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terça-feira, julho 22, 2014


22 de julho de 2014 | N° 17867
FABRÍCIO CARPINEJAR

Tortura a dois

Nas compras no shopping, quanto tempo leva para seu homem sentar-se no banquinho dentro da loja?

5 segundos? 7 segundos?

Ele despreza as araras, os cabides, a decoração da loja, caminha direto para aquele banco, sonhando com aquele banco, que sempre fica perto dos caixas. Pode ser um pufe, uma banqueta, um sofá, mas ele vai se estirar naquele canto durante horas. Talvez mexa no celular, é certo que não levantará a cabeça para os demais clientes. 

Teme ser identificado. Está visivelmente constrangido pelo ambiente feminino. É um forasteiro num chá de fraldas. Em algum ponto remoto de seu coração, ele regride a sua infância. É outra vez um menino aguardando sua mãe fazer suas compras chatas em nome de uma recompensa (Sorvete? Chocolate?).

Não é educado, não esconde seu desgosto por estar naquele lugar, não acompanha o roteiro da curiosidade pelas novidades da coleção, chega e senta, chega e se acomoda. Como um condenado subindo ao cadafalso.

Tem horror de promoções, tem horror das conversas entre os vendedores, tem horror da música ambiente, tem horror a que lhe ofereçam água, café ou espumante, pois significa que vai demorar ainda mais, mas ele mente que deseja acompanhar sua namorada nas mil e uma portas em busca de não sei o quê.

Ele não contém sua fobia, a cadeirinha de dentro da loja é seu trono do tédio.

Todo homem procura desesperadamente a cadeirinha. Mendiga pela cadeirinha.

Não duvido que pagaria por ela se estivesse ocupada, compraria bilhete superfaturado de cambista, como se fosse um disputado show de rock.

Não decifro o motivo de os casais se maltratarem desse jeito – a saída contrariada para as lojas é um dos mistérios da relação.

Desconheço o que se passa pela cabeça do homem quando diz sim se detesta o circuito das vitrines. Custa ser sincero? Ele quer provar que tem paciência, que é generoso, que é a melhor companhia? Ou pretende garantir o sexo do fim de noite? É um vale-prazer para ser descontado na semana?

Apesar da intenção, não deveria tentar. Está na cara sua abominação. Está inscrito em cada fio de sua barba. Nem se esforça para ser agradável.

Da parte dela, é também incompreensível a insistência em levar seu parceiro. Ele só servirá para cuidar da bolsa enquanto usa o provador e para depois carregar as sacolas. Vale a aporrinhação?

Seria muito melhor passear com as amigas que podem fornecer dicas preciosas e jamais pressionar seu retorno imediato.

Mulher odeia compras com cronômetro. Por que levar o próprio alarme em pessoa?

Ele deveria ficar em casa porque cobrará cada minuto de sua espera. O que era para ser um passeio transforma-se num sacrifício.

Não vem explicar que é para ouvir a opinião masculina. Aquilo não é opinião, é resmungo.

Seu namorado dirá que está linda para todas as peças conservadoras e repuxará o rosto para as peças mínimas e sensuais. No fundo, sua opinião é o mesmo que nada.

Confesse que você não está se vestindo para ele. Nenhuma mulher se veste para o homem.


Ela pode se despir para ele, mas se vestir é um ato solitário e egoísta. Sempre foi.

22 de julho de 2014 | N° 17867
ARTIGO - OSVINO TOILLIER*

TRIBUTO A RUBEM ALVES

Mineiro de fala mansa, inventou estórias para encantamento de adultos e crianças, recuperou sonhos, passeou pela filosofia com simplicidade, ajudando professores a recuperar utopias.

Não havia evento que não desejasse ter o Rubem entre os palestrantes, porque sucesso garantido. E, na maioria das vezes, pessoas emocionadas às lágrimas, quando não ele mesmo no final da conferência.

Não escrevia o texto da palestra, jamais usou recursos tecnológicos. Ele era só palavra e emoção. Palavras de puro encantamento, que faziam sonhar, imaginar, visitar reinos encantados, viajar a bordo de suas estórias, enfim, virar criança.

Lembro uma frase antológica de suas palestras: “A missão do professor e da escola é descobrir a beleza adormecida em cada ser humano e abrir as avenidas fundamentais dos sonhos”. Este era o Rubem: pensador, filósofo, teólogo, escritor, professor, pedagogo, poeta, apaixonado pela vida.

Os escritos são o testamento de suas crenças, e suas palavras continuarão ecoando em nossos corações como eternas mensagens de amor pelo ser humano.

Rubem nos deixou, de certa forma, o segredo da educação: “Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar bem atenção, verá que há mapas dos céus, mapas das terras, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e que sei está aqui. E estes mapas, eu lhe dou, como minha herança. Com eles você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre a terra firme. Dou-lhe o meu saber”.

E, inspirado em Nietzche, arremata: “É preciso navegar. Deixando atrás as terras e os portos dos nossos pais e avós, nossos navios têm de buscar a terra dos nossos filhos e netos, ainda não vista, desconhecida”, certo de que os sonhos são os mapas dos navegantes que procuram novos mundos, conclui o mestre.

*Vice-presidente do Sinepe/RS


OSVINO TOILLIER

22 de julho de 2014 | N° 17867
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

EPÍGRAFES

Depois de longo e tenebroso inverno – embora ainda estejamos no inverno – volto a escrever sobre arte. A minha praia é o teatro – todo mundo sabe disso –, mas às vezes gosto de arriscar alguns palpites nas outras áreas, sem que, com isso, aspire mudar o mundo.

Na coluna de hoje, muito do que vai aí embaixo se aplica tanto à arte do drama quanto à música, às artes plásticas, à literatura, à dança e ao cinema. São frases – epígrafes – que costumo colecionar para me inspirar, mas, principalmente, quando ainda dava aulas, para provocar meus alunos. Começo citando uma de Galileu Galilei: “Toda concepção nasce da análise”. Considerando a pós-modernidade de hoje, em que tudo nasce do nada, a observação do grande astrônomo é fundamental.

