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sábado, julho 04, 2015



05 de julho de 2015 | N° 18215 
MARTHA MEDEIROS 

SUTIÃS

 
Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração.

Minha profissão traz poucas inconveniências e muitos prazeres, o que torna o saldo altamente positivo. Uma das coisas a celebrar é o contato que tenho com pessoas que, mesmo desconhecidas, estabelecem comigo uma intimidade enriquecedora. Foi o caso de uma garota (acho que ainda posso chamar uma socióloga de 45 anos de garota) com quem tive uma adorável conversa dias atrás, no Rio de Janeiro.

Ela me contou sobre seu primeiro casamento e sua primeira separação, do quanto ficou abalada, de como fez para se reerguer, de como foi o processo todo. Fez um relato comovente de tudo o que aconteceu, mas não pude deixar de ajustar o foco num detalhe rápido que ela mencionou, daqueles que a gente costuma deixar passar batido. Em meio ao turbilhão de emoções que ela narrava, me disse: Depois do fim, eu já nem sabia direito quem era, nunca usei sutiã e de repente comecei a usar.

Encontramos metáforas onde menos se espera.

Separação: tem desamparo maior? Uma aposta que parecia estar dando certo de repente começa a fazer água, alguém que para você era a pessoa mais importante do mundo perde o protagonismo, a vida estruturada se dissolve, o amor dá lugar à mágoa, e mesmo quando não há mágoa ainda assim existe um abismo para se atravessar antes de chegar ao outro lado. Você precisa reconstruir sua identidade, não é mais a esposa de, o marido de, o amor da vida de alguém.

As declarações não se sustentaram, as promessas não vingaram, o destino foi mais forte que a idealização: fez cada um seguir carreira solo. Depois de tanta luta, tanta negociação, tantas tentativas de manter o acordo, chega a hora em que é preciso entregar os pontos, não há mais o que fazer a não ser partir e tentar de novo com outro alguém, quando as forças voltarem.

Mas, até que elas voltem, quanto medo. Da solidão, da saudade, do rumo desconhecido. Você agora é um, não dois. Já não tem quem segure sua mão. Está solto. E essa soltura assusta. E se eu cair?

Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração. Não usá-lo sempre foi uma atitude libertária, até que, um belo dia, você descobre que a liberdade virou um bicho-papão e você voltou a ser uma menininha assustada. O que mais deseja é se sentir presa, segura, acolhida.

O desafio das separações é fazer com que voltemos a nos sentir confortáveis com a soltura dos dias, confortáveis diante da incógnita do futuro. Não sei no que os homens se seguram quando se separam (minto: sei, sim), mas grande parte das mulheres recomeça a vida emocional se segurando nelas mesmas. Só então, aos poucos, iniciam outra revolução, uma nova queima de sutiãs, a fim de formar uma identidade mais firme que a anterior.



05 de julho de 2015 | N° 18215 
CARPINEJAR

Invasores

– Já que ele não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.

Assim também esquece que ele jamais olhará novamente para sua cara. Tentar destruir a próxima relação de seu ex ou flerte postando mensagens ofensivas e insinuações na web ou até mesmo mandando prints de conversas antigas é atitude de recalcada. Desceu sem volta o seu espírito para o inferno mais remoto. Não há depois como salvar o respeito e a reputação. É gesto de megera, de bruxa, de burra, de psicopata, onde os fins justificam os meios.

Pode estar desesperada, louca, histérica, mas até o jogo da sedução é constituído de regras e etiqueta, não é um vale-tudo emocional, o que não é reciproco deixa de vigorar como realidade, cabe respeitar a decisão de sua companhia, mesmo que um dia tenha recebido juras. Nada de destituir a liberdade do outro, que tem todo o direito de reavaliar o trajeto, não querer o relacionamento e trocar de opinião. Nada de bancar a hacker e entrar em contas alheias em nome de uma dor-de-cotovelo.

Depois de perder o amor, é muito fácil perder o amor próprio e despencar para a grosseria.

Não é não, o não está a léguas de significar um charme, não é para insistir se não existe abertura, não é uma provocação, um desafio e uma oportunidade para provar o seu valor.

Se ele não quer ficar junto, não se rebaixe e, o mais grave, não busque rebaixar todo mundo. Não arraste inocentes para seu túmulo. Se está infeliz, não espalhe a infelicidade. Aceite a derrota e o fracasso com humildade. Não procure sofrer acompanhando a novela do amor recente nas redes sociais. Não fique investigando o perfil da nova namorada. Não faça comparações e conclusões distorcidas, não crie tumulto e fakes. Policial amador é criminoso.

Ele não quis permanecer a seu lado quando apresentou seu melhor, não é com o pior que mudará seu conceito. Compreensão e respeito são capazes de trazer alguém de volta, jamais mentira e invasão de privacidade. Isso serve para homens e mulheres.

Não provoque o desprezo. O desprezo é a paixão azedando, vinho virando vinagre, sem rótulo e safra para ser lembrado. Quando o sentimento acaba por uma das partes, é necessário ser amigo do tempo. O tempo cordial é a única esperança que resta.



05 de julho de 2015 | N° 18215 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Muita gente é quanto?

Primeira página de jornal francês, no dia em que escrevo este texto: apenas neste 2015, mais de 137 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo fugindo de algum horror em sua África natal – fome, guerra, perseguição religiosa e política, desemprego sem remissão. Deles, mais de 1,8 mil morreram antes de chegar ao destino, que era menos a Europa do que a tranquilidade de uma vida decente.

137 mil é muito? É muito, claro. Um fugitivo do horror já é o infinito, se a gente prestar atenção a ele como indivíduo, como alguém que respira como eu, se alimenta, dorme, sonha, transa, ralha com os filhos, torce pela seleção do país. Um desses que morre, então, aumenta o infinito para o impensável. Não sou dado a terrores noturnos, nem sou vítima severa de depressão, mas de vez em quando atravessa correndo o meu pensamento a sensação que deve tomar alguém querendo sobreviver em meio ao caos, e submergindo a ele. O horror, o horror.

Em 2014, houve 40.451 mortos no trânsito brasileiro (dados do SUS), e mais de 170 mil feridos. Reportagem da Folha de S. Paulo observa que em termos relativos à população foi um número animador, porque menor em 10% comparado ao ano anterior. É muito?

Quantas serão as mortes ligadas ao tráfico de drogas? Nem vou atrás dos números, que poderiam me levar a outros, como aqueles ligados a roubos, extorsões, sequestros, tudo em busca de grana imediata para o tráfico. (Números claramente subestimados, porque as classes confortáveis nem contabilizam mais essa perdas, salvo quando envolvem risco para a vida.) São gangues disputando domínio territorial, é a polícia enfrentando bandidos, é também a polícia, em muitas partes do Brasil, matando sem razão, matando “preventivamente”.

Nenhum desses três megaproblemas atuais tem solução fácil. O desespero dos refugiados mundo afora se liga a dimensões inescrutáveis da Grande Política mundial, em relação à qual o Brasil costuma ter posição hesitante, quando não omissa. Mas os dois outros, vamos falar sério, podem ser abordados de modo mais decidido entre nós. O trânsito no Brasil poderia ser muito menos assassino. Educação e punição, claro, mas também políticas gerais para estímulo de transporte coletivo. Quando é que vamos fazer isso a sério, se nem os corredores de ônibus para a Copa passada estão prontos?

Quanto ao mundo das drogas, não há mais argumento suficiente para manter este modelo repressivo. Esta semana, uma importante autoridade brasileira no setor, José Mariano Beltrame, secretário de segurança do Rio, o cara das UPPs, em visita a países europeus declarou, com todas as letras: é uma guerra perdida, irracional, sem sentido. Admirou Portugal, que descriminalizou todas as drogas, todas, e passou o assunto da esfera da polícia para a da saúde (está na revista Época). “Descriminalizando o uso, um dos efeitos é o alívio na polícia e no Poder Judiciário, que podem se dedicar aos homicídios, aos crimes verdadeiros”, disse.

