Sábado, Julho 11, 2009

Maria Guida
Relacionamentos? - Amar sem ser amado
Sabe quando a gente olha em volta e não vê ninguém? Quando percebemos, que por algum motivo, ficamos completamente sós? Quando, apesar de procurarmos, não somos capazes de encontrar ninguém com quem desejemos estar?
Talvez seja esse o momento certo para refletirmos sobre relacionamentos. Só, o ser humano valoriza muito mais o que significa estar acompanhado.
Em total solidão, somos capazes de compreender que exageramos na dose de intolerância com que temos brindado amigos e companheiros.
Revisitando antigas relações, nos damos conta de que as estranhas manias e os hábitos aparentemente insuportáveis de nossos ex-maridos, amantes ou namorados, não eram assim tão graves, e até poderiam ter sido suportados se tivéssemos de volta, pelo menos, algumas das inúmeras coisas boas que compartilhamos com eles.
O fato é que esse inventário minucioso das relações, a que nos obriga a insônia, com os pés gelados, na cama de casal imensa, que a solidão muitas vezes transforma em instrumento de tortura, pode nos conduzir a algumas conclusões bastante úteis, se ainda tivermos forças para buscar e concretizar, a partir delas, novos relacionamentos.
A primeira coisa que descobrimos, é que viver e deixar viver é muito mais do que uma frase de efeito. É uma realidade que evita muita confusão.
Respeito é bom e eu gosto, passa ser uma espécie de lema, que a postura corporal denuncia, antes mesmo que lampeje em nossos olhos, para que nossa boca nunca mais tenha que pronunciar.
Outra coisa que aprendemos lentamente, mas para sempre, é que não vale a pena usar feitiços e artimanhas para conquistar nada nem ninguém.
Se alguém vier a gostar de alguma coisa em nós terá que ser de nossa cara lavada de todo dia, e não da face de boneca glamurosa que exibimos uma vez na vida, em festas e recepções.
Ninguém é perfeito, muito menos nós, e, até por causa disso, todo chilique é desculpável, e deve ser acolhido, na pior das hipóteses, com silêncio, e na melhor, com risadas, se elas não piorarem as coisas, é claro.
Gosto não se discute, e por mais estranho que pareça, pode ser compartilhado em ocasiões especiais.
A mais difícil conclusão a que chegamos, sobre relacionamentos, é que eles exigem de nós um reconhecimento profundo das necessidades e limites de cada um e do todo.
Manter e sustentar um relacionamento é aceitar, sem qualquer tipo de sentimento de rejeição, sem cobrança, sem mágoa, sem cara feia, sem negação, sem manipulação, sem vingança, sem perversão, a qualidade e a quantidade de afeto que o outro está disposto a oferecer, nem mais, nem menos, como e quando ele quiser expressá-lo.
Esta forma de relacionar-se é a única que nos permite estabelecer relações construtivas com toda e qualquer pessoa, mesmo as que não simpatizam conosco ou as que - declaradamente, ou em segredo - não gostam de nós.
Relacionar-se segundo essas premissas torna possível compreender que, apesar de nossos sentimentos não serem correspondidos na mesma medida, estas diferenças de freqüência e de intensidade não inviabilizam nenhum relacionamento.
Se prezamos nossa liberdade e a legitimidade de nossos sentimentos, porque não respeitamos na mesma medida as de nossos semelhantes?
Considerando as relações sob este prisma, e aplicando esses conceitos na prática, veremos que é possível assumir nossos sentimentos, e, ao mesmo tempo respeitar os sentimentos do outro, sem atritos nem constrangimentos.
É por causa disso que sempre afirmo, para quem quiser ouvir, desmentindo toda a retórica romântica, que é possível se sentir livre e feliz, amando sem ser amado, conviver em paz e serenidade, com alguém por quem estamos apaixonados, mesmo sabendo que não somos correspondidos.
Manter uma relação saudável e honesta é estar aberto, sem oferecer-se, ser sensível sem chocar-se, ser afetuoso sem ser permissivo, pensar por dois sem deixar de ser um, obedecer a protocolos sem ter medo de pisar em ovos, desejar sem possuir, demonstrar sentimentos sem ostentá-los, ser livre para tocar e ser tocado, ter coragem suficiente para dizer um sim e para ouvir um não.
O amor passional e compulsivo, aquele que exige correspondência, que compara, mede e pesa demonstrações de afeto, que especula sobre intensidade e qualidade de sentimentos, que raciona e condiciona expressões de ternura, inviabiliza, cedo ou tarde, qualquer relacionamento.
O encanto da convivência é a mobilidade e a variedade com que o outro nos demonstra, a cada dia, sua aceitação à nossa própria mobilidade e variedade de reações.
Quanto mais o outro nos surpreende com sua tolerância e compreensão, mais confiamos nele, e mais aspectos novos somos capazes de expor.
Relacionar-se é penetrar cada dia mais fundo na infinita manifestação divina que é essa pessoa que está diante de nós, e que desejamos conhecer.
Quando conhecemos alguém que nos atrai especialmente, iniciamos uma queda em câmara lenta na direção desse ser. Circulamos ao redor dele como um satélite, sujeitamo-nos às leis universais de atração e repulsão.
E como corpos celestes, a máxima intimidade que conseguiremos, a despeito de tudo o que puder ser feito no plano físico, será sempre energético, será sempre Luz.
Da telepatia à cópula, relacionar-se é trocar energia de forma seletiva e isso não se faz em vão. Relacionar-se é dar ao amor incondicional o colorido das emoções e sentimentos de uma parcela individualizada da divindade em ação.
Se melhoramos a qualidade de nossos relacionamentos aceleramos a evolução nossa e da humanidade inteira.
Se formos capazes de amar verdadeiramente a um único ser, por ele amaremos a todo o Universo. Porque somos todos um.
Se postou aquele texto lá na sua página é porque acredita no que ele diz. E eu acredito nele também minha amiga.

12 de julho de 2009
N° 16028 - MARTHA MEDEIROS
A caricatura do primeiro casamento
TEnho muito interesse por relações amorosas e tudo o que as envolve. Essas relações não precisam ser necessariamente românticas também adoro histórias de pais e filhos, assim como histórias sobre fortes amizades mas o conflito gerado por um homem e uma mulher que convivem intimamente sempre me pareceu digno da maior atenção.
No entanto, de um tempo pra cá, algo vem me inquietando. Essa febre de filmes, peças e livros retratando as dificuldades de relacionamento estarão sendo realistas de fato? O público se identifica, ri das pequenas tragédias que experimenta em sua vida pessoal, mas não está na hora de abrir espaço para o que não é nem tão trágico, nem tão cômico?
Mulheres são de um planeta, homens de outro. Elas se sobrecarregam no papel de esposa e mãe, eles se atrapalham com seu excesso de testosterona e eterna meninice. Elas querem mais romance.
Eles querem mais liberdade. Elas são doces, eles são rudes. Todos querem amar, mas ninguém se entende. Esse é o quadro, o resto são variações sobre o mesmo tema. Fascinante, mas pode estar se transformando numa caricatura avalizada por todos nós.
Contrariando a regra, existem homens doces e mulheres rudes. Morar em casas separadas é uma saída que vem sendo considerada. Ter filhos já não é uma meta soberana. O “pra sempre” deixou de ser prazo irrevogável do amor.
Nem todo homem procura a própria mãe na mulher por quem se apaixona. Nem toda mulher sonha com um protetor. Casar é algo que pode acontecer na vida de alguém, ou pode não acontecer. Há casais que vivem às turras, mas também há os que se entendem bem.
Ou seja, há quem não se sinta representado por essa natureza esquizoide que virou padrão de relacionamento: se marido e mulher querem se matar, ufa, são normais.
Na peça A História de Nós Dois, que assisti recentemente no Rio e que, com talento e graça, retrata o ciclo de começo-meio-e-fim da maioria das relações atuais, me fez perceber que, das três fases do amor, nenhuma é original: a originalidade está na quarta fase, da qual se fala tão pouco.
Se a fase inicial da paixão tem um fim, se a fase do “durante” (quando os filhos nascem e as complicações aparecem) também tem um fim, então a ruptura do relacionamento, com quebra-quebra e dor intensa, também pode ter um fim, gerando a partir daí uma relação menos paranoica e mais madura, mais afetuosa e mais tolerante.
Só que poucos tentam essa quarta fase com a mesma pessoa com quem viveram as três anteriores. O que é compreensível, mas nada alentador.
“Quero casar de uma vez para separar logo e aí, sim, ter uma relação bacana de verdade”.
Parece piada, mas é o pensamento secreto de muitos. As pessoas estão querendo vivenciar rapidamente um destino que lhes parece inevitável (uma relação familiar com começo, meio e fim) para que possam entrar, depois, numa outra relação que possa ser curtida sem amadorismo, sem amarras, sem prazos, sem um roteiro previamente estipulado.
O segundo casamento é que passou a ser o grande sonho de consumo, porque ainda não foi caricaturizado. Por enquanto.
Um ótimo domingo especialmente a você minha amiga.

12 de julho de 2009
N° 16028 - MOACYR SCLIAR
Dá para votar no Mateus?
Políticos brasileiros estão sendo acusados de nepotismo, de arranjar cargos públicos, ou negócios com o serviço público, para familiares e amigos. A reação de muitos deles é de perplexidade, magoada perplexidade: Sempre foi assim no Brasil, agora estão querendo me culpar por fazer o que outros fizeram?.
Uma pergunta que não se justifica, mas que se explica. De fato, o nepotismo brasileiro tem raízes históricas profundas. Baseia-se no modelo que, numa certa fase, norteou a colonização lusa aqui: o modelo das capitanias hereditárias.
Alguém recebia, da coroa portuguesa, uma enorme extensão de terra, que administraria como se fosse dono. O equivalente da capitania hereditária, hoje, é o mandato parlamentar, a chefia de um órgão, a presidência de uma empresa pública. E, na hora de escolher colaboradores, na hora de distribuir os cargos, a regra é dada por um provérbio também de origem lusitana: “Mateus, primeiro os teus”.
Por que Mateus? Provavelmente o nome foi escolhido porque rima com “os teus”. Quanto à frase, pode ser cínica, mas certamente, e ao menos até agora, era realista. Se Mateus tinha poder, deveria primeiramente pensar nos parentes e amigos. Mesmo porque a sentença parecia justa para aqueles que a formularam ou que a repetiam.
Notem que “Mateus, primeiro os teus” não é “Mateus, só os teus”. A primeira sentença, além de mais eufônica, é mais razoável; os outros não estão sendo excluídos, só estão sendo colocados mais abaixo na lista de prioridades.
Se possível, serão atendidos, diferentemente dos parentes e amigos, que devem ser atendidos, custe o que custar (e atualmente o custo, como estamos vendo, pode ser muito alto).
Dá para duvidar de que, se certos políticos pudessem fazê-lo, arranjariam cargos públicos? E se um cara se candidatasse anunciando “Vote em mim e ganhe um cargo público”, alguém duvida de que ele seria eleito? O nepotismo não é só um fenômeno político.
E nem é um costume exclusivamente brasileiro. Que o digam as monarquias europeias, por exemplo. Ou então as famílias (ou clãs) que, nos Estados Unidos, fazem política: os Kennedy, os Bush. Aliás, foi nos Estados Unidos que apareceu, em 2003, um livro defendendo o nepotismo. Chama-se In Praise of Nepotism (O Elogio do Nepotismo), de autoria do jornalista Adam Bellow, para quem Mateus não é uma exceção: todas as espécies tendem a proteger as crias.
É algo constitutivo da natureza humana, está em nosso genoma. Tudo que temos de fazer, diz Bellow, é combinar nepotismo com a meritocracia. Favorecer, mas favorecer aqueles que têm um mínimo de condições (detalhe interessante: Bellow é filho de ninguém menos que o escritor Saul Bellow, Nobel de literatura. “Ser filho dele ajudou muito”, confessa o jornalista).
Tudo indica que o Brasil cansou disso. O Brasil mudou. Se perguntarmos hoje aos brasileiros “Quem deve ocupar um determinado cargo público?”, a resposta será: a pessoa mais adequada para o cargo, selecionada mediante critérios claros, democráticos. É bom que o Mateus pense nisso, se ele resolver se candidatar.
O José Diogo Cyrillo da Silva comenta o caso de Bernard Madoff, fraudulento financista americano condenado a 150 anos de prisão. Ele compara com o que acontece no Brasil e diz: “A diferença é a forma como as delinquências são tratadas. Aqui, leniência, para dizer o menos, quanto aos delitos contra a ordem financeira. Lá, a confirmação de que a lei foi feita para todos”.
A Eny Toschi, do Instituto Chega de Violência, fala sobre o projeto Prevenção de Assaltos de Rua, desenvolvido em março e abril deste ano e que terá continuidade com outros projetos, propondo a integração entre comunidade e o Ministério Público, comunidade e a Guarda Municipal (para revitalização de praças e parques), e projeto aperfeiçoando a educação como recurso contra a violência.
Agradeço também as mensagens de Fátima Torri, de Wladimir Santos e de Felipe Daiello, que acaba de lançar o livro Palavras ao Vento.

12 de julho de 2009
N° 16028 - PAULO SANT’ANA
O improviso do gênio
Certa vez, há muitos anos, em 1974, fui convidado às pressas para comparecer a um jantar no Restaurante Adega Espanhola, na Rua Andrade Neves. Quando lá cheguei, vi que a grande atração da noite era o gênio pajador do Rio Grande, Jayme Caetano Braun, que fez o seguinte improviso, mas improviso mesmo, avistando-me entre os convidados:
O silêncio já foi feito
E a garrafa não é canha,
É bala que me acompanha
Pois frouxa as mágoas do peito
E eu me sinto satisfeito
E confesso com orgulho
Eu não gosto de barulho
Nem de nada se mexendo
A não ser águas correndo
Nas sangas de pedregulho
Não sei nem como comece
Nesta noitada divina
Porque a emoção me domina
E o pajador se enternece
Mas o meu verso é uma prece
Nesta noite ainda guria
Eu cumpro esta liturgia
E estou de cabelo branco
Mas só firmo bem o tranco
Da meia noite pra o dia
E perdoe se eu me apresento
Neste jeitão atirado
Como um guacho desmamado
Que foi criado ao relento
Mas eu chego contra o vento
E vou cantando, pachola,
Como quem chega pra escola
Depois de uma féria grande
Neste galpão do Rio Grande
Que é a velha Adega Espanhola
Já cantaram os maiores
Com tanto brilho e cultura
Mas nunca com mais ternura
Que nos meus versos menores
Mas eu canto entre os melhores
E isso faço sem consulta
Canto pra gente tão culta
Porque sei que me quer bem
E aquele que dá o que tem
Não ofende nem insulta
Eu venho lá das Missões
Do lombo das sesmarias
Emendo as noites e os dias,
Os invernos e os verões
Emendo as quatro estações
E o peito não se ataranta
Porque o que sai da garganta
É pura rima baguala
E quando um gaúcho fala
É a terra chucra que canta
Não confundam pajador
Com poeta de gabinete
O pajador é um ginete
Que já nasce domador
Por isso aquele que pensa
Dê aos dois poetas o valor
Ao poeta e ao pajador
Não lhes tenha indiferença
Que o verso é um mal de nascença
Ao qual nada se compara
É mesmo assim que uma tara
Pelo de potro e de touro
Por isso é que um nasce mouro
E outro nasce malacara
Para nós, os pajadores,
Que andejamos os caminhos
O Deus que fez os espinhos
É o mesmo que fez as flores
Eu tive tantos amores
Porque a vida me foi grata
Eu não juntei muita prata
Mas digo de peito cheio
Não tenho marca de arreio
E nem arranhão de gata
Mas que dizer ao Sant’Ana
Este ilustre candidato
Neste lindo anfiteatro
Da velha terra pampiana
A gremista não se engana
Eu pajador abstêmio
Merecia ter um prêmio
Do velho pago querido
Sant’Ana como é sofrido
A gente torcer pelo Grêmio!
Não falo mais no Sant’Ana
Não falo mais em ninguém
Outros vão cantar também
Nesta noitada pampiana
Nesta noite brasiliana
Onde não estamos sós
Benditos tataravós
Do velho pago imortal
Que a trompaço de bagual
Fizeram o Brasil para nós

12 de julho de 2009
N° 16028 - DAVID COIMBRA
Como ressurgem os heróis
Na primeira vez em que visitei a Itália caiu-me nas mãos um panfleto turístico sobre a Ilha de Elba. Fiquei interessado, quase fiz a viagem. Não pelas belas paisagens e praias aprazíveis que o lugar parece ter, mas porque foi lá que Napoleão passou o seu primeiro exílio, durante quase um ano, a partir de 1814.
Napoleão reinou de verdade em Elba, não se pode dizer que fosse um prisioneiro na ilha. Morava em um palácio, tinha uma corte para servi-lo e súditos que o obedeciam. Protagonizava festas suntuosas, dançava em bailes com seu jeito canhestro de dançar. Recebia visitas célebres.
Testemunhas contaram que Napoleão chegou a cogitar de viver em Elba para sempre, retirado das agitações da Europa que ele um dia havia submetido. As informações que recebia sistematicamente de seus agentes no Continente, no entanto, o convenceram de que seu retorno ao poder poderia ser bem-sucedido. Assim, Napoleão fugiu de Elba.
Ao chegar à França, a agradável surpresa: por onde passava, via-se saudado pelo povo. Os camponeses corriam de suas choupanas para acenar e gritar vivas, os velhos soldados calçavam de novo as botas e se incorporavam ao Exército do imperador. Porém, um de seus antigos comandantes, o Marechal Ney, decidiu que resistiria à tentativa de golpe bonapartista. Reuniu um exército e pôs-se no caminho do invasor.
Os dois exércitos estacionaram a poucos metros um do outro. Os soldados ficaram se encarando, franceses prestes a derramar sangue francês. Então, Napoleão se destacou da sua tropa.
Ordenou que o esperassem e avançou sozinho, a passo, olhando fixamente para os irmãos inimigos. O Marechal Ney não vacilou. Mandou que seus comandados atirassem. Que matassem o invasor! Os soldados ergueram suas carabinas. Fizeram pontaria. E Napoleão falou:
– Soldados da França! Se vocês quiserem matar seu imperador, aqui estou!
Um a um, os soldados foram baixando as armas. Nenhum teve coragem de puxar o gatilho. Levantaram-se. E correram para abraçar seus compatriotas do outro lado do campo, formando um só Exército. O marechal Ney, frustrado, apresentou-se a Napoleão:
– Rendo-me, imperador. Pode me prender. Ao que Napoleão abriu os braços e sorriu:
– O que é isso, Ney?! Venha cá, incorpore-se ao nosso Exército e assuma o comando de seus homens!
O segundo governo de Napoleão durou apenas cem dias, mas imagino que a forma como foi recebido pelo povo e pelo Exército justificou tudo o que ele fez na vida.
Quem pode se orgulhar de ter sido amado desta maneira pelas massas? Amado em vida, digo, sem a óbvia comoção póstuma. No Brasil, talvez só Getúlio Vargas tenha conseguido estabelecer tal empatia.
O São Januário lotava a cada discurso de Getúlio. Quando ele abria os pronunciamentos com seu famoso bordão, “Trabalhadores do Brasilll...”, o povo vibrava como se comemorasse um gol.
E aqui, em Porto Alegre, as calçadas da Farrapos ficavam tomadas de gente entusiasmada para vê-lo passar em carro aberto, cada vez que ele descia à capital de todos os gaúchos.
Lula? As pessoas sentem simpatia por Lula; amor, esse amor que inspira devoção e arroubos, esse amor desvairado, não. Talvez alguns esportistas e músicos brasileiros mereçam um sentimento de igual quilate ao que experimentou Vargas. Roberto Carlos enche um Gigantinho de amantes à moda antiga. Exceto ele, quem mais?
Os futebolistas, sim. Os futebolistas, mais do que os políticos populistas, mais do que os músicos populares, os futebolistas são amados pelos brasileiros. Mas não todos. Não basta ser craque. O jogador de futebol, para inspirar amor, tem que se identificar com o homem comum.
E esse talvez também tenha sido o segredo de um Getúlio Vargas, que não apenas tolerava como incentivava charges e paródias a seu respeito, ou de um Napoleão Bonaparte, que estava longe de ser um nobre, ele que nem francês era, era corso, de família simples.
Garrincha também era um simples. Mais: era até simplório. Isso comovia o torcedor. Isso o transformou na Alegria do Povo. Ronaldinho, enquanto posava de menino feliz e descompromissado, encantou o Brasil e o mundo. Ronaldinho, como Garrincha, representava a pureza do futebol. O futebol de brincadeira, que, afinal, é o bom do futebol.
Hoje só existe um jogador que vive no coração do povo: o rapaz de cabelo lanoso que vestirá a camisa 9 do Corinthians neste domingo, no Estádio Olímpico.
Ronaldo Nazário tem uma vida cheia de altos e baixos, como é a vida de qualquer um. Mas Ronaldo Nazário, assim como se tornou conhecido por suas quedas, torna-se lenda cada vez que se ergue.
Sempre que Ronaldo ressurge das sombras, ele mostra ao homem comum, o homem que erra, que sofre no dia a dia comezinho e sem brilho, que ele também, ele homem comum, pode alcançar um pouco da glória dos imortais. Porque Ronaldo Nazário erra como todos os homens, e retorna como um herói. Como um imperador. Como um Napoleão.

