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quinta-feira, abril 24, 2014


24 de abril de 2014 | N° 17773
CONEXÃO INTERNACIONAL

Azul confirma três voos aos EUA

Além de Miami e Nova York, a Azul voará de Campinas (SP) para Orlando, na Flórida, com jatos Airbus A330-200. Em 2017, com a chegada dos novos A350, a companhia deverá ligar Campinas a destinos na Europa.

– Seremos a nova empresa de bandeira brasileira e vamos voar para onde os brasileiros querem voar – disse o fundador e presidente do conselho de administração da Azul, David Neeleman.

Os voos para os EUA serão realizados com seis A330-200 arrendados e que serão incorporados à frota nos próximos meses. Os aviões terão capacidade para 246 passageiros e serão distribuídos em três classes.

Três das seis aeronaves estavam até alguns meses atrás na frota da Emirates. A previsão oficial é iniciar os voos no primeiro trimestre de 2015, mas se o processo de certificação e treinamento correr sem maiores contratempos, é possível estreá-los antes do final do ano.

Os primeiros voos serão para Miami (aeroporto Fort Lauderdale) e Orlando e, na sequência, a empresa estreia em Nova York.

Segundo Neeleman, a empresa está negociando um acordo de code-share com a JetBlue – empresa também fundada por Neeleman e que opera em Fort Lauderdale, Orlando e no aeroporto JFK, em Nova York. O acordo permitirá aos clientes da Azul fazer conexões dentro dos EUA. Para não retardar a entrada em operação, a configuração interna do A330 – estofamento, assentos, divisão de classes – será a mesma da Emirates.



24 de abril de 2014 | N° 17773
PEDRO GONZAGA

O silêncio do silêncio

A cena é conhecida. Algumas pessoas tentam conversar. Outras comem caladas. Outras gritam, envoltas pela falsa euforia da galera do escritório. Para uma pequena parte, há uma presença inconveniente que se debruça sobre as mesas e ali fica, encerrando assuntos, impondo-se, ordinária e eletrônica, às vozes limitadas em sua orgânica projeção. A cena é conhecida, vocês já a vivenciaram, talvez estejam nela imersos enquanto leem esta mesma crônica. Estamos em um restaurante, mas bem poderia ser uma casa noturna. Para conversar, é preciso vencer o trovão da música ambiente.

Por alguma razão, gritar – em estranha competição – passou a fazer sentido como forma de conduta. Em algum foro da estupidez, decidiu-se que o silêncio e a comida são agora entes antagônicos. Nesse mesmo foro, decretou-se que o silêncio é uma ameaça às atividades humanas. As pessoas já não conseguem tolerar o silêncio, diz meu amigo Felipe Pimentel, e eu me lembro, de imediato, de duas expressões forjadas por Chuck Palahniuk no seu livro Cantiga de Ninar: “silenciofóbicos”, “sonorólatras”. As pessoas já não conseguem tolerar o silêncio em quaisquer circunstâncias.

O fato é que a música (quase nunca escutada) passou a dominar todas as esferas sociais. Alunos não tiram os fones em sala de aula, amigos se encontram, blindados por fones brancos. Trata-se, antes de mais nada, de uma concepção de convivência, segundo a qual o silêncio seria por alguma razão constrangedor, depressivo, pesado. Incapazes de ouvir o silêncio, também não ouvem a música que os cerca (cansei de tocar em bares em que as gargantas das primeiras mesas sobrepujavam o volume dos instrumentos).

Poderíamos falar em surdez, se houvesse silêncio. Até podemos falar em surdez, mas em uma surdez feita de barulho, de uma algaravia a um só tempo interna e externa, inimiga do pensamento, inimiga da própria música esvaziada por inundação de seu poder redentor. O que será que temem escutar quando todos os ruídos cessam?


O silêncio está para o som, assim como o esquecimento está para a memória. Onde há apenas som, não há profundidade. Onde há apenas memória, nenhuma relevância. E nem entrarei no mérito da qualidade da música que agora toca. Prefiro pensar na eficácia dos sinais a usar com o garçom baratinado. Talvez entre todos aqui, aquele que mais precisasse de um minuto de silêncio.

24 de abril de 2014 | N° 17773
PAULO SANT’ANA

Os três passos

É espetacular o e-mail que recebi de um leitor sobre os seis dias seguidos de feriados da Semana Santa na Justiça do Trabalho. Trata-se do leitor que assina Hugo Prevedello (hprevedello@gmail.com). Vejam o que ele diz: “A Justiça proibiu o crucifixo nas dependências do Judiciário e se beneficia do feriado cristão para não trabalhar”.

É ainda mais apropriado o que diz o leitor quando se nota que a crucificação é constante basilar do feriado de Páscoa.

Bem, a opinião pública já está convencida de que os três presos no caso de Três Passos têm culpa formada no assassinato do menino Bernardo.

A madrasta do menino, a amiga da madrasta e o pai do menino estão afundados até o pescoço perante o juiz e os jurados que decidirão se são culpados e quais as penas que sofrerão pelo clamoroso homicídio.

Sabem os leitores que quem decide sobre inocência e culpa são os jurados e quem decide a quantidade e valor da eventual pena é o juiz.

O Jornal Nacional já se ocupou três vezes do crime de Três Passos e a revista Veja deu capa inteira sobre o momentoso caso nesta semana.

Não é para menos, uma madrasta, um pai e uma amiga da madrasta matarem um menino de 11 anos por causa ainda não suficientemente esclarecida, podendo ser só desprezo pela vítima ou interesse financeiro, só poderia adquirir mesmo essa repercussão nacional.

Eu já tinha opinado antes das conclusões parciais da polícia que o pai, o médico-cirurgião, era culpado no homicídio.

E agora calculo o grau de culpa de cada um dos três presos acusados pelo horrendo crime.

Sem dúvida, a culpa maior, aparentemente, é a da madrasta. E a amiga da madrasta, que a ajudou a ocultar o cadáver, tem uma culpa em grau diminuído.

Mas e o pai? Aí é que está a coisa: se ele incentivou a madrasta a matar o garoto, tem culpa em grau igual à da madrasta.

Se não incentivou, mas apenas assistiu ao desenrolar dos preparativos para o homicídio e ocultou de todos o que sabia, tem culpa em grau menor do que o da madrasta mas também é culpa grave.