Enquanto isso, nosso Congresso e nossa Assembleia discutem o quê, mesmo?

Enquanto isso, uma boa notícia, um presente: prezado leitor, copie aqui e cole lá o endereço http://ecoqua.ecologia.ufrgs.br/arquivos/Livros/CamposSulinos.pdf. A surpresa vai ser boa e grande: trata-se da versão em pdf de um livro, editado agora mesmo pela Rede Campos Sulinos e Editora da UFRGS, organizado por Valério de Patta Pillar, reconhecido professor da Ecologia da universidade, e Omara Lange, bióloga e fotógrafa, com apoio da FAPERGS (ei, governador, vai detonar também com ela?) e do CNPq (ei, ministro Renato, vai dar pra segurar a onda aí?).

São 18 capítulos, a maior parte dos quais ligados ao mundo dos animais e das plantas desse universo particular que são os campos do sul – há mesmo toda uma discussão sobre essa denominação, em contraste com outras, usadas até oficialmente, cujo uso não descreve com precisão a realidade dos campos sulinos e, como qualquer conceito inadequado, acaba mascarando muita coisa. E há textos de historiadores e geógrafos também, num esforço conjunto que justifica a existência da universidade.

E as fotos, meu caro. As fotos!


05 de julho de 2015 | N° 18215 
ANTONIO PRATA

A emenda de Hamurabi

Ontem, escrevi um artigo ponderado contra a redução da maioridade penal. Começava citando Durkheim, um dos pais da sociologia, para questionar as causas da violência e os desajustes do nosso país, décimo primeiro lugar entre os que mais matam, no mundo. Hoje, porém, reli e resolvi voltar atrás. Quem quer saber de Durkheim? Quem quer saber de sociologia? Quem quer saber de causas e desajustes? As pessoas querem é ver sangue, querem é programas policiais vespertinos na voz eufórica de um Marcelo Rezende ou qualquer outro desses Galvões Buenos da barbárie. Comecemos de novo, então, mais afinados com nosso tempo.

Comecemos com uma decapitação, como essas tão corriqueiras no Estado Islâmico e nos presídios brasileiros. O Estado Islâmico, mirim, exibe as cabeças em sites obscuros da internet. Nós, escolados, as exibimos na TV aberta, à tarde, sendo atiradas por cima dos muros, no colo de crianças e donas de casa. Ponhamos nossa decapitação num futuro próximo: comecemos com a primeira cabeça de um menor de idade, encarcerado junto a adultos, sendo lançada para fora de um presídio.

Excelentíssimo deputado que votou “sim” pela redução da maioridade penal, excelentíssima deputada que votou “sim” pela redução da maioridade penal: parabéns! Esta cabeça vos pertence. Aliás, vocês merecem estar lá, neste dia histórico. Deveriam ir até a calçada em frente ao presídio, como nessas inaugurações de obra. Deveriam inaugurar esta cabeça. Deveriam esticar uma fitinha verde e amarela em torno da cabeça e cortá-la. A fitinha, não a cabeça – a cabeça vocês já cortaram com seus votos.

Imagino um excelentíssimo deputado – aquele cuja inconfundível voz nasalada não pode reverberar para além das nossas fronteiras, sob o risco de ser calada pela Interpol – se gabando, diante das câmeras: “Foi o Maluf que fez!”. Não seria uma mentira completa, como tantas outras. Caso a redução seja a aprovada no Congresso e no STF, será uma obra do Maluf, mas junto à maioria do Legislativo e ao topo do Judiciário, em sintonia com 87% da população brasileira.

PT e PSDB não precisarão brigar, como sempre, nas últimas décadas, pela posse desta cabeça. Sem o apoio do PSDB, Eduardo Cunha não aprova nada. E sem o PT, claro, Eduardo Cunha sequer existiria para além da Guanabara. Eduardo Cunha é o tão sonhado elo entre os dois partidos – só que num pesadelo.

No texto que eu tinha escrito, aquele que joguei fora, eu expunha links com dados de alguns países para provar que mais violência por parte do estado não resulta em menos violência por parte dos criminosos, mas fui ler um pouco o que diziam os favoráveis à redução e descobri que isso não lhes importa. As neotietes do Talião não estão preocupadas em diminuir a criminalidade, elas querem é vingança, querem sangue, querem ver cabeças rolando, no meio da tarde, como esta que ora lhes ofereço. Olhem bem para esta cabeça, excelentíssimos deputados. Ela é o produto da emenda da Hamurabi que vocês estão cunhando – sim, cunhando – em nossa Constituição.

Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Lula, onde estão vocês? O que aconteceu com seus partidos, que jazem tão acéfalos quanto o corpo do menino, amarrado às grades da penitenciária, durante este interminável motim?


05 de julho de 2015 | N° 18215 
MOISÉS MENDES

Os maus perdedores

Eduardo Cunha é o mais assustador político brasileiro desde Fernando Collor. Seria, dizem, um exemplo de como a política pode ser deformada pela radicalização de condutas religiosas.

Outros o consideram mais uma imitação dos antigos coronéis. E há quem pense que é apenas um ressentido, investigado por corrupção, inconformado com o governo que não lhe teria dado cobertura para fugir das garras da Polícia Federal e do Ministério Público – como se isso fosse possível.

O presidente da Câmara é mais do que tudo isso. É a cara com olheiras do Brasil dos maus perdedores. Cunha avisou, desde que chegou ao trono, que não admitiria derrotas e venceu tudo. Deu seu maior show agora, na votação da redução da maioridade penal.

Dizem que seria o líder da pauta conservadora que assombra o Brasil. Não é. Ele é o preposto. Estão na pauta dois temas que poderão ser votados logo pelo Congresso. Um é o chamado Estatuto da Família, que ameaça tirar dos casais homoafetivos o direito de serem reconhecidos como tal e de adotarem crianças (uma decisão de 2011 do Supremo).

O outro é a tentativa de fuzilamento do Estatuto do Desarmamento, em vigor há 12 anos, para que sejam facilitados o porte e a posse de armas. A turma que transformou religião em negócio lidera a primeira pauta, e a bancada da bala comanda a segunda. Cunha, sentado no trono, é o viabilizador desses anseios reacionários.

Maus perdedores são bem articulados. Vão tentar fazer com que o país retroceda ao tempo em que um casal era apenas o formado por um homem e uma mulher – e em que qualquer um poderia andar com uma arma (legalmente) na cintura. O país idealizado por eles é o que poderá encarcerar adolescentes e legitimar em lei a discriminação de gays.

Os maus perdedores incomodam-se com a inclusão social de quem, além de micro-ondas e automóveis, passou a adquirir formação e conhecimento. O mau perdedor está desconfortável com a possibilidade de repartir espaços e privilégios de classe média com os que chegarão logo ao mercado com diplomas de doutor.

Zero Hora já mostrou quem são os maus perdedores nas universidades. Vergonhosamente, são também professores que se negam a admitir a afirmação social dos cotistas. Porque a universidade, dizem, seria o espaço das elites, e a elite, como diziam os aristocratas franceses do século 18, somente será elite se for sempre a mesma.

A aristocracia acadêmica decadente do século 21 incomoda-se com os cotistas, com nordestinos, haitianos, com beneficiados do Bolsa Família, bolsistas do ProUni. Os maus perdedores entusiasmaram-se com a possibilidade do golpe, poucos meses depois da eleição, planejam todos os dias o impeachment e continuam fazendo a escolha seletiva dos bons e dos maus corruptos. Quase todos aplaudem Cunha, alguns às escondidas.