Outra frase que mexe com a minha cabeça: “Nós não somos livres. E o céu ainda pode cair sobre nossas cabeças. O teatro foi criado, antes de tudo, para nos revelar essas verdades”. Não é um primor de sutileza? Seu autor é Antonin Artaud. Afinal, todas as artes foram criadas para nos livrar de alguma coisa, da mediocridade, da mesmice, dos dogmas religiosos, do medo e da culpa. Ao lado da de Artaud, acrescento esta de George Bracque, que citei numa outra coluna e provocou alguns simpáticos debates: “A arte perturba; a ciência tranquiliza”.

Mais algumas que revelam outras e muitas verdades: “Existem três verdades: a minha verdade, a tua verdade e a verdade” (Peter Brook); “A vida bate e estraçalha a alma. A arte nos lembra que você tem uma” (Stella Adler); “O drama, como a sinfonia, não ensina ou prova nada” (John M. Synge); “O poeta tem a terrível tarefa de mostrar o que não pode e não deve ser mostrado” (Ariane Mnouchkine);

“Se eu não pudesse escrever, nos momentos de euforia seria guerrilheiro, e nos de passividade, mágico. “Ser poeta inclui as duas coisas” (Joan Brossa); “A digestão é a ação mais excitante de um solitário” (Gonçalo M. Tavares); “É possível falhar de muitas formas, mas ter sucesso só é possível de uma única forma” (Aristóteles).


Tem mais três que deixei para o fim porque são as minhas preferidas. Uma é do poeta Rainer Maria Rylke, que diz: “É demais ter dois olhos”. E a outra é do ator Ralph Richardson: “Representar é a arte de evitar que um grupo de pessoas permaneça tossindo”. A terceira é do poeta e crítico Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Precisa mais?

22 de julho de 2014 | N° 17867
DAVID COIMBRA

VÁ TREINANDO: GO, BRUINS!

Comprei uma bonita camisa do Boston Bruins, o time de hóquei da cidade. É um time forte, um dos grandes dos Estados Unidos nesse esporte que, curiosamente, tem lá suas semelhanças com o futebol.

Boston formou times vencedores nos quatro mais importantes esportes americanos. No basquete, a cidade torce pelo Celtics, que divide a arena com os Bruins. No futebol americano eles são fanáticos pelo New England Patriots, do camisa 12 Tom Brady, por nós brasileiros conhecido como “o marido de Gisele Bündchen”, enquanto, aqui, Djisell é conhecida como “a mulher de Tom Brady” – o cara é um ídolo insuperável de Boston, você cita o nome dele em qualquer lugar e os americanos se viram para você, com os olhos reluzindo:

– Tom Brady?

E tem também o mais americano dos esportes, o para mim incompreensível beisebol. Você tinha que ver que jogo estranho. Dura três, quatro horas, às vezes mais. Os americanos ficam todo esse tempo comendo cachorro-quente e bebendo cerveja. Dão uma olhadinha no jogo, comem; dão mais uma olhadinha, bebem. O que acontece lá embaixo, no campo, por Deus, você não consegue entender. É meio parecido com o taco, que a gente jogava nas ruas do IAPI, só que cheio de regras sutis.

No beisebol os bostonianos são doentes pelo mítico Red Sox, onde jogou o não menos mítico Babe Ruth, o Pelé deles. Quando Babe Ruth jogou nos Sox, no começo do século 20, o time só ganhava. Aí o presidente do clube o vendeu para os Yankees, de Nova York, a fim de financiar um espetáculo na Broadway. Justamente os Yankees, maiores rivais dos Sox. Seria o mesmo que o Inter vender Falcão para o Grêmio ou o Grêmio vender Renato para o Inter, para, imagine só!, fazer uma peça de teatro.

Depois que o tal presidente cometeu essa sandice, o Red Sox não ganhou mais nada e os Yankees ganharam tudo. Estabeleceu-se o que os bostonianos passaram a chamar de “A Maldição de Bambino”– Bambino era o apelido de Babe Ruth.

Um dia, o presidente dos Sox entrou num táxi, o motorista o reconheceu e desferiu-lhe um murro na cara, transformando seu nariz em uma fatia de bacon frito. Assustado, o sujeito se mudou para Nova York e nunca mais voltou a Boston. A Maldição de Bambino só terminou depois de 86 anos, quando os Sox finalmente voltaram a ser campeões, uma década atrás, o que rendeu a maior festa da história de Boston, com mais de três milhões de pessoas pulando e cantando pelas ruas.

Como você vê, estou tentando aprender sobre esses esportes curiosos dos Estados Unidos, para contar para você. Por que faço isso? Por você, meu caro. Só por você. Você precisará saber sobre hóquei, basebol, basquete e futebol americano, por dois motivos:

Motivo número 1: numa Copa disputada no Brasil, a Seleção apanhou da Alemanha de 7 a 1 e a consequência disso para o futebol brasileiro foi que tudo continua igual. E:

Motivo número 2: no chatonildo Campeonato Brasileiro, o campeão já está decidido seis meses antes do final.

Se você quiser, reservo uma linda camisa do Bruins para você usar todo faceiro nas ruas de Porto Alegre.

DUNGA: UMAVELHA NOVIDADE

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O que significa a volta de Dunga para o comando da Seleção Brasileira?

Nada.


Ou antes: significa que nada mudou, nem mudará. Se levar uma surra de 7 a 1 numa Copa disputada em território nacional não provoca mudanças, o que provocaria? A direção da CBF apostou numa solução antiga. Pode até dar certo, mas é antiga, já foi tentada. O que é natural: por que algo mudaria, se os mesmos estão tomando as decisões?

segunda-feira, julho 21, 2014


21 de julho de 2014 | N° 17866
ARTIGO - GERMANO RIGOTTO*

CONTRADIÇÕES EXPOSTAS

Começou a campanha eleitoral. É tempo de deixar que a política tome o palco. Até outubro, todos os brasileiros podem refletir sobre o voto, um exercício individual valioso – que não pode ser delegado, que não pode ser refutado, que não pode ser descompromissado.

