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sábado, abril 19, 2014


Por Mônica El Bayeh
06/04/2014 15h28 - Atualizado em 06/04/2014 17h24

O que será de nossos meninos e meninas?

Na 'Visita de Domingo', Mônica denuncia a tragédia da educação no Brasil - nosso maior escândalo. Uma geração perdida, incapaz de raciocinar.

Sem saber do passado, sem ter um presente, serão eles que cuidarão do futuro? (Foto: João Machado)

Trabalho escrito no quadro: como eles se imaginavam dali a vinte anos. Uma tentativa de visualizar um futuro. De preferência, um futuro melhor, descobrir possibilidades. As perguntas eram simples: quantos anos teriam? Qual profissão? Casados? Filhos? Morariam onde? Simples? Não para todos.

- Ô professora, e como é que eu vou saber quantos anos eu vou ter daqui a vinte anos? Eu hein, você é tão engraçada...

- Soma vinte!

Não somava. Foi o que eu descobri. Não somava dois mais dois. Tinha dezesseis e, por conta da idade avançada, foi jogado no sexto ano. Disseram que era promoção. Foi promovido ao sexto ano. Como? Pergunte às ordens sinuosas que recebemos das altas autoridades educacionais.

Meu aluno não é exceção, é regra. Só mais um nessa multidão de alunos empurrados com a barriga de quem quer números, mas não se dispõe a investir. Ficou chocado? Leia mais uma.

Trabalhava, na aula de francês, o verbo 'être' (ser ou estar). Mantinha o sujeito e o verbo fixos. E mudava só os complementos, fazendo frases novas. Pedia que eles copiassem.

Descobri que tudo que eu apagava no quadro, uma aluna apagava também em seu caderno. A página já estava até meio rasgada de tanto atrito.

- Ô professora, você está de sacanagem comigo! Para que você manda copiar se tem que apagar depois? Eu não vou apagar mais nada, não!

- Tem toda razão, não apague mesmo.

Dia de prova. Eles poderiam consultar o caderno. No caderno, três exercícios, feitos em aula, que eram iguais à prova, poucas palavras diferentes para disfarçar. Percebi que eles não conseguiam fazer, mesmo assim. Pedi que interrompessem a prova, que dessem um tempo. Fui ao quadro e fiz, junto com eles, várias frases parecidas. Uma revisão da matéria.

Fingi que me esqueci de apagar. Larguei as respostas da prova no quadro! Não adiantou nada. Até Deus, fé e Amém preenchiam as lacunas. Mas verbo correto, que é bom, não apareceu. Pelo visto, não rezaram o suficiente.

O que fez o resultado da minha prova ser um fiasco foi a incapacidade de pensar, de construir, de juntar as partes e enxergar um todo. Não é por ser francês, posso garantir. É porque eles não ligam o nome à pessoa.

Sem esse blá blá blá tosco de que, como mal sabem português, para que afinal outra língua... Isso é medíocre. Uma língua amplia o aprendizado da outra. Uma língua ensina a outra. Pergunte a quem sabe várias.

O PISA (programa internacional de avaliação de estudantes) é um exame que avalia os estudantes que estão concluindo o ciclo básico de ensino nas áreas de matemática, ciências e leitura. Nos exames, nossa posição é um triste e humilhante trigésimo oitavo lugar num ranking de quarenta e quatro países.

Os alunos brasileiros estão entre os piores em teste de raciocínio lógico. Tem novidade nisso? Não para quem está em sala de aula. É triste, mas não acho que seja surpresa. Já sabíamos disso. Era uma tragédia anunciada. Professores e alunos são todos vítimas da mesma política educacional de fachada que nos jogou no fim da lista dos avaliados. Vivemos numa política de educação pública onde a qualidade e o investimento beiram o nada.

A começar pelo salário dos professores. Além de receberem péssima remuneração, são obrigados a aprovar alunos. Seja por ordens camufladas e indecentes, seja pela necessidade de ganhar o salário extra que vem de prêmio por aprovação.

Nós temos fome de livros, filmes, poesias, músicas que nos falam à alma e nos dão colo e alento.Vemos alunos que chegam com fome de merenda, não de saber. Muitos nem trazem material. Recebem cadernos e material escolar do município. Quebram as réguas, derramam a cola pelas carteiras. Jogam livros nos telhados vizinhos. As mochilas ganhas são largadas pelas ruas como se fosse lixo.

Dos cadernos fazem bolas de papel, aviõezinhos. Mas todos têm celular dos que têm internet e tocam música. Vários nunca entraram num teatro, nunca leram um livro. Mas desfilam com tênis da moda, e ainda riem dos que compram na ¨feirinha¨.

Os valores estão fora de ordem. Mergulhamos numa cultura rasteira de embates corporais. Movida pelos impulsos descoordenados. Eles se batem, brigam, brincam de se bater. Eles se esfregam, se oferecem, se seduzem e partem para os finalmente.  Se autodenominam cachorras e cachorros! E acham isso ótimo.

O que nos permite distanciamento do corpo é o respeito, o cuidado, o afeto e o saber. Eles têm algum desses itens? Muitos sim, com certeza. Infelizmente, não a maioria.

Eles trabalham na incapacidade de mediar pensamento e ação. Se forem contrariados, avançam, ameaçam e muitas vezes agridem mesmo, partem para cima. Sabe o que acontece? Nada acontece. E assim seguimos num fio de esperança tênue. Cada vez mais esfolados.

O nome do exame é Pisa. Nosso resultado nele: mais inclinado que a torre da Itália e tendendo ao chão.

Uma quantidade grande de nossos alunos não desenvolveu a capacidade de raciocinar de uma forma mais ampla e aprofundada, é só entrar numa sala e observar. Eles saem da escola. Viram entregadores de pizza, água, marmita, farmácia. Isso quando não vão para a bandidagem.

O que vai ser desses meninos? O que será de 'nos enfants'? São eles que ficarão aí para cuidar do futuro? Sinto medo do que nos espera.
RUTH DE AQUINO
11/04/2014 20h38

Quem paga o pato é você

Lula fala como se não fosse em nada responsável por tudo o que está aí. E a maioria ainda acredita nele

O maior líder da oposição atualmente, que cobra mais medidas concretas da presidente Dilma Rousseff, que mais reclama do estado preocupante da economia brasileira, que ganha mais manchetes, que mais mexe com o mercado quando abre o verbo, e que mais tem condições de ganhar a eleição, todo mundo sabe, é Lula, o criador da criatura.

