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quarta-feira, setembro 02, 2015


02 de setembro de 2015 | N° 18282 
MARTHA MEDEIROS

Facebook post-mortem


Quando o videocassete surgiu, devo ter sido a última pessoa a adquiri-lo. Depois fui a última a ter celular. A última a ter um smartphone. Não tenho tevê de LED até hoje – mas como preciso acessar o Netflix para assistir a Narcos, a tevê nova chegará nesta semana. Custo a sentir necessidade de ter novos brinquedinhos. Ou seja, não é por inadimplência, sou boca aberta mesmo. Quatro ou cinco passos atrasada em relação à humanidade, mas sempre chego lá. Na lanterna, mas chego.

Só que agora ficou puxado. Soube, através de uma matéria publicada aqui na Zero Hora, da existência de um site que continua atualizando o nosso perfil no Facebook depois que a gente morre (ah, fui a última a entrar no Facebook, não faz nem um ano, quando ele já estava obsoleto...).

Pois bem. Meses atrás, ouvi dizer que um conhecido meu havia falecido. Resolvi checar o Face dele para ver se era verdade, e vi que era, pois havia centenas de mensagens de pêsames. Os amigos todos “falavam” com ele. “Brother, você foi um exemplo.” “Mano, aquela nossa viagem ao Havaí vai ficar na lembrança para sempre.” “Amor, nunca vou te esquecer.” Entendo, é uma espécie de memorial. As pessoas o estão homenageando. Na hora, pensei: uma pena que ele não possa ler nada disso.

Mas hoje ele poderia ao menos fingir que leu, já que existe esse site miraculoso chamado Eter9, que permite que um robô armazene todas as informações sobre o ex-usuário (traços de personalidade, preferências, humor) e, depois de sua passagem, continue atualizando seu perfil conforme seus gostos e inclusive curtindo os comentários dos amigos. Se essa maravilha tecnológica já estivesse em uso quando ele faleceu, o cara poderia ter postado: “Muito obrigado, gente. Aqui faz frio, tragam um casaco”.

Talvez eu venha a me render a mais esse avanço, mas, por ora, considero apavorante uma alma penada manter contato através do Face. Sessão espírita online? Ainda não estou preparada para tanta modernidade. O máximo que engulo é o Facebook congelar alguns perfis a pedido de herdeiros, a fim de que eles possam lembrar do ente querido depois que ele se foi – mas até isso me perturba. Na mesma matéria, entrevistaram uma moça que mata a saudade da mãe através da rede. Ela declarou: 

“Se eu apagar o perfil da minha mãe, é como se ela não tivesse existido”. Antigamente, os cartórios registravam nosso nascimento e, a partir dali, tudo o que viéssemos a fazer, sentir, manifestar e construir seria suficiente para que fôssemos lembrados por quem nos amou. Já não basta. Agora, filhos podem esquecer os finados pais caso não vasculhem, de vez em quando, a página que eles deixaram. Quase posso imaginar minhas filhas fazendo o mesmo.

O que me resta? Torcer para que o obsoleto Facebook morra antes de mim.

02 de setembro de 2015 | N° 18282
ARTIGOS - SEBASTIÃO VENTURA PEREIRA DA PAIXÃO JR.*

QUEM DEFENDE A DIGNIDADE DO RIO GRANDE?, 


A federação só existe quando há respeito e solidariedade política. Aliás, é a própria Constituição Federal que, entre os objetivos federativos fundamentais da República (art. 3º), elenca a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, visando à redução das desigualdades sociais e regionais brasileiras. Como se vê, o espírito constitucional pressupõe um ambiente político nacional de diálogo e entendimento recíproco. A boa democracia não se faz com atos de força, mas com a consciência da razão pública superior.

Infelizmente, a União, com rara arrogância, resolveu colocar o Rio Grande de joelhos. Sabidamente, diante da grave situação financeira estadual, o governador buscou estabelecer um prévio e saudável diálogo com o poder central; entre humilhantes chás de cadeira, recebeu apenas promessas vãs. Na hora do aperto, não tendo mais como pagar o funcionalismo em dia, a saída encontrada, à luz do princípio federativo, foi postergar o pagamento da dívida federal. A retaliação, todavia, foi imediata. Por ato imperial do Planalto, as contas do governo estadual foram bloqueadas, atando as mãos do Piratini e açoitando sua honra.

Dizem que o sugestivo bloqueio está previsto em cláusula contratual de renegociação da dívida. Sem mesmo conhecer a literalidade da sintomática regra, a simples impressão já levanta fumaça de inconstitucionalidade. Isso porque não existe sequestro patrimonial sumário no Brasil, ou seja, nem se dom Pedro reencarnasse, a medida seria lícita. Se acha que é credora de valores, a União deveria usar o devido processo legal e não, subterfúgios arbitrários de cláusulas jurídicas de duvidosa constitucionalidade.

De tudo, o que chama também a atenção é o cordeiro silêncio dos parlamentares gaúchos. Salvo algumas vozes isoladas, nossos políticos assistem vergonhosamente calados a uma aberta agressão à dignidade do Rio Grande. No atual momento, tínhamos que estar juntos, independentemente de bandeiras partidárias, batalhando unidos contra o desmedido ato federal. Como é triste lembrar a nossa nobre história e olhar para um presente sem brilho. Será que ainda existem autênticos políticos gaúchos?

*Advogado


02 de setembro de 2015 | N° 18282 
PEDRO GONZAGA

ÓCULOS


Era a metade da década dos meus vinte. Costumava ir muito ao cinema, julgando-me um espectador invulgar com minhas leituras e noções de fotografia. (Houvera uma máquina do tempo e a mais necessária das viagens seria aquela para dar-nos uma bordoada corretiva.) Presunçoso, eu gritava: foco!, pedindo um ajuste fino na projeção, sem o qual as cenas pareciam subaquáticas. 

Chegou um dia, no entanto, em que, por mais que eu pedisse, nada era feito. Meu plano de vida à época era virar um carro com as próprias mãos, como no programa O Homem Mais Forte do Mundo (aquilo que era entretenimento), e foi só aos poucos que notei, pelo constrangimento assustado das pessoas ao redor, que o problema de foco estava em mim.

Eu precisava de óculos.

Levei meses, sentando fileira após fileira mais perto da tela, antes de procurar ajuda. Há dois tipos de hipocondríacos: os que vivem em consultórios, certos de que a doença fatal será revelada no próximo exame; e os que vivem em farmácias, automedicando-se, enquanto concebem terríveis enfermidades não aferidas pelos médicos.

Pertenço ao segundo tipo. Mas um dia, cansado das dores nos olhos que a aspirina não mitigava, cedi. A consulta durou pouco: astigmatismo e hipermetropia. Confesso que gostei da receita, com aqueles números cheios de vírgulas, ainda que esperasse mais suspeitas do dr. Alan Courtes. Como um simples óculos poderia ser a solução? O que aconteceu dias depois, ao efeito das lentes da Ótica Cláudio, foi uma revelação: o centro era brilhante em seus inéditos contornos.

Anos depois, quando li a história do Miguilim, de Guimarães Rosa, um menino que via a família e o mundo sob o véu da miopia até receber uns óculos, entendi o que me passara, com aquele poder que a grande literatura tem de ressignificar o que vivemos.

De fato, o que eu queria dizer é que às vezes Porto Alegre ganha de súbito essa mesma nitidez das primeiras lentes, ao sol branco de uma manhã de inverno, deserta de memória, liberta de tantas vezes ter sido cruzada, e novo também parece o rio, os morros, o triste muro, efeito, quero crer, que mesmo os de visão sadia sabem experimentar.


02 de setembro de 2015 | N° 18282 
DAVID COIMBRA

Prato feito


Uma coisa de que sinto falta por aqui, no norte da América, é do à la minuta, o chamado prato feito.

Nenhuma comida é mais brasileira do que o à la minuta, nem feijoada, nem farofa, nada. Você chega a um boteco do Centro e vê escrita a equação no quadro da calçada: “À la minuta + refri = R$ 10”.

É nesse que vou.