A candidatura ou a filiação partidária são formas valiosas de participação, mas não as únicas. E participar não significa legitimar tudo o que está aí ou reproduzir padrões. Pelo contrário: a consciência política mais valiosa é aquela que se dá com crítica, sem subjugação ou dependência. Envolver-se no assunto, mesmo que de leve, é necessário para um processo de qualificação. E isso não depende dos políticos, mas dos cidadãos.

Precisamos realizar as reformas de que o país necessita. Tal anseio deve vir de baixo – da opinião pública rumo às instituições. Caso contrário, seguiremos navegando nos mares conformistas do mero governismo ou do mero oposicionismo. Ou então do fisiologismo, do carguismo e dos muitos “ismos” que obscurecem nossa política.

Salvo exceções, os arranjos partidários mostraram a essência do nosso caótico sistema político. Bem diferente do que pediu o povo nas ruas, certas burocracias continuam muito distantes de uma representação adequada da sociedade. Grande parte das decisões ocorreu nas cúpulas, distante dos verdadeiros desejos das bases. A coerência dos partidos de Norte a Sul, se já não existia no plano programático e ideológico, tampouco resistiu ao plano eleitoral.

O sistema que está aí joga contra a evolução da política, e isso precisa ser discutido inclusive durante a campanha. Chegou a hora de desenvolver uma legislação que aproxime o eleitor do eleito, que diminua o número de partidos e os torne mais democráticos. Enfim, há um sem-número de reformas a fazer para colocar a política e o desenvolvimento do país em outro patamar.

Mas isso só será possível com participação, jamais com omissão. Política é com cada um de nós, sim! Façamos da eleição, portanto, um tempo de otimismo. Otimismo crítico, em que impere a vontade de construir um Brasil melhor. As contradições expostas só reforçam o quanto devemos tocar essa mudança. Precisamos unir forças para qualificar a política, sem mais esperar. 


*EX-GOVERNADOR DO ESTADO

21 de julho de 2014 | N° 17866
ARTIGO - PAULO BROSSARD*

QUAL A SEGURANÇA DA SEGURANÇA?

Dia 17, a 10 mil metros de altitude, o Boeing 777 da Malaysia Airlines que ia de Amsterdã à Malásia foi atingido por um míssil. Morreram os 298 embarcados, tripulantes e passageiros. Os restos da aeronave caíram na Ucrânia, próximo à fronteira da Rússia.

A partir daí, porém, as dificuldades aumentam, dado que o local da queda é ocupado por grupos antagônicos, que não facilitam as investigações e parece até que ocultam ou destroem elementos importantes para a elucidação do penoso acontecimento. Confesso não ter resposta à indagação no sentido de afastar, com segurança, a insegurança hoje inegável.

O fotógrafo e jornalista Ricardo Chaves teve a feliz ideia de lembrar nomes antigos de ruas de Porto Alegre, o que me fez recordar de alguns, Rua do Arroio, da Ponte, do Poço, de Bragança..., bem como lembrar Manuel Bandeira, em sua Evocação do Recife: “Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância”, Rua da União, Rua do Sol, Rua da Saudade, Cais da Aurora. Lembro alguns nomes de outras cidades, Rua do Relógio, do Leite, do Vinho, do Degrau Partido, e quantas mais.

Entre nós, há ruas que têm dois nomes, a Rua da Igreja também se chama Duque de Caxias, e a dos Andradas, Rua da Praia, e a Praça Marechal Deodoro continua sendo a Praça da Matriz. Já no coração do Rio antigo, continua incólume a da Quitanda, sem falar na histórica Rua do Ouvidor e em outras que lhe são vizinhas.

Falando em “as ruas de Mário Quintana”, observa Gustavo Corção que “a mansão do simples logradouro público, como o autor a transmite, fica logo imantada de afetos, de lembranças sem nome, de esperanças sem definição”. E exemplifica “Ruazinha que eu conheço apenas/ Da esquina onde ela principia/ Ruazinha perdida, perdida.../ Ruazinha onde Maria fia.../ ... E onde Maria, na janela, sonha”. E, de repente: “O céu estava na rua? A rua estava no céu?”.



*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

21 de julho de 2014 | N° 17866
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

24 EM 12

Pois uma das coisas que surpreendem a pessoa é a relatividade da vã matemática, quando isso convém. 24 Horas era, ora vejam, uma séria com 24 episódios, cada um com mais ou menos uma hora e que aconteciam em um imaginário tempo real.

Ficção, caros leitores, é ficção porque não tem de se limitar a coisas como o tempo, este nosso opressor. A liberdade em relação aos limites impostos por espaço e tempo é e sempre foi uma das virtudes da ficção.

24 era novidade, quando surgiu, por essa ideia de se converter a um tempo real, cada hora uma hora, o que a gente via era mesmo o que acontecia, mesmo que o que a gente via fosse virtualmente impossível de acontecer em uma hora – ou pelo menos em horas terrestres.

A mais recente temporada de 24 inovou ao se resumir a 12 episódios.

Cansaço, custos, sabe-se lá, ou vantagens mesmo de não se ter tantos episódios confundindo a cabeça do povo, o fato é que tivemos 12 episódios e pimba, acabou.

Acabou mais ou menos como sempre acaba: nosso estimado Jack Bauer, um pouco mais viúvo do que já era, e entrando em alguma fria da qual sairá, ou não teremos uma décima temporada.

Jack Bauer é um verdadeiro Houdini, e sempre sai da fria, de volta aos nossos lares. Apanha, sofre, ganha novas camadas de marcas de tortura, mas, de um jeito ou outro, volta.

Nessa temporada, Londres escapou por pouco da destruição, Chloe virou uma versão daquela hacker meio improvável do Millennium, que é mais ou menos o jeito como gente careta imagina uma hacker, o presidente americano conseguiu escapar do seu Serviço Secreto para ir ali levar um foguete pelas ventas, e a realidade se mostrou um detalhe, de novo.

24 se apoiava em uma imaginária e impossível fidelidade ao real para parecer real. Agora, eles deixaram isso de lado para assumir o que são: um James Bond americano, tão improvável quanto menos charmoso, mais violento, mais cínico. Ou seja: um Bond para os nossos tempos. E, daqui a pouco, sabe-se lá como, ele volta.


Até lá, e a gente segue em frente.

