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sexta-feira, dezembro 09, 2016


FERNANDA PERRIN DE SÃO PAULO
09/12/2016 10h57

Cédula do Brasil Império chega a custar R$ 20 mil entre colecionadores
Congresso Brasileiro de Numismática

Gastar dinheiro para colecionar dinheiro. O paradoxo não impede que o mercado de cédulas e moedas movimente bilhões por ano no mundo —inclusive no Brasil.

Uma cédula de 200 mil réis de 1889, época do Brasil Império, chega a valer R$ 20 mil no Congresso Brasileiro de Numismática, evento que reúne os aficionados pelo tema realizado em São Paulo entre os dias 8 e 10 de dezembro.

Saudosos das notas verdes de R$ 1, que deixaram de ser produzidas em 2005, podem comprar um pacote de cem unidades por R$ 450. Quem preferir metal pode optar por uma moeda de ouro de R$ 5.000 (uma pechincha, segundo participantes da feira).

Os vendedores aceitam cartão.

Nem tudo é tão caro, porém. Por R$ 45, por exemplo, pode-se comprar um conjunto de três moedas comemorativas produzidas pela extinta União Soviética.

Outro item curioso é uma medalha de prata produzida pelo governo de Benin que retrata uma folha de maconha, vendida por R$ 330. Nem o encarte que acompanha o produto nem seu vendedor, contudo, souberam explicar o porquê da escolha pela planta.

No total, mais de 400 mil itens, entre cédulas, moedas e medalhas, devem circular durante o evento, segundo a Sociedade Brasileira de Numismática, que organiza o encontro. A entidade não revela exatamente quanto tudo isso vale, mas está na casa "dos milhões e milhões", afirma Alexandre Barbosa, 49, um dos diretores.

O receio de falar em cifras pode parecer irônico para o ramo, mas é justificado pelo medo de furtos e roubos. Diversos seguranças circulam pelo evento, atentos a qualquer movimentação estranha –como no caso da repórter que, até ser identificada como tal, despertou suspeitas ao perguntar o que havia de mais valioso ali.

Ninguém respondeu a essa dúvida, mas todos sabiam apontar na lata o objeto mais almejado na numismática brasileira: a moeda comemorativa da coroação de D. Pedro I como imperador do Brasil, em 1822. Em ouro, ela foi a primeira a ser cunhada no período independente.

Curiosamente (ou naturalmente), a moeda foi feita às pressas e, em vez de mostrar uma coroa imperial acima do busto do novo mandatário, mostra uma coroa real. Foram produzidas apenas 64 unidades. Em 2014, uma delas foi arrematada na casa de leilões Heritage por US$ 499.375 –o equivalente a quase R$ 2 milhões atualmente.

Não há nenhum exemplar dela no evento, dizem.

Além do espaço para compra e venda, o congresso também conta com palestras, cujos temas vão das formas inovadoras de gerenciar coleções à "revisão numismática e bibliográfica das interações entre Potosí e a numismática brasileira".
Serviço

20º Congresso Brasileiro de Numismática
Local: Novotel Jaraguá (rua Martins Fontes, 71, Centro, São Paulo)
Data: de 8 a 10 de dezembro
Horário: das 9h às 17h
Entrada: grátis 

Jaime Cimenti

Viagem ao Rio de Janeiro


Com velhos meninos amigos de infância, chego no Santos Dumont e, depois de alguns passos, já estamos no interior do moderno Veículo Leve Sobre Trilhos, o VLT, com destino a um hotel no Centro, na rua Senador Dantas, perto da Cinelândia e do Passeio. Edifícios modernos, jardins, praças, edifícios centenários e lembranças novas e velhas, tudo misturado, vão surgindo. Antigos aviões, antigas viagens com pai e mãe, anos 1950, 1960, anos dourados, depois chumbados...

Mala no hotel, caminhada até o restaurante Cosmopolita, na Lapa, para traçar o Filé à Oswaldo Aranha, criado pelo próprio. Centro, Porto, Lapa - o que até pouco tempo era uma área degradada agora se tornou um dos passeios mais agradáveis do Rio. 

Depois do almoço, exercício leve na Escadaria Selarón, passeio na Cinelândia, Biblioteca Nacional, Theatro Municipal, Real Gabinete Português de Leitura, entre outras obras de restauração, que mostram a cara nova do velho Centro.

Na área portuária o Museu do Amanhã, obra do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, lembra um dragão branco ou um gigantesco esqueleto de peixe. Em 34 mil metros de área, o visitante irá refletir sobre o futuro a partir do que a gente andou fazendo com o meio ambiente. 

Quem somos, de onde viemos, onde estamos, para onde vamos, como queremos ir e outras perguntinhas estão no segundo andar, com inspirações para respostas. Mas, no Museu do Amanhã, está dito que não há respostas definitivas, que o mistério global e humano é infinito. Tipo assim física quântica... tudo a ver com tudo, relações variadas entre os seres, a terra, as galáxias e os mundos conhecidos e desconhecidos. 

Vá fundo ou fique na superfície, como queira, você decide, ou deixe que o acaso decida por você.
No Teatro Riachuelo, completamente remodelado na rua do Passeio, assisto ao musical Divas, com Luiza Possi e grande elenco. Canto, dança, texto, gosto de Broadway. O velho teatro foi reaberto, e hoje é o mais bem equipado do Brasil, mais uma das tantas notícias boas do Centro.

No Centro, ali perto do prédio da Petrobras - pequeno em relação ao rombo -, dá para pegar o simpático bondinho repaginado, que vai até o topo de Santa Teresa. Vista imperdível. Imperdível visita ao Museu Chácara do Céu e Centro Cultural Parque das Ruínas. Comida e bebida no Bar do Mineiro, no Aprazível, Cafecito e muitos outros. Artesanato, casario, ladeiras, ritmo lento tipo Bahia do século XIX... Santa Teresa não tem a mínima pressa.

Na Lapa de noite, os bares, os chopes, os sambas, os outros ritmos, as baladas, os petiscos, as comidas de boteco. Rio Scenarium, Carioca da Gema, Clube dos Democráticos, Circo Voador e dezenas de outros. Para os que estão com grana curta, comida de rua ali nos Arcos, onde estão dezenas de barracas, quiosques e assemelhados, na maior democracia popular gastronômica.
a propósito...

Como em todas as grandes cidades, no Centro do Rio, Lapa e adjacências, há mendigos, meliantes, drogados e outras pessoas que nos colocam em estado de alerta. Normal, infelizmente, normal. É ter cuidado, como em quase todos os lugares do planeta. Não é por isso que vamos deixar de visitar a praça XV, a praça Mauá, a Lapa e a zona portuária, que agora, ocupadas, reformadas e revitalizadas, convidam para curtir nossos museus do passado, presente e futuro. A Confeitaria Colombo, o Bar Luiz, a Casa do Choro e dezenas de outros locais lendários pedem visitas neste centro de roupa nova e banho tomado. Apareça! 

Jaime Cimenti
Romances brasileiros essenciais em destaque

Trinta Romances Brasileiros (BesouroBox, 576 páginas), do consagrado jornalista, economista e professor aposentado de Literatura Brasileira da Ufrgs J.H. Dacanal apresenta, a partir de uma perspectiva histórico-social e literária, títulos fundamentais da narrativa brasileira dos séculos XIX e XX.

