quarta-feira, 22 de setembro de 2010



22 de setembro de 2010 | N° 16466
JOSÉ PEDRO GOULART


Outro lado

Há uma onda de filmes espíritas lançados no cinema. Parece que a demanda por informações do outro lado tem sido grande. Alem de conforto, o pessoal daqui anda querendo umas dicas, enfim, se preparar. Mais ou menos como alguém que chegou antes na praia, no fim de semana, e nos liga para dizer se está frio, se é para levar um casaco extra.

Sempre pode facilitar alguma coisa. E há também a possibilidade do sujeito dizer o seguinte: não vem. Explicar que está chovendo, ruas alagadas, mar com ressaca. De maneira que a gente pode ficar em casa, no conforto, lendo um livro, se achando esperto por não ter entrado naquela fria. Não vou.

Li agora na Folha que no próximo filme do Woody Allen há uma cartomante que acessa o sobrenatural para ajudar um casal em crise.

Ele banaliza o tema: “Não existe diferença entre uma cartomante, um biscoito da sorte e qualquer uma das religiões organizadas”; mas acredita “que é preciso alguma ilusão para se seguir em frente, e as pessoas que conseguem alguma fé parecem ser mais felizes”. Ele, porém, não se inclui nesse clube: “Para mim, o que vemos é aquilo que existe”.

O Pulso é um curta que fiz há mais de 10 anos. Conta a história de um rapaz, que mesmo depois de morto guarda um restinho de sentimento. Uma vez no necrotério, o morto se apaixona pela médica legista – e, consciente que não pode voltar, percebe que só lhe resta uma chance, a de que “ela” cruze a fronteira e encontre com ele do lado de lá.

Um pouco depois de o filme ficar pronto, estive em Nova York. Certa noite, caminhando na rua, notei um alvoroço em torno de um bar no Village, Woody Allen estava por lá, filmando. E eu, hospedado bem perto dali, tinha uma cópia em inglês do Pulso. Era uma chance, uma tentação, quem sabe um sinal.

Não me pergunte como, mas o filme acabou naquelas mãos que psicografaram Zelig, Annie Hall, Crimes e Pecados e outros. E ainda deixei meu telefone, endereço, e-mail, número da sepultura, qualquer coisa que me desse uma pista do que, afinal, o grande Woody Allen tinha achado do meu pequeno filme. Mas ele nunca retornou. Ingrato.

Na entrevista da Folha ele diz que acorda à noite, já se pegou tendo calafrios, pensando a respeito da morte. Eis a busca de todos, explicações. Dos que frequentam centros espíritas que prometem uma conexão com o além, aos que submergem no escuro do cinema. No fim, todos buscam a mesma resposta: devo levar um casaquinho a mais?

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