Cinema - Isabela Boscov
A CHEFE DE JOELHOS
Em A Proposta, Sandra Bullock é uma editora infernal que, por causa de um erro, vai ser colocada no seu devido lugar pelo assistente que sempre escravizou. Surpresa: no final, a sua versão megera é a que deixa saudade
A BRUXA DESCE DO SALTO

Reynolds faz o que todos os que conhecem sua chefe gostariam de fazer: obriga-a a reconhecer quem manda ali – e diante de testemunhas
Em A Proposta (The Proposal, Estados Unidos, 2009), desde sexta-feira em cartaz, Sandra Bullock é uma chefe tão infernal que, quando circula pelo escritório da editora de livros em que é mandachuva, os funcionários vão avisando uns aos outros sobre seus movimentos: ser flagrado distraído é garantia de humilhação pública.
Margaret Tate, a personagem de Sandra, lê relatórios enquanto se exercita, não devolve o bom-dia de subalternos, marcha, em vez de caminhar, e nunca avisa que uma conversa terminou – apenas passa a ignorar o interlocutor.
Até a maneira como se arruma, com tailleurs em que nada sobra nem falta e rabos de cavalo esticados, parece ser calculada para torná-la mais aerodinâmica e otimizar seu tempo. Margaret é particularmente impiedosa com Andrew, seu assistente, que há três anos a suporta porque espera que um dia a chefe faça justiça e o promova a editor. Andrew odeia Margaret.
Mas vai ter de se casar com ela, porque ela assim determinou: a chefe é canadense, deixou seu visto expirar e será deportada a menos que se case com um cidadão americano.
Numa cena antológica, Andrew, que acaba de descobrir que ficará sujeito a cinco anos de prisão caso se descubra que a união é uma fraude, faz o que todos os que conhecem Margaret desejariam fazer: obriga-a a ficar de joelhos diante dele – para pedi-lo em falso casamento, que seja, mas de joelhos.
A partir daí, A Proposta corre atrás de um argumento de segunda mão. Andrew e Margaret viajam para a casa dos pais dele, no Alasca; em vez de caipiras que abatem alces, ela encontra a aristocracia das altas latitudes; o par que se detesta terá de fingir que se ama, dando margem a beijos artificiais, abraços duros e embaraços variados (pantomima que Sandra e Ryan Reynolds, no papel de Andrew, executam com brilhantismo);
e vai-se descobrir, como se já não fosse sabido, que no íntimo da bruxa existe uma princesa. Não obstante a falta de originalidade desses desdobramentos, A Proposta foi um sucesso nos Estados Unidos, onde rendeu quase 34 milhões de dólares no fim de semana de estreia – bilheteria de filme de ação, não de comédia romântica.
O motivo mais evidente é o apelo humano, por assim dizer, que o filme da diretora Anne Fletcher exerce: há poucas alegrias tão genuínas quanto a de ver um chefe insuportável ser colocado em seu devido lugar. E, se o chefe for uma chefe, o júbilo se multiplica.
Por razões que têm muito a ver com o chauvinismo e um tantinho a ver com o empirismo, a mulher no comando é tratada pelo cinema como a quinta praga do apocalipse – e isso desde antes que houvesse mulheres no comando. Nos anos 30 e 40, quando a então emergente "guerra dos sexos" serviu para que alguns dos diretores mais talentosos de Hollywood instituíssem o padrão-ouro da comédia romântica, a figura da mulher implacável e que não para diante de nada se fixou de maneira quase espontânea.
Num dos primeiros exemplares do gênero, Precisa-se de um Homem, de 1932, a estrela Kay Francis é a todo-poderosa editora de uma revista que faz David Manners passar pelo rebaixamento de trabalhar como seu secretário, mais ou menos como em A Proposta. Em Ninotchka, de 1939, a obra-prima de Ernst Lubitsch, Greta Garbo é uma dirigente comunista tão linha-dura que nem o esplendor do capitalismo a faz vacilar (só Melvyn Douglas é capaz disso).
E, em A Costela de Adão, de 1949, Katharine Hepburn e Spencer Tracy são um casal de advogados que se opõe no tribunal – e é ela a verdadeira litigante, para não dizer beligerante. O curioso é que essas mulheres não eram punidas pelo roteiro por serem carreiristas – nada, para elas, dos queixumes, neuroses e solidão de heroínas românticas mais recentes, como aquelas que Meg Ryan se especializou em interpretar.
Talvez seja esse o dado que tornou A Proposta um sucesso espontâneo. O filme, é verdade, obriga Margaret a amolecer. Mas só bem perto do final. Até aí, apesar das limitações do enredo esquemático, Sandra Bullock, às vésperas de fazer 45 anos, tem a chance de expor as arestas duras e cortantes de sua personalidade – as quais compõem boa parte de seu apelo, mas que ela quase sempre teve de ocultar ou contornar.
Uma mulher vista assim por inteiro pode ser fascinante, e não há dúvida de que foi esse espetáculo que fez Meryl Streep emergir de O Diabo Veste Prada, aos 57 anos e contra todos os credos da indústria, como a mais rentável estrela americana do momento.
Sandra não é uma atriz do seu calibre, mas leva para um papel como o de Margaret um elemento verossímil: por mais que faça, não consegue esconder de todo que é independente, mandona e teimosa, e que portanto baixaria mesmo a guarda com mais facilidade para um homem que conhece de antemão seus aspectos mais indóceis,
que é livre de vaidade o bastante para conviver com eles e que poderia completá-la com a acessibilidade que ela não tem – um tipo de homem que Ryan Reynolds, um ator que gosta de papéis em que o ego masculino é desafiado e que nunca joga com a aparência, apesar de ela ser excelente, faz também parecer crível e possível (pura ilusão cênica; ele é casado com Scarlett Johansson).
É pena que A Proposta não tenha coragem de deixar sua protagonista em paz.
No final, quando o filme trata de colocá-la na linha, aquela cena que uma hora antes parecera tão gratificante, de Margaret ajoelhada numa calçada, com as solas vermelhas dos sapatos Louboutin expostas ao público como um emblema da derrota feminina, acaba por perder muito da sua glória.
Não é que, na sua versão meiga, Margaret seja ruim. É que quando ela era má ela era muito melhor. E bem mais interessante.

Lya Luft
A outra epidemia
"Como de um lado nos tornamos mais abertamente corruptos e de outro estamos mais condescendentes, instalou-se entre nós uma epidemia moral"
Para mim, escrever é sempre questionar, não importa se estou escrevendo um romance, um poema, um artigo. Como ficcionista, meu espaço de trabalho é o drama humano: palco, cenário, bastidores e os mais variados personagens com os quais invento histórias de magia ou desespero. Como colunista, observo e comento a realidade. O quadro não anda muito animador, embora na crise mundial o Brasil pareça estar se saindo melhor que a maioria dos países.
De tirar o chapéu, se isso se concretizar e perdurar. Do ponto de vista da moralidade, por outro lado, até em instituições públicas que julgávamos venerandas, a cada dia há um novo espanto. Não por obra de todos os que lá foram colocados (por nós), mas o que ficamos sabendo é difícil de acreditar.
Teríamos de andar feito o velho filósofo grego Diógenes, que percorria as ruas em dia claro com uma lanterna na mão. Questionado, respondia procurar um homem honrado.
Vamos ter de sair aos bandos, aos magotes, catando essa figura, não uma, mas multidões delas, para consertar isso, que parece não ter arrumação? Se os homens nos quais confiamos, em seus cargos importantes, já não servem de modelo, devemos dizer aos nossos filhos e netos que não olhem para aquele lado nem os imitem?
O Senado da República, só para citar um caso atual, teve sua maior importância em Roma, a antiga, e se originou nos milenares conselhos de anciãos, ou homens sábios e meritórios de tempos remotos.
O Senado Romano também não era um congresso de santos: até Brutus ali tramava, ocultando nas vestes o punhal com que mataria Júlio Cesar, seu protetor. Afinal eram – e são – todos apenas humanos, e o problema sempre começa aí. A noção idealizada de um grupo de homens virtuosos liderando tornou-se mais realista, levando em conta as nossas mazelas.
E daí? – dirão os mais céticos. Toda família tem seu esqueleto no armário, todo povo também: houve papas assassinos e mulherengos, reis dementes, rainhas devassas, e alguns normaizinhos, que só buscavam cumprir seus deveres e cuidar da sua gente sem prejudicar ninguém.
Ilustração Atômica Studio
Eu queria preservar a imagem dos homens públicos como uma estirpe vagamente nobre, em cargos solenes, que lutariam pelo país ou por sua comunidade, por nós todos, buscando antes de tudo o bem dos que neles confiaram. Em caso de dúvida ou perplexidade, a gente olharia para eles e saberia como agir. Mas, como de um lado nos tornamos mais abertamente corruptos e de outro estamos mais condescendentes, instalou-se entre nós uma epidemia moral.
Se fomos criados acreditando que o importante não é ter poder, mas ser uma pessoa honrada, estamos mal-arranjados. Pois, na vida pública, não malbaratar o dinheiro, não fazer jogos de poder ilícitos, não participar das tramas, ficar fora da dança dos rabos presos em que todos se protegem, virou quase uma excentricidade.
Quem sabe o jeito é engolir sapos inaceitáveis: fim para o idealismo, treinem-se um olho clínico e cínico, enchendo bolsos e esvaziando pudores na permissividade geral que questiona o velho conceito de certo-errado. Talvez ele não passe de uma ilusão envelhecida, para sobreviver em vez de afundar.
Não sei. A cada dia sei menos coisas. Antigas certezas se diluem: calejados pelas decepções, vacinados contra a indignação, não sabemos direito o que pensar. Então não pensamos.
A sorte é que apesar de tudo o país anda, a grande maioria de nós labuta na sua vidinha, trabalhando, pagando contas, construindo casas e ruas e pontes e amores e famílias legais.
Lutando para ser pessoas decentes, as que carregam nas costas o mundo de verdade. É a nós – o povo, independentemente da cor, da chamada classe, da conta bancária ou do lugar onde mora – que os ocupantes de cargos públicos devem servir.
Nós os elegemos e pagamos (coisa que nosso lado servil costuma esquecer), e não podemos ser contaminados por essa epidemia contra a qual não há vacina, mas para a qual é preciso urgentemente encontrar alguma cura. Enquanto ela não chega, mais uma vez eu digo: meus pêsames, senhores.
Lya Luft é escritora

David Cohen e Thiago Cid. Com Nádia Mariano e Rafael Pereira
Dá para ser feliz no trabalho?
Dois novos livros de filósofos redefinem a importância da atividade profissional para nossa formação como seres humanos. E ajudam a responder a uma pergunta que aflige milhões de pessoas
É possível que algum dia olhemos o trabalho, tal como ele é exercido hoje, com uma espécie de nostalgia. Talvez os estudiosos do futuro descrevam os escritórios do início do século XXI como locais de encontro e aprendizado, de uma vida social relativamente rica, em que as pessoas eram instigadas a resolver problemas, fazer amigos, às vezes viver romances, exercitar um pouco de política, gastar algumas horas em conversas fiadas perto da máquina de café, navegar pela internet e – por que não? – até realizar algum serviço útil de quando em quando.
Para ter uma visão benevolente do mundo do trabalho, basta olhar sua evolução. Na maior parte da história da civilização, os bens que consumíamos eram feitos por escravos ou servos.
Mesmo o trabalho livre não o era tanto. Artesãos da Idade Média costumavam dormir embaixo da bancada em que trabalhavam, nas guildas europeias. No início da era industrial, a situação não era melhor: as jornadas podiam chegar a 14, 16 horas, inclusive para crianças, e não havia regulamentação de nenhuma espécie.
Pode causar algum espanto, então, que os pensadores modernos encarem a rotina trabalhista de hoje como um problema, uma questão a ser esclarecida, entendida... trabalhada. Isso acontece porque o trabalho adquiriu um significado completamente novo, como mostram dois livros recém-lançados por dois filósofos modernos. Em cada um deles, o trabalho – e seu papel em nossa vida – é totalmente redefinido.
Em The pleasures and sorrows of work (Os prazeres e tristezas do trabalho, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), o filósofo suíço-britânico Alain de Botton afirma: “A mais notável característica do trabalho moderno talvez esteja em nossa mente, na amplamente difundida crença de que o trabalho deve nos tornar felizes. Todas as sociedades tiveram o trabalho em seu centro.
A nossa é a primeira a sugerir que ele possa ser muito mais que uma punição ou uma pena. A nossa é a primeira a sugerir que deveríamos trabalhar mesmo na ausência de um imperativo financeiro”. Tão ligado está o trabalho à definição de nossa identidade que, quando somos apresentados a uma pessoa, a pergunta mais imediata que fazemos não é de onde ela vem ou quem é sua família, mas o que ela faz.
Se o trabalho assumiu essa importância tão central em nossa vida, é natural que não nos contentemos apenas com o que ele nos traz. Nós sempre soubemos que o trabalho é a ação de transformar algo: matéria-prima em objetos, tarefas em serviços. Hoje nos preocupamos também com o que ele faz de nós, como ele nos transforma.
Para Botton, tentar extrair a felicidade do reino do trabalho – e também do amor – é pedir demais. “Não é que essas duas instâncias sejam invariavelmente incapazes de nos dar satisfação, apenas elas quase nunca o fazem”, diz.
Seu livro é uma grande reportagem que investiga o significado do trabalho, num mundo que parece ter realizado uma das profecias de Karl Marx: a alienação.
“Há dois séculos, nossos antepassados sabiam a história e a origem precisa de praticamente todas as poucas coisas que comiam ou tinham, bem como das pessoas e ferramentas envolvidas em sua produção”, afirma Botton.
“Nós estamos hoje mentalmente desconectados da manufatura e distribuição de nossos bens, num processo de alienação que nos tira uma infinidade de chances de nos maravilhar, ser gratos e nos sentir culpados.”

11 de julho de 2009
N° 16027 - NILSON SOUZA
Ofícios do passado
Encontrei dia desses na minha caixa postal eletrônica uma seleção de imagens de profissões extintas, ou quase, pela modernidade e pela tecnologia.
São pinturas belíssimas, que retratam ofícios do passado e todo o cenário de nostalgia onde eles eram exercidos por homens e mulheres que habitaram o pretérito perfeito da minha infância. Reconheci-os imediatamente.
Lá estava o marceneiro alisando carinhosamente um pedaço de madeira com a sua lixa fina, como tantas vezes vi meu saudoso tio Luizinho fazer na sua oficina de trabalho, de onde saíam cadeiras e armários de acabamento perfeito.
Quando era menino, gostava de correr entre as tábuas empilhadas e de sentir o cheiro da serragem e do esmalte que caracterizavam diferentes etapas daquele artesanato.
Na tela seguinte, deparei com um ferreiro, segurando sobre o joelho a pata de um belo cavalo branco, para aplicar-lhe os cravos da ferradura nova. Também esta cena faz parte da minha memória infantil, com cheiro e tudo.
Lembro-me muito bem do ferro incandescente arrancando fumaça do casco do animal, na moldagem do local exato onde a meia-lua de aço seria pregada. Era uma operação um tanto selvagem, que me fazia admirar a coragem e a força do ferrador, ao mesmo tempo em que me despertava compaixão pelo animal.
O sapateiro à moda antiga foi outro que me fez recuar no tempo para observar, em respeitoso silêncio, aquele homem recendendo à cola, que transformava pedaços de couro bruto em solados e saltos.
O que me impressionava naquele artífice compenetrado na sua tarefa solitária era a habilidade para pregar tachinhas sem martelar os dedos, até que a ponta da minúscula cunha entortasse no pé de ferro.
Um afiador de facas deu som e luz às minhas lembranças. Esse homem, que ainda desfila pelas periferias das grandes cidades tocando o seu instrumento ancestral, atraía a atenção da criançada como um flautista de Hamelim.
Depois, instalava-se diante de um esmeril e fazia sair faíscas dos facões e machadinhas que lhe alcançavam as donas de casa. O afiador era uma espécie de gladiador da minha infância.
Outros personagens igualmente embaciados pelo tempo completam o mosaico de saudade: um tecelão, um tipógrafo, um sineiro, um queijeiro, uma costureira, uma rendeira, todos com seus instrumentos antigos.
É curioso pensar que o mundo que conhecemos hoje, incluindo este computador capaz de ligar passado e futuro, foi lapidado pelas mãos desses trabalhadores.

11 de julho de 2009
N° 16027 - ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES
Churrascos diferentes
Todo mundo conhece o churrasco gaúcho. Cada vez que se fala na rica culinária campeira, o primeiro nome que aparece é sempre o do churrasco. Antes mesmo de o gaúcho surgir no pampa, já o padre Anton Sepp, S.J., mencionava o churrasco entre os índios na primeiras reduções missioneiras. O que não se menciona é que há vários tipos de churrasco, cada um mais delicioso do que o outro.
Já fiz aqui em outras oportunidades a diferença entre churrasco, assado e carne assada: o churrasco é no espeto, o assado é na grelha e a carne assada é no forno. Mas existem várias opções sobre as três, vários tipos de carne que se prestam para qualquer categoria.
Vale a pena citar em primeiro lugar – porque talvez seja o mais antigo – o assado com couro, muito usado na Argentina e no Uruguai e raro aqui no Rio Grande do Sul. O segredo é fazê-lo como assado, com o couro virado para as brasas sem deixar queimar o pelo.
Outro é o assado de panela. É só escolher a carne (quase sempre picanha) e colocá-la no fundo da panela com um pouco de sal grosso. Fica meio rijo, mas é rápido e gostoso.
Mas o mais rápido é o chamado churrasco de tropeiro: escolhe-se um bom pedaço de carne, tipo vazio ou picanha, bota-se um pouco de sal e se faz um fogo com labareda forte. Já fiz fogo para o churrasco de tropeiro até com papel e folha seca!... Leva-se ao fogo com o longo espeto na mão, girando rapidamente. Retira-se do fogo, bota-se de novo, sempre girando.
A carne é rapidamente sapecada. Em cinco, 10 minutos no máximo, pode-se começar a comer, tirando lascas da superfície da carne. Quando fica exposta a carne crua do interior, repete-se o processo. Já fiz churrasco assim até para um Festival de Cinema. O ator Paulo José e a então sua mulher Dina Sfat adoraram a solução de emergência.
O mais original é o assado de maneador, delicioso. O segredo está no carnear. Coureada a rês, um índio bom de faca começa a tirar, desde a ponta do peito, uma tira de carne com matambre de uns quatro dedos de largura.
Com isso se tira uma grande armada ininterrupta. Pode-se assá-la enrodilhada ou estendida. Fiz esse assado de maneador uma vez na fazenda do Rodi Pedro Borghetti com aplausos gerais.
Já fiz também o churrasco de chuva. Assar carne na chuva é sempre problema. Numa cavalgada, espetei a carne, salmoreei e liguei um maçarico num liquinho. E assim, com o maçarico, assei a carne. Fica um pouco com gosto de gás, mas pior é nada, como dizia uma velha que era amante de um anão...
Pode-se assar também ovos de touro, coração de ovelha, rins de ovelha, tripa gorda de ovelha, úbere de vaca e até tapichi, o terneiro que ainda não nasceu. “Tudo serve em campanha”, dizia o meu tio Julio Machado, quando recebia no truco apenas um três. Ou um dois.