21 de julho de 2014 | N° 17866
L.F. VERISSIMO

Ecos

Um jornal de Porto Alegre fazia a cobertura do Carnaval em todo o interior do Estado e, depois do Carnaval, todas as semanas publicava uma foto dos (como se dizia na época) “folguedos de Momo” em determinada cidade, com a legenda “ecos do Carnaval em...” e o nome do lugar.

Era uma maneira prática de o jornal encher espaço, porque os “ecos” duravam o ano inteiro. Ninguém mais se lembrava do Carnaval, mas os “ecos” continuavam. Viraram uma seção permanente do jornal, pois era só escolher uma cidade e uma foto e estavam prontos os “ecos” da semana. E não faltavam cidades e fotos do seu Carnaval para serem lembradas até o Carnaval seguinte.

Há fatos que ecoam através dos tempos, e cujos ecos persistem quando as suas causas parecem esquecidas como velhos carnavais. O Mao Zedong não quis dizer outra coisa quando lhe perguntaram quais, na sua opinião, tinham sido os efeitos da Revolução Francesa na história do mundo e ele respondeu “É cedo para saber”.

Mao ainda ouvia os ecos do fato, que enquanto ecoasse não poderia ser definitivamente avaliado. Para os que ouvem, os ecos da Revolução Francesa soam como clarins da guerra entre as duas proto-ideias de como a história do mundo deve e não deve ser. O que Mao disse é que dois séculos não bastam para saber o resultado de uma guerra.

Mudando de Mao a pior, durante quantos anos ecoarão entre nós os 7 a 1 da Copa? Gerações ainda por vir lembrarão dos seis minutos que nos destroçaram a alma, até que chegue o bendito silêncio do esquecimento. Que talvez nem chegue, e num remoto futuro, em certas noites sem grilos, latidos ou briga no vizinho, se ouvirá “Seteaum, seteaum...” . Mas, se tiverem sorte, confundirão o eco com o ruído de apenas mais um foguete disparado para Marte, e dormirão tranquilos.

TRISTEZA

Infelizmente, convivemos pouco, eu e o João Ubaldo. Estivemos juntos mais em Copas do Mundo do que no Brasil. Mas encontrá-lo era sempre uma alegria. É triste saber que não nos encontraremos mais.

PAPO VOVÔ


Nossa neta de seis anos acordou sorrindo e disse que tinha tido um sonho bonito. Perguntei: “Com quem você sonhou, Lucinda?” E ela: “Comigo”.

domingo, julho 20, 2014



20 de julho de 2014 | N° 17865 
FABRÍCIO CARPINEJAR

Esquizofrenia do amor

Não sei o que é mais perturbador: aquele que se sente incomodado e discute a todo momento ou o que atravessa a tempestade verbal sem nenhuma alteração de humor.

Já fui os dois, mas ainda arco com a indecisão sobre qual tipo ajuda mais o amor. Não tenho a resposta, até porque resposta nem sempre é solução.

Qual o perfil mais agradável: o que debate sem parar ou aquele que não debate nunca? O que chora nos primeiros minutos de distância ou o que não chora jamais? O que se desespera nas divergências ou quem vira as costas, bate a porta e foge de qualquer conversa séria? O que se mostra muito interessado em tudo o que se vive dentro do casamento, corrige os problemas na hora, sofre horrores para se fazer entender ou o que despreza os aborrecimento diários, não alimenta a fogueira das palavras e larga discussões com a confiança intacta, como se nada tivesse acontecido?

Não venha concluir que é o meio-termo, o meio-termo não é uma realidade amorosa.

Gostaria de entender qual dos extremos tem mais sucesso na resolução dos conflitos. Sobram pontos positivos e negativos para ambas as partes.

O primeiro ama escandalosamente, sofre com as oscilações do cotidiano, só que também não deixa os desentendimentos naturais esfriarem. Pode gerar rupturas pelo cansaço.

O segundo facilita a mudança de estado de espírito, só que parece gélido e imperturbável, subestima as dificuldades da companhia e corre o risco de criar um perigoso distanciamento na relação.

O primeiro tem a virtude da sinceridade, porém estraga a noite com sua ansiedade. Briga e não consegue realizar coisa alguma até firmar as pazes. Não dorme, não come, mergulha no mal-estar profundo. Apresenta beiço, raiva, contrariedade e vai se aquietar apenas com carinhos, abraços redentores e pedidos espalhafatosos de desculpa. É sincero, porém passional.

O segundo tem uma leveza maravilhosa e também irritante. Recém quebraram os pratos e conversa com absoluta desmemória, como se estivesse acordando naquele momento. Ao mesmo tempo em que evita dramas desnecessários, também não permite a intimidade da raiva e da catarse. A sensação é de que os gritos e as discordâncias entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Você está inchada do choro e ele já está vendo sua série predileta e rindo loucamente.

É uma dúvida insaciável, a mesma que atinge nossa reação diante do ciúme: se preferimos estar acompanhados do preocupado que não oferece um minuto de trégua ou de um indiferente, que nem nos olha?

Cada vez mais reconheço que no amor não existe o melhor, mas o menos pior.


20 de julho de 2014 | N° 17865
MARTHA MEDEIROS

Você maior

As redes sociais alimentam, mas não são as únicas responsáveis pela egolatria que tomou conta do mundo. Vivendo numa bolha chamada sociedade de consumo, cada um de nós passou a ser encarado como um produto e, como tal, precisa se vender. 

Para se colocar bem no mercado do amor e no mercado de trabalho, tornou-se obrigatório apresentar um perfil, e então tratamos de falar muito sobre nós, sobre nossos atributos e tudo o que possa fazer a gente avançar em relação à concorrência, que não é pequena. Somos os publicitários de nós mesmos, uns mais discretos, outros mais exibidos, mas todos procurando encantar o próximo, que propaganda nada mais é do que isso: a arte de seduzir.

Contraditoriamente, quando se torna necessário falarmos não de nossos atributos, mas de nossas dores, de nossas inseguranças e de nossos defeitos, fechamos a boca. Mesmo os que estão bem perto, aqueles que nos são íntimos, não escutam a nossa voz. Calamos por temer um julgamento sumário. Produtos precisam ser eficientes, não podem ter falhas.

