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sábado, agosto 01, 2015



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
MARTHA MEDEIROS

O primeiro beijo


Se antes as vozes eram graves, suavizam. Se antes havia cerimônia, ela se desfaz assim que os lábios se desgrudam.

Para quem tem Woody Allen como ícone, é imperdível o documentário sobre sua vida e obra. Não sei se ainda está em cartaz quando fui ao cinema, havia menos de 10 pessoas na plateia, não é exatamente um blockbuster. 

Durante o apanhado que o filme faz da carreira deste cineasta singular, aparece uma cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que considero genial: o cara convida a personagem de Dianne Keaton para ir ao cinema e depois, ao saírem caminhando pela calçada, em meio ao papo, ele estanca de repente e diz a ela: Que tal se a gente se beijasse de uma vez para terminar com essa tensão e irmos comer alguma coisa?. Ela concorda, ele a beija por dois segundos e então voltam a caminhar e a dar prosseguimento à conversa do ponto onde haviam parado. Simples assim.

Se a cena parece boba, não é. É mais um acerto do olhar afiadíssimo do diretor para os detalhes que fazem das relações humanas o que elas são: um universo repleto de peculiaridades. O que pode ser mais potente do que um primeiro beijo? Pense. Vocês dois estão ali conversando, ou bebendo, ou dançando, ou fazendo qualquer outra coisa prosaica. Já há um clima no ar, mas ninguém confirma, pode ser apenas um delírio de uma das partes. Nada parece estar acontecendo, mas se estiver acontecendo de fato, só passará a valer a partir do primeiro beijo. Antes dele, era uma coisa. Depois dele, well...

O primeiro beijo transfigura a ação. Se antes as vozes eram graves, suavizam. Se antes havia cerimônia, ela se desfaz assim que os lábios se desgrudam. Se antes eram apenas bons amigos, agora se instalou a indefinição. O primeiro beijo remete a uma nova fase, a um novo feitio de relacionamento – ou acaba tudo, porque tem isso também: pode ser uma decepção e a fantasia terminar ali mesmo. Mas é raro: o primeiro beijo dificilmente age como finalizador. O mais comum é o primeiro beijo ser inaugural.

O primeiro beijo acaba com a tensão e traz de volta à cena essa mesma palavra, só que com o “n” a menos. O primeiro beijo traz a promessa de um segundo beijo, um terceiro, um quarto – principalmente um quarto.

O primeiro beijo faz valer a escova no salão, a depilação em dia, o Trident mascado momentos antes.

O primeiro beijo, se for muito ruim, ao menos aconteceu. Fim de estresse. Ninguém espera mais nada e a noite não foi totalmente perdida, ao menos ficaram esclarecidas as possibilidades (ou impossibilidades) de futuro.

Mas se for muito bom, pode levar você às nuvens ou até mesmo a lugares mais arriscados, como a um altar.

Em tempos de pegação em que não existe amanhã, pode parecer que escrevi esse texto sob efeito de um alucinógeno, mas quem acredita que o romantismo ainda sobrevive, mesmo respirando por aparelhos, vai entender. E lembrar.


02 de agosto de 2015 | N° 18245 
CARPINEJAR

Ratoeira do relacionamento


Se você dedicar seu mundo inteiro a uma pessoa, a entrega poderá ser vista como submissão. Você que está mergulhado no amor não percebe. Para você, é somente amor. Não representa obediência, escravidão, bajulação.

Não mede esforços para agradar sua companhia, para atendê-la, para fazê-la feliz.

É capaz de se endividar em segredo para corresponder suas expectativas. É capaz de omitir suas vontades para privilegiar os desejos dela. É capaz de não respirar alto dentro de casa para não atrapalhar.

Ela sabe que você é todo dela – eis o problema que também deveria ser a solução (afinal, ser todo de alguém é a premissa do amor).

Mas o alimento é a isca do veneno e você foi fisgado pela ratoeira do relacionamento: emparedado, encurralado, dependente, viciado, sem anticorpos, sem imunidade, sem defesa, preso em sua idealização.

Já se declarou ao extremo, eliminou qualquer incerteza de seu coração, assinou o atestado de óbito da solteirice. Sua doação não impõe mais desafio, não exige a reconquista de outra parte.

Está soterrado pela própria generosidade. De tanto dar, banalizou seu valor. Sua existência ficou barata. É um precatório a perder de vista.

Diante da exposição absoluta dos sentimentos, não é de duvidar que ela esnobe suas ações, conte que você come nas mãos dela, menospreze suas inúmeras gentilezas e deboche de suas constantes delicadezas.

Tornou-se inofensivo e previsível. Assumiu o risco de ser idiota e ingênuo, fragilizado em suas conexões com os amigos e familiares, absolutamente constrangidos com sua mendicância afetiva.

Atravessa um dilema sem saída. Ela jamais entenderá o peso de suas decisões, pois não mostrou seu sacrifício dia a dia, quis fingir uma naturalidade dos presentes, mimou e escondeu o trabalho por detrás de cada gesto, apresentou uma facilidade que não existia. 

Assim como pode tentar efetuar uma reprise de suas realizações dentro do namoro, apresentar os investimentos feitos, justificar sua abnegação, só que será inútil, não há estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de estorno da espontaneidade, ela dirá que você está jogando na cara o que ofereceu de graça, que vem cobrando os juros de sua falsa bondade.

Esta é a parada mais dura do romance, não vejo conserto da situação.

Ou está numa relação em que os dois entregam tudo ou tudo o que entrega será sempre nada.



2 de agosto de 2015 | N° 18245 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Às Altas Autoridades

Num sensacional monólogo de (e por) Alberto Muñoz que o Em Cena trouxe a Porto Alegre uns anos atrás, havia um bordão engraçado que falava nas “altas autoridades”. Quando as mencionava, o ator fazia um gesto de reverência que ao mesmo tempo só podia ser entendido com discreta ironia. (Na pronúncia brasileira, ainda tem um eco engraçado.)

Eu queria que este texto fosse lido pelas altas autoridades, de todas as esferas ligadas ao tema do Cais Mauá. Mas sem ironia. O prefeito Fortunati, o governador Sartori, sei lá quantos e quais secretários e ministros, assim como vereadores e deputados. Sei que minha bola não é para tanto, mas eu queria ser lido, ao menos desta vez, por todos eles.

Ei, altas autoridades, escutem aqui o meu pedido: vejam esse material que está em tinyurl.com/omfx6ak. Olhem com os olhos do cidadão comum que vocês uma vez foram e talvez voltem a ser. Vejam e pensem. Vejam e sintam.

Sim, claro, o leitor que não tem qualquer cargo nem vontade de estar num deles também deve gastar 15 ou 20 minutos para esse material. De que se trata?

Trata-se de um projeto alternativo para o Cais Mauá, aquele que está em vias de ser repassado para um grupo construir uma torre de escritórios e sei lá mais o que, ao preço de destruir alguns dos clássicos armazéns e de manter o lamentável muro, eternizando uma concepção que, pelo que consegui ver, apenas afundará o que está já submergindo, que é a relação das pessoas, os cidadãos da planície, como eu e o prezado leitor, mas também a relação das altas autoridades, com o Guaíba.

Veja lá, meu caro prefeito, prezado governador, vejam lá, deputados, vereadores, secretários, empreiteiros. Aquilo ali é uma riqueza paisagística e humana que não pode ser desperdiçada, nem deve ser privatizada, nem deve ser submetida a essa praga que é a lógica do automóvel. Aquilo ali é para ser vivido por todo mundo.

Vou usar outro argumento: um projeto como o que está no link vai dar orgulho a nós todos. Fortunati, desculpa a intimidade e a segunda pessoa do singular, mas olha ali: a gente vai deixar para filhos, netos, bisnetos, para os visitantes do Interior e do Exterior, para nós todos, um legado de incalculável valor – valor que estão querendo calcular para fazer caber em planilhas elementares. Sartori, desculpa também a intimidade que não temos, mas olha lá e me diz: não seria uma beleza?

