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segunda-feira, setembro 01, 2014


01 de setembro de 2014 | N° 17909
ARTIGO -  PEDRO TELLES*

DESASTRES NATURAIS E ELEIÇÕES NO RS

Dados oficiais mostram que há razão para temer o agravamento do problema. Na primeira década deste século, foram registrados 3.343 desastres naturais no Estado, um crescimento de 111% com relação à década anterior, de acordo com a Secretaria Nacional de Defesa Civil. Em 2012, o Rio Grande do Sul enfrentou a pior seca dos últimos 60 anos, cujo prejuízo alcançou R$ 2 bilhões – com o setor agrícola sendo o principal afetado. Há dois meses, fortes chuvas deixaram milhares desalojados.

Em ano eleitoral, o tema deve ser abordado por candidatos ao governo estadual e também por presidenciáveis, já que outros Estados enfrentam problemas semelhantes. Porém, pouco se ouve falar de um assunto profundamente relacionado a desastres naturais: mudanças climáticas.

Resultado da emissão de gases de efeito estufa por atividades humanas, as mudanças climáticas são consideradas o maior desafio enfrentado pela Humanidade atualmente – e entre suas principais consequências está a intensificação de eventos naturais extremos. O El Niño e a La Niña, por exemplo, fenômenos identificados como grandes responsáveis pelas tragédias ao sul do país, tendem a se agravar com tais mudanças.

Em diversos países, as mudanças climáticas são tema importante no debate eleitoral. De Alemanha e Estados Unidos a Filipinas e Bangladesh, candidatos apresentam propostas para lidar com o problema e enfrentar suas causas.

No Brasil, o assunto ainda é tratado de forma marginal. Mudanças climáticas não entram nem no campo das promessas e passam longe de se tornarem prioridade em políticas públicas. Enquanto isso, os desastres seguem se acumulando e, em vez de medidas de prevenção efetivas, resta à população a ajuda humanitária depois que o estrago já foi feito.

Passou da hora daqueles que pretendem governar o Rio Grande do Sul e o Brasil dizerem como vão cuidar do problema.


Assessor de Políticas Públicas do Greenpeace - PEDRO TELLES

01 de setembro de 2014 | N° 17909
IDEIAS MIA COUTO NA UFRGS

“Na verdade, a gente reinventa o passado”

ESCRITOR MOÇAMBICANO conduzirá aula magna a partir das 10h de hoje, com o título Guardar memórias, contar histórias e semear o futuro
Acostumado a brincar com as palavras em sua literatura, o aclamado escritor moçambicano Mia Couto também subverte o tempo.

Na aula magna que proferirá a partir das 10h de hoje, no Salão de Atos da UFRGS, uma das principais vozes do continente africano na atualidade vai propor uma inversão na relação entre passado e futuro para convidar o público a refletir sobre o presente.

– Há uma espécie de relação dupla: para haver passado tem de haver futuro. Na verdade, a gente reinventa o passado, o passado não é algo em que possamos confiar tanto assim. É sempre fabricado, e fabricado em função de uma esperança, de uma crença. E se não há crença, como me parece ser o caso mais ou menos universal hoje, vivemos numa espécie de tempo plano, um presente sem tempo – disse o escritor ontem à tarde em Porto Alegre, em entrevista a ZH.

Partindo desse pressuposto, o moçambicano conduzirá a palestra Guardar memórias, contar histórias e semear o futuro, em uma homenagem do Fronteiras do Pensamento à universidade, em comemoração aos seus 80 anos.

CONTRA A DITADURA DO INSTANTÂNEO

Costurando causos com seu reconhecido talento de narrador, Mia Couto levantará questionamentos sobre o modo de vida das sociedades contemporâneas.

– O que quero dizer é que o tempo presente que hoje nos impõem é um tempo vazado de história. É um tempo que vive nesta ditadura do imediato, do instantâneo – antecipou.

Apaixonado pelo Brasil, o moçambicano é inclusive sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, e por aqui é conhecido por obras como Terra Sonâmbula, O Outro Pé da Sereia e A Varanda do Frangipani.

Vencedor dos prestigiados prêmios Neustadt e Camões no ano passado, o escritor se consagrou com seu modo peculiar de narrar histórias, valendo-se de uma linguagem poética, recheada com palavras inventadas, para retratar a realidade áspera de seu povo.

Quem for assisti-lo poderá testemunhar como suas palavras são também uma forma de resistência.

leticia.duarte@zerohora.com.br

LETÍCIA DUARTE - FIQUE POR DENTRO


O que: aula magna de Mia Couto Onde: Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110 - Campus Centro) Quando: hoje, às 10h Entrada: gratuita, por ordem de chegada e conforme a capacidade Na internet: será possível acompanhar a palestra ao vivo pelo link ufrgs.br/multimidia/ufrgstv.html Informações: pelo telefone (51) 3308-3034

01 de setembro de 2014 | N° 17909
MOISÉS MENDES

O macaquinho

Atorcedora que chamou o goleiro de macaco vai reaparecer pedindo desculpas. Manifestações como a dela não resultam, como alguns pretendem, de convicção sustentada por pretensa orientação ideológica, política, religiosa ou antropológica de séculos passados. Claro que o racismo tem substância teórica e prática, mas não nesse caso.

Nos gritos da moça, aconteceu o contrário. O que houve ali foi uma manifestação de ingenuidade, desinformação, imaturidade, tudo combinado com a escassez de recursos para ter a compreensão do que significa tentar desqualificar um negro num país traumatizado por três séculos e meio de escravidão.

Então, não se diga que a moça é uma racista convicta. É apenas uma torcedora sob o comando de impulsos. É uma das tantas jovens embrutecidas por bobagens potencializadas pela redes sociais, que desorientam a puberdade hoje prolongada para além dos 30 anos.

Não há no gesto da moça nada mais pretensioso ou elaborado. Não é alguém que tenha avançado até uma enganosa compreensão do mundo, para finalmente se ver como um ser superior. Ou não andaria por aí, carregando sob o braço, como mostram as fotos na internet, um macaquinho de pelúcia com a camiseta do Internacional.

Uma moça infantilizada “denunciou” (para se exibir aos telões?) um homem negro que seria um macaco. Um macaco que defendia tudo o que os jogadores do Grêmio chutavam contra o seu gol. E que estava vencendo o jogo.

Não são poucos os perdedores que andam vendo macacos. É grande o desconforto com o aumento de negros médicos, engenheiros, que circulam em carros do ano, negros do Prouni e até os negros que subsistem com o Bolsa Família. Sem falar nos que decidiram andar de avião.

A segunda coisa que quero dizer é sobre uma aventada semelhança entre as expressões e os gestos da moça e as que se dirigem aos árbitros, como filhos da p.