A boa notícia é que tudo isso é um absurdo. Não somos um produto. Não precisamos de slogan, embalagem, jingle. Estamos aqui para conviver, e não para sermos consumidos. E, se quisermos que realmente nos conheçam, o ideal seria parar de nos anunciarmos como o último copo d’água do deserto.

O documentário Eu Maior, um dos trabalhos mais tocantes a que assisti nos últimos tempos, traz o depoimento de filósofos, artistas, cientistas e ambientalistas sobre quem verdadeiramente somos e como devemos nos relacionar com o universo. Entre várias colocações ponderadas, teve uma de Marina Silva que tomei como uma lição de comportamento: “Você descobre a qualidade de uma pessoa não quando ela fala de si, mas quando ela fala dos outros”.

Ou seja, o que revela sua verdadeira natureza são os comentários venenosos que costuma distribuir ou os elogios que faz sobre amigos e desconhecidos. São as fofocas que oculta para não menosprezar seus semelhantes ou que espalha por aí, acrescentando uma maldadezinha extra. Você é avaliado de forma mais precisa através da sua capacidade de enaltecer o positivo que há ao seu redor ou de propagar o negativismo que sobressai em tudo o que vê.

Você demonstra que é uma pessoa maior – ou menor – de acordo com sua necessidade de diminuir ou de valorizar aqueles que o rodeiam, de acordo com um olhar que deveria ser justo, mas que quase sempre é competitivo. É através das suas palavras amorosas ou das suas declarações injuriantes que os outros saberão exatamente quem é você – pouco importando o que você diga sobre si mesmo.


Sobre você mesmo, deixe que falemos nós.

20 de julho de 2014 | N° 17865
LUÍS AUGUSTO FISCHER

À flor da pele

O choro dos jogadores brasileiros foi menos de emoção do que de medo, me pareceu. E o medo de jogar brotou inteiro nos dois últimos jogos da Copa, os 10 a 1 que levamos. O que houve?

Haverá as razões objetivas – Felipão treinou pouco; o time não se preparou como os demais porque não precisou disputar a classificação, como dono da casa; não temos uma geração notável, com exceção do Neymar; muitos dos selecionados são claramente gente imatura (o Luis Fernando Verissimo disse que o Oscar tem cara de guri para quem se revelou agora mesmo que Papai Noel não existe); não parece haver líder válido entre eles; poucos dos nossos selecionados ocupam o primeiro plano no futebol europeu, onde jogam. Mas há as razões subjetivas, entre as quais o medo.

Medo de fazer feio em casa. Medo de mostrar um país que dá medo pelo cotidiano violento, que por meses a fio foi centro da propaganda negativa que circulou no país e no Exterior. Medo de que a Copa fosse um fracasso devido à hipótese de manifestações violentas, como ocorreu na borda do junho-2013.

Na borda, porque no centro havia um grande sentido político, que não pode ser debitado na mesma conta da arruaça. Medo como eco do medo (e do desejo) sentido pelas autoridades (e pela oposição) de que a Copa – dando errado (ou certo) – significasse uma derrota de suas pretensões na eleição que vem aí.

Pessoalmente fiquei embasbacado em duas cenas. Uma foi quando o Felipão, após o jogo com o Chile, afirmou que tudo ia bem, que até a presença da psicóloga era já prevista (não era, ela disse depois) e que – aqui meu susto – ela nem recebia remuneração pelo que fazia. Naquele mundo de nababos e de marketing imperante, ele disse isso a sério, como um valor superior.

Outra foi quando ele apareceu, na véspera da final ou logo depois dela, sacudindo um papel a dizer que tudo tinha dado certo, o planejamento tinha sido perfeito, nenhum atleta se machucou, apenas o resultado em campo é que tinha ficado abaixo do esperado. Um detalhe da realidade, enfim, contradizendo a planilha.

Felipão não foi agora o que já tinha sido em 2002, um aglutinador que operou como um salvador, um Dom Sebastião retornado. O Brasil sempre espera por ele (lembrou José Miguel Wisnik em excelente entrevista para o Estado de S. Paulo).

Felipão argumentando com uma psicóloga não remunerada e com uma planilha! Isso só pode ser fruto de sua aliança com o Parreira, que talvez tenha sido mortal para ele: Parreira, com sua lábia metropolitana escolada em mais de 40 anos de poder, da CBD (ele estava junto ao Zagalo em 1970!) à CBF, talvez tenha engolido o esforçado burguês caipira que é o Felipão. Mas não era bem isso que eu queria falar.

Na revista Brasileiros de junho, a excelente atriz Grace Gianoukas é entrevistada e, lá pelas tantas, comentando a profusão de espetáculos “stand-up”, a que não faltam péssimos humoristas a vazar seus preconceitos e suas grosserias querendo parecer graça, ela saiu com essa bela síntese: todo mundo está em pé, standing up, hoje em dia, cada um falando o que quer.

A sociedade brasileira se mexeu, moveu peças, inventou até o rolezinho para andar. Os caretas, os xenófobos, os racistas, os antipovo também têm a palavra, ao lado das minorias oprimidas e das maiorias tomando consciência; e não é raro que essas minorias e maiorias deleguem seu poder a, ou tenham seu poder surrupiado por, aborrecidos agentes do politicamente correto.


Tudo isso à flor da pele.

20 de julho de 2014 | N° 17865
PAULO SANT’ANA

Só vendo como dói

Se eu tivesse de escolher um só defeito da Natureza ao criar o homem, escolheria a dor.

Dizem que a dor é uma forma da Natureza para avisar a pessoa de que algo está errado em seu organismo. Está bem, mas a Criação tinha de ter arranjado outra forma de alarme que não fosse a dor.

Porque a dor é muito cruciante.

Eu nem sei como é que, antes da invenção da anestesia, faziam para extrair os dentes. Deve ter sido um parto.

Sofri muito, quando era criança e jovem, com dores de dente. E eu via muitos meninos com os rostos totalmente deformados por inchume quando estavam com dor de dente, parecia uma caxumba.

Dizem que a dor mais forte que existe é a renal, pedra nos rins, por exemplo. E dizem também que a dor do parto é terrível, agora amenizada pela cesariana.