Não nos enganemos. Eduardo Cunha não é manobrado pelo poder dos evangélicos. Cunha foi um dos que politizaram os púlpitos e se aproveitaram da estrutura das igrejas e de seus fiéis. Empoderou-se para ser cúmplice de todos os maus perdedores e para eles trabalha.


Cunha não é o líder dos reacionários. É o capataz a serviço deles, porque entendeu suas demandas. Mas será preposto somente até o dia em que cometer um erro e for deixado à deriva, como a direita já fez com Fernando Collor.


05 de julho de 2015 | N° 18215
L. F. VERISSIMO

Carinho

Um pouco de história antiga. Ninguém sabia explicar como um copo do Hotel Everest, de Porto Alegre, tinha ido parar na nossa casa. Até que alguém se lembrou: o Vinicius! Ele e o Toquinho estavam se apresentando na cidade e tinham ido fazer seu show para o meu pai, a domicílio. O Vinicius tinha o hábito de carregar sempre um copo de uísque onde quer que fosse. É possível que até hoje exista um copo da nossa casa no Hotel Everest.

O uísque foi o combustível de uma época, no Brasil. Bebia-se outras coisas, mas nada significava o mesmo que um uisquinho, nada merecia tanto o diminutivo carinhoso. Uma das cenas engraçadas daquele documentário sobre o poeta que fizeram há alguns anos é a do Vinicius e do Tom escorando-se mutuamente e lamentando o que as mulheres tinham acabado de fazer com garrafas de uísque. Garrafas cheias, escondidas para que os dois não bebessem mais. A insensibilidade. A audácia. O ultraje!

Contavam que depois que os médicos proibiram o Rubem Braga – acho que era o Rubem Braga – de beber uísque, ele enchia um copo com gelo e ficava sacudindo ao lado da orelha, só para ouvir o barulho. O barulhinho. O afeto era tanto que o som do uísque dispensava o uísque. De certa maneira, toda aquela época foi vivida assim, com um copo de uísque sacudindo ao lado da orelha. Mesmo quando não havia o uísque, havia a trilha sonora.

A gente vê aquele filme com um certo ufanismo – que país talentoso, né? – e uma certa tristeza. Por quê? Pela perda do Vinicius, do Tom e de tanta gente que partiu, claro, mas não é só isso. O Chico, o Caetano, o Gil, o Edu, o Ivan e os outros continuam aí, cada vez melhores, a garotada (como se vê no filme) é muito boa, o que é que falta? Não deve ser o uísque. Com todo o seu simpático folclore, a cultura do uísque fez seus estragos em fígados e carreiras. Talvez sejam apenas os nossos 20 anos que também se foram. Ou então uma ideia de país que se perdeu.

A não ser que se quisesse enfrentar uísques de fundo de quintal – e algumas marcas nacionais eram mortais –, o uísque era uma bebida cara. O escocês legítimo era para quem podia, e eu decididamente não podia. Tomava Cuba Libre (Coca-Cola com rum, ou o que passava por rum). E tomava demais. Só não me tornei alcoólatra porque minhas ressacas eram tão catastróficas, que fui obrigado a escolher, acordar todos os domingos num inferno biliar, depois de um sábado de excessos, ou continuar vivo.

Quando finalmente tive condições de beber uísque bom, o uísque tinha saído de moda. Não ficou nem o barulhinho do gelo num copo vazio. E o que, no Brasil de hoje, merece um diminutivo carinhoso?




RUTH DE AQUINO
03/07/2015 - 22h18 - Atualizado 03/07/2015 22h25

Caindo na real

Grande parte da população quer hoje pena de morte, armas, ditadura – e se lixa para os direitos humanos

Chego ao Brasil. Pego táxi de cooperativa no Aeroporto Internacional Tom Jobim, nosso sempre velhusco Galeão, no Rio de Janeiro. Puxo conversa com o taxista. Seu nome não é revelado, por motivos óbvios. Ele não sabe que sou jornalista. O desabafo dura a corrida inteira.

“A economia tá parada, só um ou outro avião vem cheio. Nossa economia vive da corrupção. Sem propina, paralisa. Meu faturamento caiu 40%. Tínhamos na cooperativa um contrato com a Odebrecht. Foi cancelado agora. Tudo aqui neste país você precisa dar 10% a mais. Eu tinha de pagar também para a Odebrecht. Nossas corridas eram todas superfaturadas para o diretor que pegava o táxi levar o dele.”

“E a violência? Tá aqui em cima, olha (indicando o painel do carro, junto à janela), bem à vista, meu celular falso, para eu dar pra vagabundo. Todo dia tem algum arrastão na Linha Vermelha. Na minha casa, no Méier, não posso esperar o portão da garagem abrir para eu entrar. Já tive três carros roubados assim, à mão armada. Três.”

“Recuperei os carros roubados, mas tudo depenado. E não são os bandidos que depenam não. É a polícia. Eles tiram, antes de devolver, o tal kit PM. Rodas, rádio, tudo o que der para tirar. E a gente, para recuperar, precisa pagar à polícia a taxa de resgate. E a mídia não fala nada disso. Só sabe mesmo quem tá na rua, trabalhando.”

“Depois as autoridades vêm me falar das UPPs. Isso aí ninguém quer. Nem os bandidos nem os policiais. Tenho um sobrinho que saiu do Exército e não quer ficar em UPP. O que ele diz é: ‘Tio, nós somos humilhados ali. Jogam água, jogam mijo na gente. Não podemos dar um tiro que a gente vai preso. Ficamos ali só gastando combustível e enxugando gelo’.”

“Isto aqui, se não ficar igual à China, não vai dar certo. Tem de ter uma ditadura rígida, pena perpétua, morte. Se os caras não ficarem com medo, vão continuar. Tem corrupção em tudo que é lugar. No Detran, nas delegacias, nos batalhões, nos hospitais. E o governo leva também o seu, por trás de toda essa engrenagem. Isso não vai acabar nunca. A não ser que a gente adote a seguinte regra para todo mundo: escreveu, não leu, o pau comeu.”

O taxista está revoltado. Com a Odebrecht, com a PM, com os governos, com os bandidos. É duro ouvir. Nem falo nada. Não adianta.

Lá de fora, acompanhamos a novela atual de maior audiência, o petrolão. Mais ex-diretores da Petrobras no xilindró. Prejuízo da corrupção sobe aos píncaros, R$ 19 bilhões. Surgem golpes simplórios contra quem mais necessita: promessas falsas de emprego, tirando R$ 20 de um, R$ 50 de outro. Os sanguessugas pagam fiança e respondem em liberdade. Assaltos a banco, tiroteios nas favelas, falência de empresas, novos aumentos de combustível e luz.

Lula atordoado, atacando Dilma. Dilma atordoada, atacando delatores. Congresso atordoado, vaivém na redução da maioridade penal. E toma mais provocação do Senado – aprovado o reajuste de 59% a 78% para os servidores do Judiciário, com impacto de R$ 25,7 bilhões nos cofres públicos. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os populistas cavaleiros do apocalipse, se unem por um único credo: hay gobierno, soy contra. Veta, Dilma, veta.

Enquanto isso, a mãe dos pobres resolve economizar R$ 8 bilhões em cima do abono salarial, devido neste semestre a quem ganha até dois salários mínimos. Devo, não nego, pago quando puder. Tudo pelo ajuste, para fechar as contas em 2015. Injusto.

Continua a esquizofrenia do país duplo. De um lado, ferro na iniciativa privada, desestímulo a quem quer abrir um negócio, burocracia enlouquecedora, impostos altíssimos cobrados de quem produz e sem beneficiar o povo. Do outro lado, benesses para servidores públicos, que já dispõem de aposentadoria integral e vitalícia.