Dacanal, formado em Letras Clássicas e em Ciências Econômicas, é jornalista e professor desde 1965. Em mais de meio século, produziu centenas de artigos e ensaios e publicou cerca de três dezenas de obras, entre as quais se destacam os clássicos Para ler o Ocidente, Jesus e as origens do Ocidente, Riobaldo e eu, Marx enganou Jesus e ... Lula enganou os dois. Dacanal também é autor do Manual de pontuação e, por seus amplos conhecimentos de literatura, história, economia e cultura do ocidente, tem sido apontado como um dos intelectuais mais destacados de sua geração.

O livro Trinta Romances Brasileiros trata das seguintes obras: A moreninha; Iracema; Senhora; Lucíola; O garimpeiro; O seminarista; Quincas Borba; Dom Casmurro; O alienista; O cortiço; O ateneu; A normalista; Bom-Crioulo; Luzia-Homem; Dona Guidinha do Poço; Triste fim de Policarpo Quaresma; Macunaíma; Amar, verbo intransitivo; Memórias sentimentais de João Miramar; São Bernardo; Vidas secas; Capitães da areia; Terras do sem fim; Fogo morto; Os ratos; Estrada nova; O Continente; Grande sertão: Veredas; O Coronel e o Lobisomem e Sargento Getúlio.

Os títulos, por si só, demonstram o amplo painel coberto pelas 30 obras essenciais de nossa literatura que o professor Dacanal analisou. Ao mesmo tempo, com toques didáticos e com profundidade, o autor apresenta o contexto histórico dos romances, o resumo das narrativas, o perfil psicológico dos personagens principais, comentários críticos e sugestões para debates e trabalhos em sala de aula.

Muito embora a obra, em princípio, se destine mais especialmente a estudantes e professores dos ensinos Médio e Superior, ela também interessa a todos os leitores que buscam a análise dos clássicos de nossa literatura e, sem dúvida, proporciona uma visão de conjunto do romance no Brasil. Desde o Romantismo, com A Moreninha, até a nova narrativa épica, com Grande Sertão: Veredas e Sargento Getúlio, passando por clássicos do romance de 30, como O Continente, o trabalho de fôlego de Dacanal nasce referencial.

Na página inicial do livro, em mensagem ao leitor, Dacanal informa que a obra deve ser vista como um guia de leitura e que foi produzida ao longo de 30 anos de magistério, a partir de injunções burocráticas e pedagógicas. Não houve adoção de critério de valor ou aplicação de normas impositivas. Dacanal espera contribuir para a análise e a compreensão dos romances, e isso certamente acontecerá.

lançamentos

Holocausto - Das origens do povo judeu ao genocídio nazista (AGE Editora, 96 páginas), do professor, escritor e palestrante Voltaire Schilling, fala das origens milenares judaicas, de judeus e cristãos na Idade Média, do Iluminismo e Revolução de 1789, do holocausto e das origens do moderno antissemitismo.

Mulheres negras e o SUS (Maria Mulher - Organização de Mulheres Negras, 100 páginas), obra coordenada por Sandra Maciel, apresenta textos da coordenadora e outras autoras sobre mulheres negras, determinantes sociais e SUS. As mulheres negras brasileiras lutam pela manutenção e ampliação dos serviços de saúde.

Guaíba - A cidade do sol nascente (Libretos, 200 páginas), com textos de Rafael Guimaraens, curadoria de Valmir Michelon e fotografia de Guaíba Foto Clube, comemora os 90 anos da emancipação de Guaíba, cidade que preserva a história e conserva a riqueza de seu meio ambiente.


09 de dezembro de 2016 | N° 18710 
CLÁUDIA LAITANO

Atravessando o tango

Cresci vendo Hitchcock como um velhinho bonachão que gostava de aparecer de relance no começo dos filmes que dirigia. Adulta, tive uma epifania estética assistindo pela primeira vez no cinema a Um corpo que cai (1958) – filme que recentemente desbancou Cidadão Kane (1941) no topo do ranking das obras-primas mais amadas pelos críticos. Há algum tempo, veio à tona o fato de que Hitchcock, além de gênio, era cafajeste. 

Não apenas dava em cima das atrizes como perseguia as que não lhe davam assunto. Fui obrigada a rever minha fantasia a respeito do velhinho bonachão, mas não o que sinto e penso com relação aos seus filmes. Que a história julgue os homens, que o mérito defina o destino da arte.

Corta para 2016. Uma frase de Bernardo Bertolucci colocou em chamas a internet nos últimos dias. Em uma entrevista antiga que voltou a circular, o diretor italiano admite que se sente culpado pela forma como tratou Maria Schneider (1952-2011) durante as filmagens de Último tango em Paris (1972), principalmente por não ter combinado com a jovem atriz todos os detalhes da famosa “cena da manteiga”.

Uma declaração a respeito de uma sequência testemunhada por toda a equipe de filmagem (alguns ainda vivos e atuantes) foi interpretada equivocadamente como uma confissão pública de violência sexual. A própria atriz costumava referir-se ao episódio em outros termos que não estupro ou abuso sexual – e sempre no campo profissional, como algo desconfortável imposto à personagem, e não a ela. Em resumo: um diretor idiossincrático, mas que agiu às claras, foi confundido com um diretor canalha, como Hitchcock, que tirava proveito da própria posição para coagir e impor-se sexualmente.

Se vamos debater gênios abusivos, como parece ser o caso de Bertolucci, sentem, que a conversa é longa. No cinema, no teatro, na música, na pintura, na literatura são muitos os exemplos de criadores que, em nome da arte, cometeram atos moralmente condenáveis ou discutíveis, seja empregando violência psicológica e/ou física para alcançar determinado efeito, seja usando episódios da vida alheia como matéria de inspiração. O sofrimento de uma pessoa vale uma obra-prima? Eis uma questão tão boa, que vem sendo discutida desde os tempos das pirâmides.

O que assusta, no caso Bertolucci, não é que algumas pessoas acreditem que o diretor passou dos limites, mas que o tribunal da internet tenha julgado seu comportamento a partir de informações incompletas ou falsas, apimentadas por títulos chamativos e ampliadas em escala global sem a devida preocupação com o esclarecimento dos fatos.

Se um episódio testemunhado por várias pessoas gera esse tipo de ruído, é de se imaginar quantas opiniões assentadas em terreno movediço têm embasado as mais ardentes convicções com relação a temas que impactam bem mais diretamente as nossas vidas.



09 de dezembro de 2016 | N° 18710 
DAVID COIMBRA

Não acredito mais

Você sabe aquele primeiro sucesso do Tom Hanks, Quero ser grande? Ele interpreta um menino de 12 anos de idade que deseja tornar-se adulto instantaneamente e, por um encantamento qualquer, consegue. Entra em um corpo de homem, mas, na alma, ainda é criança.

É um bonito filme sobre a inocência perdida.

Eu, adulto, não sinto vontade de outra vez ser criança, mas de voltar ao passado e ver a criança que fui. E, como Tom Hanks, consegui. Hoje, ao olhar para o meu filho, me vejo quando pequeno. Não são poucas as vezes em que ele faz coisas que eu fazia, e das quais já havia até me esquecido.