Lula sempre soube que não entende nada de economia. Mas entende de povo. Sabe que os brasileiros estão pessimistas e irritados com a inflação sentida no mercado e na feira. O tal “teto da meta” já foi estourado há muito tempo no dia a dia, e isso é fatal para uma líder sem carisma. As greves começarão a pipocar, para o povo recuperar o poder aquisitivo. Lula não gosta nadinha do que vê. Você pode chamá-lo do que quiser, menos de bobo.

Em sua entrevista a blogueiros, com repercussão na imprensa que ele ataca, Lula foi direto na jugular da companheira. “Poderíamos estar melhor, e a Dilma terá de dizer isso na campanha claramente: como a gente vai melhorar a economia brasileira.” Lula fala como se não fosse em nada responsável por tudo o que está aí. E a grande maioria dos eleitores acredita nele.

Se será ou não candidato, é outro papo. Lula interveio agora na Presidência de maneira mais bruta que o Comitê Olímpico Internacional interveio na Olimpíada do Rio. É o mesmo raciocínio. Quando um projeto corre o risco de desandar, entra no ringue o mais forte para evitar danos futuros. O projeto Dilma soçobra como os Jogos no Rio. Falta credibilidade a ambos.

Lula não quer ninguém atrapalhando o PT. Nem a pupila Dilma, nem o ex-vice-presidente da Câmara, André Vargas, hoje um náufrago abandonado à própria sorte. “No final”, disse Lula, “quem paga o pato (da amizade de Vargas com o doleiro preso Alberto Youssef) é o PT.”
Quem paga hoje o pato não é o PT, mas o cidadão brasileiro. Paga o pato, a galinha, os ovos, o tomate. Paga mais do que dizem os índices oficiais de inflação. Paga o pato do despreparo e do oba-oba da equipe econômica, que deitou no sofá do Planalto em tempos fáceis e agora não consegue nem maquiar a economia real. Adiam-se aumentos nas contas de luz e de gasolina, e ninguém acredita mais em meta nenhuma.

Na corrida contra o tempo e contra o descrédito, até a eleição, Dilma tropeça em si mesma, se encolhe, não pode aparecer em público porque será vaiada, torce para a Seleção ganhar a Copa e tem de engolir as broncas públicas de Lula. “Minha candidata é a Dilma”, repete Lula. Mas ele só alimenta o que chama de “boataria”, quando se diz insatisfeito com os rumos da economia no Brasil.

“O problema maior foi deixar a inflação bater no topo da meta”, diz o economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real e ex-presidente do BNDES e do IBGE. “Estavam brincando com fogo e estão colhendo o que semearam.” Está claro, segundo Bacha, que a taxa de inflação real é maior que os 6,15% anuais. “Essa taxa, parcialmente oculta pelo controle dos preços administrados, contamina muito a própria ordem social.” Bacha não se assusta com as greves nem crê na argentinização do Brasil. “Não é o fim do mundo. Quem está parando é gente com poder de barganha, operários envolvidos em obras estratégicas.”

No Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro, funcionários em greve das obras de expansão do metrô irromperam com paus e pedras na esquina de minha rua. Estavam furiosos com os colegas que furavam a paralisação e insistiam em trabalhar. Os grevistas exigem pagamento de 100% sobre as horas extras, aumento da cesta básica de R$ 230 para R$ 300, retroativo a fevereiro, e 10% de aumento nos salários.

É só conversar com qualquer um na rua, taxista, segurança, lojista, feirante, dona de casa, que você ouvirá o que as pesquisas detectam: insatisfação, medo e desconfiança. O Rio teve a inflação mais alta do país, 7,87% em 12 meses. A alta em alimentos e serviços é muito maior, tanto que a moeda na cidade passou a ser apelidada de “surreal”. Como a maioria não acredita em “legado social da Copa”, tornou-se visível uma torcida cada vez mais militante contra o desempenho da Seleção.

Os grevistas da linha 4 do metrô carioca reivindicam só 10% de aumento porque não leem jornal nem revista. Se fossem bem informados, saberiam que o governo federal aumentou as despesas totais em 15%, só no primeiro bimestre de 2014. A conta de pessoal e encargos sociais cresceu 13,5% em janeiro e fevereiro.

Péssimo exemplo! Com as finanças públicas sem controle no Brasil de Lula e Dilma, quem paga o pato não é o PT, é você. Até rimou.



19 de abril de 2014 | N° 17768
EDITORIAIS

A EDUCAÇÃO SIMPLIFICADA

Estados e municípios em busca de subsídios para qualificar o ensino dispõem das lições oferecidas pela prefeitura do Rio. A ex-secretária de Educação carioca Cláudia Costin, que assumirá a diretoria do setor no Banco Mundial, chega ao cargo como reconhecimento pelo trabalho que liderou no município. Em entrevista ontem ao programa Atualidade, da Rádio Gaúcha, a secretária contou em detalhes como conseguiu melhorar significativamente os resultados da maior rede pública municipal da América Latina, com 1.075 escolas e mais de 43 mil professores, e resumiu a performance obtida a partir de uma deliberação aparentemente singela: Em primeiro lugar, é preciso ter coragem.

É o que de fato ainda falta para o início de mobilizações como a conduzida pela ex-secretária, cuja formação em Administração e Economia destoa do perfil clássico dos gestores da área. O principal foco do seu trabalho foi exatamente a melhoria da gestão. O ensino municipal reavaliou também sua base pedagógica e, por fim, o setor público passou a atrair, com uma boa remuneração, até mesmo profissionais que atuavam na rede privada.

Há lições que podem ser absorvidas de imediato, entre essas a de que o sistema de progressão continuada, que evita reprovações, pode ser, como define a ex-secretária, apenas um modelo a serviço de uma visão demagógica. Por conta desse sistema, cerca de 80% das escolas cariocas não tinham provas. Uma ideia que não se sustenta apenas nas boas intenções estava penalizando crianças pobres, sem exames de avaliação, com um ensino classificado na entrevista como “de segunda classe”. As provas foram retomadas, e as escolas passaram a receber o suporte de material curricular único.