O crime de Três Passos é horripilante. Mais ainda porque foi cometido contra uma criança inofensiva, a quem chegaram os autores a prometer que iriam a Frederico Westphalen para comprar um televisor de presente para ele e que deveria por isso acompanhá-los. E não foram, foram lá para enterrá-lo, ao que calculo, vivo.

Terrível. Como é que podem ser tão maus os humanos?

A madrasta de Bernardo e sua amiga enterraram o corpo do menino.

E o pai ocultou o enterro do filho com luvas de pelica.


São tão frios e hipócritas esses assassinos, que devem estar vestindo luto pela morte do menino na prisão.

24 de abril de 2014 | N° 17773
L. F. VERISSIMO | L.F. VERISSIMO

Eca!

Um hipotético visitante extraterreno teria dificuldade em acompanhar uma refeição da nossa espécie sem ter ânsias de vômito. Sendo um ser hipoteticamente perfeito que só se alimenta de um límpido líquido azul, nosso visitante não entenderia como os alemães conseguem comer repolhos azedos com tanta alegria nem por que os americanos chamam o pepino estragado de “pickle” e o comem com tudo e os franceses esperam o peixe apodrecer antes de comê-lo, enquanto os japoneses nem esperam ele morrer.

E todos se entusiasmam com um fungo de má aparência chamado “champignon” e entram em êxtase com outro ainda mais feio chamado “trufa”, que é encontrado embaixo da terra por porcas no cio. Aliás, nosso ET se engasgaria só de pensar em tudo o que fazemos com os porcos, inclusive comê-los.

Mas o que certamente faria nosso visitante correr para o banheiro seria descobrir que os terrenos espremem um líquido branco e gorduroso das glândulas mamárias de um animal chamado “vaca” – e o bebem! Depois de reanimado, o extraterreno talvez gostasse de ouvir, já que se espanta tanto com os nossos hábitos exóticos, que a vaca é um animal sagrado, e portanto intocável, na Índia, um país em que se morre de fome. E que não apenas a vaca é sagrada, na Índia, como suas pegadas são sagradas e, de acordo com a teologia hindu, 330 milhões de deuses vivem dentro de cada animal, e que, portanto, matar uma vaca significaria um verdadeiro teocídio.

Mas que nada disso é tão estranho quanto parece: numa terra superpopulosa como a Índia, a criação de gado para corte e consumo humano é indefensável. Quando se comem animais que são alimentados com grãos, nove de 10 calorias e quatro de cinco gramas de proteínas são perdidas. O animal usa a maior parte dos nutrientes que poderiam ser destinados ao homem. No caso, um mito religioso está a serviço de uma racionalidade camuflada.

Convencido de que somos uma raça no mínimo contraditória, o ET ainda terá algumas experiências nojentas pela frente. Verá pessoas destrinchando pequenos pássaros fritos, com os dentes, pessoas comendo pernas de sapos e – o que contará com mais horror quando voltar para casa – pessoas usando alfinetes para catar o repugnante recheio de lesmas e levá-lo à boca. Lesmas!

Esclarecimento


O Estadão publicou uma declaração minha sobre a morte do García Márquez que terminava com a frase “Meu pai, Erico Verissimo, foi uma influência”. Assim resumida e fora de contexto, a frase pede um esclarecimento. O Doc Comparato me disse que há anos entrevistou o García Márquez e este lhe contou que tinha lido o primeiro volume de O Tempo e o Vento e sido influenciado pela leitura. Até que ponto, não sei.

quarta-feira, abril 23, 2014


23 de abril de 2014 | N° 17772
MARTHA MEDEIROS

A loucura mora ao lado

Por muitos anos, minha mãe morou num prédio que ficava ao lado de uma clínica dermatológica. O médico responsável morava com a família no andar de cima da clínica. Uma tranquilidade: no caso de um imprevisto, era só bater na porta desse vizinho providencial e o atendimento seria imediato e eficaz. Minha mãe nunca precisou, mas certa vez levou lá minha filha, ainda pequena, durante uma ocasião em que eu estava viajando. E o atendimento foi realmente imediato e eficaz. Um luxo.

Passado um tempo, a esposa e o filhinho do médico evaporaram. A clientela diminuiu. Até que a clínica fechou de vez. O médico passou a ser visto raramente. Barba por fazer, roupas desleixadas. Minha mãe e eu chegamos a comentar sobre a esquisitice da situação, mas não imaginamos que fosse algo grave, até que um dia nos deparamos com a foto dele estampada na página policial do jornal, sendo acusado do assassinato da mulher e do filho. Durante algumas semanas, muitas reportagens foram feitas, mas os corpos nunca foram encontrados e o aparente crime ficou sem solução. A casa foi vendida, o cara sumiu, o mistério venceu.

Lembrei desse episódio quando soube da tragédia de Três Passos. Todo crime é chocante, mas ficamos ainda mais chocados quando os prováveis assassinos são os chamados cidadãos acima de qualquer suspeita – como se dinheiro, beleza e classe social imunizassem contra a violência e a patologia. Não imunizam nem evitam nada, apenas nos colocam todos na mesma calçada. Talvez estejamos cumprimentando todo dia alguém que mataria uma criança, confiantes de que a vizinhança é gentil e que é uma sorte não vivermos entre marginais.

De forma objetiva, Bernardo foi vítima da ganância da madrasta e da amiga desta, mas necessitamos de uma explicação mais profunda e para isso recorremos ao nosso vasto cardápio de acusações. Há quem responsabilize o ateísmo, a televisão, os games, os filmes de ação, a liberalidade dos costumes, a decadência do império, a revolução feminista, a corrupção, os distúrbios psíquicos, o consumismo, a internet, o narcotráfico, o individualismo etc., etc., etc., até compor uma lista apocalíptica de fatores que justifique o saudosismo: “A vida já foi mais valorizada”.


Foi mesmo? Conforta pensar que somos vítimas de uma era, mas o fato é que a vida sempre foi trágica. Nosso susto é apenas proporcional à proximidade com que a tragédia se manifesta. Lá nos cafundós do judas, onde crianças também morrem pelas mãos de parentes, tudo parece mais fácil de deglutir: elas não se parecem com nossos filhos e nós não parecemos com seus pais. Mas, quando acontece na casa ao lado, aí a gente se embaralha e só nos resta entregar os pontos e reconhecer que não há explicação que console. Simplesmente o mundo é e sempre foi um hospício.