Fdp é algo tão desqualificador? Uma prostituta deixa de ser pessoa ou mulher? A grande Rose Marie Muraro exaltou, há mais de meio século, a dignidade das prostitutas – não da atividade, na maioria das vezes explorada com violência, mas das mulheres que dela dependem.

Há alguns anos, fiz uma reportagem sobre ex-prostitutas. Ouvi uma moça criada por uma delas, a professora Jara Fontoura da Silveira. Quem acha que desqualifica alguém definindo-a como prostituta, que fale com a professora Jara, doutora em Educação Ambiental, na Universidade Católica de Pelotas.

Mas não há como negar que existe, sim, tentativa de desqualificação num ataque, com ofensa racista, a um negro que alguém considera “incômodo”.

Qualquer estudioso da escravidão nos diz que o processo de anulação do negro passava pela coisificação e pela animalização. Um dia, a guria da Geral do Grêmio ficará sabendo disso. Se conseguir largar o macaquinho de pelúcia.

É estranho que, na foto em que grita macaco, com a boca aberta, a torcedora tenha ficado com a expressão da famosa figura do Grito, da tela de Munch. Como se fosse assombrada pelo próprio assombro.


Sant’Ana sai por uns dias para uma cirurgia. Eu fico por aqui até sua volta. Estaremos todos na torcida.

01 de setembro de 2014 | N° 17909
CÍNTIA MOSCOVICH

RUMINAÇÕES E O BODE EXPIATÓRIO

Uma das notícias mais incríveis da Folha de S.Paulo na semana que passou foi a de que artistas árabes convidados para a 31ª Bienal de São Paulo planejavam um boicote em repúdio ao patrocínio de R$ 90 mil concedido ao evento pelo consulado de Israel na capital paulista – montante justificado pelo convite feito a três artistas israelenses.

Segundo o jornal, cerca de 40 artistas árabes e simpatizantes exigiram que o logotipo do consulado fosse retirado do material promocional, que os três artistas israelenses fossem, digamos, desconvidados e que os 90 mil fossem devolvidos – tudo porque se recusavam a participar de um evento apoiado por um país que acusam de “genocida” e que desejam apagar do mapa. A Bienal, que tem orçamento na casa dos R$ 24 milhões, começa nesta semana, mas, até o momento em que escrevo, a dita ameaça não tinha sido concretizada.

A notícia empilha sandices. A ameaça de boicote por parte de artistas e escritores a uma bienal por causa de um conflito no Oriente Médio patrola a crença de que a arte é capaz de transcender as fronteiras e as miudezas, sanar o ódio e promover a concórdia. Impossível que pessoas que lidem com criatividade caiam na esparrela da chantagem emocional, a mesma que mobiliza a opinião pública contra os judeus, bode expiatório de praxe. O antissemitismo ganhou fermento e só cresce.

O segundo ponto que chama a atenção é postura do cônsul israelense, Yoel Barnea, que, ao se manifestar sobre o assunto, disse que as queixas contra o terrorismo são muitas, mas que nem por isso deixaria de garantir o patrocínio – ninguém esperava dele postura diferente daquela ditada pela vocação democrática que norteia o povo judeu.

Um terceiro e grave aspecto é a importação para o Brasil de um conflito que só faz reavivar as mal extintas brasas do ódio milenar e arquetípico contra os judeus. Logo nesse país solar, onde imigrantes de várias nacionalidades tiveram chance de prosperidade, logo aqui, onde nos orgulhamos do convívio pacífico entre religiões, logo aqui vemos reacender a chama do mal que julgávamos extinto.


O conflito na Faixa de Gaza tem servido para que antissemitas encontrem via livre para sua expressão, seguindo a trilha deixada por uma boiada de suposta “gente do bem” mas que não passa de ruminantes de um mesmo pasto preconceituoso, pouquíssimo cultivado e que mais e mais se distancia da paz.

01 de setembro de 2014 | N° 17909
L. F. VERISSIMO

Maravilha!

Pode-se parafrasear Winston Churchill e dizer da democracia o mesmo que se diz da velhice, que por mais lamentável que seja é melhor do que sua alternativa. A única alternativa para a velhice é a morte. Já as alternativas para a democracia são várias, uma pior do que a outra. É bom lembrá-las sempre, principalmente no horário político, quando sua irritação com a propaganda que atrasa a novela pode levá-lo a preferir outra coisa.

Resista. Engula sua impaciência com a retórica eleitoral que você sabe que é mentirosa, com o debate vazio, com os boatos maldosos e os golpes baixos, com o desfile de candidatos que variam do patético ao ridículo... Diante de tudo isso, em vez de “que chateação” pense “que maravilha!”. É a democracia em ação, com seus grotescos e tudo. Saboreie, saboreie.

O processo, incrivelmente, se autodepura, sobrevive aos seus absurdos e dá certo. Ou dá errado, mas pelo menos de erro em erro vamos ganhando a prática. Mesmo o que impacienta é aproveitável, e votos inconsequentes acabam consequentes. O Tiririca não sei, mas o Romário não deu um bom deputado? Vocações políticas às vezes aparecem em quem menos se espera.

E é melhor o cara poder dizer a bobagem que quiser na TV do que viver num país em que é obrigado a cuidar o que diz. Melhor ele pedir voto porque é torcedor do Flamengo ou bom filho do que ter sua perspectiva de vida decidida numa ordem do dia de quartel. Melhor você ser manipulado por marqueteiros políticos, com direito a desacreditá-los, do que pela propaganda oficial e incontestável de um poder ditatorial. Hoje os candidatos à Presidência medem suas ideias e diferenças livremente, e todos são iguais perante o William Bonner.

Certo, às vezes as alternativas para a democracia parecem tentadoras. Ah, bons tempos em que o colégio eleitoral era minimalista: tinha um eleitor só. O general na Presidência escolhia o general que o sucederia e ninguém pedia o nosso palpite. Era um processo rápido a ascético que não sujava as ruas. A escolha do poder nas monarquias absolutas também é simples e sumária, e o eleitor do rei também é um só, Deus, que também não se interessa pela nossa opinião.

Ou podemos nos imaginar na Roma de Cícero, governados por uma casta de nobres e filósofos, sem nenhuma obrigação cívica salvo a de aplaudi-los no fórum, só cuidando para não parecer ironia.