Outro aprendizado é oferecido pela ênfase dada à alfabetização, a partir da constatação de que, em 2009, 13,6% dos alunos do 4º ao 6º ano eram analfabetos funcionais, ou seja, não dominavam leitura e escrita básicas. Em 2013, esse índice caiu para 3%. Além disso, 90% das crianças saí-ram do 1º para o 2º ano alfabetizadas.

A mesma gestão obteve rendimentos muito acima da média nacional entre estudantes do 6º ao 9º ano, submetidos aos exames do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. O município conseguiu o engajamento dos professores com a definição de objetivos e uma manifestação inquestionável de valorização dos docentes, com os vencimentos mais altos entre as redes públicas das capitais brasileiras.


Mesmo assim, a nova diretora do Bird enfatiza que melhorar o ensino não custa caro. Trata-se, na verdade, de uma escolha, com a definição de prioridades, que a maioria dos administradores ainda precisa fazer. Como gestora de educação na instituição internacional, Cláudia Costin poderá contribuir para avanços na educação especialmente na América Latina, na África e na Ásia, como parte dos esforços de combate à pobreza. A ex-secretária é uma das provas de que o Brasil forma talentos capazes de reverter o quadro geral da educação, mas que somente serão efetivos se contarem com o respaldo de administradores corajosos.

19 de abril de 2014 | N° 17768
NÍLSON SOUZA

Gabo vive

No dia em que começaram a matá-lo, García Márquez deixou o hospital às 13h45min de uma tarde ensolarada na Cidade do México e foi conduzido de ambulância para sua casa no bairro colonial de San Ángel para receber cuidados paliativos e o carinho de seus familiares. Ninguém sabe se ele sonhou que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branca, como seu personagem Santiago Nasar.

Tampouco se sabe se foi feliz no seu último sono longe de casa. O que se sabe, pelo noticiário, é que estava com câncer terminal e que os médicos decidiram não sacrificá-lo com um tratamento doloroso, considerando o avançado estado da doença e sua idade. O autor de Cem Anos de Solidão estava com 87 anos.

Dizem seus acompanhantes que ele enfrentou a última internação com bom humor, embora incomodado com a presença implacável de jornalistas na frente do hospital. Foram eles, os homens da mídia, que começaram a matá-lo antes da hora, cumprindo os desígnios de uma atividade que o próprio escritor classificou um dia de “melhor profissão do mundo”. Jornalista de origem, o genial romancista colombiano concluiu assim o seu célebre texto sobre a missão de informar: “Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la.

Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”.

Pois agora ele é a notícia, como, aliás, sempre foi desde que começou a se destacar na literatura. Morreu na última quinta-feira, em casa. Não chega a ser um desses imprevistos da vida. É, antes, o previsto, o certo, o inevitável. Uma pena que tenha chegado a hora desse ser humano tão criativo, que encantou milhões de leitores com seus livros envolventes e sua realidade fantástica. Mas, como ele mesmo ensinou em sua autobiografia, a vida não é o que a gente viveu, mas sim o que a gente recorda, e como a gente recorda para contá-la.


Esse homem realmente viveu para contar. E contou com maestria, paixão e empatia com os leitores. Mereceu, portanto, que sua morte anunciada chegasse suave, sem demasiado sofrimento e na companhia de seus afetos. De minha parte, na condição de leitor, admirador e seguidor da profissão que ele enalteceu, só posso dizer que acabei de pichar simbolicamente uma frase no meu coração: “Gabo vive!”.

19 de abril de 2014 | N° 17768
PAULO SANT’ANA

Fifa, a mandona

Que coisa chata: essa Fifa nos proíbe de tudo, ela manda em tudo.

A Fifa teve a audácia de mandar fechar a lojinha do Inter no Beira-Rio.

Mais ainda: mandou fechar uma lancheria tradicional que fica do lado do Gigantinho, a Mek Aurio. Que desplante da Fifa, mandar fechar lugares que são caros aos porto-alegrenses.

A Fifa – vocês sabiam? – é uma entidade espúria. Esses dias, vim a saber que ela tem interesses escusos com relação ao futebol, transmite a prepostos e laranjas seus exclusividades de negócios em torno desse esporte.

Só falta a Fifa tirar o Asilo Padre Cacique dos arredores do Beira-Rio.

De onde vem esse poder divino da Fifa? Só se ouve dizer que tal coisa não pode porque a Fifa não deixa.

Eu mandei comprar já um ingresso para assistir a um só jogo da Copa do Mundo no Beira-Rio, de preferência jogo da Argentina para ver ao vivo o Messi.

E vou levar de propósito um isopor com seis garrafas de cerveja para consumir durante o jogo. E as cervejas que vou levar de lanche não são as da marca que a Fifa patrocina.

Duvido que não me deixem entrar com essas cervejas. Pode ser que a Fifa tenha o peito de me proibir de entrar com essas cervejas. Pode ser.

Mas vou pagar para ver.

E vou mostrar para todos à minha volta no estádio as cervejas que estarei levando.

Aliás, como precaução, vou mandar arrancar os rótulos das minhas seis garrafas de cerveja só para testar o bode que vai dar no ingresso do estádio.

Daqui a uns dias, a Fifa é capaz de estabelecer a marca da goma de mascar que vou usar no Beira-Rio. Ou a marca dos sapatos que terei de calçar para ingressar no estádio.

Nem o governo brasileiro nem minha mulher exercem tanto poder sobre mim quanto a Fifa.

Além de me cobrar uma fortuna por um ingresso, a Fifa se dá ao luxo de me proibir de fazer mil coisas se quiser assistir à Copa do Mundo.

É capaz de me prescrever as cuecas que devo trajar por baixo das calças quando for assistir a uma partida.

A Fifa teve o desplante de proibir que a Banda da Saldanha toque nas sociais do Beira-Rio quando dos jogos.

Ora, que vão se meter na vida dos franceses e parem de encher o nosso saco.

A Fifa tem mais poder do que a ONU sobre a vida das pessoas.

Chego a ponto de duvidar se não terei de pedir licença à Fifa para fazer sexo com minha mulher durante a Copa.


