode mergulhar à vontade.

Era algo que não precisava tirar para dormir ou tomar banho. Eu me vi como James Bond chamando um carro pelo visor dos ponteiros. Representou um dos raros momentos em que driblei o ceticismo e me enxerguei invencível, um super-herói de capa e sunga.

A sensação era de que podia enfrentar qualquer adversidade. Gritava para mim mesmo:

– Agora vai.

Imaginava o fim da minha seca de beijo na boca, que viria namorada e aumentaria a roda de amigos me cercando no recreio. Nada disso aconteceu, as melhores lembranças nunca são as que esperamos. Mas era uma possibilidade renovada de vaidade.

Lembro o quanto protagonizei papéis ridículos e felizes: ia ao chuveiro sempre de relógio para comprovar a sua exceção. Não tem cena mais patética do que um homem pelado de relógio de pulso. Talvez só pelado de meia.

Esperava ser perguntado ao longo do dia das horas para ostentá-lo. Na aula, na rua, em casa. Respondia o horário e acrescentava que aquela peça suportava mergulhos. Não tinha nenhum motivo para explicar este detalhe, absolutamente fora do contexto, mas não perdia a chance.

Na praia, andava com ele a tiracolo, três vezes maior do que o tamanho do meu pulso. Um relógio de parede no braço magrinho e corpo franzino. Provocava perguntas dos outros, alegrava-me quando acontecia e alguém caía na cilada e me advertia para tirar o relógio ao pular as ondas.

– Estragará o relógio. Olhava, sério e estudioso, para o meu interlocutor, coçando o bigode invisível:

– Vamos ver o que acontece –, e logo fazia cara espiritual de ioga e desapegado do mundo material.

O relógio resistiu à profundidade do mar, porém o metal não venceu a ferrugem do veraneio de dois meses e fui obrigado a dispensá-lo, completamente avariado, com o pino enguiçado.

O único aparelho que se afogou várias vezes e sobreviveu com o tempo foi o meu coração. Superou a série de amores naufragados da adolescência. Depois que escapamos dos tormentos sentimentais até os 20 anos, estamos vacinados para o restante da vida adulta.



21 de março de 2017 | N° 18798 
EDITORIAIS

INVESTIGAÇÃO COM RESPONSABILIDADE

A Operação Carne Fraca, que investiga pagamento de propinas a fiscais sanitários e procedimentos irregulares por parte de frigoríficos e empresas exportadoras de carne, tende a provocar profundo abalo no agronegócio, o único setor da economia brasileira que passava ao largo da crise. Nesse contexto, merece atenção o desabafo do ministro Blairo Maggi, da Agricultura, sobre os danos causados ao setor agropecuário pela maneira como a Polícia Federal divulgou problemas pontuais como se fossem generalizados.

A Polícia Federal, assim como o Ministério Público e o Judiciário, tem um imenso crédito junto à população, pelos resultados que vem obtendo na Operação Lava-Jato e em outras investigações de corrupção no país. Mas alguns equívocos cometidos nesta última ação, entre os quais a confusão relacionada às embalagens de papelão, indicam que limites de precisão e responsabilidade podem estar sendo ultrapassados pela pressa na divulgação ou mesmo pela necessidade de demonstrar independência em relação ao Executivo. 

Depois de conhecidos detalhes da operação e dos seus efeitos para a imagem e os negócios do Brasil no Exterior, fica no mínimo uma dúvida: será que a fraude tinha dimensão para o catastrofismo gerado pela sua divulgação do modo como foi feita?

Equivoca-se o ministro ao dizer que a Polícia Federal tinha que ter comunicado o Ministério da Agricultura antecipadamente. Não tinha, até mesmo para não alertar sobre os servidores que estavam sendo investigados. Mas, na entrevista coletiva convocada para divulgar a operação, era importante a presença de um representante do ministério, para dar as explicações que o governo agora se apressa em passar para os países importadores, na tentativa de atenuar o estrago.

A exportação de carne e derivados é essencial para a economia brasileira. As irregularidades apuradas na produção e na fiscalização têm que ser punidas exemplarmente, mas não podem ser hiperdimensionadas a ponto de desqualificar um setor que conquistou credibilidade internacional com a qualidade e os cuidados sanitários de seus produtos.

INCENTIVO COM TRANSPARÊNCIA

O Ministério da Cultura promete anunciar hoje a atualização da Lei Rouanet, com o propósito de reabilitar um mecanismo essencial para o financiamento de iniciativas artísticas e culturais, mas que acabou caindo em descrédito devido a desvios e à corrupção. Em visita a Porto Alegre durante o fim de semana, o ministro da Cultura, Roberto Freire, reafirmou que as alterações estão focadas na desconcentração, na fixação de limites para a captação de recursos, na fiscalização e na prestação de contas com o máximo de transparência. Já era tempo.

