Follow by Email

sábado, outubro 21, 2017


A vida não é um tribunal

Mateus Bonomi/Folhapress
Policiais retiram placa com frases alusivas à corrupção colocada por manifestantes em frente ao Congresso Nacional, nesta segunda
Policiais retiram placa com frases alusivas à corrupção colocada por manifestantes no Congresso
SÃO PAULO - Num tom muito cordial, pelo qual agradeço, Reinaldo Azevedo criticou minha coluna do dia 18, em que apontava semelhanças entre as sinas de alguns políticos. "Temer é vítima de um complô, Aécio, de armação, e Lula, de perseguição", escrevi. Azevedo, se resumo bem seu argumento, diz que eu fui irônico e que isso é inadmissível diante das ilegalidades e abusos processuais a que os três dirigentes estão sendo submetidos.

Admito que eu tenha sido irônico, mas não creio que isso seja pecado. O que me surpreendeu é que Azevedo, que sabe ler e interpretar textos com maestria (ele daria um excelente talmudista), tenha deixado escapar o ponto central de meu artigo. Como Azevedo, sou um garantista. O Estado de Direito é um dos alicerces da civilização contemporânea. E deixei bem claro na coluna que nenhum dos três políticos pode sofrer sanções penais sem que sua culpa tenha sido demonstrada. 

Na esfera criminal, as garantias dadas a acusados precisam ser maiúsculas. "Reus sacra res est" (o réu é coisa sagrada). Só que a vida não é um tribunal. Ela encerra outras dimensões em que o nível de proteção ofertado à defesa não precisa e nem deve ser tão elevado.

O exemplo mais rudimentar é o do eleitor. Ele não tem de considerar as explicações de Lula ou de Aécio antes de negar-lhes seu voto. Num plano intermediário estão os conselhos de ética do Legislativo. Eles não podem cassar ninguém sem nem ouvir sua versão, mas não precisam proceder com o mesmo rigor formal e material do Judiciário. Ao contrário do que se dá com juízes, a Carta não exige de parlamentares que fundamentem seus votos condenatórios.

Independentemente das tipificações penais e da validade das provas, ficou bem demonstrado que Temer, Aécio e Lula se meteram em relações promíscuas com empresários que já confessaram inúmeros atos de corrupção. Isso é mais que suficiente para uma condenação política. 

Estados desistem do programa de privatização do saneamento

Marlene Bergamo/ Folhapress
COTIDIANO - 22/07/2015 - Uma especie de favelinha esta se formando dentro de um antigo Cingapura, o local se chama Conjunto Habitacional Nova Jaguaré 2, na Marginal Pinheiros. Ao lado existe uma favela enorme, sem saneamento basico, esqueletos de obras inacabadas que deveriam ser destinadas a moradia popular, e outros ja prontos, onde vivem ex moradores dessa favela. - Foto Marlene Bergamo/ Folhapress - 0717
Conjunto Habitacional Nova Jaguaré 2, na Marginal Pinheiros

O programa de privatização de companhias estaduais de saneamento, um dos mais alardeados pelo governo federal em 2016, perdeu força com a proximidade das eleições estaduais em 2018.

De 18 Estados inicialmente interessados, apenas sete tiveram estudos de viabilidade iniciados e são apontados como projetos que podem virar editais no próximo ano.
O número pode cair mais: empresas contratadas pelo BNDES para estruturar os estudos reclamam de entraves políticos, principalmente pela proximidade das eleições.

"Alguns governadores tomaram consciência das dificuldades corporativas, e acabaram imprimindo um ritmo mais lento ao processo", afirma Rafael Vanzella, sócio do Machado Meyer, responsável pelo estudo de viabilidade em Sergipe, que está atrasado.

Em Estados onde os governadores vão tentar reeleição, a dificuldade será maior, afirma Hamilton Amadeo, presidente da Aegea, um dos grupos interessados nos ativos.

Os estudos já contratados deverão ser concluídos e apresentados aos respectivos Estados até dezembro. A partir daí, inicia-se outro filtro: cada governo estadual deverá acatar ou não as sugestões dos estudos, promover consultas públicas e, então, lançar os editais.