A democracia é melhor. Mesmo que, como no caso do Brasil das alianças esquisitas, os partidos coligados em disputa lembrem uma salada mista e ninguém saiba ao certo quem representa o quê. E onde, com o poder econômico mandando e desmandando, a atividade política termine parecendo apenas uma pantomima. Não importa, não deixa de ser – comparada com o que já foi – uma maravilha.

domingo, agosto 31, 2014


Entardecer de domingo

Em algum momento, em geral à tardinha, o domingo nos crava os dentes, sem morder…

Os domingos tem dentes. A expressão é da jornalista Eliane Brum em seu último e tocante livro Meus desacontecimentos (Ed. Leya). O significado dessas palavras qualquer um é capaz de sentir na própria carne. Há domingos que até passam suaves, despercebidos, encontram-nos distraídos. Mas em geral, em algum momento, principalmente à tardinha, o sétimo dia nos crava os dentes, sem morder, é só um aperto quase indolor. Acusamos o golpe discretamente, disfarçamos a instalação dessa farpa de medo que nos cutuca a cada passo, até adormecer.

Talvez sintamos assim porque certamente o fim de semana, mesmo que tenha sido maravilhoso, sempre deixa a desejar. Quem sabe porque temos medo das segundas feiras? Quando conseguimos desengatar da locomotiva dos deveres, duvidamos da nossa capacidade de reingressar nos trilhos. Por sorte, de perto o trabalho volta a parecer factível.

A engrenagem cotidiana nos embala numa fieira de dias que vamos vivendo sem pensar, adiará as esperanças de felicidade, que ficam adormecidas até a noite de sexta. O entardecer dos dias úteis desperta a expectativa de prazeres, da merecida recompensa.

A partir desse momento queremos apenas tudo: ficar junto com a família e os amigos, mas evitar compromissos sociais; amar e ser amados, mas não ter que pensar no outro o tempo todo; empanturrar-nos de comer, beber, passear, dançar, mas sem ressacas; dormir bastante e perder tempo, mas ganhar cultura; relaxar, mas organizar nossas coisas pessoais; jogar conversa fora mas ter diálogos transcendentes. Expectativas contraditórias entre si, conflitantes. No fim, a realização de alguns desses desejos acaba sendo pífia frente ao ressentimento pelos que foram preteridos. Um tempo grávido de promessas é condenado ao aborto dos ideais.

A forma como organizamos nosso ócio diz muito de nós, pois é o tempo que liberamos para realizar nossos desejos. Por isso, Eliane Brum tornou-se uma observadora de domingos: Acredito que não se pode conhecer uma pessoa, um grupo, uma aldeia ou um país sem habitá-lo por ao menos um domingo.

Na melancolia dominical, sentimento quase universal, fica provado que tempo livre é como mente vazia, oficina do diabo. As exigências dos desejos podem ser mais inclementes do que as do trabalho. A síntese deles costuma chamar-se de felicidade. Se por ela entendermos a saciedade plena estaremos condenados ao seu antônimo, a insatisfação, ou à sua ausência, a tristeza.

Nos sábados e domingos não temos obrigações: dia de lembrar que não há prescrição ou cota obrigatória de prazeres a serem vividos e ostentados. Felicidade, a possível, é discreta e nunca completa. Bom domingo!

Quanto você pagaria por um abraço de conchinha com George Clooney ou Scarlett Johansson?

Uma ex-personal trainer do Oregon cobra 60 dólares por hora


Renata Honorato - Divulgação/Cuddle Up To Me

Samantha Hess e um cliente durante uma sessão de abraço de conchinha em Portland, nos Estados Unidos (Divulgação/Cuddle Up To Me/VEJA)

Abraçar alguém é, à primeira vista, um ato de generosidade. Nos Estados Unidos, porém, há gente que faz disso um negócio. É o caso do site Cuddle Up To Me, de Samantha Hess, uma ex-personal trainer de 30 anos. Depois de sofrer com o fim de um namoro e assistir a um vídeo de um comediante vendendo abraços em uma praça, ela decidiu transformar calor humano em dinheiro. Deu certo. Ao oferecer "pacotes" de uma hora de abraço de conchinha (cuddle, em inglês, aliás) por 60 dólares, ela fatura mais de 7.000 dólares por mês — isso inclui abraços, treinamento para futuros "profissionais" e a venda de exemplares de seu livro. "É como manter um contato próximo com uma pessoa sem estar saindo com ela", diz.

Samantha afirma que a venda de abraço não tem conotação sexual. "Se alguém procura sexo ao contratar o Cuddle Up To Me, certamente ficará desapontado." Para evitar problemas, ela disponibiliza em seu site as "políticas de uso", normas que devem ser seguidas antes de fechar o negócio. Isso inclui regras de higiene. Samantha sempre pede aos seus clientes que escovem os dentes, tomem banho, lavem o cabelo, usem perfumes leves e, é claro, vistam roupas limpas antes de encontrá-la ou recebê-la em casa.

Os potenciais clientes também passam por uma entrevista prévia, por e-mail, e por uma pequena investigação, pela qual Samantha tenta afastar criminosos, por exemplo. Em seguida, ela marca uma conversa pessoalmente em algum lugar público. Se ambos se sentirem confortáveis, é marcado horário e local do grande dia. O abraço de conchinha pode acontecer na casa do cliente ou em um parque, por exemplo. Por ora, Samantha atende a clientela de Portland, cidade de Oregon, mas é possível fechar acordos especiais em outros Estados americanos.

Talvez Samantha não tivesse clientes entre brasileiros, pródigos na distribuição de beijos e abraços. Entre os americanos, contudo, os abraços são garantia de o que cliente é amado e aceito, aposta a "abraçadora". É comum, por exemplo, que deficientes físicos ou pessoas muito tímidas procurem seus serviços. "Eu gosto de chamar o meu serviço de massagem para a mente. Meu objetivo é fazer com que meus clientes se sintam parte da minha família e renovados após uma sessão", diz. Em tese, a terapia de Samantha não é reconhecida pela comunidade médica.

Outro americano, Steve Maher, de Los Angeles, oferece serviço similar: com ele, o abraço é premium. Ele é dono do site The Ecstatic Embrace, que cobra 120 dólares por uma sessão de 90 minutos. Do outro lado do planeta, no Japão, existem os chamados kyabakuras, estabelecimentos em que os clientes tomam drinks enquanto são mimados por garotas bonitas — relações sexuais são proibidas. Algumas histórias já chegaram ao cinema, com sexo. Em As Sessões, do diretor Ben Lewin, a personagem Cheryl Cohen Greene é uma "sexual surrogate", alguém que faz sexo com seus pacientes sem envolvimento romântico. O filme é inspirado em uma história real.

Na entrevista a seguir, Samantha Hess fala ao site de VEJA sobre o negócio do abraço de conchinha:

Vender abraços é uma atividade inusitada. Como descobriu esse nicho e decidiu transformar o abraço em negócio? Isso faz parte da minha personalidade. É uma maneira de manter contato físico com alguém mesmo sem me envolver emocionalmente com essa pessoa. Olhei ao meu redor, percebi que tinha muitos amigos, mas ainda assim sentia falta de alguma coisa. Um dia, vi um vídeo de um comediante que oferecia abraços por dois dólares em uma feira. Foi aí que pensei: "Eu posso fazer isso!" 