Só que, se ela me proibir disso, abençoarei a Fifa.

19 de abril de 2014 | N° 17768
CLÁUDIA LAITANO

Entre nós

Quando lemos uma palavra em que falta uma letra ou observamos um desenho que apenas sugere uma determinada forma, somos levados a instintivamente preencher os espaços que faltam com a nossa imaginação. Essa reação inconsciente é explicada pelas leis da Gestalt: em algumas situações, o conjunto nos deixa cego para os desvios de um ou mais elementos individuais.

Por uma atitude semelhante, costumamos idealizar uma espécie de mediana do comportamento humano. Na ausência de argumentos em contrário, imaginamos que todos os outros em volta tendem a ser mais ou menos como nós: nem santos, nem monstros, ainda que essencialmente capazes de reações que se inclinam mais para um lado do que para o outro.

Um crime violento, mais ainda quando em circunstâncias sociais e geográficas que nos parecem familiares, nos confronta com a assustadora realidade de que essa mediana de comportamento nada mais é do que uma confortável abstração. Tivéssemos todos, o tempo todo, a percepção de que o mal está à espreita, na esquina, vestindo roupa de ginástica e tomando chimarrão, a vida seria quase insuportável. Qualquer fachada de banalidade nos convence – talvez porque, na maior parte do tempo, preferimos ser convencidos.

O neurocientista americano Kent A. Kiehl acaba de lançar nos Estados Unidos o livro Psychopath Whisperer – The Science of Those Without Conscience. Durante os últimos 20 anos, Kiehl vem estudando o comportamento dos psicopatas para tentar entender quem eles são, como seus cérebros funcionam e se há algo que se possa fazer por eles. O traço comum entre os psicopatas, dos casos mais leves aos mais severos, é a incapacidade de sentir compaixão, empatia ou qualquer tipo de remorso – o que nem sempre resulta em crimes violentos, mas em geral causa algum tipo de desajuste cotidiano.

O médico acredita que há, sim, algo diferente no cérebro dos psicopatas e que o problema é muito mais comum do que as pessoas imaginam – uma em cada 150 pessoas pode apresentar traços da doença, segundo suas pesquisas. E por mais que sejam retratados em filmes e seriados de forma caricata e sensacionalista, na vida real eles tendem a ser muito mais parecidos com o sujeito careca e aparentemente manso do apartamento ao lado do que com Hannibal Lecter.


É pouco provável que um dia seja possível isolar a causa da doença da crueldade e da ausência de empatia. O que não é impossível é que uma sociedade seja capaz de proteger seus membros mais frágeis, as crianças, ricas ou pobres, com tantas redes de segurança, que seja cada vez mais difícil que elas se tornem vítimas daqueles que são absolutamente indiferentes ao sofrimento alheio.

sexta-feira, abril 18, 2014


18 de abril de 2014 | N° 17767
EDITORIAIS

Tarifaço na energia

Ogoverno federal fez o possível para segurar, mas as leis de mercado são mais poderosas. O represamento demagógico das tarifas de energia não irá até a eleição como pretendiam os atuais detentores do poder. Mais de 3,8 milhões de gaúchos já começam a receber suas contas de luz, a partir de amanhã, com um reajuste médio de 29,54%, mais de quatro vezes superior à inflação prevista para este ano.

Em breve, os demais consumidores, atendidos por outras empresas, também estarão enfrentando o tarifaço, que vai se estender ao longo do próximo ano. E isso significa que, uma vez mais, a conta da imprevidência, da falta de investimentos e da equivocada política de mascarar a realidade acaba sendo arcada por todos os brasileiros.

No início deste ano, num discurso contundente que lembrava em tudo o de campanha à reeleição, a presidente Dilma Rousseff confirmou uma redução de 18% nas contas de energia elétrica, superior até mesmo à prevista inicialmente. No mesmo discurso, rechaçou as previsões sobre um apagão que, de fato, não ocorreu, mas impôs um ônus pesado para todos os consumidores. Na impossibilidade de contar com as hidrelétricas, pela escassez de chuvas, o país precisou recorrer às termelétricas, que produzem energia a um custo bem superior.

Infelizmente, confirmou-se na prática o que o governo não queria admitir na época, mas as razões não se restringem à insuficiência de chuva. Faltou também rigor no planejamento e execução de projetos, o que impediu a entrada em operação de dezenas de usinas e ainda hoje mantém algumas delas sem linhas de transmissão. Por isso, não basta o consumidor reagir contra o tamanho das contas, que vão impactar seu bolso e a taxa de inflação. É preciso acima de tudo que cobre mais eficiência do poder público, para evitar a repetição de reajustes tão desafinados com a estabilidade.

Isso que é absurdo..Não era de energia que a Presidente entendia e agora transfere esse ônus para a população...? Felizmente ainda antes das eleições o que dá para refletir sobre a competência de algumas pessoas...

Tudo bem fosse 5 ou 6%..Mas 28,86 % e previsão de mais aumentos dessa ordem em 2015 é dose para leão mesmo...



18 de abril de 2014 | N° 17767
EDITORIAIS

OMISSÃO SUSPEITA

Odepoimento do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró à Câmara dos Deputados acentua um absurdo cometido na compra da refinaria de Pasadena. Disse o ex-executivo que o resumo do contrato apresentado ao conselho de administração, em 2006, não continha as cláusulas put option e Marlim, que acabaram sendo decisivas no mau negócio. E acrescentou que não eram relevantes. Ora, isso é inadmissível.

As duas cláusulas talvez fossem as mais relevantes do contrato. Mesmo que pareça uma formalidade incompreensível ao grande público, o mecanismo da put option pode ser facilmente traduzido. Essa ressalva, que está no contrato, permitia que a sócia belga Astra Oil abandonasse o negócio, obrigando a parceira no caso a Petrobras a assumir todo o empreendimento. E foi o que aconteceu.

Já a cláusula Marlim assegurava aos belgas uma rentabilidade mínima de 6,9% ao ano, como se apenas a empresa brasileira tivesse a obrigação de absorver perdas. É óbvio que as condições contratuais desfavoreciam a estatal. Tanto que a aquisição da refinaria logo se comprovou como péssimo negócio. A parceira estrangeira, amplamente privilegiada, desistiu da empreitada, que hoje pode ser definida, sem exageros, como uma aventura bilionária.

