Milton Hatoum narra traumas de uma geração e a tragédia do País
Jaime CimentiDança de enganos (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 82,00) é o romance mais recente do multipremiado escritor e professor amazonense Milton Hatoum, nascido em 1952, e se trata do último e extraordinário capítulo da trilogia O Lugar Mais Sombrio. A noite da espera (2017) e Pontos de fuga (2019) são os dois primeiros volumes da trilogia.
Neste volume final, um drama familiar com forte pano de fundo histórico e político, estilo que caracteriza o autor, a história é narrada a partir da protagonista Lina e os temas anteriores ganham novas perspectivas. A saga de Martin, o protagonista dos romances anteriores, recebe sentidos e lances imprevistos. Sua jornada em Brasília, no contexto tumultuado da ditadura, e depois em São Paulo, durante o período mais duro dos anos de chumbo, é agora também a de sua mãe, Lina.
Sempre trabalhando muito e bem as relações e conflitos familiares, o tempo, as grandes e pequenas histórias e a memória, Hatoum, a partir das anotações e da memória de Lina, vai mostrando uma dimensão surpreendente de sua trajetória, cheia de segredos, pessoas, amores, desilusões, angústias e, sobretudo, marcada pela ausência do filho.
No emaranhado dos fios da memória, onde o silêncio e o esquecimento são partes imprescindíveis, Lina revisita sua vida e a das pessoas ao seu redor, revelando uma galeria notável de almas desgarradas , que entram e saem da narrativa como se fossem sombras num longo e nebuloso sonho.
Lina lembra o filho Martin, reflete que "nem todas as dúvidas são vazias" e mostra que a memória, onde as coisas acontecem muitas vezes, também pode ser o espaço onde as pessoas esquecem o que não querem lembrar.
Um dos maiores nomes da literatura brasileira atual, com obras de ficção publicadas em dezessete países, há poucos dias Milton Hatoum tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Em 2025, seu nome foi cogitado, com justiça, para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Quem sabe os suecos, em outubro, anunciem pela primeira vez um brasileiro? Está mais do que na hora.
Lançamentos
O Pensamento de Guilherme Socias Villela e o olhar de um cronista (Bá Editora, 184 p.) organizado pelo renomado advogado e escritor Eduardo Battaglia Krause, com apresentações de Gabriel Souza e Deborah Villela, traz artigos de um dos maiores prefeitos de Porto Alegre, escritos ao longo de uma vida familiar e profissional plena, que muito beneficiou os cidadãos e a cidade.
Histórias Miseráveis (Maralto, 160 p.) de José Castello, grande jornalista, cronista, romancista e biógrafo, com seleção, organização e apresentação de Rogério Pereira, jornalista, editor e escritor, tem 35 crônicas literárias, muito bem escritas, sobre jornalismo, curiosidade, vida, perguntas, pessoas e situações do cotidiano inspiradoras que o autor generoso e bem humorado nos oferece.
Pintor. Despintor. Faxineiro.Doutor o Iberê Camargo (Reler, 210 p.) da arquiteta Christina Thereza Dias de Aguir e do geólogo Enio Soliani Júnior traz textos saborosos sobre Iberê e sua obra, frutos de uma convivência amiga de doze anos. Dezenas de fotos das obras de Iberê estão no volume, apresentado com carinho pela consagrada galerista Tina Zappoli.
Dia do Trabalho
A origem da palavra trabalho é horrível: vem do latim tripalium, instrumento de tortura com três estacas, usado para imobilizar e punir pessoas ou animais. Por isso, por muito tempo, a associação do trabalho com pena, esforço duro e sofrimento. Na Antiguidade, trabalho manual era visto como inferior, e cidadãos livres valorizavam o pensamento e a política, o tal trabalho 'intelectual'.
Na Idade Média, servos trabalhavam para os senhores e a religião dava um sentido meio moral a isso tudo, dizendo que era um dever. Na Idade Moderna, com a Revolução Industrial, o trabalho passou a ser assalariado e iniciaram as lutas por direitos trabalhistas: oito horas de trabalho, oito de descanso e oito xelins por dia, pediam os trabalhadores. No mundo contemporâneo, o trabalho é para ser fonte de renda, identidade e autonomia. Tecnologia, automação, trabalho remoto e outras novidades estão aí.
A história do trabalho humano, provavelmente, é a parte mais bonita e significativa da história da humanidade. Para a maior parte das pessoas, a relação com o trabalho é a mais longa ou das mais longas da vida. É uma relação consigo mesma, e se a pessoa trabalha com prazer, então, é das maiores realizações da vida. Infelizmente muitos trabalham por necessidade de sustento próprio e da família, por mera obrigação, e passam décadas suportando dificuldades até chegar o momento da aposentadoria. Muitos, infelizmente, não sobrevivem apenas com a aposentadoria e têm que seguir trabalhando.
Felizmente, os ordenamentos legais ligados à medicina, segurança e bem-estar físico e psíquico dos trabalhadores têm evoluído no Brasil e no exterior. Para os trabalhadores, para as empresas e para os órgãos públicos, muito melhor que o trabalho seja feito com o maior profissionalismo e com a maior alegria possível. Ginástica laboral, intervalos para alimentação, descanso ou relaxamento, programas de incentivo a ambientes de trabalho saudáveis e incentivo a boas condutas e práticas corporativas sem dúvida são elogiáveis e trazem melhores resultados para todos. Na medida do possível, e seguindo o pensador italiano Domenico De Masi, é bom cultivar o ócio criativo, que certamente vai redundar adiante em trabalho mais produtivo e divertido.
Nesse dia e nos outros é preciso valorizar as pessoas que nos auxiliam no dia a dia, seja nas nossas casas ou quando necessitamos transporte, saúde, mercadorias, serviços e, enfim, sempre que tenhamos contato com trabalhadores que muitas vezes têm salários baixos e ainda por cima se tornam invisíveis por conta da insensibilidade, da falta de educação e de delicadeza de quem se acha superior. Dependemos uns dos outros, somos anjos de uma asa só que precisam se aproximar do próximo para voar. Chamar pelo nome, cumprimentar, sorrir, agradecer, pedir desculpas, falar baixo, dar gorjeta, pedir licença e outras gentilezas vão gerar gentilezas e trabalhos e relações melhores, nesse mundinho barulhento, estressado e briguento.
a propósito
Por falar em trabalho, é bom sempre lembrar uma bela tradição japonesa: no Japão não existe aposentadoria total, o tal ócio com dignidade. Depois que se aposentam os japoneses seguem trabalhando em empregos mais leves ou fazendo alguma outra coisa, como trabalho voluntário, artesanato, estudos, exercícios, cuidados com a casa, cultivo de horta e/ou jardim, auxílio para os necessitados da comunidade e outras ocupações. Eles procuram ter um propósito, um bom motivo para levantar da cama e seguir se ocupando até que a saúde permita. Como dizia o Dr. Cyro Martins, quem não se ocupa, se preocupa. Feliz Dia do Trabalho feliz!
(Jaime Cimenti)