Você entra, se aboleta em frente à mesa de fórmica e, em três minutos e meio, verá, debaixo do nariz, um prato com arroz branco soltinho, feijão preto temperado com linguiça, salada de tomate e alface, batatas fritas do tamanho de um dedo, um bife dourado de um palmo de largura e, por cima de tudo, dois ovos fritos com as gemas moles, as claras duras e as bordas tostadas.

Do que você precisa mais? Da Coca gelada, claro.

Só no Brasil uma refeição tão singelamente deliciosa custa tão pouco. Ou, pelo menos, custava, quando eu trabalhava no Centro e pagava meu almoço com vale-refeição. Ainda existe vale-refeição?

Ah, recordo de pratos feitos gloriosos, para os quais olhava sorrindo em meio a um suspiro de prazer. E, em seguida, cortava um quadradinho simétrico de bife, mas não o comia. Não ainda. Deixava-o descansando num canto do prato e abastecia o garfo com feijão e arroz misturados e também com um pouco da gema amarela que eu havia adrede preparado, espetando-a com decisão e vendo o creme luminoso escorrendo sobre o monte branco do arroz. 

Só então, depois de ter equilibrado sobre o garfo a mescla de arroz, feijão e ovo, eu fincava o naco de bife e levava tudo à boca. Meu sonho sempre foi juntar nesta garfada também uma batatinha frita, mas aí seria um excesso, pelo menos para mim. Batatinha incluída é tarefa para os destemidos.

Você, que é fino, há de considerar esse meu almoço rude demais, vulgar demais. Seja. Reconheço que, dentro de mim, vive ainda, e sempre viverá, o subúrbio porto-alegrense, com seus botecos com ovo em conserva sobre o balcão e croquete na vitrine.

O fato é que o prato feito, ainda que afrancesado em à la minuta, é o príncipe das refeições brasileiras, é o símbolo da dignidade do trabalhador. Todo trabalhador deveria comer um prato feito ao meio-dia, tendo tomado média com pão e manteiga no café da manhã. Ele tinha que pedir um cafezinho de cortesia ao pagar a conta e sair conversando com o colega de trabalho sobre o novo centroavante que surgiu nos juniores do seu time. 

Ao chegar de volta à firma, ele disfarçaria uma ida ao bebedouro só para dar uma espiada naquela menina do DP que tinha vindo trabalhar de calça branca. Depois, comentaria com os amigos que ela lhe mandara uma olhada meio de lado, com jeito de que queria coisinha, eles dariam risada, dizendo que ele era uma baita de um mentiroso, ele riria de volta, concordando um pouco, e todos se acomodariam em seus postos, prontos para recomeçar a lida, não sem antes ele comentar:

– Cara, tava muito bom o bife, hoje, no bar ali da esquina.

02 de setembro de 2015 | N° 18282 
MOISÉS MENDES

Barbosa, de novo


No fim, Dilma poderá ser cassada por causa da recessão, da inflação de 9% e do desemprego de 8%. Porque as outras alegações vão perdendo força e possíveis aliados. Vão se fragilizando os esforços para dar status de veredicto ao futuro parecer do Tribunal de Contas da União contra as pedaladas e à sentença do Tribunal Superior Eleitoral contra as contas da campanha Dilma-Temer.

A direita certamente não contava que Joaquim Barbosa fosse enfraquecer a ideia do impeachment ou da cassação. Em palestra em São Paulo, o ex-ministro do Supremo demoliu o TCU e quase pulverizou o TSE.

Vejam o que Barbosa disse do Tribunal de Contas: “É um playground de políticos fracassados que, sem perspectiva de se eleger, querem uma boquinha”.

E mais esta: “O TCU não tem estatura institucional para conduzir algo (o parecer que levaria ao impeachment) de tamanha gravidade”. E agora sobre o TSE: “É um órgão cuja composição não ajuda, porque muitos de seus membros também exercem simultaneamente a atividade advocatícia”.

O TSE, diz Barbosa, no máximo tem poder para afastar “governadores de Estados menores, mas não um presidente da República”.

Eu e boa parte da torcida do Flamengo temos restrições à conduta de Joaquim Barbosa. Eu esperava dele uma lição categórica e irretocável de sábio da Justiça. Torci para que, sempre pela lei, como ensinavam os grandes xerifes, a cidade ficasse limpa de todas as quadrilhas.

Barbosa vinha bem, mas saiu precocemente do Supremo, depois do mensalão, e fragilizou a própria imagem e o compromisso de fidelidade à instituição. Deixou para trás quadrilhas com bandoleiros escondidos em telhados, galhos e poleiros diversos.

Podem achar, por isso mesmo, que Barbosa não tem autoridade para desqualificar colegas de outros órgãos. Mas ex-integrantes de qualquer atividade são bons mesmo como palpiteiros. Barbosa deu o palpite a que tem direito sobre o TCU e o TSE. Os que se enganaram e torceram ingenuamente pela sua adesão ao golpe devem estar muito abalados.

Para completar a ideia lá do começo. No final de 2002, FH deixou o governo com inflação anual de 12,5%. O desemprego pulou para 12,6%. E o dólar, em alguns momentos do final do governo, chegou a R$ 4. Mas dizem, claro, que eram outros tempos.

terça-feira, setembro 01, 2015




01 de setembro de 2015 | N° 18281 ARTIGO
DIONE KUHN*

A SOMBRA DO VICE


O convívio entre Dilma Rousseff e Michel Temer sempre foi marcado pela frieza e desconfiança. A presidente teve de engolir a indicação de Temer para vice na eleição de 2010. O PT precisava de apoio do principal partido no Congresso, o PMDB, para conseguir governar. Aliás, pelo sistema atual, nenhum governo sobrevive sem os peemedebistas. Ele passou o primeiro mandato na berlinda, enquanto ela surfava na popularidade alta.

O menosprezo da presidente por Temer era evidente em solenidades, discursos e reuniões internas. Uma ojeriza por alguém que é mestre em articular, tramar. Político tarimbado que é, Temer manteve o semblante de esfinge e não alterou o tom de suas frases milimetricamente calculadas.

O vice-presidente alijado do primeiro mandato não existe mais. Com o aprofundamento da crise, é ele quem agora se distancia estrategicamente da presidente. Considerado um dos políticos mais habilidosos do país – a sua capacidade de estar há décadas próximo do poder é a comprovação disso –, Temer já fez pelo menos três movimentos nas últimas semanas que mostram, no mínimo, a intenção de não se deixar contaminar pela crise.

Primeiro, disse que o país precisa de “alguém que tenha a capacidade de reunificar a todos”. Se realmente quisesse se referir a Dilma como sendo esse “alguém”, bastava ter citado o nome dela, evitando a polêmica e a deterioração da sua relação com a presidente. 

O segundo passo foi deixar a articulação política. E, por fim, ter deixado vazar o seu aborrecimento ao saber que Dilma, sem informá-lo, havia reunido um grupo de ministros para debater a volta da CPMF. Ao receber posteriormente um telefonema da presidente pedindo a sua ajuda na articulação para aprovar a volta do imposto, Temer se recusou e “sugeriu” que ela mesma a fizesse.

Com um governo cada vez mais fragilizado, o afastamento de Temer é um sintoma de que ele pretende se preservar politicamente para uma eventual renúncia ou impeachment da presidente.

Em qualquer uma das hipóteses, quem assume o comando do país é o vice.

*Editora de Notícias / dione.kuhn@zerohora.com.br


01 de setembro de 2015 | N° 18281
EDITORIAIS

A FACE EXPLOSIVA DA CRISE GAÚCHA

O ambiente de desolação no Estado é agravado por mais um parcelamento de salários dos servidores do Executivo, um constrangimento em particular. Não há como aceitar com resignação o fato de que esses funcionários sejam os únicos castigados pela medida. Tem-se como realidade que a crise do Estado acaba por punir a população em geral pela precariedade dos serviços prestados. É um dano direto aos servidores, às suas famílias e à economia em geral, que repercute em toda a sociedade.

