sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016



26 de fevereiro de 2016 | N° 18457 
DAVID COIMBRA

O shortinho das colegiais

Aescola tem de formar cidadãos, certo?

Errado. A escola tem de difundir o conhecimento.

Mas não é o que se espera, no Brasil.

Agora mesmo, alunas do Anchieta se rebelaram pelo direito de usar shortinhos três centímetros mais curtos do que o permitido pela escola. Não por pretenderem sensualizar, ressaltaram, mas porque sentem muito calor.

As novas gerações são calorentas, compreende-se. O que não se compreende é a comoção que o tamanho do shortinho causou no Estado. Importa-me muito mais o que é mais importante: quando as protestantes abordaram o currículo escolar. Elas defendem mais “educação social e política”.

Educação social e política? Já tivemos isso nas escolas. A disciplina se chamava, exatamente, Organização Social e Política do Brasil, o velho OSPB. Tínhamos, também, Moral e Cívica e Religião.

Era o ensino de “valores”. Não é o mesmo que a sociedade pede da escola hoje? “Valores”.

Naquele tempo, um dos valores que tentavam nos passar era o patriotismo. Num dia tão quente que faria as anchietanas irem para o colégio de fio dental, a professora nos obrigou a cantar o Hino Nacional tantas vezes, em posição de sentido, debaixo do sol, que passei mal e desmaiei.

E agora, no século 21? Que valores serão transmitidos a nossos efebos e cachopas? “Não nos falaram sobre as operações anticorrupção no Brasil”, questionaram as meninas do Anchieta. Sob que ponto de vista os professores abordarão a corrupção? O professor petista dirá que sempre se roubou no Brasil, que o brasileiro fura fila e altera nota fiscal, que é do brasileiro roubar. O professor antipetista dirá que uma quadrilha governa o país e que o PT tornou o roubo sistemático. Quem está certo? Quem tem os valores “certos”?

Essa história de valores não é só brasileira. É ocidental. Einstein, o gênio redescoberto, odiava a escola alemã exatamente porque era pouco “humana” e por demais centrada no conhecimento. Mas da escola alemã saíram, além do próprio Einstein, seus colegas Heisenberg, Niels Bohr, Von Braun e Max Planck, só para ficar em alguns da sua área e do seu tempo. Não fosse a exigente escola alemã, Einstein talvez tivesse se tornado sociólogo.

Enquanto o Ocidente se “humaniza”, o Oriente Longínquo se “desumaniza”. Até demais, reconheço: no Japão, o governo pediu que as universidades fechem as faculdades de ciências sociais e humanas. De 60 faculdades desta área, 30 deverão ser eliminadas nos próximos meses.

Já no Ensino Médio a concorrência é tão feroz, que o número de suicídios entre adolescentes explode nos três primeiros dias de setembro, no Arquipélago – são os dias da volta às aulas.

Estive na Coreia do Sul, visitei famílias “comuns” para ver como eles vivem. As crianças praticamente não têm infância. Depois da escola, passam as horas restantes do dia em cursos de inglês, matemática, línguas, ciências.

Sim, eles exageram. Mas no que resulta?

Bem, eu aqui vivo na cidade-sede da educação na América. São 55 universidades poderosas, entre elas Harvard, com seus 47 Prêmios Nobel, os gênios do MIT e a Boston University de Luther King. E o que se vê nos campi? Japoneses, coreanos e chineses. Estão tomando as universidades americanas, a ponto de o governo planejar o estabelecimento de cotas para LIMITAR o número de orientais nas faculdades.

Esses alunos de olhos amendoados buscam o conhecimento. Como os japoneses aprendem “valores” na escola? Ajudando a limpar os banheiros e a varrer as salas de aula. Que tal?

Valores são subprodutos do conhecimento. Se o estudante aprender sobre a democracia, por exemplo, saberá que esse não é um sistema em que todos podem tudo. Ao contrário: esse sistema só funciona a partir da lei.

Mas quem se interessa pela lei, no Brasil? O Brasil quer formar gerações de libertários. Está formando gerações de mimados.

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