E as pessoas encaram com naturalidade a sua profissão? Algumas pessoas ficam curiosas sobre o meu trabalho, mas a maioria delas encara a ideia como um serviço real e disponível a todos. Entre meus clientes estão jovens, velhos, talentosos, altos, magros, baixos. Eles são operários, prestadores de serviços, CEOs, desempregados, homens e mulheres, gente de todo o tipo. Os mais jovens têm aproximadamente 20 anos e os mais velhos, 70 anos.

O que eles buscam ao contratá-la? Todos têm a necessidade de se sentir amados e aceitos. Eu ofereço um serviço totalmente voltado ao cliente, então eles não têm que se preocupar comigo. É diferente de um relacionamento, porque às vezes as pessoas não estão preparadas para sair com alguém. Os clientes só precisam aproveitar o momento (risos).

Quantas pessoas já contrataram seus serviços desde junho de 2013, quando você começou a trabalhar com isso? Já atendi centenas de pessoas.

Você ganha dinheiro suficiente para levar a vida somente abraçando pessoas? Essa é a minha única atividade e é com esse trabalho que levo a vida. Em abril, lancei um livro, Touch: The Power of Human Connection (Toque: o poder da conexão humana), que também rende alguma receita.

Divulgação/VEJALivro 'Touch: The Power of Human Connection'
Sobre o que fala o livro? Decidi escrever o livro porque recebo milhares de e-mails todas as semanas, especialmente quando apareço nas publicações aqui nos Estados Unidos.

Muitas pessoas queriam saber mais sobre a minha história e por que decidi trabalhar com isso. Meu livro aborda um pouco da psicologia por trás do toque, casos de pessoas que contrataram meus serviços, além de 19 dicas de posições que tornam o abraço mais confortável.

Algum cliente já achou que você fosse uma garota de programa? Há algumas regras de segurança que devem ser seguidas. Antes de fechar um contrato, a pessoa entra em contato comigo e trocamos alguns e-mails. No meu site há regras que qualquer pessoa pode baixar e ler. Depois, agendamos um encontro em um lugar público para que eu possa entender por que a pessoa deseja contratar meus serviços. A ideia é identificar qualquer sinal de alerta.

Se a pessoa estiver em busca de serviços sexuais, ela certamente não ficará contente com a minha proposta. Se tudo der certo, o contrato é assinado e então eu peço uma cópia de um documento de identificação. Todas as informações, além do local do encontro para a sessão, são encaminhadas para uma terceira pessoa. Trata-se de uma forma de zelar pela minha segurança. 

Você toma algum cuidado adicional? Fiz aulas de defesa pessoal. Também carrego comigo uma arma não letal.

Você mora em Portland. Existem planos de oferecer seus serviços em outras cidades? Abrimos uma loja física em Portland para que as pessoas conheçam o serviço. Nesse espaço oferecemos um programa de treinamento de 40 horas para interessados em aprender as técnicas do abraço. A ideia é criar centros de treinamento em diferentes países e abrir "lojas" em todo o mundo.


O que é ensinado nesse curso? Você é a professora? Eu sou a professora. Ensinamos técnicas de como tocar outra pessoa e quais as melhores posições para o abraço. Também temos aulas de marketing, desenvolvimento web e todo e qualquer assunto relacionado ao negócio.
RENATA AGOSTINI - FLÁVIA FOREQUE - JOHANNA NUBLAT DE BRASÍLIA

Cursos-relâmpago inflam vitrine eleitoral de Dilma

Matrículas para formar técnicos com diploma são só 28% de programa exaltado para suprir empresas e indústrias

Há mais alunos para ter noções de manicure (2 a 4 meses) do que para ser técnico em mecânica (1 a 3 anos)

Alardeada pela campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) como "o maior programa profissionalizante do mundo", a iniciativa federal para formar técnicos e melhorar a qualificação do trabalhador vem sendo impulsionada por inscrições em cursos rápidos, como de vendedor, recepcionista e manicure.

Segundo levantamento inédito do Ministério da Educação, feito a pedido da Folha, o programa tem atraído menos interessados em cursos verdadeiramente técnicos, como de enfermagem, eletrotécnica e mecânica.

Quando lançou o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), em 2011, o governo já previa uma maior procura pelos cursos que duram de dois a quatro meses. Na campanha, porém, Dilma tem ignorado essa distinção ao entoar dados da iniciativa ao eleitor.

"No que se refere à educação considero que tivemos um grande salto. Vou citar o Pronatec: 8 milhões de jovens e adultos com acesso ao ensino técnico", afirmou durante o primeiro debate entre candidatos à Presidência, promovido pela Band.

Os cursos mais céleres e simples, chamados de Formação Inicial e Continuada, são o que garantirão a Dilma Rousseff alcançar neste ano a meta de 8 milhões de matrículas no Pronatec.

A formação técnica, que é o principal objetivo do programa, representou apenas 28% das matrículas registrada até o final de julho.

Os cursos técnicos têm duração mínima de um ano e há casos que chegam a três anos. Podem ser feitos enquanto o jovem cursa o ensino médio ou após formar-se na escola.

São cursos práticos voltados para o mercado de trabalho e dão direito a um diploma em sua conclusão.

Já os de formação inicial e continuada, com duração média de três meses, têm exigência de escolaridade mais baixa e servem para dar noções básicas sobre uma função ou aperfeiçoar o conhecimento do aluno que deseja reingressar no mercado de trabalho. Não há diploma, apenas um certificado de participação.

No total, os dez cursos de Formação Inicial e Continuada mais procurados receberam 890 mil matrículas. Já os dez cursos técnicos mais populares tiveram 390 mil.

Dilma sempre fez questão de pontuar que o mote do Pronatec era a formação de técnicos capazes de suprir a demanda das empresas e das indústrias brasileiras.

"Com o Pronatec, queremos que o país, cada vez mais, tenha uma geração de jovens com formação técnica de qualidade, capazes de melhorar nossos produtos e serviços", disse em outubro de 2012 no programa de rádio "Café com a Presidenta".

Desde o ano passado, o governo tem intensificado a propaganda do Pronatec. Em 2013, ele foi de longe a iniciativa com a qual o Ministério da Educação mais gastou em publicidade --R$ 15,7 milhões, mais da metade do aplicado pela pasta em propaganda.