11 de julho de 2009
N° 16027 - PAULO SANT’ANA
Boletim médico
Volto a esta coluna em protesto pelo fato de que pedi ao meu interino de ontem, Cláudio Brito, que escrevesse pelo menos uma frase em sua coluna dizendo que eu estava doente, com nove doenças, por isso não podia escrever.
Ele escreveu que eu não iria assinar a coluna de ontem por estar em casa “a recuperar-me do turbilhão de homenagens que tinha recebido em meu aniversário”.
Ou seja, me chamou de relapso, irresponsável e ressacado.
De uma vez por todas, meus interinos são amorosos comigo, mas tecnicamente inconfiáveis.
Por que eu quero bem às pessoas e as pessoas me querem bem?
Garanto que é porque elas me encantam, fazem os meus dias melhores, chamam-me a atenção para a delícia em que se constitui a minha vida até mesmo por tê-las em meu convívio.
E elas me querem bem certamente porque eu as valorizo, faço-as entender que são imprescindíveis para meu bem-estar e para o bem-estar dos outros todos que nos circunvizinham.
E assim se constitui numa farra de afetividade a nossa relação.
Eu ando empanturrado de tanto colóquio de amizade.
O mais instigante episódio acontecido na festa do meu aniversário se deu quando planejamos sentarem-se à mesma mesa a governadora Yeda Crusius e a esposa do prefeito da Capital, Isabela Fogaça.
Elas se saudaram formalmente amistosas e foram alvo dos cochichos de todos os convidados: afinal, semanas antes, um ato que se diz partido diretamente da governadora proibira Isabela Fogaça de cantar na solenidade que antecedia o jogo Brasil x Peru, no Beira-Rio.
A imprensa noticiou que houve rompimento de relações não só de Isabela, como também do prefeito Fogaça com a governadora. Se não rompimento, pelo menos agravamento nas relações.
Pois bem, estavam ambas sentadas à mesma mesa na festa do meu aniversário. Enquanto rolavam os discursos, os cantos, os recitais, o ambiente em torno da mesa das duas, a mesa principal, logicamente, era de curiosidade.
Porque todos comentavam que elas estavam fazendo as pazes, celebrando as pazes no meu aniversário.
Então cantou comigo a governadora no palco, depois cantou sozinha, alvo de grandes aplausos.
Aí convidei Isabela Fogaça para ir até o palco e cantar, comigo ou sozinha. Ela, se bem me lembro, optou por cantar sozinha.
A governadora Yeda estava atenta a tudo. Juro que passava pela cabeça da governadora que Isabela Fogaça a perdoara pelo veto do Beira-Rio. Foi quando perguntei a Isabela o que ela iria cantar.
Ela olhou fundo nos olhos da governadora e saiu cantando, ao som dos dois violões, atacando de Lupicínio: Nunca, Nem que o mundo caia sobre mim Nem se Deus mandar,
Nem mesmo assim, As pazes contigo eu farei...O prefeito Fogaça, na mesa, mal conseguia dissimular o êxito do sibilino desagravo.

11 de julho de 2009
N° 16027 - CLÁUDIA LAITANO
Filisteus
Esqueça todos os vilões de novela e suas motivações estapafúrdias para atormentar a vida da mocinha até o último capítulo. A minissérie Som & Fúria, que estreou esta semana na RBS TV, colocou em cena um tipo de vilão até então inédito na TV. Suas motivações não são arrivismo social, paixão não correspondida ou trivial sociopatia.
Os personagens sombrios da trama dirigida por Fernando Meirelles são o que poderíamos chamar de “vilões culturais”: criaturas que, por ignorância, pobreza de espírito ou arrogância, não acreditam que um livro, uma peça, uma música, ou mesmo um programa de TV, possam realmente fazer diferença na vida de alguém – e ainda se dedicam a atrapalhar a vida de quem pensa diferente.
Em linhas gerais, Som & Fúria conta a história de uma companhia de teatro shakespeariana às voltas com dramas individuais e artísticos universais, além de algumas circunstâncias específicas da cena cultural brasileira: a dependência de patrocinadores e favores políticos, o embate entre talento e fama, o miserê generalizado.
Sobra gozação para todo mundo: artistas e administradores, gestores públicos e empresários, gerentes de marketing e intelectuais, além de referências a personagens reais do teatro brasileiro.
(Se você perdeu os primeiros capítulos porque estava acompanhando a vigésima reprise do funeral de Michael Jackson ou os flashes do palpitante casamento do Pato, ainda pode apanhar a série no meio do caminho, a partir da próxima terça-feira. Vale a pena.)
A piada mais escancarada (e divertida) dos primeiros capítulos foi ao tipo gênio afetado, representado pelo personagem Oswald Thomas (Antônio Fragoso) – obviamente inspirado no diretor Gerald Thomas, conhecido por montagens tão herméticas quanto pretensiosas.
Falando metade do tempo em inglês, esnobe no limite e muito convicto de sua importância e genialidade, Oswald é o antagonista de Dante (Felipe Camargo), o ator em crise que simboliza a paixão pelo teatro “de verdade”, aquele que pretende fazer o espectador pensar (e sentir) e não apenas diverti-lo ou deslumbrá-lo com cortinas de fumaça.
Se Oswald Thomas é o símbolo da ousadia vazia, os burocratas culturais Ricardo (Dan Stulbach) e Graça (Regina Casé) são a encarnação do filisteu triunfante – aquele tipo de pessoa que não apenas não move uma sobrancelha diante de uma obra-prima como possui um secreto (ou nem tanto) orgulho do próprio analfabetismo e insensibilidade.
Como se tudo o que eles não conhecem, ou não entendem, fosse imediatamente desprovido de qualquer valor para o resto da humanidade. Tenho certeza de que você conhece alguém assim – e quanto mais poderoso, por dinheiro ou posição, mais status de verdade incontestável o filisteu empresta a sua ignorância.
Em um diálogo muito divertido, Ricardo e Graça proclamam sua paixão por musicais – a provocação aqui é com Miguel Falabella, que estreia hoje no Rio a versão brasileira do musical Hairspray e tem se especializado no gênero. Eles se perguntam por que, raios, continuar montando Shakespeare se todo mundo sai muito mais feliz de um musical da Broadway.
Eis a questão que Som & Fúria tenta responder, usando uma trama contemporânea como pretexto para mostrar como o texto de Shakespeare permanece vivo, luminoso e surpreendente – há mais de 400 anos. Para quem quiser (e puder) ver.
Sexta-feira, Julho 10, 2009

INÁCIO ARAUJO - CRÍTICO DA FOLHA
"Se Meu Apartamento..." equilibra risos e lágrimas
Entre tantos filmes bons que Billy Wilder fez, o que mais me encanta é "Se Meu Apartamento Falasse" (TC Cult, 19h40; 12 anos), porque ali consegue equilibrar quase tudo: o sórdido e o patético, o ingênuo e o libertino, o doméstico e o profissional, o riso e as lágrimas, o sensível e o insensível.
Eles aparecem na história do sujeito que cede o apartamento para os encontros amorosos do chefe, almejando a uma promoção, porém acaba se apaixonando pela garota. Um fantástico trio de atores -Shirley MacLaine, Jack Lemmon, Fred MacMurray- puxa o elenco.
Hoje a concorrência está incrível. Às 17h35, o TC Cult exibe "Janela Indiscreta" (livre), de Hitchcock, ao mesmo tempo em que o TCM mostra "A Dama de Shangai" (17h50; 12 anos), de Orson Welles. Mas talvez mais surpreendente seja descobrir "Serras da Desordem" (TV Brasil, 22h; 10 anos).
Bons filmes para se ver meus amigos, sem contar todos os outros dos canais pagos - Portanto boa companhia e pipoca é que devem ser providenciados...Só isso....

JOSÉ SIMÃO
Socuerro! Miriam Porcão vira selo!
É verdade! Virou selo na terra dela! E quem lamber o selo da Miriam Porcão pega gripe suína?
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-Geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Direto do Mato Grosso: "25 mulheres ficam presas em celas de homens por falta de cárcere". Como é o nome da cidade? CÁCERES! Rarará!
E buemba! Miriam Leitão vira selo em Caratinga! É verdade! Ela virou selo na terra dela. E quem lamber o selo da Miriam Porcão pega gripe suína? Rarará! E o problema não é a Miriam Leitão ter virado selo, o problema é dar um selinho na Miriam Leitão! Rarará!
E não tem aquele ditado: eu vou lambendo selo, se colar colou? Agora é: eu vou lambendo a Miriam Leitão, se colar colou. E um amigo meu quer processar a Leitão por pessimismo enganoso. Rarará!
E ontem, 9 de julho, foi feriado em São Paulo. Revolução Constitucionalista! Que perdemos. Perdemos a guerra, mas ganhamos um feriado! E o que abre e o que fecha nesse feriadão? AS PERNAS! E paulista usa feriadão pra relaxar. Porque passa a semana inteira reclamando: tô estressado! tô estressado. Aí vai viajar e estressa todo mundo.
Vai pro restaurante: "Se fosse em São Paulo, a comida já tava pronta!" Fura o pneu do carro: "Se fosse em São Paulo, já teriam trocado o pneu!" Rarará! Leva o stress pra passear! E eu tenho uma amiga tão galinha, mas tão galinha que recebeu o apelido de Imigrantes: ninguém vai pra praia sem passar por ela. Rarará.
E sabe o que o Lula devia fazer nas férias de julho? Lançar um IPOD. Imposto sobre Praias, Ondas e Derivados! Rarará! E feriadão em Sampa é assim: o silêncio tá muito alto!
E Honduras, hein? Honduras parece aula de geografia: Honduras, capital Tegucigalpa! E eu vi uma manifestação a favor do golpista, que eles chamam de oposição.
Oposição shopping center: só tinha mauricinho e loira farmácia de jeans e salto alto.
Oposição Miami! É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.
É que em Recife tem um clube pra terceira idade chamado CRI. Clube das Rolas Imprestáveis. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. O Lula tá em férias escolares. Eternas. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis.
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br

ARNALDO NISKIER
O sertanejo é, antes de tudo, um forte
Os textos euclideanos são extremamente coerentes e, hoje, despertarão grande interesse por parte dos estudantes
PEDE-ME A direção da 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS) que lhes fale sobre a atualidade de Euclides da Cunha, um dos maiores (e mais complicados) escritores brasileiros de todos os tempos.
Sua narrativa a respeito de Antônio Conselheiro, em "Os Sertões", é bem elucidativa do seu personalíssimo estilo: "Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerceu grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade.
Deixou crescer a barba e cabelos..." Dois paulistas se encontram na Academia Brasileira de Letras e o tema é o centenário da morte de Euclides da Cunha, nascido em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. A recordação foi até aquela manhã de domingo, 15 de agosto de 1909, quando o genial autor de "Os Sertões" foi assassinado pelo amante da sua esposa, Ana, o tenente Dilermando de Assis, com quem trocou tiros no bairro carioca da Piedade.
Um dos interlocutores (Cícero Sandroni) lembrou as sucessivas ausências de Euclides do lar, absorvido pelas obras a que estava obrigado, como engenheiro, inclusive a famosa ponte de São José do Rio Pardo, até hoje de pé. O outro (Paulo Nathanael Pereira de Souza) confirmou esses vazios: "Foi no interior paulista que ele escreveu as sucessivas matérias do jornal "O Estado de S. Paulo", que deram origem à epopeia de "Os Sertões". E construiu diversas casas".
Deixando de lado a tragédia que marcou o fim de um dos nossos maiores escritores, concentramo-nos na obra literária do acadêmico Euclides da Cunha. Homem de grande cultura, misto de civil e militar, foi engenheiro, historiador, geógrafo, jornalista, poeta e permanente defensor da natureza, o que na sua época não era muito comum.
Podemos qualificá-lo como engenheiro das palavras. Ajudou, com a sua métrica poética, a compreender melhor o Brasil. Condenou veementemente o crime cometido pela República nascente, no interior baiano, dizimando a população sertaneja de Canudos.
Antes do episódio histórico, chegou a condenar o movimento messiânico de Antônio Conselheiro, "que deveria ser debelado com pulso forte", mas, ao testemunhar pessoalmente, durante pouco menos de dez dias, o horror da chacina, mudou drasticamente de posição, produzindo o seu libelo de repercussão internacional.
Foi então que nasceu a expressão "o sertanejo é, antes de tudo, um forte", capaz de resistir com bravura a toda espécie de óbice natural ou humano.
Euclides foi além e condenou, há mais de cem anos, as queimadas e os desmatamentos. Utilizou o seu linguajar erudito, algumas vezes até incompreensível, para defender a Amazônia e os seus rios caudalosos. Tornou-se um ecologista indignado, como ao dissertar sobre as cidades mortas do interior paulista, após o auge da cultura do café.
Sob esse aspecto, os textos euclideanos são extremamente coerentes e, hoje, certamente despertarão grande interesse por parte dos estudantes, sobretudo de ensino médio, desde que devidamente orientados por mestres competentes.
No livro "Contrastes e Confrontos", Euclides da Cunha, que discursou diante do caixão de Machado de Assis, seu contemporâneo, parece adivinhar que a leitura dos seus textos não é um exercício dos mais fáceis.
Para maior proveito, sugere que se considere o "remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes". É preciso dissecar esse pensamento, para compreender o sentido do que ele pretendeu com os seus escritos.
Vale a advertência, para os que se irão iniciar em Euclides da Cunha, cujo centenário comemoramos neste ano, de que é importante ultrapassar os primeiros passos da caminhada literária. Mesmo em "Os Sertões", se não houver paciência, é bem possível que o leitor desista antes da metade.
Mas, se vencer essa etapa, conhecerá as luzes de um dos textos mais bonitos da língua portuguesa, tão rica de grandes autores.
ARNALDO NISKIER, 73, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do Ciee-RJ (Centro de Integração Empresa-Escola), é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e autor do livro "Vozes da Educação".

Cortes transversais em temas contemporâneos
Donaldo Schüler, professor, também poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor, recebeu o prêmio de melhor tradução em 2003 da Associação Paulista de Críticos de Arte, por Finnegans Wake de James Joyce. Atualmente, entre outras atividades, ele que é dos mais importantes intelectuais brasileiros, é consultor acadêmico do projeto Fronteiras do Pensamento.
A partir das conferências proferidas no Fronteiras de 2008, Donaldo construiu sua obra mais recente, intitulada Fronteiras e Confrontos.
O trabalho está estruturado a partir de quatro grandes temas, elaborados com base nas conferências e com base nas ideias defendidas pelo público. Fronteiras é a primeira parte e trata de globalização, muros, dizer e não dizer, explosões verbais e toma como mote para muitos textos a obra do escritor gaúcho Vianna Moog.
A segunda parte do volume, chamada O Homem, fala da fábula envolvendo Aquiles e a tartaruga, do novo humanismo, de ação, máquinas desejantes e imagens, fazendo referência ao filme Em águas profundas, de David Lynch.
O terceiro grande tema enfocado pelo autor é Ética, a partir das doze tábuas, dos dez mandamentos e da Crítica da razão prática, do filósofo Emmanuel Kant.
No desenvolvimento do assunto, Donaldo faz referências aos filmes O invasor, de Beto Brant, Tropa de elite, de José Padilha, e reflete sobre o tema central, desde as cavernas até o episódio terrorista das Torres Gêmeas.
Na parte final do volume, intitulada Lugares, o autor discorre sobre o lugar da arte, a terra, carência e utopias, mencionando Ulisses de James Joyce e Cem anos de solidão de García Márquez.
Nas páginas finais estão dezenas de referências bibliográficas, para que os leitores possam buscar maiores detalhes sobre os temas tratados e aprofundar, ainda mais, reflexões e conhecimentos sobre os relevantes temas contemporâneos tratados.
Realizando costuras inéditas, trançando abordagens diversas e estabelecendo cortes transversais, Donaldo Schüler oferece aos leitores caminhos e possibilidades variadas para o estudo e a compreensão dos temas tratados, temas que fazem parte de nosso cotidiano e que merecem olhares atentos.
Fronteiras e Confrontos tem 200 páginas e foi publicado pela Editora Movimento, telefone 3232-0071.
Bem ainda que a sexta-feira seja cor de cinza por aqui e temperatura muito baixa, é bom saber que você está bem e que estará retornando as suas aulas hoje. Um ótimo fim de semana para todos nós

A aventura espiritual e a vida do maior compositor de todos os tempos
A série de quatro romances históricos Mozart, de Christian Jacq, nascido em Paris em 1947, egiptólogo renomado, autor da aclamada série Ramsés de cinco volumes (11 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo), retrata a aventura espiritual e a vida do menino prodígio Mozart, o maior compositor de todos os tempos e uma das maiores personalidades artísticas da história do mundo.
O volume l, Mozart- O Grande Mago, descreve a descoberta da música na vida do gênio e sua ligação com a franco-maçonaria. Com apenas sete anos, Wolfgang Amadeus Mozart não só já havia feito longas viagens, mas também se apresentara em Praga, Viena e Frankfurt. Criança genial, compunha para "descobrir as notas que se atraem" e tinha um segredo que lhe dava forças quando se sentia muito cansado, um tesouro só dele: um país imaginário, onde ele era o rei, lindamente desenhado num mapa que sempre carregava consigo.
Christian Jacq, doutor em Estudos Egípcios pela Sorbonne, é o autor francês mais lido atualmente no mundo e publicou sucessos como A pedra da luz, As egípcias, Mundo mágico do Antigo Egito, Nefertiti e Akhenaton, A Rainha Sol, A sabedoria do antigo Egito e Filae, todos publicados no Brasil pela Bertrand Brasil.
Em Mozart, um megasucesso na França e em outros países, o autor retrata uma jornada eletrizante na vida do grande mestre da música, através de uma verdadeira aula de cultura e erudição.
A história é ao mesmo tempo fascinante e acessível e o ritmo da narrativa está no tom certo. O segundo volume da série, O filho da luz, trata da criação e do nascimento das composições que se tornariam eternas e mundialmente conhecidas.
A ligação com a franco-maçonaria ganha destaque em sua vida e As bodas de fígaro estão a caminho. No volume 3, Mozart - O irmão do fogo, Mozart mergulha nos rios maçônicos e obtém inspiração para compor duas grandes óperas. Apaixona-se, torna-se pai e dá início a uma carreira promissora, mas sombrias ameaças pegam o compositor.
No quarto e último volume, Mozart - o amado de Ísis, ele finalmente atinge o auge de sua criação artística e compõe sua grande obra: A flauta mágica.
Mas os inimigos não vão lhe dar trégua e a prova suprema se aproxima, colocando Mozart e sua grandiosidade perante as dificuldades. 406 páginas, R$ 45,00, Bertrand Brasil, telefone (21) 2585.2070.

10 de julho de 2009
N° 16026 - DAVID COIMBRA
Dois mil anos atrás
Há uma cena de Calígula que é sempre citada por qualquer pessoa que tenha assistido ao filme, qualquer uma, infalivelmente, desde o seu lançamento, três décadas atrás.
É quando o César em pessoa irrompe no casamento de um de seus centuriões, toma os noivos pelas mãos, puxa-os para outra peça da casa e, lá, sobre uma tosca mesa de madeira, deflora a noiva, para em seguida, empregando banha de porco como lubrificante, empalar o noivo com o próprio punho, havendo o agravante de sua mão estar adornada pelo robusto anel metálico com o selo imperial.
O filme fez Porto Alegre trepidar de excitação. As filas emergiam das portas dos cinemas e se alongavam pelas calçadas naquele tempo de cinemas de calçada, e quebravam as esquinas, uma, duas, três esquinas.
Era preciso apresentar carteira de identidade para entrar. Carteirinha de estudante não valia, tinha de ser identidade, a fim de garantir que nenhum menor inocente testemunhasse as cenas de sexo, mais do que explícito, furibundo.
Calígula tornou-se célebre quase que só por suas passagens sexuais. Uma injustiça. O filme tem várias boas qualidades. Em primeiro lugar, é fiel ao relato histórico da vida na Roma dos primeiros césares.
Em segundo, a trama é bem urdida e bem contada. Em terceiro, alguns atores são craques. Dois deles pegam a camisa 10 de qualquer seleção de Hollywood: Malcom McDowell e Peter O’Toole. Esses dois, aliás, ficaram furiosos com o diretor, alegando que foram enganados por ele – as cenas mais escandalosas de sexo teriam sido acrescentadas depois que McDowell e O’Toole gravaram suas participações.
De fato, as cenas de sexo de Calígula são um tanto quanto... cruas, por assim dizer, mas os hábitos sexuais dos antigos romanos eram mesmo... crus.
A segunda passagem mais citada de Calígula é uma em que o imperador decide prostituir as mulheres e as filhas dos senadores. Elas são conduzidas à força a um bordel com o preço tabelado: 20 minutos de refestelo com uma parenta de senador custa cinco moedas de ouro, que serão repassadas patrioticamente para o tesouro do Estado.
Caio Calígula tinha especial apreço por ridicularizar o Legislativo, a ponto de empossar como senador o seu cavalo Incitatus. Seu desprezo pelo Senado valeu-lhe o amor do povo. Calígula só caiu em desgraça com os súditos quando a fome assolou Roma.
Passados 20 séculos, aqui estamos nós brasileiros, como todo o Ocidente, herdeiros culturais do Império Romano. Hoje, como no século 1, os brasileiros exultariam ao ver deputados e senadores humilhados. Hoje, como no século 1, os brasileiros amam seu governante apenas porque, como os velhos césares, ele lhes dá pão.
Dois mil anos de guerras travadas, de filosofias concebidas, de livros escritos, de palavras atiradas ao vento, e o povo é o mesmo, e os governantes são os mesmos, e os legisladores são os mesmos.
Dois mil anos de suposta evolução e, assistindo ao repulsivo matrimônio de Lula e Sarney, a única triste conclusão a que se chega é que nada, realmente nada muda debaixo do sol.