Em vez do muro, uma barreira móvel já testada e viável em muitos lugares. Em vez de um arranha-céu para poucos, uma vista aberta e espaços para atividades que a cidade já faz, deseja e necessita. Em vez de mais vagas para carros privados, um meio de transporte coletivo, limpo, silencioso, como a gente vê em toda parte, na Europa e no Sudeste asiático mas também em lugares improváveis do Novo Mundo, que se preocupam com a qualidade da cidade.

Fortunati, Sartori, altas autoridades em geral: não se deixem prender pela lógica imediata das planilhas de custos e pela conversa catastrofista de que os entes públicos têm que sair fora da gestão e da iniciativa na vida das cidades. A chance dourada que vocês têm não é pequena: entrar para a história como os gestores que souberam pensar o coletivo, a cidade para todos, a paisagem e o patrimônio cultural como bens de todos.

E fiquem desde já convidados para um mate, por minha conta, na beira do Guaíba, onde uma vez os índios tomaram banho, pescaram e pensaram na vida; onde depois os lusos – famílias ou desgarrados, pais de família ou bandidos, militares e civis – ancoraram; onde africanos e descendentes escravizados desceram para sofrer o horror da servidão e onde suaram para embarcar e desembarcar cargas; por onde passaram imigrantes alemães e italianos nossos maiores, a caminho das colônias que fizeram prosperar, e onde alguns desembarcaram para fazer a vida na capital; onde Porto Alegre se fez o que é e o que virá a ser.

Bem ali, altas autoridades, a gente pode construir uma novidade para agora e depois: um lugar recriado segundo o que há de mais interessante em matéria de urbanismo como um bem coletivo.

Conto com vocês?



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
ANTONIO PRATA

Sua vez


Eu vinha voando, era como aquele banquete no final do Asterix, só que no jardim da minha avó, eu vinha planando devagarinho em direção ao javali e já estava quase dando uma dentada no glorioso pernil quando uma dedada nas costelas me fisga de volta ao mundo dos vivos: “Sua vez, sua vez, vai lá que ele tá chorando faz tempo”.

Leva a eternidade de uns dois segundos pra eu entender que não sou um gaulês vitorioso, não sei voar, não há banquete nem javali, são quatro e doze da manhã, metade das cervejas de horas atrás ainda circula no meu sangue, em forma de álcool, a outra metade já se emplasta em meus neurônios, em forma de ressaca, meu filho chora no quarto ao lado e cabe a mim tomar uma atitude.

Eis a minha atitude, tão honrosa quanto permite a situação: “Eu fui à uma!”. Do outro lado da cama, porém, vem a resposta incontornável: “Eu fui às três”. Sou eu, não resta dúvida, quem terá que deixar esta cama quentinha e sair tropeçando pela noite escura. Caso precise fazer uma mamadeira, gelarei os pés nos antárticos azulejos da cozinha. Caso precise trocar a fralda, acabarei com cocô nas mãos, nos braços e há chances nada remotas de levar um jato de xixi, no meio da testa. Tais vislumbres não me parecem ruins: eles doem.

Diante desta dor, deste frio, deste sono que vem de algum lugar entre as trevas antediluvianas e as cervejas pós-jantar, não sou mais uma pessoa boa, um pai esforçado, um filho da revolução cultural dos anos 60 que acredita em direitos iguais para homens e mulheres, sou um monstro cujo único objetivo é seguir dormindo – um Cíclope cujo olho solitário só enxerga o travesseiro.

Penso que se eu simplesmente não for, se eu virar pro lado e dormir, alguma hora, depois de pedir o divórcio, minha mulher terá de ir, mas não me parece uma boa estratégia, o divórcio. Penso em dizer “Não vou porque eu trabalho o dia inteiro pra sustentar essa família!”, mas a minha mulher também trabalha o dia inteiro pra sustentar essa família. Penso, então, em tomar coragem e agir como um homem: dizer que tô indo comprar cigarros na esquina e nunca mais voltar, mas é inútil, pois para ir comprar cigarros na esquina e nunca mais voltar eu teria que abrir mão de tudo o que me é mais precioso; esta cama, agora.

Entorpecido pelo coquetel de sono, álcool e choro de bebê, penso, nostálgico, em Bogart, em Tony Soprano, em Don Draper. Duvido que tenham trocado uma fralda, sequer. Invejo os colonizadores europeus. O exército de Gengis Khan. Os romanos e os gauleses. Homens num mundo de homens, por homens, para homens. Um mundo em que a fumaça vinha dos assados ou dos vilarejos incendiados, não dos sutiãs queimados em prol da – por quê?! Por quê?! – igualdade.

Maldito iluminismo! Maldita Inés de la Cruz! Maldita Casa de Bonecas! Maldito século 20! Maldita psicanálise! Maldita Simone de Beauvoir! Malditos filmes europeus! Maldita Virginia Woolf! Malditos hippies! Maldita Yoko! Maldita Leila Diniz! Maldito parto humanizado! Malditas peladonas de protesto! Malditas lésbicas da novela! Malditos vibradores! Malditos! Malditas!

“Vai! É a sua vez!” – e eu vou, praguejando contra a injustiça de um mundo justo, tropeçando pela noite escura.



02 de agosto de 2015 | N° 18245 
MOISÉS MENDES

Olha o Datena aí, gente


Espalhou-se como contágio o sentimento de vitimização entre os eleitores que se queixam da corrupção nas hostes do PT. Repetem que o partido da moralidade corrompeu todo mundo, dos empreiteiros a um vice-almirante, e traiu os que nele acreditaram. O consolo é que os crédulos se sentem automaticamente anistiados da ideia ingênua de que enfim um partido faria política limpa.

O PT teria traído os puros. É uma imagem autoindulgente e confortadora de quem se sente enganado, inclusive a direita. Com o PT corrompido, os grandes partidos igualaram-se.

Estamos todos liberados para transferir nossas melhores expectativas a quem nos oferecer de novo, mesmo que como farsa, a ideia da pureza perdida – ou podemos almejar que um impuro, mesmo um de antigamente, segure as demandas da classe média que o PT esnobou.

Eduardo Cunha, como velha novidade, já absorveu parte desses anseios. Os que apostaram nele – porque põem em dúvida a capacidade de um tucano vencer um petista na quinta disputa seguida desde o início do lulismo – podem esquecê-lo.

Cunha está seriamente avariado. Tentar consertá- lo sai mais caro do que pegar um antipetista genérico promissor. E ele já existe. Vamos acompanhar os movimentos de José Luiz Datena. O apresentador de TV quer ser prefeito de São Paulo pelo PP. Se conseguir, vai voar alto.

Datena disse em entrevista à Kelly Mattos e ao Luciano Potter, no Timeline Gaúcha, ser contra a roubalheira e a bandidagem, os políticos antigos, as ciclovias, os radares que multam, a redução da velocidade em São Paulo e tudo isso que está aí.

Teme-se que a Lava-Jato faça aqui o que aconteceu na Itália. O novo para eles, pós-devassa nas máfias, foi a ética do Berlusconi. Para nós, pode ser o moralismo antibandidagem do Datena.

Anote algumas frases dele no Timeline: água e óleo não se misturam; até pouco tempo, os caras achavam que a Terra era plana; falcatrua e dinheiro sujo eu não aceito; um partido é um meio de se levar uma candidatura.

A melhor frase é a última. Aí estaria o novo. Datena não é algo esdrúxulo – assim como Collor, em quem alguns conhecidos seus votaram em 1989, de esdrúxulo não tinha nada.

Um partido, às vezes, é o jeito de se levar adiante uma candidatura? A política fica nos devendo uma nova chance de acreditar nos limpos e nos puros.

David Coimbra escreveu na sexta-feira que eu gosto do governo do PT e me pôs na mesma turma do Luis Fernando Verissimo e do Jorge Furtado. Pois saiba, meu amigo David, que gosto dessa turma. Mas só gostei de um governo, o de Jânio Quadros, porque minha madrinha Zina dizia ser o melhor.