O que mais choca, no entanto, é a miséria de nossa Educação. O relatório do Movimento Todos pela Educação é desolador. Mais de 2 milhões de crianças ainda estão fora das escolas. Em regiões carentes, as escolas são precárias, e o ensino de baixa qualidade. Entre 15 e 17 anos, 1,6 milhão abandonam os estudos. Só 9,3% dos que concluem o ensino médio sabem matemática. Só 27,2% dominam o português. Na outra ponta do ensino, a maior universidade federal do país, a UFRJ, com greve e obras paradas por corte de verbas, ameaça fechar em setembro, sem condições de pagar por limpeza, segurança, portaria.


Só confiarei num presidente que mude essa tragédia, de verdade. Uma maciça parcela da população (e não é a elite) quer hoje pena de morte, armas, ditadura e se lixa para direitos humanos. Também é resultado de falta de Educação. Cair na real não precisa ser cair no abismo. Acorda, Brasil.


04 de julho de 2015 | N° 18214 
NÍLSON SOUZA

QUER QUE EU DESENHE?

Tenho inveja saudável do Fraga. Não exatamente dele, que é um companheiro de trabalho simpático e competente. Invejo sua arte, seu talento para desenhar e caricaturar. Sou um analfabeto do traço. Não consigo me fazer entender nem mesmo quando tento desenhar aquele gato de costas, dois círculos, duas orelhas e um rabo em esse.

Mas adoro cartuns e tirinhas.

Sou fã incondicional de Mafalda, Lucky Luke, Asterix e Iznogoud, o Grão-Vizir que só tem um objetivo na vida: ser califa no lugar do califa. Ah, como eu gostaria de ser Fraga no lugar do Fraga. Em vez de ficar catando letrinhas para explicar que o objetivo desta crônica é unicamente reverenciar os desenhadores, eu faria um cartum matador. Como aquela garotinha da anedota que se esmerava num desenho em aula e foi questionada pela professora sobre o que estava fazendo.

– Estou desenhando Deus – disse.

Quando a professora argumentou que ninguém sabe como é Deus, ela respondeu prontamente:

– Já vão saber!

Pois o meu cartum imaginário homenagearia todos os mestres do traço que conheço, o Iotti, o Marco Aurélio, o macanudo taurino Santiago, o Edu dos nossos editoriais, o Gonza e mais uma penca de gente talentosa que dá sentido e graça à vida com um lápis de desenho ou um mouse de computador.

Como não tenho essa competência, sugeri à nossa diretora Marta Gleich a promoção desse concurso de cartuns que acaba de revelar novos e extraordinários talentos. Fiquei muito feliz com os resultados. Votei no cara do drone competindo com a cegonha na entrega de bebês. Não foi o vencedor nem entrou entre os três primeiros. Não importa. Os escolhidos pelos leitores também são muito qualificados, como vários outros que tiveram a oportunidade de mostrar o que fazem. Na verdade, ganhamos todos com a verdadeira galeria de arte e humor produzida pelos candidatos.

Fiquei tão entusiasmado, que já comecei a praticar novamente o meu gato de costas. Se não melhorar sozinho, vou pedir umas lições para o Fraga.


04 de julho de 2015 | N° 18214 
DAVID COIMBRA

O último desejo

Entre todas as ocorrências extraordinárias que se deram em 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas foram derretidas e a História mudou para sempre, entre tudo aquilo que o mundo jamais esquecerá houve um naco de fato, tão somente uma frase, que foi, na verdade, uma grandiosa demonstração do que há de melhor na humanidade.

Foi o que disseram os que iam morrer.

Pensei nisso ao ler a robusta reportagem que será publicada hoje no site e amanhã na versão impressa de Zero Hora, de autoria da minha amiga Larissa Roso. A matéria intitula-se “Últimos desejos”.

Durante um ano, Larissa acompanhou pacientes com câncer que, em determinado momento, descobriram que a morte estava próxima. A esses pacientes, não era mais dada a esperança de sobrevida, apenas a certeza de que os médicos trabalhariam para que a morte lhes fosse leve. Quer dizer: trabalhariam para que houvesse o mínimo de dor e o máximo de conforto. Uma das formas de confortá-los era, exatamente, concedendo-lhes o último desejo. Ou, pelo menos, tentando lhes conceder.

Larissa se surpreendeu com a natureza singela e sentimental dos desejos. Uns queriam apenas dormir na própria cama, até a noite do sono derradeiro. Outros, a chance de afagar seus bichos de estimação. Houve quem ansiasse pelo prazer de acomodar-se numa cadeira no pátio de casa para sorver um chimarrão.

Alguns sonhavam em preparar um jantar para as pessoas que amavam, uma comidinha caseira, um galeto, uma massa à carbonara... Uma mãe desejava experimentar de novo a sensação de pentear os cabelos da filha. Um filho só pensava em rever o pai, que não via há mais de 20 anos.

Em todos, a mesma vontade de dar, mais do que receber. A mesma ânsia de amor e de paz.

Eu sabia disso, Larissa. Sabia.

Por causa daquele 11 de setembro de 2001.

Naquela manhã, alguns passageiros dos aviões sequestrados sabiam que iam morrer, assim como muitos dos homens, mulheres e crianças que ficaram presos no incêndio das Torres Gêmeas. Estávamos em 2001. Praticamente todas aquelas pessoas tinham um celular ao alcance da mão. E foi ao celular que elas acorreram. Ligaram para seus afetos.

Tinham poucos segundos para exprimir seus últimos desejos, dar suas últimas determinações, fazer confissões, talvez, ou um desabafo final. E todas elas, praticamente sem exceção, disseram a mesma frase, com pequenas variações. Todas aquelas pessoas, no momento mais importante de suas vidas, que é o momento derradeiro, só pensaram em uma coisa: em falar com outra pessoa e declarar, simplesmente: “Eu te amo”.


04 de julho de 2015 | N° 18214 
MOISÉS MENDES

Que tempos!

Ah, Maju, o que seria de todos nós, em meio ao drama dos que fogem do Estado Islâmico, das denúncias do mais novo delator da Lava-Jato, do aumento da luz e da crise na Grécia, se não fossem as tuas previsões do tempo no Jornal Nacional?

Tudo o que você não merece é que as nuvens empurradas pelos racistas de um lado para outro parem agora sobre a tua cabeça. Que venham as frentes frias, as ressacas, as ventanias, mas não o preconceito incapaz de assimilar direito até mesmo a ascensão da mais bela moça do tempo de todos os tempos da TV brasileira.

A mais bela, a mais criativa, a mais surpreendente e – vou dizer, sem medo de racistas – a mais brasileira. A TV precisava de alguém que falasse do tempo com o atrevimento e a leveza de Maju, com seu sotaque brejeiro e a sensação boa de que está falando de garoas na sala da nossa casa. Que bom, nesses tempos sombrios, que a renovação do jornalismo do tempo na TV tenha sido feita por uma negra.

Dia desses, você disse: teremos no Sul uma frente fria que traz aquela massa de ar polar na cola. E depois falou, quase cantando: e chove chuva, chove sem parar.

Como alguém pode insultar quem mistura tempo, literatura, música e humor? Hoje, eu faço a previsão: chegará o dia em que os racistas enfrentarão um longo período de seca, Maju. Que teu sábado seja ensolarado.


04 de julho de 2015 | N° 18214 
CLÁUDIA LAITANO

Velhos amigos

Gilberto Gil e Caetano Veloso abriram na semana passada, em Amsterdã, uma histórica turnê em comemoração aos 50 anos de carreira – o espetáculo deve chegar a Porto Alegre no final do mês de agosto. Nos trechos do show já disponíveis online, vemos os dois velhos amigos sentados lado a lado, banquinho e violão, revisitando sucessos de um e de outro em versões delicadas e intimistas.