10 de julho de 2009
N° 16026 - PAULO SANT’ANA | INTERINO
Socorro por imposição
Deve-se ou não dar esmolas? Como agir no embate dos mandamentos cristãos com as lições dos sociólogos e assistentes sociais? As esquinas da cidade estão ganhando novos moradores a cada noite e se diz que nada pode ser feito para afastá-los dali, como vi ontem neste jornal.
Retirados hoje, voltarão amanhã. Para uma nova retirada e outra volta no dia seguinte. Não se pode obrigar as pessoas a buscarem suas casas e suas turmas.
Existam casas e turmas, ou não. Não se pode forçar a abrigagem em algum albergue, oficial ou privado. Usa-se a Constituição Federal para justificar a atitude aparentemente desleixada das prefeituras, ONGs e outros órgãos assistenciais. Afinal, todos têm direito a ir, vir e ficar onde bem entendam.
Belas desculpas para nada se fazer. Sei que mexo em tema delicado e controvertido.
Lamento a oposição que por certo virá ao meu pensar, mas está na hora de se impor o socorro aos necessitados. A mesma Constituição que assegura dignidade às pessoas deve servir de instrumento a que se dê amparo a todos, mesmo aos que dizem não querê-lo.
A esmola reproduz a miséria?
Se for limitada ao alcance caridoso das avenidas, naquele gesto que mais alivia a quem dá do que beneficia a quem recebe, posso até concordar. E se o poder público souber canalizar a boa vontade da população e realizar programas que envolvam a comunidade?
Com efetividade e não como um faz de conta. Há quem prepare uma sopa todas as noites para levá-la aos que estão estirados na calçada? Pois que se lhes dê a sopa, com a condição de que os beneficiados a recebam no albergue. Que essa força solidária o Estado saiba usar adequadamente.
Não posso entender que os técnicos da assistência social vejam como adversários os cidadãos dispostos a gestos de bondade. Não lhes parece razoável reunir toda essa disposição e convidar a cidadania a uma participação organizada e voltada ao mesmo fim?
Não me venham dizer que os pobres preferem as ruas para gozarem de liberdade. Pasmem, senhores, mas sou testemunha de casos em que presos libertos forçaram a volta à cadeia pelo prato de comida e o desconforto da cela superlotada.
Se construírem casas populares, se encaminharem ao trabalho e à educação toda essa gente, verão como todos preferirão o aconchego entre quatro paredes. Se o máximo que os governos oferecem é o recolhimento noturno de quem aceita o convite, então se diga que também os órgãos públicos estão apenas dando esmolas, com os mesmos prejuízos que toda esmola possa representar.
Os programas de assistência oficial deveriam encaminhar à retomada da vida digna, com perspectivas de mudança até um novo quadro existencial, permanente. Sei que muito se faz com tais objetivos e com bons resultados. Ainda é pouco, no entanto. A situação está clamando por uma decisão que represente conceder prioridade a esse tema.
As abordagens para convencimento por assistentes abnegados e dispostos ao bem, no entanto, igualam-se aos gestos de caridade das famílias que percorrem as ruas levando comida e agasalho aos desabrigados. Dizem os entendidos que tudo isso apenas realimenta esse quadro de miserabilidade.
Se há um bom número de homens, mulheres e crianças optando pela rua, não quer dizer que nela sejam mais felizes. É que a rua acaba sendo mesmo melhor que a noite em albergues que são provisórios, que despejam a todos pela manhã. O modelo assistencial praticado é que está equivocado a ponto de fazer a rua ser mais atraente.
O mesmo desafio que a drogadição da juventude nos impõe, aqui também aparece: cabe-nos tornar mais interessante o abrigo que a calçada, como, no caso das drogas, cabe-nos tornar a vida careta melhor que a ilusão que o frenesi do uso de narcóticos pode oferecer.
Não sei não, mas ainda acredito no que aprendi nas aulas de catecismo com os lassalistas do Colégio Nossa Senhora das Dores, no velho casarão da Riachuelo: quem dá aos pobres empresta a Deus.
E Pablo, onde está? Em casa, refazendo-se da estafa que o turbilhão de emoções dos últimos dias lhe terá provocado. Diz ele que uma gripe se soma à labirintite. Menos, muito menos, eu sei.
O Sant’Ana tirou uns dias para olhar o mundo de seu reduto particular, embriagado pelo amor e admiração que todos lhe têm dedicado na infinda comemoração de seus 70 anos. Refeito, logo volta.
Quinta-feira, Julho 09, 2009

CONTARDO CALLIGARIS
Um novo ideal masculino
A eleição de Obama não é só um marco político; está transformando os ideais masculinos
VOCÊ SE lembra de Gordon Gekko, o protagonista do filme "Wall Street - Poder e Cobiça", de Oliver Stone, de 1987? Na Nova York dos anos 90, Gekko foi o ídolo dos que tentavam fortuna no mercado financeiro. Graças a Gekko, eles se sentiam autorizados; repetiam, como um mantra: "A ganância é uma coisa boa".
Gekko juntava num único ideal o sonho de fazer dinheiro e o desejo de viver perigosamente, conciliando as duas figuras tradicionais do ideal masculino: o provedor e o aventureiro (fora ou acima da lei).
Funcionou durante mais de uma década. Uma geração inteira viveu sua cobiça como uma proeza gloriosa: "Olhe, fiz meu primeiro milhão de dólares, e tudo isso na corda bamba. Sou o Philippe Petit das finanças; ele caminhava entre as Torres Gêmeas, enquanto eu avanço no vazio, acima de Wall Street, e logo comprarei para você, mãe, a casa na Flórida que você sempre quis".
A corda era bamba mesmo, e, em sua queda, os aventureiros gananciosos à la Gordon Gekko levaram consigo um monte de pequenos provedores "sem ousadia", que contavam com sua poupança para envelhecer tranquilos. Hoje, em Nova York, ser corretor, mesmo multimilionário, não é um ideal praticável -ao contrário, tornou-se um ofício envergonhado. Com o que sonham, então, os meninos e suas mães?
Em nossas telas, os super-heróis continuam exibindo seus poderes, e há vampiros e lobisomens fascinantes que, às vezes, são "do bem". Todos eles alimentam a esperança de que nosso cotidiano (insosso?) seja apenas uma identidade secreta atrás da qual escondemos algum bizarro heroísmo; mas, convenhamos, eles são distantes demais, são ideais improváveis.
Há policiais, bombeiros e militares, mas (hesitam as mães) eles ganham pouco e correm risco de vida. Há bandidos de sucesso, mas você já imaginou contar para amigas e vizinhas que seu filho está na lista dos dez mais procurados pela polícia federal?
Em suma, com o fim de Gekko, falta um ideal masculino que seja distante (como deve ser um ideal), mas mesmo assim alcançável para quem não nasceu em Kripton ou não foi mordido por Drácula - também um ideal que seja honrado e não exponha os meninos a riscos letais.
A eleição de Barack Obama à presidência dos EUA não foi só um marco político; está também transformando os ideais masculinos.
Obama é um paradigma triunfal (a presidência americana, ainda mais para um negro, é façanha de super-herói), mas, ao mesmo tempo, ele é um homem comum, um "americano tranquilo". Ele não esbraveja, conversa com seus adversários, e já foi um ativista social (generoso, portanto). Em Obama, o esporte extremo do poder se concilia com a vida de família mais tradicional: à noite, jogos de mesa com as crianças e, no domingo, serviço religioso.
Quando, duas semanas atrás, Barack e Michelle saíram sozinhos para um jantar romântico, Jon Stewart (do "Daily Show") protestou: "Como a gente vai competir com isso?" e apostrofou Obama: "Pega leve, cara" (Folha, caderno The New York Times de 22 de junho). Stewart tem razão: Obama não é só o homem que muitas mães gostariam que seus meninos fossem mas também o homem com quem elas gostariam de casar.
Se esse ideal triunfar na cultura dos EUA (repertório tradicional do heroísmo masculino), ele poderia transformar as aspirações dos meninos pelo mundo afora: saem os justiceiros e os pistoleiros, os astronautas, John Wayne e seus paraquedistas, Burt Lancaster no seu submarino, Robert de Niro e sua roleta-russa, Leonardo di Caprio na proa do Titanic, e entram de vez Gregory Peck de "O Sol é para Todos" ou Sidney Poitier e Spencer Tracy de "Adivinhe Quem Vem para Jantar".
O mundo agradeceria. Claro, ninguém é ingênuo: a mudança acarretaria sua parte de opressão, sobretudo para quem não é muito caseiro, mas essa é outra história.
Correção da coluna da semana passada. "Ao decidir que o cliente ocasional de prostituta adolescente não viola o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Superior Tribunal Justiça, em momento algum, afirmou que pagar para manter relação sexual com menores de idade não é crime.
"Acontece que o recurso do Ministério Público se baseava só nesse artigo, o qual pune o cafetão, "que explora e submete crianças e adolescentes à prostituição".
Peço desculpas e recomendo a leitura da íntegra da nota do STJ: http://www.stj.gov.br/portal-stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=92714

ELIANE CANTANHÊDE
O cara e a cara
BRASÍLIA - A fraqueza de Sarney e de Renan Calheiros evidenciou a força do PMDB na sucessão presidencial. Lula pode estar engordando o monstro que vai engolir o PT. Ele subjugou a bancada petista no Senado em favor de Sarney e articula para o PMDB participar da coordenação política do governo.
Aboletado no Planalto, o comando do partido ficará ainda mais à vontade para garantir a aliança com Lula na convenção nacional e o nome de Michel Temer como vice na chapa de Dilma. Para isso, porém, o PT tem de se imolar nos Estados.
Assim como interveio no Senado, Lula tende a sacrificar o PT em favor do PMDB nas eleições para os governos estaduais. Bom exemplo é Minas Gerais.
O prefeito Fernando Pimentel, do PT, é legitimamente pré-candidato a governador, mas bate de frente com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, do PMDB. Nessa guerra de vida ou morte, Lula já decidiu quem deve viver. E não é Pimentel.
Outros líderes petistas no Estado, como os ministros Patrus Ananias e Luiz Dulci, parecem lavar as mãos. Formalmente, em nome do projeto nacional de fazer Dilma subir a rampa em 2011. De quebra, porque têm ciúmes de Pimentel.
O mesmo vale para o Pará, onde o amor da governadora Ana Júlia, do PT, com o deputado Jader Barbalho, do PMDB, só foi eterno enquanto durou. Lula tomou partido no divórcio. Contra Ana Júlia.
Em outros locais, como Bahia e Rio Grande do Sul, em que não dá para forçar a barra e tirar o PT de cena, articulam-se dois palanques para Dilma. Tudo vale (ou vale tudo?) para o PMDB não retaliar pulando no barco tucano.
É por essas e outras que o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante, esquece o que disse e aparece com aquela cara arrasada na tribuna e na TV, assumindo o discurso (de Lula) pró-Sarney e pró-PMDB e presumindo o efeito disso na sua base eleitoral em São Paulo. Lula é "o cara", segundo Obama. E Mercadante é "a cara" do PT hoje.
elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI
Por que não falas?
ÁQUILA - Se o Brasil quer mesmo assumir um papel mais relevante na governança global, tem uma urgente lição de casa a fazer: reformular totalmente seu sistema de informações durante eventos internacionais de que participa, em especial quando está o presidente da República.
Explico: eu estou muitíssimo mais bem informado sobre o que fez o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no Iraque, a milhas e milhas daqui, do que sobre as atividades de Luiz Inácio Lula da Silva, embora tenhamos passado toda a tarde e uma parte da noite a poucos metros um do outro.
Por quê? Porque a Casa Branca, especialmente depois da posse de Barack Obama, me abastece com uma tonelada de informações por e-mail, que vão desde nomeações que a administração submete ao Congresso até os chamados "briefings" (jargão jornalístico para sessões informativas), nos quais um funcionário graduado dá todos os detalhes sobre, por exemplo, o que rola no G8 ou qualquer outro G.
Com a liberdade que lhe dá saber que seu nome não aparecerá. Que fique claro: não é uma invenção recente nem exclusividade norte-americana. Exemplo de ontem: os jornalistas brasileiros ficamos sabendo pela boca de Kazuo Kodama, diretor-geral de Imprensa e Relações Públicas do governo japonês, o que se discutiu no almoço de trabalho dos líderes do G8.
Dos líderes do G5, de que faz parte o Brasil, só o comunicado oficial e meia dúzia de palavras de cada um dos cinco, Lula inclusive, que pouco acrescentaram ao comunicado.
Cria-se então a seguinte insólita situação: os jornalistas brasileiros sabemos o que fez e disse o governo japonês, mas não sabemos (nem os jornalistas japoneses) o que disse e fez o governo brasileiro. Com perdão pelo óbvio: informação também é poder -e quem não se comunica se trumbica, como dizia Chacrinha.
crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO
Socuerro! Tá tudo sarneyado!
E o tropeção do Lula em Paris? Não foi tropeção. Ele tava dançando o "moonwalk"
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Adorei a frase daquela ex-BBB: "A virgindade tá na cabeça, não no imã". IMÃ? E o hímen ela bota onde? Na porta da geladeira? Rarará! Ela podia abrir um negócio: "Vende-se hímens pra geladeira". Rarará.
E essa diretamente da Itália: "Palácio de Berlusconi era um harém, diz prostituta". Então o Berlusconi tem que mudar de nome pra BERLUSCOME. Silvio Berluscome. Berluscome todas! Rarará!
E o showneral do Michael Jackson? Ele conseguiu acordar os zumbis: Lionel Ritchie, Mariah Carey e La Toya! Agora dizem que o funeral vai sair em turnê internacional. E dizem que o Michael não vai ser cremado, vai ser reciclado na fábrica da Lego!
E o chargista Dalcio diz que o único que não viu o funeral do Michael Jackson foi o próprio Michael Jackson. Que tava lá no céu jogando bola com os anjinhos!
E o tropeção do Lula em Paris? Não foi tropeção. Ele tava dançando o "moonwalk". Em homenagem ao Michael Jackson. E o Lula e o Sarkozy juntos? EU ACREDITO EM GNOMOS! E aquela Cúpula do G8 tá sendo chamada de Geme 8! Todo mundo gemendo: tamo sem dinheiro, tamo sem dinheiro! E aí falaram pro Lula em Paris: "bon soir". E ele: "bon soir, bom suar, mas ninguém toma banho".
E quando eu morrer eu quero um funeral igual ao da Maica Jéssica. No estádio do Morumbi. Com show da Preta Gil, Ivete Sangalo, Roberto Carlos e Agnaldo Timóteo!
E o Kassab vai ter que fechar a 23 de Maio! E diz que o Senado não tá saneado, tá sarneyado. Tá tudo sarneyado! Tá tudo sarneyado! É mole? É mole mas sobe! OU como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Minas Gerais foi encontrada a cidade natal do Serra: é a SERRA DO DEUS ME LIVRE! Rarará. Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Bon soir, monsieur": companheira que sua no bustiê. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br
Aproveite o dia uma ótima quinta-feira

09 de julho de 2009
N° 16025 - LETICIA WIERZCHOWSKI
Wislawa Szymborska
A poesia trilha caminhos árduos para chegar aos leitores. Sem tolos juízos de valor, o fato é que compra-se mais prosa do que poesia. Fico aqui pensando com meus botões que tais percalços não poderiam puxar o pé de certos poetas. Por isso não compreendo que Wislawa Szymborska, polonesa ganhadora do Nobel de Literatura do ano de 1996, ainda não tenha nenhum livro da sua seara publicado aqui no Brasil. Já li alguma coisa de Wislawa Szymborska – não no original, pois não falo polonês.
Li Szymborska em edições lusitanas e espanholas. Recentemente, li um volume publicado pelo Fondo de Cultura Económica do México entitulado Poesia No Completa. Quatrocentas páginas de belos poemas, numa coletânea que abarca a obra de sete livros de Szymborska, mais uma dezena de poemas soltos, alguns anteriores a 1957, outros posteriores a 1993. Mas essas minúcias não importam.
O que importa é que o leitor brasileiro ainda não conhece a força das imagens de Szymborska, nem a beleza cristalina das suas palavras, nem os suspiros dos seus versos, ora cálidos e femininos, ora escorregadios e irônicos.
Sobre Wislawa, cabe dizer que nasceu em Kórnik em 2 de julho de 1923, mas vive desde os oito anos em Cracóvia. Experimentou a guerra, a ocupação nazista e os anos sob o regime comunista, trabalhou por quase 30 anos na redação do semanário A Vida Literária, ama e traduz a poesia medieval francesa, e vive num pequeno apartamento na sua amada Cracóvia, perseguindo cada instante poético com humor e delicadeza.
Tomando emprestada a bela tradução do meu amigo Tiago Halewicz, deixo aqui (desculpando-me por condensar seus versos para que caibam no espaço que a mim me cabe) um trecho de um dos meus poemas prediletos de Wislawa, Amor à Primeira Vista:
Ambos estão convencidos de que foi um sentimento súbito que os uniu. Linda é uma certeza assim, mas a incerteza é mais linda. Acham que por não terem se conhecido antes, nunca houve nada entre eles. E o que diriam as ruas, escadas, corredores, pelos quais há muito tempo poderiam se cruzar?
Gostaria de perguntar-lhes se não lembram – na porta giratória um dia cara à cara? Um “com licença” em meio à multidão? A voz “engano” no telefone? Mas conheço sua resposta. Não, não lembram. Ficariam muito espantados em saber que desde muito tempo o acaso brincava com eles.
Ainda não totalmente preparado a transformar-se para eles num destino, aproximava-os e os afastava, cortava-lhes o caminho e abafando a gargalhada saltava para o lado. Houve sinais, signos, mas algo ilegível. É possível que há três anos atrás ou na terça-feira passada uma certa folha tenha voado de um ombro para o outro? (…)”

09 de julho de 2009
N° 16025 - PAULO SANT’ANA
Crime no rumo da solução
A Delegacia de Homicídios já desvendou metade da teia de mistério que cerca o assassinato do médico Marco Antonio Becker, vice-presidente do Cremers, ocorrido dia 4 de dezembro do ano passado, na Rua Ramiro Barcelos.
O delegado Rodrigo Bozzetto e sua equipe, que investigam há sete meses a morte violenta do médico, já reuniram indícios praticamente veementes sobre a autoria intelectual do assassinato, faltando apenas desvendar a ligação fática e material entre o mandante e os executores do crime, os dois homens que tripulavam uma moto e tocaiaram Becker à saída do Restaurante Alfredo.
Os policiais já têm o nome do mandante. Apenas não o indiciaram nem divulgaram o resultado das investigações porque a Delegacia de Homicídios está tendo uma certa dificuldade para lincar o mando do crime com sua execução.
O dilema todo da equipe policial reside em ligar o interesse enorme do mandante em eliminar Becker e a corporificação das circunstâncias em que foi firmado o contrato criminoso entre o autor intelectual do crime, o pistoleiro e o motoqueiro que mataram Becker.
Nos últimos dias, a investigação que se dirige à apuração da identidade dos executores avançou intensamente, a polícia está tensa, embora aplicada no desvendamento total do crime.
Esta notícia que estou dando tem duas pilastras no seu nexo: funcionou tanto nas informações que me chegaram nos últimos dias quanto no meu controle sensorial sobre o crime, sua repercussão e os atos exaustivos da polícia para a solução do caso.
O mandante, repito, já apontado, tinha forte e substancial motivo para mandar matar Becker, o assassinato não teria sido somente por vingança, mas também para impedir que Becker prosseguisse em sua ação prejudicial à reputação e ao então já vacilante e combalido desempenho profissional do autor intelectual do homicídio, ocasionado por ações repressivas de Becker ao mandante, no Cremers.
Para tentar chegar à substanciação do indiciamento do mandante e consequente esclarecimento do crime, a polícia utilizou-se de auxílio de mandado judicial.
Além de ter sido investigado pela vítima no Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul, o mandante tinha a motivação não só de vindita à ação de Becker como também uma paralela mais importante: fazer cessar a ação repressiva de Becker, que parecia obstinado em punir administrativa, profunda e definitivamente, no campo profissional da medicina, o homem que a polícia tem a convicção de ser o autor intelectual do delito.
O delegado Rodrigo Bozzetto, que preside as investigações, mantém rigorosa reserva sobre o resultado delas, recusando-se a prestar qualquer declaração à imprensa, tanto para não prejudicar as investigações quanto por ter elucidado apenas uma ponta do crime, a autoria intelectual interessada e suspeita por indícios relativos à personalidade do mandante, enquanto os esforços árduos da polícia se concentram em solucionar a outra ponta do delito: a sua materialização (execução).
Essa lincagem entre a autoria intelectual de um crime e a autoria material do mesmo delito é dilema tradicional de autoridades policiais em todo o mundo, tendo sido já objeto de abordagem literária nos livros de Agatha Christie e Georges Simenon.
Isso sempre se dá quando o mandante é exímio na escolha dos executores.