A expectativa das companhias interessadas nos ativos é baixa, ao menos para 2018. "Pouca coisa deve sair no ano que vem. Em abril, já vão estar definidos os candidatos às eleições; o processo vai parar", diz Paulo de Oliveira, CEO da GS Inima Brasil, empresa espanhola do setor.

"Nossa expectativa é que um ou dois editais saiam em 2018", afirma Amadeo.
Ainda assim, os projetos poderão ser retomados em 2019, avaliam os executivos.
"Como o processo está sendo conduzido pelo BNDES, quem não conseguir fazer agora, pode retomá-lo", diz. Os sete Estados já com estudos contratados são Acre, Alagoas, Amapá, Ceará, Pará, Pernambuco e Sergipe. Roraima, Rondônia e Rio de Janeiro ainda estão em fase de contratação. Os demais Estados "não manifestaram interesse firme em aderir", relatou o BNDES.

Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte são apontados como alguns dos Estados que voltaram atrás por resistências internas. Além disso, há a situação do Rio, que é particular: a privatização da Cedae (empresa de saneamento fluminense) faz parte do plano de recuperação fiscal do Estado e deve ser conturbada, embora o interesse pelo ativo seja grande. O PPI (Programa de Parcerias para Investimentos) afirmou que a pauta relacionada a saneamento está com o BNDES. O banco diz que não há atrasos nos estudos, ao menos por parte da instituição.

NOVO REGULADOR

O saneamento tem sido uma das prioridades do PPI e do BNDES. O banco, à época sob a gestão de Maria Silvia Bastos Marques, chegou a criar um setor especializado para conduzir o processo.

Uma medida em estudo para dar mais segurança é tornar a a ANA (Agência Nacional de Águas) uma agência reguladora federal do saneamento, embora este seja uma prerrogativa municipal. A ideia é encarada com ceticismo por consultorias envolvidas no processo –um ente federal dificilmente teria capacidade de fiscalizar o serviço nos municípios.

As interessadas nos ativos, porém, defendem que a medida traria segurança. "Como são parcerias de longo prazo, a agência seria um mediador de eventuais problemas", diz Amadeo. Além disso, o órgão poderia dar uma padronização mínima aos contratos. Procurada, a Casa Civil não se manifestou sobre o tema

21 DE OUTUBRO DE 2017
LYA LUFT

Objeto precioso


Minha coluna de hoje seria sobre um vídeo que recebi de uma amiga, que me deu um belo susto e me levou a escrever um artigo logo. Sem pesquisar, sem conferir. Até a voz do vídeo eu pensei reconhecer. Era uma jovem mostrando uma boneca que a filhinha teria recebido entre outros presentes, boneca "menina" de vestidinho e tudo, que - descobriu a criança trocando a roupa do brinquedo - ostentava um óbvio "piu-piu", na linguagem dela. Mas, compensando uma precipitação que em geral não tenho ao escrever, logo alguém chamou minha atenção, o vídeo era fake, e nem novidade era. Suspendemos a coluna, e eis-me aqui fazendo outra, bem mais agradável para mim.

Falo de um precioso objeto que acaba de chegar em minha casa, via Sedex, naturalmente com algum atraso porque estivemos em greve. Que objeto, e por que precioso - para esta que aqui escreve? Meu novo livro. Meu livro de número trinta. Trinta? Refiz a conta e, sim, em muitas décadas, escrevi trinta livros, então não é um exagero. Bem menos de um por ano.

Estou habituada a escrever e receber meus livros. Essa é a minha profissão. Mas este, talvez pelo número, me tocou mais. Estou com ele em cima da escrivaninha, aquele primeiro e único que o editor me manda sempre antes que chegue meu lote completo: pequeno, discreto, A Casa Inventada. Que casa, e quem inventa? Criei uma alegórica casa da vida, da vida de cada um de nós, que a vamos criando. Diz uma personagem a outra: "Você não está inventando a casa da sua vida, está tecendo a sua mortalha. A cada noite interrompemos o trabalho, e recomeçamos no dia seguinte". Seremos todos Penélopes da própria existência?