Previsível, o aprofundamento do problema escancara a face explosiva da crise e a coexistência de dois mundos distintos na área pública: de um lado, um Executivo falido, que não consegue nem mesmo fazer repasses obrigatórios para a merenda escolar, os hospitais e os fornecedores, além das parcelas da dívida da União, e de outro os setores praticamente imunes às dificuldades. Sabe-se que tanto o Judiciário quanto o Ministério Público e a Advocacia-Geral do Estado, não atingidos pelos parcelamentos, tentam oferecer contribuições para a solução da crise. Mas é necessário fazer mais.

A crise é uma oportunidade para que todas as instituições, e não só o Executivo, somem esforços no sentido de evitar que o Estado conviva por muito tempo com essa deformação, que o faz gastar mais do que a sua capacidade de arrecadar. 

A penúria enfrentada pela maioria do funcionalismo, que não consegue pagar contas e prover a família com insumos básicos, é desonrosa para todos. Apropriar-se dos depósitos judiciais e aumentar impostos, punindo toda a sociedade, são saídas apenas emergenciais que não resolverão o problema. O Rio Grande do Sul exige mais para que se supere a ameaça de viver sob estado de permanente calamidade financeira.



01 de setembro de 2015 | N° 18281 
DAVID COIMBRA

Os malditos


Baruch Spinoza já foi meu filósofo preferido, mesmo que a leitura de seu texto duro fosse uma dor. Compreendia-o melhor quando lia alguém que interpretava o que Spinoza queria dizer. Aí relia e concluía:

– Ah... Hoje, não sei qual é meu filósofo preferido. Gosto de trechos de uns e de trechos de outros. Um defeito. Ser definitivo cansa menos.

Mas o que gostaria de lembrar, em relação a Spinoza, é que ele era judeu-português. Isso é importante. Seu nome derivava da cidade de Espinosa, na Espanha, onde viveu. Naquele tempo, judeus que morassem na Península Ibérica tinham de fazer de conta que eram cristãos, ou a Santa Inquisição os purificava numa fogueira pia. A família de Spinoza, cansada de fingir e sem disposição para ser purificada, mudou-se para a Holanda, muito mais tolerante. Lá, eles assumiram sua religião e foram felizes, até que Spinoza começou a divulgar suas ideias.

Então, Spinoza, que já era um refugiado religioso, foi banido de sua própria religião. O texto de sua excomunhão tem um poder que vara séculos:

“Maldito seja de dia e de noite, maldito ao deitar e ao se levantar, maldito ao sair e ao entrar. O Senhor apagará seu nome de sob o sol e o expulsará por seus malefícios de todas as tribos de Israel. Ninguém pode falar-lhe diretamente ou por escrito, nem pode fazer-lhe favor algum ou estar sob o mesmo teto que ele nem dele se aproximar menos de quatro côvados ou ler qualquer documento que tenha escrito ou ditado”.

O anátema sofrido por Spinoza é o anátema de todos os refugiados do mundo, em todos os tempos. Porque ele foi banido de uma comunidade que, de certa forma, já era uma comunidade de banidos. E qual povo pode dizer que não foi banido algum dia?

Orgulhosos ingleses fugiram da intolerância religiosa e vieram se homiziar na costa leste americana, no século 17. Depois, entre o fim do século 19 e o começo do 20, nada menos do que 17 milhões de europeus correram da miséria e das guerras do Velho Continente e reconstruíram suas vidas nos Estados Unidos. Alemães e italianos atravessaram o Atlântico e se instalaram no sul do Brasil, poloneses fizeram o Paraná, os japoneses foram para São Paulo.

De uns tempos para cá, o Brasil tem recebido haitianos e congoleses, e nada menos do que 10 milhões de pessoas do mundo todo vivem irregularmente nos Estados Unidos, apesar dos rosnados xenófobos de Donald Trump.

Mas nada, nada pode ser tão pungente quanto as cenas que se passam nas franjas da Europa. Famílias de sírios e africanos implorando para ter apenas a chance de viver em paz. Aquelas crianças chorando, aqueles homens rastejando, as mulheres desesperadas, como a sábia Europa pode se negar a socorrê-los?

Outro grande filósofo, Schopenhauer, dizia que o ser humano só se sublima quando sente compaixão, e só sente compaixão quando se coloca no lugar do outro. Como se colocar no lugar dessa gente que grita nas fronteiras da Europa? Pense em Spinoza. Saiba que eles, hoje, são malditos de dia e malditos de noite, malditos ao deitar e malditos ao se levantar, malditos ao sair e malditos ao entrar. Malditos. São só tristes malditos. Esperando que a humanidade lhes estenda a mão.


01 de setembro de 2015 | N° 18281 
CARPINEJAR

Quando a mulher se cala e o homem fala por ela


Quando a mulher fala pelo casal, a relação vai bem. Quando o homem fala pelo casal, a relação vai mal.

Repare, é assustador: o silêncio da mulher é insatisfação; o do homem, contentamento. O silêncio da mulher é repressão; o do homem, aprovação. O silêncio da mulher é angústia; o do homem, recompensa.

Quando os dois estão entre amigos, se o homem não fala e escuta atentamente, está concordando. Se o homem é que fala e a mulher mergulha na mudez, é que está prestes a explodir de raiva.

Homem passivo e mulher dominante são sinais de bem-estar. Homem dominante e mulher passiva são agouros de briga.

A mulher é a porta-voz da felicidade da vida a dois – pois sempre arranca na frente para antecipar as novidades e projetos. Não se furta a dizer a sua versão dos acontecimentos. A loquacidade representa comprometimento e engajamento no relacionamento: discute, debate, intervém, não deixa por menos. Já o homem matraqueando é a versão da tragédia, busca disfarçar tudo o que vem acontecendo de errado e fazer com que todos não percebam a indisposição feminina.

Homem alegre é plateia. Aplaude, ri, meneia a cabeça enquanto testemunha a sua esposa descrever as principais histórias e causos do seu cotidiano. Não sente necessidade de se contrapor à narração, até se vangloria das legendas. Quando entra sozinho no palco, é que fará um monólogo fingido: no fundo, distrai os outros de sua diva contrariada.

Mulher jamais é espectadora, somente se cala em nome da fúria, ciúme ou ressentimento. Não consegue nem mais reclamar. Prende a língua, trinca os dentes, já que se vê numa situação-limite: engatilhada a disparar sarcasmo e ironia a troco de nada, capaz de devolver o mero cumprimento com uma pergunta. Mostra-se educada a ponto de ser lacônica, não quer mentir e se controla.

Não desejava participar daquele momento hipócrita: pretendia resolver tudo antes em casa para depois sair (não é como o homem, que sai para resolver o que não foi compreendido em casa). Sua leveza depende da segurança emocional.

Para ter vontade de se expressar é que se encontra possessa, engasgada, de olhar baixo. Desistiu da esperança do humor. Admite ser dublada porque a sua cabeça e – principalmente – o coração se escondem longe dali.

segunda-feira, agosto 31, 2015



31 de agosto de 2015 | N° 18280 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

LOST IN TIME


Pois não é que já são 50 anos desde que a família Robinson, um robô e o clandestino mais mala da galáxia saíram por aí em busca de novos planetas para a humanidade ocupar?

Perdidos no Espaço é de 1965, e desde logo virou mania mundial. Aqui no Brasil, era um dos programas mais assistidos, e o robô berrando “Perigo” ou “Não tem registro” fazia parte do universo visual e afetivo de praticamente todos os seres vivos.

A diferença é que aquele mundo de 1965 era tão mais simples! Truques baratos nos convenciam, espaçonaves de isopor passavam por naves de verdade, planetas inteiros de papel crepom ocupados por monstros de 25 centavos nos assombravam! Éramos crédulos, muito crédulos, e a TV tinha uma imagem tão ruim que não era difícil nos convencer de que aquela criatura terrível não era de borracha, mas, sim, um dos mais infernais seres que jamais ocuparam Alfa Centauro.

O que aconteceu de verdade, a partir dos anos 2000 e dos displays de plasma, LDC, LED, conexão a cabo e unificação com a internet, é que várias inovações se reuniram em nossa sala de estar, e a televisão deu um salto, ocupando o espaço que antes era do cinema. A televisão de mentirinha, dos bons tempos de Perdidos no Espaço, virou a televisão para valer que vemos hoje.