23 de abril de 2014 | N° 17772
EDITORIAIS Zh

O porto da discórdia

É pertinente a preocupação das entidades brasileiras de terminais portuários diante das especulações de que o BNDES estuda a concessão de financiamento para o porto uruguaio da cidade de Rocha. Administradores de portos brasileiros temem que uma instituição nacional esteja envolvida na viabilização de um empreendimento que concorrerá com nossos terminais de escoa-mento e recebimento de cargas.

O temor é manifestado a partir de informações sobre a realização de estudos do BNDES, que não são confirmadas oficialmente pelo banco. Há, de qualquer forma, indícios suficientes de que, provocado pelo governo uruguaio, o Brasil estuda formas de apoio técnico e financeiro à obra. A explicação para tal fato estaria na expectativa de que o projeto pode vir a ser tocado por empresas brasileiras.

Repete-se a controvérsia do apoio brasileiro, também via BNDES, ao Porto de Mariel, em Cuba. A atual polêmica suscita várias abordagens. A primeira aciona uma interrogação previsível: por que o Brasil deve apoiar mais uma obra fora do país, se faz esforços efetivos para melhoria dos próprios portos? A segunda, mais complexa, é a que envolve os interesses não só do setor portuário, mas de todos os que defendem, há muito tempo, redução de custos e de burocracia nas movimentações de cargas.

Por isso, não é desprezível o argumento de quem, em nome da competitividade, pode ver o novo porto uruguaio como solução para problemas crônicos e sem solução em território nacional, em decorrência da inércia do setor público e também de gestores dos terminais, muitos dos quais sob controle da iniciativa privada.


A redução expressiva de custos, também para os brasileiros, seria, conforme o que já se divulgou sobre o assunto, o principal apelo do porto uruguaio. É óbvio que, pela racionalidade econômica – e não só pela retórica nacionalista –, a prioridade deveria ser a correção das deficiências dos portos nacionais. O governo, controlador do BNDES, deve ser transparente no esclarecimento do assunto, para que o sistema portuário e os usuários sejam capazes de avaliar o que poderão ganhar ou perder com tal iniciativa.

23 de abril de 2014 | N° 17772
EDITORIAIS ZH

ESTUPIDEZ CRIMINOSA

Num país no qual a criminalidade parece cada dia mais indissociável do cotidiano e que figura com destaque crescente nos rankings internacionais de violência, é preocupante a banalização de atos como a destruição de ônibus, por meio de depredações ou incêndios criminosos. No caso mais recente, e um dos mais assustadores entre os já registrados até agora, mais de três dezenas de ônibus foram incendiados por criminosos que invadiram a garagem de uma empresa de transporte coletivo na cidade paulista de Osasco.

O poder público precisa dar um basta a essas ações covardes, que causam transtornos à população e aos usuários do transporte coletivo. Além disso, prejudicam a própria imagem do país, já que as cenas deploráveis ganham espaço na mídia internacional, às vésperas da realização de um evento importante como a Copa do Mundo.

Os números são assustadores: só neste ano, nada menos de 364 ônibus foram atacados na capital paulista e em municípios da Grande São Paulo, sendo 115 deles incendiados. Em outras cidades do país, incluindo algumas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, também há registros frequentes de veículos coletivos queimados por traficantes, quadrilhas e até mesmo grevistas e participantes de manifestações de rua.

No início do ano, ataques desse tipo já haviam resultado na morte de uma menina de seis anos no Maranhão. E, seja qual for o caso, o resultado concreto é que o usuário acaba arcando duplamente com o ônus. Primeiro, porque passa a contar com menos opções ainda para se locomover, como ocorreu ontem na cidade paulista. Depois, porque é chamado a responder também pelo custo financeiro.

A esses episódios, se somam outros igualmente assustadores, como os ataques coordenados a Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), intensificados nos últimos meses, no Rio de Janeiro. Mais recentemente, a greve dos policiais militares em Salvador, na Bahia, chamou a atenção para o quanto a violência pode transbordar para diferentes áreas quando os criminosos se sentem livres para agir. A contenção da criminalidade não deveria depender apenas de policiamento ostensivo, mas sobretudo de observância a princípios morais e legais. A simples ausência da polícia nas ruas, porém, foi suficiente para aumentar em 10 vezes o número de mortes diárias na capital baiana, o que é aterrador.


Nos casos específicos envolvendo transporte coletivo, os danos provocados, algumas vezes têm ligação com a insatisfação em relação à má qualidade dos serviços, que deu origem a protestos em série nas ruas há quase um ano. Atentados a ônibus, como os de Osasco, porém, estão cada vez mais associados ao crime organizado, contra o qual a sociedade espera ações efetivas.

23 de abril de 2014 | N° 17772
CARLOS GERBASE

O que escrevi

Esta é a minha décima terceira coluna, o que significa um ano inteiro escrevendo aqui na ZH. Recapitulando: na primeira coluna, listei o que não escreveria e, na segunda, o que os leitores da primeira coluna sugeriram que eu escrevesse, já que minhas dificuldades eram evidentes. Agora, é o momento de conferir se cumpri as minhas promessas e se atendi às recomendações.

Quanto aos itens interditados pelo próprio jornal, fui bastante cumpridor. Não falei de futebol, não escrevi ficção, não usei palavrões (salvo os de uso corrente no próprio jornal e os largamente utilizados no programa Sala de Redação), não fiz críticas a filmes ou livros, não publiquei crônicas de qualquer espécie, muito menos de autoajuda. Obedeci também aos conselhos dos leitores e não escrevi sobre hienas e desgraças.

Recebi as seguintes pautas: cinema, rock, tocar bateria, dar aulas, histórias cavernosas sobre meus amigos, reuniões de condomínio, política, trânsito, razões para viver, a inutilidade das regras, mistérios da vida após a morte, Malba Tahan, a origem dos chatos e o Tio Chico. Segui imediatamente uma das pautas: falar do Tio Chico, o que salvou minha terceira coluna.

Cinema e rock foram motivos de quatro colunas. Cinco, se séries de TV podem ser consideradas uma espécie de cinema (acho que Breaking Bad pode). Espero que os meus caros leitores considerem esse porcentual de aproveitamento de pautas (50%, contando a do Tio Chico) ao menos razoável. A outra metade é toda culpa minha. Percebi que alguns temas foram especialmente impopulares: apenas uma manifestação no Facebook sobre a décima segunda coluna, a que considero a mais interessante, comparando os livros de J.H.Dacanal e de E.O.Wilson. Em compensação, a que escrevi sobre um radinho que deixou de funcionar foi um grande sucesso (pelo menos no Facebook).