Esse é o fascínio de o homem ter filho homem. É de ver-se nele.

Dia desses, olhando para o meu filho, percebi algo que eu tinha: a crença na justiça do mundo.

A família, a escola e até os filmes e a literatura se consorciam na construção desse sentimento vital para o funcionamento da civilização. Você acredita que o bem será recompensado e o mal será punido. Por quem?

Os egípcios foram os primeiros a crer que um deus exerceria essa função. Mais especificamente, uma deusa. Maat era a deusa da justiça. Ela adornava os cabelos com uma pena. Quando um humano morria, apresentava-se diante dela. Maat puxava a pena da cabeça e a deitava no prato de uma balança. No outro prato seria depositado o coração do falecido. Se o coração, intumescido de pecados, fosse mais pesado do que a pluma, a alma do morto era devorada por um demônio.

O seu coração é mais leve do que a pluma, leitor?

Em outras civilizações, mesmo adiantadas, como a grega, a religião não tinha essa função moral. Você não precisava ser bom para agradar ao deus. Bastava dedicar-lhe, em sacrifício, um bicho sem sorte. Ou cem deles, como no caso da hecatombe, que era o abate de cem bois. Em casos realmente graves, como nas guerras, os deuses reivindicavam o sangue de alguma criança ou de uma virgem. Os deuses sempre gostaram de sangue de virgem.

O judaísmo incorporou a crença do julgamento dos mortos de Maat e, mais, transformou-a em centro da religião. A partir de Moisés, Jeová começou a punir os maus e a premiar os bons, inclusive durante a vida. Já o cristianismo e o islamismo, que são filhos do judaísmo, preferem premiar depois da morte.

Mas, no Ocidente, a religião perdeu um tanto da sua primazia. Depois do Renascimento, Deus teve de compartilhar a fé dos homens com entidades mundanas. Ela pode se voltar para os critérios de um rei justo, de um ditador iluminado ou de um populista pai dos pobres. Também há a crença nos sistemas: o socialismo, o comunismo, a democracia e até o mercado. Num misto de espiritualidade e racionalidade, o homem pode acreditar nas forças holísticas da natureza. E, chegando ao osso completamente descarnado do ateísmo e do materialismo estrito, o homem ainda pode acreditar na filosofia. Ou seja: na suposta ordem moral intrínseca ao ser humano.

Tanto faz. O importante é o homem acreditar em algo.

O meu filho, hoje, é como eu era com sua idade. Ele acredita que o que é certo vai vencer.

Eu acreditava nisso, até ver que desgraças acontecem com pessoas boas, que muitas vezes o Mal vence e que, não raro, coisas ruins ocorrem sem nenhum motivo.

No entanto, não me tornei um descrente absoluto. Ainda cevo certas crenças. Ou cevava. Perdi algumas que me eram importantes. Amanhã conto quais.



09 de dezembro de 2016 | N° 18710 
NÍLSON SOUZA

A VOZ DAS RUAS

E se as ruas de Porto Alegre realmente falassem?

Penso nisso cada vez que ocorre uma dessas manifestações políticas em que as pessoas pisam distraídas sobre o asfalto e as pedras que homenageiam celebridades históricas, locais ou universais, sem se darem conta de que aqueles personagens referidos nas plaquinhas já tiveram os seus dias de protagonismo.

– Ouçam a voz das ruas! – recomendam os comentaristas políticos aos próprios, depois de cada manifestação.

Referem-se, evidentemente, aos cânticos e palavras de ordem dos manifestantes. Mas as ruas também falam. Basta uma consulta aos locais preferidos pelos porto-alegrenses para os seus protestos e teremos lições antológicas.

A Goethe, por exemplo. Vejam que atual, adequada e irônica esta frase deixada pelo escritor e estadista alemão que lhe deu o nome, Johann Wolfgang von Goethe:

– As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam ideias.

Se pularmos do verde e amarelo do Moinhos de Vento para o vermelho da Lima e Silva, com seus bares e brechós, veremos que Luís Manuel de Lima e Silva, tio do Duque de Caxias, não deixou grandes frases para a história, mas deixou o exemplo da disciplina militar e da firmeza de princípios. “Os Lima e Silva combatem a hidra da anarquia”, afirmou uma das biógrafas da família. Já o Duque, Luís Alves de Lima e Silva, legou-nos uma célebre mensagem de patriotismo:

– Sigam-me os que forem brasileiros!

Seguimos, então, pela João Pessoa, que é um dos caminhos preferidos das marchas “anti” qualquer coisa. João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, paraibano assassinado em Recife, deixou na bandeira de seu Estado uma palavra de sua campanha política que contempla bem o espírito de contrariedade dos manifestantes:

– Nego! Ele negava o candidato oficial do governo federal à Presidência da República.

Negando tudo isso que está aí, seguimos em frente. Ao dobrarmos na Sarmento Leite, poderemos ouvir uma sarcástica dica do médico e político republicano Eduardo Sarmento Leite, que talvez dê sentido às manifestações quase diárias nas ruas da Capital:

– Pobre só vai para a frente empurrado.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Sites para aprender inglês online grátis do zero

  • São Paulo
  • Idiomas
Ter inglês fluente, ou pelo menos intermediário, é essencial para alcançar um bom lugar no mercado de trabalho. Saiba já onde aprender inglês online grátis.
Sites para aprender inglês online grátis do zero
Melhore seu currículo com aulas gratuitas e fóruns online
Ter inglês no currículo é uma obrigação do profissional que busca lugar no mercado de trabalho. Por diversas razões, que vão desde a falta de interesse até a dificuldade de acesso, muitos estagnam no nível básico e ficam para trás. Para ajudar quem não tem condições de pagar por um curso, selecionamos 8 sites para aprender inglês online grátis. Ainda dá tempo de começar 2017 com um novo idioma na ponta da língua!