É muito bacana a gente parar para ver como era tudo há apenas 50 anos, e Perdidos no Espaço é uma das melhores formas de reviver e recordar. Aproveito e mostro para a novíssima geração como eram os efeitos especiais de Perdidos no Espaço e Thunderbirds, e, ora vejam, as crianças de hoje amam. As séries de antanho mostram que viemos de longe e avançamos muito rapidamente. É bom fazer um salto analógico até o sofá e ver um pouco dessas preciosidades de uma época que não volta mais.

Se vocês tiverem um tempo nesses próximos dias, deem um jeito de ver, em DVD ou como for. O passado tem muito a nos ensinar, tem a nos mostrar um mundo mais simples, onde o pouco era a norma, e a imaginação criava as cores.

Fica a dica.



31 de agosto de 2015 | N° 18280 
DAVID COIMBRA

Gil, Caetano e R$ 600 na conta

Um ingresso para assistir ao show de Gil e Caetano custou mais ou menos o que um professor do Estado receberá hoje como parcela de pagamento do seu salário. Mesmo assim, pelo que soube, o show estava lotado. O preço, assim, se justifica. Caetano e Gil estavam certos ao cobrar o que cobraram.

Marx já ensinou que o capitalista detém os meios de produção e o proletário vende a sua capacidade de trabalho. O artista não é nem um nem outro, mas é mais parecido com o proletário, embora sua mercadoria, o talento, seja subjetiva. Se eu, Caetano e Gil apertarmos parafuso numa fábrica de carros, nosso trabalho valerá o mesmo. Ganharemos idêntico salário. Eu, Caetano e Gil apertamos parafuso, e aí está, e pronto.

Eu, Caetano e Gil também cantamos. Mas, se eu cobrar R$ 5 para que as pessoas ouçam minha maviosa voz, ninguém pagará. Justo eu, notável intérprete de Paulinho da Viola nas rodas da madrugada. Violão, até um dia, quando houver mais alegria eu procuro por você...

Já Caetano e Gil, por seu talento e sua história, valem a parcela de um salário de policial ou professor, e a prova disso é que as pessoas aceitaram pagar e o fizeram até com gosto.

E o professor e o policial, que hoje verão R$ 600 lhes pingando na conta bancária, quanto o trabalho deles vale para a sociedade? Por que eles ganham tão pouco?

Aqui, nesse escaninho dos Estados Unidos em que vivo, professores e policiais são tratados de uma forma que indica bem o apreço que a população sente por eles. Policiais de rua, singelos vigilantes de trânsito, têm e exercem uma autoridade jamais questionada. “Yes, sir!”, é como você responde a um policial que o interpela.

E o professor... Compreenda: não estou falando do enfatuado professor universitário, aquele que, no Brasil, ganha as benesses do Estado e a veneração dos estudantes. Estou falando do professor de ensino básico e fundamental. Pois esse professor, aqui, é uma estrela. O professor da escola pública recebe salário maior do que o da escola privada, e os melhores entre eles são disputados como centroavantes. 

A comunidade ajuda e participa. No ano passado, a escola do meu filho anunciou a intenção de dar um aumento de US$ 250 para cada professor da primeira série. A direção apresentou o orçamento da escola e informou quanto a mais era necessário para dar o reajuste. Os pais podiam colaborar? A maioria colaborou, e o aumento foi concedido.

Um mês depois, a filial do supermercado Whole Foods divulgou que, em um determinado dia, 5% da receita seria para a educação básica da cidade. Todos foram comprar lá.

Parece que esse tipo de iniciativa não é possível no Brasil. Li, em algum lugar, que isso seria considerado “privatização da escola pública”. Curiosamente, não se cogitou o contrário: de que, com as doações, o dinheiro privado estivesse se tornando público. Seja...

O brasileiro sabe valorizar grandes artistas, como Caetano e Gil. O brasileiro sabe o valor de um meia cobrador de falta. Sabe também, o brasileiro, quanto vale o médico que lhe tira a dor ou o advogado que lhe resolve a disputa com o vizinho. Mas será que o brasileiro, que tanto clama por segurança e educação, sabe quanto valem o policial e o professor?



31 de agosto de 2015 | N° 18280 
MOISÉS MENDES

O nosso rei

Se pudesse escolher entre a volta do coronelismo e a volta da monarquia, eu ficaria com a monarquia. O coronelismo mineiro misturado ao coronelismo paulista é sempre ameaçador. Os dois não esquecem a Revolução de 30 e estão por aí de novo, com todo tipo de manobra para tentar voltar ao poder, do jeito que for possível.

Uma monarquia atenuaria até a força de um eventual governo de coronéis e nos brindaria com a fantasia, a magia e as fofocas da família real. Os britânicos preservam a adoração pelos Windsor por causa da estabilidade, da sensação de que os valores se mantêm, de que nada, nem os escândalos, ameaça a ilusão da perenidade.

O Brasil, que pôs a correr seu rei, poderia trazer outro da Europa e acabar com a crise política provocada em boa parte pelos coronéis. Com as vantagens de um ambiente monarquista, acabaríamos com as conversas repetitivas e cansativas de golpe e de impeachment.

Mas não com a volta de um Orleans e Bragança, e sim com um Windsor. Importaríamos de Londres o príncipe Henry Charles Albert David Mountbatten-Windsor. Aqui, ele seria bem mais do que Harry, o eterno adolescente que diverte os britânicos com suas estripulias. O príncipe de Gales seria coroado, não como Rei Henrique, mas de uma forma mais despojada, como Hique, o Imenso, Imperador do Planalto Central.

Na Inglaterra, Harry não será nada além do que já é. Lá, ele é o quinto na linha de sucessão ao trono britânico, atrás do pai, Charles, do irmão, William, do sobrinho George e da sobrinha Carlota de Cambridge.

Em Londres, o rapaz será sempre um figurante. É mais fácil o Aécio finalmente reconhecer que perdeu a eleição do que Harry ser rei na Inglaterra. Que seja então no Brasil.

As circunstâncias nos favorecem. O príncipe adora samba e futebol e apaixonou-se pela brasileira Antônia Packard. E não seria novidade nenhuma um rei importado. O Brasil já teve o seu, e os nobres sempre transferiram suas famílias de um país para outro.

O próprio sobrenome Windsor é inventado, para esconder a porção germânica das origens da família real. Então, que venha o Harry. Aqui, ele poderia ser um Mountbatten-Windsor-Silva.

É claro que teríamos um governo plebeu, como os britânicos têm, mas a monarquia, com casamentos arranjados, traições e o nascimento de uma criança por ano, nos manteria em permanente diversão.


31 de agosto de 2015 | N° 18280 
L. F. VERISSIMO

Insensatez


O mais impressionante no assassinato da repórter e do câmera nos Estados Unidos é que, entre seu crime e sua captura e suicídio, o criminoso teve tempo de botar na internet o vídeo que ele mesmo fez do atentado e emitir um “twitter” e mandar um fax justificando seu ato. O assassino escreveu que Jeová mandou ele matar os ex-colegas, mas o que ele fez não foi em obediência a nenhum deus tradicional, foi uma oferenda à divindade moderna da comunicação global. 

O que ele conseguiu, acionando os vários meios ao seu dispor para transmitir seu feito enquanto era perseguido pela polícia – o vídeo gravado pela sua própria câmera e todos os recursos da internet para propagá-lo, além do recurso obsoleto do fax –, foi uma façanha tecnológica. E ele podia contar com a neutralidade moral da internet para absolvê-lo. Na internet, o psicopata convive com o santo, o imbecil com o gênio e ninguém é culpado. A única condição que a internet não admite nos seus frequentadores é o remorso.

Como acontece depois de todos os atentados à bala nos Estados Unidos, volta à discussão o controle do comércio de armas no país, onde qualquer maluco pode entrar numa loja e comprar uma bazuca. E, como também sempre acontece, o poderoso lobby da bala derrotará qualquer iniciativa nesse sentido. Em alguns Estados americanos, há regulamentos para a venda de armas. 

Pedem atestados de que você não é maluco nem sairá da loja já atirando em transeuntes, ou estabelecem um período de franquia em que investigam seu passado para saber se você usará sua metralhadora com responsabilidade. Mas, mesmo nos Estados em que há regras para dificultar a venda de armas, há maneiras de contorná-las, como exposições da indústria bélica em que a venda é livre.