Sendo assim, preparem-se, meus raros e caros leitores: neste segundo ano, vou tentar falar mais de bacanal do que de Dacanal, o que já me aponta o caminho para o item “histórias cavernosas dos meus amigos”. Quanto ao E.O.Wilson, vou deixá-lo em paz com suas formigas e seus ensinamentos sobre o altruísmo humano. Ninguém está interessado. Só eu. Mas confesso: todo mês tenho que me segurar pra não escrever sobre hienas.

23 de abril de 2014 | N° 17772
PAULO SANT’ANA

Madrasta e pai juntos

Ouvi ontem na Rádio Gaúcha que a delegada de polícia encarregada do inquérito sobre o assassinato do menino Bernardo, em Três Passos, não tem mais dúvida de que o pai do garoto teve envolvimento direto na parceria que matou o menino.

Já escrevi aqui há dias que o pai do garoto estava envolvido. Devo ter chegado a esse raciocínio ao mesmo tempo da constatação de culpabilidade do pai pela delegada, que só agora anuncia isso.

E isso que eu não leio o inquérito nem o manuseio.

Mas as circunstâncias do caso expostas exaustiva e talentosamente pela equipe de Zero Hora destacada para a cobertura tinham já me levado à convicção da culpabilidade do pai, médico e cirurgião.

Sendo assim, o caso, que já era macabro, fica ainda mais. Porque agora um pai matou o filho, antes eram só uma madrasta e uma amiga dela as acusadas pelo homicídio. Agora, o pai, com ligação sanguínea direta com o filho, matou em associação com as outras duas suspeitas, o filho Bernardo.

Que crime! Que horrendo crime!

O espantoso é que o pai, levado pela paixão que nutre pela madrasta, tenha-a incentivado a matar o enteado, seu filho, filho do seu sangue.

O pai ama a madrasta e odiava o filho, é um tragédia passional profunda.

Nem a literatura policial e de ficção tinha antes imaginado essa teia sinistra.

Recebo da presidenta do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região um esclarecimento a respeito da coluna de ontem, na qual salientei que o órgão público em questão fez seis dias consecutivos de feriados e domingo na Semana Santa, não funcionando portanto: “Prezado Paulo Sant’Ana. Na condição de presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS), esclareço, respeitosamente, que os dias de quarta e quinta-feira da Semana Santa não são pontos facultativos, e sim feriados previstos pelo artigo 62, inciso II, da Lei nº 5.010/66.


Esse dispositivo legal abrange não apenas a Justiça do Trabalho, mas todos os órgãos da ustiça Federal e os Tribunais Superiores. Atenciosamente, 

(ass.) desembargadora Cleusa Regina Halfen, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região”.

terça-feira, abril 22, 2014


22 de abril de 2014 | N° 17771
ARTIGOS - Orlando Faccini Neto*

A indiferença e o caso de Três Passos

Recentes estudos sobre nosso funcionamento cerebral sepultaram o ponto de vista de que razão e emoção afiguravam-se divergentes, de maneira que o desenvolvimento de nossa racionalidade não envolvia a participação de estados afetivos. Hoje, diz-se que razão e emoção caminham juntas, e não se descarta alguma inteligência emocional, para que nas empreitadas da vida logremos algum sucesso.

Paradoxal que seja, todavia, entre os estados afetivos reside justamente a possibilidade de sua ausência. É que, se muitos nos movemos por compaixão, por ciúme, por medo ou alegria, há aqueles cuja vida moral se notabiliza pela indiferença.

Não em todos os seus propósitos, mas para certos âmbitos de relação, alguns indivíduos agem em completa desconsideração para o que lhes seja alheio, e dando de ombros perseguem, no reino da individualidade, suas metas e seus objetivos. Não possuem disposição para mergulhar nas dificuldades dos outros, mesmo que agudas, o que não esconde um sintoma de isolamento, em que o sujeito se aparta dos demais, ocultando-os diante da proeminência de si mesmo.

Frisemos, porque essa é nossa primeira conclusão: seja o indiferente, seja aquele que age movido pela exaltação de algum estado afetivo, justamente porque as emoções e a racionalidade são indistintas, não podem alegar para si o que em Direito Penal chamamos de inimputabilidade. Com efeito, sabem o que fazem e variados estudiosos do tema cogitam até mesmo de uma contemporânea educação emocional, em que os incomodados procuram alterar a base de seus afetos.

Isto dito, é necessário apontar que certos casos, situados embora neste plano emocional, são convertidos em normas. O Direito Penal não lhes é, passe o trocadilho, indiferente. Matar por repulsa racial, ou por um ciúme possessivo, agrava a pena do homicida.

Certas obrigações emanam da legislação penal, entre as quais se situa o dever de cuidado. O artigo 13, parágrafo 2º do Código Penal dispõe que o resultado de um crime é imputável àquele que, omitindo-se, tinha entretanto o dever de evitá-lo. Esse dever, autêntico dever de proteção, decorre da lei para os casos que envolvem a relação entre pais e filhos. A indiferença, neste caso, é legalmente repelida.

O genitor, portanto, que nada faz diante de uma situação de risco incidente sobre seu filho, excluída a hipótese em que ele próprio viesse a correr algum risco, é abrangido normativamente pelo resultado delituoso. Sequer a combinação ou o acordo de vontades com o executor do ato se há de exigir: um pai que, ciente da presença de um maníaco nos arredores de sua casa, deixa-a aberta, na esperança de que o facínora elimine a sua prole, não estará excluído de responder pelos homicídios realizados.

As informações até agora havidas sobre o caso de Três Passos conduzem a esse tipo de reflexão. Que se não alegue, no desvio moral da indiferença, uma qualquer inimputabilidade. Mesmo a maldade não nos faz “loucos”, pois de certo modo somos capazes do mal, se bem que a maldade ou ódio ainda signifiquem uma projeção afetiva que considera o outro como pessoa, sendo certo que a indiferença é a pura e simples desconsideração. E que se não relegue apenas aos executores uma responsabilidade que mais não é do que uma decorrência da violação do inerente dever de cuidado, emanado da condição paterna.

Ao saber da morte de sua mãe, Mersault, personagem d’O Estrangeiro, de Camus, sentiu nada, e assim demonstrou inequivocamente a sua indiferença. Mas ainda chamou-a de mãe.