Nunca tive, por óbvio, essas duas dores, já me bastaram as dores de dente que sofri. Mas também ouvia falar que a dor de ouvido era insuportável.

Agora mesmo, tenho sido alvo de uma dor. É que torci a falange do dedo médio da mão direita e inchou. Enquanto não desincha, vou sentindo uma dor muito forte. Para desinchar vai demorar um mês.

Mas nem se compara com a dor renal e a dor do parto.

Qualquer pancada ou choque nos dedos causa dor candente. Acho que por causa das unhas, unha encravada dói pra burro.

Além das dores físicas, são inclementes as dores morais, entre elas, diz-se, a dor de cotovelo, a dor da perda do ser amado, a dor da paixão abandonada.

Como dor moral expressiva está também a morte de uma mãe, de um pai, de um filho, de qualquer ser querido – só vendo como é que dói.

Entre as dores morais derrubadoras está também a perda do emprego. Fiquei sabendo que um amigo meu perdeu esses dias seu emprego e senti dor moral por ele, vejam só...

Se doeu em mim, imaginem nele.

E se vão por aí as dores morais, até mesmo perder uma partida ou um campeonato. Os 7 a 1 contra a Alemanha, por exemplo.


Só vendo como é que dói.

20 de julho de 2014 | N° 17865
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

Os americanos que não aceitam dinheiro

Queria pagar o aluguel. Nada complicado, aparentemente. Com o detalhe de que, aqui, você não paga o aluguel no fim do mês, paga no começo. Tudo bem, vamos lá.

Liguei para o cara da imobiliária e perguntei como poderia fazer o pagamento. Ele respondeu que precisava mandar um cheque pelo correio. O problema era que meu talão de cheques ainda não havia chegado. Como não gosto de ficar devendo, fiz o seguinte: fui ao banco, retirei o montante referente ao aluguel, chamei um táxi e toquei, lampeiro, para a imobiliária. Cheguei lá e disse que queria pagar o aluguel. O funcionário: “OK, my friend”. Tirei o dinheiro do bolso, ele olhou e balançou a cabeça:

– No, no. Nós não aceitamos dinheiro; só cheque.

Pisquei:

– Ahn... Estou aqui com dinheiro para pagar meu aluguel. Money! – E acenei com o bolinho flamejante de dólares. – Você não quer o meu dinheiro?

– Só cheque.

Comecei a achar que meu inglês cambaio estava me iludindo. Não era possível aquilo. Dinheiro é muito melhor do que cheque, não é? Mostrei-lhe o maço de notas outra vez e repeti:

– Vim para pagar o aluguel e...

Ele ficou meio ofendido.

– Isso aqui não é um banco – disse, meio ríspido. – É uma imobiliária!

Pensei em argumentar que o supermercado, a farmácia e todos os shoppings centers e mendigos do planeta também não são bancos e, para eles, meu dinheiro é bom, mas vi que não adiantaria. Dei meia-volta na minha perplexidade e fui embora com o dinheiro no bolso e a dívida pendurada na dignidade das imobiliárias americanas.

Vá entender.

Esse é o problema, quando você está vivendo num lugar diferente: as regras. Não leis; regras. E não são nem regras de comportamento, são regras de procedimento, sistemas com os quais os americanos estão acostumados, mas que, para um suburbano do último meridiano do Brasil, são muito esquisitas.

Vou dar outro exemplo. Um exemplo esportivo. O próximo.

UM EXEMPLO ESPORTIVO

Tem um parque aqui perto de onde moro. Boston é uma cidade de belos parques, de muitas árvores, de muito verde, uma cidade onde os esquilos e as lebres correm velozmente pelas ruas, enquanto os carros rodam devagar.

Nesse parque, sempre há gente jogando futebol. Futebol mesmo, soccer, aquele que a Alemanha joga, não o da bola elíptica.

São jogos animados, vê-se. Mas com um ingrediente estranho: homens e mulheres jogam juntos. Não a velha brincadeira de praia de homens contra mulheres, não: eles montam times mistos, que se enfrentam para valer.

Fiquei escandalizado. Tive vontade de invadir o campo, interromper o jogo e gritar:

– Hey, man! Que ideia é essa? Arranjem uns pompons para essas minas e mandem-nas já para a lateral do campo, para gritar: “D, de divino! A, de altruísta! V, de vitorioso! I, de inteligente! D, de dinâmico!”

Mulheres jogando junto com homens. Francamente. Assim os Estados Unidos nunca vão passar das quartas de final.

CONSERVADO...

Outra.

Noite dessas, fui a um restaurante, pedi uma bebida, e a atendente solicitou minha carteira de identidade. Perguntei por quê. Ela respondeu que só podia vender para maiores de 21 anos.

Fiquei tão feliz...

Depois descobri que eles não fizeram isso devido a minha carinha de jovem, mas porque vez em quando a polícia dá uma incerta para ver se estão cumprindo a proibição de venda de álcool para menores.

Talvez eu não parecesse jovem, talvez parecesse tira.

Bem, rapaz, não é tão ruim parecer tira.

CHEGA DE BATATA FRITA

Os caras gostam muito de batata frita nos Estados Unidos. Qualquer prato que você pede vem com batata frita. Nem está dito ali no menu que a batata frita está incluída, e a batata frita vem. Os sanduíches e hambúrgueres todos têm batata frita, mas, perigou, vem sopa, massa, sushi, tudo com batata frita.

No começo, eu comia aquela batata frita toda, até porque gosto de batata frita. Mas depois começou a me enjoar. Deixava aquele monte de batata frita esfriando no prato e pensava nas criancinhas pobres da Etiópia, que adorariam comer uma batata frita naquele exato momento. Agora já me preveni. Quando peço algo, alerto:

– Nada de batata frita! Não me traga batata frita! Não me façam odiar batata frita!


Tenho que me adaptar com urgência a esses hábitos norte-americanos.

20 de julho de 2014 | N° 17865
 L. F. VERISSIMO

Mas...

Todos nós devemos ter lado, e deixar claras nossas convicções, nossas certezas e até nossas birras. Mas há questões em que a única posição sensata é em cima do proverbial muro, e sobre as quais você não tem opinião.