É surpreendente que duas cláusulas decisivas para a compreensão do imbróglio tenham sido omitidas pelo citado diretor, quando da apresentação do relatório prévio ao conselho de administração da empresa, em 2006. Disse agora Nestor Cerveró aos parlamentares, com a maior naturalidade, que tais informações seriam detalhes sem importância.

Há uma evidente contradição entre a percepção do ex-diretor e a da própria presidente da República. A senhora Dilma Rousseff já se referiu à omissão das cláusulas, quando da apresentação do relatório ao conselho. Na época, a economista presidia o conselho e chefiava a Casa Civil. Esta semana, também a atual presidente da Petrobras, Graça Foster, em depoimento no Senado, criticou a falta de referências às cláusulas quando da exposição de Cerveró e disse que o ex-diretor foi afastado da direção da área internacional, em 2008, exatamente por conta desta omissão.

Nada disso anula as responsabilidades de todos os envolvidos nas negociações. Ao contrário, o conflito de pontos de vista, dentro do próprio governo, indica que o Senado deve ater-se a este e outros detalhes nebulosos, quando das atividades da CPI que investigará a estatal.


Ampliam-se, a cada manifestação dos protagonistas do negócio de Pasadena e das intervenções públicas do Planalto, as evidências de que a compra da refinaria teve dados camuflados e causou danos financeiros e à imagem já desgastada da Petrobras. Resta esclarecer se há fundamento nos indícios de que, além do erro, podem ter ocorrido delitos. Esta é a principal missão da CPI.

18 de abril de 2014 | N° 17767
GENTE

Gabriel García Márquez 1927 - 2014

“Em seus romances e contos, o fantástico e o real se combinam num mundo densamente composto pela imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente.” Foi assim que a Academia Sueca definiu a obra de Gabriel García Márquez (1927 – 2014), ao conceder, em 1982, o Nobel de Literatura ao autor colombiano. O escritor morreu ontem, na Cidade do México, em decorrência de um câncer que atingia seus pulmões, gânglios e fígado. Em 2012, a família anunciara que García Márquez sofria de demência senil.

Considerado um dos mais importantes escritores do século 20, García Márquez será lembrado como um dos ícones do boom da literatura hispano-americana nas décadas de 1960 e 1970. Autor da obra-prima Cem Anos de Solidão (1967), foi um dos precursores do realismo fantástico, gênero à mesma medida político e fabular com o qual os autores latinos burlavam a censura dos regimes autoritários.

Foi de conterrâneos e escritores dos países vizinhos que Gabo, como era conhecido, lembrou ao ser anunciado o quarto latino-americano a receber o Nobel (antes dele, houve a chilena Gabriela Mistral, em 1945; o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, em 1967; e o chileno Pablo Neruda, em 1971):

– Este prêmio não deve ser considerado só uma distinção para mim, mas para toda a literatura latino-americana, e um reconhecimento ao futuro da literatura em nosso continente.

García Márquez nasceu em Aracataca, norte da Colômbia. Morou desde os dois anos de idade com os avós, antes de cursar o Colégio de Jesuítas e a faculdade de Direito na Universidade de Bogotá. O trabalho como jornalista o levou a vários países – como correspondente, trabalhou em Roma, Paris e Nova York. Escolheu o México para viver definitivamente em 1981, após idas e vindas entre a Europa e a América. A insegurança em uma Colômbia assolada por cartéis e o autoritarismo do governo colombiano foram decisivos para a mudança. Nos EUA, acrescente-se, Gabo chegou a ser perseguido pela CIA por suas conexões com Havana.

Se a história de seus pais, Gabriel Eligio García e de Luisa Santiaga Márquez, serviria de mote para o romance O Amor nos Tempos do Cólera (1985), um dos mais festejados de sua trajetória, as aventuras militares do avô Nicolas e o gosto pelas lendas manifestado pela avó Tranquilina são tidos como fontes de inspiração para Cem Anos de Solidão. A obra de Erico Verissimo também foi uma referência na criação desse clássico, como o próprio Gabo afirmou:

– O Tempo e o Vento foi um dos três romances que estudei para escrever Cem Anos de Solidão. Verissimo foi genial ao manejar a saga de uma família através dos tempos.

A excelência e a complexidade de sua obra pareceram inibir adaptações para o cinema – neste sentido, Cem Anos de Solidão, filme várias vezes anunciado mas nunca de fato realizado, é o melhor exemplo. De todos os seus livros, ganharam adaptações conhecidas O Veneno da Madrugada (2006) e Erêndira (1983), ambas dirigidas pelo moçambicano radicado no Brasil Ruy Guerra, O Amor nos Tempos do Cólera (de Mike Newell, 2007) e Memória de Minhas Putas Tristes (Hennig Carlsen, 2011), este último ainda inédito no circuito comercial brasileiro. Vale lembrar que Gabo chegou a dirigir um curta-metragem (A Lagosta Azul, de 1954) e atuar como crítico de cinema, além de, já nos anos 1980, ter sido um dos mentores da Escola Internacional de Cinema e Televisão, com sede em Cuba.

Desde 1955, quando estreou com O Enterro do Diabo, foram mais de 30 volumes, milhões de exemplares vendidos (mais de 30 milhões, estima-se, apenas de Cem Anos de Solidão) e traduções em dezenas de línguas. Em quase 60 anos de carreira literária, lançou outros tantos clássicos como Ninguém Escreve ao Coronel (1961), Crônica de uma Morte Anunciada (1981), Notícia de um Sequestro (1996) e Memória de Minhas Putas Tristes (2004).

Mais do que as amizades com líderes como Fidel Castro e as brigas como aquela com o peruano e também Nobel Mario Vargas Llosa (que rendeu uma afamada fotografia de Gabo com o olho roxo), é a força dessa obra plural e aclamada pela riqueza estética e pela representatividade política que García Márquez deixa como legado.

CLÁSSICOS DE GABO

Ninguém Escreve ao Coronel (1961)
- Foi uma das primeiras histórias ficcionais publicadas pelo autor e sempre era citada como uma de suas favoritas. Vivendo na penúria com a mulher, homem passa a acreditar que pode ganhar dinheiro treinando seu galo para rinhas.

Cem Anos de Solidão (1967)
- Aclamada por Pablo Neruda como “a maior revelação em língua espanhola desde Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes”, é a obra-prima de Gabriel García Márquez. Mesclando elementos da cultura popular e indígena com pitadas de surrealismo, humor e crítica social, narra a saga de gerações da família Buendía no povoado de Macondo, muitas vezes interpretado como uma metáfora da América Latina.

O Outono do Patriarca (1975)
- País fictício, localizado às margens do Mar das Caraíbas e praticamente sem relações com o mundo externo, é dominado por um ditador tão solitário quanto autoritário. Na figura do velho general, García Márquez recria o estereótipo das ditaduras da América Latina do século 20.
Crônica de uma Morte Anunciada (1981)
- Um impressionante exercício narrativo: um romance que anuncia o assassinato do protagonista logo na primeira linha e, ainda assim, prende a atenção do leitor diante do destino inevitável de Santiago Nassar. Acusado de desonrar a jovem Angela Vicario, ele não escapará da vingança dos irmãos da garota.

O Amor nos Tempos do Cólera (1985)
- Trata da possibilidade do amor em diferentes momentos. A narrativa acompanha o apaixonado Florentino, que espera pelo amor de Firmina por décadas, da juventude à velhice. O romance foi levado às telas por Mike Newell, em 2007, tendo Javier Bardem e Fernanda Montenegro no elenco.

Memória de Minhas Putas Tristes (2004)

- Ao completar 90 anos, um homem decide dar a si mesmo, como presente, uma noite de sexo com uma virgem. Embrutecido pelos descaminhos que sua vida tomou, o personagem divaga a respeito das desventuras que o levaram até o leito da jovem – que ele acaba sequer tocando. Este é o último livro ficcional de Gabo, que encerra a carreira literária em grande forma.

18 de abril de 2014 | N° 17767
DAVID COIMBRA

O sal da terra

“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.

Nós somos o sal da terra.

Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias.

Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.

Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.


Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.

quinta-feira, abril 17, 2014


17 de abril de 2014 | N° 17766
EDITORIAIS ZH

PROTEÇÃO ÀS CRIANÇAS

O covarde assassinato do menino Bernardo Uglione Boldrini provoca, neste primeiro momento, reações inevitáveis de revolta e comoção, ao mesmo tempo em que reacende a discussão sobre a necessidade de se fortalecer e qualificar a estratégia preventiva contra abusos e maus-tratos infantis. Mesmo sob esse estado de choque, e ao mesmo tempo em que ainda tentam entender as razões da brutalidade, a sociedade e as instituições com atua-ção nessa área precisam reavaliar suas estruturas de proteção à infância.

E, ao mesmo tempo, refletir sobre o que pode ser feito para melhorar o atendimento a pessoas nessa fase da vida. Isso significa reavaliar não apenas toda a estrutura de amparo assegurada por lei, mas também questões de ordem cultural. Entre elas, está a de que a sociedade pode, sim, agir de forma mais consequente e mais objetiva quando depara com qualquer tipo de desrespeito a direitos assegurados a meninas e meninos.

A Constituição de 1988 e, dois anos depois, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) abriram caminho para avanços importantes na atenção a pessoas ainda em fase de desenvolvimento físico e psicológico. Desde então, os espaços de atendimento se multiplicaram nos Conselhos Tutelares, no Ministério Público, nas delegacias especializadas de Polícia, nas Varas da Infância e da Juventude e numa infinidade de organismos que, no setor público ou por iniciativa da sociedade civil, se empenham em evitar o pior.

Assim como na luta contra a criminalidade, porém, essas instituições nem sempre dispõem da estrutura adequada para fazer o que devem com o máximo de eficiência. Em consequência, os danos envolvendo crianças, na maioria das vezes no próprio ambiente familiar, são em número muito superior ao que sugerem os casos mais rumorosos.

As falhas na assistência preventiva à infância ocorrem por razões estruturais, mas também por questões culturais, e em ambos os casos é preciso enfrentá-las logo. Redes de atendimento devem contar com estrutura adequada de funcionamento, o que implica planejamento e recursos orçamentários adequados. Ainda assim, só podem executar plenamente suas funções se cada brasileiro conseguir deixar de lado convicções ultrapassadas como a de que em questões envolvendo outras famílias ninguém se mete. Crianças e adolescentes têm hoje direitos claramente assegurados, a começar pelo de plena atenção dos pais ou responsáveis. Quando esses princípios não são observados, é, sim, dever de todos, de vizinhos a professores, denunciar os abusos.


No universo infantil, tudo será sempre complexo, a começar pela dificuldade que significa para os adultos ouvir uma criança e entender o que ela quer dizer. A própria lei é limitadora, ao privilegiar a reinserção no meio familiar, que nem sempre se constitui no mundo sonhado por meninas e meninos. Tragédias como a do garoto Bernardo, porém, mostram que é preciso uma ação ampla e imediata para reforçar de vez uma vasta rede de proteção coletiva a toda criança em situação de risco.

17 de abril de 2014 | N° 17766
PAULO SANT’ANA

Pena de morte

Sou tão observador do mandamento divino constante das 10 Tábuas, o que ensina que não devemos desejar a mulher do próximo, que me excedi na proibição e já não desejo hoje nem a minha própria mulher.

Sobre o bárbaro crime de assassinato contra esse menino de 11 anos de idade em Três Passos, cumpro tecer algumas considerações.

Agora que estão presas três pessoas autoras do crime, duas delas com certeza e a terceira ainda sob investigação, cogito que vão ser condenadas a penas privativas de liberdade e que serão soltas em poucos anos. Ou seja, a sociedade usará de uma misericórdia que os autores do crime não tiveram com o menor que assassinaram.

Por isso, já não tenho mais qualquer dúvida, já há muito tempo. Esses assassinos do garoto de Três Passos tinham de ser condenados à morte. Qualquer outra pena que caia sobre eles é insuficiente.

Suponho até que tenham calculado friamente que o máximo que sofreriam se fossem apanhados como autores seria meia dúzia de anos de prisão. Se soubessem que poderiam ser condenados à morte caso fossem apanhados, pensariam duas vezes antes de cometer esse cruel assassinato contra um indefeso menino de 11 anos de idade.

A pena de morte tem também, portanto, esse caráter intimidativo.

No mínimo, a pena de morte seria equivalente ao crime que cometeram.

No mínimo.

Com certeza, o menino assassinado ofereceu gentilmente o seu braço para receber a injeção letal que lhe aplicaram as duas assassinas, que ardilosamente devem ter-lhe dito que era uma injeção favorável à sua saúde. E o garoto, entre barbitúricos, ofereceu seu braço à injeção.

Um crime horrendo. Contra uma criança. Só a pena de morte poderia reparar em parte tamanha selvageria.

Há duas razões por que entendo que a condição humana é podre e sujeita a monstruosidade: a capacidade de matar outrem que possui e a mais absoluta falta de piedade com as vítimas.

Se não fosse um menino a vítima, ainda assim teria sido um crime bárbaro. Tendo sido um menino a vítima, é muito pouco aplicar-se nos autores uma mínima e falha pena de prisão.

Esse é um caso típico em que a única pena justa é a de morte.

Pena de prisão será uma pena piedosa com assassinos que não tiveram em nenhum momento qualquer ponta de piedade com a vítima.


Outras considerações sobre este crime encontrarão os leitores no meu blog com este endereço: zerohora.com/paulosantana.

17 de abril de 2014 | N° 17766
L.F. VERISSIMO

Leituras

Os necrológios do recém falecido historiador francês Jacques le Goff destacaram que ele mudou a nossa maneira de ver a Idade Média. Medievalista emérito, le Goff descobriu no período muito mais significados do que se imaginava e destruiu alguns clichês sacramentados sobre a época. A Idade Média não teria sido apenas uma ponte entre o miasma sulfúrico da Idade das Trevas e a Renascença, mas uma era de transformações importantes, assim na Terra como no Céu.

É do Le Goff a tese de que o Purgatório foi inventado para que quem praticasse a usura, que era pecado, não fosse direto para o Inferno mas tivesse a oportunidade de se regenerar no caminho e escapar da punição, o que representou um grande impulso para o nascente sistema bancário. Assim, o capitalismo, que mudaria o mundo, começou mudando a cosmogonia cristã.

O que a gente estranha nessas reavaliações do passado é que a História se preste a tantas releituras. Imagina-se que o acontecido está acontecido e que seja impossível reinterpretar o que já se congelou como fato histórico. Na verdade, tudo é interpretação. O que acontece com o fato histórico é o mesmo que acontece com a lei, que não é uma para todos mas para cada um de acordo com a sua leitura. Toda vez que, por exemplo, no Supremo há uma votação fragmentada, uma maioria derrotando uma minoria, isto significa que uma leitura da lei subjugou outra leitura.

Quando a questão é de constitucionalidade, a estranheza é maior: como pode uma interpretação da Constituição ser diferente de outra se a Constituição é a mesma? Há dias, o ministro Joaquim Barbosa deu o único voto favorável ao julgamento do Azeredo e do mensalão tucano no Supremo – todos os outros ministros votaram contra.

Azeredo será julgado pela Justiça do seu Estado, se o crime pelo qual é acusado não prescrever antes. O voto do Barbosa foi exageradamente subjetivo, para evitar que acusassem o Supremo – como a Igreja mudando a configuração do Além – de adotar dois jogos de pesos e medidas, um para o PT e outro para os outros, ou sua leitura da lei foi a única correta?

O passado, já disse alguém, é uma terra estranha, cheia de surpresas para quem a visita. Reinterpretá-la é sempre uma aventura intelectual, como foi para Le Goff. A variedade de leituras das leis também pode ser positiva, quando não é assustadora. Todo o sistema de instâncias do Judiciário existe para que o subjetivismo não domine e deforme os julgamentos. Mas que a gente estranha, estranha.

PAPO VOVÔ


Lucinda, nossa neta de seis anos, pediu para eu me inspirar – a palavra é dela – e inventar uma história para a qual ela já tem o título: “A batata assassina”. Estou aceitando sugestões.

17 de abril de 2014 | N° 17766
CHOQUE NO BOLSO

Tarifaço poderá ter autorização extraordinária

Estava previsto que os fortes reajustes na conta de luz só chegassem para os consumidores a partir do próximo ano. A ideia era de pagar a conta da escassez que determinou a entrada em operação de quase todas as usinas térmicas disponíveis no país depois da Copa do Mundo, da eleição e do Natal.

Mas a pressão no caixa das distribuidoras, que exigiu um plano de socorro de emergência de R$ 11,2 bilhões, falou mais alto. Ontem, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou regulamento que permite repasses extraordinários aos consumidores, fora da data de aniversário dos contratos. O objetivo da medida é cobrir o custo do socorro bilionário que o uso das térmicas tornou necessário.

Se isso ocorrer, os consumidores que pagarem “a mais” terão direito a indenização no próximo reajuste. Com ajuda do governo, as distribuidoras tomarão empréstimos para cobrir suas despesas com compra de energia e uso de térmicas deste ano. Esse gasto será coberto pelo consumidor, por meio da tarifa.

Os reajustes gigantes que começam a vigorar neste sábado para quase um terço dos gaúchos devem prosseguir em 2015, sustenta Paulo Steele, diretor da TR Soluções, especializada em cálculos de custo de energia. Caso nada mude no cenário ou o governo lance mão de novas medidas, o índice de reajustes esperado para as distribuidoras gaúchas no próximo ano variam de 11% a 15%. A partir deste cálculo, explica Steele, é que são definidos os percentuais de aumento na conta do consumidor, em decorrência de outros custos.

Segundo Steele, se o governo federal não tivesse socorrido o setor, os reajustes poderiam ser ainda maiores neste ano.

– Talvez o dobro do que estamos vendo – diz Steele, lembrando que, na verdade, a conta que o consumidor vai pagar será parcelada entre este ano e 2015.