*Juiz de Direito, doutorando em Direito Penal pela Universidade de Lisboa, professor



22 de abril de 2014 | N° 17771
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Sem poder dizer

Começo a ler o mais novo livro do Celso Gutfreind e já me entusiasmo: de saída o tom da escrita é o confessional, não o analítico, embora seja o autor um psiquiatra e psicanalista. Os textos aqui reunidos são em grande parte maturações de textos anteriores, o que é mais uma vez animador: um autor que adensa sua maneira de dizer sua perspectiva do mundo merece meu respeito.

Mas o Celso é poeta, antes de tudo e depois de tudo, e por isso a gente vai lendo o escrito com aquela atenção acesa de quem lê poesia, especificamente a poesia tipo a do Celso, que vai de linha em linha, de palavra em palavra, sempre em busca da associação iluminadora, para dizer o que é preciso dizer, para dizer o preciso e o necessário (me contaminei com a dicção do livro, com minhas limitações de não poeta). E vamos esbarrando em frases como esta aqui, que me comove: “Adoecer é no fundo não ter como dizer”.

Bá, Celso.

(Ia esquecendo de mencionar que o livro tem ensaios sobre literatura, despontando uma linda leitura sobre o Salinger do Apanhador no Campo de Centeio, e ensaios sobre psicanálise. O título e o subtítulo descrevem bem: A Infância através do Espelho – A Criança no Adulto, a Literatura na Psicanálise. Editora Artmed.)

Mas, Celso, me diz aí: como é que nós vamos falar dessa morte do menino de Três Passos? No momento em que escrevo, pai e madrasta estão presos, mas ainda não confessaram, e eu não consigo ler nem consigo parar de ler tudo que posso sobre o caso. Não tenho nem como exclamar, nem como calar minha reação.


Celso, eu não sei dizer nada sobre isso, e é certo que vou adoecer dessa incapacidade.

22 de abril de 2014 | N° 17771
DAVID COIMBRA

O mar grande e o mundo pequeno

O mar é tão grande... e o mundo é tão pequeno.

É com essa verdade que quero mostrar aos gremistas como eles podem fazer com que o Grêmio se torne de novo vencedor.

Basta que entendam as grandezas de sua realidade. Talvez seja melhor exemplificar com grandezas externas. Vamos ver... na política: Lula é maior do que o PT e Brizola muito, muito maior do que o PDT. Na História: Alexandre foi maior do que a Macedônia e Gengis Khan bem maior do que a Mongólia. No futebol: Pelé é maior do que o Santos, mas Zico não é maior do que o Flamengo e Garrincha é do mesmo tamanho que o Botafogo.

Desaguando aqui, nesses meridianos, olhe para a dupla Gre-Nal: a dupla Gre-Nal é maior do que Porto Alegre e os presidentes de Grêmio e Inter, juntos, são maiores do que o governador do Estado. Já o clássico Gre-Nal, para gremistas e colorados, é maior do que o futebol. Na verdade, o futebol é um esporte subalterno, diante da imponência do clássico Gre-Nal.

Há gremistas e colorados que não entendem isso. Normal. A maioria das pessoas não compreende sua própria essência, donde a bem-aventurança de psiquiatras, psicanalistas e sacerdotes. Pois a essência de Grêmio e Inter é esta: o Gre-Nal é maior do que o futebol. Eles vivem para o Gre-Nal, vivem um para o outro. Não há nada mais importante, para um colorado, do que o Grêmio; não há nada mais importante, para um gremista, do que o Inter.

O Inter compreendeu isso antes do Grêmio por uma razão óbvia: o Inter nasceu dessa verdade. O primeiro jogo da história do Inter foi o Gre-Nal perdido de zero a dez. Essa derrota condicionou o destino do clube, como um trauma na primeira infância condiciona o destino do homem – para o bem ou para o mal. No caso do Inter, para o bem.

O Grêmio ainda hoje se repoltreia na ilusão de que existe algo maior do que o Gre-Nal, e por isso volta e meia vacila. Sábio era o Cacalo que, lá do Japão, disputando o Mundial Interclubes, lembrou-se do Inter, então quietinho, amofinado e encolhido como um caramujo à beira do Rio Guaíba.

Fernando Carvalho é um dirigente moderno que viu essa verdade antiga. Entendeu que o Inter só seria grande de novo depois de suplantar o Grêmio de novo. Mirou-se na grandeza do Grêmio e, pela grandeza do Grêmio, o superou. Fernando Carvalho sabia que tinha de começar ganhando Gre-Nal, para depois ganhar o mundo.

Rui Costa, do Grêmio, é um dirigente que demonstra ter o potencial para ser o que foram esses dois, Cacalo e Fernando Carvalho. É inteligente, é civilizado e conhece o futebol. Agora, desfruta de uma oportunidade luzidia: de, mais do que conhecer futebol, conhecer tudo sobre o Gre-Nal; de aprender, com a dor, o quanto um Gre-Nal pode construir ou destruir.

Mas não adianta só derrotar o adversário. Uma eventual vitória não é o suficiente. Nem algumas eventuais vitórias são suficientes. É preciso saber-se superior até quando se é derrotado. É preciso olhar o inimigo de cima e cuidar para que ele continue embaixo. No momento em que um dos dois, Grêmio ou Inter, está nessa situação, preparem-se, clubes do mundo inteiro, um colosso está subindo do Sul do Brasil.

Por isso, o Gre-Nal é a medida de quem deve ou não militar em Grêmio e Inter. O Gre-Nal é a medida de como devem se comportar Grêmio e Inter. É o seu farol. A sua luz. O Grêmio quer voltar a ser vencedor? Precisa entender suas grandezas. Precisa entender que o Gre-Nal é maior do que o futebol. Assim como o mar é tão grande, e o mundo tão pequeno.

Regra pétrea

Fosse eu dirigente de uma das metades da Dupla, criaria uma regra para meu time:

1. Teve bom sucesso em Gre-Nal? Fica.

2. Fracassou rotundamente em Gre-Nal? Vá ser feliz em outro lugar.

Vou tomar um exemplo controverso, porque, se não for controverso, não há sentido em citá-lo, não vou ficar remanchando no óbvio. Pois aí vai meu exemplo controverso: Kléber, o Gladiador, é bastante contestado no Grêmio. Mas Kléber sempre se saiu bem em Gre-Nal. Eu não o dispensaria, eu não prescindiria de sua liderança, nem que ele tivesse de descansar no banco uma hora por jogo.

Outro exemplo controverso, que talvez um só seja pouco: o zagueiro Saimon, que anulou Damião em sua melhor fase. Tem lá seus problemas, parece. Eu os administraria. Não prescindiria de seu aguerrimento de torcedor e da energia da sua juventude.