A American Rifle Association (ARA), cujo lobby é o mais atuante e rico de Washington, tem conseguido evitar que o Congresso americano aprove qualquer lei para tentar impedir as chacinas. Como na bancada da bala no Congresso brasileiro, mas em escala maior e mais insensata, o acúmulo de horrores como o da última semana não emociona ninguém. 

A ARA tenta racionalizar sua posição com frases do tipo “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”, ao que a resposta óbvia – que também não emociona ao ponto de acabarem com a insensatez – é “pessoas não matam pessoas, pessoas armadas matam pessoas”. Mas há poucas possibilidades de o bom senso finalmente derrotar a ARA. Talvez no próximo horror.

sábado, agosto 29, 2015




30 de agosto de 2015 | N° 18279 
MARTHA MEDEIROS

A teoria do cachorro molhado

Gatos não gostam de banho, é sabido. O meu detesta. Outro dia o deixei numa pet shop para uma ducha completa e, duas horas depois, meu telefone tocou: eram os funcionários se desculpando, pois não haviam conseguido cumprir a missão. Haviam colocado o Nero numa jaulinha aguardando sua vez, e quando a vez chegou ele virou um tigre. Um tigre com dor de dente e pedra no rim, ninguém conseguiu encostar na fera. Saiu da pet shop tão imundo como entrara.

Quando a coisa aperta, o jeito é apelar para fórmulas caseiras. No dia seguinte, estávamos eu e minha filha conversando na cozinha quando vimos que Nero havia saltado para dentro do tanque da área de serviço a fim de lamber algumas gotas de água que sobraram por ali. Nem ao menos traçamos um plano verbal: bastou uma troca de olhares entre mim e ela para sabermos o que deveria ser feito. Me aproximei, abri a torneira bem devagarzinho e deixei cair um filete sobre a cabeça do bichano. Para nossa surpresa, não houve reação. 

Então passamos um sabonete líquido de uma forma meio disfarçada, como se estivéssemos fazendo um cafuné, até que tivemos que abrir mais a torneira para retirar o sabonete, e aí começou a selvageria. Pouparei você dos detalhes, já bastam as notícias catastróficas dos jornais. O que posso dizer é que Nero se sentiu traído, violentado, agredido, surrupiado em seus direitos. Mostrou as garras e jurou ódio eterno à família.

No entanto, o ódio eterno não durou nem três minutos, graças ao seu recurso de secagem instantânea. Não foi preciso enxugá-lo com uma toalha, ele preferiu fazer o serviço sozinho enquanto andava pela casa. Usou a teoria do cachorro molhado, que serve para gatos também: uma boa sacudida resolve.

Bem que podia ser assim conosco, seres de duas patas. Quer se livrar do que não lhe serve, quer tirar de cima um encosto, quer liberar-se do que é pegajoso, grudento, insatisfatório? Uma boa agitada na cabeça, tronco e membros, como se estivesse recebendo um passe. Pronto. Igualzinho como a gente faz quando sai da piscina, quando encontra refúgio numa marquise para fugir da chuva, quando escapa de uma nuvem de poeira. Abanar-se, arejar a roupa do corpo com umas puxadinhas, agitar os cabelos de um lado para o outro, até que o que não lhe pertence descole de você.

Funciona com água, poeira, fuligem, areia. Mas deveria funcionar também para mágoas, maus pensamentos, paranoias. Uma chacoalhada e xô, vai tudo embora, nos deixando zero bala de novo. Sem precisar da ajuda de Freud, Lacan, Jung, apenas adotando a teoria do cachorro molhado. Tente, às vezes a gente consegue. Uma boa sacudida e o ódio eterno por tudo e todos não excede mais do que três minutos.


30 de agosto de 2015 | N° 18279 
CARPINEJAR

Amiga para sair


Homem pode sair sozinho para uma balada e não vai parecer um psicopata.

Pelo contrário, será visto como um caubói, corajoso, livre atirador.

Sempre haverá um balcão para sentar e se mostrar seguro, sempre haverá um barman para puxar conversa e se distrair enquanto o tempo passa. Não depende de matilha e bando para se sobressair. Usufrui de independência para correr riscos, sem a pecha do isolamento, sem a carga social do abandono, sem a obrigatoriedade de uma cumplicidade aos seus crimes amorosos.

Já há um preconceito contra as mulheres.

É ela estar sozinha num bar em alta noite que já recebe todas as suspeitas. É fotografada culturalmente mais do que terrorista lendo jornal em metrô.

Torna-se dependente de uma amiga. Toda mulher precisa de uma amiga solteira. É um item indispensável para alçar voos e mergulhar na boemia.

Não pode somente aceitar o encontro de um homem para uma festa, precisa convencer a amiga, o que não é uma operação simples, mas uma trabalheira.

A aposta de flerte acaba sendo um convite coletivo.

Para um encontro a dois, a mulher recorre a um plano diabólico, a uma operação militar, a um cavalo de Troia.

Tem que cavar atrativos para tirar a sua amiga de casa. No desespero, é capaz de se oferecer para custear o táxi e a consumação. Ou de buscar e levar de volta. Ou de emprestar uma roupa e, inclusive, pagar a manicure.

A ala masculina não faz ideia do esforço de agenda: telefonar sem parar para voluntárias. Pior do que marcar futebol numa segunda-feira chuvosa.

O “sim” para ver alguém logo vira um “e agora, quem vai comigo?”. Bate um terror, uma caça às bruxas, uma acalorada licitação no Facebook.

A mulher é obrigada a trabalhar e ainda achar uma fresta em seu rápido intervalo para efetuar ligações e mandar mensagens e descobrir quem está disponível para a camaradagem e explicar a aproximação com aquele candidato.

Largar a vida de solteira requer primeiro persuadir uma confidente, com nenhum motivo em especial para o programa. Pois o papel da acompanhante não deixa de ser vexatório. Cumprirá a sina de segurar a vela e desfrutar do timing para abandonar a cena de fininho quando pintar uma atmosfera romântica. Sofrerá o constrangimento de se preparar e se maquiar para nada, apenas para atender aos caprichos de uma amizade.

Há grandes riscos de desistir da roubada na última hora e duplicar o caos da interessada.

E o que era difícil – arrumar uma companhia – transforma-se em missão quase impossível – arrumar uma nova companhia em cima do laço.

Mulher sofre para seduzir. Não subestime o que ela enfrentou para estar com você frente a frente.




30 de agosto de 2015 | N° 18279 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Facundo de novo


Terminei de reler agora o clássico argentino Facundo, ou Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento. Editado pela primeira vez em 1845, tornou-se imediatamente uma referência para o país, e retorna ao convívio brasileiro em tradução de Sérgio Alcides, com instigante prefácio de Ricardo Piglia, pela editora Cosac Naify.


Os dois nomes não podem ser embaralhados: Sarmiento, o escritor, viveu entre 1811 e 1888, tendo sido presidente da Argentina entre 1868 e 1874. Facundo, o assunto do livro, se chamou, por extenso, Juan Facundo Quiroga e viveu entre 1788 e 1835, tendo sido um caudilho de importância na região de La Rioja. No livro, Sarmiento conta a história de Facundo, mas faz bem mais que isso: analisa o mundo dos gaúchos da Argentina, mostrando seu estilo de vida, suas virtudes e suas barbaridades, mirando um objetivo mais amplo – no fundo, o livro ataca Juan Manoel de Rosas, presidente da Argentina no momento da produção e da edição do livro, ambas feitas, por sinal, no Chile, onde o autor estava exilado.

(Numa possível enumeração de paralelos entre a Argentina e o Brasil, o primeiro poderia ser este: lá, desde os primeiros tempos da independência do país se estabeleceu uma tradição de confronto que implicava em exílio – quem perdia, era mandado para fora do país, ou fugia mesmo, para poder sobreviver, como foi o caso de Sarmiento. No Brasil, as disputas de poder apenas uma vez levaram ao exílio, justamente na ditadura inaugurada em 64. De algum modo, no Brasil sempre prevaleceu um acordo de cavalheiros entre as partes que disputavam o poder, que permitia a permanência na sombra mas dentro do país; na Argentina, o confronto foi mais aberto e claro. Vantagem?)