Quem sabe. O jeito é ler o livro. Que deve estar nas livrarias do país no dia 6 de novembro, em pouco mais de duas semanas. O editor escreveu uma orelha breve mas que me agradou, pois pergunta-se, como todo mundo fará: que gênero é esse? Ficção, memória, ensaio não acadêmico? Gosto de misturar tudo isso, desde O Rio do Meio, de 1997, passando pelo Perdas & Ganhos, e alguns outros, além de mais poesia e mais ficção. O editor conclui, e lhe agradeço por mais isso: "É o gênero Lya Luft".

Então nasceu e está chegando o meu novo livro, minha nova criatura, essa casa na qual não somos pedreiros nem arquitetos, mas amadores.

Quando ele estiver nas livrarias, eu aviso. Logo haverá, como sempre, aquela noite de autógrafos que me dará pesadelos (também como sempre), embora cada vez acabe numa celebração de afetos e carinho.

Quando chegar a hora, eu anunciarei aqui, e escreverei de novo: "Não me deixem só". E divirtam-se com mais uma invenção minha.

lya.luft@zerohora.com.br


21 DE OUTUBRO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Perder o casal


Cena da peça A Reunificação das Duas Coreias, do francês Joël Pommerat: é noite, o marido e a esposa retornam de um jantar e a babá está aguardando-os, sentada numa cadeira da sala. Indo direto ao quarto dos filhos, a esposa dá pela ausência deles. Volta para a sala e pergunta para a babá onde estão as crianças. A babá, atônita, não responde. A mulher e o homem começam a gritar com ela. A babá não sabe o que dizer. O homem pega o telefone e chama a polícia, a esposa chora, e a babá segue constrangida. 

Eles continuam berrando com ela: Onde estão nossos filhos?. Ela, então, responde: Que filhos? Vocês não têm filhos. Vocês me contrataram para ficar aqui como se houvesse crianças, mas elas não existem. Aceitei essa palhaçada porque estou precisando de dinheiro. A polícia já está batendo à porta, mas o casal não abre, agora estão ajoelhados em frente à babá, implorando para que ela não destrua a farsa. O texto deles é um soco.

"Se você tirar nossos filhos, nossa vida vai parar. Não existiremos mais. Nossa história perderia todo o sentido, tudo desabaria. Nossa vida não teria mais nada de real, nenhuma justificativa, acabaríamos nos perdendo um do outro. No fundo, não temos nada de importante a nos dizer, nada a compartilhar, nada em comum. Nada de importante para fazermos juntos, nada de verdadeiramente necessário e crucial sem nossos filhos. 

Nos tornaremos dois estranhos, dois fantasmas.Tememos isso como a morte. Não queremos perder nosso casal, isto é o que nos mantém vivos. Você sabe que um casal é como um ser vivo. É um parâmetro essencial, é uma luz que chama a atenção dos outros para a sua existência. Nosso casal se construiu com base nos nossos filhos. Então, sem filhos, nós desaparecemos, não temos identidade própria. Isso não lhe causa nenhuma compaixão? Por favor, devolva nossos filhos."

É perturbador ver alguém implorando para que lhe devolvam uma ilusão.

Cruzamos com vários casais pelas ruas sem conhecer as mentiras que sustentam suas existências. Para não perderem "o casal", alguns homens e mulheres fazem vista grossa para a ausência de amor e para os desejos particulares que cada um abafou. Horrorizam-se com a possibilidade de não terem projeção social caso retornem ao mundo dos solteiros. Enquadrados, sentem-se mais seguros.

Famílias são bênçãos, são projetos conscientes de vida, mas também podem ser formadas apenas a fim de constituir uma prova de ajustamento. Através da família, pertencemos a um mundo idealizado. Quem se desmembra deste mundo carrega consigo a sombra de um defeito moral. É visto como um desgarrado, um solitário, essa gente estranha que assusta, pois são livres demais.