Criada em 1991, como parte do Programa Nacional de Apoio à Cultura, a lei permite que empresas e pessoas físicas abatam do Imposto de Renda valores repassados a iniciativas nessa área. Desde então, esse mecanismo vem contribuindo para suprir carências financeiras para eventos culturais. Ao mesmo tempo, acumula distorções inadmissíveis. É o que ocorre, por exemplo, nos casos de fraudes milionárias e de projetos direcionados a um público que não precisaria de subsídio.

Faz sentido, portanto, que entre as pretensões de mudança esteja justamente a definição de tetos rígidos para redução de margens para esse tipo de deformação. Outra intenção positiva é a criação de condições de fiscalização em tempo real sobre projetos beneficiados pela Lei Rouanet.

Diante da escassez de verbas oficiais, é preciso que as alterações favoreçam sobretudo as parcerias no âmbito cultural. Essa é uma área que vai depender cada vez mais de apoio do setor privado.



21 de março de 2017 | N° 18798 
DAVID COIMBRA

O cartaz na entrada da escola

Na entrada da escola em que estuda o meu filho, há um cartaz com o seguinte aviso:

“Nesta escola são bem-vindos: Alunos de todas as raças, etnias e nacionalidades;

Alunos com necessidades especiais;

Alunos que são LGBT; Alunos de todas as estruturas familiares;

Alunos que estão aprendendo a falar inglês; Alunos de todas as religiões;

Alunos de todas as faixas socioeconômicas; Alunos com todos os tipos de corpo

... Você!”.

Gosto muito disso. Por muitas razões, duas em especial. A primeira, pelo conteúdo em si da mensagem. Trata-se de uma escola sem preconceitos, aberta e receptiva, como todas as instituições (e pessoas) deveriam ser. A segunda, porque essa postura não é uma bandeira. Os alunos não são doutrinados, não são feitas campanhas para transformar as mentes. Nem precisa. O exemplo basta.

Trata-se de grande sabedoria. Porque a forma mais fácil de afastar as pessoas de uma causa é torná-la excludente. Era um defeito típico das esquerdas, hoje adotado pelas direitas.

Antes de todas essas convulsões políticas e das lutas virtuais na “rede”, as direitas brasileiras limitavam-se a fazer o que a escola do meu filho definiria como discriminação socioeconômica. Se o sujeito fosse rico, podia ser negro, gay, gago, muçulmano e comunista, não haveria problema.

Já as esquerdas faziam a discriminação intelectual. O outro era julgado por suas ideias políticas presuntivas ou por seus supostos sentimentos. Se houvesse desconfiança de que era de direita, seria discriminado e ridicularizado.

São, ambos, comportamentos elitistas. As direitas acreditando na superioridade material, as esquerdas acreditando na superioridade moral.

Qualquer atitude elitista é negativa, mas os que se julgam moralmente superiores são repulsivos. A crença de que se pertence a uma casta de iluminados defensores dos oprimidos é confortável para a consciência do crente, mas absolutamente asquerosa para quem observa com alguma distância.

As esquerdas sempre foram assim. Agora, as direitas as imitaram. No Brasil, as coisas boas que o PT defendia são consideradas ruins pela direita não porque elas são o que são, mas porque o PT as defendia, ou dizia defender.

É um silogismo tacanho. Funciona desta forma: “Hitler era ruim. Hitler era vegetariano e amava os animais.

Logo, o vegetarianismo e o amor pelos animais são ruins”.

Vale para o outro lado também. A tendência natural que as pessoas têm de fazer associações binárias é explorada à exaustão pelas raposas políticas brasileiras. Tipo:

“O governo Temer é ruim. Temer chegou ao poder por causa do impeachment de Dilma.

Logo, o impeachment de Dilma é ruim”.

Por aí vai. O fato é que estamos cercados de juízes da moral, neste país tropical. Não é de se duvidar que, no Brasil, uma escola colocasse um cartaz na entrada avisando o seguinte:

“Nesta escola NÃO são bem-vindos: Alunos que tenham preconceito contra quaisquer raças, etnias e nacionalidades;

Alunos que discriminem os que têm necessidades especiais;

Alunos que sejam contra os LGBT...”. Parece a mesma coisa, quando é o oposto.

A exclusão, mesmo que seja de quem exclui, nunca ajuda a incluir.



21 de março de 2017 | N° 18798
PERIMETRAL | Paulo Germano

PACOTE CONTRA ISENÇÕES GANHA CORPO

Deve chegar em abril à Câmara de Vereadores o pacote do prefeito Marchezan propondo reduzir as gratuidades no transporte público. Pessoas com idade entre 60 e 64 anos – que hoje não pagam passagem se tiverem renda de até três salários – estão na mira da prefeitura. Há duas hipóteses em discussão:

1) Reduzir de três para um salário o critério de renda para a gratuidade. O argumento é que, quando a lei atual foi aprovada, um salário equivalia a US$ 100. Hoje, beira os US$ 300.

2) Manter a isenção a quem hoje tem direito, mas extingui-la para quem fizer 60 anos após a promulgação da lei.

Marchezan só não propõe a mesma discussão às pessoas com mais de 65 anos porque, neste caso, o direito à gratuidade é garantido pela Constituição.

