segunda-feira, 27 de setembro de 2010



27 de setembro de 2010 | N° 16471
FABRÍCIO CARPINEJAR (interino)


O pequeno goleiro

Eu prometi para o filho levar os colegas do futebol ao cinema. Disse por dizer, mais educação do que esperança. Qual a minha surpresa quando Vicente tocou em meus ombros na semana seguinte:

– Amanhã é o filme!

Tudo bem; coloquei o cocar da indiada. Pensei que seria um colega, foram cinco, que estavam à espera após o jogo no ginásio. Suados, felizes, gritalhões. Logo olhei a carteira para conferir se tinha dinheiro suficiente – o pacote agora incluía pipoca, refrigerante e ingressos quintuplicados.

Atravessar a rua com a turma representou tremor de ponte pênsil, sempre havia alguém distraído da faixa de segurança, flertando com o perigo. Andava aos trancos de polvo, com os braços levantados, não entendia como os avós vigiavam, ao mesmo tempo, 10 filhos. Naquela época, sair de casa correspondia a montar um comício.

Quando entrei no shopping, suspirei, fiz a contagem mental do time e segui adiante. Rezava para terminar a tarefa, tirar os sapatos e segurar o controle remoto em paz. Mas André, ruivo e sardento, no alto de seus 11 anos, travou no início da escada rolante. Enguiçou de verdade, mergulhou num transe de pavor. Busquei segurar sua mão e ele ganhou de imediato o peso de um Rei Momo.

Não se mexia, seus dedos estavam gelados, escorregadios. Formava-se uma fila ansiosa atrás da gente e o guri vidrado no corrimão de borracha, nos degraus se abrindo e fechando. Será que ele tomava remédio? Enfrentava crise séria na família? Possuía uma fobia de lojas? Não conhecia bulhufas do temperamento, só que jogava no gol. Quem é goleiro deve ter algum problema, não é muito certo servir voluntariamente de saco de pancadas.

– O que foi? – O que é isso aqui?

Raciocinei que perdeu a memória, ainda precisava fiscalizar os outros angustiados com o nosso atraso.

– O quê? É uma escada rolante. Não vê?

– Eu nunca vi. – Quê?

– Nunca visitou um shopping?

– Não. Ela se mexe, como posso colocar o pé?

Aquilo me pegou de jeito. Achava um absurdo um menino de cidade grande não conhecer uma escada rolante. Mudei o comportamento e o analisava com avidez de colecionador, uma espécie rara, rural. Um bicho estranho e assustado, com cinco olhos, três orelhas, duas bocas.

A turma começou a rir de sua inexperiência de vida, não consegui defendê-lo, imerso em igual pasmo. Depois veio uma compaixão pelos pais desnaturados, que o deixavam à margem do mundo. Tomei o pequeno no colo e o carreguei para cima.

Era tarde para interromper a gozação, alvo de dedos apontados, gargalhadas e apelidos. Foi quando André confessou:

– Eu já beijei uma menina na boca.

E todos esqueceram a escada rolante para descobrir mais detalhes.

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