O show é apenas isso, o que já seria bastante, mas é muito mais. A comemoração de um dos encontros mais importantes da história da música popular brasileira é também a celebração de uma amizade de juventude que chega sólida e renovada à velhice – a voz de um cobrindo os silêncios do outro, o repertório de olhares que revela uma cumplicidade que dispensa roteiros ou jogadas ensaiadas, o carinho e o cuidado em cada gesto. Uma amizade que se renovou e reinventou ao longo dos anos – assim como suas longas e produtivas carreiras, que, honrando o passado, jamais se tornaram reféns dele.

Nos últimos 50 anos, Gil e Caetano sempre estiveram próximos do seu público. Houve épocas em que apareciam na televisão com mais frequência e suas músicas tocavam mais no rádio, mas nunca sumiram de vista ou perderam a relevância – da mesma forma como raramente frequentaram as listas dos discos mais vendidos. Por caminhos distintos, Gil ingressando na política, Caetano escrevendo, ambos acabaram ampliando seu poder de influência para além da esfera musical.

Ao contrário dos artistas que fazem muito sucesso em pouco tempo, que são como paixões avassaladoras e de difícil manutenção, os dois baianos construíram um longo e estável casamento com o público, o que talvez explique por que, mesmo longe das listas de mais vendidos, continuam se manifestando e sendo ouvidos sobre todos os assuntos possíveis – da redução da maioridade às novas estrelas do funk, da autorização prévia das biografias à Lei Rouanet – como se representassem não apenas a eles próprios e suas obras, mas uma determinada visão de mundo que sempre vale a pena levar em conta, mesmo para discordar.

Reconhecidos pela crítica e pelo público, Gil e Caetano fazem parte do que se pode chamar de cânone da MPB – aquilo que todos concordamos que se tornou um patrimônio do país. Conquistaram esse status não apenas pela explosão criativa do Tropicalismo e pelo que produziram nas últimas cinco décadas, mas pelo papel que ocupam na história cultural do Brasil.

Artistas como eles, que conseguem sobreviver aos humores do mercado e às oscilações da fama, porém, são uma minoria. Podemos debater quem é mais famoso, quem vende mais, quem dialoga melhor com o público e quem está realmente criando algo de novo e original, mas a disputa definitiva, na arte, é aquela travada entre o que passa e o que permanece. A posteridade de um artista, ao contrário do que muitos imaginam, não é definida pela devoção dos fãs, pela conta bancária ou pelo número de seguidores no Twitter. Quem decide quem sai do jogo e quem continua na disputa é um único jurado: a História.

sexta-feira, julho 03, 2015


Jaime Cimenti

Uma das maiores aventuras do Ocidente

Não por acaso, certos romances se tornam sucesso de público e de crítica. Não por acaso, o tempo e os leitores seguem sendo sempre os melhores juízes. É bem o que ocorreu e segue ocorrendo com A guerra de Troia: Uma saga de heróis e deuses (L&PM Editores, 320 páginas, R$ 39,90), do consagrado professor doutor universitário e colunista do jornal Zero Hora Cláudio Moreno, também autor de vários livros sobre gramática, redação, crônicas sobre a Antiguidade e criador do site www.sualingua.com.br.

O romance histórico foi originalmente publicado em 2004 com o título Troia: O romance de uma guerra. Uma de suas obras mais conhecidas, 100 lições para viver melhor: Histórias da Grécia Antiga recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura 2009.

A guerra de Troia tem sido considerada, sem qualquer exagero, uma das aventuras máximas da cultura ocidental e a mais lendária das guerras em todo seu horror e sua glória. O romance histórico de Cláudio Moreno, que desde seu lançamento, há pouco mais de 10 anos, tem merecido ótima recepção crítica e de público, destaca e ilumina esta verdade e as reedições da narrativa, inclusive em formato de bolso, neste curto espaço de tempo e demonstram, justamente, a força do tema e do trabalho literário.

No romance, uma belíssima mulher abandona o marido e sua terra para seguir seu coração e um novo amor. Mas os personagens dessa história não são pessoas comuns: a mulher é Helena, filha de Zeus, a mais bela dos mortais; o marido traído é Menelau, o belicoso líder grego; e o jovem rei de Troia. Tem início a Guerra de Troia, que dura 10 intermináveis anos, entre gregos e troianos, cada lado sendo apoiado por divindades do Olimpo, às vezes tão vaidosas e cruéis como os mais simples mortais.

Na apresentação, o professor e escritor Luís Augusto Fischer escreveu: neste relato único, Cláudio Moreno apresenta as histórias do ciclo troiano não de forma fragmentada, como costumam chegar até nós, mas desde o início, em ordem de acontecimento e respeitando as relações de causa e consequência. O resultado é um romance de aventuras de tirar o fôlego, personagens ricos, complexos e apaixonantes, e a devolução do status épico a esta primordial lenda sobre honra, violência, paixão e poder.

Como se sabe, foi ao Norte do Mediterrâneo, na bacia do Mar Egeu, que ocorreu a Guerra de Troia, uma das mais importantes da história. Muito sangue banhou as areias, muitos episódios aconteceram. Alguns dos maiores heróis, como Ulisses e Agamenon, chefe da armada grega, participaram. O furioso Aquiles e o honrado Heitor, príncipe de Troia, os mais festejados guerreiros da Antiguidade, pereceram nas batalhas. No Olimpo, os deuses digladiavam, manejando a vida dos mortais.

Enfim, os leitores podem unir o prazer da leitura de uma boa história com informações sobre uma guerra monumental e muito sobre o imortal mundo grego.
A propósito...

Há quem diga, brincando, é óbvio, mas com aquele humor um tanto quanto negro e tão próprio e adequado aos dias de hoje, que se Filosofia desse certo, a Grécia não estaria nesta situação econômica terrível que está, com bancos fechados, crise política e tal. Humor à parte, a filosofia, a cultura, a história, a literatura e a mitologia gregas resistem bravamente ao tempo e, patrimônio universal que são, vão ultrapassando gerações e milênios e sendo objeto de estudos, narrativas, "releituras", revisões e muita coisa mais. É bem o caso do romance histórico A guerra de Troia do professor Cláudio Moreno.


As vidas e os mundos de Antônio Carlos Côrtes
DIVULGAÇÃO/JC

Bailarina do sinal fechado apresenta 80 crônicas originalmente publicadas em jornais

Quantas vidas podemos viver? Em quantos mundos podemos estar? Quantos podemos ser? Fico pensando nestas perguntas depois de ler as crônicas de Bailarina do sinal fechado (Palmarinca, 102 páginas, accortes@ig.com.br), do advogado, radialista e homem de cultura Antônio Carlos Côrtes.

Bailarina do sinal fechado apresenta 80 crônicas originalmente publicadas em jornais. A arte da capa é do artista plástico Vinícius Vieira. O texto que inspirou o título da obra foi criado a partir da observação de uma vendedora de jornais que serpenteava o trânsito em meio a carros e motos, com graça de porta-bandeira ou bailarina, como Ana Maria Botafogo.

Côrtes formou-se em Direito pela Ufrgs em 1976, além de radialista destacado há décadas, foi conselheiro e presidente do Conselho Estadual de Cultura e atua fortemente na área cultural e no movimento negro, entre outras atividades.

Na apresentação de Bailarina do sinal fechado, Alcy Cheuiche escreveu: "quanto mais nos aprofundamos num tema, mais simples e inteligível será a nossa narrativa. Maior exemplo disso é O velho e o mar, de Hemingway, que lhe deu o Nobel de Literatura. Penso nisso ao concluir a leitura desse livro, uma coletânea de crônicas que nos emociona, nos diverte e nos obriga a meditar com profundidade sobre os temas abordados".