Que loucura isso! mais de quinze milhões gastos com propaganda. Quantas escolas poderiam ser construídas..Quantos postos de saúde..? Cadê a gestão dos recursos públicos...E fica assim..Cadê nosso TCU?
IVAN MARTINS
27/08/2014 10h27 - Atualizado em 27/08/2014 10h48

Desilusão

Às vezes é preciso uma bofetada que – pleft! – nos devolva de volta à vida

Desilusão é uma experiência terrível. Num momento qualquer, você está cheio de esperança. No outro, seu mundo veio abaixo. Como uma repentina bofetada, a desilusão machuca, desnorteia e humilha. É o evento dramático que, na vida amorosa, separa a realidade do sonho, os homens dos meninos e os tolos dos sábios. A desilusão é nosso diploma. Quem não passou por ela é um inocente. Ainda não sabe de nada.

Você, apaixonado, sugere à namorada que talvez seja hora de fazer planos e morar juntos. Ela responde, cheia de dedos, que talvez não esteja assim tão envolvida com você. Pleft!

Encantada com o sujeito, você pergunta, toda bonitinha, se o que rola entre vocês é um namoro – e ele diz, sem hesitar, que também sai com outra garota e não quer compromisso. Pleft!

Depois de cinco anos de casamento, as coisas esfriaram ao ponto de congelamento. Você tem esperança e propõe uma segunda lua de mel – então seu marido conta que tem saído com uma colega, que está apaixonado e vinha se preparando para contar que pretende morar com ela. Pleft!

Com essas histórias, quero dizer, ao contrário das lamúrias frequentes, que desilusão é bom. Quem nos desilude nos abre os olhos e nos descortina o mundo verdadeiro. Por isso, nos presta um grande serviço.

O iludido acredita, essencialmente, que o outro sente por ele o mesmo que ele sente pelo outro. Vive a fantasia de ser amado ou, pelo menos, tem esperança de um dia ser correspondido. É um sonhador que pode passar anos caminhando no interior do seu sonho, vendo apenas o que deseja ver. A desilusão é o despertar. Deveria ser saudada como libertação, mas costuma ser recebida com ressentimento. A pena de si mesmo é maior que a gratidão.

Na verdade, o inimigo é quem nos ilude. Faz mal aquele que, por fraqueza ou piedade – muitas vezes por vaidade – alimenta nossos sentimentos infundados. Quem nos olha nos olhos e diz a verdade merece nosso respeito. Demonstra respeito por nós, ainda que nos magoe.

A verdade, é importante que se diga, nem sempre é nítida. Quando se trata de afeto, somos criaturas confusas, habitadas por dúvidas e contradições. Por isso, mais importante que aquilo ouvimos é o que vemos. Mais importante que sentimentos, são ações. Se o sujeito parece ter por você o maior carinho, mas é sua amiga que ele chama para sair, parece que é da amiga que ele gosta – embora talvez nem saiba. As decisões dele contam tudo que você precisa saber, desde que você as conheça. Quem diz o que sente, mas esconde o que faz, ilude.
Eis uma boa máxima: não me diga o que você sente, me conte o que você faz.

Da minha parte, tendo vivido ilusões e desilusões, prefiro as últimas. Elas me salvaram de vexames profundos, me tiraram de enganos demorados, me abriram portas que eu desconhecia e me puseram no caminho certo. Tem sido assim com todos que eu conheço. Os mais tristes, os mais dignos de piedade, são os que se agarram a ilusões que todos em volta reconhecem, menos eles. A esses faz falta uma desilusão. Uma boa bofetada – pleft! – que os devolva de volta à vida.

Ivan Martins
ELIANE CANTANHÊDE

A derrota de Dilma

BRASÍLIA - Ganhe ou perca a reeleição, Dilma Rousseff não escapa mais de uma derrota no seu primeiro mandato: na economia. Não foi por falta de aviso. Até Lula alertou.

Enquanto Dilma usa a propaganda de TV, debates e entrevistas para falar de programas pontuais, como o Pronatec, que qualquer gerente faz, a economia brasileira continua dando uma notícia ruim atrás da outra.

O desafio da oposição não é bater na tecla de PIB, controle fiscal e contas externas (a maioria das pessoas nem sabe o que é isso), mas ensinar que não se trata só de números nem atinge só o "mercado" e a "elite". Afeta o desenvolvimento, a indústria, os investimentos, a competitividade e, portanto, a vida de todo mundo e o futuro do Brasil.

O super Guido Mantega, que sempre prevê PIBs estratosféricos e acaba se esborrachando com os resultados, conseguiu adicionar uma pitada de ridículo nas novas notícias ruins. Na quinta (28), ele disse que os adversários de Dilma levariam o país "à recessão". Na sexta (29), o governo anunciou que o risco já chegou: o recuo da atividade econômica pelo segundo trimestre consecutivo caracteriza... "recessão técnica". Ou "herança maldita", segundo Aécio. Não há Pronatec que dê jeito...

Para piorar as coisas, vamos ao resultado fiscal anunciado na mesma sexta: o governo federal (Tesouro, BC e INSS) teve o maior rombo do mês de julho desde 1997. A presidente candidata anda gastando muito.

Passado o trauma da morte de Eduardo Campos e assimilada a chegada triunfal de Marina Silva, a economia retoma o centro do debate eleitoral. Não há uma crise, mas há má gestão. Como Campos dizia, Dilma é "a primeira presidente a entregar o país pior do que encontrou".


Dilma e Mantega culpam o cenário internacional. Marina, rumo à vitória, e Aécio dizem que não é bem assim e apontam quem vai arranhar o joelho, cortar o cotovelo e talvez machucar a cabeça se a economia for ladeira abaixo. O eleitor, claro.

sábado, agosto 30, 2014


31 de agosto de 2014 | N° 17908
MARTHA MEDEIROS

Histórias de amor

Você vive um amor ou uma história de amor?

Tem diferença, sim. Um amor é a realização plena de um sentimento recíproco. Passa por alguns ajustes, negociações, mas desliza. Pode perder velocidade aqui, ganhar ali, mas não é interrompido pelas dúvidas, não permite a entrada de terceiros, tem a consistência das coisas íntegras, duráveis. O amor, amor mesmo, é uma sorte que se honra, uma escolha em que se aposta diariamente, o amor é algo que nasce e frutifica.

Já uma história de amor é, como diz o termo, uma invenção. Algo para ser contado ao analista, desabafado para os amigos, uma narrativa chorosa e trágica, um acontecimento beirando o folclórico, um material bruto pedindo para ser transformado em obra de arte. Toda história de amor está impregnada de obstáculos que lhe conferem um status de ficção.

Amor proibido pela família, rejeitado pela sociedade, condenado por preconceitos, amor que exige fugir de casa, pegar em armas, trocar de identidade: virou história de amor. Perde-se um tempo enorme roteirizando o dia seguinte. Se fosse amor, simplesmente amor, o dia seguinte amanheceria pronto.