09 de julho de 2009
N° 16025 - L.F. VERISSIMO
Realpolitiques
Consolemos-nos. O parlamento inglês – que, afinal, é o pai de todos os parlamentos – também anda às voltas com escândalos. E escândalos parecidos com os do nosso Congresso: despesas escondidas, favorecimentos descabidos e outras lambuzeiras com o dinheiro público.
Levando-se em conta a tradição de austeridade da política inglesa, com a exceção de um ou outro deslize sexual, pode-se até dizer que os escândalos do parlamento inglês são piores do que os nossos. Pelo menos temos a desculpa de não sermos ingleses.
Lula não usa a palavra, mas invoca a “realpolitik” para constranger o PT a apoiar o Sarney, que se tornou, com um certo exagero, símbolo de todos os maus hábitos do nosso Congresso. “Realpolitik” é uma expressão alemã do século 19 com vários significados, de realismo político e pragmatismo até maquiavelismo do mais cínico.
No caso do Lula, que só se preocupa em manter alianças que garantam o funcionamento deste governo e a eleição do próximo, ela significa uma espécie de maquiavelismo de arrabalde. Nada muito grave, se bem que nada muito inspirador também. De qualquer jeito, foi doloroso ver o Mercadante anunciando a concordância do PT com as ordens do chefe sem acreditar numa palavra do que estava dizendo.
Estou escrevendo isto no começo da semana, é possível que o próprio Sarney já tenha se constrangido o suficiente para renunciar ao cargo. Se está sendo injustiçado ou vítima de um golpe in camera, fica para se ver depois. O que ele deve fazer agora é poupar o que resta da sua biografia.
Primitivos
Em Honduras, houve um golpe militar à antiga, que deve ter feito bater mais forte o coração de alguns nostálgicos. Lá também se invoca uma forma de “realpolitik” como justificativa, no caso a necessidade de prevenir um novo Hugo Chávez em formação. “Honduras” quer dizer “funduras”.
Foram buscar lá no fundo da história latino-americana o modelo mais primitivo para troca de governos. O golpe hondurenho é uma versão grosseira de uma história conhecida, a da reação do conservadorismo a qualquer ameaça ao seu poder, e cujo protótipo é a reação da oligarquia mexicana à eleição do índio zapoteca Benito Juárez à presidência em 1858.
A elite mexicana exagerou: para substituir o índio, foi buscar um príncipe, o arquiduque Maximiliano, da Áustria, financiado por Napoleão III.
Desde então, nunca se chegou mais a tanto, mas a reação se repete através dos anos onde quer que um “índio” chegue ao poder. Sem imperadores importados, ultimamente sem militares golpistas, ainda é a mesma velha história.
Quarta-feira, Julho 08, 2009

JOSÉ SIMÃO
Senado! Pegaram a Gripe do Bigode!
E saiu o resultado da autópsia do Jackson: morreu engasgado com um pé de moleque!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Polícia Federal apreende 500 quilos de maconha no interior de São Paulo. E qual o nome da cidade? FARTURA! Rarará! E outra piada pronta: "Michael Jackson: TVs mostrarão culto ao vivo!".
Aliás, saiu o resultado da autópsia do Michael Jackson: morreu engasgado com um pé de moleque! E aquele brasileiro de Santa Catarina que ganhou ingresso pro showneral? Cúmulo da sorte: ser sorteado entre milhões. Cúmulo do azar: não conseguiu visto! Rarará!
E o Senado, hein? Eu lavo e você enxuga. Tá uma esculhambação! E aquele Agaciel? Que nome. Aliás, leia o nome do Agaciel de trás pra frente: Leicaga. Rarará! Tá cagando e andando pra lei. E o Sarney, hein? O blog Comentando disse que o Sarney vai mudar o Festival de Parintins pra Festival de PARENTENS!
Salário Caprichoso X Emprego Garantido! E adorei a frase do Mercadante: "A crise no Senado não pode ser debitada na conta do Sarney". NÃAAAAAAAAAAAO?! Então vai ser debitada na conta de quem? Na minha. Na minha já foi. Débito automático! E sabe como tá sendo chamada a crise no Senado? Epidemia dos Bigodes. A Gripe do Bigode!
E eu só quero que o Sarney saia se eu puder escolher quem vai ficar no lugar dele. Senão, não adianta nada. E eu quero que o Sarney saia da Academia Brasileira de Letras! Rarará! E a frase de um pessedebista: "eu sei que a vingança é um sentimento vil, mas ver o PT defender o Sarney não tem preço". Tem sim! É mole? É mole, mas sobe!
Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.
É que nas festas juninas da Esplanada na Bahia tinha uma barraca: SARNEY'S DRINKS Formiguinha Fest. É a família expandindo os negócios? Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês.
Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Sarney": companheiro declinando um novo verbo, "Sarney, mas não fui eu". Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br

MARCOS CINTRA
Reeleição não faz bem à democracia nem à ética
De imediato, há que limitar as reeleições no Poder Legislativo e começar a pensar em acabar com a reeleição no Executivo
SEMPRE COMBATI a possibilidade de segundos mandatos consecutivos para os cargos Executivos. Se em outros países a reeleição funciona bem, o mesmo não se aplica ao Brasil. Nossas raízes históricas e culturais deveriam nos alertar contra qualquer tentativa de continuidade de poder. O caudilhismo latino-americano é uma ameaça sempre presente em nossas instituições políticas, associativas e até recreativas.
A tentação para mandatos sucessivos é irresistível, sobretudo em países como o Brasil, onde predomina o populismo e que conta com uma massa de eleitores com baixo nível de instrução e cultura participativa incipiente.
A aprovação do segundo mandato, que rompeu com uma das mais sólidas e duradouras tradições republicanas, foi um desserviço ao país. Foi aberta a porteira, e sabe-se que, "por onde passa um boi, passa a boiada". Agora começamos a pagar a conta dessa insensatez ao nos defrontarmos com a possibilidade de um terceiro mandato para Lula.
Não há justificativas para a continuidade de mandatos. Se o governo é bem-sucedido, que ele tenha prosseguimento com a eleição de candidatos governistas. É preciso evitar a personalização do sucesso, pois, em questões de governo, isso é sempre uma conquista coletiva, por maior que seja o carisma e a liderança do chefe.
No Brasil de Lula, isso é particularmente verdadeiro se verificarmos que o núcleo do sucesso dessa administração está exatamente na continuidade que foi dada às políticas econômicas e sociais responsáveis e consistentes iniciadas em gestões anteriores.
Em vários aspectos pode ter havido aperfeiçoamentos e mudanças de ênfase, mas não houve milagres no Brasil dos últimos anos, somente o amadurecimento das ações públicas e da sociedade.
Um corolário da premissa de que um mandato é sempre suficiente é que a política não deve ser profissionalizada. Em outras palavras, quando políticos tornam-se profissionais, os riscos de que eles adquiram vícios ligados ao exercício do poder se tornam enormes.
Uma pessoa que abandona sua atividade de formação e se torna um profissional na vida pública passa a depender das sucessivas reeleições para viver. Assim, torna-se capaz de tudo e de qualquer coisa para se eleger. Só assim essas pessoas sobrevivem política e economicamente. Aí está a origem do populismo, das negociatas, dos acordos financeiros, do tráfico de influência, das nebulosas razões dos financiamentos de campanha e da corrupção.
Não é possível negar que há indivíduos vocacionados para a atividade pública nem que existam políticos sérios e bem-intencionados. Mas essas pessoas poderiam continuar sendo úteis à sociedade mesmo com o instituto do mandato único.
Nada impede que participem de pleitos eleitorais sucessivos, mas em cargos diferentes, de forma a evitar a lassidão de princípios e de comportamentos que a permanência duradoura no poder quase sempre produz. A reeleição não faz bem à democracia presidencialista. Nem a primeira e muito menos outras seguintes.
Por essas razões é que defendo apenas um mandato. Mas não apenas no Executivo. Defendo o fim de reeleições em todos os Poderes, inclusive no Legislativo e no Judiciário. Mandatos vitalícios e parlamentares que permanecem interminavelmente em suas cadeiras legislativas precisam ser urgentemente questionados. Afinal, por que uma pessoa precisaria de décadas para trazer sua contribuição à sociedade?
O descalabro dos atos secretos no Senado, além da enxurrada de escândalos que abalaram a credibilidade do Congresso Nacional nos últimos anos, atestam essa urgente necessidade.
Mandatos sucessivos fazem nossos parlamentares sentirem-se confortáveis demais em suas cadeiras, confiantes demais na impunidade que o poder ainda concede a detentores de cargos públicos no Brasil. De imediato, há que limitar as reeleições no Poder Legislativo e começar a pensar em acabar com a reeleição no Executivo.
MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 63, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas, é secretário municipal do Trabalho de São Paulo.

VALDO CRUZ
They don't care about us
BRASÍLIA - Em 1996, Michael Jackson esteve pela última vez no Brasil. Subiu o morro e cantou, numa favela do Rio, a música acima. A letra fala de violência, frustração, sensação de invisibilidade por conta de direitos ignorados.
Na semana de sua despedida, o título da canção do astro pop se mostra, infelizmente, mais atual do que nunca por aqui. Basta abrir os jornais e ler as notícias.
Três grávidas não são atendidas num hospital carioca por falta de vagas. São ignoradas em seus direitos mais básicos.
Têm os braços rabiscados indicando onde deveriam buscar atendimento. Seus corpos viraram pontos de anotações. Uma delas perde a criança no sétimo mês de gravidez.
A quem responsabilizar? Ao médico, ao hospital, ao município, ao Estado, ao governo federal? Atribuo a todos parte da responsabilidade de um sistema falido, que faz ecoar na voz de muitos brasileiros a letra do cantor americano: "Diga-me o que aconteceu com meus direitos. Eu sou invisível?"
Enquanto isso, ando pelos corredores do Congresso Nacional. Pode soar forçado, mas não ouço uma voz sequer tocar na tragédia cotidiana nos hospitais públicos brasileiros. Ninguém trata do tema. Ninguém propõe algo.
Por ali, só se fala da crise do Senado. Da guerra instalada em torno da cadeira do presidente da Casa. Não que não seja importante fazer uma limpeza no Senado. É. Mesmo antes dessa crise, contudo, não se ouvia palavra propondo soluções concretas para tragédias como a das grávidas cariocas.
Não por outro motivo a saúde brasileira continua um caos. O eleitor brasileiro, porém, pode dormir tranquilo. Ano que vem tem eleição. E soluções milagrosas serão novamente propostas. Depois, tudo cairá no esquecimento ou nas disputas partidárias.
Como diz o título da canção de Michael Jackson, "eles não ligam pra gente". Só em eleição.

08 de julho de 2009
N° 16024 - MARTHA MEDEIROS
O escândalo da sinceridade
Pode parecer apenas mais uma frase de efeito, mas eu a tomo como filosófica. É do dramaturgo, ator e escritor Domingos Oliveira, a quem tanto admiro. Ele diz: “A única coisa que ainda escandaliza hoje em dia é a sinceridade”.
Abro o jornal e leio sobre supostos escândalos políticos (federais, estaduais) que me mantêm apática, pois é tanta enrolação, disputa de poder e trocas de favores, que o máximo que consigo sentir é desprezo e desinteresse. Escandalizada, não fico. O escândalo pressupõe uma novidade.
E, hoje, a única novidade está em ser sincero. O vice-presidente José Alencar, em função de suas inúmeras cirurgias, passou a ser a avis rara da política nacional, conquistando simpatia não por seus atributos profissionais, que já nem costumam ser avaliados, mas por ser um sujeito que parece real.
A sinceridade não é anestésica, não estimula reticências, não teatraliza as relações humanas, não debocha da credulidade alheia, não falsifica impressões. A sinceridade é de vanguarda. É tão soberana, que emudece a todos. É tão inesperada, que impede retaliações. A sinceridade é o ponto final de qualquer discussão.
Quer deixar alguém perplexo? Fale a verdade. Aja com verdade.
Saindo da esfera política e passando para o reino do entretenimento: o velório de Michael Jackson se transformou num show por uma questão de coerência com a vida espetaculosa do cantor. Tudo relacionado a Michael virava um fenômeno midiático. O que ele tinha de mais sincero era seu extraordinário talento musical, que nos últimos tempos foi ofuscado por um rosto de mentira e uma vida pateticamente construída em um parque de diversões. Os fãs de Michael Jackson estão sofrendo de verdade?
Não se sofre pela ausência daqueles com quem não tivemos relação pessoal. Sentimos compaixão, sentimos respeito pela trajetória artística, homenageamos quem fez a trilha sonora de uma fase da nossa vida, mas sofrimento mesmo devem ter sentido aqueles que adquiriram ingressos para o funeral e depois tentaram revendê-los pela internet por um valor superfaturado. São os cambistas da tristeza showbiz.
A dramatização de certas atitudes virou a normalidade operante. Ninguém mais acredita no que os outros dizem, tenta-se apenas ler as entrelinhas, que é por onde pode escapar algo verdadeiro.
Por outro lado, enquanto tantos se esforçam para parecer o que não são, as pessoas consideradas sábias admitem serenamente que de nada sabem. O “não sei” passou a ser uma comovente surpresa. Os melhores filmes, as melhores peças, os melhores livros tratam sobre a nossa ignorância, não sobre a nossa genialidade.
Admitir fraquezas, reconhecer erros, viver de acordo com a própria essência, buscar ajuda nas horas difíceis, voltar atrás, sentir apenas o que se sente de fato, valorizar a discrição, conviver bem com a relatividade de tudo. Extra, extra! Eis aí os escândalos deste novo século.
Ótima quarta-feira, aproveite o dia

08 de julho de 2009
N° 16024 - DAVID COIMBRA
O sacristão distraído
O pequeno Giuseppe Verdi era um dedicado sacristão da paróquia de Bussetto quando ocorreu talvez o fato mais importante da sua vida. Bussetto fica a uns 10 quilômetros de Parma, cidade que legou à Civilização o filé à parmeggiana, o que, admitamos, é bem mais do que já fez a maioria das cidades do planeta Terra.
Eu trocaria os dois títulos mundiais da dupla Gre-Nal pela glória de Porto Alegre ter concebido iguaria semelhante ao filé à parmeggiana. Já Bussetto, sua glória eterna é mesmo Verdi, o mais famoso compositor da Bota, onde o chamam de “O Cisne de Bussetto”.
Pois bem. Durante o ofício da missa de um domingo da primeira metade do século 19, a capela bussettense borbulhava de lotada, e o padre não conseguia, de jeito nenhum, chamar a atenção de seu sacristão.
– Pepino! – chamava o pároco, sussurrando. – Pepino!
E o Pepino nem aí.
In extremis, o padre deu um pisão no pé de Giuseppe, que recuou, assustado, e gritou:
– Para, padre!
Um escândalo. Os padres eram autoridades nas cidades italianas e, naquela época, as crianças não desafiavam os adultos. Dar uma ordem a um padre consistia, tão-somente, em afronta. Terminada a missa, o santo homem marchou até a área rural do município a fim de se queixar para o pai de Giuseppe. Estavam diante de um absurdo: o menino não se concentrava em suas tarefas, passava o tempo todo absorto pela música que emanava do coro e do órgão da igreja.
O pai de Giuseppe poderia puni-lo pela falta. Havia motivos para tal. Mas não. No dia seguinte, ele reuniu suas economias, deslocou-se até a cidade e voltou de lá com uma espineta, espécie de piano pequeno parecido com o cravo. Se o menino apreciava música, quem sabe residia dentro daquele peito estreito algum talento especial.
Mais do que especial, na verdade.
Giuseppe aprendeu a tocar a espineta sozinho e, em pouco tempo, tornou-se o primeiro organista da igreja de Bussetto.
Começava ali uma trajetória de luz.
Se o velho Verdi não fosse um homem sensível, se ele censurasse ou castigasse o filho por sua desatenção, em vez de perceber naquele aparente defeito um dom, se o velho Verdi não fosse assim sagaz, o mundo perderia um de seus maiores artistas, e o pobre Giuseppe talvez se transformasse num plantador de brócolis frustrado.
O ponto decisivo dessa história é o seguinte: é o porquê. Por que o pai de Verdi tomou aquela atitude? Por que ele gastou todo o seu dinheiro na compra da espineta e investiu na vocação do filho?
A resposta é: ele estava preparado para isso. Aquela região da Itália é reconhecida pelo seu amor à música, além do filé famoso e do queijo parmesão, pelo qual eu trocaria as três Libertadores da América gaúchas.
Um pai brasileiro, que tipo de talento um pai brasileiro seria capaz de identificar em seu filho? O da bola, é claro. O menino apresenta uma tendência para ser jogador, o pai corre a desenvolvê-lo, matricula-o numa escolinha, esforça-se para colocá-lo num clube. Evidentemente porque vale a pena ser jogador de futebol no Brasil. Trata-se de uma concreta possibilidade de ascensão social.
Mas, assim como eu trocaria as Libertadores e os Mundiais pela invenção de um filé e de um queijo ralado, trocaria a primazia no futebol pela valorização da Educação. Verdi, inclusive, só se tornou Verdi porque houve investimento em sua formação.
Aos 18 anos, já um fenômeno regional, seu futuro sogro e protetor o enviou para Milão, a fim de aperfeiçoar os conhecimentos que ele adquirira por conta própria.
Na academia (que hoje, aliás, leva seu nome), os mestres o rejeitaram: consideraram-no muito velho para o aprendizado e repudiaram seu jeito bruto de tocar piano: como Verdi aprendera na espineta e sem orientação, ele batia com força demasiada nas teclas, como se estivesse martelando uma bigorna.
Seu mecenas, porém, não desistiu: pagou-lhe um professor particular. Verdi empenhou-se devotadamente aos estudos e logo se converteu em maestro, para gáudio de toda a Itália.
Uma bela história, mas que só foi possível porque alguns homens comuns, homens que a posteridade esqueceu, compreenderam que um gênio, ainda que nasça para ser gênio, tem, mais do que tudo, de fazer-se gênio. E ninguém se faz gênio sozinho.

08 de julho de 2009
N° 16024 - DIANA CORSO
Livros adotivos
Raras coisas acontecem na educação deste país das quais possamos nos orgulhar. Porém, ocorreu algo interessante: a aquisição pelo governo, entre outros, de uma obra de Will Eisner, chamada Um Contrato com Deus. Os exemplares estão sendo distribuídos às escolas, para acervo em suas bibliotecas ou uso pelos professores.
Eisner é responsável por consagrar a fusão dos quadrinhos com a literatura, empresta seu nome ao maior prêmio desse gênero no mundo. Quadrinhos são a prova de que a imagem não mata o texto, pode casar-se com ele. O livro em questão ilustra poeticamente trechos da vida de gente sofrida, assim como seu Pequenos Milagres, outra obra-prima. Acredito que ele representa o que Charles Dickens foi para seu tempo.
Seus heróis podem ser pobres, miseráveis, mas é nos impasses éticos que muitas vezes se traduzem as pequenas escolhas, assim como nas diferentes formas de sobreviver às adversidades que ele enfoca suas histórias. Mas, como todos já sabem, alguns políticos e pedagogos resolveram condenar a divulgação dessas obras junto às escolas.
Tenho um amigo, professor de literatura em cursinho há décadas, que costuma, ano após ano, reler as obras que caem no vestibular. Por que, se ele pode dar essa aula com o pé nas costas?
Para reencontrar-se com a experiência dessa leitura! Somente assim ele torna-se capaz de falar com a paixão do leitor, a única que se transmite aos alunos quando se ensina literatura.
Livros adotados devem ser como filhos adotivos: um encontro, tal qual um nascimento, que seja significativo, que funde algo. Entre pais e filhos esse evento sempre terá que ser renovado, reeditado a cada etapa da vida em que ambos mudam, crescem, envelhecem. Adotar um livro é algo que deve ser decidido pelos professores a partir dos encontros que tiveram com determinadas obras.
Essas em algum momento provavelmente funcionaram como sua melhor tradução, o que ocorre frequentemente com a poesia, ou lhes capturaram a existência, como com uma boa obra de aventuras ou drama.
Antes de adotar um livro, tivemos que ser abduzidos por ele. Com os livros infantis, embora crescidos, tem de ocorrer-nos o mesmo, pois ainda resta uma conexão inconsciente com a criança que fomos.
Por tudo isso, peço aos mestres que se imponham sobre os burocratas e os políticos, ousem, leiam e defendam aquelas obras pelas quais se sentem tocados, tal como fazem, em tempos de guerra, aqueles cidadãos corajosos que escondem obras de arte para que elas não sucumbam à barbárie dos bombardeios.