OITO MEIOS DE APRENDER INGLÊS ONLINE GRÁTIS

Visando facilitar o aprendizado por aqueles que têm pouco ou nenhum conhecimento do idioma, demos preferência aos sites para aprender inglês online grátis focados no aprendizado com vídeos-aula, fóruns com outros estudantes, professores disponíveis e exercícios de gramática. Portais que disponibilizam o material, mas não disponibilizam meios para tirar dúvidas e praticar não entraram na lista.
  • Básico
Bom Inglês: o site, em português, oferece um curso para iniciantes com duração de dez semanas para familiarizar o aluno com as ferramentas básicas do inglês. As aulas incluem arquivos em áudio e exercícios de gramática, e caso o aluno tenha dúvidas pode entrar em contato com a comunidade virtual do site.
Ao fim do curso ele deve ser capaz de entender e usar expressões do dia a dia, apresentar-se, elaborar e responder perguntas básicas, usar o verbo to be e interagir de maneira básica. O site também oferece arquivos de áudio, ensino de gírias comumente usadas e explica a diferença entre termos semelhantes. 
Inglês curso: desenvolvido por um brasileiro que encontrou dificuldades em aprender inglês online grátis quando foi morar nos Estados Unidos, o site conta com quatro professores e mais alguns voluntários para dar suporte aos alunos que têm duvidas quanto ao idioma.
O curso para nível básico conta com exercícios, áudios e vídeos e oferece um professor para acompanhamento semanal, além de emitir certificado gratuito. No site também é possível testar o nível de inglês, praticar e estudar inglês para negócios, viagem ou vestibular.
Eingles: apesar da interface confusa e desorganizada o conteúdo do site é excelente para quem não tem nenhum conhecimento do idioma e deseja aprender inglês online grátis. As primeiras lições consistem em aprendizado do alfabeto, cores, animais e números, e depois o usuário pode passar para a conversação online e baixar o curso de inglês básico com dez lições.
Além do curso básico existem outras opções de download, como o guia de sobrevivência para conversa e o ensino de inglês técnico. É possível enviar comentários com dúvidas para ser auxiliado por outros usuários.
BBC Learning English
  • Cursos em inglês
BBC Learning English: desde 1943 o programa, que faz parte do BBC World Service, oferece vídeos, áudios e materiais em texto para alunos ao redor de todo o mundo. O site é tido como um dos melhores para aprender inglês online grátis, e além dos materiais oferece aulas específicas,  como sobre como falar sobre seus sentimentos, formas de usar o mesmo verbo e pronunciação.
A desvantagem do site é que não há professores e voluntários disponíveis para tirar dívidas individuais. O site entrou na lista por ser um dos mais conceituadas, mas o ideal é que seja usado por quem já tem uma noção do inglês e deseja se aperfeiçoar.
Learn English Online: o site é focado no ensino de idiomas e possui mais de 50 lições de nível básico divididas em 11 unidades. Apesar do site estar em inglês é possível entender as lições e começar com o alfabeto e números. Todas as atividades são ordenadas de forma fácil para pesquisa.
O site também dispõe de FAQ, chat, vocabulário e exercícios de escrita, leitura e pronunciação.
  • Diversão
Duolingo: um dos sites mais populares para aprender inglês online grátis, disponível também como aplicativo, funciona como um jogo onde o aluno ganha pontos conforme evolui e perde caso erre as lições. Se perder todos os pontos é preciso reiniciar a atividade até corrigir.
O site oferece FAQ, corrige a pronuncia, escrita e tradução, e recentemente disponibilizou uma plataforma para ensino nas escolas de forma divertida. Antes de começar o aluno faz um teste para saber qual o seu nível de fluência e as atividades seguem o critério de básico, intermediário e avançado.
Ba Ba Dum: quem acha os formatos tradicionais muito chatos vai curtir a novidade oferecida pelo Ba Ba Dum. O ensino é feito através de um game, onde o usuário ganha pontos conforme acerta e perde conforme erra. É uma ótima forma de treinar vocabulário, escrita e audição, principalmente para crianças e adolescentes.
My Online Reading: voltado para crianças, o site oferece livros infantis em inglês de leitura fácil. Como a linguagem é simples adultos também podem aproveitar para treinar a leitura e enriquecer o vocabulário. O ideal, porém, é ter conhecimento básico, já que o site está todo no outro idioma.

UNIVERSIDADES DISPONIBILIZAM CURSOS ONLINE

Quem já estiver com o inglês afiado pode fazer um curso mais avançado oferecido por instituições de ensino.
A universidade chinesa TsinghuaX oferece o curso “Conversational English Skills” com aulas para quem deseja expandir o vocabulário e melhorar a pronuncia, divididas em oito semanas. São palavras e expressões-chave e conhecimento sobre a cultura americana e britânica.
Já o curso "Grammar and Punctuation" da Universidade da Califórnia é o primeiro de uma série de cinco cursos de inglês disponibilizados no site. São vídeos-aula que ajudam a rever a gramática e conceitos da língua inglesa e permitem praticar e discutir o que é visto nas aulas. São cinco horas por semana e o curso tem duração de quatro semanas.

08 de dezembro de 2016 | N° 18709
EDITORIAIS

O RECADO DOS VOTOS VENCIDOS


Ao confirmar apenas parcialmente a liminar do ministro Marco Aurélio Mello que afastava o senador Renan Calheiros do comando do Senado, o Supremo Tribunal Federal, em reunião colegiada, decidiu retirar-lhe a prerrogativa de integrar a linha sucessória da Presidência da República devido à sua condição de réu em ação penal na Suprema Corte. 

A solução salomônica, adotada por uma maioria de seis votos a três, tem dois efeitos colaterais emblemáticos para o país: atenua o conflito Judiciário/Legislativo e tranquiliza o Executivo no sentido de continuar contando com um aliado em posto-chave para o andamento célere dos projetos que tramitam no Congresso. Se Renan Calheiros fosse afastado da presidência da Câmara Alta, assumiria seu lugar o petista Jorge Viana, opositor do governo Temer.

Mesmo com esses aspectos inegavelmente positivos, a resposta do Supremo foi demasiado branda para a verdadeira afronta perpetrada pelo senador peemedebista, que se recusou até mesmo a receber o oficial de Justiça com a notificação do seu afastamento, como se estivesse acima da lei. Num estado democrático de direito, decisões judiciais têm que ser cumpridas, sem exceção. 

A posição desafiadora do parlamentar, referendada pela mesa diretora do Senado, mostra que lideranças políticas importantes do país ainda não perceberam para que lado sopra o vento da opinião pública, inquestionavelmente contrário a práticas como a que levou o senador alagoano à condição de réu numa ação penal e de investigado em vários inquéritos.

Nesse sentido, embora os votos vencedores tenham sido bem sustentados juridicamente, foram os votos vencidos do próprio relator e dos outros dois ministros que o acompanharam – Edson Fachin e Rosa Weber – que melhor contemplaram as expectativas dos brasileiros que foram às ruas no último domingo para exigir honestidade e transparência de políticos e homens públicos. Resta como consolo saber que Renan Calheiros ficará na presidência do Senado apenas até o dia 1º de fevereiro, quando termina seu mandato no cargo.

08 de dezembro de 2016 | N° 18709
ARTIGO - EDUARDO CHEMALE SELISTRE PEÑA*

JANELAS QUEBRADAS

O êxito de Nova York no combate à criminalidade que a assolou por décadas é conhecido.

A luta contra o crime, por lá, teve como pano de fundo a adoção de uma tese elaborada no meio acadêmico com base em experimentos de psicologia social. Em 1969, o professor Zimbardo, de Stanford, propôs um teste para melhor compreender o comportamento social: abandonou carros idênticos em ruas de distintas regiões dos EUA. Um foi deixado no Bronx, bairro de Nova York, à época, caótico; o outro na civilizada Palo Alto, na Califórnia.

Como previsto, o carro deixado no Bronx, em horas, passou a ser saqueado. Dias depois, tudo o que tinha valor havia sido levado. O automóvel de Palo Alto manteve-se intacto.

Zimbardo, então, inseriu ingrediente extra: quebrou o vidro do carro estacionado em Palo Alto. Sem demora, o automóvel, à semelhança do ocorrido com aquele do Bronx, passou a ser furtado.

Com base nesse experimento, anos depois Wilson e Kelling desenvolveram a Teoria das Janelas Quebradas, segundo a qual os delitos serão tanto mais volumosos quanto maior for a desordem, a sujeira e o abandono. Se a janela de um prédio é quebrada e não é prontamente reparada, a tendência é de que em breve as demais também o sejam e dissemine-se o vandalismo. 