Amor que coleciona mais brigas que beijos, mais discussões que declarações, mais rendições que entrega: virou história de amor. Pode subir aos palcos, transformar-se em filme, faturar na bilheteria: tem enredo. Mas não tem continuidade. Sai de cartaz rapidinho.

Amor que sobrevive à distância, que se mantém através de cartas e telefonemas (permita-me a nostalgia, sobreviver pelo whattsapp não combina com literatura), o amor sem parceria, sem corpo presente, o amor que não se pratica, que não se lubrifica, que enferruja por falta de uso: virou história de amor. Sofrido como pedem os poemas, glorificado pela vitimização, até o dia em que a ausência do outro deixa de ser um ingrediente pitoresco e você descobre que cansou de dormir sozinha.

Amor que exige insistência, persistência, paciência: virou história de amor. Se fosse amor, nada além de amor, navegaria em águas mais tranquilas, não exigiria tanto de seus protagonistas, o entendimento seria instantâneo, sem exagero de empenho, desgaste, sofrimento. Aff. Histórias de amor são fantásticas na primeira parte, tiram o ar, movimentam a vida, mas da segunda parte em diante viram teimosia dos autores, que relutam em colocar o ponto final na saga que eles próprios criaram.

Amor ou história de amor, o que se prefere?


Aventureiros, notívagos, hereges, rabugentos, sedutores, inquietos, fetichistas, insaciáveis, pecadores, estrangeiros, narcisistas, intrépidos, dramáticos, agradecemos cada verso e cada noite mal dormida que vocês deixaram de lembrança, mas um dia a gente cresce e a fantasia cede lugar à sensatez: um amor está de bom tamanho.

31 de agosto de 2014 | N° 17908
FABRÍCIO CARPINEJAR

O enigma da bolsa das mulheres

Homem carregando bolsa de mulher é cavalheirismo ou o cúmulo da submissão? 

Eu fico sempre baratinado. Costumo carregar a bolsa de minha esposa no shopping quando leva minha carteira e algum livro. Eu me vejo culpado pelo peso extra.

Mesmo quando não sou beneficiado diretamente, bate uma compaixão em vê-la se esforçar com os ombros. Ela trocará de braço a cada dois quilômetros na esteira das lojas.

Toda bolsa de mulher é uma mala sem rodinhas. Mas tampouco entendo por que ela não faz uma limpeza pontual para aliviar o chumbo.

Não tem sentido dispor de um secador de cabelos, por exemplo, naquele passeio. Ou tem? Ou ela acredita que será disparado um alarme de incêndio acionando as mangueiras do teto em nossa cabeça? Será que ela pensa nisso (é de dar medo se prevê a vida com tanto engenho e longevidade)?

Não custaria nada, antes de sair, eliminar o que não é essencial. E não é que ela esqueceu o que havia dentro da bolsa, mulher somente faz faxina na bolsa quando adquire uma bolsa nova.

Enquanto usa, acumula o mundo em suas profundezas de couro. É sua impressora 3D, imprime objetos na hora. Não acho correto o trabalho masculino, pois ela poderia ter sido mais econômica. Deveria aprender a lição arcando com as consequências.

Até porque o homem que aceita transportar a bolsa da mulher não será valorizado por nenhuma estranha no caminho. É muita submissão. Ele se apagará para ser um caddie – carregador de tacos de golfe.

Ninguém repara no caddie, apenas no golfista. O caddie desaparece nas corcovas do gramado.

Além da invisibilidade imediata para a concorrência, não nos vestimos para combinar com a bolsa dela. De repente, estaremos de azul marinho com uma bolsa marrom. É o fim da harmonia. Então, teríamos que mergulhar de vez na vassalagem e perguntar para a mulher qual bolsa pretende colocar para definirmos nosso figurino.

– Amor, tenho que me vestir, já escolheu a bolsa?

E também não é justo carregar algo em que não poderemos mexer. Jamais deixará que a gente pegue coisa alguma de dentro do seu conteúdo. Somos menores de idade diante de qualquer bolsa feminina.

Vejo que não permite a ação de nossa curiosidade para evitar o estresse dos interrogatórios. Questionaremos o motivo de ela estar com metade das tralhas. A conversa não desembocaria em nenhum acordo. O que é dispensável para o homem é fundamental para a mulher.

Entro em parafuso se é correto ou não fazer esta gentileza. Seremos favorecidos, por outro lado, com o acervo surpreendente. A bolsa é um pequeno ambulatório, é um toalete ambulante, é uma oficina de costura.

Sem papel higiênico no banheiro, onde encontrará um rolo salvador? Na bolsa dela!Na primeira pontada de uma enxaqueca, onde encontrará o medicamento redentor? Na bolsa dela!

Descosturou a camisa, onde achará linha e agulha? Na bolsa dela!Somando os prós e os contras, o problema existencial resultará num empate.


Como voto de minerva, sugiro não carregar a bolsa, porém realizar um curso de massagem para aliviar as dores nas costas de sua esposa.

31 de agosto de 2014 | N° 17908
 ISMAEL CANEPPELE

Redução da maioridade penal: um tiro no pé

Não é pouco o debate em torno da redução da maioridade penal, principalmente em época de eleições. Munidos da certeza de que penalizando o menor infrator boa parte da complexa problemática em torno da segurança pública estará resolvida, certos políticos prometem lutar com unhas e dentes pelo cidadão de bem, refém desses delinquentes beneficiados por uma legislação omissa. Mas é importante estar atento aos números. Afinal de contas, você já se perguntou, qual o percentual de homicídios cometidos por adolescentes no Brasil?

Segundo estimativas da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (Senasp), apenas 0,5% dos crimes envolvendo morte são cometidos por menores de idade. Somando-se todos os crimes, incluindo homicídio, furto, roubo e tráfico de drogas, o índice de participação de adolescentes sobe para 0,9%, no Brasil. De todos os adolescentes cumprindo pena em instituições assistenciais, 43,7% respondem a crimes por furto e roubo, e 26%, por crimes relacionados ao tráfico.

Importante também levar em consideração que a maioridade penal aos 18 anos é cláusula pétrea na legislação. Diminuir essa maioridade exigiria uma nova Constituição ou uma revisão constitucional ampla. Isso significa que, sempre que um candidato prometer lutar pela redução da maioridade penal para os 16 anos, essa luta exigirá um esforço homérico. Em curtas palavras, trata-se de uma promessa praticamente impossível de ser cumprida.

Nesse contexto, o pensamento do Ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, acrescenta bastante ao debate: “Nossos presídios são verdadeiras escolas de criminalidade. Muitas vezes, pessoas entram na prisão por terem cometido delitos de pequeno potencial ofensivo e, pelas condições carcerárias, acabam ingressando em grandes organizações criminosas. Porque, para sobreviver no cárcere, é preciso entrar para o crime organizado.