Ao longo do tempo, comentaristas brasileiros buscaram paralelos entre o Facundo e Os Sertões, de Euclides da Cunha, mostrando por exemplo que o pampa argentino e o sertão baiano são afins entre si pela distância de ambos em relação às cidades europeizadas da costa, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Da mesma forma, há nos dois clássicos um notável empenho em descrever as populações interioranas, o gaúcho e o sertanejo, ambos mostrados em seu cotidiano e em sua visão do mundo.

Tem cabimento, claro, mas as diferenças não podem ser minimizadas. Para além da distância no tempo – o livro de Euclides saiu em 1902, meio século depois do outro –, Os Sertões tem em seu centro uma guerra contra uma população miserável, liderada pelo Antônio Conselheiro, figura religiosa, enquanto Facundo gira em torno de um grande proprietário ligado ao poder central do país naquele momento.

Outra grande diferença é que o Facundo é, no geral, de leitura muito mais transparente do que Os Sertões. Aquilo que no livro de Euclides da Cunha é um esforço de linguagem, envolvendo rebuscamento e de vez em quando algum pernosticismo cientificista, no livro de Sarmiento é fluência, em descrições e relatos que se deixam ler com grande facilidade. Uma diferença que pesa contra o nosso clássico, que mesmo assim merecia ser muito mais lido.

(Para nós cá do sul do Brasil, a leitura do livro de Sarmiento tem outros interesses, é claro. A perspectiva da dualidade excludente, ao modo do nosso grenalismo, está na alma do livro, a começar do título – o autor não tem qualquer dúvida de que há apenas duas possibilidades, a barbárie representada pelo Facundo e por Rosas, a civilização representada pelo ponto de vista culto e cosmopolita que se encontra na educação, na política institucional, no cultivo da inteligência letrada.)

Quando lembra o uso da degola como método rotineiro da truculência do Facundo, o estudo imediatamente se reporta ao hábito carniceiro do gaúcho. Quando descreve o estilo de vida da pampa, mostra o desprezo do gaúcho pela cidade, pelo refinamento intelectual, pelos hábitos citadinos. Estando no polo oposto ao do caudilho gaúcho biografado mas tendo nascido no interior, Sarmiento fica à vontade para escrever de modo claro e consistente, e para acrescentar toda uma reflexão sobre a Argentina como uma construção inacabada entre a Europa e a América.

Reflexão sintética assim o Brasil não foi capaz de fazer, naquele tempo – nem depois, me parece.



30 de agosto de 2015 | N° 18279 
ANTONIO PRATA

Googlall



Vira e mexe, me vejo bisolhando o sujeito na mesa ao lado e espremendo o cérebro feito um limão: de onde eu conheço esse cara? Terá sido meu companheiro no chalé 4 do acantonamento Rancho Ranieri, em 1987? O namorado da prima de uma ex-namorada, na faculdade? Um passageiro com quem troquei três frases na ponte aérea, semana passada?

Muito em breve, essa e outras questões serão resolvidas num piscar de olhos. Literalmente: bastará encarar a pessoa através das nossas lentes de contato digitais e uma legenda aparecerá, como na viseira do Robocop: “Pedro Arruda, 35, advogado tributarista, vulgo ‘Goiabão’, roubou seus bonecos do Comandos em Ação na quarta série”.

Tudo estará na rede e a rede estará em nós. Imagine um novo casal tendo aquela típica conversa sob os lençóis: “Que coisa doida a gente nunca ter se esbarrado por aí antes... Será que a gente já passou pertinho um do outro em algum lugar?”. Como seremos chipados ao nascer, os namorados poderão ver as situações em que estiveram mais próximos dando um rápido rewind nos GPSs pessoais. 

E já que as lentes filmarão o tempo inteiro, do exame do pezinho à pá de cal, dará até para assistirem às cenas de seus quase encontros: na infância, a três assentos de distância, no barco viking do Playcenter; na adolescência, se cruzando numa passeata dos “caras-pintadas”; numa tarde modorrenta de 2003, olhando pro painel de senhas do cartório Vampré, em Pinheiros. (Essas imagens, claro, estarão no vídeo de casamento dos dois, mandado diretamente para as lentes dos convidados.)

Nem só pra fora, infelizmente, olhará o Big Brother. Imagina que saco, você numa churrascaria e um bip alertando que a quantidade necessária de proteínas foi ultrapassada e é recomendável comer mais fibras. (Neste momento, as alfaces da travessa piscarão em suas lentes, como pop-ups na tela do computador.) Rodízio só será um programa viável se você estiver devidamente desplugado.

Se na ingestão a ferramenta será uma mala sem alça, na digestão poderá ser uma mão na roda. Sabendo as quantidades de sólidos e líquidos deglutidos e cada detalhe do seu metabolismo, um aplicativo poderá te dar hora e minuto exatos em que você terá que ir ao banheiro – uma espécie de Waze corporal, com informações precisas sobre o tráfego interno.

Confesso que, quando penso neste futuro próximo, o que mais me atiça a curiosidade não são as maravilhas possíveis (encontrar doadores compatíveis, unir pessoas com fetiche por roupas de couro verdes lambuzadas por iogurte de pêssego light), mas as pequenas inutilidades. Como, por exemplo, pegar uma caneta Bic e, através das impressões digitais, descobrir as mãos pelas quais já passou, ver as fotos e perfis desses desconhecidos cujo único vínculo é uma esferográfica – e, quem sabe, uma medula óssea ou um fetiche semelhantes. 

Talvez, quando esse dia chegar, já não se precise mais de cronistas: cada pedrinha no chão, cada tijolo na parede, ao serem escaneados, contarão histórias muito mais ricas do que as que poderemos inventar. Enquanto esse dia não chega, contudo, continuamos aqui, todo domingo.



30 de agosto de 2015 | N° 18279 
MOISÉS MENDES

E os que estão soltos?


José Janene era um deputado rico e influente do PP do Paraná. Foi quem indicou Paulo Roberto Costa, um dos famosos delatores da Lava-Jato, para a direção de Abastecimento da Petrobras. Janene, da quadrilha do mensalão, era compadre do doleiro Alberto Youssef, outro delator, operador da lavagem de dinheiro no esquema de propinas do reduto do deputado na estatal. O esquema de Janene teria sido a origem da corrupção da Lava-Jato.

Poucas pessoas conheciam Janene como Paulo Roberto Costa – que devia ao padrinho a indicação a cargo tão importante e que roubava para ele – e como Youssef, parceiro de copa e cozinha e movimentador do dinheiro arrecadado sob as ordens do compadre.

Youssef voltou a dizer, na CPI da Petrobras, na terça-feira, o que já havia dito ao Ministério Público em março – Janene lhe falava da propina mensal que uma empreiteira de Furnas, a estatal de energia, destinava ao então deputado Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais. Uma mesada modesta, de US$ 100 mil a US$ 120 mil, paga entre 1996 e 2000.

E Paulo Roberto Costa contou, na acareação com Youssef na CPI, na mesma terça, que o senador pernambucano Sergio Guerra, então presidente nacional do PSDB, recebeu R$ 10 milhões da empreiteira Camargo Corrêa, em 2009, para melar uma CPI que investigaria as falcatruas na Petrobras.

Costa disse ter sido procurado por Guerra e pelo deputado Eduardo da Fonte, do PP de Pernambuco, e orientado sobre como deveria fazer o pagamento. E fez. E a CPI não saiu.

Mas Janene morreu em 2010 e Guerra morreu no ano passado. Os corruptos tucanos, pelo que contam Youssef e Costa, não são investigados, ou driblam as investigações e a Justiça, ou morrem antes.

Não há tucanos corruptos presos, nem o ladrão avulso Pedro Barusco, que diz ter roubado sozinho na Petrobras durante cinco anos de governos do PSDB. Se não pegam corrupto tucano vivo, imagine se pegarão corrupto tucano morto.

Você conhece aquele parente, colega ou amigo que diz torcer pela Justiça, para que no final o bem vença todos os males, desde que os delatores só apontem o dedo para as gangues petistas. Delatores são sempre desqualificados quando delatam tucanos.