Um vidro quebrado transmite ideia de deterioração e desinteresse. Faz presumir a ausência da lei. Cada novo ataque depredador reafirma esse juízo e estimula outros piores, desencadeando incontrolável violência. Se pequenos delitos não são coibidos, outros maiores são encorajados.

A virada de Nova York teve por base a aplicação desta teoria e iniciou-se nos anos 80, pelo metrô. Pequenos delitos, antes tolerados, passaram a ser reprimidos. A fiscalização intensificou-se e passou-se a zelar pela limpeza e ordem. Em pouco tempo, o perigoso metrô tornou-se seguro.

Posteriormente, sob o comando do prefeito Giuliani, logrou-se a guinada definitiva replicando-se o modelo ensaiado no metrô em toda a cidade. Os resultados foram excelentes e constatados pelos frequentadores da cidade.

Inevitável circular pela esburacada Porto Alegre, passar por obras inacabadas, vivenciar a violência, sem recordar o exemplo nova-iorquino.

Decerto não se pode atribuir o sucesso da metrópole americana exclusivamente à adoção da referida teoria, mas convém que os governantes não desprezem a experiência e tenham presente que nem sempre é preciso soluções inéditas para problemas usuais.

*Advogado e diretor da ACPA


08 de dezembro de 2016 | N° 18709 
DAVID COIMBRA

Renato sabe muito

Renato é o novo Foguinho. Campeão como jogador, campeão como técnico, apaixonado pelo clube, amado pela torcida.

Renato, como jogador, era um destemido, um arrojado. Como Foguinho. Técnico, é um homem sério, cauteloso, sereno e sensato. Como Foguinho.

Foi com seriedade, cautela, serenidade e sensatez que Renato ganhou o pentacampeonato da Copa do Brasil, ontem à noite.

E com inteligência, inclusive pretérita, ao recuperar Ramiro, ao fixar Kannemann como parceiro perfeito de Geromel, ao recuar Douglas, ao fazer o time jogar com mais agudeza.

Ramiro correu tanto, dedicou-se tanto, lutou tanto, que saiu quase sem ar, no fim do segundo tempo. Wallace, um buldogue na frente da área, não deixou os meios-campistas do Atlético sequer piscarem. Douglas, mais uma vez, mostrou que é o único 10 do futebol brasileiro. E Geromel e Kannemann se dão tão bem, que deviam morar juntos.

Todos unidos em torno de Renato.

Com Renato, o Grêmio está sempre perto da glória.

Renan manda muito

Tempos atrás, Renan Calheiros avisou que não se submeteria a um “juizeco de primeira instância”. Os juízes da mais alta instância do Brasil, ministros do Supremo, com todo o seu latinório e cãs venerandas, reagiram de dedo em riste. A presidente do STF, Carmen Lúcia, chegou a advertir que quem mexia com um juiz, mexia com ela também.

Hitler já dizia: palavras o vento leva, papéis o fogo queima.

Tudo não passava de bazófia.

Porque, na hora em que eles tiveram de enfrentar Renan cara a cara, olho no olho, no que Renan os transformou? Em juizecos de última instância, talvez?

Não, eu não diria isso. Se dissesse isso, é possível que algum juiz me punisse. Ou será que não?

Não terá Renan criado um padrão? Ele não cumpriu a ordem de um ministro da mais alta corte do país. Disse que não cumpriria, e não cumpriu. No dia seguinte, não foi penalizado pela desobediência; foi premiado: continua sobranceiro no cargo.

Cunha, que era tão réu quanto ele, primeiro foi afastado da presidência da Câmara, depois teve o mandato cassado e, por fim, jogaram-no na cadeia. Hoje, faz suas necessidades diárias em um boi cavado no chão de uma cela da Polícia Federal. As pessoas o odeiam. “Fora, Cunha!”, gritavam nas ruas. Não passa de um pobre coitado.

Cunha deve estar pensando aquilo que eu, você e todos os brasileiros pensamos. O seguinte: se Renan pode descumprir a ordem de um juiz do STF, por que Cunha, eu, você, o traficante da Vila Cruzeiro, o empresário, o funcionário público, a prostituta e o delegado, por que nós temos de obedecer?

Se um juiz o convocar para seja lá o que for, por que você não pode alegar algo procedente como:

– Não vai dar, vou ter que passear com meu cachorro.

Ou: – Não vai dar, tenho hora marcada no dentista. Ou: – Não vai dar, porque não quero.

Por que não?

A Justiça tem de ser igual para todos. Deixem a mulher do Cabral com as joias que ganhou, deixem o Lula com o sítio dele, deixem o Cunha jantar em Paris. Renan disse. Renan liberou. O grito geral da nação é aquele que, na verdade, sempre foi: ninguém é de ninguém!



08 de dezembro de 2016 | N° 18709 
VERISSIMO

Assovio


Gente, um homem passou por mim assoviando. Cheguei a me virar para vê-lo passar. Lá ia ele, mãos nos bolsos – assoviando! Deve ser um turista, pensei. Isso, um turista. Alguém que está aqui de passagem. Mas não, o homem não parecia ser estrangeiro. Era um brasileiro. Incrível, um brasileiro despreocupado. Um brasileiro assoviando.

Quase gritei “Pare de assoviar!” Aquilo era quase um acinte, um desrespeito à gravidade da situação. Ele não sabia da crise política, econômica, ética, moral e cívica que o país atravessava? Não tinham lhe contado do PIB, dos preços, do desemprego, do Gilmar Mendes? Ele não se dava conta do que estava acontecendo? Ele via mais alguém assoviando como ele?

Pensei em reprimi-lo por estar caminhado daquele jeito, mãos nos bolsos e assoviando. A República prestes a ruir, as instituições em guerra e ele assoviando? E não era só o Brasil. O Trump na presidência dos Estados Unidos, o populismo de direita prosperando em todo o mundo, o terrorismo, a situação no Oriente Médio...

E então pensei: ele pode não estar assoviando porque não sabe de nada, mas assoviando porque sabe alguma coisa que ninguém mais sabe. Decidi segui-lo para descobrir o que só ele sabia. Ele talvez tivesse a solução para todos os nossos problemas. Talvez pertencesse a uma célula de otimistas só esperando a nação se autodestruir para assumir o poder, uma seita secreta de assoviadores esperando a hora de devolver nossa alegria. Eu precisava descobrir a razão daquele assovio.

Mas o homem desaparecera na multidão. Se ele passar por você, siga-o e não o perca de vista. Ele pode ser a salvação. Será fácil reconhecê-lo: só ele estará assoviando.

DESISTÊNCIA

(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)

É chato ser um poema

sempre atrás de métrica e rima.

Que sina!

Não quero mais isto.

Desisto!

FORÇA

Toda a força aos movimentos contra os cortes da TVE, da Rádio Cultura e outros espaços culturais do Estado. A economia com o fim dos subsídios seria mínima, só explicável como um golpe deliberado contra a arte e a criação gaúchas.

quarta-feira, dezembro 07, 2016



07 de dezembro de 2016 | N° 18708 
MARTHA MEDEIROS

Elle


Há uma cena no filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, de 2001, em que a personagem de Audrey Tautou observa vários prédios da cidade e se pergunta quantas pessoas estariam, naquele instante, tendo um orgasmo. Não é incomum termos esse mesmo pensamento quando deparamos com centenas de janelas à nossa frente, denunciando a existência de um sem-número de apartamentos, cenários de toda espécie de intimidade e segredos.