O pacote também deverá propor o fim da obrigatoriedade de cobradores a partir das 20h – quando os passageiros só poderiam pagar a passagem com cartão, e não mais com dinheiro – e em dias de passe livre. Para a prefeitura, além de reduzir o gasto das empresas com pessoal, a medida coibiria os assaltos à noite.

Marchezan ainda pretende abrir uma articulação nacional para discutir no Congresso a gratuidade de carteiros, oficiais de Justiça e outros profissionais que, na avaliação do prefeito, deveriam ter suas passagens pagas pelos empregadores.

Hoje, segundo a EPTC, 35% dos usuários de ônibus são isentos da tarifa – o que deixaria a passagem quase R$ 1,50 mais cara. No fim do mês, ela deve ser reajustada para R$ 4,05. Embora a intenção inicial de Marchezan fosse assinar um acordo com as empresas para que elas revisassem o valor da tarifa se a Câmara aprovar a redução das isenções, dificilmente algum impacto no valor da passagem será sentido antes de 2018.


Eu tinha 12 anos quando descobri que o Teixeirinha e o Gildo de Freitas já tinham morrido, e naquele dia eu quase morri junto. Entrei em depressão, fui para o hospital, a coisa foi bem feia. Até hoje, quando levanto de manhã, vejo a sombra dos dois na minha casa. Eu choro todos os dias ouvindo as músicas, porque nunca vai ter ninguém igual a eles. Jefferson Marques Lopes, na Praça XV de Novembro

SÃO PATRÍCIO CASTIGA

Moradores da Padre Chagas contrariados com o apoio da coluna à festa de Saint Patrick’s Day enviaram relatos e fotos (como esta ao lado) dos transtornos que enfrentaram.

– Os organizadores cumpriram o combinado e suspenderam a música às 22h, mas o pessoal abriu os porta-malas e ficou ouvindo som alto até as 5h – reclamou Marco Pucci, da associação Moinhos Vive.

Segundo o secretário de Desenvolvimento, Ricardo Gomes, esperava-se um público de 20 mil pessoas, mas cerca 35 mil compareceram. Gomes disse que o evento foi um sucesso “por atender à demanda por um espaço na rua para se divertir”, mas é possível que, em 2018, a festa migre para outro lugar.

segunda-feira, março 20, 2017



20 de março de 2017 | N° 18797
EDITORIAL

UM PLEITO DO RIO GRANDE

A DUPLICAÇÃO DA BR-116 é essencial para o desenvolvimento da zona sul do Estado e, principalmente, para prevenir acidentes fatais na rodovia.

Principal via de acesso ao sul do Estado e única ligação entre a Capital e o Porto de Rio Grande, a BR-116 está transformada num canteiro de obras inconclusas, numa armadilha letal para os usuários, num entrave ao desenvolvimento dos municípios da região e num símbolo de desperdício de recursos públicos. Todas essas mazelas, reunidas num trecho de pouco mais de 200 quilômetros de estrada, justificam o clamor dos gaúchos junto ao governo federal para que a duplicação da rodovia seja retomada e concluída com o máximo de urgência.

Já era para estar pronta. Iniciada em 2012, a obra vem se arrastando em ritmo irregular, tendo entrado em marcha lenta no ano passado devido ao contingenciamento de recursos por parte do governo federal. Agora está devagar, quase parando, o que motiva a atual mobilização suprapartidária dos prefeitos dos municípios diretamente interessados e também das demais forças políticas do Estado, incluindo os parlamentares federais. O Rio Grande deixa de lado o histórico grenalismo para se unir em torno de um pleito imprescindível e inadiável.

Por que é inadiável? Em primeiríssimo lugar, porque a cada dia que passa mais vidas são exterminadas numa rodovia tão sobrecarregada de tráfego, que as colisões frontais já se tornaram rotineiras. E esse, como se sabe, é o tipo de acidente que mais gera mortes e mutilações. O argumento humanitário, portanto, precede a todos os demais.

Mas as razões econômicas também precisam ser consideradas. A BR-116 é essencial para a economia da metade sul do Estado, é o canal de escoamento da produção agrícola e principal ligação das áreas mais industrializadas com o porto de Rio Grande. A maioria dos produtos destinados à exportação tem que enfrentar o gargalo da estrada sobrecarregada antes de chegar aos navios.

Há também uma questão relacionada à própria infraestrutura da obra. Os sucessivos adiamentos estão provocando a deterioração dos trechos já liberados para o tráfego, o que configura desperdício de recursos públicos. Por aí se percebe que o atraso na conclusão de uma obra tão importante não se deve unicamente à escassez de recursos, mas também, e principalmente, à má gestão. Portanto, no momento em que o Rio Grande une suas forças políticas e econômicas para promover uma nova campanha pela duplicação da BR-116, o aspecto gerencial não pode ser negligenciado.

EM RESUMO

Editorial diz que os sucessivos adiamentos na conclusão da obra não se devem apenas à escassez de recursos, mas também, e principalmente, à incompetência gerencial.