terça-feira, 16 de fevereiro de 2016



16 de fevereiro de 2016 | N° 18447 
DAVID COIMBRA

Os ovos cozidos do príncipe

Li que o príncipe Charles, depois de suas caçadas, gosta de comer um ovo cozido. Um só. Mas o ovo tem de estar no ponto exato, clara dura, gema mole, ou ele se irrita, e dizem que o príncipe Charles, irritado, torna-se desagradável.

Assim, o ponto do ovo cozido do príncipe transformou-se em obsessão para os serviçais do palácio. Como é extremamente difícil atingir a perfeição exigida pelo monarca, os cozinheiros resolveram o problema da seguinte forma: eles preparam não um, mas SETE ovos, e os deixam todos quentinhos em seus suportes de prata, à espera do príncipe, que chega esbaforido do nobre desporto.

Charles, então, testa os ovos um a um. Rompe, com a colherinha, a casca do topo do ovo e observa o interior com seu olhar acurado. Em geral, basta o exame visual para rejeitar um ovo malfeito. Vez em quando, prova de um bocado. Se não está como ele quer, passa adiante, até encontrar o ovo ideal. Aí, sim... ah... o príncipe se compraz e suspira, reconfortado por aquele momento de civilidade, como têm de ser sempre os momentos dos príncipes.

Confesso que, ao tomar conhecimento dessa história, fiquei um pouco decepcionado com os cozinheiros dos palácios da Grã-Bretanha. Porque eu, que não passo de um cozinheiro plebeu, que nunca fiz nem jamais farei suflês ou mousses, porque essas comidas aeradas de príncipes não são coisa de cozinheiro do IAPI, pois eu, assumidamente um cozinheiro baldio, sei fazer um ovo cozido no ponto principesco.

É assim: encha uma caneca de alumínio com três quartos d’água. Ponha para ferver. Quando tiver atingido cem graus Celsius e 212 graus Fahrenheit e a água começar a borbulhar, pegue o ovo e prenda-o amavelmente entre duas colheres de sopa. Em seguida, deposite-o com serenidade no fundo da caneca. 

Consulte o relógio e não tire mais os olhos dele durante precisos 2,5 minutos. Após esse período, não mais, nem menos, use outra vez as duas colheres para capturar o ovo da caneca e assentá-lo no recipiente apropriado para os ovos cozidos, que é aquela tacinha bonitinha em formato de meio ovo. Se for de prata, como em Buckingham, melhor, mas não precisa. Separe uma pitada de sal, apenas e tão somente uma pitada de sal, para temperá-lo.

Presto! Qualquer coisa, já tenho emprego na Inglaterra.

Há quem critique Charles por esses e outros caprichos, como querer uma toalha dobrada sempre da mesma maneira, sobre a mesma cadeira, quando sai do banho. Eu não critico. Sei que o poder refina gostos e eleva padrões.

Veja aquele que não é nosso príncipe, mas nosso pequeno rei, Lula. Fui algumas vezes a São Bernardo, para fazer matéria sobre ele. Os antigos amigos contam que era um apreciador da mais brasileira das bebidas, a cachaça. Mais tarde, ao ser eleito presidente, festejou sorvendo uma taça de Romanée-Conti, néctar que custa cerca de R$ 80 mil, 10% de uma reforma de triplex.

Imagino que o primeiro gole de Romanée-Conti produziu a mágica de requintar quase que de imediato o paladar do nosso Pai dos Pobres. Ele que, na intimidade de seus amigos empreiteiros, era chamado, não sem carinho, de “Brahma”, ele passou a apreciar vinhos de qualidade superior.

Conta o jornalista Cláudio Humberto, aquele que foi ministro de Collor, que Lula, ao deixar o Alvorada, levou com ele 1.403.417 (um milhão, quatrocentos e três mil e quatrocentos e dezessete) itens em 11 caminhões de mudança. Lembrancinhas. Entre elas, uma preciosa carga de vinhos, conduzida em um caminhão apropriadamente climatizado. Trinta e sete dessas caixas de boa bebida, como se sabe, foram deixadas naquele sítio que não é de Lula, lá em Atibaia. Aprazível. Civilizado. Fidalgo. Como há de ser.

Charles e Lula provam: o poder sofistica. O poder faz bem.

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