Participei da passeata da vitória do Jânio, carregando vassouras com meus irmãos na carroceria da picape Jeep do padrinho Pedro pelas ruas do Alegrete. Jânio renunciou em 1961, menos de um ano depois de eleito, e me enredou nas dúvidas dos meus oito anos: mas como, se era o melhor governo do mundo?

Minha madrinha, percebendo meu primeiro dilema político, disse um dia, resignada: foi-se, porque tudo que é muito bom acaba rápido. Por isso, sinto saudade do governo do homem que iria varrer a bandalheira.

Tudo no Brasil se repete, e a política vive dos crédulos. Agora, é o Datena que vem aí. Os mesmos que inventaram o Collor e tentaram inventar o Eduardo Cunha vão se divertir. Que situação, David. Até o antipetismo está em crise.

02 de agosto de 2015 | N° 18245 
L. F. VERISSIMO

A teoria do pinto

Uma das teorias sobre o começo da civilização é a teoria do pinto exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus orgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio das fêmeas. 

Estas poderiam organizar uma sociedade baseada na sua observação da novidade, dando o poder aos mais potentes, ou melhor aparelhados, o que inviabilizaria um tipo de hierarquia baseada na inteligência, na habilidade como caçador e provedor, na liderança, nos belos olhos ou em qualquer outra qualidade do macho. As fêmeas também escolheriam parceiros sexuais entre os visivelmente mais bem-dotados, o que decretaria o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam.

Para evitar que isso acontecesse, os machos tomaram providências, começando por tapar suas vergonhas. A civilização começou pelas calças, ou o que quer que pudesse ser usado como tapa-sexo nas savanas. E os machos trataram de desviar a atenção do tamanho do pinto, inventando a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as guerras e todas as afirmações masculinas que independem do tamanho do pinto. Tudo, de um jeito ou de outro, extensão da primeira calça.

Assim, a civilização começou como um disfarce, para roubar da fêmea o seu papel natural de guia da espécie, escolhendo o reprodutor que lhe serve pelo pinto e não por suas posses ou poemas. Toda a nossa cultura misógina vem do pavor de que a mulher retome seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, tire nossas calças.

A supervalorização da virgindade como havia até pouco tempo e a estigmatização civil do adultério como ainda consta da lei brasileira são tentativas de garantir quer a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito.

A própria discriminação da mulher no mercado de trabalho é para lembrar as fêmeas do seu lugar subalterno na civilização dos homens. Lembrá-las de quem usa as calças.

Independentemente das teorias, a virgindade é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, ainda examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosóficas. Já vi o hímen – que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre – descrito como a prova de como o universo é moralista. 

Levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem – cujo único trabalho num parto é impregnar a mulher e depois ficar numa sala de espera da maternidade, lendo uma Caras antiga – a misoginia do mundo é evidente. Mas, em comparação com o que a mulher, historicamente, sofreu numa sociedade dominada por homens e seus terrores, o que ela sofre com a natureza é pinto. Com trocadilho.



RUTH DE AQUINO
31/07/2015 - 20h31 - Atualizado 31/07/2015 20h34

O mau pagador de promessas

Você precisa comprar a pauta-bomba de nosso governo: cortaremos na carne, na sua carne, morô?


Devo, não nego. Pagarei quando puder. E com a ajuda de vocês. Governadores, prefeitos, deputados, senadores. Mas apelo sobretudo a você. Você pai ou mãe de família, que perdeu seu poder de consumo, perdeu o emprego, perdeu salário e crédito, perdeu conforto e esperança, perdeu economias, perdeu sua lojinha, sua microempresa, seu apartamento, seu carro. Perdeu até as estribeiras, porque se sente intimidado por gangues das ruas e dos palácios.

Você precisa vestir minha camisa, que é a camisa do Brasil, agora em tamanho menor devido à dieta argentina. Você tem de acreditar, mesmo que o PT tenha provado ser um mau pagador de promessas. Eu e o Guido no ano passado pedalamos a mesma bicicleta, aquela de dois lugares, para atropelar todas as contas que atravessavam nosso caminho glorioso. Mesmo assim você precisa se sacrificar.

Você precisa nos ajudar a manter bem altos os lucros dos bancos, porque eles sempre se dão bem, já reparou? Com a ajuda de cortes, câmbio e juros, os grandes tiveram lucros históricos. Você precisa aceitar calado a redução do salário, você precisa cuidar de seu rombo particular. Porque o meu rombo no primeiro semestre foi inédito na história, um deficit de R$ 1,6 bilhão de janeiro a junho. Um rombão, tudo é aumentativo por aqui, mensalão, petrolão, eletrolão.

Você precisa reunir a família, assim como eu reuni os meus parentes próximos e distantes, os governadores dos Estados. Para explicar que a gastança e o desperdício têm de parar. E, claro, eles entenderam que, se eu for atingida, eles vão junto. Como se não bastasse o Brasil perder selo internacional de bom pagador, ganhará o selo de mau gastador.

Você precisa sobretudo comprar nossa “pauta-bomba”, que é a seguinte: cortaremos na carne, na sua carne, entendeu? Não falo de churrasco de fim de semana, esse já era. Falo de cortes mais nobres. Cortes de gastos públicos, que eu e o Levy prometemos. Vamos cortar no sal grosso: no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Saúde e na Educação. Morô? Não, esse verbo não, lembra o sobrenome daquele juiz que não larga o meu pé nem o de meus companheiros empreiteiros. Juiz posudo, metido a italiano da gema, com ternos bem cortados e essa obsessão de lavar tudo a jato, como se a água e meu governo fossem acabar amanhã.

Você sabe que tem gordura nos hospitais e nas escolas, não? Gordura no chão, nos corredores, nas salas de cirurgia e de aula. Ah, você deixa esses itens do orçamento doméstico para cortar por último? Você preserva ao máximo a saúde e a educação de sua família e prefere cortar primeiro os supérfluos? Entendi: é porque você valoriza a vida e o futuro deles e a oportunidade real de crescimento digno e sustentável.

Por isso a classe média não vai para a frente, cai no cheque especial, paga juros escorchantes no cartão de crédito. E a gente (nós e os intelectuais do PT) tem ojeriza a esse pessoal conservador, não afeito a riscos, enfim, uma classe média reacionária. Não é uma categoria politizada. Além de ser gigante, difícil de ser manobrada, a classe média cultua a ideologia do bem-estar da família. E ponto.

Você também sabe que a gente gosta de dar esmola aos pobres e de adular os ricos. É a tal governabilidade, uma receita infalível. Posar de mãe de miseráveis e se locupletar com os grandes projetos. Vimos agora que o nuclear entrou na dança premiada. Minha geladeira vive abarrotada de energéticos para aguentar o tranco de nossa House of Cards.

Graças a Deus que lá também, no Congresso, acabou a mamata. E também a proteção que dávamos ao ex-PMDB comportado de Sarney. Agora o Congresso quer me derrubar, prefere o diretor da escola, aquele que parece uma esfinge e não diz nada, você sabe quem é, só espera mais um passo meu em falso. Bota falso nisso. Agosto começou e deveria ser menor. Vou arrumar umas viagens internacionais.

Já nos livramos da Catta Preta, a advogada de delatores que se mudará para Miami por medo. Você também tem medo, não? É a lógica de gangues que impera no país. Viu as cenas no Brás, em São Paulo, com cidadãos, muitos idosos, cercados e roubados por abutres? Você se sente ameaçado por taxas e impostos, por assaltantes, golpistas e policiais, por empresas de serviço, todo mundo tascando um pedacinho seu? Tente um pacto, como eu.

Esqueçam minhas pedaladas fiscais, me ajudem a aprovar minhas contas no TCU, não deixem que a Caixa e o Banco do Brasil cobrem de mim mais de R$ 1 bilhão em taxas dos programas sociais. Reclamem menos da inflação de hoje porque ela tende a piorar amanhã. Não critiquem inaugurações de clínicas sem médicos ou fechamento de escolas sem professores. Não somos um governo-bomba.