Ou porque nunca parou para pensar no assunto, ou porque o assunto não depende da sua definição – quatro-quatro-dois, três-cinco-dois ou quatro-três-três, que diferença faz sua preferência se não é você quem escala o time? –, ou porque o assunto não tem lado para ser escolhido. Ou pior: tem tantos lados que qualquer um que você escolha será uma injustiça com os outros.

Os assuntos sobre os quais é difícil ter uma opinião firme vão do corriqueiro – abotoar a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima, deixar ou não deixar a gema do ovo para o fim, Patricia Pillar ou Patrícia Poeta? – às últimas dúvidas sobre o Universo e a vida, passando pela política e seus alçapões. Por exemplo: religião. Você não acredita em Deus, acha que todas as religiões são resquícios infantis de superstições pré-históricas que não resistem a dois minutos de argumentação racional, quando não são vigarices abertas, mas...

E se o engodo religioso for necessário para nos manter a mente sana? E se catequizar contra a religião for roubar do crente a sua única proteção contra a angústia? As religiões prometem derrotar o inimigo comum de todos, até dos ateus convictos: a morte. A grande mensagem de quase todas as narrativas religiosas é a da ressurreição, da vitória contra a morte, que independe da existência ou não de um céu e um deus. Nisso, estamos com elas, literalmente até o fim. Podem nos chamar de ateus carolas.

Também é difícil ter opinião firme sobre o conflito eterno entre judeus e palestinos no Oriente Médio. Simpatizamos com os judeus e com a luta de Israel para prevalecer num meio que nega a sua existência. Um país tem todo o direito de usar toda a sua força para simplesmente existir. Mas... Também há o lado dos palestinos e seus direitos negados, e sua pretensão de também ser um Estado.


E há o direito mais importante de todos, que é o de cidadãos de toda a região deflagrada estarem livres de morrer só por estarem no lugar errado, na hora errada. Qual é o lado sensato para se estar nessa questão? Bem-vindo ao muro.

sábado, julho 19, 2014


19 de julho de 2014 | N° 17864
CAPA

O SER HUMANO PROSPEROU EM BANDOS

Os efeitos surpreendentes dessa experiência exclusivamente humana que é a solidão são objeto de estudo de Cacioppo, que falou, em entrevista por e-mail ao Vida, sobre a importância dos vínculos sociais e sobre como podemos nos resgatar da dor do isolamento. Confira:

Qual a principal diferença entre o “estar só”e a solidão?

Estar só expressa o prazer de estar sozinho, enquanto que a palavra “solidão” expressa a dor de sentir-se sozinho. Milhões de pessoas sofrem diariamente de solidão, uma condição psicológica debilitante caracterizada por uma profunda sensação de vazio, inutilidade, falta de controle e ameaça pessoal. O isolamento físico pode contribuir para sentimentos de solidão, mas as pessoas podem ser solitárias em um casamento, família, ou multidão.

Você costuma dizer que os seres humanos são seres “sociais com ponto de exclamação”. Como você explica isso?

Nosso trabalho com imagens cerebrais, marcadores fisiológicos e análises de herdabilidade, nos permitiu colocar a solidão em um contexto evolutivo. No início de nossa história como espécie, o ser humano sobreviveu e prosperou apenas por viver em bandos – famílias, tribos e casais –, o que proporcionou proteção e assistência mútua. A solidão evoluiu, então, como qualquer outra forma de dor. Esse sinal de “solidão” serviu para nos alertar sobre a necessidade de renovar as conexões que precisávamos para garantir a sobrevivência e para constituir a confiança social, assim como a fome, a sede, a dor física.

Algumas pessoas têm predisposição à solidão?

Sim, a solidão é cerca de 50% hereditária, mas isso não significa que é determinada exclusivamente pelos genes. Uma quantidade igual é devido a fatores ambientais. O que parece ser hereditário é a intensidade da dor sentida quando a pessoa se sente socialmente isolada. Independente de ser sensível ou insensível, o importante é criar um ambiente que corresponda a essa predisposição. Se uma pessoa é especialmente sensível, então ela pode se beneficiar e melhorar sua saúde e bem-estar ao priorizar o desenvolvimento e manutenção de relacionamentos de alta qualidade.

As pessoas podem viver momentos de solidão mas se recuperar. Como diferenciar da solidão crônica, condição que pode prejudicar a saúde?


Determinadas situações podem aumentar o risco de uma pessoa se sentir só, como o término de um relacionamento, ser desrespeitada, ter conflitos que não são solucionados ou pouco contato com familiares e amigos. Essas situações podem diminuir a sensação de estar conectados com os demais, o que deve motivar as pessoas a buscar uma reconexão. Se essas tentativas não forem bem-sucedidas, o sentimento de solidão pode ficar desconectado da situação que o provocou, causando um problema crônico.

19 de julho de 2014 | N° 17864
CAPA

É IMPOSSÍVEL SER FELIZ SOZINHO?

CIÊNCIA MOSTRA QUE ESTAR SÓ PODE TRAZER BENEFÍCIOS, MAS TAMBÉM PREJUDICAR A SAÚDE FÍSICAE MENTAL

As pessoas preferem sofrer a ficar sozinhas e desconectadas, mesmo que por poucos minutos. Foi isso que mostrou um recente estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, e publicado este mês na revista científica “Science”. Colocados sozinhos em uma sala, os voluntários do experimento deveriam passar 15 minutos sem fazer nada, longe de seus celulares e qualquer outro estímulo, imersos em seus pensamentos.

Mas, caso quisessem, bastava apertar um botão e tomariam um choque elétrico. O resultado foi surpreendente: 67% dos homens e 25% das mulheres, entediados, preferiram as descargas elétricas a que ficar sem estímulo nenhum, somente na companhia de seus pensamentos. Alguns deles, inclusive, optaram pelo “castigo” repetidas vezes. Os líderes do estudo se mostraram surpresos com o resultado, que indicou como as pessoas encaram de forma negativa a ideia de estarem em contato consigo.