É verdade. Ao falar de samba, Carnaval, de liberdade e do Jornal do Comércio (pg. 94), de Negra Angela e Alexandre Rodrigues (pg. 58), de cultura agonizante, Copa do Mundo, holocausto, Lupicínio Rodrigues, 40 anos do Grupo Palmares, advocacia preventiva, vuvuzela, Bar dos Petiscos, Ospa, elevação da autoestima, busca do texto perfeito e tantos outros temas, Côrtes mostra, ao mesmo tempo, simplicidade e profundidade, mostra como vive tantas vidas, tantos caminhos e como deixa sua sensibilidade e sua inteligência se envolverem com pessoas, temas e cenários os mais diversos.

Cronista nato, daqueles que não se limitam a produzir textos somente a partir de leituras, computadores e gabinetes, Côrtes nos leva ao Odeon, ao Tuim (com ou sem refrigerantes, como quiser), ao Naval e a outros lugares. Também fala das relações entre cultura, Carnaval, Ospa, religião e outras coisa mais.

Sintetizando, o autor escreveu que sem a vendedora de jornais, a bailarina, nada aconteceria. Que sem seu trabalho de distribuir jornais, suas observações de cronista do macro para o microcosmos, tentando entender o comportamento dos humanos, de nada adiantariam. Acho que o título foi bem escolhido, por alguém que prestigia o saber acadêmico, mas valoriza a cultura popular. Sabe tudo, o Côrtes.


03 de julho de 2015 | N° 18213 
DAVID COIMBRA

A entrevista com Sartori

Fiz uma alentada entrevista com o governador Sartori, ontem à tarde, por Skype.

Por Skype, veja só.

Sou um adepto da ciência e da tecnologia. Pense: a distância entre Porto Alegre e Boston, em linha reta, atravessando todo o Brasil, parte do Oceano Atlântico e todos os Estados Unidos, do sul da América do Sul ao norte da América do Norte, essa distância resulta em exatos 8.311 quilômetros. E conversei durante quase uma hora com o governador como se estivesse ao lado dele, na ala residencial do Palácio Piratini.

Viva a ciência. Viva a tecnologia.

Sartori estava bem-humorado, como sempre. Ele é um homem bem-humorado.

Havia três questões, nessa entrevista, que me interessavam mais do que todas. Em primeiro lugar, queria saber se os aprovados nos concursos da Brigada Militar e da Polícia Civil seriam nomeados neste ano. Como venho dizendo, a segurança pública é provavelmente a área que mais inquieta os gaúchos, hoje em dia. As pessoas estão às franjas do pânico.

Bem. As notícias não são boas. Sartori não vai nomear ninguém em 2015. “Não posso contratar mais gente, se estou tendo dificuldades para pagar os que já estão trabalhando”, disse. E pediu compreensão da sociedade para a contingência.

Mas esses mesmos aprovados deverão ser chamados no ano que vem. Sartori lembrou que um concurso vale por dois anos, podendo ser prorrogado para outros dois.

O segundo ponto que mais interessava era um tema que ele abordou durante a campanha e que, me pareceu, passou ao largo, ninguém prestou muita atenção: Sartori havia insinuado ser contra a eleição para diretores de escolas. Perguntei a respeito, e ele deixou claro que não é exatamente um apreciador dessa instituição, pelo menos não como ela se apresenta hoje. Mas não vai acabar com a eleição para diretores. Vai, apenas, exigir que os diretores tenham curso de gestão escolar, o que já está sendo feito na prática e deve virar lei.

Finalmente, o terceiro ponto que me despertava mais curiosidade era se parte do Estado será ou não vendida.

Será. Não em 2015, mas em 2016 haverá consultas à população possivelmente já nas eleições municipais. Essas privatizações têm de passar por plebiscitos, e Sartori terá de promovê-los, ou contornar a exigência com parcerias e consórcios. Neste ano, ele prefere não tocar nessa área, porque, como o mercado está recessivo, nenhuma venda deveria alcançar bom preço.

Conheço Sartori há mais de 20 anos. Percebo que ele já tem o domínio da situação, mas sabe que mudanças profundas só são realizadas com rupturas profundas, e rupturas profundas produzem profunda dor. Sartori sempre tenta evitar a dor, mas agora isso é impossível.

Muita gente perderá status e privilégios, muita gente ficará ressentida. As medidas de que o Estado precisa não tornarão o governador mais popular. Ao contrário.

Sartori já está se preparando para essa dura etapa do seu governo. A partir do próximo verão, talvez, ele sabe que terá de causar dor.

Na edição de sábado de ZH, confira a entrevista completa com o governador. Em vídeo, assista a trechos em zhora.co/entrevistaSartori.


03 de julho de 2015 | N° 18213 
MOISÉS MENDES

O bico de 60 watts

Morelli, o escritor do Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, reflete sobre a ancestralidade, os mortos e a perenidade de algumas coisas bem antigas enquanto caminha com uma vela acesa pela casa. Leva a mão à frente, para que o vento não apague a chama, e imagina quantas vezes esse gesto teria sido repetido pelos antepassados.

E pensa em coisas que se perderam, como a cômoda de cânfora e as trempes de ferro, as valsas dos anos 1920 e as polcas. Agora mesmo, Morelli poderia dizer que até as lâmpadas incandescentes de 60 watts vão desaparecer, enquanto as velas serão eternas.

Com o fim das antigas lâmpadas de 60 watts, desaparece um gesto. Não se verá mais alguém sacudindo uma lâmpada para saber se está queimada mesmo. Se estiver, o filamento de tungstênio estará rompido e não há o que fazer. Sem o filamento, uma lâmpada é apenas uma pera de vidro.

Você pode achar que eu me despeço da lâmpada agora aposentada sabendo tudo do tungstênio. Mas não sabia nada até ontem, quando fui pesquisar no Google o que era afinal aquela molinha que fica incandescente e dá sentido a uma lâmpada. Aquilo é o filamento. É feito de tungstênio, um metal do qual nunca tinha ouvido falar.

Quantas vezes ouvimos o barulho da molinha de tungstênio solta no vidro. Mas, em nome da economia, não há o que lamentar. Até porque a baixa duração das lâmpadas ultimamente nos faz concluir que havia uma queda na qualidade do tungstênio.

A lâmpada incandescente junta-se ao pneu com câmara, aos óculos bifocais com linha divisória para perto e longe, à galocha, à camisa de ban-lon e ao Orkut. Sobrevivem o saca-rolhas, a agulha, o martelo, o serrote, a pá, o garfo, a faca, o lampião.

Mas nada vai durar tanto quanto a vela, como a que Morelli acendeu só para experimentar as sensações da ancestralidade. Uma vela nos devolve à memória de tormentas, de conversas que só o escuro imprevisto retira dos cantos e dos cheiros que só o espalmacete tem.

Se você não sabe o que é espalmacete (que o dicionário diz ser espermacete), nunca entenderá o que o Morelli do Cortázar sentiu. Procure saber, porque daqui a pouco talvez não existam mais o Facebook, o smartphone e a lâmpada de LED, mas alguém andará pela casa com um toco de vela na mão.

quinta-feira, julho 02, 2015



02 de julho de 2015 | N° 18212
POR BAIXO DA PELE

A ARTE GANHA CORPO

EM CARTAZ A PARTIR DE HOJE no shopping Iguatemi, em Porto Alegre, exposição Human Bodies Maravilhas do Corpo Humano quer mostrar nossa anatomia e conscientizar sobre os efeitos de hábitos ruins

Como em uma grande aula de anatomia aberta ao público, corpos completos e órgãos reais estarão expostos a partir de hoje em Porto Alegre. Graças a um processo chamado plastinação (leia mais nas páginas 32 e 33), esses cadáveres permanecem inodoros e rígidos como manequins, sem sinais da decomposição a que estariam naturalmente sujeitos. O resultado é a mostra internacional Human Bodies – Maravilhas do Corpo Humano, que em 2009 passou pelo BarraShoppingSul e retorna para mais uma temporada, agora no Shopping Iguatemi.

