sábado, 25 de setembro de 2010



26 de setembro de 2010 | N° 16470
MARTHA MEDEIROS


A anestesia do impacto

Desde que houve o acidente com o filho da Cissa Guimarães, eu só havia falado com ela por telefone. Semana passada estive no Rio e pude finalmente dar o abraço que desejava. Passamos uma tarde juntas e, entre outras coisas, foi inevitável conversar sobre o que aconteceu e como ela está lidando com tudo isso.

Ainda que esteja sendo sustentada emocionalmente pelos outros filhos, pelo neto, pelo trabalho e pelos amigos, sua dor está maior agora, ao contrário do que se imagina. E vem aumentando a cada dia.

Acabei lembrando de uma entrevista que o pugilista Popó deu certa vez, onde dizia que na hora a pancada não dói, só dói no dia seguinte. Faz sentido. O choque anestesia a brutalidade dos fatos.

Imagino que a morte de um filho deve ser como uma bomba atômica que explode no meio da sala. Todos ficam catatônicos, sem ação, não sabendo mais como agir, comer, dormir, viver. Não há mais o que havia antes.

Até se adaptar a essa desorganização radical do cotidiano, fica-se num estado de entorpecência, e não raro os familiares se iludem de que será razoavelmente fácil administrar a nova situação. Mas aí, aos poucos, o efeito anestésico da surpresa vai diminuindo, a reconstrução de uma nova rotina se impõe e a ausência torna-se acachapante pra valer.

Não precisamos vivenciar uma dor dessa dimensão para entender como funciona. Todos nós passamos por outros tipos de impacto que, num primeiro momento, parecem facilmente superáveis. Um casamento desfeito, a traição de um sócio, uma demissão, o cancelamento de um sonho, a ruptura definitiva com um parente. Na hora da pancada, ficamos atordoados, porém buscamos forças para continuar de pé e seguir no ringue, afinal, temos cérebro para quê?

Tiramos da cartola argumentos que nos seguram, a autoestima é convocada, nos agarramos à fé: tudo vai dar certo, nada nos atingirá. Mas aí o tempo passa, as coisas se acomodam e começamos a nos permitir sentir o que antes não permitíamos.

Descobrimos então que estamos frágeis emocionalmente, cansados de combater a tristeza, sozinhos diante da inevitalidade dos fatos, e então jogamos a toalha e aceitamos a derrota. O analgésico contra o choque não faz mais efeito.

Não é justo nem injusto, simplesmente é assim. Somos condicionados a nos acostumar com o que é regra, com o que é conhecido, com emoções controláveis. Quando a vida nos tira o chão e reverte a ordem natural dos acontecimentos, ficamos pendurados por uma cordinha tênue que se chama esperança, e nem sabemos exatamente esperança de quê: de aniquilar com a dor?

De voltarmos no tempo? De uma nova alegria nos alcançar? De tudo isso e mais o que for necessário para a gente reencontrar quem não podemos perder em hipótese alguma, que é a si próprio.

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