Por que ficaria com os dois? Por causa do Gre-Nal. A medida é o Gre-Nal.



22 de abril de 2014 | N° 17771
PAULO SANT’ANA | PAULO SANTANA

O contrário de Deus

Foram quatro dias de feriado, a Sexta-Feira Santa, o Sábado de Aleluia, o Domingo de Páscoa, o 21 de abril de Tiradentes, que neste ano caiu numa segunda-feira.

Pois vocês acreditam que uma repartição pública gaúcha emendou mais dois dias de ponto facultativo na quarta-feira e na quinta-feira passadas?

Pois aconteceu na Justiça do Trabalho.

Fui curioso saber como aconteceram assim seis dias seguidos sem expediente na Justiça do Trabalho e me disseram que há uma lei federal que considera pontos facultativos para sempre as quartas e quintas-feiras que antecedem a Páscoa. Aí, então, é que fiquei sabendo a origem da Semana Santa: é aquele período de cinco ou seis dias em que ninguém trabalha. Que santa semana!

Mas não é o que se poderia chamar de injustiça no trabalho?

É exatamente o contrário do que aconteceu com Deus na criação do mundo, quando trabalhou seis dias e descansou no sétimo.

Eu gosto muito de doce de coco. E também gosto de água de coco.

Noto também que gosto muito de cocada.

E há um bombom da Nestlé que adoro, chama-se Prestígio e consiste de um tablete de coco ralado envolto numa capa de chocolate.

Também há um doce em que numa panelinha de massa é posto, se não me engano, coco ralado. E se chama queijadinha, deve ser acrescentado nele, por isso, o queijo.

A casca do coco, muito dura, acho que não serve para nada, o coco realmente é a polpa da casca, se é que posso chamar assim aquela camada alva que vem colada à casca.

Consta de alguns menus a gordura de coco. Gozado que a fruta imensa que é o coco não é comida quando verde, somente depois de madura é que é aproveitada.

O doce de coco é o mais doce de todos os doces, pois a fruta já é muito doce. Mais doce que o doce de batata-doce.


Não sei, mas conheço um doce que é também muito doce, quase enjoativo: o de goiaba.

segunda-feira, abril 21, 2014


21 de abril de 2014 | N° 17770
ARTIGOS - Paulo Brossard*

A poeira da violência

Às vésperas da Semana Santa, período de recolhimento espiritual e meditação, ocorre em região tradicionalmente pacífica, delito inacreditável e de inédita malignidade. Mas dele basta lembrar. Realmente desejo comentar o fenômeno em sua generalidade.

Não é de hoje que vem se noticiando o aumento e agravamento da violência. Em outro tempo, um tempo que não é distante, eram raras as casas residenciais que tinham grades e hoje é raro as que não as tenham. Grades em tudo, em moradias de maior aparência e também de médias e até modestas. Quadras inteiras gradeadas.

O cenário é humilhante. Da porta de entrada à janela, no pavimento superior, grades e grades. Não são por adorno, mas por segurança, senão por medo. Isto nas casas de famílias, a revelar a extensão e profundidade do fenômeno. Já não falo no que se passa nas ruas como arrancar a bolsa de uma senhora, outrora inatacável e respeitável, hoje vítima quiçá preferencial. Bater uma carteira? Há especialistas! As vítimas apelam à polícia! Para quê? A partir daí quadros se sucedem. Pessoas idosas gozam de privilégios e de respeito? Ledo engano! Bem ao contrário.

Pessoas que recebem pensões ou proventos em datas certas são alvos preferidos à saída de bancos, são acompanhadas e no momento apropriado depenadas. Manifestações que não acabam em atos de violência, vidraças e vitrinas quebradas, não são manifestações. Queimam carros e ônibus por qualquer motivo ou sem motivo, que seriam asselvajados em qualquer lugar do mundo. 

A preferência agora é incendiar veículos estacionados, vão se tornando corriqueiros. A quanto sobe a lesão material desses bens? Em muitas dessas depredações, a polícia não interfere, assiste. É orientação superior. A degradação dos sentimentos humanos é visível e vai se tornando tolerável mercê da habitualidade.

A própria linguagem vai se deturpando e se adaptando aos novos padrões, mas se não estou em erro, o eufemismo vem da autoridade. Vandalismo passa a ser manifestação social; corrupção, malfeito; invasão, ocupação; mascarado, manifestante; furto, roubo, apropriação; troca de legenda, governabilidade... e assim por diante.

A nova sinonímia espelha a realidade do fenômeno e seu significado real.

Mas ele atravanca, a meu juízo, na violência disseminada; se há professores ásperos, há alunos violentos em relação aos seus professores, que, outrora, eram respeitados, mesmo quando não apreciados. Suponho que o automóvel tenha sua pitada de responsabilidade. O automóvel, quanto melhor, maior a influência em seu motorista. Mas estou me excedendo em coisas fúteis quando o tempo da Páscoa é de paz, de meditação e silêncios. 

O diabo é que nem os dias pascais se mantêm imunes à poeira da violência que penetra em toda a parte, embora não se sabe donde vem; vem quando menos se espera e donde nem se imagina; vem com a naturalidade do pólen das flores ou do canto dos pássaros, ainda que de outras nascentes e outras destinações.


*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF

21 de abril de 2014 | N° 17770
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Personagens

Hoje, tal como estivessem num romance, todos querem ser personagens. De preferência, protagonistas, ou mesmo únicas. O romance se constrói, como sabemos, a partir de suas personagens, e não a partir de sua história. Alguns romances “sem história” estão entre os mais importantes da literatura mundial.

Uma boa personagem “cria” sua história, e isso é suficiente para que aconteça um bom romance. Exemplo: Memórias Póstumas de Brás Cubas, que não possui uma “boa história” – é apenas a vida de um homem – no entanto, é capaz de captar nossa atenção do início ao fim, o qual, aliás, já sabemos desde a primeira página.

As relações sociais de nosso tempo, cada vez mais complexas, propiciam o surgimento de personalidades singulares, ou mesmo agrupamentos, que são cooptadas canhestramente pelo mainstream, o qual se encarrega de incluir tais personagens na teia da história, trabalhando, portanto, num processo inverso ao da criação do romance.

As famas, tão instantâneas como fugazes, pervertem o sentido do continuum que é a vida. De certo modo, rompem com a história clássica. Em suma: não se nega a complexidade individual dessas personagens, mas aquilo que aparece na sociedade do espetáculo, a pensarmos com Guy Debord, é apenas uma faceta, a necessária para cumprir uma frase do romance – às vezes um rodapé – para depois desaparecer para sempre.