Reduzir a maioridade penal significa negar a possibilidade de dar um tratamento melhor para um adolescente. Boa parte da violência no Brasil, hoje, tem a ver com essas organizações que comandam o crime de dentro dos presídios. Quem não quer perceber isso é alienado da realidade. Criar condições para que o jovem vá para esses locais, independentemente do delito cometido, é favorecer o crescimento dessa criminalidade e dessas organizações. É uma política equivocada e que trará efeitos colaterais gravíssimos”.

A Fundação Casa, de São Paulo, apresenta dados ainda mais contundentes, mostrando que 41,8% do total de jovens infratores cometem crimes ligados ao tráfico. Esses dados comprovam que a ampla maioria dos adolescentes que seriam encarcerados não estaria presa por atentado à vida, mas por roubo e envolvimento com o comércio de drogas. Frente a essa problemática, o senador gaúcho Paulo Paim apresenta um pensamento interessante. Segundo ele, deve-se dobrar ou triplicar a pena de adultos que jogam no jovem menor a responsabilidade por um crime. Esse pensamento dá continuidade a um projeto já apresentado pelo então senador Aloísio Mercadante, e que hoje se encontra parado nas comissões.


Em época de eleições, em que a maioria dos candidatos parece possuir a fórmula mágica para complexos problemas sociais, é importante estar atento aos números que configuram realidade. Do contrário, entregaremos importantes comandos do país, não a quem elaborar um projeto viável de governo, mas uma promessa milagrosa de campanha.

31 de agosto de 2014 | N° 17908
ANTONIO PRATA

Dupla personalidade

Eu descobri, doutor, eu entendi finalmente por que que os meus namoros não dão certo, o problema... O problema é que eu e o meu pinto não temos a mesma formação. Não, muito pelo contrário, são duas visões de mundo radicalmente diferentes. Eu sou professor universitário, sou fã do Truffaut, eu voto no PSOL, já o meu pinto... Ele gosta de umas mulheres de argolão dourado, salto alto e muito perfume. Umas mulheres que eu não consigo aguentar por três meses e que me acham um mala, também. Eu sou de esquerda, doutor, mas o meu pinto é de direita.

É como se, tipo, todo dia, durante a infância e a adolescência, antes de eu pegar a perua e ir pra Waldorf, a escola antroposófica que eu estudei, meu pinto tivesse sido desatarraxado de mim, tivesse entrado em outra perua escolar, tipo uma peruazinha de controle remoto, só pra pintos, e ido estudar no Dante, no Bandeirantes ou, sei lá, no Santo Américo. Só pode ser, doutor. Senão, como é que explica?

Pra você ver como a gente é diferente: um dia, se eu tiver uma filha, eu quero que ela chame Luiza, em homenagem ao Tom. Mas as mulheres que o meu pinto escolhe são todas Waleskas ou Jéssicas ou Tábathas, dessas com agá no segundo T. É no segundo T, o agá de Tábatha? Ou é no primeiro? Não sei. O meu pinto sabe, com certeza, mas adianta perguntar pra ele? Ele não me ouve. Quantas vezes eu já não apresentei mulheres pra ele, mulheres bacanas, eu disse, amigão, essa é pra casar, pra ter uma filha chamada Luiza, pra comprar o pacote completo da Mostra e ir até na animação muda do Uzbequistão, domingo de manhã, mas ele se finge de morto, nem tchuns. Aí eu vou no shopping trocar um presente que eu ganhei de aniversário, chega a vendedora de unha vermelha, rabão de cavalo loiro, diz, “bom dia, eu sou a Kátia, posso tá te ajudando?” e pronto, ele parece um cachorrinho quando os donos voltam de viagem.


Eu tava pensando: e se a gente tentasse uma terapia de grupo, eu e ele? Ou melhor, uma terapia familiar. É, porque às vezes eu acho que esse negócio de ele querer me contradizer em tudo é uma fase de negação, tipo um complexo de Édipo, se a gente pensar que eu sou o pai do meu pinto e que, tipo, ele precisa me matar pra achar a individualidade dele. Será que é isso? Não, não pode ser fase: eu tô com trinta e cinco e ele é assim desde a adolescência, não vai mudar.

Quem eu tô querendo enganar, doutor? O erro foi meu, claro. Fui eu que eduquei o meu pinto e eu sei o que ele leu na juventude. Leu Playboy e Sexy e Penthouse. E como eram as mulheres na Playboy, na Sexy e na Penthouse? Tinham cara de quem quer ter uma filha chamada Luiza em homenagem ao Tom e ir na Mostra ver animação muda do Uzbequistão? Não, eram todas loiras platinadas, com unha vermelha e rabão de cavalo, tinham cara é de quem quer ir pra Vegas andar de conversível vermelho. Vegas, doutor! Conversível! Eu voto no PSOL!

Todo dia eu vou pra faculdade pela ciclovia e todo dia o meu pinto quase me faz cair da bicicleta, porque ele tira a minha atenção do caminho e me obriga a olhar as mulheres dentro dos SUVs, na rua. Aquelas mulheres pequenininhas dentro daqueles carrões enormes, tem alguma coisa ali... Ele pira.


É grave, doutor?

31 de agosto de 2014 | N° 17908
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

O MAC MACIO, O JAZZ LEVE E O RAP DURO

Bateu-me uma saudade trepidante do sabor da comida brasileira, então peguei o B pela mão, tomamos um trem e fomos ao McDonald’s mais próximo.

Ah, a textura macia daquele Big Mac fez com que me sentisse de novo na pátria amada idolatrada salve salve. Sim, porque comer McDonald’s, só no Brasil. Aqui, você não vai acreditar, mas é verdade, aqui é difícil de encontrar um. Por Deus. Você tem de se programar: vou lá num McDonald’s. E, como não sou muito de sanduíche e menos ainda de lanchonetes, jamais vou a um McDonald’s.

Nos Estados Unidos, imagine.

Nunca pensei.

O que tem, quase que em cada esquina, é Dunkin’ Donuts, que é empresa daqui, do nordeste americano, e seu furioso concorrente, o Starbucks. Li esses dias que o Dunkin’ Donuts está tentando abrir filiais na Califórnia, onde reina absoluto o Starbucks. Quer dizer: vão brigar no país inteiro. Na Nova Inglaterra, já é raro caminhar duas ou três quadras sem pechar num Dunkin’ Donuts, tendo em frente um Starbucks a desafiá-lo. De manhã cedo, você pode ver uma fila de americanos no Dunkin’. Eles pegam um donuts, um copo gigante de café e saem caminhando e comendo.

O B está viciado em Donuts. Preocupante.

