quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016



25 de fevereiro de 2016 | N° 18456 
DAVID COIMBRA

O governador parece não se importar

Preciso dizer algo ao governador Sartori. Alguém tem que dizer. Ele está cercado de ótimos assessores, mas nem sempre os auxiliares sentem-se com autonomia para tremular a verdade diante do rosto do chefe. Então, digo eu.

É o seguinte, governador: está parecendo que o senhor não se importa. As pessoas estão com medo de sair à rua, ônibus e lotações são assaltados diariamente, restaurantes sofrem arrastões, há tiroteios e assassinatos todas as semanas em vários pontos da cidade, as polícias estão desvalorizadas, os bandidos sentem-se tão confiantes, que gravam músicas prometendo tomar bairros inteiros, isso tudo está acontecendo, e o senhor parece não ligar.

O senhor não fala sobre o assunto e, quando fala, tergiversa.

O senhor não se mostra nem preocupado. Aparece rindo, dançando ou fazendo piada.

Não é engraçado, governador.

As pessoas não estão se divertindo, no Estado que o senhor governa. As pessoas estão assustadas.

Talvez o senhor ou algum de seus ótimos assessores (não é ironia) rebata lembrando que moro longe, num lugar seguro, e que por isso não posso falar a respeito. Ao contrário: isso me dá ainda mais instrumentos para falar a respeito.

Sei bem, governador, do prazer simples de buscar meu filho na escola e voltarmos para casa caminhando, conversando sem inquietações, ele me contando das suas novidades de menino, como a descoberta de que é um porquinho no horóscopo chinês. Sei bem, governador, da sensação reconfortante de passear à noite com minha mulher, por uma rua escura, apenas para esticar as pernas, sem nenhum temor das pessoas que vêm na direção contrária. Sei bem, governador, que mesmo os que nunca foram assaltados, em Porto Alegre, perderam, perdem, e muito. Porque a essas pessoas não foi roubado um celular ou a carteira: foi roubada a cidade.

A primeira função do Estado, numa democracia, é fazer cumprir a lei. Todo o resto é, exatamente, o resto. É quase luxo. Quando o Estado não consegue assegurar o cumprimento da lei, a sociedade entra em colapso.

O Rio Grande está à beira do colapso, governador.

Todos sabemos que o senhor assumiu um Estado quase falido. Todos sabemos que o governo não tem recursos para novos investimentos, e que não é culpa sua. Isso está claro.

Mas, ao ganhar os votos dos gaúchos, o senhor ganhou também a condição de líder institucional do Estado. Um líder, mais do que prerrogativas, tem responsabilidades. Entre elas a de indicar o caminho para a solução de problemas. Ou, se não souber qual é o caminho, de pedir ajuda a quem sabe. E de se mostrar preocupado. A alegria de um pai é ofensiva, se o filho está desesperado. Esse problema é seu, governador. É o senhor que tem de resolver.

Vou dar um exemplo caseiro de um governador que soube se comportar numa situação semelhante. Em 1983, Blumenau enfrentou a maior enchente da sua história. A cidade foi destruída. Esperidião Amin era o governador. Sua mobilização intensa, sua liderança ativa, sua presença ubíqua, sua atenção a cada medida tomada animaram a população, consolaram os flagelados, fizeram a diferença. A partir daquela tragédia, Blumenau concebeu a Oktoberfest, a segunda maior festa do Brasil, e cresceu como cidade. Blumenau melhorou. E Amin se tornou figura nacional.

Nos momentos de crise é que surgem os grandes. Aproveite este momento, governador. Torne-se grande graças a ele.

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