Essas tristes personagens, em seus minutos de apogeu, são incapazes de “criar” um bom romance e, no entanto, todos querem desempenhar esse papel efêmero, mesmo à custa de portarem um rótulo, sempre falso, para o resto de suas vidas.

Mas nem esse temor os impede de ser personagens por um dia, ou uma semana ou dois anos. Tal como no mau romance, entretanto, essas personagens acabam na esterilidade, e o leitor, ávido de novidades [a época atual é a mais novidadeira de todas] vai à busca de outras celebridades.


O que foi dito acima apenas traz à luz da teoria da criação do romance algo que já pertence ao domínio cultural contemporâneo. E se a literatura pode ser o retrato da vida, também é uma forma de interpretação desse retrato, em que vemos milhares de personagens improvisados, não à busca de um autor, mas de uma história em que possam pedir carona. Mas, como tudo que é feito com pressa, essa carona pode estar destinada a um desastre ao dobrar da esquina.

21 de abril de 2014 | N° 17770
PAULO SANT’ANA

O crime de Três Passos (II)

Prossegue tenso e rico de detalhes o rescaldo do crime de Três Passos em que foi barbaramente trucidado o menino Bernardo, de 11 anos.

A chave para abrir o cofre da engrenagem psicológica que envolveu o assassinato está na atitude da madrasta e do pai do menino assassinado.

Os dois chegaram ao ponto de não comparecer à primeira comunhão do garoto. Como se sabe, um dos instantes mais importantes e solenes da vida de uma criança é o momento da sua primeira comunhão.

Pois a madrasta e o pai do menino tiveram o topete de não comparecer ao ato, sendo substituídos por conhecidos da família, que ficaram aturdidos com essa ausência.

A madrasta e o pai arranjaram uma viagem desnecessária para não comparecerem.

Um desprezo profundo do casal para com a criança. Esse desprezo explica em parte as razões do crime.

Uma amiga da madrasta do garoto depôs a Zero Hora sobre como a madrasta encarava o guri. Eis o que lhe dizia a madrasta: “Aquele demônio! Aquilo não vale nada, passa o tempo todo me incomodando. Tem uma cara para o pai e outra, a verdadeira, para mim”, assim se queixava com ódio da vítima uma das suas assassinas. Essa atitude, verificada algum tempo antes do assassinato, mostra claramente o que sentia a madrasta assassina pelo enteado massacrado e explica cabalmente o crime. O ódio que a madrasta nutria pelo enteado levou-a, entre outros menores motivos, ao tresloucado assassinato.

De acordo com as investigações policiais e o levantamento jornalístico até agora verificados, a amiga da madrasta que enterrou junto com ela o corpo do menino foi levada à cumplicidade no crime por motivo financeiro, a madrasta prometeu-lhe dar milhares de reais de presente, com o que quitaria seu apartamento. E ela não vacilou em ajudar a amiga, por lucro e solidariedade.

O crime foi brutal, foi fruto de uma associação criminosa e se inscreve entre os mais famosos delitos ocorridos na história policial gaúcha.

Impressiona, em vários depoimentos que se conhecem agora, a indiferença do pai para com o menino. Encarava como normal o ódio da sua esposa para com o seu filho e já há suspeitas de que incentivava esse ódio.

Daí por que o pai está preso. Não se sabe se ele teve participação material no crime, mas se tem certeza, por várias outras atitudes dele, que, entre a criança que foi trucidada e a madrasta que a trucidou, o pai ficava do lado da madrasta incondicionalmente.

E tudo indica que o pai sabia que sua mulher tinha assassinado Bernardo.

Uma suspeita que este colunista tinha e que agora se corporificou é a de que há a possibilidade de o menino ter sido enterrado vivo, ou seja, que a tal “injeção letal” que sua madrasta lhe aplicou não foi suficiente para matá-lo.


Horrendo crime.

21 de abril de 2014 | N° 17770
L. F. VERISSIMO

1962

Como aquele personagem do poema do Eliot que podia medir a sua vida em colherinhas de café, posso medir a minha em Copas do Mundo. A partir da Copa de 86, no México, fui a todas, mas as anteriores, que acompanhei pelo rádio, pela TV em preto e branco e pela TV (maravilha!) a cores, também deixaram dores e saudades. Como a de 62, por exemplo, aquela em que o Pelé se machucou e o Garrincha viu que teria que ser tudo com ele, e foi.

1962. Eu tinha saído de Porto Alegre com a ideia de ganhar algum dinheiro no Rio e seguir para Londres, onde faria alguma coisa ligada a cinema, como diretor ou vendedor de pipoca, ainda era incerto.

Me hospedei com uma tia, no Leme. Não tinha diploma de nada e nenhuma vocação aparente, fora um discutível “jeito para desenho”. A Clarice Lispector, amiga da família e vizinha da minha tia, chegou a telefonar para o Ivan Lessa, que trabalhava em publicidade, para ver se me conseguia um emprego.

O Ivan e eu marcamos um almoço que, não me lembro mais por que, nunca aconteceu. Na verdade, nunca nos encontramos.

Chegou um amigo de Porto Alegre, companheiro de inconsequências, que ganhara uma bolada na venda de umas terras do pai e, entre aplicar bem o dinheiro ou queimá-lo todo num fim de semana carioca optara pelo mais sensato: arrebanhara outros amigos e os trouxera para o Rio, e me convocou para ajudar a gastar o dinheiro.

Sim, tive meus três dias de condor, mandando baixar no “Fred’s” (o hotel Windsor, ex-Meridien, hoje se ergue sobre as suas cinzas) e requisitando coristas para acompanhar nossos delírios de paulistas. Coube a mim uma chamada Letícia, que, meu Deus, hoje deve ser avó.

Foi uma despedida tardia da adolescência. Depois começou a vida real. Fui trabalhar com um americano com a promessa de ficar rico e quase acabei preso, me casei, tentei um negócio que não deu certo e quatro anos depois de me mudar para o Rio, em vez de ir para Londres voltei para casa.

Em 1962, no Rio, você lia as colunas do Armando Nogueira, do Nelson Rodrigues, do Stanislaw Ponte Preta, do Antônio Maria, do João Saldanha, do Paulo Francis escrevendo sobre teatro e mandando pau na direita, nos jornais, e na Manchete, todas as semanas, as crônicas do Rubem Braga, do Paulo Mendes Campos e do Fernando Sabino, e na Cruzeiro as gloriosas duas páginas do Millôr.


Jango estava no poder, as reformas eram uma possibilidade (se o Lacerda deixasse, porque os militares estavam sob controle) mas, acima de tudo, havia o Garrincha. No auge, como todo o mundo.

21 de abril de 2014 | N° 17770
GRÊMIO LEVA 1 A 0 NA ARRANCADA DO BRASILEIRÃO

Derrota, pressão e cargo a perigo

Mergulhado em incertezas, o Grêmio abre a semana mais decisiva da temporada. A quatro dias da primeira partida contra o San Lorenzo-ARG, pelas oitavas de final da Libertadores, é forte o risco de queda do técnico Enderson Moreira. Consequência direta da má atuação na derrota por 1 a 0 para o Atlético-PR, ontem, em Florianópolis, na 1ª rodada do Brasileirão.

Para complicar, o goleiro Marcelo Grohe, vetado para o jogo de ontem em decorrência de lesão muscular sofrida no treino da véspera, é dúvida para o jogo na Argentina.

Ficou no discurso a promessa de reação, feita nas entrevistas da semana. Como nos Gre-Nais decisivos do Gauchão, o time teve dificuldades técnicas e Enderson pareceu confuso nas substituições. A consequência foram os xingamentos da torcida e um vestiário tenso, em que transparecia a sensação de que uma nova derrota provocará mudanças.

Pressionado pelas perguntas dos jornalistas, o executivo de futebol, Rui Costa, foi claro ao falar sobre o risco de queda da comissão técnica:

– No futebol, todos dependemos dos resultados. Não adianta só jogar bem.

Pouco depois, o dirigente tentou tirar o peso da declaração, ao ressaltar que o treinador conta com a total confiança, e que a responsabilidade é de todos. Avisou, contudo, que uma atitude forte precisa ser adotada rapidamente dentro do vestiário:

– Não podemos jogar da forma que jogamos hoje, da forma como perdemos o Gre-Nal. O time tinha intensidade, velocidade, qualidade técnica e tática. Temos que buscar isso.

Como de hábito, Enderson não elevou o tom de voz, mesmo diante da contundência dos questionamentos. Garantiu que a cobrança sobre os jogadores tem sido forte, mas evitou falar de que modo ela é feita. Quanto ao risco de perder o cargo, não se mostrou abalado.

– A pressão é desde o momento em que apareci aqui. Quando se perde, o culpado é o treinador. A vitória é o único caminho, é o que dá continuidade ao trabalho – afirmou.

Para o volante Edinho, o momento difícil não pode desmerecer a qualidade da equipe. Ao definir como “guerra” a partida contra o San Lorenzo, prometeu empenho em defesa de Enderson.

– Ele é um excelente cara, tem o comando do grupo. Se ganhasse o Gauchão, seria o melhor treinador do mundo. Se precisar, vamos largar sangue por ele em campo – garantiu.


A viagem de volta seria feita de ônibus e só terminaria no início da madrugada desta segunda-feira. O embarque para Buenos Aires ocorrerá às 16h de hoje. A torcida espera que, no retorno, o pior já tenha passado.

domingo, abril 20, 2014

MAURICIO STYCER

Quem precisa de opinião

O caso Rachel Sheherazade mostra, mais uma vez, as idas e vindas do SBT em matéria de jornalismo

A decisão do SBT de proibir comentários de seus jornalistas nos telejornais não surpreende quem já observou, em outros momentos, atitudes de pouco respeito de Silvio Santos em relação ao jornalismo da emissora.

A primeira reação do SBT ao famoso comentário de Rachel Sheherazade foi dizer que se tratava de opinião da jornalista. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que defendeu a liberdade da apresentadora do "SBT Brasil" de se expressar, a emissora procurou dizer que não tinha nada a ver com o que foi dito.

Quarenta e oito horas depois, diante da crescente reação negativa, a jornalista procurou esclarecer o comentário no ar e seu colega da bancada, Joseval Peixoto, insistiu no argumento, observando haver "uma certa confusão em separar a opinião pessoal dos apresentadores e a linha editorial do jornalismo do SBT".

Um ano antes, em março de 2013, uma campanha publicitária relembrou os princípios editoriais do SBT, divulgados em 1988. Um deles diz: "O tom do jornalismo deve ser otimista, procurando mostrar que, mesmo nas situações mais trágicas, é possível dar a volta por cima".

Em março de 1985, nos últimos dias da ditadura militar e na véspera da posse de José Sarney, Silvio Santos deu uma famosa entrevista ao "Estadão", incluindo o seguinte comentário: "Eu já dei ordens aos jornalistas da minha empresa para nunca criticar, só elogiar o governo. Se for para criticar, é melhor não falar nada, é melhor ficar omisso."

Três anos depois, em fevereiro de 1988, disse à Folha: "Eu sou concessionário, um office-boy' de luxo do governo. Faço aquilo que posso para ajudar o país e respeito o presidente, qualquer que seja o regime".

Símbolo deste "projeto editorial", o programa dominical "A Semana do Presidente" foi ao ar por cerca de 20 anos, entre os governos Figueiredo e FHC, sempre documentando em tom oficialista atos do poder.

O "TJ Brasil" apresentado por Boris Casoy (1988-97) constitui um dos raros capítulos fora da curva numa história de pouca prioridade e raros investimentos em jornalismo de qualidade.

Ao dizer que considerava "até compreensível" a atitude dos que amarraram um suposto ladrão ao poste e propor aos que discordavam de sua visão aderir à campanha "adote um bandido", Rachel Sheherazade expressou mais do que uma opinião, na visão de seus críticos: ajudou a disseminar ódio, incitou ao crime, justificou uma ilegalidade.

Além destes questionamentos, há ainda outro debate de fundo: qual é o papel do próprio jornalismo em uma emissora de TV aberta?

Ao pedir à Procuradoria-Geral da República (PGR) a abertura de inquérito contra o SBT, a líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), abordou esta questão. "A emissora vai ter de assumir. Não estamos provocando a Rachel Sheherazade, é o SBT que está em questão. Não é uma questão dela especificamente, mas dela vinculada ao canal. A gente espera que isso sirva de parâmetro para outras TVs", disse ao site "Congresso em Foco".

O SBT não quis entrar no mérito das declarações de sua âncora e, diante das pressões que está enfrentando, optou mais uma vez pelo mais fácil: ninguém mais dá opinião nos telejornais da casa.