Por isso, alguns "ajustados", não tendo coragem de ser sós, recorrem à farsa. Há uma pequena nação de covardes por trás das cortinas.

MARTHA MEDEIROS


21 DE OUTUBRO DE 2017
CLARA AVERBUCK


De boas intenções as famílias estão cheias

Olá, familiares. Venho trazer um pedido: nunca, nunca, JAMAIS, em hipótese alguma, falem mal dos corpos das adolescentes.

Se você acha que ela está "gordinha", "acima do peso" ou qualquer coisa assim, guarde pra você.

Se você acha que ela poderia comer menos pois, olha só, como engorda fácil, também guarde pra você. Se você acha que se essa menina não "se cuidar e fizer um esporte vai ficar gorda", guarde muito profundamente pra você.

Se sua nobre intenção era "ajudar" falando coisas desse naipe, saiba que você FALHOU. Falar mal dos corpos das meninas que estão começando a crescer e se acostumar com corpo de mulher só vai fazer com que elas se sintam mal, muito mal consigo mesmas, em um mundo que já faz isso com maestria, começando pelo fato de que, apenas por crescerem, elas já recebem olhares que não recebiam antes nas ruas e não sabem o que fazer com eles. 

Só vai fazer com que tenham vergonha de seus corpos, com que se escondam, e sabe o que mais? Que DESENVOLVAM DISTÚRBIOS ALIMENTARES. Que busquem remédios milagrosos e perigosos. Encontrem nichos de meninas já doentes com "dicas" na internet, que existem aos borbotões.

Criticando uma adolescente, familiar, você não está ajudando; Você está atrapalhando e ajudando a criar uma mulher insegura.

Caso a sua grande preocupação seja a saúde, que é sempre a desculpa para dar pitaco no corpo alheio, aborde A SAÚDE, não o corpo ou usando o jurássico IMC para justificar sua abelhudice. Não custa repetir: magreza não é saúde. Há inúmeras pessoas magras com colesterol alto e distúrbios mil e outras, consideradas "acima do peso", vivendo saudáveis e felizes.

Sabe o que não é saudável nessas pessoas? Saúde mental. Se a sua preocupação é saúde, pense também na saúde mental e em quantas meninas jovens enlouquecem diante de corpos manipulados, seja por imagem ou por plásticas que criam corpos inatingíveis e que elas buscam com o desespero da aprovação que jamais virá, porque nunca é o suficiente.

A intenção pode ser boa. Passei muito tempo da minha vida ouvindo que tinha um belíssimo rosto mas que meu corpo, hmmm... E isso que eu nunca fui gorda. Menos ainda na adolescência. E mesmo assim desenvolvi distúrbios que me acompanham até hoje. Novamente: não sejam essas pessoas. Lembro que, no auge de uma depressão misturada com anorexia, a única que percebeu foi a minha avó. Todo mundo achava aquela magreza linda (49kg para 1.73), e apenas a minha avozinha viu que tinha algo errado ali. Tinha. Eu estava morta por dentro. Mas magra! Linda! Não, gente. Meus olhos sequer brilhavam.

Querem elogiar? Arrumem novos elogios. "Como você emagreceu", como tanto tenho ouvido agora, chega a me agredir, já que eu emagreci porque tive uma gastrite galopante e fiquei dias sem comer. Agora estou bem, fazendo esportes, mas isso ainda me afeta. E se eu ainda estivesse doente? E se fosse mais sério? E se eu não quisesse falar sobre isso?

Parem com isso, por favor. Parem de tratar magreza como sinônimo de normalidade e felicidade.

Todos os corpos merecem ser felizes e respeitados. Então, por misericórdia, se não tiver nada de positivo para falar, não diga nada.

Shhh. O silêncio é mesmo de ouro quando o que sairia da sua boca seria ouro de tolo.

CLARA AVERBUCK

21 DE OUTUBRO DE 2017
CARPINEJAR

Você é uma abelha ou uma mosca do amor?