08 de julho de 2009
N° 16024 - PAULO SANT’ANA
O vinho
Um amigo meu, casado, engenheiro, foi jantar com outra mulher num restaurante fino da cidade.
Era uma bela loira a aventura adulterina do meu amigo.
Dois dias depois, a esposa do meu amigo chamou-o a um canto do lar conjugal: “Adolfo, foste visto jantando anteontem no Restaurante Tal com uma linda moça. O que tens a me dizer?”.
Meu amigo empalideceu, mas tentou se recuperar: “Era uma colega engenheira de uma firma que tem consórcio conosco e a única ocasião que ela dispunha para tratar da nossa transação imobiliária era aquela noite. Por isso travamos um jantar profissional”.
A esposa do meu amigo retrucou rapidamente: “Tudo bem, mas e o... vinho?”. Nocaute.
Uma frase que vem se ajuntar oportunissimamente à campanha que a RBS vem realizando sobre a droga maldita, de autoria do neurologista Clovis Francesconi: “Quem vai tirar a primeira pedra?’’.
Sei agora por que Deus decreta a morte de pessoas queridas. Ele quer testar a capacidade de suportar a dor por parte dos parentes e amigos da pessoa que morre.
Se alguém consegue sobreviver à morte de um filho, de um pai, de uma mãe ou de qualquer pessoa amada, então pode declarar que conheceu a face mais dolorosa da vida, pode declarar que é enfim uma pessoa humana apta a todos os embates que ainda poderão advir.
Cheguei a um ponto da existência em que me interessam menos as mulheres do que os doces.
Eu me apaixono cada vez mais pela goiabada cascão, pelo rei alberto, pelos pastéis de santa clara, pelos ovos-moles, sem falar, é claro, nos meus dois engates históricos: o sagu com creme e o papo de anjo.
Uma vez escrevi aqui nesta coluna que gosto tanto de sagu que na mesa do jantar tomo vinho Sabiá e no sagu uso o vinho Châteaunef-du-Pape.
Nos doces de Pelotas não quero nem falar. Depois de um casamento de 10 anos com o ninho, separei-me definitivamente dele porque me apaixonei pelas trouxinhas, mas há tempo ando traindo-as com os olhos de sogra.
Em Pelotas, deveriam expulsar todos os habitantes que fossem diabéticos. Porque ser diabético e morar em Pelotas é como dormir ao lado de um vulcão. E, finalmente uma declaração de princípios: não me venham jamais impingir-me doces dietéticos.
Doce tem de ter açúcar puro. Bastante açúcar como no doce de coco e no – está bem, concedo em me interessar por mulheres – no divinal baba de moça.
Terça-feira, Julho 07, 2009

RUBEM ALVES
Explicando política às crianças
No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o das raposas e o das galinhas
IMAGINO QUE AS crianças devam ficar muito confusas com as notícias da política. Resolvi, então, preparar um pequena cartilha que as ajudará a entender essa coisa misteriosa que é o centro da vida nacional e que, por vezes, quando convém aparece e quando não convém, desaparece...
1. Somos uma democracia. A democracia é o melhor sistema político. É o melhor porque nele, ao contrário das ditaduras, é o povo que toma as decisões;
2. Em Atenas, berço da democracia, era fácil consultar a vontade do povo. Os cidadãos se reuniam numa praça e tomavam as decisões pelo voto. Mas no Brasil são milhares de cidades, espalhadas por milhares de quilômetros e os cidadãos são milhões.
Não podemos fazer uma democracia como a de Atenas. Esse problema foi resolvido de forma engenhosa: os cidadãos, milhões, escolhem por meio de votos uns poucos que irão representá-los. O Congresso é a nossa Atenas...;
3. Os representantes do povo, eleitos pelos votos dos cidadãos -vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidente-, são pessoas que abriram mão dos seus interesses e passaram a cuidar dos interesses do povo;
4. É assim que dizem as teorias. Na prática, não é bem assim...;
5. No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o partido das raposas e o partido das galinhas;
6. As raposas, devotas de São Francisco, sabem que é dando que se recebe. Assim, movidas por esse ideal espiritual, elas dão milho para as galinhas...;
7. As galinhas acreditam nas boas intenções das raposas e tomam esse gesto de dar milho como expressão de amizade. A abundância do milho as faz confiar nas raposas. E, como expressão da sua confiança nascida do milho, elas elegem as raposas como suas representantes. Assim, na democracia brasileira, as raposas representam as galinhas;
8. Eleitas por voto democrático, às raposas é dado o direito de fazer as leis que regerão a vida das galinhas e das raposas...;
9. As leis que regem o comportamento das raposas não são as mesmas das galinhas. Sendo representantes do povo, precisam de proteção especial. Essa proteção tem o nome de "privilégios", isto é, leis que se aplicam só a elas;
10. Privilégio é assim: raposa julga galinha. Mas galinha não julga raposa. Raposa julga raposa. Logo, raposa absolve raposa;
11. "Todos os cidadãos são livres e têm o direito de exercer a sua liberdade." As galinhas são livres para serem vegetarianas e têm o direito de comer milho. As raposas são carnívoras e livres para comer galinhas;
12. A vontade das galinhas, ainda que de todas elas, não tem valia. Vontade de galinha solitária só serve para escolher suas representantes;
13. Permanece a sabedoria secular de Santo Agostinho, aqui em linguagem brasileira: "Tudo começa com uma quadrilha de tipos fora da lei, criminosos, ladrões, corruptos, doleiros, burladores do fisco, mafiosos, mentirosos, traficantes.
Se essa quadrilha de criminosos se expande, aumenta em número, toma posse de lugares, de cargos, de ministérios, da presidência de empresas e fica poderosa ao ponto de dominar e intimidar os cidadãos -e estabelecendo suas leis sobre como repartir a corrupção-, ela deixa de ser chamada quadrilha e passa a ser chamada de Estado.
Não por ter-se tornado justa, mas porque aos seus crimes se agregou a impunidade". 14.Portanto, galinhas do Brasil! Acordai! Uni-vos contra as raposas!
Nota: O texto inteiro de "Explicando política às crianças" se encontra em www.rubemalves.com.br.
rubema-alves@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO
Voltei! Pro funeral da Maica Jéssica!
E sabe o que ele perguntou quando chegou no céu? Cadê o menino Jesus?
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-Geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É hoje! O SHOWNERAL do Michael Jackson. A Maica Jéssica não morreu, virou purpurina! E sabe o que ele vai fazer no velório? Levantar e dançar o "Thriller" com os zumbis!
O velório vai ser num ginásio. Mas criança não paga! Eu nunca vi funeral em ginásio. É futebol ou funeral? Futeral. Narração: Galvão Bueno. Arbitragem: Stevie Wonder. Bandeirinhas: Diana Ross, Liz Taylor e Liza Minelli.
E o São Pedro levou o maior susto quando o Michael Jackson chegou. Ele tava esperando um senhor negro de 50 anos e aí aparece o Michael Jackson! Que tava parecendo o meu CIC: marrom e plastificado!Rarará!
E São Pedro disse: o senhor não pode entrar porque cantou um menino de 9 anos. Mas ele me disse que tinha 12! Rarará. E o Michael nunca foi pedófilo porque achava que tinha a mesma idade dos meninos. E sabe o que ele falou pra Farah Fawcett no céu? "Mona! Que bafo o teu cabelo!".
Rarará! E sabe o que ele perguntou quando chegou no céu? Cadê o menino Jesus? A Madonna já levou. Piada velha. Piada tipo Hebe: velha e divertida! E diz que a única coisa preta que ele ainda tinha era o remédio: tarja preta. Do que ele morreu? De tarja preta! E diz que o pingolim dele era zebrado. Verdade. Quem me contou foi o Macaulin! Rarará! E VIVA O REI DO POP!
Voltei! De Paris. Paris em chamas. Trinta graus! E assisti aos jogos do Brasil em francês. Chiquérrimo! Dunga em francês é Dungá. Robinho é Robinhô! E Júlio César é Júlio Cesár. E quando acontece um gol eles gritam: Ulalá, le balon. É o máximo que eles gritam! No Brasil é GOOOOOOOOOOOOOOOL!
ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ DO BRASIL. Na França é: ulalá le balon! Queijo em francês é fromage, casamento é marriage e o Sarney é fuleragem. Sarney só amanhã! É mole? É mole mas sobe. Ou como diz aquele outro: é mole mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.
É que em Esmeraldas, Minas, tem um açougue chamado Açougue Dois Irmãos. Bovino e Suíno! E qual dos dois tá com gripe?! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Pedófilo": companheiro que faz o pé no pediatra. Rarará. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

ELIANE CANTANHÊDE
Lula, o multimídia
BRASÍLIA - Lula já tem o "Café com o Presidente", que vai ao ar todas as segundas-feiras pelo rádio, para todos os cantos do país. Também já tem o site da Presidência, com tudo o que ele diz, faz, assina. E vai ganhar a partir de hoje "O Presidente Responde", para atingir 94 jornais de 22 Estados.
Os jornais inscritos só farão perguntas a Lula relacionadas às "políticas de governo", pois o projeto tem a pretensão de ser "instrumento de prestação de contas à sociedade". Da avalanche de perguntas, a assessoria do Planalto selecionará três por semana. Imagina-se que nenhuma delas sobre mensalão, aloprados, dossiês, muito menos sobre a operação de salvamento do Sarney e de humilhação do PT.
Depois, virão um blog e até um twitter, para interagir com a opinião pública. Tudo bem moderninho e bem oportuno a um ano e pouco da sucessão presidencial. E Lula não está rouco de tanto falar. Em Paris, já completando uns 80 dias em viagem ao exterior só neste ano, ele se ocupou ontem de uma entrevista à BBC. Para o mundo!
É Lula para todo lado. Na TV, de manhã, de tarde, de noite. Nos jornais, todos os dias, invariavelmente nas capas, quando anuncia um plano novo (mesmo que nem seja tão novo), quando faz discurso, quando fala à imprensa, quando viaja, quando lança a candidatura Dilma por aí afora, quando recebe o Corinthians, quando reúne prefeitos, quando escorrega e fala mais uma besteira -em qualquer circunstância, enfim.
Para isso existe e resiste a imprensa independente, que mantém espaços de opinião, ao lado do farto noticiário diário sobre o presidente, para trazer ao debate a crítica, o contraponto, o questionamento real, a saudável provocação. É claro que Lula e os lulistas não gostam, como FHC e os tucanos não gostavam. Mas é democrático, funciona como contrapeso e alerta.
Ainda mais quando o presidente se coloca acima do bem e do mal. E sonha com a unanimidade.
elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI
Para entender os Gês
PARIS - G8 é o clubão dos sete países ricos mais a Rússia. Como G7, reúne-se há 35 anos. Era, essencialmente, um grupo de coordenação entre a nata do capitalismo contra o comunismo.
A Rússia foi incorporada depois que abandonou o comunismo, mas costuma queixar-se de que é ainda de segunda classe no grupo.
Esse pessoal reúne-se amanhã. É um "talk show", porque a Casa Branca já avisou que deliberações não estão na agenda.
Vão falar principalmente da crise global. O tema apimentado é a tese chinesa de que se deve criar uma nova moeda internacional de reserva para substituir o dólar.
Não espere nada do G8 na Itália. Antecipa o vice-ministro chinês do Exterior, He Yafei: "O dólar norte-americano é ainda a mais importante e a maior moeda de reserva, e acredito que essa situação continuará por muitos anos".
Ou seja, é mais provável que o G8 passe o G20 sem que o dólar saia do topo do pódio. Na quinta-feira, é a vez do G8+G5 (os grandes emergentes, Brasil, China, Índia, África do Sul e México, aos quais este ano se soma o Egito, convidado especial da Itália).
É também puro "talk show". Mas o Brasil festeja ter sido chamado não apenas para a sobremesa, como em anos anteriores, brinca o chanceler Celso Amorim. Ainda assim, até a institucionalização do G20, o G8 continua sendo primeira classe e, o G5+1, segunda, brinca sempre Amorim.
O mais importante na Itália não será um G, mas o MEM (Major Economies Meeting ou Encontro das Grandes Economias). Reúne os 17 países que respondem por 80% da emissão de gases poluentes.
Esse sim vai decidir algo concreto: reduzir emissões de forma a que a temperatura não aumente mais do que 2C, em relação aos níveis da era pré-industrial. Detalhes, no entanto, só em dezembro, numa cúpula aí sim de todo o mundo.
crossi@uol.com.br

07 de julho de 2009
N° 16023 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA
Receita de domingo
Desculpem se hoje é terça-feira, pois vou responder a uma pergunta de dois dias atrás, o que talvez não importe tanto, pois cada hora pode ser uma brevíssima eternidade. Uma leitora escreveu querendo saber qual é a minha ideia sobre um domingo perfeito.
A resposta comporta um carrossel de probabilidades. Razão bastante para que me limite ao resumo do que não pode faltar.
Antes de tudo, uma branda sensação de paz. Um domingo deve ser uma síntese de serenidade, um encontro com o que de mais íntimo temos, um resumo de nossos sonhos.
Mas um domingo deve ser também um reencontro com a música. Já nem falo da clássica, mas as pessoas deveriam reservar ao menos meia hora para ouvir Felicità, Crazy, The Way you Look Tonight, Contigo em la Distancia, Stella by Starlight, Lara’s Theme, Eternally, mais tudo o que lhe sugerissem a fantasia e a imaginação. Essas melodias fazem bem à alma e não têm nenhuma contraindicação.
O que mais se espera de um domingo? Eu me atreveria a declarar que livros. Há pessoas que são felizes e não sabem. Não leram ainda Memórias Póstumas de Brás Cubas e podem guardar um lugar para elas em seu futuro. Para deixar as coisas bem claras, estou falando de um romance de Machado de Assis que poderia figurar como obra-prima em qualquer literatura do universo.
E o que dizer das artes plásticas? Não é preciso percorrer os maiores museus do mundo para ter presentes as imagens da Vênus de Milo, da Vitória de Samotrácia ou da Mona Lisa. Já nem falo de As Meninas, de todo o Van Gogh, de Georges de la Tour ou de uma única, solitária bailarina de Degas.
Se ainda houver tempo, recomendaria uma revisitação de cenas de Luzes da Cidade, Cidadão Kane, O Conformista, Nós que nos Amávamos Tanto, daquele imenso Amarcord, ou qualquer dos filmes de Fellini, sem esquecer naturalmente A Estrada da Vida.
É assim minha receita de domingo.
Que não estará contudo jamais completa sem uma reflexão sobre quem somos e o que queremos. Um diálogo íntimo que tente responder ao menos de que profundezas viemos e qual será nosso incerto destino.
Ótima terça-feira, aproveite o dia e para quem está de folga uma folga merecida.

07 de julho de 2009
N° 16023 - LUÍS AUGUSTO FISCHER
Quarenta sem perder a força
Foi em junho de 1969, quarenta anos faz, que saiu o primeiro número do Pasquim, um jornal que foi decisivo na vida mental do Brasil culto entre aquele ano e, pelo menos, 82. Por que foi assim importante? Mais fácil que explicar é experimentar, o que agora é perfeitamente possível.
Saiu o terceiro volume de uma bem bolada e melhormente executada antologia de textos e imagens do jornal, pela editora Desiderata, abrangendo os anos de 73 e 74. Em suas páginas, que reproduzem as páginas originais, mas em tamanho menor, desfilam os abundantes motivos de sua força: grandes textos, grandes charges, entrevistas inteligentes, tudo acessível, naquela época, por uns trocados semanais.
Hoje não há mais – como se diz em latim, Tempus fugit, eis o ponto – o contexto, o ar que respiravam os leitores da hora: a desagradável atmosfera da ditadura militar, colidindo de frente com uma promissora revolução de costumes.
A cada semana, a chegada do jornal era ao mesmo tempo a oportunidade de exercitar a mioleira, pelos comentários culturais, e a hora de compartilhar em segredo, no magnífico silêncio da leitura individual, o desconforto, a chateação, o aborrecimento e, no extremo do gradiente dos sentimentos da época, a gana, a raiva, o ódio contra a ditatura, que vinha de publicar o nefando AI-5 e desfilava sem pudor algum.
Tudo somado, o leitor era apenas em parte um mero receptor de textos e imagens, porque em outra ponderável parte passava à condição de cúmplice, aliado, irmão dos que ali escreviam. Experiência notável e irrepetível, pela força que unia a todos.
Pessoalmente, comecei a ler o Pasquim alguns anos depois, porque em 69 tinha apenas 11 anos e nem sabia o que era o quê. Mas quando comecei nunca mais parei. Ali estava um jornal culto mas falando língua de gente comum; era um espaço para a inteligência vida e a novidade, num tempo de muita invenção, da canção brasileira ao comportamento.
Os resultados dessa experiência fazem parte do que de melhor eu tenho dentro de mim: aprendi a pontuar (quer dizer, a pensar por escrito) lendo Paulo Francis; aprendi a me orientar culturalmente com os textos de Sérgio Augusto; aprendi a força do relato autobiográfico com o Henfil, em texto e imagem; experimentei a ironia em todas as páginas, e em sua forma superior aprendi lendo Ivan Lessa.
Como muitos, tenho comigo uma coleção de centenas de exemplares do jornal, que sempre imaginei como um tesouro a ser fruído em algum momento do futuro; tive ainda a ventura de comprar os 100 primeiros números encadernados, num sebo, anos atrás, também para nunca mais parar de ler; eis que o futuro chegou, e o melhor é que chegou em forma de livro, que o leitor qualquer tempo não deve perder.

07 de julho de 2009
N° 16023 - PAULO SANT’ANA
Enfrentando a maré
Certa vez, cometi um assédio verbal contra uma mulher formosa.
Ela me disse que aquilo lhe parecia um escândalo. Ela estava entendendo como uma proposta para carregá-la para uma alcova.
Respondi prontamente a ela: “Nada disso, querida, para quem já tocou no teu coração, para quem já mergulhou no teu coração como eu, tocar na pele do teu corpo é uma estupenda insignificância”.
No auge da minha festa de aniversário, 250 convidados fervilhando de felicidade intensa no salão, a champanha e o vinho correndo soltos, encontrei o Kenny Braga e perguntei a ele: “Que tal está a festa?”. E ele respondeu patético: “Que festa?”.
No vídeo que expuseram no palco do Hotel São Rafael, na festa dos meus 70 anos, mostraram uma cena impagável. Eu estava entrevistando Luana Piovani no Jornal do Almoço, ela me dirigindo aquele olhar de mormaço fugidio, e eu, estupefato diante da beleza angelical – e doce – daquela mulher, recitei-lhe um poeta romântico, olhos nos olhos dela:
Formosa qual se a natureza e a arte
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais puderam imitar no todo ou parte.
Luana celeste, oh anjo de primores!
Quem pode ver-te sem querer amar-te?
Quem pode amar-te sem morrer de amores?
Eu senti naquele instante Luana Piovani arrepender-se de ter casado com seu então marido, que meses mais tarde parece que, pelas notícias publicadas nas revistas especializadas, andou agredindo-a fisicamente.
Que mau gosto estúpido agredir aquele luminoso rosto.
Aquele rosto tinha de ser tombado historicamente.
Como disse a Rosane de Oliveira, nossa especialista em noticiário político, eu consegui no meu aniversário uma façanha extraordinária: subiram ao palco para cantar comigo a governadora Yeda Crusius e a primeira-dama de Porto Alegre, Isabela Fogaça, esta última tendo sido barrada, dizem, pela governadora, para cantar no Beira-Rio, no jogo Brasil x Peru.
Pois não só cantaram as duas comigo, cada uma a seu tempo, como se sentaram à mesma mesa. Se a contragosto, além de cantoras são atrizes, pois afetavam intensa cordialidade.
Trecho do blog de Luciana Genro: “Tive a deferência de ser convidada para o aniversário do Paulo Sant’Ana, a que compareci porque o julgo livre e corajoso. Foi corajoso quando saiu de carroça pela cidade, para mostrar que o carroceiro é um ser humano e sofredor, e não um estorvo que tem de ser removido da rua para os carros andarem mais rápidos.
E o Sant’Ana é livre porque sofreu pressões para calar quando divulgou a denúncia que fizemos sobre a bactéria Acinetobacter, que estava infestando os hospitais da Capital. E o Sant’Ana não silenciou porque estavam em jogo as vidas de muitos gaúchos.
O Sant’Ana é livre e corajoso porque não raro ele navega contra a maré. Ele frequentemente enfrenta o poder como muitas vezes contraria a opinião pública”.