Mas você, que confia na Justiça e aplaudiu Joaquim Barbosa no julgamento do mensalão, certamente confia no ministro do Supremo Marco Aurélio Mello. Marco Aurélio sempre foi criticado por ter assinado o habeas corpus que, em 2000, tirou da cadeia o banqueiro Salvatore Cacciola.

Cacciola, do banco Marka, fora mimado com um estranho socorro do Banco Central, em 1999, e por isso estava preso. Foi libertado e fugiu para a Itália. Em entrevista recente a Roberto D’Avila, na GloboNews, Marco Aurélio respondeu com uma pergunta ao questionamento do repórter sobre a decisão de soltar Cacciola: e os outros do mesmo caso, que continuam soltos?

Cacciola, disse o ministro, pelo menos foi devolvido ao Brasil, preso e cumpriu pena. Mas quantos do mesmo caso continuam por aí? É a dúvida. Quantos, do governo FH, que prestaram socorro a Cacciola e a outros flagelados, num momento de total descontrole cambial, continuam impunes? Por onde andam? – é a pergunta do ministro.

Parece que todos continuam vivos. Daqui a algum tempo, teremos os balanços, inspirados na pergunta de Marco Aurélio, dos desfechos do caso Marka, da Lava-Jato, do mensalão mineiro, de Furnas, das propinas do metrô de São Paulo e de tantos outros episódios, não só para saber quem foi preso e julgado, mas para que se saiba quantos conseguiram escapar e continuarão soltos.



30 de agosto de 2015 | N° 18279 
L. F. VERISSIMO

Acontece

Desconfiaram do homem que ficava sentado num banco do playground da praça olhando o movimento. Ele estava lá todos os dias, só olhando. Houve uma denúncia, e o homem foi levado para a delegacia.

– Sim senhor, hein? – disse o delegado. – Olhando as criancinhas.

– Que criancinhas, delegado? – disse o homem. – As mamães. As mamães!

VEXAME

Marialva aceitou o convite de Oscar para jantar no seu apartamento. Ele mesmo cozinharia. Fazia um suflê de respeito, ela iria adorar. Marialva sabia muito bem que o jantar era só um pretexto. Haveria o suflê, acompanhado de vinho, e mais vinho, e os dois acabariam na cama. Mas tudo bem, pensou Marialva. Oscar era um cara atraente. A perspectiva de ir para a cama com ele não era desagradável.

Mas as coisas não correram como Marialva esperava.

– Isto nunca me aconteceu antes – disse Oscar.

– Não tem importância – disse Marialva, para consolá-lo.

– Que vexame. – O que é isso? Acontece. – Comigo nunca aconteceu.

– Eu sei, eu sei...

– Ele simplesmente não subiu como deveria. E logo com você. Eu queria que esta noite fosse perfeita. E ele não subiu!

– Quem sabe da próxima vez...– Me faz um favor? Não conta pra ninguém o que houve. Ou, no caso, o que não houve. Preciso pensar na minha reputação.

Foi então que Marialva se deu conta de que Oscar estava falando do suflê.

ONDE E QUANDO

A conversa na roda era sobre onde e quando cada um gostaria de viver, se pudesse escolher. Algumas escolhas foram óbvias.

Uma ilha dos Mares do Sul, antes da chegada do homem branco. Eu na praia, de sarongue, cercado de nativas e comendo coco.

Outras foram mais sofisticadas.

Eu gostaria de viver em Londres na era elisabetana. Contemporâneo de Shakespeare. Indo ao teatro Globo para ver suas peças no original.

Ao que outro comentara que em Londres, na era elisabetana, o esgoto era a céu aberto e ele teria que ir ao teatro Globo pisando em cocô.

Finalmente alguém declarou que, se pudesse escolher, gostaria de viver num comercial de cerveja na TV. A alegria permanente! A camaradagem! As mulheres sensacionais! E quando cansasse de um comercial pularia para outro exatamente igual, só com outra cerveja e outras caras. Aquilo é que era vida!


29 de agosto de 2015 | N° 18278O 
PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Turismo

OS JAPONESES E OS CHINESES usavam o pincel para aplicar a tinta na página em branco

Caro leitor, escrevo diretamente da Sicília. Entre o azul do Mediterrâneo e o verde intenso dos laranjais, nosso ônibus vai serpeando pelas estradas da ilha, ligando os pontos que conservam as marcas da mitologia e da cultura clássica. Saímos de Taormina, com o seu inigualável teatro greco-romano, subimos, com o respeito que merece, o impressionante monte Etna, debaixo do qual Hefesto, o deus ferreiro, continua avivando o fogo de suas forjas, e chegamos a Siracusa, terra de Arquimedes. 

Ali, na fonte Aretusa, meu primeiro contato com os papiros – não os de enfeite, mas os de verdade, criados ao sabor dos ventos que vêm da África, balançando suas cabeleiras verdes, curvando suas longas hastes para se aproximar uns dos outros como se fossem poetas conver-sando (a bela imagem, é claro, vem da pena de Guy de Maupassant).

Foi o esperto povo egípcio quem descobriu que podia processar esses juncos (pois é exatamente isso o que eles são) para produzir folhas homogêneas, flexíveis, densas o suficiente para receber a tinta sem borrar. Este avô não tinha ainda todas as qualidades do neto que viria a nascer, o papel, mas permitiu que o homem antigo conhecesse, desde então, o prazer insubstituível de expressar por escrito seus pensamentos e suas emoções.

Os japoneses e os chineses, por exemplo, usavam o pincel para aplicar a tinta na página em branco, os egípcios e os romanos preferiam escrever com um pedaço de junco com a ponta cortada em bisel (e quem diz junco, aqui, diz cana, de onde proveio a nossa caneta, da mesma forma que da costela e do caderno saíram a costeleta e a caderneta). Em Latim, chamavam-se de calamus (do Grego kálamus) essas hastes de mais ou menos 20 centímetros, com a ponta cuidadosamente aparada e fendida, à semelhança das penas de nossas canetas modernas.

De Siracusa, fomos visitar o Etna, um dos mais poderosos vulcões ativos do Hemisfério Norte, onde o guia fez questão de enumerar as tantas calamidades que suas erupções produziram na parte leste da Sicília – o que deu a mim, modesto guia na selva dos dicionários, a oportunidade lembrar ao leitor que calamidade vem do Latim calamitas, palavra que antes de designar, como hoje, um desastre de grandes proporções, primitivamente se referia a qualquer flagelo que arruinasse as lavouras de grão ainda por colher, deitando e jogando no chão as hastes da planta – o nosso já conhecido cálamo.

Mas vamos adiante: saindo de Agrigento, quase chegando a Selinunte, nosso ônibus parou num modesto restaurante na beira da praia onde tive a felicidade de comer um inesquecível prato de calamares fritos – sem me importar nem um pouquinho em saber que o nome desse saboroso molusco vem de calamarius, nome que os romanos davam para o recipiente em que se guardava a tinta e onde se mergulhava o cálamo de escrever. 

Pois é, meu caro leitor: de Taormina a Selinunte, passando pelo Etna, por Siracusa e por Agrigento – ou do cálamo ao calamar, passando pela calamidade, tudo isso é bom turismo, que nos dá cultura e prazer.



29 de agosto de 2015 | N° 18278 
NÍLSON VARGAS

O SHOW DE AGOSTO


Carla Bruni e Sarkozy passaram por aqui. O casal esbanjou simpatia em francês, ela cantou para poucos e ele correu na orla do Guaíba, entre o Gasômetro e o Beira-Rio. Deixaram boa impressão. Espero que tenham levado pelo menos um perfume de hospitalidade desta Porto Alegre de agosto, que acorda com o canto dos sabiás e estende tapetes de pétalas para habitantes e visitantes.

O melhor espetáculo desta travessia entre o inverno e a primavera é o protagonizado pelos ipês, jacarandás e flamboyants que espalham suas cores pelas ruas e calçadas da cidade. Nossas praças e parques nunca estiveram tão lindos, pintados pelo calor atípico que engana a natureza e antecipa a floração das árvores. Quando lembro que já nevou na Capital num dia 24 de agosto, três décadas atrás, penso que talvez o aquecimento global seja mesmo uma realidade.