Moro de frente para um mar de edifícios e permito que minhas indagações sejam ainda mais indiscretas: quais serão as verdades inconfessas que vivem em cativeiro, que nunca atravessam a porta da frente, que ficam escondidas por trás das cortinas? Elas não saem para piqueniques no parque, não cumprem expediente no escritório, não aparecem nas conversas com os amigos – socialmente, entregamos apenas uma versão condizente com o status quo e de fácil digestão para a plateia. 

É dentro de casa que a gente urra, chora, transa, transcende e morre uma, duas, três vezes ao dia. É entre quatro paredes que deixamos escoar pela pia e o chuveiro os nossos pequenos fracassos, é no ambiente privado de cada um que os problemas ganham permissão para ir do quarto ao banheiro, do banheiro à sala, de pés descalços. É a portas fechadas que nossa verdade mais absoluta anda despida.

Não encaro isso como uma visão derrotista do ser humano – óbvio que é em casa também que dançamos em frente ao espelho, que recebemos os amigos mais indispensáveis, que celebramos o sucesso de ter uma vida boa. Estou falando do que há de secreto por trás de tudo – dor e prazer.

Toda essa elucubração foi despertada por outra produção francesa, Elle, atualmente em cartaz com a estupenda Isabelle Huppert vivendo um papel de empoderada que pode vir a irritar algumas feministas – e se uma mulher quiser tirar proveito de um estupro para liberar-se de traumas ainda piores, como fica? Não é um filme para amadores. 

A perversidade tem papel de destaque, ora apoiada no humor negro, ora justificada como fetiche, ora simplesmente gratuita – faz parte do jogo. Aliás, a personagem principal é uma executiva que administra uma empresa criadora de games violentos. Sabe que o brutal sempre vem acompanhado de extrema excitação.

Nenhuma apologia ao crime. Apenas um filme para adultos capazes de compreender que ao retirarmos as camadas que revestem nossa pretensa normalidade, aparece o que o skyline das cidades esconde: histórias particulares repletas de carências, fantasias e rendição a desejos muitas vezes embaraçosos, mas que a vergonha nunca impediu que se realizassem. Por trás das janelas ao longe, as pessoas não estão apenas transando, mas compensando-se.



07 de dezembro de 2016 | N° 18708
EDITORIAIS

CONFRONTO DECLARADO


A mesa diretora do Senado recusa-se a aceitar a decisão do ministro Marco Aurélio Mello de afastar liminarmente do comando da casa o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), pelo fato de ter sido considerado réu em um dos 12 inquéritos aos quais responde no Supremo Tribunal Federal (STF). 

O conflito aberto instalado entre poderes não interessa em nada a um país que já enfrenta impasses de sobra, decorrentes da combinação perversa entre as crises econômica e política, às quais não deve se somar também uma de caráter institucional. Diante da situação, cresce a importância da decisão do plenário do STF, que deve analisar hoje o recurso interposto pelo presidente afastado do Senado em caráter liminar.

É tranquilizador que, antes do julgamento, a presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia, tenha se preocupado em negar a possibilidade de o momento de turbulência ser resultante de fragilidade institucional. A justificativa da ministra é de que, se “as instituições estivessem fracas, não seríamos capazes de criar jurisprudência como estamos fazendo”. E o STF, argumenta, produz jurisprudência, não política.

O fato é que, ao desafiar o Supremo Tribunal Federal no momento de maior animosidade entre os poderes Legislativo e Judiciário, o grupo que comanda o Senado alega estar fazendo uso do preceito constitucional da separação e independência entre os poderes, que rege a democracia brasileira. O Brasil, já às voltas com uma inquietante debacle moral, não pode dar qualquer margem a uma crise institucional.

O momento exige grandeza de quem tem o poder decisório. Mais do que nunca, o país precisa de lideranças sensatas para que o impasse seja resolvido com serenidade e com total respeito ao Estado de direito e à Constituição.


07 de dezembro de 2016 | N° 18708 
PEDRO GONZAGA

UM PROBLEMA DE BARBA


Lendo uma crônica do escritor português Valério Romão, num jornal de Macau, sobre figuras bizarras que habitam todas as cidades humanas, e de como podem ser matéria para a literatura, dou-me conta de quão bizarra pode soar agora aos meus leitores essa minha leitura. Igualmente esquisita é minha tendência de ficar remoendo palavras que leio, no caso “bizarria”, que estava na chamada da crônica do Valério no Hoje Macau. Primeiro repasso a sonoridade, escandindo consoante e vogais, depois me ocupo do significado. E aqui vai um abraço ao amigo Deonísio da Silva, que há anos investiga e divulga a origem das palavras. 

Vou aos dicionários etimológicos. Bizarro, adjetivo. Logo descubro – que festa quando isso acontece – que a palavra tem origem obscura. Crê-se que passou do espanhol, ao italiano, ao francês e só depois ao inglês. Antes de ter o sentido de estranho, incomum, significava bravo, feroz. Uma explicação é que viria do basco, significando inicialmente “barba”, pois era assim, com bizarras barbas, que lutavam os soldados bascos. 

Outra explicação, que me parece mais confiável, diz que bizarro era associado aos soldados espanhóis, talvez os bascos, por lutarem com coragem e fúria. Como usavam barba e se comportavam de modo excêntrico, esta seria uma explicação para o segundo sentido, o nosso, que a palavra adquiriu.

Lembro certa vez de ter lido, ou visto, ou ouvido (já preparo um processo contra a internet que transformou minha memória num fondue), um escritor reclamar que em conversas de escritores os outros sempre queriam saber como ele escrevia, não porque estivessem curiosos, mas para ver qual era o nível de bizarrice de suas práticas.

Creio que escrevemos, acima de tudo, para que alguém nos diga, não se preocupe, eu também sou assim, ou, não se apoquente, eu coleciono garrafas térmicas, ou, dá-me cá um abraço, cronista, bizarro é estar vivo como alguma coisa feito gente.

Em geral, contudo, seguem chegando mensagens pedindo para que eu tome tendência.

Eis uma expressão maravilhosa: tomar tendência.

Mas a tendência de quem?


07 de dezembro de 2016 | N° 18708 
DAVID COIMBRA

Só porque o tempo estava bom

Você acorda de manhã, olha para o céu completamente azul, vê o sol se derramando sobre a cidade e sorri: – Que lindo dia... Você pensa que nada pode dar errado num dia assim glorioso. Será?

A grande desgraça de 250 mil moradores de Hiroshima foi, exatamente, a beleza da manhã de 6 de agosto de 1945.

Porque o governo americano não havia decidido que Hiroshima seria o alvo da primeira bomba atômica. O piloto da superfortaleza voadora que carregava a arma mais mortal da história da humanidade podia escolher entre quatro cidades japonesas. Dependeria das condições climáticas. Se o tempo estivesse fechado e não houvesse visibilidade, ele deveria seguir em frente e jogar a bomba em outro local.