07 de julho de 2009
N° 16023 - MOACYR SCLIAR
Um antipai?
Não sabemos que papel Joe Jackson terá no velório do filho, se é que terá algum. Do testamento, pelo menos, ele foi excluído por Michael. O que, segundo os relatos, não é de admirar. Joe Jackson estava muito longe de ser o pai ideal. Introduziu o filho, ainda criança, à música, mas o fez com brutalidade e movido por seus próprios interesses.
Seu comportamento, nos dias que se seguiram à morte do cantor, foi estranho, para dizer o mínimo. Ali estava aquele homem já idoso, mas vestido da maneira extravagantemente juvenil, caminhando com passo de urubu malandro, exibindo um sorrisinho astucioso e, pior de tudo, aproveitando os inesperados 15 minutos de fama para fazer propaganda de um selo musical que pretende lançar.
Joe Jackson não chega a ser uma exceção. O pai de Mozart, Leopold, fez a mesma coisa com o filho, e com igual êxito: aos seis anos, Wolfgang Amadeus já era um pianista famoso, que tocava para príncipes e dignitários de toda a Europa. O resultado é que nunca chegou a amadurecer, o que, claro, não impediu que produzisse uma obra impressionante: talento nada tem a ver com equilíbrio emocional.
Ah, sim, e o contrário também acontece: pais que reprimem ou ignoram o talento dos filhos. O escritor Franz Kafka teve, desde a infância, uma relação conflituosa com o pai, Hermann Kafka, próspero empresário, um homem grandalhão e arrogante que, com sua simples presença, intimidava o franzino rapaz.
Kafka não dependia dele – fez carreira como advogado –, mas atormentava-o o desprezo com que Hermann encarava sua literatura, coisa que aparece muito bem na famosa Carta ao Pai, um pungente testemunho do conflito pai-filho. Conta-nos Kafka que, quando um de seus livros foi lançado, apressou-se a levar um exemplar a Hermann. O pai, que naquele momento jogava cartas com amigos, não deu a mínima ao jovem autor: “Deixa aí na mesa, depois eu olho”.
Diante dessas deprimentes revelações, nossa primeira reação é de fúria, de revolta. Mas às vezes esquecemos que paternidade não é algo que resulte automaticamente da geração de filhos.
Tem gente que simplesmente não consegue assumir a condição de pai (ou de mãe). Falta a essas pessoas a maturidade, a capacidade de introspecção necessárias para cuidar de uma criança. É possível que, sozinho, no silêncio de seu quarto, Joe Jackson tenha derramado lágrimas por Michael, e é possível que o mesmo tenha acontecido com o pai de Mozart.
Em relação a Hermann Kafka, temos uma outra evidência, tão intrigante quanto potencialmente comovente. Uma vez circulou pelo Brasil uma exposição sobre Kafka, que, em Porto Alegre, foi exibida no Instituto Goethe. Entre as muitas fotos que ali estavam, havia duas de Hermann. A primeira tirada quando Franz ainda era jovem; vemos nela o homem descrito na Carta ao Pai, um tipo robusto, seguro de si.
A segunda, porém, é do período que se seguiu à morte do escritor. E a metamorfose (para usar o termo que dá título a uma obra famosa de Franz Kafka) é impressionante.
O que temos ali é um ancião alquebrado e triste. Seria essa transformação a forma, obviamente inconsciente, pela qual Hermann expressou sua dor e seu afeto pelo filho?
Não sabemos. Mas não nos custa dar às pessoas o benefício da dúvida. Ao menos para que possamos preservar nossa esperança na existência de um mundo em que pais e filhos sonhem os mesmos sonhos, e percorram os mesmos caminhos – até que a morte os separe.
É o sepultamento de um ser humano ou é uma festa de cambistas e de sorteados?
Segunda-feira, Julho 06, 2009

CHICO FELITTI - DA REPORTAGEM LOCAL
Amiga é coisa pra difamar?
Fofocas, intrigas e traições entre amigas fazem parte do cotidiano feminino; meninas são mais cruéis entre si ou isso é preconceito?
"Pelo menos meu ficante não pegou minha prima!", ouviu Serena*, 13, de sua melhor amiga, no mês passado.
Boa parte da escola, em Caçapava (SP), também escutou a frase, dita ao microfone do karaokê de um festival estudantil. Serena chorou na hora, mas, hoje, admite ter tido alguma culpa: minutos antes da revelação, havia dito à amiga que sua imitação de Ivete Sangalo em "Sorte Grande" (aquela da "poeeeira") havia sido péssima.
"Parece que sou um ímã de traíras!", reclama. "Se bem que toda as meninas são um pouco assim." Com essa ponderação, voltou às boas com a amiga. Casos como esse, de traições e brigas entre amigas, são corriqueiros em relatos de garotas e são sucesso na ficção.
Vide "Gossip Girl", que já vendeu mais de 4 milhões de livros ao redor do mundo e virou série de TV, mostrando a vida da "menina-fofoca" do título, que usa a internet, o celular e a sua identidade secreta para divulgar viralmente histórias de traição da turma -seu blog vira campeão de acessos.
Nos EUA, versões romantizadas da crueldade de moças contra suas semelhantes dividem vitrines de livrarias com obras de autoajuda que servem como "antídoto" para o disse-que-disse da vida real.
Títulos como "Odd Girl Out", que significa algo como "fora, garota diferente" e que ficou entre os mais vendidos do "New York Times" por três meses, ensinam como se livrar da vilania de amigas.
Baixa estima
"Enquanto os meninos batem uns nos outros, as meninas provocam outras lesões, invisíveis, como acabar com reputações", afirma Patrícia Guillon, psicóloga da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica).
Guillon analisou as agressões femininas em colégios brasileiros e aponta que é mais difícil escapar da violência relacional, que rola entre amigas.
"A violência relacional é uma punição gratuita que uma menina impõe à outra. Quem não tem comportamento igual ao do grupo vai passar de amiga a objeto de chacota", diz.
Segundo ela, são problemas de autoestima que fazem garotas se maltratarem sorrindo e, às vezes, sem consciência. Já os problemas das vítimas podem ser mais externos do que os de autoestima. Que o diga Blair*, 16, de Natal (RN).
Quando a melhor amiga dela terminou o namoro, passou a atormentá-la. "Essa "mina" cismava que eu dava em cima do moleque, mas juro que não!".
Num acesso de raiva, a colega enciumada acessou o fotolog de Blair, imprimiu três fotos em que ela aparecia fumando e bebendo e colou-as pela escola.
A coordenadora viu e chamou a mãe de Blair. "Não deu em nada, porque as fotos eram idiotas, que nem essa "mina", que devia estar de TPM."
Só que não dá para jogar a culpa de todos os atos nos hormônios, segundo o hebiatra (médico especializado em adolescentes) Maurício Lima, do Hospital das Clínicas de SP.
"Hormônios como o estrógeno e a progesterona mudam bastante o humor das meninas na puberdade, mais do que acontece com os meninos. Mas não enlouquecem ninguém." Cai aí a teoria de que a falsidade feminina vem do berçário.
Maldade
Katie*, 18 anos e dois namorados roubados por "amigas", não culpa as colegas. "Se elas fizeram cachorrada, eles foram ainda piores, porque deveriam gostar mais de mim!."
Em um dos casos, inclusive, a amiga abriu o jogo e falou sobre a paixão adúltera, chorando. O então namorado de Katie nada disse nem a atendeu quando ela ligou -para xingar. "Meninos também sabem ser mentirosos quando querem."
Foi o que constatou o sociólogo Noel Card, da Universidade do Arizona (EUA). Ele cruzou os resultados de 148 estudos sobre violência realizados com 73 mil teens dos EUA, nos últimos dez anos, e descobriu que... garotos fofocam.
Eles têm uma tendência duas vezes maior de partir para a violência física, se comparados às meninas, mas também sabem usar modos "mais sutis", como mentir para os amigos.
"Se não fosse de mau gosto comparar a um jogo, eu diria que as equipes estão empatadas. É preciso acabar com a imagem de que meninas nascem más", disse à Folha.
Se a maldade velada fosse ligada aos cromossomos XX, uma escola só de meninos não deveria ter fofoca, certo? "Fofoca aqui tem de monte! Os caras sempre inventam umas histórias uns dos outros", diz Dan*, 15, que estuda em um renomado colégio masculino.
* Todos os nomes foram trocados por personagens dos livros "Gossip Girl"

MOACYR SCLIAR
Música aquática
Ele tem passado horas mergulhado na piscina, para espanto da namorada, que não cessa de recriminá-lo
A modelo Kate Moss destruiu uma série de gravações inéditas de seu namorado, Jamie Hince, da dupla The Kills. De acordo com o jornal "Daily Mirror", Moss e Hince se envolveram em uma discussão ao cabo da qual a top model britânica arremessou uma bolsa do músico contendo um notebook com seis faixas da banda em uma piscina. Hince não conseguiu salvar os dados contidos no computador portátil.
"Jamie ficou muito abalado. Ele tentou recuperar o notebook, removendo o disco rígido e deixando-o secar em um armário ventilado", disse uma fonte próxima ao músico. Cotidiano, 28 de junho de 2009
QUE ELA era temperamental, ele sabia. Mas aquilo passava de qualquer limite: jogar na piscina um notebook com seis -seis!- músicas inéditas, era mais que uma agressão, era puro sadismo. E ainda assim ele não protestou, não disse nada.
Porque a verdade é que, apesar das brigas (ou quem sabe justamente por causa das brigas?) ele a amava. E, porque a amava, perdoava-a, tratava de esquecer seus rompantes, suas ofensas, seus ataques de fúria.
De modo que resolveu se concentrar na tarefa de recuperar as seis faixas sonoras. A medida mais óbvia, extrair o disco rígido e secá-lo, não funcionou. Procurou então um afamado especialista de informática.
O homem fez o que pôde, passou dias trabalhando, mas igualmente fracassou. "O jeito é tentar lembrar as músicas", disse, à guisa de consolo. O problema é que ele não conseguia lembrar tais músicas.
Elas simplesmente tinham sumido de sua memória, coisa que representava mais um triunfo da arrogante namorada. O jeito era esquecer, tocar em frente, esperar que um dia a inspiração lhe voltasse. Quando isso aconteceria, ele não tinha a menor ideia. No meio tempo trataria de se distrair, de fazer outras coisas.
Nadar, por exemplo. Era algo de que gostava muito -não por outra razão tinha piscina em casa. Nadando, esquecia dos problemas, de tudo. Nadando e mergulhando.
E foi mergulhando que ele teve aquela incrível surpresa. Estava ali, no fundo da piscina, em meio ao silêncio absoluto, o silêncio que só equivalia em beleza à própria música, quando de repente ouviu fracos e melodiosos acordes.
Imediatamente reconheceu-os: eram o início de uma de suas composições. O que significava aquilo?
Seria uma alucinação, confortadora e compensadora alucinação? Ou teria a música gravada no notebook, de alguma maneira, impregnado a água da piscina?
Mais que depressa ele saiu da água, disposto a gravar o que tinha lembrado. E então o choque: fora da piscina, não recordava nada, absolutamente nada, nenhuma nota. Sua música agora era um produto aquático, um aditivo da água.
Tem passado horas mergulhado na piscina, para espanto da namorada, que não cessa de recriminá-lo por causa disso. Mas ele não lhe dá bola. A piscina agora é o seu mundo. Ali ele está feliz, sozinho com sua música.
Sozinho, não. Nos últimos tempos, tem avistado uma bela moça que, sob a água e em um canto da piscina, lhe sorri. Quem é, ele não sabe. Talvez seja uma sereia das piscinas (sim, sabe-se que elas existem). O fato é que agora tem companhia. Tem um novo mundo onde viver.
MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

MELCHIADES FILHO
Campo dos sonhos
BRASÍLIA - Da rápida aclamação de Dilma Rousseff à invenção de Ciro Gomes como candidato em São Paulo, as novidades mais importantes e surpreendentes do PT neste ano pré-eleitoral passam pela reconstrução do grupo que comandou o partido com mão-de-ferro no primeiro mandato de Lula e saiu estilhaçado do mensalão.
Núcleo do extinto Campo Majoritário, a corrente Construindo um Novo Brasil se fortaleceu dentro da legenda e prepara uma aliança com alas que se desgarraram em 2005. O objetivo é assegurar a presidência da sigla em novembro e o controle da política interna no pós-Lula.
Para essa coalizão, porém, as eleições de 2010 atrapalham. Ela não tem nomes competitivos para oferecer às principais votações (Presidência e governo de São Paulo). Os caciques caíram nos escândalos. Não surgiram novas lideranças.
Daí a boa vontade desses petistas com o "dedazo" de Lula na corrida pelo Planalto. Dilma nunca militou dentro do partido. Uma vitória dela não ameaçará imediatamente a reconstrução do Campo Majoritário.
Obedece à mesma lógica a ideia de transplantar Ciro Gomes. José Dirceu & Cia. sabem que vencer os tucanos em São Paulo em 2010 será quase impossível, mas sabem que a campanha tem o potencial de catapultar um novo nome para a eleição à prefeitura da capital em 2012.
Apavora esse grupo a possibilidade de que Lula faça essa escolha -como fez com Marta Suplicy em 1998 (derrotada para o governo, ela levou a prefeitura em 2000). E, pior, que o presidente escolha, desta vez, um candidato petista que não tenha se "reconciliado" com o mensalão. Um Fernando Haddad (ministro da Educação), por exemplo.
Por isso o lançamento afoito dos nomes do prefeito de Osasco e do ex-governador do Ceará. Se perder, a Emidio de Souza ou a Ciro só restará voltar pro seu quadrado. Já o novo Campo terá dois anos e céu aberto para consolidar uma candidatura de confiança para 2012.
melchiades.filho@grupofolha.com.br
Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana

06 de julho de 2009
N° 16022 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
Cena doméstica
O gabinete é do avô escritor. O ambiente é de quem estuda: biblioteca, duas poltronas, quebra-luz, quadros, mesa, tapete de arraiolos e, naturalmente, um PC.
Ao lado do monitor, o pequeno atril metálico suporta um livro aberto, francês. Várias linhas sublinhadas em vermelho.
Não há música.
Aparece o neto, em fase de alfabetização. Pede, naturalmente, para jogar no computador. O avô sabe que terá de suspender a escritura do próximo livro, justo na cena capital. Mas o avô pondera ganhos e perdas, custo e benefício.
O avô cede ao pedido do neto. A alternativa seria a barbárie. O neto faz os cliques necessários para o download do joguinho da moda.
Enquanto a máquina realiza seu trabalho, o neto vagueia o olhar pela mesa. O avô acompanha a inspeção.
As vistas do neto param no livro aberto. Fixam-se nele. O avô já espera a pergunta: “Vovô, por que esse livro aberto?”
“É um livro que o vovô precisa para escrever o livro dele.” O neto tenta soletrar uma palavra: brim-bo-ri-ons. “Eu não consigo ler essa língua.”
“É francês. Um dia as escolas, quando tomarem juízo, vão ensinar de novo.” “E o que são essas frases riscadas com vermelho?”
“São as frases que o vovô considera muito importantes para o livro dele.”
“Ah...” O neto volta-se para o monitor. O miserável download ainda está em 80%.
O neto faz uma pergunta casual, apenas para que se complete mais rapidamente o tempo de espera: “Ah... então o vovô rouba essas frases e põe no livro novo?”
Uma sensação de delito no ar. Por sorte, em meio ao silêncio constrangido ao avô, completa-se o download. O neto, enfim, pode dedicar-se a destruir os extraterrestres, esquecendo-se da pergunta.
Como diria o Millôr: pano rápido.

06 de julho de 2009
N° 16022 - PAULO SANT’ANA
Vida, eu te amo!
Foi certamente melhor contado pela cronista política de Zero Hora Rosane de Oliveira um lance precioso acontecido na festa do meu aniversário anteontem. Tirei este trecho do blog da minha companheira de jornal, divulgado desde ontem:
“Aqui vai uma palhinha do que foi a festa de aniversário do Paulo Sant’Ana ontem à noite no Plaza São Rafael. Quem não foi terá dificuldade de acreditar no que eu vi, mas em se tratando de Sant’Ana, vocês sabem, nada é impossível.
Para começo de conversa, a festa reuniu pessoas tão diferentes quanto a governadora Yeda Crusius e a deputada Luciana Genro, do PSOL, uma das musas do nosso setentão. Yeda dividiu a mesa com o prefeito José Fogaça e sua mulher, Isabela, vetada pelo Piratini para cantar no jogo da Seleção Brasileira, lembram?
Pois Sant’Ana conseguiu a façanha de fazer a governadora cantar em público pela primeira vez. Fizeram um dueto cantando Ronda, de Paulo Vanzolini. Depois, ela cantou um samba sozinha. A dúvida do público era se Isabela Fogaça, cantora profissional, cantaria ou não com Sant’Ana depois de Yeda. Isabela cantou. E Sant’Ana, claro, não se intimidou com a afinação dela. Cantou junto e acabou elogiado por Isabela pela capacidade de entrar no tom dela.
Em tempo: discretíssima, Luciana não quis saber de cantar. Riu muito do vídeo que mostrava Sant’Ana contracenando com personagens diversos – de Julio Iglesias à macaca Nina – e saiu estrategicamente do salão quando Yeda se preparou para cantar.
‘Vou lá fora fumar um cigarrinho’, justificou”.
Por mais um pouco me matariam do coração na festa que organizaram para mim, sábado, para comemorar os meus 70 anos, a Betina Becker e a Ema Lúcia, sob a supervisão da bondade generosa do grande amigo Nelson Sirotsky.
Estavam lá grandes amigos meus, pena que não havia lugar para todos.
Foram peças básicas para solidificar meu arsenal espiritual para resistir à emocionalidade da ocasião meu filho Jorge Antônio, minha nora Clarice, o filho deles e meu neto Luca, mais meu genro Sérgio Wainer, minha ex-mulher Maria Ieda dos Santos Sant’Ana, meus irmãos de sangue e meus sobrinhos, que me ampararam devotadamente para que eu não soçobrasse psíquica e fisicamente no enfrentamento de tanta ternura que me dedicaram todos que compareceram à festa dos meus 70 anos.
Como eu já disse tantas vezes, a gente se realiza quando tem certeza de que faz falta aos outros. E tanta gente que me faz falta se emocionou próxima ou remotamente a mim por aquela data.
Que coisa boa ter-se a consciência de que se é útil, ao mesmo tempo em que é mais que útil, imprescindível, o carinho e o reconhecimento dos outros.
A vida é muitas vezes frustrante e até trágica, mas também pode ser bela. E quando é bela, se eterniza em nossa lembrança e dá um significado de conteúdo sólido para a existência.
Os meus 70 anos serviram indiscutivelmente como uma linha divisória na minha vida.
Daqui por diante, tenho o dever de ser mais amorável com os outros. Tenho o dever de dar mais atenção para os outros. Tenho o dever de ser ainda mais dedicado do que porventura já eu tenha sido para com os necessitados de pão e de amor.
Vida, eu que tanto já te amaldiçoei, declaro solenemente agora que te amo.

06 de julho de 2009
N° 16022 - L.F. VERISSIMO
Onde parar
Ainda sobre a cara do Michael Jackson: fiquei pensando em como um dos grandes problemas da humanidade é não saber onde parar. É um defeito que nos aflige de várias maneiras, desde não saber parar antes que um hábito se torne um vício até não saber parar de especular sobre a natureza do Universo antes de sucumbir à loucura. O Michael Jackson não soube onde parar de refazer a própria cara.
Você e eu conhecemos muita gente que não soube parar de retocar a sua e também já ultrapassou a fronteira do grotesco irreversível. Faltou alguém para lhes dizer: “Pare! Assim está bom. Nem um puxado a mais”.
A atual crise financeira mundial se deveu à incapacidade dos grandes financistas de Wall Street em reconhecer quando o lucro excessivo se tornava lucro obsceno. Ou seja, em saber onde parar.
A questão da corrupção e da desigualdade extrema se resolveria se houvesse um dispositivo interior que alertasse quando o dinheiro roubado ou acumulado se tornasse demais, algo que avisasse “agora chega, nem um centavo a mais”.
Porque, como se sabe, não são os milhões que corrompem e arruínam – é o centavo a mais. Aquele um centavo além do razoável, a perdição dos que não sabem onde parar.
Grandes artistas são os que sabem instintivamente onde parar. Pode-se imaginar um Velázquez decidindo que uma das suas pinturas estava pronta. Que uma pincelada a mais – como o centavo a mais do corrupto e do rico gananciosos – faria tudo desandar.
Ou um poeta depois do último retoque, da última microcirurgia estética no seu poema, lançando-o, certo de que não falta ou sobra uma palavra. É verdade que o instinto nem sempre ajuda.
O Jorge Luis Borges dizia que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, para não ficar reescrevendo-os ao infinito. Mas Borges, que nunca fez um texto muito longo, foi um grande exemplo de quem sempre soube onde parar.
Nas especulações sobre as primeiras coisas do Universo, saber parar também pareceria importante. Parar em Deus, criador do céu e da terra, e ficar por aí para prevenir maiores angústias, seria uma forma de sabedoria.
Mas outros não se contentam com uma explicação teológica que relega o resto a um mistério que não nos diz respeito, e dizem que isto seria como decidir parar de pensar. Já outros...
Mas acho melhor parar por aqui.
Domingo, Julho 05, 2009

Fabrício Carpinejar
UM MINUTO
Os pais rezavam antes do almoço e da janta. E nos obrigavam a acompanhar. Restava engolir a fumaça e adormecer a pele na nuvem cálida de temperos. A comida esfriava à toa. Eu me irritava com a demora. Empunhava o garfo para o ataque e tinha que suspender os movimentos selvagens com "Um minutinho, meu filho, a oração..."
Ave-Maria era um couvert artístico em casa. Uma entrada inofensiva de verduras. Desesperador quando o pai estava inspirado e cumpria um sermão ao invés de somente acenar para Deus.
Na pressa semanal, escutava nitidamente apenas seu sinal da cruz. Durante sábados e domingos, o pai exagerava no discurso diante da possibilidade da sesta e da volúpia do quarto trancado com a mamãe. O sexo o tornava messiânico. O sexo o impelia a acreditar na vida eterna. Um gemido levava a outro.
Ele agradecia tanto que eu perdia o apetite. Comer sempre foi um adiamento. Arrebentei a toalha de mesa pelo controle sufocado dos dedos. Puxava os fios para me distrair. Do meu assento, a madeira da mesa já aparecia contornando o prato.
Às vezes, ele pedia aos filhos para conduzir a reza e mostrar união familiar. Engasgava, soluçava, tropeçava no colarinho apertado da escola. Lembro que fiquei de castigo ao saudar o campeonato gaúcho do Inter.
Gremista, enfureceu-se: "Futebol não é religião". Imagina se fosse...
Achava uma ironia o agradecimento divino ao servirem vagem e bife de fígado. Agradecer aquilo só podia ser uma humilhação. Nestes momentos, entrava em ressaca gustativa e torcia por um terremoto, o soar da campainha, o toque do telefone. Ou que o timbre paterno virasse a Voz do Brasil com uma hora ininterrupta de notícias.
A saudade apressa túmulos, é o que penso agora.
Não partilho de crenças católicas, abandonei esse hábito aos oito anos com o divórcio dos pais, sofro de ansiedade, mas não consigo interromper mais o minuto de silêncio da comida.
Prato feito, hesito, espero a oração em mim. Dobro as mãos como um guardanapo. Espio para cada um de meus filhos como quem limpa o acúmulo da infância da garganta. Parece gripe, mal-estar. Espaço a respiração e giro o rosto para qualquer premonição de som: o vento chiando na janela, o relógio martelando seus pássaros, os latidos dos cachorros.
Atento como porta de igreja. Certo como um mendigo na escada. Meus talheres permanecem bentos, religiosos do suspiro.
No mais, boa sorte e sucesso na sua busca.