01 de agosto de 2015 | N° 18244 PALAVRA DE MÉDICO
J.J. CAMARGO

PÉROLAS PORTUGUESAS


As rusgas que os patrícios adoram fomentar na defesa da língua portuguesa


Passar uns dias em Lisboa é sempre uma maravilha. A cidade é linda, a mistura do novo e do decadente tem uma harmonia que comove, os resíduos da imponência histórica são impactantes, a culinária é original, o povo é afável e sempre se renova a promessa de voltar, não importa quantas vezes o ritual tenha se repetido.

Quando se está em companhia de outros brasileiros, é inevitável que se passe a limpo as últimas rusgas que os patrícios adoram fomentar na defesa intransigente da língua portuguesa, um embate ainda mais hilário se aliado à inabalável lógica lusitana.

Na noite de Lisboa, à espera do jantar, jorraram histórias maravilhosas:

O cirurgião paulista toma um táxi no aeroporto:

– Para onde vamos? – Vila Galé.

– Desculpe, mas aqui em Lisboa tem várias, qual o endereço?

– Não tenho o endereço.

– Como vou levar-te a um sítio se nem sabes onde é?

– Fica perto do Centro de Convenções.

– Nunca ouvi falar!

– O senhor não sabe onde é o Centro de Convenções em Lisboa? Não acredito!

– Nunca ouvi falar! – Bom, fica junto da ponte 25 de Abril!

– Bom, essa toca eu conheço, então vamos para lá. Pode ser que achemos!

Quando se aproximam, se vê o prédio enorme com letreiro gigante: Centro de Congressos de Lisboa.

– O senhor está vendo? Este é o Centro de Convenções que eu falei!

– Raios, o senhor tinha que ter falado Centro de Congressos, porque convenção, para nós, é um acordo que se pode fazer entre duas pessoas, e eu não saberia nunca do que estavas a falar. Pois!

Esposa de conferencista brasileiro acorda desconfortável com a altura excessiva do travesseiro. 1397124194O marido solícito liga para a mucama e pede a troca por um travesseiro mais baixo. Cinco minutos depois, a portuguesa está à porta com a encomenda. O marido recebe o travesseiro, agradece, e se prepara para fechar a porta, mas ela continua imóvel.

– Desculpe, alguma coisa errada?

– Não exatamente errada mas, para se completar a operação, o senhor deve me devolver o outro travesseiro porque, afinal, foi solicitada uma troca, pois não?

Final da sessão da manhã, congresso no topo de um edifício de 20 andares, saguão cheio, todos loucos para descer, e abre-se a porta do elevador gigante. O médico brasileiro, no piloto automático, pergunta:

– Desce? O velhinho ascensorista, irritado com a estupidez da questão, responde calmamente:

– Este elevador só não faz movimentos rotatórios e para os lados. Tanto sobe quanto desce e no momento estamos parados!

Uma pergunta que ficou: quanto tempo dura um passeio de 20 andares com o elevador cheio de gente se divertindo às custas de um infeliz distraído?

Voo da TAP, classe executiva, casal sofisticado, mulher loira e afetada. Aproxima-se o chefe dos comissários e pergunta:

– Boa noite. Gostariam de jantar?

A mulher põe os cílios postiços a vibrar e devolve a pergunta:

– Quais são as opções? E a lógica portuguesa, que estabelece uma coisa de cada vez, prevaleceu:

– Sim e não! Casal de brasileiros, em viagem de carro pela Europa, na era pré-GPS, se atrapalha num trevo na zona de Viseu e pergunta a um velhinho que passava:

– Por favor, meu senhor, esta estrada vai pra Espanha?

– Melhor que não vá, faria muita falta aqui!

Brasileiro, na classe executiva da TAP, acorda lá pelas 3h da madrugada com vontade de ir ao banheiro. Quando surpreende uma fila de quatro necessitados, resolve recorrer àquele banheiro que, em geral, existe entre as classes executiva e econômica. Quando se aproxima da zona presumida, percebe que vem um baixinho da área econômica, com aparente mesma intenção. É bruscamente interceptado pelo comissário, que o repreende:

– Econômica? Lá no fundo, lá no fundo!

O gajo, constrangido, se retira e, então, o comissário gentilmente orienta o brasileiro:

– Quanto ao senhor, isto aqui é um armário, não se trata de um banheiro, podes voltar pro seu lugar!

Há alguns anos, eu tinha sido convidado para uma conferência em Coimbra e fui apanhado por um grupo de cirurgiões no aeroporto de Lisboa para a viagem de carro. Na saída, passamos por uma placa que anunciava: Perdidos e Achados. Ignorando uma das melhores oportunidades de calar a boca, comentei:

– Engraçado, no Brasil, nós dizemos Achados e Perdidos.

E, então, o mico que podia ter sido evitado:

– Aqui estamos acostumados a perder antes de achar!

Bem feito.


01 de agosto de 2015 | N° 18244 
NÍLSON SOUZA

O PAÍS DAS ALICES


Tenho saudade da Alice, de sua meiguice, do seu jeito doce de invadir o nosso final de tarde na Redação. Alice é o anjo da Ângela, nossa ex-colega de ZH e agora professora de Jornalismo na ESPM. A menina está com oito anos. Quando nos visitava regularmente, aos sete, quase sempre era saudada por este escriba com um comentário lógico, embora pouco criativo:

– Chegou a moça do país das maravilhas!

Ela só sorria. Já devia ter ouvido trocentas vezes que seu nome evoca o livro célebre. Não sei se seus pais fizeram a escolha por causa da história do Chapeleiro Maluco ou em homenagem a alguma avó, mas provavelmente essa senhora ou alguma outra da família tenha sido batizada sob inspiração da obra do britânico Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll. A publicação original, que virou filme, desenho animado e outros livros, está completando 150 anos por estes dias e recebendo merecida reverência em todo o mundo.

A personagem central da narrativa enigmática é exatamente a menina Alice, curiosa, valente e voluntariosa, que desafia o desconhecido e alcança seus objetivos utilizando a integridade como arma. Por isso a heroína da história, que foi inspirada numa Alice real, gerou tantas outras Alices – como explica brilhantemente a psicanalista Diana Corso, em artigo que está sendo publicado na edição dominical deste jornal e que, na condição de editor, tive o privilégio de ler em primeira mão.

De onde se conclui que nem todas as Alices se chamam Alice. Muitas mulheres (todas, talvez) têm algo da menina corajosa e questionadora, que enfrenta obstáculos com determinação e não se cala diante do arbítrio. O país das Alices é o gênero feminino, encantador e misterioso.

Na última vez que esteve por aqui – já contei uma vez –, a nossa pequena Alice tocou violino para seus amigos adultos e deixou na sala onde trabalho os sons de sua música infantil e do seu riso puro.

Como não ter saudade? A professora Ângela está nos devendo essa visita.



01 de agosto de 2015 | N° 18244 
DAVID COIMBRA

O homem e o leão

“Do que come saiu o que se come. Do forte saiu a doçura.”


Foi esse o enigma proposto por Sansão aos convidados do seu casamento com uma filisteia, há pouco menos de 3.200 anos, quando não existia Facebook, não existia celular, não existia Netflix, não existia Maserati, mas já existia casamento.

Você, que conhece a história desse super-herói dos hebreus, sabe bem a que ele se referia: algum tempo antes de suas núpcias, Sansão caminhava pelo deserto quando foi atacado por um leão jovem. Como era dotado de força descomunal, Sansão matou a fera “como se fosse um cabrito”, segundo o livro dos Juízes.

Considero essa informação preciosa, porque não sei se teria força para matar um cabrito com as próprias mãos, o que talvez seja uma vergonha para quem é filho do velho Gaudêncio, que, no Alegrete, derrubava um touro a unha, tomando-o pelas guampas, e depois o mantinha imóvel no solo e amarrava suas patas como se ele fosse... bem... um cabrito.

De qualquer forma, o que interessa é que Sansão deixou o corpo do leão rojado na areia quente e foi se ocupar com seus afazeres. Semanas depois, ele passava de novo pelas imediações e decidiu ver o que era feito da carcaça do animal. “Mas eis que na boca do leão estava um enxame de abelhas com mel”, relata o livro. Sansão, então, colheu da colmeia uma fava de mel e saiu se lambuzando.

Sansão sentiu justo orgulho de sua façanha, até porque não foi ele quem pediu briga. O leão é que veio, ainda que a carne humana não seja a favorita dos grandes gatos, com raras exceções.

Ferozes exceções foram dois leões especialíssimos do fim do século 19. Consagraram-se como devoradores de gente militando em Tzavo, no Quênia, terra do pai do Obama. Eles eram chamados de Sombra e Escuridão. Há um bom filme de Hollywood a respeito. Sombra e Escuridão eram leões sem juba, enormes, com mais de três metros de comprimento. Vi fotos deles. Suas peles estão expostas num museu de Chicago e parecem menores do que os corpos que envolviam, porque encolheram com o tempo.

Os ingleses estavam construindo uma ferrovia no território dos dois leões, o que lhes propiciou fartura de caça. Sombra e Escuridão se viciaram no sabor adocicado da carne dos operários africanos. Durante nove meses, banquetearam-se com os corpos de mais de 140 homens. Atacavam de forma coordenada e inteligente. Quando a noite caía, eles rasgavam as lonas das barracas e arrastavam a vítima para seu covil. Os gritos dos homens sendo dilacerados gelavam os ossos dos demais trabalhadores, que chegaram a fazer uma greve, pedindo a interrupção das obras da ferrovia. Um caçador inglês, depois de muita lida, acabou matando os leões a tiros.

Nós, seres humanos, nós matamos. É coisa nossa. Posso compreender matanças defensivas, como a de Sansão no deserto da Filisteia ou do inglês na aridez do Quênia. A do dentista americano que assassinou e decepou o leão da reserva do Zimbábue, não. Essa foi uma matança por prazer.

A matança por prazer explica os empresários que deitam cal no leite das crianças, os médicos que receitam prótese a quem não precisa, os adulteradores dos remédios dos velhinhos, os bandidos que atiram para levar o par de tênis. Porque, se o homem mata por gosto, o que não fará por lucro?

Olhe para o dentista. Olhe para o leão. O leão viveu sentindo majestosa indiferença pelo homem, a quem permitia admirá-lo. O leão era magnífico apenas por ser, sem ter de provar nada, sem ter de ter nada. O homem, por invejar essa nobreza, arrancou-lhe a cabeça e a empalhou, para possuí-la. Que vergonha para a espécie. Que vergonha, Homo sapiens.



01 de agosto de 2015 | N° 18244 
CLÁUDIA LAITANO

Bonequinha azul


1) Nossos sonhos são produzidos por estruturas que lembram estúdios de cinema, onde personagens e preocupações reais do dia a dia são embaralhados, dando origem a histórias malucas que, mesmo parecendo não fazer qualquer sentido à primeira vista, contam muito sobre quem somos e sobre o que sentimos. 

2) Nossas memórias mais banais podem dar origem a registros permanentes que ajudam a moldar a forma como nos relacionamos com o mundo pelo resto de nossas vidas. 3) Quando nossas emoções estão sozinhas no comando, as consequências são imprevisíveis. 4) Lembranças podem mudar com o tempo. 5) O livre-arbítrio não é tão livre assim.

Tudo isso, e um pouco mais, está no roteiro da animação Divertida Mente – um dos melhores filmes do ano e uma das maiores trapaças cinematográficas dos últimos tempos. Não para os adultos, bem entendido, que em geral têm gostado do filme, mas para o seu suposto público-alvo, as crianças, que, não conseguindo alcançar todas as camadas de sentido que compõem a trama, têm dificuldade para entender por que, afinal, os pais saem tão empolgados do cinema (quando Minions é obviamente muuuito mais divertido).

O sucesso de Divertida Mente, e mesmo a ideia de que memórias, emoções e mecanismos do cérebro pudessem dar origem a um filme infantil, refletem a recente popularidade da neurociência junto ao público leigo. Lidando com questões com as quais os artistas e os filósofos vêm se defrontando há séculos – quem somos e por que somos do jeito que somos –, a ciência que estuda o sistema nervoso inter-relaciona disciplinas tão diversas quanto biologia, computação, química, física e psicologia, tentando decifrar um dos mais complexos sistemas sobre o qual o homem já se debruçou. 

Autores como o psicólogo e linguista Steven Pinker, o neurologista Oliver Sacks e os neurocientistas António Damásio e Sam Harris tornaram-se best-sellers escrevendo sobre o cérebro e suas insuspeitadas conexões com o tipo de sociedade que construímos e com a forma como interpretamos e reagimos à realidade.

Não por acaso, todo esse interesse pela neurociência coincide com a medicalização crescente de diferentes aspectos da experiência humana. Foram os avanços da ciência que tornaram possíveis remédios cada vez melhores e com menos efeitos colaterais, diminuindo o sofrimento de pessoas com problemas graves como depressão. Ao mesmo tempo, muitos cientistas têm se esforçado para demonstrar que nem tudo que é complexo ou causa sofrimento e ansiedade é necessariamente doença e precisa ser tratado com medicamentos. 

Muitas vezes, como o desfecho de Divertida Mente assinala com muita delicadeza, é preciso acolher a tristeza e deixá-la seguir seu curso – aceitando a bonequinha azul como parte daquilo que nos torna humanos e capazes, entre outras coisas, de perceber e reagir ao sofrimento alheio.

sexta-feira, julho 31, 2015


Jaime Cimenti

Domingo de noite, segunda, perguntas, respostas, poesia


Por vezes num domingo chuvoso, frio, ventoso, bem desses de inverno gaúcho, à noite, você se sente meio triste, pensando no que fez ou deixou de fazer na semana, pensando se ama ou é amado e sai caminhando sozinho pelas calçadas vazias. Fica até pensando, por um momento, com humildade extrema, que gostaria de ser apenas o reflexo da lua que brilha na água da sarjeta e se pergunta quem realmente é, de onde veio, para onde vai e outras perguntas sem resposta.

Você sabe que aquele momento vai passar, que a hora mais escura é justamente a hora anterior ao nascimento do sol, que vai brilhar na segunda-feira, ou na terça, ou na quarta... Você tenta se acalmar e caminha mais. Vai se abrigar, quem sabe, no shopping-center vazio, na companhia dos seguranças.

Você gostaria que já fosse sexta-feira, graças a Deus. Pensa que cientistas já responderam milhões de perguntas e descobriram muitas coisas, mas ainda não revelaram quem somos, de onde viemos, para onde vamos e não criaram uma pílula da felicidade para os entardeceres de domingo.

Você sabe que filósofos, há milênios, queimam pestanas indagando profundamente sobre tudo e todos, sempre perguntando e questionando mais que respondendo, mesmo assim buscando explicações e teorias sobre os seres, os planetas e os caminhos.

Sim, domingos à noite são momentos ótimos para espiritualizações e religiões, momentos para pensar na vida e na morte, no agora e no eterno, na vaidade e na modéstia, na fé e na dúvida.

Está bem, você prefere não encucar, apenas comer um sanduíche natural, tomar um suco e um sorvete, ou traçar um churrasquinho com cerveja, assistir uma comédia leve, conversar com algum amigo, namorar, quem sabe, terminar de matar o domingo numa boa e dormir até segunda. Tudo bem, você decide. Alguns restaurantes abrem domingo à noite em Porto Alegre.

Pensando bem, melhor mesmo é pensar que quinta-feira, 30 de julho, foi o aniversário de 109 anos do Mario Quintana, nosso mais querido e maior poeta. Ciência, filosofia, história, tudo bem, mas mesmo nesse mundo high tech tem mais é que reinar a poesia.

Os poetas sempre sentiram e pensaram adiante, quase sempre foram as antenas da raça, sempre vislumbraram os mistérios e as belezas invisíveis. Sempre souberam que o coração da beleza não é coisa para nossos pobres cinco sentidos. Poetas sempre abriram as portas do infinito.

A pátina do tempo cai lentamente sobre Mario Quintana, que vai poetando cada vez melhor, assim como Carlos Gardel canta cada vez melhor. Bem escreveu Quintana, que um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele! A simplicidade profunda, a técnica apurada e a linguagem clara de Quintana, somadas ao lirismo e aos temas eternos, mostram que, não por acaso, caiu no gosto de gerações e gerações, passando com brilho no julgamento do tempo e dos leitores. Estes são os que realmente interessam.

A propósito...

Para permanecer absolutamente o grande imortal dos leitores, dos amantes da poesia e de outros poetas, muitos inéditos, Mario Quintana não necessitou de aprovações e títulos universitários, chancelas oficiais, honrarias públicas ou privadas ou galardões acadêmicos. Não precisou rezar em "igrejinhas literárias", bater continência em movimentos artísticos ou se tornar leitura obrigatória de estudantes. 

Para viver nos corações e nas mentes de gerações, foi (é) poeta maior e pronto. Ao resto, aos demais, escreveu, sucinto, Mario: Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho/ Eles passarão/ Eu passarinho. Feliz niver, Quintana! Campai, longa vida!
Jaime Cimenti


Sombras de 1964 sobre nós

DIVULGAÇÃO/JC

Livro entende que a ditadura de 1964 estende seus tentáculos até os dias de hoje


Os jornalistas Mylton Severiano da Silva e Palmério Dória já escreveram seus nomes na história do jornalismo brasileiro como testemunhas da História. Silva trabalhou na lendária revista Realidade, extinta pelo AI5 em 1968. Dória, entre outros feitos, escreveu o único livro existente sobre o pistoleiro Alcino João do Nascimento, envolvido no polêmico "atentado da rua Toneleros", que precipitou o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Os dois jornalistas documentaram as eras Sarney e FHC em livros de denúncia que chocaram o País e transformaram-se em best-sellers: Honoráveis bandidos e O príncipe da privataria.

Golpe de estado - O espírito e a herança de 1964 ainda ameaçam o Brasil (Geração Editorial, 264 páginas), nova obra dos dois jornalistas, lançada há poucos dias, entende que a ditadura de 1964 estende seus tentáculos até os dias de hoje, quando parte da população, insuflada pela mídia, bate panelas e desfila nas ruas com palavras de ordem bem parecidas, disfarçadas pelo necessário combate à corrupção.

Para os autores, a ditadura militar, instaurada pela elite civil que teria usado os militares para impor sua vontade, teria deixado como preço a educação sucateada, a violência policial crescente e as marchas reacionárias e desnorteadas. No relato contundente de 32 capítulos, Dória e Severiano condensam as duras memórias daqueles tempos e entendem que as sombras seguem a se estender sobre nós.

Para os autores, o autoritarismo, o conservadorismo, a manutenção das instituições políticas e jurídicas arcaicas e a destruição do patrimônio cultural, político e ideológico seguiram e seguem atuando, e agora com mais força.

No prefácio, o escritor e jornalista Fernando Morais escreve: "No último meio século, os dois colegas não fizeram senão jornalismo, contando histórias e a história do Brasil. Sem ter nascido em berços de ouro, sem dinheiro da Fundação Ford. Neste livro, Mylton e Palmério se baseiam na própria memória, nas publicações que fizeram, nos livros de colegas e em preciosos depoimentos de protagonistas e testemunhas, que trazem fatos inéditos ou jamais percebidos, para contar o que foi que os golpistas impediram o Brasil de ser".

Como se vê, trata-se de uma obra forte, lançada como um "sinal de alerta", segundo a orelha do livro, para que os leitores atuais relembrem fatos de nossa história recente. Figuras históricas como o presidente João Goulart (Jango) são resgatadas com novos contornos e definições.

A obra trata de problemas de crescimento econômico do Brasil e mostra como compramos automóveis, computadores, celulares e geladeiras da Coreia do Sul e seguimos vendendo ferro, soja, café, carne e outros produtos primários.


31 de julho de 2015 | N° 18243 
DAVID COIMBRA

Uma conversa com Jorge Furtado

“Pesada é a pedra, pesada é a areia,

Mais pesada ainda é a cólera do tolo.”


Isso é sabedoria antiga, velha de 20 séculos. Arranquei o poema do Livro dos Provérbios, que a ficção hebraica atribui a Salomão, mas que, na verdade, é uma compilação de pequenos textos de uma miríade de autores, muitos deles egípcios ou de outras extintas nações orientais.

Realmente, a cólera, em si, já é pesada; a cólera do tolo é insuportável.

O Brasil, hoje, vive em meio a cóleras. A dos tolos você precisa ignorar, ou ela o amassará com seu peso. A dos sábios pode ser suportada, porque é mais leve.

Travei ontem uma conversa eletrônica com um brasileiro que julgo sábio, o cineasta Jorge Furtado. Falamos, exatamente, sobre a cólera que faz rugir o país, nestes dias tormentosos. As pessoas tomaram suas posições, assumiram os seus lados e não saem mais de trás das suas trincheiras. É pena, porque o debate faz evoluir.

Não concordo com todas as opiniões do Jorge Furtado, ele não concorda com todas as minhas, mas tivemos uma conversa saudável. Natural: ele não é um tolo. O desagradável, no inviável debate com os tolos, é que eles partem de pressupostos: como você não está no “time” deles, você não está errado: você é desonesto. Isso é muito rasteiro. E muito cansativo.

Vou entrar no conteúdo: não gosto do governo do PT; o Jorge Furtado, o Luis Fernando Verissimo e o Moisés Mendes gostam. Temos opiniões diferentes, mas, ainda assim, admiro os três e os respeito. Não espero admiração de nenhum deles. Respeito, sim. Porque minhas críticas ao governo do PT não são feitas porque defendo “as elites”, porque meus patrões assim o exigem, porque me vendi para o sistema ou porque apoio um golpe para derrubar o governo eleito. Não. As críticas que faço são produto de minhas reflexões, de minhas ideias e de minhas crenças. Se são tolices, são tolices honestas.

Agora: se sou tolo, não sou um tolo colérico. A cólera dos tolos (e dos sábios) brasileiros levou o país a raciocínios superficiais, do tipo:

Bolsonaro é contra o governo do PT; logo, quem é contra o governo do PT é a favor do Bolsonaro.

Não gosto das opiniões e das atitudes de Bolsonaro. E também não gosto do governo do PT. Não porque o governo é do PT, partido no qual outrora votei; porque é um governo ruim. Todas as supostas conquistas econômicas do PT, todos os índices positivos de hoje poderiam ser apresentados ontem pelo governo militar. Pegue o Brasil de 1964 e compare com o de 1985: o Brasil terá melhorado em quase tudo. Como o de 2002 comparado ao de 2015. 

Mas nem num período, nem no outro, houve melhora estrutural que pudesse construir uma nação de verdade. Você não faz uma nação de verdade permitindo ao trabalhador que compre um automóvel; você faz permitindo que o filho dele tenha uma educação de qualidade, tão boa que ele possa competir com o filho do rico para entrar numa universidade. Você não faz uma nação de verdade dando ao operário condições de ele viajar de avião; você faz ao dar a ele condições de passear à noite em sua própria cidade, sem medo de ser assassinado.

O PT podia ter feito isso. Tinha prestígio, força e condições econômicas para fazê-lo. Não fez. Essa é minha crítica, amarga crítica ao PT. O que não me ombreia com Bolsonaro, Cunha, Feliciano e tucanos em geral, o que não me torna golpista, o que não é fruto de interesses. Entendo que sábios eventualmente não concordem comigo. Não aceito que eles não entendam que a minha tolice cabe apenas a mim.


31 de julho de 2015 | N° 18243 
MOISÉS MENDES

Querido diário


O francês Edgar Morin ainda acredita nos diários com impressões pessoais como forma de autoconhecimento. O filósofo gostaria de ver professores incentivando crianças e adolescentes a anotarem suas vivências, para que um dia possam ler o que escreveram sobre um guri, uma guria ou a professora de geografia.

Diários de adultos podem ser mais complexos, mas quase todos têm um quê de infantilidade, ou não seriam diários. Nem todos têm florzinhas, alguns são trágicos.

O diário de Getúlio Vargas, por exemplo, já avisava, 24 anos antes, o que ele poderia fazer e acabou fazendo no dia 24 de agosto de 1954. No dia 20 de novembro de 1930, ainda eufórico com a tomada do governo, escreveu: “Quantas vezes desejei a morte como solução da vida”.

Getúlio escrevia sobre qualquer coisa. Anotava que Plínio Salgado, o líder da direita integralista era um caipira. Confessava que à tarde recebera “uma visita agradável” (da amante Aimée Sotto Mayor Sá), com o detalhe de que o encontro interrompia “três anos e meio de vida regular”.

Tudo isso está na biografia de Getúlio que Lira Neto escreveu para a Companhia das Letras. Claro que Getúlio desejava que seus registros fossem um dia lidos por alguém – ou por muita gente. Um diário é também o desejo de invasão da própria intimidade.

Meu colega Henrique Erni Gräwer faz, há 20 anos, registros de percepções e sentimentos, nem sempre diários, com um detalhe: nunca relê. Os cadernos são guardados para um dia, que ele não sabe quando, serem abertos.

Nixon, o presidente derrubado pelo caso Watergate em 1974, fazia diários gravados. Todas as suas conversas no Salão Oval da Casa Branca eram registradas em fita cassete. Diziam que almejava ser reconhecido, quando ouvissem conversas e comentários, como um grande líder mundial.

Nixon definia o chanceler alemão Willy Brandt como um idiota e dizia que os russos adoravam uma adulação. As gravações sobre Watergate foram ouvidas pela Justiça e apressaram sua renúncia.

Agora, a Justiça devassou um smartphone com as anotações do presidente da Odebrecht. Marcelo Odebrecht foi definido em reportagem de O Globo como “o homem que anotava”. Registrava planos para escapar da Lava-Jato, conversas, nomes de conhecidos, de jornalistas e comparsas.

A mediocridade dos corruptores se manifesta, em tempos de registros virtuais, também nessas notas utilitárias do empreiteiro. Nem o Freud mais elementar frequenta as anotações de um sujeito que só pensa em artimanhas e dinheiro.

31 de julho de 2015 | N° 18243 
MARCOS PIANGERS

Isso foi ontem


E você me disse que me odeia e que preferia não ter nascido. Isso foi ontem, quando você fez 18 anos. E um pouco antes eu disse que não ia emprestar o carro, que apesar de estar com o papelzinho da autoescola aquilo ainda não era a sua carteira de motorista. E você disse que estava muito nervosa no teste e não sabia se tinha passado.

E você disse que estava feliz com a nova escola, já tinha feito umas amigas. Isso foi ontem, quando a gente se mudou de cidade.

E você disse que tinha adorado a festa, mesmo que a gente tivesse pouco dinheiro pro vestido de 15 anos. Eu senti que você estava só sendo educada. E você disse que a prova tinha sido impossível e que a professora não ensinava nada e só jogava a matéria no quadro. Isso foi ontem, quando você me falou que pegou recuperação. E você disse que ia brincar um pouco mais lá embaixo e ia fazer a lição de casa amanhã de manhã. Isso foi ontem, e até agora nada.

E você me disse pelo telefone que estava com saudade e eu me senti o pior pai do mundo porque não estava com você no seu aniversário de 12 anos. E você veio correndo me mostrar mais um dente que tinha caído e eu peguei o dente e guardei no bolso da minha camisa e esqueci ele lá. E você odiou quando a gente passou seu aniversário em Recife, longe de todas as suas amigas, sem festa e sem presente. Isso foi ontem, quando você fez 10 anos.

E você disse que agora não precisa mais sentar na cadeirinha do carro. E eu te dei um celular bem baratinho, porque não conseguia me imaginar longe de você sem poder me comunicar. Na escola, tinha aquele menino que te chamava de “menina do celular”, porque você era a única menina com pais tão preocupados, ligando de 10 em 10 minutos. Isso foi ontem, no seu primeiro dia de aula.

E eu e a sua mãe choramos escondidos com uma pena de você, quando sua irmã nasceu e sentimos que você não seria mais nossa princesinha. Iria ter que dividir o reino com um novo bebê. Isso foi ontem à noite, depois que você dormiu. E você insistiu pra dormir na minha cama porque estava com medo do escuro e me chutou a noite inteira. Isso foi ontem e agora eu estou todo dolorido. 

E você me disse que me amava pela primeira vez, provavelmente só repetindo o que eu te digo todo dia. Isso foi ontem. E eu estava nervoso e atrapalhado. Sua mãe tranquila e feliz. Viramos a noite no hospital, ontem, quando você nasceu. Tentando entender como cuidar de você. Um dia a gente aprende.

quinta-feira, julho 30, 2015



30 de julho de 2015 | N° 18242
TECNOLOGIA NOVO SISTEMA OPERACIONAL

Será este o Windows definitivo?


VERSÃO 10 TERÁ UPGRADE gratuito para quem já usa versões originais, aposenta o Internet Explorer e agrega um assistente de voz. Microsoft busca manter a supremacia no mercado.

O número 10 não é à toa. Ao pular do 8 para a versão lançada ontem, o Windows indica que fecha um ciclo, corrige defeitos graves e finca o pé em novos setores. Gratuito para quem já tem Windows 7, 8 ou 8.1, o novo sistema operacional da Microsoft traz de volta o menu iniciar, aposenta o Internet Explorer e mostra o Cortana, assistente virtual da empresa dirigida por Satya Nadella.

Por falar em Nadella, esse é o primeiro grande lançamento da companhia sob a batuta do americano com ascendência indiana – que substituiu Steve Ballmer e foi nomeado CEO por Bill Gates em fevereiro de 2014. A intenção dele fica clara em frase destacada no evento de ontem:

– Queremos sair do momento em que as pessoas precisavam do Windows, para chegar a um momento em que as pessoas escolhem o Windows e, enfim, que elas amem o Windows.

Gustavo Lang, diretor de Windows da Microsoft no Brasil, considera essa versão quase um “Windows definitivo”:

– Quando a gente introduz o Windows como produto, não precisaria ter o 10 na frente. É a nossa plataforma, e o nosso compromisso é mantê-la sempre atualizada. Já fui perguntado se a Microsoft atingiu a perfeição, mas é exatamente o contrário, queremos renová-la com muito mais rapidez, constantemente.

Especialistas reforçam a importância do novo Windows para a gestão de Nadella. Ousado, o sistema operacional indica possíveis caminhos para a empresa, principalmente pelo fato de unificar a experiência do usuário em diversas plataformas. O novo Windows estará disponível para PCs, tablets, smartphones, Raspberry Pi, Xbox One, HoloLens, entre outras.

– É a chance de a Microsoft se reposicionar. Passar a ter sistemas não só para desktop, mas para tablet, celular etc. Ela começa a botar as mãos em um mercado que é todo do Android. E, ao disponibilizar o Windows de graça, a empresa passa a mensagem de que vende serviços, soluções, e deixa de ser uma companhia que vende o software – analisa Julio Machado, professor da Faculdade de Informática da PUCRS, que trabalha junto ao Centro de Inovação da Microsoft na universidade e já testou as versões beta do Windows 10.

Se o pulo do Windows 7 para o 8 foi um susto – o sistema operacional apresentou muitas mudanças que desagradaram os usuários e causou certa estranheza na base de consumidores –, a evolução para o 10 é mais suave. A colunista Vanessa Nunes, especialista em tecnologia, descreveu a transição como “nada traumática”, e o sentimento ao utilizar a nova versão “foi de alívio”. Isso porque defeitos e medidas antipáticas de anos passados foram corrigidos.

EMPRESA ESPERA CHEGAR A UM BILHÃO DE USUÁRIOS

O menu iniciar é um organizador. E funciona, como sempre funcionou. A aposentadoria do Internet Explorer era quase uma obrigação – o produto já havia se tornado piada e chegou a ser descrito pela própria Microsoft como “o navegador que você ama odiar”. Com o Edge, a experiência fica mais rápida, leve e atualizada.

Por último, o Cortana pode ser um atrativo bastante importante para possíveis novos consumidores. Bastante parecido com a Siri, software da Apple que responde a comandos de voz do usuário, o Cortana ainda não tem versão em português, o que atrapalha a experiência, mas parece ser uma evolução importante no escopo da Microsoft. A empresa garante que até o final do ano a versão para brasileiros estará disponível para os “Windows insiders” (grupo de usuários beta). Depois de aprovada, é liberada para todo mundo.

Com a nova versão, a Microsoft espera que 1 bilhão de pessoas usem o Windows até 2018. Nos Estados Unidos, o Windows 10 Home custa US$ 119 (cerca de R$ 402) para quem não tem versões posteriores ao Windows 7 em seu computador. A versão Pro sai por US$ 199 (cerca de R$ 672).

gustavo.foster@zerohora.com.br - *O repórter viajou a convite da Microsoft


30 de julho de 2015 | N° 18242 
DAVID COIMBRA

Ela pintou o cabelo de azul

Conheci uma moça que pintava uma mecha dos seus cabelos de azul. Ela tinha a voz rouca e a pele morena. Namorava um amigo meu e, não, eu não a desejava, de forma alguma, mas admirava aquela pequena ousadia. Pintar o cabelo de azul, imagina. Estávamos nos anos 90, um tempo em que os cabelos não eram azuis. Hoje são.

Nos Estados Unidos, a todo mo

mento deparo com mulheres de cabelos coloridos. Curiosamente, as americanas do Norte não parecem tão vaidosas quanto as americanas do Sul. Não usam salto alto no dia a dia e vestem-se como quem pegou o primeiro pano que estava pendurado na cadeira, de manhã cedo. Na rua das cidades tipicamente americanas, você vê mulheres até de... moletom!

Outro dia, testemunhei a conversa entre uma italiana e uma francesa que se queixavam da forma como as americanas se vestem. Para uma italiana, o despojamento das americanas é revoltante, porque elas, italianas, se sentem constrangidas de exercitar sua natural faceirice latina. Realmente, realmente. Certa feita, passei a manhã de sábado sorvendo um cappuccino numa mesa de beira de calçada nas imediações da Piazza di Spagna, em Roma. O que assisti ali foi um dos mais glamorosos desfiles do gênero feminino da minha vida. Registrei, em especial, que as italianas apreciam entrar em justíssimas calças brancas.

Já as francesas exalam aquela elegância magra, aquela delicadeza decidida. Por algum motivo, acho que são um pouco brabas.

Já no interior americano, uma mulher que se enfeita muito durante o dia destoa das nativas e chama a atenção.

Claro, não estou falando de Nova York, por exemplo. Nova York, como Miami e Los Angeles, é uma cidade voltada para fora dos Estados Unidos. Você caminha pelas ruas da Big Apple e encontra mulheres paramentadas como se estivessem prestes a subir na passarela. Um dia, num final de tarde, perto do Relais de L’Entrecôte, avistei uma jovem longilínea, encarapitada em saltos de uns 15cm de altura, as longas pernas mal cobertas por uma minissaia de palmo e meio de largura, os olhos de felina examinando o mundo com enfaro, a maior cara de modelo. Eu a vi e fiquei nervoso.

Mas, nas pequenas cidades, agora, durante o verão do Hemisfério Norte, o que as mulheres fazem é meter-se em roupas sumárias, coisinhas mínimas mesmo, do tamanho da minissaia da modelo new yorker, com uma diferença importante: o gosto das americanas do interior é andar o dia inteiro com aqueles shorts de corrida. São shorts bem curtos e leves e de cores chamativas. Só que serão sempre comuns shorts de corrida, e elas os usam até para ir a bares. E, nas gramas das pracinhas, as mulheres estendem toalhas e se deitam de biquíni para tomar sol, tudo muito natural, não há nenhuma insinuação sedutora, nenhuma sugestão, nada.

Mas, entre a seminudez assexuada das americanas e a sensualidade aparatosa das italianas, prefiro a brasileira dada a atitudes como, numa primavera, por algum motivo, pintar um feixe dos seus cabelos negros de azul. Um mínimo atrevimento, uma rebeldia sutil, um rosnado de fêmea.


30 de julho de 2015 | N° 18242
DE FORA DA ÁREA | Cláudio Dienstmann

ESSES EUROPEUS NEGOCIAM BEM

Os europeus querem levar Aránguiz do Inter por 15 milhões de euros. Do Grêmio, querem Luan, por 10 milhões de euros, e Walace, por 8 milhões de euros. Não é pouco dinheiro: 15 milhões de euros dá mais de R$ 55 milhões, suficientes para comprar mais de mil carros zero, ou uns 500 apartamentos de um quarto, ou uma dúzia de casas em condomínios de luxo ou 10 apartamentos de cobertura com vista para o mar no Rio.

Por outro lado, quando contratam jogadores das mesmas funções de Aránguiz, Luan e Walace já em atividade na Europa, os clubes de lá pagam quatro, cinco vezes mais.

Nas últimas semanas, foi feita uma série de negociações assim. Por 35 milhões de euros, o holandês Memphis Depay foi do PSV para o Manchester United, o brasileiro Douglas Costa, do Shakhtar para o Bayern, o chileno Arturo Vidal, da Juventus para o Bayern, o belga Christian Benteke, do Aston Villa para o Liverpool. O Barcelona deu 40 milhões de euros pelo turco Arda Turan, do Atlético de Madrid, mesmo valor do marfinense Wilfred Bony, que saiu do Swansea para o Manchester City em meio à temporada passada.

O Bayer Leverkusen, interessado em Aránguiz, é especialista em comprar jogadores a baixo custo – sul-americanos em geral e brasileiros em particular. Usa por um tempo e vende pelo triplo ou mais. Foi assim com Zé Roberto, Jorginho, Emerson, Juan, Lúcio, Vidal. Os clubes holandeses, belgas e franceses são especialistas em repassar jogadores buscados na África: compram por pouco, vendem por muito para ingleses, italianos e alemães. Porto e Benfica lapidam sul-americanos e revendem com grande lucro (e nós é que nos consideramos espertos!)

Os sul-americanos sofrem concorrência de oferta dos países de segunda e terceira linha do futebol europeu: sempre existe talentos disponíveis na Croácia, Sérvia, Bulgária, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, e até na Ásia, Oceania, América Central e do Norte. No caso do pessoal do leste europeu, há maior facilidade de adaptação.

Para chegar a um preço melhor, os brasileiros e sul-americanos (com raras exceções) precisam primeiro fazer uma espécie de estágio – seja em países com menos tradição ou em clubes de segunda linha em grandes ligas, como Lúcio, Juan, Zé Roberto, Emerson, Douglas Costa, Cuadrado, Vidal, Roberto Firmino, Hulk, Fernandinho, Willian, Luiz Gustavo, Dante, Daniel Alves, Rivaldo, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, David Luiz, James Rodríguez, Luís Suarez, Cavani, Falcao García, Diego Costa, Marquinhos e Alexis Sánchez.

Azar dos clubes brasileiros: como no tempo do colonialismo marítimo, os europeus continuam negociando e se dando muito bem.