Sem pele e sem gordura, o corpo humano pode ser visto a olho nu – uma visita tridimensional a órgãos e ossos, da cabeça aos pés. O objetivo, além de educar, é conscientizar: vendo os efeitos da obesidade (o estômago dilatado) e do tabagismo (o pulmão enegrecido), por exemplo, o público passaria a se preocupar mais com a própria saúde.

– É uma grande homenagem à vida. Se você conhece seu corpo, passa a cuidar melhor dele. E, como quase todas as estruturas expostas têm algum órgão afetado, chamamos a atenção para a necessidade de alimentação saudável e de fazer exercícios físicos – explica o gerente da exposição, Suderlan de Oliveira Gomes. – O intuito é conscientizar, não assustar – acrescenta.

Os corpos do acervo inédito que vieram a Porto Alegre são de chineses que, segundo a organização, optaram por doar seus cadáveres. Muitos escolhem como desejam ser mostrados, e a exposição traz um tema em comum: o esporte. Lançamento de dardos, tênis, esgrima e balé estão entre as atividades representadas, cada uma em posições que destacam aspectos diferentes do corpo.

Espécies de animais também estarão expostas, e as placas que acompanham cada peça destacarão semelhanças e diferenças com o corpo humano. A visita não é guiada – cada um pode fazer seu próprio caminho –, mas monitores poderão tirar as dúvidas ao longo de toda a mostra.

MOSTRA JÁ PROVOCOU MISTO DE ADMIRAÇÃO E REVOLTA

Criada em 1995, no Japão, Human Bodies já foi contestada em alguns países. Quando revelada ao público, a técnica provocou mistos de admiração e revolta: ao mesmo tempo em que os corpos atraíram pessoas de todas as idades interessadas na anatomia, visitantes insatisfeitos chegaram a destruir cadáveres e condenar a exposição no Reino Unido, no Canadá e na Rússia.

A versão que chega a Porto Alegre procurou evitar polêmicas. Para cá, não vêm, por exemplo, os corpos de um casal em posição de cópula, motivo de choque quando anunciado para uma mostra em Berlim, em 2009. Nada, também, da mulher grávida com o feto exposto, alvo de protesto no Reino Unido em 2002.

Como todos os detalhes dos doadores são mantidos em sigilo, a origem dos cadáveres é desconhecida. A preocupação ética também é uma constante. O Instituto de Plastinação que o anatomista Gunther von Hagens mantém na Alemanha informa, porém, que todos os corpos utilizados atualmente são de pessoas que optaram por contribuir para a técnica, e que os exemplares são aproveitados para fins educativos, em locais como faculdades de Medicina e museus.

guilherme.justino@zerohora.com.br - GUILHERME JUSTINO


02 de julho de 2015 | N° 18212
EDITORIAIS

UM AUMENTO INDECOROSO

Só há um caminho diante do absurdo aumento de salários dos servidores do Judiciário, aprovado pelo Senado na terça-feira. É o do veto ao projeto, como o Executivo já antecipou, não só por representar um privilégio, em meio às dificuldades do país, mas por ser absurdamente imoral.

Neste momento dramático da economia brasileira, não há como aceitar aumentos de 56% a 78%. Nem mesmo se a situação fosse de normalidade, tal concessão poderia ser recebida com naturalidade. Tampouco deve ser levada em conta a desculpa de que as correções serão pagas em seis parcelas, a partir deste mês e até 2017.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, sustentou a posição do governo no argumento de que o custo do aumento é incompatível com as tentativas de levar adiante um ajuste fiscal a ser custeado por todos. Essa é a questão técnica a ser levada em conta. Além disso, é preciso considerar outros aspectos envolvidos na afronta.

Um desses é a total desconsideração dos senadores pelas circunstâncias econômicas e financeiras da maioria dos brasileiros. No ambiente de insegurança em que vive o Brasil, a aprovação do reajuste – por mais merecedores que sejam os servidores – é uma agressão não só contra o governo fragilizado por um déficit crônico, mas contra a população.

O episódio reforça a sensação generalizada de que o Judiciário é quase um Poder alheio à situação geral de penúria. Privilégios representados por toda forma de auxílios, transformados em penduricalhos aos vencimentos dos integrantes da magistratura, têm provocado críticas a instituições que deveriam zelar pela equidade e pelo bom senso. O veto presidencial evita, além dos efeitos em cascata do aumento indecoroso, que o Judiciário desfrute de mais uma vantagem negada a outros setores da sociedade.


02 de julho de 2015 | N° 18212OLHAR GLOBAL |
Luiz Antônio Araujo

Carta de Tsipras é notícia velha

A carta do premier grego, Alexis Tsipras, às autoridades financeiras da zona do euro e à cúpula do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada ontem pelo jornal britânico Financial Times, não é um recuo em relação à posição anterior de Atenas. Em essência, a carta é um desdobramento da posição manifestada pelos negociadores gregos na sexta-feira, quando o governo de Tsipras decidiu submeter a proposta dos credores a um plebiscito.

Os credores exigem a fixação da alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em 13% para todo o território da Grécia, incluindo as ilhas gregas, onde a alíquota é de 9% e um aumento teria forte impacto sobre a receita advinda do turismo. Na carta, Tsipras propõe que, nas ilhas, seja mantida a atual alíquota reduzida. Na prática, isso significa a rejeição da proposta de Bruxelas e Berlim.

Os credores querem a redução de gastos militares para 400 milhões de euros em 2016. Tsipras sugere outros patamares, de 200 milhões de euros no próximo ano e 400 milhões somente em 2017.

Os credores pregam o fim do abono para aposentados de baixa renda (cerca da metade dos aposentados gregos têm rendimentos abaixo da linha oficial de pobreza do país) em 2017. Tsipras aceita, mas quer que a medida só seja atingida ao final de 2019, e ainda assim mantendo intocados, neste momento, 20% dos beneficiados, os mais pobres.

Além disso, e principalmente, a correspondência exige a extensão do acordo de refinanciamento que expirou na terça-feira, e do qual uma parcela de 1,6 bilhão de euros devida ao FMI continua pendente, e a celebração de um acordo sob o Mecanismo Europeu de Estabilidade, com vigência de dois anos.

Na realidade, todas as proposições de Tsipras já tinham sido rejeitadas pelas euroautoridades na noite de terça-feira, ao rechaçar o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade.

A julgar pelas declarações da chanceler alemã, Angela Merkel, e de autoridades da zona do euro, os credores pretendem prolongar o impasse até que alguém pisque, ou seja, até que Tsipras não seja capaz de fazer nenhuma nova exigência. Seja porque terá desistido da posição que permitiu sua eleição em janeiro, seja porque terá sido afastado da função de primeiro-ministro.

Falta combinar com os gregos.


02 de julho de 2015 | N° 18212 
L. F. VERISSIMO

Três homens

Saiu nos Estados Unidos uma cópia restaurada do filme O terceiro homem, lançado originalmente em 1949. O filme é um clássico do cinema “noir” que reuniu os talentos de três homens: do escritor inglês Graham Greene, do diretor inglês Carol Reed e do ator americano Orson Welles, no papel do vilão Harry Lime, o terceiro homem da trama.

Que se passa na Viena ocupada pelos aliados logo depois do fim da II Guerra Mundial, quando colaboradores dos nazistas e aproveitadores inescrupulosos da guerra ainda estão sendo caçados. Harry Lime é um desses procurados. Seu personagem faz quase uma ponta no filme, mas Welles o transformou na sua principal atração.