Em março, o Planalto confirmou uma ajuda de R$ 12 bilhões às elétricas, sendo R$ 4 bilhões de aportes do Tesouro na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), para cobrir o gasto extra com as térmicas. À época, a intenção anunciada era que o aumento da conta chegasse ao consumidor apenas no próximo ano. Para o diretor geral da AES Sul, Antonio Carlos de Oliveira, é prematuro projetar o tamanho do aumento que deve chegar em 2015:


– É difícil prever hoje. Tem muita coisa para acontecer.

quarta-feira, abril 16, 2014


16 de abril de 2014 | N° 17765
MARTHA MEDEIROS

Certinha, mas nem tanto

A moça me escreveu do Rio de Janeiro, onde recentemente havia prestado concurso para um banco. Estava indignada, pois uma das questões da prova era de interpretação de texto – um texto meu – e ela não se conformava de ter errado. Havia marcado alternativa A, e o gabarito acusava que a resposta correta era a D. Ela me enviou a questão e perguntou: estou tão louca assim?

Nada louca. Eu teria marcado a questão A também, mas interpretação de texto é das coisas mais subjetivas que existe, não entendo como ainda consta de provas. Que em sala de aula se discuta o assunto, está certo, mas provas são eliminatórias, e a chance de se promover uma injustiça é grande. A moça que me escreveu foi injustiçada, assim como vários colegas dela que também não marcaram a resposta que a banca elegeu como a correta.

Lamento esses transtornos, mas ao mesmo tempo vibro quando me vejo inserida na sociedade por vias assim pitorescas. Inúmeras ocasiões profissionais me trouxeram orgulho – sessões de autógrafos, adaptações de teatro, palestras – mas é completamente diferente quando você se depara, por exemplo, com seu nome numa revista de palavras cruzadas, o que também já aconteceu. Virar desafio de palavras cruzadas, assim como motivar questões de provas, me faz sentir a própria Valesca Popozuda. É sinal de que você caiu na boca do povo. No melhor sentido.

Se já vivi essas duas experiências, digamos, mais populares, agora cheguei lá: meu nome está na letra de um hit da banda Bochincho. Você não conhece a banda Bochincho? Somos dois alienados, eu também não conhecia. Bochincho é um grupo de fandango que acaba de lançar a música Tá Querendo eu Dou. Narra a história de uma menina que se faz de grande coisa, mas está longe disso. Diz a letra: “Eu chamo no bate-papo/ Ela paga de santinha/ Frase de Martha Medeiros/Fazendo o tipo certinho/ Mas no fundo é bandida/ E não rola nada sério”.

Não é um poema?

Ok, sem gozação. Uma ouvinte de rádio escutou a música e logo me comunicou por e-mail, não sem antes alertar de que talvez eu me chateasse. Ora, por que iria me chatear? Achei divertido. Pouco importa que não seja o tipo de som que eu costume ouvir, o que vale é a farra, o inusitado, a graça da coisa. O fato de a personagem da música querer se passar por certinha e me citar para conseguir isso é um caso a ser levado para a terapia.


Para a minha terapia. Ando mesmo sem assunto no divã, então esse viria a calhar: quanto me vale essa imagem de “certinha”? Não seria um cárcere privado? Acho bem saudável possuir um lado fandangueiro também, já que no céu só o que se ouve são violinos e harpas, e ninguém quer pegar no sono tão cedo. Um arrasta-pé no inferno, vez que outra, não há de manchar severamente meu currículo.

16 de abril de 2014 | N° 17765
EDITORIAIS ZH

CRUELDADE REVOLTANTE

Indignação e revolta são sentimentos previsíveis, mas insuficientes para o enfrentamento da consternação provocada por mais dois casos de violência e crueldade no Estado. As mortes da jovem Kimberly Rückert e do menino Bernardo Boldrini fazem com que todos tentem compreen-der a dimensão das tragédias. Os episódios macabros abalam não só a comunidade de Três Passos, mas a população inteira de um país em que os limites entre a convivência civilizada e a barbárie foram ultrapassados há muito tempo.

O que se pode dizer dos dois casos, por mais óbvio que seja, é que ambos se agregam a uma aterrorizante e quase paralisante rotina de atrocidades. É o momento de entender fatos como esses para muito além da abordagem policial. As duas mortes expressam uma realidade que cobra reações substantivas de todos, e não só manifestações de inconformidade com possíveis falhas alheias.

É incontestável que as duas mortes foram provocadas pelo total descaso com a vida e pelo desprezo por eventuais medidas punitivas. Ambas foram claramente planejadas. Mas é natural que o assassinato de uma criança de 11 anos provoque mais revolta, por se tratar de um indefeso, órfão de mãe e, de acordo com as informações até agora divulgadas, desamparado por conflitos com a madrasta.

Por isso, deve-se evitar a armadilha de refletir sobre a morte do menino a partir dos eventos mais recentes. Bernardo pode ter sido desamparado não só pela rejeição dentro da própria casa, mas por não ter contado com a pronta resposta de todos os que vinham ouvindo seus apelos.

Há evidências de que a criança emitiu, a seu modo, sinais de que vivia sob sofrimento. O que as instituições devem apurar, a partir do trabalho da polícia, é onde e quando os pedidos de socorro do menino não surtiram os efeitos que deveriam provocar. Não se trata de prejulgar, mas de não se resignar diante dos indícios de que em algum momento ocorreram providências insuficientes ou omissões.

Argumentos previsíveis podem alegar que crianças em situação de risco se multiplicam pelo país e que as autoridades fazem o que está ao seu alcance. Mas sabe-se igualmente que, como em qualquer área do setor público, também esta tem deficiências crônicas e graves. É o momento certo para que deixem de ser ignoradas, mesmo que todos estejam consternados com o que aconteceu.

Esta também é, em meio ao trauma, a oportunidade para que – além da óbvia identificação e punição dos responsáveis – aproximem-se do debate, como protagonistas da busca da compreensão e das soluções, pessoas e instituições posicionadas à distância dos fatos, como comentaristas e espectadores. Crueldades como essas que transtornam o Estado resultam de um conjunto de fatores, dos quais não escapam a família, a escola e, enfim, a comunidade nas suas mais diversas formas de representação.


Polícia, Ministério Público, Conselho Tutelar e Justiça são, portanto, expressões da sociedade. Não há reparação para as mortes de Kimberly e Bernardo. Mas há, sim, como reagir ao horror, desde que nossas reações concretas e consequentes passem pela admissão de que todos nós falhamos. Este reconhecimento é pré-requisito para o desenvolvimento de estratégias preventivas mais eficientes.