domingo, 21 de fevereiro de 2016



21 de fevereiro de 2016 | N° 18452 
DAVID COIMBRA

Mistério na Beals Street – II


Fazia uns cinco graus negativos, era por volta das 10 da noite e a rua estava deserta. Essa rua, a Beals Street, é ainda mais escura à noite, por causa das árvores que a defendem da luz da lua. Se estivesse no Brasil, jamais andaria por um lugar assim àquela hora, até porque não havia necessidade: eu apenas caminhava sem rumo, só para espairecer. Mas, por algum motivo, decidi ir por ali.

A casa em que morava Kennedy fica na outra ponta da rua. Pensei de imediato nele e em sua irmã Rosemary, submetida à força a uma lobotomia arranjada pelo próprio pai, o magnata Joe Kennedy. Alguns historiadores afirmam que esse Joe planejou às minúcias todo o futuro dos filhos. Queria que os Kennedy fossem uma espécie de família real dos Estados Unidos. De certa forma, conseguiu.

Já li muito sobre os Kennedy e sua época fascinante. Vou indicar dois grandes livros para você saber mais a respeito. O primeiro, mais fácil de encontrar, de ficção: Tabloide Americano, de James Ellroy. É um livro alentado, mas que você não consegue parar de ler, de tão intenso. O outro é um livro jornalístico, escrito por repórteres que cobriram a eleição de 1968: Um Melodrama Americano.

Em Tabloide Americano, Ellroy conta, por exemplo, da relação dos irmãos Kennedy com Marilyn Monroe. John tinha um assessor encarregado apenas de conseguir mulheres para ele. John PRECISAVA se repoltrear com, no mínimo, uma mulher por dia. Sofria de priapismo. Mas com ele tudo era muito objetivo: gastava de dois a três minutos numa relação, botava as calças e ia embora.

Mas não era em John que pensava, ao ingressar naquela rua. Era em sua infeliz irmã Rosemary. Faz mais de 10 anos que ela morreu. Vi fotos suas. Era uma moça bonita. Li um depoimento de alguém que assistiu à lobotomia. É de arrepiar.

As casas da Rua Beals também são de arrepiar. Belas, mas assustadoras. Poderiam ser locações de filmes de terror. Numa delas, lá em cima, na água-furtada, vi que havia alguém espiando pelo vidro da janela. Era uma mulher. Lembrei-me da minha infância na casa do meu avô, na rua Dona Margarida. Em frente à casa dele estava plantado um sobrado parecido com esses da Beals. Lá vivia uma família misteriosa, que nunca era vista na rua. Mas a mais misteriosa de todas era uma menina loira que, às vezes, surgia assim, na janela, sempre à noite. Eram dela os gritos apavorantes que ouvíamos frequentemente. Por que gritava? A vizinhança dizia que era louca. Seria como Rosemary?

Senti certo incômodo ao recordar essa história e ver a mulher que me observava lá de cima.

Foi então que, uns 50 metros adiante, eu a vi: havia uma mulher parada bem em frente à antiga casa dos Kennedy. Confesso que fiquei um pouco apreensivo. O museu fecha nos invernos e, ainda que não fechasse, não estaria funcionando àquela hora. O que aquela mulher estaria fazendo ali, nas sombras, olhando fixamente para a casa?

Continuei andando. Pensei: se acreditasse em fantasmas, diria que aquela era a alma penada da desafortunada Rosemary, ainda revoltada com a desgraça que lhe impôs o próprio pai, esperando que ele surgisse à porta do sobrado para gritar:

– Por quê? Por quê?

Imaginando isso, hesitei. Não acredito em espíritos, não mesmo, mas, como diz aquele ditado espanhol, pero que las hay, las hay.

“Não!”, disse para mim mesmo. “Não acredito nessas coisas!”

E avancei bravamente. Aí ela se virou. Olhou-me.

Entenda... Achei realmente parecida com as fotos que vi de Rosemary. Estremeci. Então, ela girou o corpo e caminhou para o fim da rua. Aquilo me deu coragem. Apressei-me. Agora queria alcançá-la. Vou ver se é Rosemary! Vou ver!

Cheguei à frente da casa. Ela já ia bem na frente. Estuguei o passo. Ela dobrou a esquina. Dei uma pequena corrida. Dez metros. Cinco. Dois. Virei a esquina. E não havia ninguém. Nada. Rua vazia. Pisquei. Levei as mãos à cintura. Dei meia-volta e fui para casa, repetindo: não, não, eu não acredito nessas coisas.

Nenhum comentário: