Follow by Email

domingo, fevereiro 26, 2017

Esta empresa passa suas roupas por menos de R$ 1 a peça

Com menos de um ano de vida, Mania de Passar já virou uma rede de franquias com quatro unidades e acabou de receber um aporte de US$ 50 mil

Por Anderson Figo access_time 25 fev 2017, 08h00 chat_bubble_outline more_horiz
ferro de passar

Mania de Passar: Startup recebeu aporte de US$ 50 mil com menos de um ano de vida (ronstik/Thinkstock)

São Paulo – Uma das maiores frustrações de quem deixa a casa dos pais e vai morar sozinho é, sem dúvida, o fim da mordomia de ter sempre aquela roupa passadinha no armário esperando para ser usada. Quem não é fã de serviços domésticos, vai precisar de ajuda.

Foi pensando nesse público que os ex-consultores do Sebrae Claudio Augusto, Thiago Florêncio e Eduardo Koji lançaram, em março de 2016, a Mania de Passar. O negócio deu tão certo que, com quase um ano de vida, já virou uma rede de franquias e acabou de receber um aporte de investidores do Vale do Silício.

Funciona assim: o cliente paga uma taxa mensal, a empresa busca as roupas limpas semanalmente na casa dele e devolve as peças passadas em até 48 horas. Há diversas opções de planos: o mais barato custa 100 reais por mês e dá direito a 80 peças (1,25 real cada uma); já o mais caro, de 280 reais por mês, dá direito a 320 peças (0,875 centavos cada uma).


sócios da Mania de Passar

Sócios da Mania de Passar: da esquerda para direita, Claudio Augusto (CEO), Thiago Florêncio (CMO) e Eduardo Koji (CFO) (Divulgação)
“A ideia do negócio surgiu de uma experiência pessoal minha. Quando fui morar sozinho, me dei conta de que eu poderia lavar a minha própria roupa, mas não sabia como passar”, diz Claudio Augusto, um dos fundadores e CEO da startup.

Em 2012, Augusto fez um empréstimo e criou um espaço de coworking com um dos seus colegas do Sebrae, o qual alugavam para startups. Foi nesse espaço que os futuros sócios começaram a maturar a ideia da Mania de Passar.

“Em 2015, decidimos finalmente tomar coragem, abandonar nossos empregos no Sebrae e nos dedicar 100% ao negócio. Depois de muito planejamento e estudo, decidimos que era a hora de encontrar uma primeira parceira ou parceiro para abrir uma unidade piloto e testar a viabilidade da startup”, diz.

A escolhida foi a Dona Nadir, de Suzano, que antes de botar a mão na massa precisou passar por capacitação para a função. Os sócios a colocaram para fazer cursos do Sindlav (Sindicato Intermunicipal de Lavanderias no Estado de São Paulo).

“Depois disso, em março, partimos para a prática: ela fazia a divulgação boca a boca e nós espalhávamos panfletos, porta-copos e avisos de porta com nossa marca, no estilo ‘não perturbe’. Funcionou: em pouco tempo ela conseguiu cerca de 30 contratos e estava ganhando entre 3,5 mil reais e 4 mil reais por mês”, afirma Augusto.

A experiência foi tão positiva que os sócios decidiram, então, criar um anúncio na internet para saber se outras pessoas se interessariam em ter uma franquia da Mania de Passar. “Tivemos 80 interessados em 10 dias. Foi um sucesso tão grande que a gente teve que tirar o anúncio do ar”, diz o CEO.

Três candidatos foram escolhidos e a Mania de Passar chegou nas quatro unidades que possui atualmente, em bairros das cidades de São Paulo, Suzano e Guarulhos. Os novos franqueados pagam uma taxa de franquia de 7,5 mil reais para que a startup possa capacitá-los para desempenhar o serviço e têm de investir mais 2 mil reais no material necessário para abrir o negócio.

“Neste mês, lançamos a marca oficialmente na Feira do Empreendedor do Sebrae, em São Paulo, e saímos do evento com mais 15 reservas de franqueados para abrir novas unidades em lugares diferentes, que vão desde Jaraguá do Sul (SC) até Maceió (AL)”, revela Augusto. A expectativa dos sócios é montar 100 unidades até 2018 e ter mais de 300 em 2020.

Aporte

De olho na ampliação do negócio, os sócios da Mania de Passar se inscreveram para o 3º Ciclo de Aceleração da Porto Seguro em parceria com a Plug and Play Tech Center, aceleradora que fica no Vale do Silício, nos EUA.

O resultado saiu há poucos dias: a Mania de Passar foi selecionada junto com mais seis startups, entre 1013 inscritas, para receber um aporte direto de 50 mil dólares, destinado ao desenvolvimento do negócio. Mais 100 mil dólares serão investidos na empresa indiretamente, na forma de benefícios.

“Foi uma ótima surpresa. Sem esse apoio financeiro, o nosso faturamento no ano passado já foi de 40 mil. Agora, com o aporte da Porto Seguro, devemos chegar em um faturamento de 2 milhões de reais ao final deste ano”, afirma Augusto.

Investimento inicial: 2 mil reais

Taxa de franquia: 7,5 mil reais

Prazo de retorno: 12 meses
Nova safra de escolas (caríssimas) forma cidadão do século 21

Escolas com currículo flexível, ensino em diferentes idiomas, aulas interativas: a mensalidade sai por até R$ 6,5 mil, mas todas têm fila de espera.


Biblioteca da Concept: a escola planeja abrir uma filial no Vale do Silício (Germano Lüders/Revista EXAME)

São Paulo – Às 7 e meia da manhã, assim que chegam à escola, alunos de 11 anos recebem uma orientação da professora em inglês: o tema do dia será meio ambiente e energia. Leem alguns textos sobre o assunto e, ainda em inglês, fazem uma discussão em grupo. Em seguida, vão para um dos laboratórios da escola e constroem, em conjunto, um aquecedor solar com garrafas de plástico.

A próxima aula é sobre linguagem da computação e os alunos desenvolvem um aplicativo que ajuda a controlar o consumo de energia durante o dia e permite compartilhar dicas de economia nas redes sociais. Em seguida, vão para a aula de matemática, ministrada em espanhol, e fazem cálculos sobre os impactos da economia de energia no consumo de água. Esse é um dia típico numa das novas escolas de educação básica que estão sendo abertas no Brasil.

A escola em questão é a Concept, do grupo SEB, que tem unidades em Salvador e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo — mas é possível encontrar escolas com jeitão muito parecido em São Paulo e no Rio de Janeiro. Elas seguem as técnicas de ensino adotadas em algumas das escolas tidas como as mais modernas do mundo, muitas delas localizadas na Finlândia e nos Estados Unidos. Como dá para ver pelo exemplo acima, a rotina dos alunos é bem diferente do dia a dia das instituições tradicionais — e empresários do setor de educação no Brasil estão tentando montar um modelo de negócios em torno disso. Saiba mais: Internet na escola é uma boa alternativa? – Patrocinado 

Diferentemente do que aconteceu no mercado brasileiro de ensino superior na última década, quando a meta das principais empresas era crescer e sair comprando concorrentes (com uma bela ajuda do financiamento estudantil público), a grande onda do momento nos grupos de educação básica é convencer os pais de que estão colocando seus filhos na escola do futuro. O jogo, portanto, não é de escala, mas de qualidade, preço alto e rentabilidade idem.

Nesse modelo, ganha-se dinheiro cobrando caro — as mensalidades variam de 4 000 a 6 500 reais —, e não por meio das sinergias geradas pela escala. “Na educação básica, os alunos podem ficar até 17 anos na escola e há menos desistências do que nas faculdades, porque os pais fazem questão de manter os filhos estudando em boas instituições”, diz Chaim Zaher, fundador do grupo SEB. Ele vendeu sua participação acionária na rede de ensino superior Estácio para a concorrente Kroton no ano passado (o negócio ainda aguarda a análise do Cade) e vai investir ao todo 270 milhões de reais na Concept, hoje sua grande aposta — já foram investidos 170 milhões.

O plano é abrir, em 2018, unidades em São Paulo (onde já comprou e está reformando o imóvel onde ficará a escola), no Rio de Janeiro e até em Palo Alto, no Vale do Silício. “Queremos que nossos alunos tenham essa experiência internacional, que deve se tornar cada vez mais importante para definir a vida profissional”, diz Thamila Zaher, diretora executiva do SEB e uma das filhas de Chaim. Uma de suas concorrentes — que segue um modelo de ensino bastante parecido — é a Eleva, que fica no Rio de Janeiro e pertence ao grupo Eleva Educação, cujo sócio majoritário é o fundo Gera Venture Capital, controlado pelo empresário Jorge Paulo Lemann. A escola foi aberta em 2017, tem 360 alunos e a meta é dobrar de tamanho até o próximo ano.

O surgimento de mais opções para filhos de pais dispostos a apostar em modelos educacionais novos está acirrando a competição nesse nicho. Novas escolas estão sendo inauguradas e quem já estava nesse mercado decidiu investir para crescer. É o caso da Lumiar, do empresário Ricardo Semler. Fundada em 2002, a escola foi eleita uma das mais inovadoras do mundo pela Unesco em 2007 e passou mais de uma década com três unidades, uma na cidade de São Paulo e duas em Santo Antônio do Pinhal, no interior paulista.

Em 2016, Daniel Castanho, presidente da rede de ensino Anima, tornou-se sócio da Lumiar, e ele e Semler colocaram em andamento um plano de expansão. Em um ano, foram inauguradas duas novas unidades (em Porto Alegre e mais uma em Santo Antônio do Pinhal). “Estamos avaliando se é melhor continuar abrindo escolas ou criar um sistema de ensino e vender para as instituições que querem seguir nosso modelo”, diz Castanho.

Outra pioneira é a Beacon, de São Paulo. Começou em 2010 com 16 alunos no bairro Alto de Pinheiros, hoje tem quatro unidades com  620 alunos e está fazendo um investimento de 30 milhões de reais — cerca de 60% são financiados pelo BNDES — para construir um campus com capacidade para 1 200 alunos. Hoje, a Beacon só atende crianças até 12 anos. O plano é abrir uma nova série por ano para atender até o ensino médio. “Existe uma grande demanda dos pais por um ensino diferente e de alto nível. Mas a contratação de professores qualificados que falem dois ou três idiomas é um de nossos maiores de-safios”, diz Maria Eduarda Sawaya, uma das sócias da Beacon.

Novas profissões

Um dos grandes apelos dessas escolas é formar estudantes para enfrentar os desafios de um mercado de trabalho em mutação — numa era em que, com todo o saber humano disponível na internet, decorar a estrutura dos hidrocarbonetos aromáticos talvez não seja tão importante assim. No vídeo de apresentação da Concept aos pais interessados em matricular seus filhos, há um trecho que diz que metade das profissões que estarão em voga daqui a 50 anos ainda não existe.

Só Deus sabe se tantas profissões vão mesmo desaparecer — mas claro que isso mexe com a ansiedade paterna. Essas escolas se propõem a ensinar ao aluno as habilidades para aprender sozinho. Aprender equações matemáticas, gramática e eventos históricos é só parte do que os estudantes fazem. Em vez de esperar que todo o conteúdo seja apresentado pelo professor, numa aula puramente expositiva, eles vão entender parte das disciplinas na prática, em laboratórios equipados com impressoras 3D e equipamentos de corte a laser, discussões em grupo ou mesmo dando aulas a estudantes mais novos.

A ideia, quase um mantra nas apresentações dessas escolas, é que fazer perguntas é tão importante quanto saber respondê-las. “Nossas aulas têm duração variável, dependendo do tema. O objetivo é que o aluno tenha sempre um momento para experimentar e desenvolver o conteúdo, e nesse momento as ideias devem partir do grupo”, diz Vera Giusti, outra sócia da Beacon. Ela cita como exemplo a construção de uma cisterna por um grupo de alunos do 5o ano: o projeto surgiu durante uma discussão sobre escassez de água, e os alunos se propuseram a fazer uma para a escola.

Além disso, a divisão entre as disciplinas não é tão rígida como nas instituições tradicionais: um tema de história pode ser explorado também nas aulas de português e matemática, o que ajuda a integrar o conteúdo à realidade dos estudantes. “O ensino por meio de projetos gera mais engajamento dos alunos”, diz Maria Helena Godoy, especialista em educação da consultoria de gestão escolar Instituto Aquila.

O ensino de diferentes idiomas e a possibilidade de estudar fora do país são outra aposta dessas escolas. Elas são diferentes das instituições estrangeiras tradicionais, que existem há décadas no Brasil e privilegiam um único idioma — como a Graded, em São Paulo, e as escolas britânicas. Nas novas escolas, as disciplinas são ministradas de forma alternada em inglês, português e, em alguns casos, também em espanhol. O objetivo é que os alunos sejam fluentes nos três idiomas e continuem aprendendo sobre cultura brasileira.

A escola americana Avenues, que fica em Nova York, pretende abrir unidades em São Paulo em 2018 e em Londres e Pequim no futuro para permitir que os alunos possam mudar de uma filial para a outra. “Os alunos poderão estudar em diferentes lugares e aprender vários idiomas e culturas, formando-se um cidadão global”, diz Alan Greenberg, um dos fundadores da Avenues. Por fim, o currículo dessas escolas é flexível. Os alunos ficam de 8 a 10 horas na escola e têm de escolher matérias optativas, como robótica e introdução a finanças. “Meio período não é suficiente para dar uma boa formação. Os brasileiros ficam poucas horas na escola, na média, e isso se reflete em notas ruins na comparação mundial”, diz Wilson Risolia, presidente da consultoria Falconi Educação.

A ideia central dessas escolas não é nova. Fala-se há décadas na importância de desenvolver a capacidade de aprender a aprender. Pesquisas feitas nos anos 70 pelo americano James Heck-man, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, indicam que ter curiosidade, saber se planejar e trabalhar em grupo para resolver problemas é tão ou mais importante para o futuro dos estudantes do que aprender as disciplinas obrigatórias.

Somente nos últimos anos, porém, passaram a surgir escolas que adotam esses princípios na prática. As principais ficam na Finlândia, país que está há anos nas primeiras posições dos rankings mundiais de qualidade de ensino e aprendizado. É verdade que algumas escolas tradicionais também já começaram a mudar para seguir, pelo menos em parte, esse novo modelo de ensino. Há menos aulas expositivas do que no passado, mais laboratórios e a opção de permanecer na escola em período integral e cursar disciplinas não obrigatórias.

Mas as mudanças são pontuais. “Esse é um modelo ainda novo, nem todos os pais querem esse tipo de mudança”, diz Guilherme Mélega, executivo da empresa de educação Somos, dona dos colégios Anglo 21 e PH. “Além disso, é difícil combinar um ensino mais inovador com a exigência de conteúdo para ter boas notas no Enem e no vestibular. Notamos que muitos alunos querem ficar no Brasil e, por isso, essas provas são importantes”, diz Mauro Salles Aguiar, presidente do Colégio Bandeirantes.  O ranking de pontuação no Enem ainda é um dos principais chamarizes das escolas brasileiras. Saiba mais: Como a escola integral ajuda a passar no vestibular? – Patrocinado 

Por enquanto, há mais demanda que oferta por esse tipo de ensino — há fila de espera para todas as escolas desta reportagem. O desafio, porém, é expandir o negócio sem perder qualidade. Atualmente, a margem de lucro das escolas de educação básica fica em torno de 20% — nas faculdades, está em 30% em razão dos ganhos de escala. Hoje, praticamente todas as escolas que apostam nesse novo conceito estão investindo em expansão, o que atrapalha a rentabilidade. O lucro, esperam os empresários do setor, virá — ou a escola do futuro não terá futuro.

sábado, fevereiro 25, 2017



25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
LYA LUFT

Educação e utopia

Já escrevi, e repito, que sou de uma família de professores: meu pai, o pai dos filhos, agora um filho, eu mesma ex-professora de linguística, até descobrir que aquela não era minha vocação. Me dava alegria o contato com os alunos, me fazia sofrer toda sorte de regras, por mais justas que fossem. 

O tema educação me é muito próximo, muito querido, é mesmo fundamental, e começa com aquela educação em casa, onde as crianças aprendem limites e possibilidades, voos e raízes, compostura, gentileza, firmeza, discernimento – mesmo os menorzinhos. Aprendem por osmose (sem diálogos solenes) questões de respeito e afeto. Quando forem à escola, não serão os pequenos selvagens que os pais entregam para que os mestres os transformem em civilizados.

O professor deveria ser, na pirâmide geral, um dos funcionários mais bem pagos, porque dele dependem futuro, postura, preparo, eficiência e humanidade de jovens e crianças – e, não é metáfora, do país. O mestre deveria ter excelentes condições de trabalho, para continuar a se preparar, para acompanhar os alunos, dialogar, escutar, reconhecer como pessoas, não importa se têm quatro ou dezoito anos. (E para que nos intervalos professoras não tenham de vender docinhos ou lingerie às colegas, e os professores fora do horário na escola não tenham de fazer bicos a fim de dar de comer aos filhos.)

Acredito, de maneira quase feroz, na necessidade de despertar, não só entre os responsáveis mas no povo em geral, a noção clara de que na educação devemos buscar excelência, o que não tem a ver com elitismo – todos temos direito ao melhor, que não significa dinheiro. Que a escola possa dar o melhor ambiente (basta que seja decente, sem ser um palácio), com os melhores professores, para que os alunos possam também descobrir, e cultivar, o melhor de si. 

Não é justo achar genial que se deve aprender brincando – não falo em criancinhas de maternal –, reproduzindo o hábito de muitas famílias em que não se pode dizer não ou dar um leve castigo (uma hora sem tablet já assusta) porque a criança, o adolescente, ficaria traumatizado. E assim os tratamos como pequenos ou grandes imbecis. Fazemos muita cerimônia com esse assunto: numa palestra, um professor me perguntou que motivo dar aos alunos para que estudassem. Minha resposta foi totalmente espontânea: “Para que não fiquem burros”. Risada geral, aplausos, e até eu fiquei refletindo nisso: deixar de ser ignorante é, mais do que um dever, um direito de todos.

E não me digam que os governos estão falidos. Talvez estejam falidos o ânimo e a vontade geral, começando pelas autoridades, contagiando famílias, os próprios jovens e – por que não? – as crianças. 

Nada justifica que, mesmo empobrecidos e assustados, iludidos por cada vez mais novos projetos e comissões palavrosos e ineficazes, não se coloque a educação em primeiro lugar em qualquer orçamento. Gente preparada vai colaborar nas condições de vida, saúde, economia, na melhoria da existência de indivíduos, no progresso geral, e na administração decente da tão maltratada coisa pública.

De modo que, se consertarmos um pouco que seja nossas nada brilhantes cabeças, talvez a educação deixe de ser uma utopia.


25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
MARTHA MEDEIROS

A colunista está em férias. Este texto foi publicado em 25 de abril de 2010

Terapia do joelhaço

Extra, extra. Esse troço que você tem aí dentro da cachola só lhe distrai daquilo que realmente interessa: o seu desejo. Sentado em sua poltrona de couro marrom, ele me ouviu com a mão apoiada no queixo por 10 minutos, talvez 12 minutos, até que me interrompeu e disse: Tu estás enlouquecendo.

Não é exatamente isso que se sonha ouvir de um psiquiatra. Se você vem de uma família conservadora que acredita que terapia é pra gente maluca, pode acabar levando o diagnóstico a sério. Mas eu não venho de uma família conservadora, ao menos não tanto.

Comecei a gargalhar e em segundos estava chorando. “Como assim, enlouquecendo??”

Ele riu. Deixou a cabeça pender para um lado e me deu o olhar mais afetuoso do mundo, antes de dizer: “Querida, só existem duas coisas no mundo: o que a gente quer e o que a gente não quer”. Quase levantei da minha poltrona de couro marrom (também tinha uma) para esbravejar:

“Então é simples desse jeito? O que a gente quer e o que a gente não quer? Olhe aqui, dr. Freud (um pseudônimo para preservar sua identidade), tem gente que faz análise durante 14 anos, às vezes mais ainda, 20 anos, e você me diz nos meus primeiros 15 minutos de consulta que a vida se resume ao nossos desejos e nada mais? Não vou lhe pagar um tostão!”

Ele jogou a cabeça pra trás e sorriu de um jeito ainda mais doce.

Eu joguei a cabeça pra frente, escondi os olhos com as mãos e chorei um pouquinho mais. Não é fácil ouvir uma verdade à queima-roupa.

“Tem gente que precisa de muitos anos para entender isso, minha cara.”

Suspirei e deduzi que era uma homenagem: ele me julgava capaz daquela verdade sem precisar frequentar seu consultório até ficar velhinha. Além disso, fiz as contas e percebi que ele estava me poupando de gastar uma grana preta. Tá, e agora, o que eu faço com essa batata quente nas mãos, com essa revelação perturbadora?

Passo adiante, ora. Extra, extra, só existe o seu desejo. É o desejo que manda. Esse troço que você tem aí dentro da cachola, essa massa cinzenta, parecendo um quebra-cabeças, ela só lhe distrai daquilo que realmente interessa: o seu desejo. O rei, o soberano, o infalível, é ele, o desejo. Você pode silenciá-lo à força, pode até matá-lo, caso não tenha forças para enfrentá-lo, mas vai sobrar o que de você? Vai restar sua carcaça, seu zumbi, seu avatar caminhando pelas ruas desertas de uma cidade qualquer. Você tem coragem de desprezar a essência do que faz você existir de fato?

É tão simples que nem seria preciso terapia. Ou nem seria preciso mais do que meia dúzia de consultas. Mas quem disse que, sendo complicados como somos, o simples nos contenta? Por essas e outras, estamos todos enlouquecendo.



25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
CARPINEJAR

Incompetência telefônica

Homem prefere telefonar aos amigos sozinho. Absolutamente solitário. Como se estivesse jogando videogame. Se a namorada ou a esposa estiver presente, a conversa não irá fluir.

Homem não consegue conversar ao telefone e atender qualquer pergunta de sua mulher ao mesmo tempo.Ele se perde inteiro, gagueja, tem brancos na memória. Se a mulher começa a fazer um gesto, ele salta o tom de voz, escorrega no silêncio, espaça a voz, sacrifica o raciocínio, esguicha vogais para todos os lados, como uma mangueira ligada e se contorcendo no chão. Esquece a sua mensagem, onde está, quem é.

É apenas ela coçar a cabeça que ele se precipita em supor incêndios, enchentes, calamidades pela casa. Homem sempre acha que está cometendo algo errado – é sua esposa fazer uma menção com as sobrancelhas ou parar em sua frente e ele cai em pânico. Vacila. Apaga. Não toca a ligação para frente.

Parece que foi desmascarado, que falou uma bobagem e ela ouviu. E agora terá que enfrentar uma discussão de relacionamento. Homem não consegue manter duas conversas ao mesmo tempo. É obrigado a desligar. É obrigado a saber primeiro o que ela deseja.

Ele fica encabulado com alguém mandando nele. O problema do homem não está em ser mandado, mas que os outros descubram que ele é mandado.

A mulher sim, a mulher pode ser interrompida enquanto conversa ao telefone e não terminará nem um pouco constrangida. Nasceu com o telefone na orelha. O telefone para a mulher é um ponto. O telefone para a mulher é um brinco. Não se sentirá ofendida. Pode responder comicamente à mímica do marido. Pode rir de sua presença incômoda. Ou colocar o fone para o lado e fulminar, grosseira e direta: “O que foi?”.

Já o homem se despede com a pressão e explica ao amigo que depois retorna.

Ao parar tudo e ver o que a sua mulher quer, descobrirá sempre que não é nenhuma urgência. Não foi uma correção de postura. Não foi um flagrante. Não foi uma censura. Nunca é nada. É algo bobo, corriqueiro, dispensável, tipo: “Lembre do óleo de girassol quando for ao mercado”.




25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
CLÁUDIA LAITANO

A verdadeira maionese

Uma coisa nós já aprendemos nesses primeiros 15 anos de redes sociais: não existe nenhum assunto tão banal, ou esdrúxulo, que não possa ser transformado em pretexto para um embate de proporções épicas entre visões de mundo irreconciliáveis.

A maionese, por exemplo. Não “a verdadeira maionese” – aquela que Kraunus Sang e o Maestro Pletskaya tantas vezes celebraram em serões na Praça da Matriz –, mas uma outra, menos conhecida, mas, para alguns, igualmente merecedora do direito de usar seu nome.

O duelo começou alguns dias atrás, quando alguém perguntou no Twitter para a apresentadora Rita Lobo por que ela não ensinava uma receita de maionese preparada com óleo de coco e iogurte. A resposta veio sem adoçantes: “1) Porque não é maionese. 2) Trate seu distúrbio alimentar”.

Adepta de uma comida mais parecida com algo que não deixaria sua avó ofendida ou assustada, Rita Lobo é colega de emissora de Bela Gil, famosa pelas experiências pouco ortodoxas com ingredientes e técnicas de preparo – o churrasco de melancia e a feijoada com tofu entre elas.

Rapidamente, o diálogo no Twitter desandou para um embate entre rita-lobistas e bela-gilistas, para deleite de todos aqueles que, não sabendo a diferença entre um morango e um rabanete, salivavam diante da oportunidade de se alistar no bate-boca.

A polêmica da maionese talvez reflita algumas idiossincrasias da nossa época. Para começar, a obsessão quase religiosa com determinados tipos de dieta e a disposição para converter novos fiéis para a causa alimentar de sua preferência – usando, é claro, o palco em que todos os debates públicos, os graves e os aleatórios, disputam a fluida atenção da audiência.

Faça o teste: pegue qualquer assunto, digamos, a verdadeira maionese, coloque sobre a mesa (as redes sociais) e atraia pessoas de diferentes origens, temperamentos e interesses para a conversa. Assista como, lentamente, o assunto vai assumindo sentidos diversos, cada vez mais distantes do tema inicial do debate. Deixe no forno por alguns minutos, e o ingrediente original pouco a pouco se dissolve, assumindo o aspecto de uma escolha moral diante da qual o mais distraído observador é convocado a se posicionar.

Já não basta ser livre para escolher, entre os 457 programas de culinária exibidos pela televisão brasileira, aquele com o qual você se identifica e que, de alguma forma, expressa sua personalidade, seus gostos e seu estilo de vida (despojado, trash, natureba, sofisticado...). É preciso convencer os outros de que a sua escolha é a melhor e que qualquer outra não apenas tem potencial para destruir o planeta e a raça humana como será percebida como uma espécie de ofensa pessoal.

Talvez a enigmática mensagem que Kraunus e Pletskaya estavam tentando nos transmitir durante todos aqueles verões em que escapavam da Sbórnia para ocupar a Praça da Matriz fosse esta: uma vez descoberta “a verdadeira maionese”, o próprio sentido da vida nos será revelado de forma clara e definitiva. Ou não.

David Coimbra está em férias e retorna no dia 6 de março. Neste período, se revezarão neste espaço Fabrício Carpinejar, Nílson Souza, Cláudia Laitano, Marcos Piangers e Mário Corso.



25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 PALAVRA DE MÉDICO
J. J. Camargo é cirurgião torácico

ESTORVO


Desde a primeira década do século 20, quando começou-se a projetar a expectativa de vida da população, percebeu-se que, a cada cinco anos, este índice vai aumentando numa curva de crescimento cuja inclinação pode variar de países e continentes, mas é sempre ascendente.

Isso garantido, com a perspectiva de um número crescente de centenários brigando por espaço no planeta superpovoado, parece mais do que adequado começarmos o debate de como preparar o terreno para que as futuras gerações de longevos não se transformem em estorvos para a sociedade e, antes disso e mais triste, para as suas próprias famílias.

Com limitações inevitáveis e dependências previsíveis, essas levas de anciãos com graus diversos de saúde e lucidez precisarão ser alocadas em funções que lhes mantenham ocupadas e livres da sensação de inutilidade, esta que é, de longe, a condição mais degradante a que se possa expor uma criatura que um dia, de pele lisa e raciocínio rápido, sentiu-se muito importante na vida.

Na contramão das conquistas médicas que asseguram essa longevidade festejada, pouco ou quase nada tem sido anunciado como avanço na busca da preservação cerebral. Os interesses imediatistas da sociedade moderna ainda agravam a perspectiva futura na medida em que, conforme publicação recente, se investe cinco vezes mais em pesquisas de terapias de embelezamento e de deficiências eréteis do que em prevenção da doença de Alzheimer.

A perspectiva de tempo ganho de vida a ser vivida sem qualidade é, sem dúvida, a maior ameaça aos milhares de candidatos a uma auspiciosa prorrogação de prazo que era impensável há poucas décadas. Dar sentido a esse ganho é assegurar que todas as pessoas possam envelhecer sem a decadência biológica precoce, que é uma linha divisória entre gozar a vida e desejar a morte.

Até agora, o que mais fazemos é segregar nossos doces velhinhos, agrupando-os em lares geriátricos, alguns extremamente qualificados e zelosos, oferecendo atendimento de enfermagem diário e médico quando necessário, além da companhia de contemporâneos solidários em limitações, fantasias, memórias, rabugices, desesperança, saudade e solidão.

A Madre Tereza contou que, ao visitar um desses asilos luxuosos, ficou impressionada porque, apesar de alojados numa sala de estar, equipada com TV e recursos de multimídia, todos mantinham um olhar meio triste, focado na porta de entrada. Questionada, a diretora meio constrangida, admitiu: “A maioria deles está aqui há muito tempo, e ninguém mais vem visitá-los, mas este olho na porta parece ser o jeito que eles encontraram de dizer que nunca vão desistir de esperar que seus amados reapareçam”.



25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
PIANGERS

Primeiro dia de aula

Anita dormiu no sofá, então no caminho da escola percebi algo engraçado: seu rosto estava marcado com aquelas listras do estofado. Quando vamos pra escola caminhando, ela sempre está feliz, fazendo com as mãos dancinhas e coreografias. Assim que falei que ela estava marcada no rosto, ela me olhou preocupada, jogou todo o cabelo na cara, passou a caminhar corcunda. Relaxa, não precisa ter vergonha, já vai sair, eu disse, percebendo pela primeira vez suas inseguranças adolescentes. Ela continuou cabisbaixa. O que eu falei pra ela, então, foi mais o menos o seguinte. Vou abrir um novo parágrafo.

A gente demora décadas pra entender quem a gente é de verdade e, quanto mais relaxado a gente for nesse processo, mais fácil fica se encontrar. Não importa o quanto você é bonita ou popular, se não se sentir bonita e popular pra você mesma será infeliz. Cansei de ver pessoas perfeitamente arrumadas, impecavelmente lindas e extremamente inseguras. Cansei de ver pessoas esquisitas, de quem todo mundo gosta, porque estão bem resolvidas consigo mesmas. O que ninguém gosta é de gente que tem vergonha de ser o que é: e quando a gente é adolescente a gente quer ser tudo, menos a gente mesmo.

Se alguém te perseguir na escola porque você é diferente, só existe uma solução: ser abusadamente feliz. Não há melhor vingança do que esta. Ser feliz. Vale pra todo tipo de gente: pessoas que levaram um pé na bunda, pessoas que foram demitidas, pessoas que não foram aceitas em um grupo social. Seja abusadamente feliz. Tenha uma vida brilhante. Essa é a única forma de se vingar de qualquer pessoa: ser tão feliz que ela vai se contorcer de inveja. Porque você não está nem aí pra opinião dela, porque você está mais interessada em quem você é pra você mesma e para as pessoas que genuinamente gostam de você.

Timidamente ela voltou a cantarolar uma música, fez mais umas dancinhas e entrou portão adentro saltitando. Me lembrou um menino ruivo, tímido e sardento, cheio de espinha na cara, inseguro e com medo do que ia encontrar na escola. Entrando na escola aos 11 anos de idade, 25 anos atrás. Querendo que alguém tivesse dito a ele tudo que eu disse pra minha filha. E, ao mesmo tempo, sem saber se adiantaria pra alguma coisa.

25 de fevereiro de 2017 | N° 18778 
EDITORIAL

SOLUÇÕES PARA A CRISE CARCERÁRIA

O Conselho Nacional de Justiça apresentou, na última sexta-feira, o relatório resultante de inspeções do Judiciário em algumas das principais penitenciárias do país, chegando à conclusão de que, de cada três presos no Brasil, um está em situação provisória aguardando julgamento. Em números efetivos, segundo o levantamento, o país tem atualmente 654.372 pessoas presas, das quais 433.318 já foram condenadas (66,2%), enquanto 221.054 (33,7%) estão em situação provisória. 

Por iniciativa da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, juízes de todo o país estão sendo convocados para um esforço concentrado que ajude a reduzir esta população carcerária, aliviando as tensões responsáveis por recentes motins e massacres no interior das prisões.

A aceleração de processos de presos provisórios certamente contribuirá para atenuar o problema, mas está muito longe de ser a solução para a superlotação e para a degradação do sistema penitenciário brasileiro, que não recupera ninguém e abriga verdadeiras escolas do crime, principalmente devido ao domínio das facções originadas pelo tráfico de drogas. 

Pois outra providência proposta por especialistas para reduzir a quantidade de presos é exatamente uma alteração na chamada Lei das Drogas, que possibilite distinção efetiva entre usuários e traficantes. O ex-ministro da Justiça e agora integrante do STF Alexandre de Moraes disse em sua sabatina que a legislação precisa diferenciar “de forma objetiva” o consumidor do traficante. O maior percentual de presos provisórios nas cadeias do país (29%) é de acusados de tráfico de drogas.

Ainda assim, é uma ilusão imaginar que basta liberar usuários que cometem crimes menores e sentenciar apenas os traficantes para que o problema seja equacionado. Mesmo sem aqueles, os presídios continuarão sendo insuficientes e inadequados se novas instalações não forem construídas. Além disso, não temos clínicas e casas especializadas na recuperação de drogados, para que não voltem a delinquir por conta do vício. Nem o Sistema Único de Saúde está capacitado a oferecer atendimento satisfatório para este contingente de brasileiros necessitados.

Destinar presídios apenas para os criminosos mais perigosos é um caminho que merece ser considerado, mas tão importante quanto isso, talvez até mais importante, seria atacar as causas geradoras da criminalidade – com educação e oferta de oportunidades –, para que mais brasileiros se tornem cidadãos em vez de virarem delinquentes.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017



24 de fevereiro de 2017 | N° 18777
POLÍTICA

Serraglio promete manter “distância” da Lava-Jato


NOVO MINISTRO DA JUSTIÇA, que é deputado do PMDB, foi anunciado pelo Palácio do Planalto
Um dia após a nomeação do ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Michel Temer definiu seu substituto. Assumirá o cargo o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). O nome ganhou força por ter apoio de parte da bancada do PMDB da Câmara e do PSDB. Relator da CPI dos Correios, que deu origem ao processo do mensalão, Serraglio é próximo ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Primeira opção de Temer para suceder Moraes e dar um caráter técnico à nomeação, o ministro aposentado do STF Carlos Velloso recusou o convite na semana passada. A desistência recolocou Serraglio no páreo. A escolha tenta sustar as críticas recebidas pelo governo da bancada do PMDB, que cobra mais espaço na Esplanada. 

A pressão foi decisiva para sacramentar a nomeação. Além da chancela dos colegas de partido, pesou a favor de Serraglio, nascido em Erechim mas com carreira desenvolvida no Paraná, sua formação jurídica. Professor universitário, é mestre em Direito pela PUC-SP e tem especialização em processo civil pela Universidade Paranaense.

Com experiência limitada no Executivo, o peemedebista assume o cargo com o desafio de controlar a crise da segurança pública, que teve chacinas em presídios e protestos de policiais militares pelo país. Serraglio terá de tirar do papel o controverso Plano Nacional de Segurança, lançado por Moraes. Outro desafio trata de conter a insatisfação da Polícia Federal, que aponta movimentos para barrar a Operação Lava-Jato.

PROXIMIDADE COM CUNHA É RESSALTADA POR OPOSITORES

Na Câmara, o novo ministro não estava entre os nomes de maior influência política dentro do PMDB. Seu momento de maior destaque ocorreu entre 2005 e 2006, quando foi relator da CPI dos Correios.

– Ele é uma pessoa muito educada, às vezes não se tem ideia do que é capaz. Mas foi decisivo para a CPI dos Correios, que teve o resultado que teve – afirmou o ministro do Desenvolvimento Social, Osmar Terra, que fez campanha por Serraglio para a pasta.

Terra avalia que o novo colega terá pulso para dar seguimento à Lava-Jato, apesar de a cúpula do PMDB estar implicada nas investigações – ontem, dois doleiros ligados ao partido foram alvo de operação da Polícia Federal (leia na página 15). Serraglio disse à Folhapress ter acertado com Temer um compromisso com relação à Lava-Jato:

– A ordem é manter distância porque a gente sabe que qualquer coisa que faça, você se contamina, então é para deixar para lá.

Um dos investigados na operação é Cunha, antigo aliado de Serraglio. Em 2016, o deputado teve o apoio do então presidente da Câmara para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por onde passaria o processo que levou à cassação do parlamentar fluminense – o mais longo caso da história, que se arrastou por 335 dias. Acusado por parlamentares da oposição de dever favores a Cunha, Serraglio reagiu:

– Essa história de que devo favor a Cunha é folclore.

A proximidade com o ex-presidente da Câmara é lembrada por desafetos do novo ministro. Colega de partido e eleito pelo mesmo Estado, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) criticou a opção do governo. Para ele, o escolhido por Temer fará um trabalho no mesmo nível do que é realizado por Ricardo Barros (PP-PR) à frente da Saúde.

– É o fim do mundo, aliado de Eduardo Cunha no Ministério da Justiça. Está à altura do conjunto da obra do governo Temer – provocou Requião.

Em novembro de 2016, já com Temer no Planalto e Cunha cassado e preso pela Lava- Jato, Serraglio foi um dos deputados que votou a favor do projeto que trata do abuso de autoridade juízes e promotores, na sessão que desfigurou a proposta das medidas de combate à corrupção encabeçadas pelo Ministério Público Federal.

Ainda na Câmara, o peemedebista relatou a PEC 215, que dá ao Congresso a palavra final sobre as demarcações de terras indígenas, atualmente definidas pelo governo federal, sendo que os processos passam justamente pelo Ministério da Justiça.

A TRAJETÓRIA

-Osmar Serraglio nasceu em Erechim, em 23 de maio de 1948. Em Tapera, estudou no seminário Sagrado Coração de Jesus. Aos 15 anos, com os pais e quatro irmãos e uma irmã, mudou-se para o Paraná.
-Advogado, filiou-se ao MDB em 1978 e seguiu no partido após a mudança do nome para PMDB. Foi assessor jurídico de prefeituras no noroeste do Paraná, até ser eleito vice-prefeito de Umuarama em 1992. Ficou no cargo até 1996. Dois anos depois, foi eleito para o primeiro dos cinco mandatos consecutivos de deputado federal.
-Entre 2005 e 2006, foi relator da CPI dos Correios, criada a partir de denúncias de corrupção na estatal, mas que acabou investigando a existência do pagamento de um mensalão para os parlamentares, em troca da aprovação de medidas de interesse do governo.
-No ano passado, comandou a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Aliado do então presidente da Casa, Eduardo Cunha, Serraglio teve como missão pautar recursos que poderiam anular o processo aberto contra amigo no Conselho de Ética. Quando Cunha foi preso, em outubro do ano passado, reagiu dizendo:
– É a queda da República!
Serraglio também afirmou que a cassação seria “punição muito severa” para Cunha e dizia duvidar que o correligionário perderia o mandato por conta dos apoios que tinha. Disse, ainda, que o ex-presidente da Casa teria conquistado a simpatia de parlamentares por conta da celeridade com que fez andar o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.
-Serraglio votou a favor da punição de juízes e de procuradores por abuso de autoridade, dentro do pacote anticorrupção aprovado pela Câmara. Logo depois, divulgou uma nota afirmando que a responsabilização de juízes e promotores nada tem a ver com a Lava-Jato e que o Brasil está sendo passado a limpo. No texto, entretanto, faz a ressalva de que “nem todos os juízes e procuradores são Sergio Moro ou Deltan Dallagnol”.
-No início do mês, foi candidato avulso à primeira vice-presidência da Câmara, mas acabou derrotado.


24 de fevereiro de 2017 | N° 18777 
CARPINEJAR

O aceno desajeitado

Não queria mentir para você, meu amigo. Eu me apanho em flagrante, como se o estivesse traindo.

Nunca mentimos um para o outro. Nunca faltamos com a sinceridade, desde quando chegamos juntos a Porto Alegre do interior do Estado para estudar, há 40 anos. São décadas de autenticidade na cara, um barbante dos meus olhos aos seus, um fio luminoso e claro de nossa lealdade. Nossas pupilas nem mais se dilatam com o susto das palavras.

Quando as verdades eram incômodas, brincávamos, encontrávamos um jeito de rir de nossas mazelas. E sempre dava certo, ajeitávamos a angústia criando piadas internas e dialetos.

Mas agora não, rir dói, rir tira o seu ar, rir provoca uma tosse infinita de jogar para fora o que resta de seu ânimo, temos que enfrentar a dureza da situação com a seriedade. Somos péssimos falando sério. Somos crianças quando viramos adultos. A vontade é chamar os nossos responsáveis para nos buscar na sala do SOE.

E não desejava mentir, mentir que seu estado de saúde não é grave, que hoje ou amanhã ou depois de amanhã não serão seus últimos dias. Alguns dirão que é questão de meses, mas o fim flerta com o tamanho de minhas frases. Nunca prevejo se devo agradecer ou apenas confortar, se devo dizer o quanto é fundamental para mim ou arejar a sala de augúrios com relatos banais de minha rotina, se devo comentar o futebol do fim de semana ou ser exato e claro na oração de adeus. Ai que horror quando cumprimentar e se despedir vão disputando os mesmos gestos.

Ainda muito para falar, e às vezes eu suspiro o testamento em sua presença. Ainda muito para viver, e sou egoísta porque me fixo no meu pesar e venho disfarçando pessimamente a pobreza de espírito com a família.

Qualquer ruído do seu corpo produz a minha atenção extrema. A morte é um assaltante na calada da noite roubando o meu melhor amigo de mim.

Chamo o seu número no celular e, quando você não atende, já penso que aconteceu. Todo instante não para de acontecer para mim. Sou esmagado por pressentimentos. Pego a sua mão ossuda e luto para espantar pensamentos sombrios, imaginando que aquilo pode ser o prenúncio da argola de seu caixão. É uma grande bobagem e uma infeliz realidade. E, ao mesmo tempo, preciso manter a expressão tranquila, para não entregar as minhas certezas médicas a respeito de sua debilidade.

Meu rosto confiante e otimista é também uma farsa, estou desmontado pelas lágrimas. É a nossa maquiagem masculina, desmonto sozinho em casa e depois me monto de novo para poder vê-lo no hospital. Aguento algumas horas e novamente sou um quebra-cabeça carecendo de peças para completar o seu feitio humano.

Ajudo a amparar o seu corpo da cama para o sofá e a sua magreza de câncer nunca foi tão pesada. A densidade nunca está no corpo, mas naquilo que sentimos.

Você foi a primeiro entre nós a envelhecer, era meu irmão mais novo e tornou-se, de repente, meu pai de idade avançada.

Não pretendia estar mentindo, meu fiel amigo. Mas sempre mentiremos na doença, sempre mentiremos na esperança, sempre mentiremos quando alguém que amamos vai partindo e o que fica é uma lacuna insubstituível, irreparável, inconsolável.

Uma mão é aceno, eu persisto a usar as duas para contê-lo e abraçá-lo.

David Coimbra está em férias e retorna no dia 6 de março. Neste período, se revezarão neste espaço Fabrício Carpinejar, Nílson Souza, Cláudia Laitano, Marcos Piangers e Mário Corso.



24 de fevereiro de 2017 | N° 18777 
NÍLSON SOUZA

SENTIDO DE DESORIENTAÇÃO

O sexto sentido até já rendeu filme. Trata-se, segundo a ciência, de uma espécie de intuição psíquica, que também pode ser traduzida como clarividência, visão de futuro ou, no caso do cinema, visão de almas do outro mundo. Há também quem identifique um sétimo sentido, para uns a capacidade de perceber oportunidades, para outros a relação com a realidade virtual proporcionada pela tecnologia. Nossos cinco sentidos naturais, só para lembrar, são o tato, o olfato, a audição, o paladar e a visão.

São eles que a tecnologia desafia, para o bem ou para o mal. Ao mesmo tempo em que nos proporciona comunicação instantânea, imagens mais perfeitas do que a própria realidade e sons que podem ser captados na Lua, também nos distrai, nos cega e nos aliena. O celular, com suas múltiplas funções, é o melhor exemplo desta nova relação com os sentidos. Ele próprio passou a ser um recurso tão imprescindível para muitas pessoas quanto aqueles de que fomos dotados pela natureza.

Chama-se nomofobia a dependência de celulares. Em inglês, no mobile phobia, o medo de ficar sem o celular. As pessoas ainda vivem amontoadas nas grandes cidades, mas passam a maior parte do tempo sem conversar umas com as outras, concentradas no som dos fones de ouvido ou na visualização e na digitação em seus aparelhos de mão. Só falam quando acaba a bateria e invariavelmente dizem a mesma palavra:

– Droga!

Muitos usuários dormem com o celular ao lado do travesseiro e acordam na madrugada para responder a mensagens. Inúmeros motoristas dirigem com o celular no colo, com um olho na estrada e outro no aparelho – às vezes os dois na telinha e o sexto sentido que se encarregue do volante. Os segundos do sinal fechado são aproveitados para o ZapZap.

Estudos recentes demonstram que o uso diário do celular altera a estrutura e a função do cérebro humano, refletindo-se nos processos de cognição, estado de ânimo e conduta das pessoas. Ou seja: ingressamos numa viagem sem volta. Para onde mesmo estamos indo?

Confesso que não sei, mas vou consultar o GPS do meu celular e já respondo.


24 de fevereiro de 2017 | N° 18777 
CLÁUDIA LAITANO

Idiotas inúteis

O que a atriz Meryl Streep e o escritor Raduan Nassar têm em comum além da reconhecida excelência em seus respectivos ofícios? Quando eles falam – no caso de Raduan, mais ou menos uma vez a cada 40 anos –, as pessoas costumam parar para ouvir.

Nos últimos meses, a atriz tem usado todas as suas aparições públicas para criticar o governo de Donald Trump, tornando-se uma espécie de porta-voz sênior da classe artística americana – além de alvo de um dos tweets mais aloprados do novo presidente, que caprichou no humor involuntário ao qualificar a adversária como “a mais superestimada atriz de Hollywood”.

Raduan Nassar, o maior escritor brasileiro vivo, usou seu discurso durante a entrega do Prêmio Camões, na semana passada, para criticar o presidente Michel Temer, provocando uma resposta, digamos, exaltada do representante do governo na cerimônia, o ministro da Cultura Roberto Freire – seguida por um duelo de simpatizantes de ambos os lados na internet.

Alguns dias antes, a jornalista Rachel Sheherazade havia usado o Twitter para postar uma montagem de fotos de artistas brasileiros ao lado de uma frase do ator Kevin Spacey, obviamente retirada de contexto, uma vez que o astro de House of Cards costuma posicionar-se politicamente com certa frequência: “A opinião de um ator sobre política não importa merda nenhuma”. “Idiotas inúteis”, acrescentou a jornalista, referindo-se a artistas como Wagner Moura, Camila Pitanga e Gregório Duvivier, com quem ela estendeu a polêmica nos últimos dias.

Útil ou inútil, a imbecilidade (como a inteligência) não é exclusividade de nenhuma categoria profissional ou orientação política e tende a prosperar em todos os campos da atividade humana. O que varia muito, conforme o território e o momento histórico, é a liberdade que cada cidadão, famoso ou não, tem para expressar suas opiniões. Trump pode reclamar que Meryl Streep representa “a elite liberal hollywoodiana”, e Roberto Freire pode lamentar que a classe artística brasileira seja “aparelhada pela esquerda”, mas não há nada, no campo democrático, que possa ser feito a não ser respeitar o direito que eles têm de falar o que quiserem em festivais, premiações ou reuniões de condomínio.

O problema, me parece, é outro. O sensacionalismo intelectual e o populismo costumam extrair do ambiente os sentimentos mais facilmente manipuláveis (racismo, xenofobia, ressentimento) para obter a atenção de que necessitam para crescer. A tese de que a cultura é um luxo e os artistas são incômodos desnecessários, não por acaso, é uma das bandeiras preferidas de todos aqueles que não convivem bem com a liberdade.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

 
contardo calligaris
23/02/2017 02h03

Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.

Há guerras que nos impedem de amar


Faz um milênio que a gente acredita no extraordinário poder da paixão amorosa. Tristão e Isolda se amavam embora Isolda fosse a esposa prometida ao rei Marco, tio de Tristão (e Tristão fosse um sobrinho leal). Lancelote e Ginebra se amavam embora Lancelote fosse cavaleiro do rei Artur e Ginebra fosse a esposa do mesmo rei.

Qualquer poeta, por amor pela Dama, atropelava as diferenças de classe, os laços de parentesco e as obrigações que o ligassem ao seu senhor. Não mudou muito desde então: o amor justifica qualquer transgressão. O que acontece por amor tem uma legitimidade própria, absoluta.
Mariza/Mariza/ Editoria de Arte/Folhapress
Mariza de 23 de Fev de 2017

Também faz um milênio ou quase que o amor é o grande motor de nossas possíveis transformações. A gente se torna melhor por causa do amor: o sentimento nos modifica, e a esperança de sermos amados nos encoraja a mudar. O amor também nos eleva e nos aproxima de Deus; Beatriz, por exemplo, leva Dante até ao Paraíso. Em suma, de Tristão e Isolda até "O Quinto Elemento", de Luc Besson, o amor é nossa arma secreta.

Claro, muitos resistem à potência do amor. De "Romeu e Julieta" a "West Side Story", sempre há Montecchios e Capuletos que acham inaceitável que o amor entre dois adolescentes se sobreponha a uma antiga rivalidade entre as famílias.

No caso de Romeu e Julieta, o amor custou a vida dos amantes, mas triunfou: foi por causa do amor deles que as duas famílias, debruçadas sobre os corpos inertes dos dois jovens, se reconciliaram.

Lá pelos 11 anos descobri que o amor podia não ser correspondido. Ela se chamava C.B. e preferia alguém mais velho e, sobretudo, que soubesse esquiar. Eu, vergonha, aos 11 anos, ainda não sabia. Perdi C.B., mas passei o verão seguinte em alta montanha, num intensivo de esqui. O amor me transformou (para melhor).

Um ano depois, aos 12 anos, li "O Amor e o Ocidente", de Denis de Rougemont. Concordei em parte com o que entendi: o amor-paixão era sobrevalorizado e, no fundo, incômodo. Só não me convenceu a ideia de que, em vez de se apaixonar perdidamente, fosse melhor ter afetos e amizades cristãs com esposas e companheiras. Cheguei a um compromisso: o amor-paixão era um abismo no qual era melhor não se perder, mas quem sabe, em vez de preferir um casamento cristão, a gente pudesse escolher a liberdade licenciosa dos libertinos? Em suma, menos amor-paixão, nada de amizade ou de amor cristão, mais promiscuidade e mais sexo –essa me parecia a receita ideal.

A vantagem do sexo e da promiscuidade é que, contrariamente ao amor (paixão ou não), eles não exigem que o parceiro ou parceira seja também uma alma gêmea ou coisa que valha. É possível desejar um inimigo e transar com ele; já amar um inimigo é bem mais difícil.

Por exemplo, imaginemos que Montecchios e Capuletos não se odiassem só por alguma velharia insensata, mas tivessem visões do mundo radicalmente opostas. Será mesmo que, para você, Montecchio, seria fácil amar uma Capuleto (e reciprocamente)? Será que o amor tem esse poder?

Você detesta os "petralhas" e foi para a rua pedindo o impeachment de Dilma. Conseguiria amar de paixão alguém que milita para que Lula seja candidato em 2018? Você acha que o país acaba de sofrer um golpe, por aquela corja de políticos da qual ninguém consegue nos livrar. Você conseguiria amar alguém para quem Temer é a esperança?

Isso sem nem contar posições contrárias sobre Lava Jato, Sergio Moro, casamento gay, pagamento de dízimo para uma igreja, aborto"¦ Nos Estados Unidos, não é diferente. Quem, democrata ou liberal urbano, conseguiria amar um "Trump supporter" (e reciprocamente)?

Em 2005, Bruno Barreto filmou "O Casamento de Romeu e Julieta", entre uma palmeirense e um corintiano. Duvido que a polarização política de hoje possa inspirar uma comédia parecida. Há diferenças com as quais talvez não dê para brincar.

Coisa relativamente inédita, encontro casais que se separam por incompatibilidade de ideias sociais. E encontro homens e mulheres para quem um posicionamento político parecido é uma condição do amor –sem isso, nem vale a pena tentar.

Em suma, o amor não triunfa sobre qualquer diferença. Também não é verdade que, se praticássemos o amor, não faríamos a guerra. Ao contrário, há guerras que nos impedem de amar.

Saí de "Aliados", de Robert Zemeckis, que recomendo por isso, com uma pergunta boa para tempos polarizados: será que o amor pode se manter na diferença radical? Qual é, para você, a oposição ideal máxima que o amor pode tolerar? 


23 de fevereiro de 2017 | N° 18776
EDITORIAL

OS DESAFIOS DA RECUPERAÇÃO FISCAL


Em situação de calamidade financeira devido a décadas de irresponsabilidade administrativa, Estados e municípios correm de pires na mão para o governo federal e recebem uma resposta bem mais desafiadora do que um “sim” ou um “não”. A União está disposta a auxiliar os entes federados, mas exige contrapartidas de alto custo político para os atuais governantes e suas bases parlamentares, além de sacrifícios inimagináveis para servidores públicos que se habituaram a ganhos corporativos e à omissão de gestores inconsequentes.

Ainda não se conhecem em detalhes os termos do novo Regime de Recuperação Fiscal que o governo está encaminhando ao Congresso, mas algumas premissas básicas já foram adiantadas por integrantes da equipe econômica, notadamente pelo ministro Henrique Meirelles, da Fazenda. Entre elas estão a privatização de empresas de energia e saneamento, o aumento da contribuição previdenciária de servidores ativos, inativos e pensionistas, a redução de incentivos tributários estaduais, a compatibilização do regime jurídico único dos servidores estaduais com o dos servidores da União e a instituição de regimes de previdência complementar para o funcionalismo.