Você pode ser uma abelha ou uma mosca no relacionamento.

A abelha busca o pólen, prepara longamente o mel do seu esforço, articula as asas em nome da colmeia, chega a esquecer de si pelo alvoroço da família, tem a euforia de passear acompanhada. Mesmo quando a vida não ajuda, trabalha a esperança. Não entrou num romance para esperar algo, mas para fazer. Não reclama à toa, partilha os seus dilemas procurando uma solução. A dúvida a inspira a perseguir novos jardins e explorar outras paisagens.

Por sua vez, a mosca namora ou casa já pensando no divórcio, já receosa do fracasso, já aguardando a confirmação de seus medos. Sempre tem razão, sempre replica expectativas desagradáveis. Quer provar que o seu par não presta, ainda que tenha que se privar da própria felicidade.

Ela sobrevoa sobras mortas e fica catando implicâncias superadas. Adota o ciúme para desqualificar, emprega a competição para constranger. Não avalia a sua alegria por aquilo que pode oferecer, mas por aquilo que pode receber. Não vai adiante nas adversidades, para no ar, fixa-se no passado. Revela o pior de sua companhia, desmerecendo os elogios e omitindo os avanços. Não cria o seu espaço, aproveita-se da personalidade alheia. Suga apenas a realidade de suas projeções, pois nenhuma mosca é capaz de morder ou mastigar os problemas.

A mosca finge que está tudo bem quando está mal, finge que está mal quando está tudo bem, não enfrenta a verdade, conversa fatiado, realizando muitas coisas paralelamente, isenta-se pela pressa dizendo que não é a melhor hora para mudar (nunca é a melhor hora), não coloca a sua companhia como prioridade, deixa o telefone tocar quando vê o nome, conserva uma atenção dispersiva, arruma pretextos para não se mexer, não pede desculpa porque não acredita no parceiro, arma-se de uma pendência no trabalho para manter a confortável inércia.

A mosca é egoísta, a abelha é solidária. A mosca é do contra, a abelha é a favor. A mosca é conformada, a abelha é curiosa. A mosca provoca enterros, a abelha apressa renascimentos. A mosca revira o lixo das contradições, a abelha organiza o caos e separa o útil do fútil. A mosca incomoda, a abelha incentiva. A mosca não defende ninguém, a abelha possui a ferroada para proteger quem ama. A mosca abandona, a abelha carrega.

Ambas voam. Mas só a abelha sobe alto no amor.

CARPINEJAR

21 DE OUTUBRO DE 2017
PIANGERS


É brincadeira!

Eu sei o que você fez no verão passado. Seus filhos estavam de férias, cheios de energia, e você tendo que acordar cedo e ir pro trabalho, aguentar trânsito e reunião, pra chegar em casa e ver as crianças gritando: Papai, brinca comigo?. A gente nem tirou o sapato ainda e já tem crianças se pendurando na gente. A gente faz cosquinha, beija a barriga deles, diz espera um pouco o papai já brinca, vai pro banheiro lavar a cara. 

Ao sair do banheiro buuuuuuu leva um susto, as crianças têm espadas de brinquedo, querem brincar de lutinha. Você está com fome, sede, dor nas costas, estresse. Precisa de uma cerveja. E as crianças gritando: brinca, pai!.

Você até brincaria agora, mas sabe que brincadeira de criança não tem fim. Cada lutinha seria seguida de um "de novo!". Cada jogo de futebol no corredor iria até depois da meia-noite. Cada vez que você joga seu filho pra cima ouve um: "só mais uma vez". Quando leio livros para minhas filhas sempre ouço "o último", enquanto a mais nova vai até a estante pegar mais um. Ou "de novo", quando já li 10 vezes o Chapeuzinho Amarelo. Lobo bobo lobo bolo lobo zzzzzzz. Pai, você dormiu! Não, não. Papai estava só fechando os olhos.

Quando vem um filho e os amigos dizem: "Aproveita pra dormir agora!" é porque é verdade. Você vai dormir menos, ter por anos uns macaquinhos se pendurando em você, vai obrigatoriamente passear no parque todo sábado e ficar acabado em período de férias. Você vai querer voltar pro trabalho na segunda! Mas, se parar pra pensar, do que você está fugindo?

Quantas noites em claro você não virou na balada ou estudando pra uma prova? Quantas vezes ficou até as 3h da manhã vendo seriado na TV? Quantos domingos chegou acabado depois de um churrasco com cerveja?

São os nossos filhos, as coisas mais importantes que faremos na vida. São eles querendo brincar e correr e ler o mesmo livro pela milésima vez. São os nossos filhos, nossas obras-primas, que se pendurarão em nossas costas por mais 10 anos no máximo. Vai passar. Vamos sentir falta. Até quando vão querer brincar conosco?

PIANGERS

21 DE OUTUBRO DE 2017
INFORME ESPECIAL

RICHARD BRANSON NO ESCURO

Aventureiro, bilionário, boa-pinta e poderoso. O britânico Richard Branson é o fundador do grupo Virgin, faturamento anual equivalente a R$ 61,4 bilhões. Discos, aviões, trens, hotéis e turismo espacial estão entre os negócios do conglomerado.

Durante a semana, ele deu uma palestra na Wharton School, Filadélfia. Fila na porta, auditório lotadaço. Cheguei cedo. Sentei bem perto do palco.

Camisa branca com mangas dobradas, cabelo cuidadosamente despenteado e um sorrisão estampado no rosto, o palestrante foi ovacionado quando saltou detrás de uma cortina. Sua primeira frase: "Tem alguma coisa errada aqui". Ato contínuo, pegou uma tesoura - estrategicamente colocada antes sobre mesa de apoio - e cortou a gravata do mediador, um professor de Wharton, em três pedaços, todos jogados para a plateia ao estilo rosas de Roberto Carlos. Delírio. Gritos, risos, aplausos.

De volta aos negócios, Branson, 67 anos, anunciou que o seu primeiro foguete comercial, que levará turistas ao espaço, fica pronto até o começo de 2018. E perguntou ao respeitável público: "Quem aqui gostaria de ir para o espaço (pausa) com passagem de volta?". Quinze por cento ficaram imóveis, eu entre eles. O avião foi inventado há mais de cem anos e, vira e mexe, dá problema. Imagina um foguete.

Branson é um showman. Sofre de dislexia, distúrbio que compromete a capacidade de leitura e, por isso, algumas vezes, o aprendizado. Abandonou a escola aos 15 anos.

Perguntado como isso impacta na sua vida, nem precisou pensar: "Me tornei muito bom na arte de delegar e aprendi a ser simples e a exigir simplicidade".

Aí foi lindo, porque caiu uma daquelas fichas que só caem de vez em quando. É possível transformar a fraqueza em força. Foi o que de mais importante aprendi na palestra, que teve também um surpreendente momento bairrista.

O assunto era engajamento social quando surgiu uma foto no telão. Branson, Nelson Mandela, Jimmy Carter, Kofi Annan. No canto esquerdo, em primeiro plano, Fernando Henrique Cardoso. O palestrante apresentou-os como "pessoas experientes, com elevados padrões morais e que formam um grupo capaz de aconselhar e ajudar a manutenção da paz na Terra". Uau.

O dono da Virgin está lançando seu novo livro, Encontrando a minha Virgindade, autobiografia que termina com uma lista de 75 ocasiões em que ele poderia ter se machucado muito ou morrido. Surra de assaltantes, mergulho com baleias - chegou perto demais e quase foi atingido pela cauda de uma delas -, acidentes, quedas, saltos, tentativas de sequestro, escaladas, incêndios. "Você só pode perder a sua virgindade uma vez. Mas, em cada aspecto da minha vida - erguendo negócios, construindo a minha família, embarcando em aventuras -, eu tento fazer coisas pela primeira vez todos os dias", explicou.