Defendido por muitos como uma forma de se conhecer melhor e temido por outros tantos, o estar só parece cada vez mais assustar o homem que, imerso em uma sociedade a cada dia mais conectada, vê no isolamento algo distante e doloroso. Mas será que estes momentos são tão ruins assim? O que a ciência mostra é que estar só pode tanto trazer benefícios como prejudicar a saúde física e mental. O importante é saber como lidar com essa condição e aprender a ter controle sobre ela.

uExplicação pode estar nos genes

Tema estudado há anos pelo psicólogo americano John Cacioppo, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago (EUA), o medo da solidão pode estar nos nossos genes. Segundo o especialista, a justificativa de evitarmos o isolamento está no fato de sermos uma espécie social que, durante muitos anos, dependeu do comportamento em grupo para a sobrevivência e que, ainda hoje, pelo menos nos primeiros anos de vida, carece dos laços com os pais ou cuidadores:

– Quando nos sentimos sozinhos, o corpo emite um aviso de que algo não está bem. É um sinal que, assim como a fome, a sede ou a dor, nos induz a uma mudança de comportamento. Neste caso, nos faz buscar contato com outras pessoas – resume.

u Reflexos no organismo

Quando esse vínculo não é restabelecido, o sentimento de estar só se torna crônico. Ou seja, passamos a viver em um quadro de solidão, as consequências extrapolam a mente e podem atingir o restante do corpo.

Diversos estudos realizados ao longo dos últimos anos relacionam a solidão com aumento da pressão arterial e aceleração do processo de envelhecimento, alguns indicando que ela pode fazer tão mal ao organismo como a obesidade. Também há trabalhos científicos que colocam os solitários na categoria dos mais sujeitos a arteriosclerose, diabetes e ataque cardíaco. Sem contar o elevado índice de suicídios entre os que se sentem cronicamente sós.

Não é à toa que o isolamento nos assusta tanto. E, em uma sociedade que proporciona a conexão 24 horas, a tendência é seguirmos caminhando no sentido oposto: o de estar o tempo todo conectados em nossos smartphones, tablets e afins.

Apesar de tentadora, essa não é, para especialistas, a forma de evitar a solidão, já que ela não aparece somente quando estamos fisicamente sozinhos, comenta o psiquiatra Nelio Tombini, do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A solidão, diz o psiquiatra, não está diretamente ligada à realidade externa, ou seja, à presença ou ausência de pessoas e estímulos, mas sim a um sentimento interno de conexão com o mundo e com quem nos cerca.


jaqueline.sordi@zerohora.com.br

19 de julho de 2014 | N° 17864
CLAUDIA LAITANO

Confissões

“Quem fala não é quem escreve, e quem escreve não é quem é.” A frase de Roland Barthes pode ser lida como uma espécie de lembrete ao leitor de que ele deveria desconfiar do escritor mesmo quando ele parece estar dizendo a verdade – que mais não seja porque quase sempre é impossível dizer ou escrever toda a verdade.

Com frequência, a literatura borra os limites entre o que é realidade e o que é invenção, propositalmente confundindo o leitor. Será que isso aconteceu mesmo? Ele traiu a mulher? Foi traído? A mãe era mesmo uma bruxa? E o que a mãe dele achou de ser descrita como uma bruxa? O escritor que, confessadamente ou não, utiliza elementos biográficos em um romance está autorizando o leitor a completar o retrato do autor/personagem com a sua imaginação.

Proust, por exemplo. Sabemos bastante sobre a sua biografia, que viveu da fortuna da família, gostava de frequentar festas elegantes e a certa altura abandonou tudo para trancar-se no quarto e escrever um romance largamente inspirado em sua própria vida. Proust era, ao mesmo tempo, autor e personagem do seu livro, e quando o leitor pensa no homem e em como ele deveria ser quando não estava escrevendo, fatalmente vai misturar a verdade histórica com a própria imaginação.

O escritor que devorei agora nas férias, o norueguês Karl Owe Knausgard, é um fã de Proust e escreveu ele mesmo um romance em seis partes dedicado a esquadrinhar a própria vida – mais explicitamente ainda que Proust, que pelo menos trocava os nomes dos personagens reais que o inspiraram. Nos livros A Morte do Pai e Um Outro Amor, já lançados no Brasil, ficamos sabendo tudo sobre a família de Knausgard, suas namoradas, suas manias, suas pequenas e grandes fragilidades de caráter.

Quando terminei o primeiro livro, a sensação era de que eu conhecia mais sobre Knausgard do que sobre algumas pessoas que eu vejo todos os dias no trabalho há mais 10 anos.

O leitor que não é muito chegado em Proust e nem sequer ouviu falar de Knausgard pode estar se perguntando para que, afinal, serve saber tanto assim sobre a vida de uma outra pessoa, principalmente numa época em que todo mundo parece estar fazendo a mesma coisa: narrar e fotografar a si mesmo o tempo todo. Boa e decisiva pergunta, perspicaz leitor. A tecnologia possibilitou esse ambiente de trocas inesgotáveis de confissões cotidianas: tomei café, briguei com o caixa do banco, emagreci cinco quilos.

Ao mesmo tempo, a investigação íntima, por vezes radical e perturbadora, como no caso dos livros de Knausgard, é cada vez mais popular como recurso narrativo. O resultado é essa curiosa coexistência entre um interesse renovado pelas infinitas possibilidades estéticas da não ficção (ensaios confessionais, memórias, documentários do gênero testemunhal, híbridos de gêneros) e a saturação do eu banalizado, vulgar, que apenas parece gritar: “Eu existo! Olha pra mim!”.

Por que algumas confissões íntimas soam banais e vazias, e outras profundas e transcendentes? O que separa a arte do mero narcisismo? A resposta talvez não esteja no “o que” se diz nem mesmo no “como” se diz (embora isso faça muita diferença).


A chave para entender a capacidade de transcendência de um relato pessoal talvez esteja no “por que” se diz. É preciso que a confissão venha acompanhada do esforço de dar algum sentido à experiência passada para que ela possa ultrapassar a si mesma e tocar aos outros de forma profunda. No fim, não importa tanto saber o quanto Proust e Knausgard revelaram sobre suas próprias vidas em seus livros, mas o quanto encontramos de nós mesmos naquilo que eles escreveram.