segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



22 de fevereiro de 2016 | N° 18453 
CELSO LOUREIRO CHAVES

BRUXAS


Às vezes, é recomendável acreditar em bruxas. Passei os olhos numa matéria de revista que se referia à maldição da ópera A Força do Destino de Verdi e diz a lenda que o barítono Leonard Warren resolveu abandonar o mundo dos vivos no meio de uma apresentação da ópera, justamente depois de ter cantado, por coincidência, a frase “morrer, que coisa momentosa”. Isso em 1960. Desde então, não há maldição musical mais forte do que a de A Força do Destino , como pude comprovar certa vez.

Já contei a história, mas vale a pena contar de novo, nesses tempos de reruns e revivals. Corria o ensaio de Luciano Pavarotti para o concerto no Beira-Rio, o velho Beira-Rio do chapéu e das arquibancadas de cimento. Pavarotti instalado no seu camarim, montado no fundo do palco para economizar-lhe os passos, uma vez que as articulações das pernas já davam sinais de fadiga. No programa, entre trechos famosos de óperas, a abertura de A Força do Destino.

A Ospa se pôs a tocar com a devida fúria o trecho orquestral de Verdi e, naquele ponto em que a música se acalma e muda de assunto (é sempre o mesmo ponto...), uma coluna enorme do cenário veio abaixo, por sorte não atingindo ninguém. Caiu em cima da ala dos violinos, mas os violoncelistas tinham visto a coluna balançar logo antes, o que foi suficiente para berrar e evitar a tragédia. Estantes derrubadas, partituras espalhadas, instrumentistas em choque, paisagem de parque porto-alegrense depois de vendaval.

A história segue: Pavarotti, que tinha ouvido tudo e visto nada, ao ser informado do que se passara, determinou que se tirasse A Força do Destino do programa – ora, não era hora de brincar com maldições! E mais: por precaução, desistiu de cantar uma ária da ópera Macbeth do mesmo Verdi. Macbeth, a peça e não a ópera, é maldição, mas no teatro. No entanto, sabe-se lá. Na fraternidade entre as artes, uma maldição bem pode escoar em direção à outra.

Àquela altura, banir a perspectiva do azar era o mais prudente: em certas horas acreditar em bruxas é o melhor que se tem a fazer.

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