Desde pequeno, quando lia acerca da II Guerra, essa pequena fresta da História me fascinou. Queria ter talento para fazer um filme a respeito. Tudo é repleto de significados. O avião cor de prata que levou a bomba era chamado de Enola Gay, em homenagem à mãe do piloto. E a bomba era chamada de Little Boy, “Garotinho”. Ou seja: a mãe Enola Gay pariu um garotinho terrível. O que Freud teria escrito a propósito, se não tivesse morrido seis anos antes?

A viagem do Enola Gay durou seis horas e meia, toda a madrugada e o início da manhã. Durante esse período, imagine as pessoas de Hiroshima e das outras três cidades-alvo. As crianças indo para a cama e os pais lhes dando beijos de boa-noite, casais fazendo amor ou discutindo a relação, homens e mulheres com a cabeça no travesseiro, fazendo um balanço do dia que passou e planos para o dia seguinte. Seus filhos, seus sonhos, suas vidas, tudo estava subordinado a um único fator: o tempo estaria bom ou ruim na manhã seguinte?

O maior infortúnio de Hiroshima foi ter vivido um belo dia de sol em 6 de agosto de 1945.

Pense nas minudências de aparência insignificante que foram decisivas em sua vida. Se você não tivesse entrado naquele carro, se você não tivesse aceitado aquele convite, se você tivesse ficado em casa, se o dia fosse chuvoso e não iluminado.

Um mínimo detalhe pode mudar tudo. No caso do Brasil, tudo mudou porque um sujeito queria um carro novo. Paulo Roberto Costa não estava contente com o carro que tinha, e o doleiro Alberto Youssef lhe doou uma Land Rover. Foi o que fez soar o alarme na Polícia Federal do Paraná e desencadeou a Operação Lava-Jato.

Paulo Roberto Costa podia comprar uma Land Rover zero-quilômetro com o dinheiro que havia guardado, ele era um homem rico e poderoso, amigo de ministros, deputados e presidentes. Mas foi ganancioso, foi confiante em demasia, aceitou um mimo a mais do doleiro que o financiava. E a vida de 205 milhões de pessoas tomou novo rumo.

Portanto, tome cuidado com as minúsculas deliberações do seu dia. Preste atenção ao que parece pequeno e inofensivo. Às vezes, é do céu limpo que a bomba cai.

terça-feira, dezembro 06, 2016



06 de dezembro de 2016 | N° 18707 
CARPINEJAR

Tempo emocional

Quantas décadas passaram entre 29 de novembro, madrugada da tragédia da Chapecoense, e 30 de novembro? Em uma única data, correram quantas semanas?

Foi um pesar violento, que 24 horas e 365 dias não fizeram mais nenhum sentido para abarcar o que transcorreu na intimidade da existência de cada um. Tudo o que aconteceu em outubro e setembro parece que está longe demais. Eu tenho que me esforçar para lembrar. Sinto que troquei de ano várias vezes em um ano, que me despedi das folhas do calendário em solitária noite.

O choque, o susto, a calamidade inspiram a reprisar o mesmo ato, de tal modo que você vive uma lembrança eternamente. Você recua e avança na recordação sem força para alterar o imponderável. O destino impacta a sua estabilidade, destrói o seu romantismo e nada mais é fixo e imutável.

O sofrimento nos deixa antigos. A dor nos envelhece rapidamente. O tempo emocional se sobrepõe ao tempo físico. O tempo emocional é o que vigora nas palavras e na realidade sensível. É um fim de uma crença que chega antes do fim do ano, é o Réveillon silencioso de um ideal sem espocar de fogos nem brindes.

Não mudamos de idade, não mudamos a aparência, mas somos outros por dentro, amadurecemos forçosamente. É quando somos abalados por uma tristeza tão grande que a sensação é de que atravessamos a metade de um século em um piscar de olhos. Pode ser um desemprego ou um término de um romance, é algo que não esperávamos e que consome a nossa paz e rotina, que devora a nossa tranquilidade e não tem como fingir indiferença.

Choramos, acumulamos insônia e nos encolhemos no sofá em posição fetal assistindo ao noticiário, com os olhos parados naquilo que é passado e que também não se esgotou como futuro.

Quem já não perdeu um familiar e não acordou como se estivesse sonhando, não crendo, com a impressão do impossível experimentado?

Quem já não se separou de alguém que amava muito e não atravessou a mais funda desilusão? Toda renúncia entorta os relógios e adoece a solidão.

O tempo emocional sempre manda quando transformamos a nossa maneira de pensar a vida, quando a ingenuidade é assassinada, quando o nosso riso é mais difícil de sair dos dentes para os lábios.

Com a morte de Tancredo Neves abandonei a infância, com a morte de Ayrton Senna deixei a adolescência, com a morte dos Mamonas Assassinas ingressei na maturidade. A queda do avião com o time da Chapecoense talvez seja o meu portal para a velhice. Já seguro o guarda-chuva como uma bengala, apoiando o peso do país em meus ombros.



06 de dezembro de 2016 | N° 18707 
DAVID COIMBRA

Cuidado, Grêmio

Os Estados Unidos seriam diferentes, e certamente para pior, se Thomas Jefferson não soubesse escrever. Jefferson foi um dos Founding Fathers, um dos Pais Fundadores da nação americana. É dele o texto de um dos mais importantes documentos da História, a Declaração de Independência, no qual foi incrustada uma frase decisiva para o processo civilizatório:

“Todos os homens são criados iguais”.

Com essa única e breve sentença, cinco palavras em inglês, Jefferson abriu caminho para a abolição da escravatura, para a Revolução Francesa, para a emancipação das mulheres, para todos os tipos de movimentos libertários em todo o Ocidente.

Era um frasista. Uma antecipação de Churchill, uma revisão de Júlio César.

Outra frase de Jefferson de que gosto poderia ser levada em consideração por muitos de nossos intelectuais de hoje: “Quando o povo teme o governo, isso é tirania; quando o governo teme o povo, isso é liberdade”.

E há uma terceira, sobre a qual quero me ocupar, frequentemente citada por esquerdistas, direitistas e centristas: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Serve para várias situações, não apenas políticas. É aquilo de não relaxar, de ficar atento sempre, de segurança 100%.

O futebol, que em hora e meia representa a vida, faz essa exigência a todo momento.

Há quilos de exemplos ilustres: a seleção alemã vencendo os invencíveis húngaros no Milagre de Berna, em 1954; o Uruguai calando o Maracanã quatro anos antes; o Carrossel Holandês sendo vice duas vezes seguidas. Poderia encher páginas lembrando casos parecidos. Seriam inúteis. Quem diz que o passado pode convencer alguém?

Paulo Odone repetia sempre que, ainda que os dirigentes tomem todas as precauções para evitar o chamado “salto alto”, o favoritismo sai das ruas e “entra pelas frestas das paredes do vestiário”, contaminando os jogadores.

É verdade. A sensação de favoritismo é como a mosca tsé-tsé: uma picada e a vítima morre da doença do sono.