Mas comemos os nossos muito mais saudáveis e brasileiríssimos Macs e tocamos até o centro de Boston. Eu queria ir a uma igreja do século 17, a Old South Church, porque lá há um exemplar do primeiro livro impresso nos Estados Unidos, um livro de salmos que os puritanos traduziram diretamente do hebraico e publicaram em Cambridge em 1640. Cambridge é uma das localidades da Grande Boston. É onde fica a maior parte do campus da Harvard e, igualmente importante, onde há bons restaurantes portugueses, que os prefiro às lanchonetes.

A Old South Church foi plantada bem no coração pulsante de Boston. Entrei na igreja e, antes de perguntar pelo livro, fui atraído por algo que acontecia numa capela: um culto com jazz. Era um grupo de jazz com todos os instrumentos, piano, bateria e tudo mais, e cantores que enchiam a capela com sua voz. Eu e o B paramos para ver. Um sujeito nos apontou gentilmente para duas cadeiras vazias, mas preferimos permanecer de pé, ouvindo. E foi encantador. Por pouco não me torno membro da congregação.

Saímos da igreja enlevados, flutuando, até esqueci do livro. Então, percebi que, do outro lado da avenida, na praça, havia um show.

– Vamos lá, B?

Fomos. Atravessamos a rua. Em volta da praça, barraquinhas vendiam comida, havia inclusive uma do Dunkin’ Donuts, o que não me surpreendeu. No centro, na grama, as pessoas se espalhavam, muito descontraídas, as mulheres com shorts mínimos, algumas deitadas em toalhas, outras de pé, ondulando ao ritmo da música. Lá na frente, diante de um palco, um grande grupo pulava de braços erguidos. Sobre o palco, uma banda tocava rap. Levei o B pela mão até o meio da praça. Ficamos observando. Olhei para ele:

– Que tal, B?

Ele fez uma cara de quem engoliu o dente de leite e suspirou:

– É a pior música que já ouvi na minha vida.

Pisquei. Pensei por um momento. E tirei-o de lá, procurando por um bar que tocasse blues. Nada como o bom blues para comover crianças na primeira infância.

A LIBERDADE DOS GANSOS

Chegamos, eu e o B, a um parque cheio de gansos. Ou seriam patos? Não sou bom em aves. Invejo aquelas pessoas que, ao ouvir um piado, esticam a orelha e dizem:

– Que lindo o canto do curió...

Os passarinhos que consigo identificar são o pardal, o quero-quero, o tucano e o canarinho – fui dono de alguns canarinhos de lindo repertório. O papagaio também sei quem é, embora ele seja muito parecido com as araras várias. Minha avó criou galinha, peru e eu mesmo tive um galo, o Alfredo, de trágico fim. Mas confesso, cheio de vergonha, que confundo patos e gansos. Não deveria. Os gansos têm sua importância na história da Humanidade, os que moravam no Capitólio já salvaram Roma dos bárbaros. E os patos estão na minha memória afetiva: o Tio Patinhas, o Donald, o Peninha, o Patacôncio...

Então, deveria saber bem quem é um e quem é outro, e não sei. De qualquer forma, o que interessa é que aquele parque é habitado por dezenas de gansos (ou patos), que andam livres por lá. Dezenas! Ficam caminhando pela grama, soltos, podendo a todo instante cruzar a avenida movimentada. Perguntei a um americano quem cuida deles. O americano achou graça na minha pergunta. Eles cuidam de si próprios, respondeu.

Não sabia que gansos podiam usufruir de tanta independência, assim, no meio da urbe fremente, sem colocar em risco sua integridade física ou atacar transeuntes a bicadas. Estou mais acostumado a vê-los a certa distância, nadando nos laguinhos plácidos, como os de Gramado.


Ou aqueles lá são cisnes? Maldita ignorância aviária.

31 de agosto de 2014 | N° 17908
L. F. VERISSIMO

Álgebra e fogo

Na recente comemoração do centenário de nascimento do Julio Cortázar, escreveu-se muito sobre metalinguagem, que ele usou em alguns dos seus textos mais conhecidos, como O Jogo da Amarelinha, que eram para ser lidos como jogos de armar. Cortázar seria um pioneiro do pós-modernismo, definido como uma literatura autoconsciente ao extremo, uma literatura com os andaimes à mostra, que convida o leitor a ser cúmplice dos seus artifícios.

Italo Calvino descreveu o pós-modernismo como “a tendência de usar, ironicamente, imagens padronizadas da cultura de massa, ou injetar o fascínio herdado da tradição literária numa narrativa que acentua o seu artificialismo”. Segundo essa definição, o pós-moderno é a continuação do moderno como paródia, jogo ou desmistificação.

Mas você pode, com alguma boa vontade, identificar o início do pós-moderno no pré-moderno, ou no próprio nascimento da tradição literária de que fala Calvino: o Dom Quixote, de Cervantes, que já era na sua origem, no começo do século 17, uma literatura autoconsciente e parodística.

A segunda parte de Dom Quixote acontece num mundo em que já aconteceu a primeira parte, e o Quixote e suas aventuras malucas são conhecidas. Cervantes incorpora sua fantasia e seu personagem fictício à realidade do dia, confiando na indulgência do leitor com o truque – e pode dizer, antes de todos os pós-modernistas que virão: “Primeirão!”.

O livro mais revolucionário da história da Literatura, o Jogo da Amarelinha do seu tempo, se chama A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, do irlandês Laurence Sterne. Foi publicado em nove volumes – começando em 1760! É a história, contada na primeira pessoa, de um personagem rocambolesco, Tristram, que recorre a todas as convenções literárias da época, fazendo pouco delas, para narrar sua vida, e quando as convenções e as palavras não bastam, recorre a grafismos (como o desenho no meio do texto de uma linha em espiral para descrever o movimento de uma bengala no ar) que devem ter sido um desafio para os tipógrafos de então. Sterne foi outro pós-moderno antes do moderno.

O americano John Barth, este um pós-moderno de hoje, escreveu sobre dois pós-modernos contemporâneos que admira, Calvino e Jorge Luis Borges, e tomou emprestada de Borges uma definição de dois valores que, combinados, descrevem a arte da dupla, Álgebra e Fogo. Álgebra significando a engenhosidade formal de uma obra, o truque que surpreende ou desafia o leitor, e fogo o que o comove.


Álgebra sem fogo acaba em malabarismo técnico sem alma, fogo sem álgebra acaba em literatura enjoativa, porque alma demais também enjoa. Para Barth, Calvino e Borges são os dois grandes escritores do nosso tempo porque, na sua ficção, atingiram como ninguém mais a fusão de álgebra e fogo. Barth descreve o que eles fazem – ou fizeram, pois já se foram – como “virtuosismo passional”. Perfeito.

RUTH DE AQUINO
29/08/2014 21h07

Transmarina e a “zelite”

Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

"O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate  da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.
Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.


Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.