Caderno de Empregos - ZH 05/05/2009
Quando o amor surge no trabalho
Discrição nunca é demais e evita falatório entre os colegas – e não prejudica a carreira de ninguémSe no trabalho é onde se passa muitas horas do dia – algumas vezes até mesmo mais do que em casa – e é onde dividimos experiências e compartilhamos atividades, não é raro que seja o palco para se deparar com um novo relacionando.
Namoro no ambiente profissional, porém, requer ainda mais cuidado do que um relacionamento usual, já que qualquer descuido pode ser motivo de desconforto na empresa, para ambos, ou até causa de demissão.
Manter a discrição é a orientação para os casais que trabalham juntos, conforme a opinião da psicóloga e coordenadora de recrutamento e seleção da Concisa Recursos Humanos, Vanessa Marmentini Prandes.
– Mesmo a empresa permitindo o relacionamento, o casal deve manter a postura frente aos colegas de trabalho, sem esquecer qual seu objetivo, pois a empresa pode dar mais atenção ao relacionamento caso haja baixo de rendimento – ressalta Vanessa.
Os namorados, explica a psicóloga, devem lembrar que dentro da empresa, antes de tudo, são colegas de trabalho, e que por isso, apelidos carinhosos, beijos, recadinhos ou brigas devem ser reservados para outros ambientes.
– Utilizando a maturidade e o bom senso, certamente o casal manterá o relacionamento e também o emprego – alerta Vanessa.
Segundo o vice-presidente de relações trabalhistas e sindicais da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Carlos Pessoa, não há nada na legislação que justifique a proibição imposta por algumas companhias ao namoro entre os funcionários:
– Não podem e nem devem. O que podem proibir é que os colegas namorem dentro da empresa, porque algumas condutas são inadequadas no ambiente profissional.
Ele afirma que a melhor atitude é ser transparente, ou seja, deixar claro que namora, mas que de maneira alguma isso vai atrapalhar o trabalho de ambos. As organizações, ressalta, estão realmente preocupadas é com a produtividade de cada um dos colaboradores.
– Pode namorar. Mas aja como se não namorasse – recomenda Pessoa.
A favor do relacionamento responsável e discreto no trabalho, ele não aconselha o envolvimento entre chefe e subordinado, pois estes casos já englobam outras questões éticas. Para o vice-presidente da ABRH quando o casal trabalha junto, os dois tendem a ser mais produtivos, para não dar o que que falar aos colegas e muito menos aos chefes.
– E ambos querem se mostrar competentes. Isso também é uma forma de sedução – avalia Pessoa.

Roda da vida
Você está satisfeita com sua vida em todos os aspectos? Sente-se bem nos diferentes papéis que desempenha ou há áreas de frustração? Aqui você vai conhecer um instrumento que pode ajudá-la a conseguir mais equilíbrio e ainda encontrar a felicidade
Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Thays Sant’Ana - Ilustração • Adriana Alves
Mulher, profissional, mãe, esposa, filha, cidadã, amiga... São tantas mulheres que vivem em cada uma de nós que fica difícil administrar prioridades. Isso sem falar do imperativo de cuidar do corpo, da mente e do espírito. Nessa vida de equilibrista, é quase inevitável que algum pedaço acabe sofrendo, esquecido em detrimento de outro.
Há momentos, é verdade, em que o foco deve se voltar a determinado aspecto, mas que isso não aconteça ao acaso, pois você inteira, em todo o seu ser, precisa ser olhada e cuidada. Não se trata de estar no controle absoluto — isso não é possível, nem desejável. Mas sim de manter abertos os canais com os próprios sentimentos, o que representa um ganho na busca pela felicidade.
Quem pretende gerenciar melhor todos os papéis, antes de tudo, precisa de um diagnóstico da própria situação, um raio X do conjunto. Foi pensando nisso que a Robert Wong Consultoria Executiva, empresa que atua na área de recrutamento e desenvolvimento humano, criou a Roda do Equilíbrio, ferramenta de autoconhecimento idealizada pelo consultor André Alfaya, de São Paulo.
Ela ajuda a enxergar o grau de satisfação diante das escolhas diárias, o que é básico para orientar novas decisões. O melhor de tudo é que esse mapa da mina pode servir a qualquer uma de nós.
Robert Wong, sócio-presidente da empresa, aposta no autoconhecimento como chave da transformação — quem se conhece de fato sabe reconhecer e tirar proveito das próprias potencialidades, corrigindo as deficiências. Assim, fica mais fácil estabelecer e perseguir metas que fazem sentido.
Em contato com a própria essência, conquistamos liberdade para escolher nossos caminhos. Por outro lado, quem não sabe de si o bastante desperdiça energia direcionando-a para campos que não tocam seus verdadeiros interesses e talentos.
“Se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. A Roda permite você encontrar seus caminhos”
Robert Wong
Faça o seu jogo
A Roda é dividida em 11 áreas primárias, que constituem o grupo de necessidades comuns a praticamente todas nós. Cada divisão representa um aspecto de nossa existência: espiritual, emocional, física, intelectual, financeira, profissional, lazer, relacionamento íntimo, relacionamento social, relacionamento familiar e comprometimento com o meio ambiente.
O jogo começa com um exercício de reflexão baseado na pergunta “Quem sou eu?”. Pense no assunto e, com alguns conceitos sobre si mesma em mente, passe para a primeira etapa: observe uma a uma cada divisão (na figura, elas lembram fatias de pizza), atribuindo nota de 0 a 10, dependendo do grau de satisfação que sente naquele aspecto de sua vida.
Pinte com lápis de cor, em cada fatia, as faixas — começando da faixa 1 — até atingir a nota que você daria a seu desempenho naquele aspecto.
Antes de analisar o resultado, faça um segundo exercício, perguntando-se “Onde estou?”. A Roda colorida sintetiza seu olhar sobre a vida. É um retrato de seu momento e de como você está administrando a multiplicidade de papéis que lhe cabe — essa informação é decisiva no seu autoconhecimento e uma base segura para orientar suas decisões.
Avalie se a cor está distribuída de forma homogênea por todas as áreas e se ela cobre um bom volume de cada fatia. Porém, pouca cor e manchas irregulares — mostrando que você anda infeliz com vários aspectos de sua vida — não devem desanimá-la. Encare esse quadro como oportunidade de grandes mudanças.
O retrato que a Roda lhe oferece não traz respostas, apenas aponta eventuais desequilíbrios para orientar mudanças em cada setor, visando tornar o dia-a-dia mais coerente com seus desejos. Com o desenho colorido em mãos, trace um plano. “A diferença entre um sonho e uma meta está na data.
Quando estabelecemos metas, fazemos acontecer”, afirma Alfaya, que só acredita em mudança com planejamento. E o segredo de um bom planejamento, ensina o consultor, está em responder a três perguntas: o que eu quero? Por que eu quero? Como faço para chegar lá? Assim, pode-se estabelecer metas objetivas e detalhadas.
“Depois de colorir a Roda, você vai ter um retrato da sua atitude de vida em vários aspectos”
André Alfaya
Hora da virada
Prazos têm de ser possíveis para não gerar frustração. Por exemplo, se a Roda mostrar que você está insatisfeita com a sua formação intelectual, não se proponha apenas a estudar. Procure identificar os temas que deseja aprofundar, o motivo que a leva a buscar esse conhecimento, que cursos, livros e mestres podem orientá-la e quanto tempo precisa para dominar o assunto.
Não queira mudar tudo da noite para o dia. É hora de estabelecer prioridades. Trabalhe um aspecto por vez, começando pelo que pode repercutir sobre outras áreas, o que necessariamente não corresponde ao ponto com que você está insatisfeita.
Vamos supor que se sinta desmotivada no trabalho. A melhor estratégia pode não ser atuar sobre esse setor. Se a situação for provocada por um descuido com a saúde física, por exemplo noites de insônia, aí pode estar a causa e é essa área que merece investigação.
É importante, portanto, fazer associações entre as diversas fatias da Roda. Antes de pegar o lápis para colorir sua Roda, um último conselho de Wong: balanceamento perfeito não existe, e os eventuais desvios do ideal fazem parte do fluxo da vida. Eles nos permitem vivenciar experiências fundamentais no processo de desenvolvimento pessoal.

FERREIRA GULLAR
Um modo novo de encher a barriga
Ter filhos se tornou, no Brasil do Lula, um modo fácil de aumentar a renda familiar
CARISMA, CAPACIDADE de conquistar a confiança e o voto do eleitor é uma coisa; capacidade de governar, administrar, é outra. Esse é um dos percalços do regime democrático: a possibilidade de eleger-se um candidato carismático, que ganha a simpatia do eleitor, mas que não é um administrador competente ou não é honesto ou não tem gosto pela tarefa administrativa.
Dependendo de alguns fatores conjunturais ou da habilidade desse personagem, pode ele se manter no poder por anos a fio, fazendo da preservação de sua imagem e da confiança do eleitor, sua tarefa precípua. Caso as circunstâncias o favoreçam, essa capacidade inescrupulosa de manipular a boa fé do povão pode gerar consequências altamente negativas para a sociedade, que terá sérias dificuldades para evitá-lo.
Esse tipo de líder surge, com maior frequência, em países onde a desigualdade social é mais acentuada, o que propicia o uso de medidas assistencialistas e demagógicas, que lhe garantem a popularidade e os votos.
Certamente, atender a necessidades vitais da população carente tem seu lado positivo, desde que seja feito em caráter emergencial, seguido de medidas visando inserir o cidadão no mercado de trabalho, em vez de mantê-lo como um indigente que vive às custas do governo.
Como essa reconquista da autonomia do desempregado não interessa ao líder populista, a tendência é ampliar e manter os programas assistencialistas como investimento a fundo perdido, em prejuízo do crescimento econômico, da ampliação do mercado de trabalho e do progresso social.
O programa assistencialista, como toda intervenção no processo social, pode ter aspectos positivos e negativos. Os positivos, sabemos quais são; os negativos, às vezes, nos surpreendem, ainda que, se nos detemos a refletir, veremos que são quase inevitáveis.
Tomemos como exemplo o programa Bolsa Família, que nasceu para servir politicamente ao presidente Lula. Isso ficou evidente, desde o início, quando ele mandou fundir os programas Bolsa Alimentação e Bolsa Escola, para fazer de conta que um programa novo estava sendo criado pelo seu governo.
Pouco lhe importou o fato de que a fusão dos dois programas, com objetivos essencialmente diferentes, prejudicaria a execução de ambos e dificultaria sua fiscalização.
O resultado previsível não se fez esperar: parentes de prefeitos, de vereadores e deputados passaram a receber os benefícios a que não tinham direito nem deles necessitavam. Mas a coisa não parou aí: a engenhosidade popular pôs-se logo a serviço dos oportunistas. Hoje, à exceção talvez do governo, todo mundo sabe o que ocorre com o Bolsa Família, que abrange nada menos de 40 milhões de pessoas.
Inventaram-se os mais diversos modos de burlar as normas que o regem, chegando-se ao ponto de, quando o beneficiado pelo programa consegue um emprego, pede ao patrão que não lhe assine a carteira de trabalho, para que possa, assim, fazer de conta que continua desempregado.
Vejam vocês a que leva esse tipo de ajuda demagógica, quando sabemos que ter a sua carteira de trabalho assinada pelo patrão sempre foi uma aspiração de todo trabalhador. A carteira assinada é imprescindível para comprovar o tempo de serviço e garantir a aposentadoria.
Aqueles, porém, que abrem mão disso, estão certos de que o Bolsa Família os sustentará pelo resto da vida, sendo, portanto, desnecessário aposentar-se. É como se já estivessem aposentados, uma vez que ganham sem trabalhar.
Um conhecido meu, que cria algumas cabeças de gado, contou-me que o vaqueiro de sua fazenda separou-se aparentemente da mulher (com quem tinha três filhos) para que ela pudesse receber a ajuda do Bolsa Família, como mãe solteira e sem emprego.
Ao mesmo tempo, embora já tivesse decidido não ter mais filhos, além dos que já tinham, mudaram de ideia e passaram a ter um filho por ano, de modo que a filharada, de três já passou para sete, sem contar o novo que já está na barriga.
Esse procedimento se generaliza. Um médico que atende num hospital público aqui do Rio, declarou na televisão que uma jovem senhora, depois de sucessivos partos, teve que amarrar as trompas.
Com medo de morrer, aceitou a sugestão do médico, mas lamentou: "É pena, porque vou perder os R$ 150 do Bolsa Família". Pois é, ter filhos se tornou, no Brasil do Lula, um modo fácil de aumentar a renda familiar.
Em breve, o número de carentes duplicará e o dispêndio com o programa, também. O Brasil precisa urgentemente de um estadista.

DANUZA LEÃO
Glamour, para esquecer o Senado
Não há nenhum costureiro que faça um vestido de noite que chegue aos pés dos que fazia St. Laurent
OUTRO DIA fui ver a exposição de St. Laurent no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, e fiquei boquiaberta com as coisas que vi. Não foi uma surpresa, pois sempre acompanhei o trabalho do mais talentoso de todos os costureiros que já existiram, mas como ando meio desligada da moda, havia esquecido das maravilhas criadas por St. Laurent ao longo de 40 anos.
Ninguém vai negar o mérito de Balenciaga, Chanel ou Dior, mas, no fundo, eles copiavam a si próprios a cada coleção -exceto quando Dior criou o "new look". Já St. Laurent buscou inspiração na África, na Rússia, na Espanha, no Marrocos, na Ásia e nem sei mais em que outras culturas e adaptou-as a seu modo, cada uma mais linda que a outra.
E mais: enquanto os outros costureiros ficavam no preto, branco, bege, cinza, marinho, e mais ou menos só, St. Laurent ousou colorir o universo feminino, misturando cores que nunca ninguém, em seu maior delírio, teria coragem de ousar. Rosa-choque com vermelho, roxo com amarelo, laranja com verde -não, o mundo nunca havia visto isso antes.
E inventou o smoking para as mulheres, o que mudou todo o conceito de como se vestir elegantemente à noite; foi o supra-sumo de um achado simples e audacioso, o preferido do costureiro. Em uma entrevista, St. Laurent disse que a única coisa que lamentava em sua vida era não ter inventado o jeans. Só um gênio como St. Laurent diria isso.
Depois de ter visto a exposição, fui ver o vídeo que é um apanhado de todo o seu trabalho, e a tristeza do final, quando ele, já mal de saúde, fragilizado, vai à passarela pela mão de sua grande amiga Catherine Deneuve; nada a ver com o garoto que aos 19, 20 anos tomou o lugar daquele que até então era o maior de todos, Dior. E depois, no mesmo vídeo, uma bela entrevista do tímido, sensível e genial costureiro.
E fiquei pensando nesse -aliás, naquele- mundo de sofisticação, glamour e luxo que não existe mais.
Não há nenhum costureiro que faça um vestido de noite que chegue aos pés dos que fazia St. Laurent; apesar de nunca ter pertencido verdadeiramente a esse mundo, andei perto dele, e sabia do que acontecia nos salões.
Grandes festas eram oferecidas por milionários como o rei do estanho, Antenor Patiño, originário de um país tão pobre como a Bolívia, o triliardário mexicano Charles de Bestegui, nascido em um país na época tão pobre quanto o México, e o também riquíssimo chileno Arturo Lopez, todos conhecidos por seus bailes em Paris, em Veneza e em Estoril, que ficaram na história do jet-set.
Eram todos temáticos; ou um baile de máscaras, ou oriental, ou recordando Proust, cada um com mais de mil convidados, todos vipérrimos, atrizes internacionais, magnatas poderosos, e nobres, muitos nobres. Um jornal da época fez um delicioso comentário: "submersos num mar de tanta aristocracia, nem se pode compreender como existem tantas Repúblicas".
A exposição de St. Laurent me fez viajar no tempo e lembrar destas festas inacreditáveis que eu, apesar de não tê-las frequentado, soube como eram por amigos que tinham ido. E percebi, mais do que nunca, o que já sabia: que o mundo mudou, e para sempre. Nunca mais haverá um St. Laurent -comparem uma foto dele, sempre elegantíssimo, usando gravata mesmo quando trabalhando no seu ateliê, com uma de Galliano, de lenço de pirata e brincos.
Nunca mais acontecerão bailes como aqueles, nem haverá mulheres tão bonitas e glamourosas como Audrey Hepburn ou Jerry Hall, tudo isso acabou. Quem viu viu, quem não viu soube, e quem nunca viu nem soube vai morrer sem ter visto e sem saber.
E não compreendo que no ano da França no Brasil uma exposição tão importante tenha sido mostrada apenas no Rio, quando teria a obrigação de ter ido também para São Paulo. Uma bela pisada na bola de parte dos organizadores.
danuza.leao@uol.com.br

NICHOLAS TRUONG
Escola feita de sonho
Com um projeto de emancipar pela educação, o Centro Universitário de Vincennes, na França, inaugurou uma utopia pedagógica. Era uma época em que Vincennes sonhava.
Era uma época em que Edgar Faure, ministro francês da Educação de um governo gaulista que queria afastar a contestação estudantil do centro de Paris, autorizou, na esteira do Maio de 1968, a abertura de uma universidade experimental no bosque de Vincennes [leste de Paris].
Era o tempo em que o crítico de arte Jean Clair fazia o elogio da pintura muralista de estudantes revolucionários. Nessa época, o saber era um poder, e as salas de aula eram fumódromos. No departamento de filosofia, Alain Badiou e Jacques Rancière tiravam lições de Louis Althusser, a pouca distância de um bazar alimentício espantoso.
No departamento científico, Denis Guedj e seus amigos apresentavam os alunos à matemática e às lutas modernas, e a disciplina sulfúrea da sexologia causava espécie entre muitos observadores.
Baseado em fac-símiles e documentos de arquivo, fotos e textos sobre recordações, o jornalista e professor associado à Universidade de Paris 8 Jean-Michel Djian escreveu "Vincennes - Une Aventure de la Pensée Critique" [Uma Aventura do Pensamento Crítico, ed. Flammarion, 190 págs., 45, R$ 123], obra cuja forma inventiva reflete o fundamento de uma ideia educativa forte.
Criado em janeiro de 1969, o Centro Universitário Experimental de Vincennes, também chamado de Universidade de Paris 8, inaugurou concretamente uma utopia pedagógica.
Pois essa "floresta pensante", como disse a escritora Hélène Cixous, incansável defensora do projeto, foi sobretudo um ideal de emancipação pela educação.
Pluridisciplinaridade, ausência de distinção entre cursos magistrais e trabalhos dirigidos, igualdade de serviços entre docentes, inscrição de alunos que não tinham o diploma do ensino secundário e abertura a estudantes estrangeiros foram as principais inovações dessa heteróclita assembleia de acadêmicos precursores.
Reverenciados ou vistos como inofensivos "pensadores garantidos pelo Estado", como se dizia naquela época, Foucault, Barthes, Châtelet, Deleuze, Lyotard, Serres, Chomsky ou Marcuse eram os grandes nomes da equipe pedagógica de uma experiência certamente problemática, mas singular.
Para aqueles que viveram com amargura o fracasso do movimento dos professores-pesquisadores de 2009 [que fizeram greve contra novas regras referentes a seu trabalho e sua formação, vigentes a partir de setembro], essa obra de aniversário talvez traga algum consolo. Pois nela se traz de volta a ideia de que a universidade não se resume a um fluxo de estudantes a orientar, nem a uma enxurrada de departamentos a avaliar.
Ela é também uma certa ideia de universalidade e de um saber autônomo a ser compartilhado. Se Vincennes "teve seu tempo", como reconhece no prefácio do livro Pascal Binczak, o atual reitor de Paris 8, falta, segundo ele, inventar outras maneiras de ensinar que não se limitem unicamente aos objetivos da rentabilidade.
Este texto foi publicado no jornal francês "Le Monde". - Tradução de Clara Allain . - ONDE ENCOMENDAR - Livros em francês podem ser encomendados pelo site www.alapage.fr



































