O próprio Grêmio padeceu por causa desse sentimento. No começo da década passada, o time do Tite parecia imbatível, o Grêmio estava havia quase um ano sem perder no Olímpico e, numa decisão de fase do Campeonato Brasileiro, pegaria o pequeno São Caetano, praticamente um time de entregadores de gás. Antes do jogo, estádio cheio e fremente, a torcida desenrolou uma bandeira tricolor que cobriu todo o gramado. Era “a maior bandeira do mundo”. Uma festa. Eu estava na cabine de imprensa. Vi aquilo, olhei para o Diogo Olivier, sentado ao meu lado, e comentei o seguinte:

– Ih... É que nunca vi um time festejar antes e comemorar depois. Nunca, nunca, em mais de 30 anos cobrindo futebol.

Bem. O Grêmio saiu ganhando, o São Caetano virou e venceu por 3 a 1.

Assim se deu antes da partida do Inter contra o Mazembe. Observando a festa que o Inter fazia ainda em Porto Alegre, filme sobre o time e tudo mais, fiz uma ponderação ao Fernando Carvalho. Esta:

– Ih... Ele concordou: – É...

Deu no que deu. Por isso, sabendo agora que o Grêmio tem vantagem de dois gols e que o Atlético está em silêncio e concentração, recebendo informações privilegiadas de Roger, digo aos gremistas, parafraseando Jefferson:

“Mantenham-se tensos e alertas. O preço da taça de campeão é a eterna vigilância”.


06 de dezembro de 2016 | N° 18707
ARTIGO | DENIS LERRER ROSENFIELD

PAUTA MORAL

Mais de meio milhão de brasileiros foram às ruas clamando pela ética na política, pela moralidade na administração da coisa pública. Os cidadãos não mais aguentam a corrupção e a apropriação privada e partidária dos recursos públicos, que pertencem à sociedade sob a forma de impostos, transferidos compulsoriamente para o Estado. 

Cabe a este administrar os bens da sociedade, sem o que o próprio fato de cidadãos pagarem impostos, contribuições e taxas não teria nenhuma significação. As ruas hoje fiscalizam a utilização desses recursos. Trata-se de um dado incontornável, ao qual os políticos em geral não têm prestado a devida atenção.

O Brasil mudou. A classe política não acompanhou essa mudança. Permanece esta arraigada a práticas patrimonialistas que não são mais toleradas pela sociedade. Há uma espécie de estranhamento da cidadania que não se reconhece em seus representantes.

Prova disto consiste nas manobras operadas na Câmara dos Deputados e na Presidência do Senado para desvirtuar as 10 medidas contra a corrupção, que contaram com amplo respaldo popular. A operação consistiu em iniciativas de parlamentares, muito deles investigados e sob a mira da Lava- Jato, que procuraram, desta maneira, salvar a própria pele.

A inoportunidade das iniciativas foi completa. No momento em que estamos prestes a conhecer os detalhes das delações da Odebrecht, há uma evidente tentativa de impedir que políticos envolvidos sejam responsabilizados por seus crimes.

Evidentemente, o pacote de medidas contra a corrupção exigiria uma análise mais cuidadosa, porém exige o bom senso que não sejam os investigados os responsáveis por tal tarefa. Não possuem a qualificação moral necessária. E a moralidade tornou-se uma condição da política no Brasil.

As bandeiras das ruas foram “Contra a corrupção”, “Fora Renan” e “Fora Maia”, personificações, no caso, daquilo que não deveria ter sido feito. Aliás, esses presidentes exibiram uma ausência completa de sintonia com o que sente e pensa a sociedade brasileira.

O descompasso é total. Se persistirem nesta via, o meio milhão de participantes facilmente atingirá alguns milhões em pouco tempo. Se isto ocorrer, marcharemos inexoravelmente para uma crise institucional.

Enquanto isto, Lula e Dilma, dois ex-presidentes, dão adeus a um dos mais sanguinários e repressores ditadores, Fidel Castro. Sentirão, certamente, saudade. A reação moral da sociedade brasileira não lhes diz respeito. Não escutam as ruas. Faz sentido!

O colunista escreve às terças-feiras neste espaço.



06 de dezembro de 2016 | N° 18707 
EDITORIAIS

A PREVIDÊNCIA E A CRISE POLÍTICA

Encarada pelo governo como prioritária depois da definição do teto de gastos, iniciativa ainda dependente da segunda votação do Senado para entrar em vigor, a reforma da Previdência chega hoje ao Congresso no auge da crise política do parlamento, em decorrência do afastamento do presidente Renan Calheiros pelo Supremo Tribunal Federal. De acordo com liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Melo, um réu não pode ocupar a linha sucessória da Presidência da República.

O debate da questão previdenciária, como evidenciou ontem o presidente Michel Temer, é ina- diável. O país não tem como sair da crise, reativar sua economia e voltar a gerar empregos se não estancar as fontes de desequilíbrio no orçamento federal. A Previdência, vista pelos números, sem apelos emocionais, é uma das que mais contribuem hoje para desequilibrar o déficit público.

No ritmo atual, como ressaltou ontem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o percentual de idosos deve ampliar-se em 263% até 2060, tornando o sistema insustentável. Adaptar a seguridade às mudanças demográficas é uma exigência que não tem como ser postergada. Esse promete ser um dos focos das mudanças, que devem exigir idade mínima e um tempo mínimo de contribuições para os que serão afetados pela reforma, entre os quais não se incluem os já aposentados.

Quanto menos privilegiarem segmentos específicos, mais as reformas previstas na aposentadoria terão condições de vencer as resistências. Independentemente do desfecho da crise política, o Congresso tem o dever de enfrentar o assunto com a urgência e a seriedade que a situação requer. O país não tem como esperar o colapso do sistema para promover mudanças, pois isso inviabilizaria o próprio setor público, com consequências irreversíveis para a economia de maneira geral.

TRAGÉDIAS PREVENÍVEIS

As investigações do acidente com o avião que conduzia a Chapecoense ainda estão em andamento, mas já se sabe que a causa maior do desastre foi o conjunto de irresponsabilidades das pessoas que permitiram o voo arriscado, com combustível suficiente apenas para o percurso planejado. Sem desconsiderar a dor da família do piloto boliviano que morreu na queda, parece não haver dúvida de que ele foi o responsável maior pela insensata aventura, já tendo feito outras viagens em condições semelhantes e ocultando da própria tripulação informações precisas sobre o voo. A imprudência do profissional da empresa LaMia, respaldada pela funcionária da Direção-Geral de Aeronáutica Civil da Bolívia, deixou 71 pessoas mortas, seis outras feridas e dezenas de famílias enlutadas.

Ainda que sejam episódios de natureza e consequências diversas, o incêndio da boate Kiss, no Rio Grande do Sul, e o rompimento das barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, também foram gerados pela incúria, pelo descaso com as normas e recomendações técnicas, e também pela ganância – todos fatores que compõem a cultura da irresponsabilidade. Tragédias preveníveis ocorrem porque alguém, em algum momento, achou que desobedecer às regras não daria em nada. E também porque autoridades e órgãos fiscalizadores foram relapsos no cumprimento de suas atribuições.

O problema do jeitinho, no seu pior sentido, requer uma transformação cultural dos brasileiros, que se habituaram a tolerar desleixos, a aceitar pequenos desvios de comportamento e a considerar normal o descumprimento de normas e convenções coletivas. Mas há uma providência simples que pode evitar muitas tragédias: acabar com a impunidade.