Alguns Estados já vêm promovendo reformas neste sentido, sempre com dificuldade em obter a aprovação parlamentar e sob protesto dos servidores atingidos, que se valem de todos os meios para não perder vantagens, que consideram conquistas funcionais.

Aos Estados que fizerem o dever de casa, a União se propõe a auxiliar com alívio no pagamento das dívidas, suspendendo-o pelo prazo de vigência do regime, que seria inicialmente de três anos. Também acena com a suspensão das exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal, para que os Estados endividados possam tomar empréstimos.

Tem razão o governo federal ao impor condições e ao exigir a correção de deformações acumuladas ao longo do tempo, abrindo caminho para a modernização e a eficiência da máquina estatal. Ainda que a responsabilidade pelo caos das finanças estaduais deva ser repartida com governantes anteriores, com outros poderes e com o próprio funcionalismo, cabe aos atuais gestores a árdua tarefa de corrigir os rumos de Estados que se tornaram reféns de corporações e não conseguem prestar serviço adequado aos contribuintes que os sustentam.

Editorial diz que cabe aos atuais gestores a árdua tarefa de corrigir os rumos de Estados que se tornaram reféns de corporações e não conseguem prestar serviço adequado aos contribuintes que os sustentam.


23 de fevereiro de 2017 | N° 18776 
NÍLSON SOUZA

Obra inacabada

Uma vez fui até a Ilha do Presídio para fazer uma reportagem com o advogado Índio Vargas, que passou uma temporada naquele local quando foi preso por lutar contra a ditadura. Ele conta isso com detalhes no seu livro Guerra É Guerra – Dizia o Torturador. Perguntei-lhe o que se passa na cabeça de um prisioneiro durante o seu período de privação de liberdade.

– Só uma coisa, o tempo todo – me respondeu. E completou: – Fugir!

Era bem difícil sair de lá, mas um tal Pitinelli conseguiu a proeza, utilizando duas panelas para boiar até as margens do Guaíba. O plano de fuga do Presídio Central, abortado ontem pela Polícia Civil, era bem mais elaborado. Os policiais encontraram uma verdadeira obra de engenharia em andamento, com operários trabalhando, equipamentos sofisticados, iluminação, sistema de ventilação, escoras, tudo planejado para a maior evasão de detentos da história do Estado. Boa parte da população carcerária poderia ter escapado.

Dessa nós é que escapamos. Palmas para a polícia.

Como não poderia deixar de ser, tão logo o episódio foi noticiado, começaram a surgir brincadeiras e memes. Uma das mais divertidas que recolhi ontem numa roda de amigos foi esta:

– Mais uma obra inacabada em Porto Alegre!

Latinices

Na célebre carta do então vice-presidente decorativo Michel Temer à então presidente periclitante Dilma Rousseff, o homem das mesóclises soltou o latim: “Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem). A partir daquele momento, as palavras realmente voaram para todos os lados – duras, acusatórias, ofensivas às vezes, num português que envergonharia a língua-mãe dos romanos, se pudesse ser traduzido: coxinhus, petralhum et caterva...

No final do debate, porém, o inglês se sobrepôs ao latim: impeachment. E cada lado continuou traduzindo a palavra de acordo com sua ótica ideológica. Mas aquilo que foi escrito pelos constituintes de 1988 acabou prevalecendo e permanecendo: saiu a presidente, assumiu o vice. Com as promessas de sempre e a garantia de que a Operação Lava-Jato, por ter-se tornado uma referência para o país, não sofreria qualquer interferência e teria proteção contra todas as tentativas de enfraquecê-la. 

Pois agora que integrantes do próprio governo e seus aliados fazem de tudo para boicotar a investigação, seria bom que o presidente prestasse atenção no latinório utilizado por seu amigo Carlos Velloso na nota em que recusou o Ministério da Justiça: “Pacta sunt servanda” (O contrato é a lei entre os contratantes).

Ou, no jargão do fio de bigode que os políticos modernos mandaram para as calendas gregas, promessa é dívida. Era, uma vez.



23 de fevereiro de 2017 | N° 18776
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Qorpo Santo

DE TROIA A PORTO ALEGRE, como o fogo de São Telmo pode ter virado o nome de um dramaturgo gaúcho

Fique sabendo, amável leitor, que as linhas que você está lendo foram escritas diretamente de Esparta, no Peloponeso. Para os padrões gregos, é uma cidade muito recente, de arquitetura inexpressiva, anódina, semelhante a muitas cidades brasileiras; da antiga Esparta, pouca coisa restou além de restos de antigos muros. Uma verdadeira tapera, diria o Blau Nunes dos Contos Gauchescos...

O que nos trouxe aqui fica um pouco mais além, nos arredores da cidade: o Meneláion, uma elevação pouco conhecida dos turistas, no topo da qual teria sido sepultado o rei Menelau, um dos vencedores da guerra de Troia. Lá em cima não existe templo nem monumento algum, e é muito provável, até, que a existência do túmulo real não passe de uma crendice popular. O que nos leva a trilhar o longo (e belo) caminho entre oliveiras que vai até o topo é a visão magnífica do vale do Rio Eurotas, cujo verde contrasta, neste mês de fevereiro, com um fundo impressionante de altas montanhas nevadas.

Foi nas margens desse rio que Zeus, o senhor do Olimpo, assumiu a forma de um cisne para seduzir Leda, a jovem rainha de Esparta. Essa relação foi muito importante para a mitologia clássica, pois dela nasceram Clitemnestra, Helena (a mulher mais bonita do mundo) e Cástor e Pólux, os dois gêmeos guerreiros, que se tornaram as divindades preferidas dos espartanos e, curiosamente, os protetores dos marinheiros e pescadores em perigo. A eles eram atribuídas aquelas pequenas chamas que podem aparecer nas extremidades dos mastros e das vergas dos navios, quando o tempo se arma para tempestade,

Para a Ciência, estas luzes não passam de um produto da eletricidade da atmosfera; para os antigos, porém, eram um sinal de que os dois irmãos tinham vindo ajudar o navio a alcançar um porto seguro. Com a derrocada do mundo clássico e a chegada do cristianismo, Cástor e Pólux perderam seu lugar para um santo italiano, São Telmo, padroeiro dos marujos do Mediterrâneo – e daí adveio a denominação mais comum para o fenômeno: fogo de São Telmo ou, mais simplesmente, santelmo.

Camões o descreve sem chamá-lo pelo nome: “Vi, claramente visto, o lume vivo/ Que a marítima gente tem por santo”; outros escritores do Renascimento português, porém, inauguram uma outra denominação. Nuno Crato, num interessante artigo sobre a descrição do fogo de São Telmo nas narrativas portuguesas no século das navegações, cita a obra de João de Castro, que, no seu Roteiro de Lisboa a Goa, escreveu “Esta aparência a que chamam Corpo Santo era uma claridade tamanha como a que costuma fazer uma candeia ou vela”. O vocábulo entrou no Inglês como corposant, que o Oxford Dictionary dá como um sinônimo de santelmo.

Pois aqui na província tivemos um tresloucado dramaturgo que escolheu Corpo Santo como seu nom de plume (ou Qorpo Santo, se escrito na ortografia delirante que ele próprio inventou). Ele explica este nome como uma referência ao tempo “em que vivi completamente separado do mundo das mulheres”, mas não podemos afastar a possibilidade de haver, consciente ou não, uma ligação com os corpos-santos, essas luzes fantasmagóricas, inquietas e velozes que não param muito tempo no mesmo lugar, como descreveu o mesmo João de Castro: “Primeiramente o vimos na ponta do mastaréu da gávea, e depois no lais da verga, e depois na ponta do mastro da mesma e depois na enxárcia”. Fica a sugestão.

Cláudio Moreno, escritor e professor, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.