Achei meio cansativo. Todos os dias? Dá pra ser uma vez por semana ou por mês? E fiz, mentalmente, a minha lista de "close shaves", cortes de lâmina muito rentes à pele, forma que eles usam aqui para definir o que chamaríamos de "quase mifu".

Enfiei um arame na tomada, perguntei pro Chico Buarque a opinião dele sobre o mensalão e assisti a mais de 10 jogos com o Airton e o Balalo no meio-campo. Chega, né? Depois lembrei que nadei com um tubarão. Bem pequeninho. Mas era um. Gostei mais de nadar com golfinho. Mas isso não rende livro nem palestra.

Só posso dizer que fui dos poucos na palestra, talvez o único, a ver um outro Branson. No escuro, quando ele pediu para rodar um vídeo sobre ele mesmo.

Eu estava bem perto do palco. Fiquei olhando fixamente para ele, não para a tela. Assim que as luzes se apagaram, sua expressão mudou. Ele se curvou levemente na cadeira. Tinha agora uma fisionomia cansada, preocupada. Olhar distante. Foram quatro minutos de um Branson quase invisível.

Quatro minutos.

A luz voltou.

O aventureiro, bilionário, boa-pinta e poderoso voltou.

O show não pode parar. (Tulio Milman) 

sexta-feira, outubro 20, 2017

Gloria Perez recupera audiência do gênero em sua melhor novela

A FORÇA DO QUERER (muito bom) 
*
Podem dizer que novela é subproduto cultural, a TV emburrece ou a Globo faz lavagem cerebral. Nada disso se aplica à prática de uma concentração de audiência tida como extinta que não acontecia, no volume alcançado por "A Força do Querer", desde 2012.

No universo de tantas telas e conexões, parecia não ser mais o caso de um produto de 173 capítulos ultrapassar a média de 36 pontos (dados da Grande São Paulo até o episódio 171, onde a cifra representa 2,5 milhões de domicílios). Dona de hits como "O Clone" e "Caminho das Índias", Gloria Perez encerra hoje o seu melhor folhetim.

Há um conjunto de personagens bem construídos, a arte de alinhavar seis núcleos na linha de frente, com mais de seis figuras com status de protagonistas, e ao menos três bandeiras sociais que se revezaram em cena: tráfico de drogas, vício em jogo, e transexualidade, que marca "A Força do Querer" como referência de gênero no gênero.

Em vez de priorizar um tema, a autora carregou todos os imbróglios ao mesmo tempo, pincelando outras causas no meio do caminho, como sereia, profecias indígenas, dilemas profissionais. Era um risco a correr, mas também a chance de queimar cartuchos à vontade, sem medo de faltar história para o dia seguinte.

A maestria foi a capacidade de puxar todos os temas por algum romance mal resolvido, camuflando as questões mais "pesadas" por meio do discurso passional.
Outro fator positivo diz respeito, e diz muito, à direção de Rogério Gomes, o Papinha. Houve uma supervalorização do texto, no melhor sentido para um veículo que se sustenta na imagem, com seleção precisa de trilha sonora incidental e efeitos capazes de segurar a plateia. O desfecho de cada capítulo, com áudio ecoando o último diálogo do dia, honrou o suspense encomendado pela autora no papel.

No conjunto de uma obra que coleciona mais acertos que erros, saltou aos olhos a performance irregular do elenco. Não é o caso de crucificar Fiuk, mas de quem escalou o ator sem lhe dar a devida noção da tarefa a cumprir. A mesma direção que tanta diferença fez no produto final deixou o elenco à vontade, mas havia quem precisasse de uma atenção extra. As boas atuações de Dan Stulbach, Lilia Cabral, Juliana Paes, Elizangela, Débora Falabella, Tonico Pereira, Cláudia Mello e Carol Duarte só reforçaram as fraquezas alheias. Marco Pigossi surpreendeu, assim como Humberto Martins, o marido afetuoso travestido de ogro.

Escrita por uma mulher, foi uma história para celebrar a mulher, mas não era o caso de reforçar com o contraste de homens tão frágeis. Faz parte do show carregar as tintas do conflito para valorizar o drama.