Quem viu o filme não esquece da fala de Lime tentando justificar sua vilania, comparando os 30 anos de guerra, terror e sangue na Itália sob os Bórgias, que produziram a arte de Michelangelo e Leonardo da Vinci e deram início à Renascença, com os 500 anos de democracia e paz da Suíça, que produziram o relógio cuco. Até hoje se especula se a fala é do roteirista Greene ou do próprio Welles. E há quem alegue que não é nem de Greene nem de Welles, mas do pintor americano Whistler, num ensaio escrito no século 19.

Carol Reed fez alguns dos filmes marcantes da época, como O condenado (Odd man out) e O ídolo caído, e colaborou com Greene em outros, como o Nosso homem em Havana, ambientado na Cuba de Batista e filmado pouco depois da revolução castrista (dizem que Fidel assistiu à filmagem de algumas cenas), mas não chegou a merecer lugar num imaginário panteon de grandes diretores.

Era dado a um expressionismo meio exibicionista, muita câmera enviesada e jogo de sombras. Mas o estilo funcionou maravilhosamente em O terceiro homem, que o redime de todos os excessos.

Graham Greene é outro, acho eu, cuja reputação desbotou com o tempo, no seu caso injustamente. Ele dividia a sua obra entre romances e “entretenimentos”, e certamente encarou o roteiro de O terceiro homem, que depois publicou em livro, como exemplo da segunda categoria.

Mas Greene, mesmo se divertindo, nunca estava longe dos seus temas preferidos de católico convertido: traição, culpa, remissão ou castigo. Em O terceiro homem, tem tudo isso. Como no tempo dos Bórgias na Itália, anos de guerra, terror e sangue produziram Harry Lime.

quarta-feira, julho 01, 2015



01 de julho de 2015 | N° 18211 
MARTHA MEDEIROS

Ainda Cristiano Araújo

Em uma cena de Birdman, o personagem Riggan Thomson, um astro em decadência, reflete sobre o que aconteceria se ele e George Clooney estivessem no mesmo avião e ocorresse um acidente fatal. Óbvio: Clooney estamparia as páginas de todos os jornais no dia seguinte, enquanto que a Thomson restaria uma nota de rodapé.

Farrah Fawcett teve a infelicidade não só de morrer, mas de morrer no mesmo dia que Michael Jackson. O senador Antonio Carlos Magalhães morreu em julho de 2007, três dias depois de um dos maiores desastres aéreos do país, notícia que monopolizou a imprensa por semanas. As mortes de Farrah e ACM ficaram em segundo plano. Não é preciso buscar outros exemplos: existe hierarquia na tragédia.

Gaúchos apegados à sua cultura podem ter considerado desproporcional a cobertura das mortes de Nico Fagundes e Cristiano Araújo, mas, sem entrar na discussão sobre o legado de cada um, o desaparecimento do cantor sertanejo teve todos os componentes para causar comoção – era jovem, talentoso (dizem os entendidos no gênero), um ícone nacional (também só soube agora) e morreu num acidente súbito ao lado de uma linda namorada. Não é páreo para o ocaso de um tradicionalista de 80 anos que transitava dentro das fronteiras do próprio Estado. Não é páreo em termos de notícia, que fique bem claro.

Ainda assim, a cobertura televisiva da morte de Cristiano Araújo causou espanto porque evidenciou a “alienação” de quem não sabia quem ele era. Alienação ou direito de escolha? Eu não apenas desconhecia Cristiano Araújo como também desconheço a maioria de seus colegas que compareceram ao velório, e não pretendo me atualizar sobre eles.

Não sei quem são os expoentes do axé e do forró, quem domina a cena do pagode atualmente, assim como muitos brasileiros talvez não saibam quem é Adriana Calcanhotto ou Marcelo Camelo – e muito menos quem é Tulipa Ruiz, Filipe Catto, Céu, Clarice Falcão. Vai do interesse de cada um. O problema é que, se a criatura vende milhões, é promovida a fenômeno, e ai de quem não capitular. Outro dia quase fui espancada por ter feito uma pergunta inocente: quem é Ludmila?

Houve uma época em que nossos ídolos eram os mesmos e vivíamos como nossos pais. Todos sabiam quem era Caetano, quem era Rita Lee, gostassem deles ou não. Agora os gêneros musicais deram cria, as tribos se multiplicaram e a tecnologia facilitou a popularização: há sucesso para todos os paladares – tantos, que é impossível acompanhar. 

Não há nada de errado em não saber quem era Cristiano Araújo e isso não significa que sua morte é desprezada, ela apenas não causa sensação de perda em quem não escutava sua música. A hierarquia do obituário obedece a critérios midiáticos, já a importância de cada um é medida não por números, e sim pela qualidade do encantamento que provocou em vida.


01 de julho de 2015 | N° 18211 
DAVID COIMBRA

Manhê, o PSDB também roubou!

Fala-se que o Brasil é uma jovem democracia, que ainda estamos aprendendo. Na verdade, não estamos na juventude, estamos na infância da democracia, passando pela fase da birra. Petistinhas choramingam:

– Manhê, o PSDB também roubou!

Pastorinhos olham para um casal de gays na rua, tapam a boca com a mão e morrem de vergonha:

– Aummmm, que feio...

E assim não vamos a lugar algum. Estamos no mesmo lugar há muito tempo. O governo Lula aproveitou bem o programa Bolsa Família, foi seu grande mérito, foi ótimo. Mas isso poderia ter sido feito em seis meses. De lá para cá, o que melhorou no país? Qual a mudança estrutural? Nenhuma.

Nos países em que as pessoas vivem melhor neste vasto mundo, em todos eles a justiça social e a igualdade foram construídas a partir de uma instituição: a escola pública – os antigos primeiro e segundo graus. Pois a escola pública no Brasil piora a cada ano. O governo investiu no terceiro grau. Em vez de aproveitar a antiga popularidade e a boa maré da economia para liderar um debate nacional a fim de reformar profundamente a educação das crianças, preferiu entupir as faculdades de jovens semianalfabetos.

Perdemos tempo.

A popularidade, hoje perdida, e a estabilidade econômica, hoje despedaçada, permitiram que o governo aprovasse tudo o que queria no Congresso. Tudo. Lula era um rei, e Dilma herdou a coroa. Passaram-se 12 anos, e não foi feita a reforma tributária, nem a reforma política, nem a reforma do Código Penal, nem grandes mudanças na segurança pública, nem na saúde, nem no sistema federativo, nada, nada.

Perdemos tempo, e o perdemos em debates vazios.

Agora, o Congresso elegeu um presidente ativista. Você pode chamar Eduardo Cunha de tudo, mas não poderá dizer que ele não é proativo. Pela primeira vez, o Legislativo tem um presidente que se comporta como chefe de Poder. E, como ele é conservador, coloca em pauta questões conservadoras. Tudo bem, isso é da democracia. Um país democrático vive do bom combate de ideias diferentes, e um país do tamanho do Brasil não é um país, são muitos. Mas a discussão da redução da maioridade penal, francamente!

Ontem, 14 homens foram presos em flagrante em Porto Alegre, e não havia lugar para eles nos presídios. Tiveram de ficar nas delegacias. Ora, se não há espaço para os grandes, não adianta querer colocar lá os pequenos! Essa discussão é tola! Se o Brasil quer investir em punição, precisa, antes, investir na estrutura de punição, nos equipamentos básicos, que são a polícia, a Justiça e a cadeia.

As misses do mundo inteiro sabem disso, essas leitoras do Pequeno Príncipe. Nessa obra genial do aviador Saint-Exupéry, há um rei que, quando você quer se sentar, ordena que você se sente; quando você quer se levantar, ordena que você se levante. E então justifica: “É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar”.

Eis aí. Leis boas e sensatas que não podem ser cumpridas não são boas nem sensatas. A lei que reduzirá a maioridade penal é precisamente assim: nem boa, nem sensata.