Eu estava em São Borja naquele dia gelado de 1984, acompanhando como repórter a visita do então candidato Tancredo Neves ao túmulo de Getúlio Vargas, no 30º aniversário de sua morte. Vi o Neves – o presidente que não chegou a sê-lo –, mas não vi a neve na minha cidade. Durou pouco, apenas o suficiente para tingir de branco alguns telhados e capôs de automóveis, como mostram as fotografias da época.

Agosto é sempre um show inédito neste cantinho do planeta.

Como Sarkozy, também faço as minhas corridinhas pela orla do lago que pensa que é rio, só que no extremo sul da cidade, entre os bairros Serraria e Ipanema. Também lá os carros passam ao lado do passeio de pedestres, mas a poluição não é tão intensa quanto a percebida pelo ex-presidente francês em sua breve incursão pela área central.

A Zona Sul é tudo de bom, diz um decalco ufanista que alguns dos meus vizinhos de bairro colam em seus carros. Não sei se é tanto assim, mas, na comparação com outras áreas da cidade, parece mesmo que nossas várzeas têm mais flores e nossos bosques têm mais vida. As calçadas de Ipanema, Espírito Santo, Guarujá e Serraria parecem tapetes de Corpus Christi, sem tinta e serragem.

Como numa inspirada canção de antigamente, nós, os caminhantes, pisamos distraídos nas pétalas sem perceber que a ventura desta vida é o caminhar – e não exatamente o caminho.


29 de agosto de 2015 | N° 18278 
DAVID COIMBRA

Cuidado com os Ubers


Sou usuário do Uber, aqui em Boston. Hesitei ao fazer essa confissão. Temo que, ao chegar ao Brasil, seja espancado por taxistas em fúria. Justo eu, tão amigo dos taxistas.

Duvida? Pergunte ao Mauro, do Taxitramas. Ao Jeferson, do aeroporto. Ao Luiz Carlos, da Azenha.

Já escrevi muito sobre taxistas. Até os 40 anos, só andava de táxi. Não tinha carro. Lembro de uma vez em que entrei num táxi no ponto da Botafogo e senti um cheiro estranho. Fiquei farejando o ar. Era um odor poderoso. Denso. Que se sentia na boca e provocava certa náusea.

– O que há com teu carro? – perguntei ao motorista.

– Não é o carro – ele respondeu. – Sou eu – e abriu a boca e mostrou a língua vermelha, onde duas elipses brancas dançavam em bolhas de saliva. – Mastigo alho todos os dias – ajuntou, com orgulho, e explicou: – Pra evitar gripe.

Ao fim da angustiante corrida, tive de ser sincero: – Não leva a mal, mas é melhor ficar gripado.

Outro taxista que conheci, bom sujeito, certo dia, ao me acomodar no banco do carona de seu carro, a primeira coisa que ele disse, antes mesmo de me cumprimentar ou de perguntar para onde queria ir, foi: – Minha mulher me traiu.

Aquela informação desferida assim de inopino, feroz e veloz feito um tapa, me deixou perplexo. O que dizer para um homem que lhe atira um peso desses no colo? Durante todo o trajeto, ele descreveu os pormenores do caso. Tratava-se de um clássico: ele a flagrou se refocilando na cama com um amigo.

De alguma forma, aquilo me comoveu: afinal, o taxista confiara em mim. Só que, no dia seguinte, um colega veio contar:

– Sabe que hoje entrei num táxi e o motorista saiu me dizendo que é corno?

Seria o meu corno? Era. Nos dias subsequentes, várias pessoas me relataram que elas também serviram como confessoras do taxista traído, o que me deixou um pouco decepcionado com minha capacidade de despertar confiança nas pessoas.

Mas essas são apenas histórias curiosas. O que importa é que sou amigo dos taxistas, e já fui salvo por alguns deles. É uma categoria que aprecio. Quando me valho do serviço do Uber, e o faço com frequência, não é por desgostar dos taxistas. É porque a corrida em geral é mais barata, porque os carros são melhores e, o que mais me interessa, quando chamo um motorista, ele chega antes que eu possa dizer Cucamonga.

Além do Uber, existe outro serviço semelhante por aqui, o Lyft. O nome da empresa é uma brincadeira com um dos termos em inglês para “carona”: lift. Sem ipsilone.

Essa história de economia compartilhada está se espraiando devido às facilidades da internet. Por exemplo: em algumas cidades americanas, cozinheiros amadores anunciam, por meio de sites, que vão preparar um jantar. Os candidatos a comensais conferem o horário, o preço e o cardápio. Se gostarem, se inscrevem. O jantar é servido na casa do cozinheiro. É o Uber dos restaurantes.

Nós, jornalistas, também temos nossos Ubers. Algumas lideranças da categoria lutam para que o diploma universitário seja obrigatório para o exercício da profissão. Perda de tempo. A sua faxineira, se quiser, faz agora mesmo um jornal na internet. Para isso, só precisa de um celular e de um laptop. Ou, pensando bem, só de um celular.

Não há como refrear o movimento natural das pessoas de ganhar a vida fazendo o que querem ou o que gostam de fazer. Teremos todos de nos adaptar. Os Ubers vêm aí.



29 de agosto de 2015 | N° 18278 
CLÁUDIA LAITANO

Cidades invisíveis


Acaba de ser lançado no Brasil pela editora Carambaia, em edição de luxo e numerada, o livro Salões de Paris, volume que reúne as crônicas mundanas de Marcel Proust (1871-1922). Publicados originalmente em jornais, muitas vezes sob pseudônimo, para não queimar o filme do aspirante a escritor sério, os textos falam de moda, costumes e maledicências cotidianas em geral, mas também de arte, literatura e política – nada muito diferente do que os cronistas de amenidades fazem hoje em dia, com um pouquinho mais de estilo talvez.

O escritor aproveitaria muito dessa rotina de locomotiva social (nunca teve um emprego fixo na vida) para recriar o ambiente onde se movem os personagens de sua obra-prima, Em Busca do Tempo Perdido. No livro, as idiossincrasias da aristocracia francesa do final do século 19 ganhariam densidade e profundidade psicológica. 

O narrador já não era mais o garoto deslumbrado com duquesas, barões e seus salões refinados, mas um homem maduro lidando com as perdas e a decadência que o tempo costuma impor. Viu nobres decaírem, novos ricos ascenderem, mulheres lindas ficarem caducas, homens invejados tornarem-se figuras dignas de pena. Tudo o que um dia fora sólido desmanchava-se no ar – e em breve duquesas, barões, seus criados e ele mesmo estariam todos juntos embaixo da terra.

O tempo achata tudo o que não é presente ou futuro em uma única dimensão – das pirâmides do Egito à casa da nossa infância. Por conta disso, a Paris da juventude de Proust e a Porto Alegre da minha dividem hoje o mesmo continente imaginário. Há pistas nas cidades que as substituíram, mas boa parte delas se perdeu, morreu ou foi derrubada (muito mais aqui do que lá, infelizmente). 

Foi o que pensei nesta semana enquanto assistia ao documentário Um Filme sobre o Bom Fim, do diretor Boca Migotto. A certa altura da vida, percebemos que os cenários da nossa juventude vão desaparecendo, como uma estampa em um tecido exposto muito tempo ao sol. No caso do meu Bom Fim, o Escaler, a rádio que deixou de existir, o cinema que fechou as portas, tudo isso permanece arquivado na memória afetiva de muita gente, mas está desbotando.

No final de Em Busca do Tempo Perdido, o narrador percebe que só há um jeito de manter vivos para sempre os salões mais chiques de Paris – assim como duquesas, barões e a sua juventude: transformando as memórias individuais em patrimônio coletivo. Um Filme Sobre o Bom Fim faz mais ou menos isso por aquela Porto Alegre ingênua e rebelde dos anos 80. A nostalgia do espectador talvez seja menos do bairro do que de si mesmo. Como todas as nostalgias, essa é também apenas de fachada. Mas não é sempre que um filme pode prometer para boa parte do seu público: acomode-se na poltrona, abra os olhos e volte no tempo.