sábado, 14 de março de 2015


15 de março de 2015 | N° 18102
ANTONIO PRATA

Impeachment

No dia 25 de agosto de 1999, primeiro ano do segundo mandato do FHC, meu pai, Mario Prata, que tinha votado no Lula, publicou no Estadão a crônica UNE ou desune. Cito abaixo alguns trechos.

“Eu, a princípio, achei que tinha lido errado. Mas li de novo. O erro não era meu. Era de um moleque de 22 anos. (...). Ele é o novo presidente da União Nacional dos Estudantes. Sabe qual é a meta dele? Derrubar o Fernando Henrique Cardoso. (...) Ir pra rua e derrubar o presidente. (...) Será que esse moleque (...) sabe o que a UNE fez durante anos contra a ditadura para, agora, finalmente, a gente colocar lá o Fernando Henrique? (...) Eu posso até não concordar com o nosso presidente. Mas vivemos numa democracia. (...)

Você não viveu a ditadura, menino. Dê graças a Deus por termos o Fernando Henrique como nosso presidente. É um homem digno, íntegro, honesto e não mata estudante. (...). Se está errando aqui ou ali não é de propósito. (...) Foram muitos mortos, moleque, para conseguirmos a democracia.”.

No mesmo dia 25, na coluna da Joyce Pascowitch, na Folha: “Pode haver nos próximos dias uma revoada de políticos que apoiam o governo para partidos de oposição (...).” “A pedido do próprio Palácio do Planalto, o mago das pesquisas do PSDB [Antonio Lavareda] tem dado várias entrevistas. Tudo para explicar que existe um outro lado das pesquisas de opinião – a população não estaria assim tão insatisfeita com a performance do presidente.”

No dia seguinte, 26 de agosto de 1999, a oposição faria em Brasília a “Marcha dos 100 mil”, gritando “Fora FHC!”. Brizola pregaria a renúncia do presidente e do vice e a convocação de novas eleições. MST e CUT exigiriam impeachment. “O líder do maior partido da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse no Rio que o objetivo do movimento é pedir a abertura de uma CPI para apurar suposto crime de responsabilidade de FHC na privatização das teles. ‘Pode-se até chegar ao impeachment, a partir do que for apurado pela CPI’”, publicou a Folha de S.Paulo.

Neste domingo, a mesma história será reencenada, mas com os atores invertendo-se nos personagens. Manifestantes do centro à direita (Dez mil? Cem mil? Dois milhões?) vão às ruas pedir a cabeça da petista. Eu venho ao jornal, repetir as palavras do meu pai: “Posso até não concordar com o [a] nosso [a] presidente. Mas vivemos numa democracia.”

É inegável que há muita coisa podre em Brasília – e em São Paulo, no Rio, em Birigui e em Santa Rita do Passa Quatro. Somos um país corrupto, da quitanda ao agrobusiness. O Petrolão, contudo, está sendo investigado. O ministério público é independente. A imprensa é livre – livre, inclusive, para ter o rabo preso com quem bem entende. Veja: após o Mensalão, o presidente do PT, o tesoureiro e o ministro da Casa Civil foram julgados pelo STF (um colegiado cuja maioria foi indicada durante os anos petistas) e mandados pra cadeia. Se isso é a “venezuelização” do Brasil, não precisamos mais nos preocupar com a Venezuela.


Protestos contra o governo são justos e não só dor de cotovelo da “elite branca”, mas enquanto não houver provas que envolvam a presidente com a corrupção, qualquer um que falar em impeachment não passará, como disse há 16 anos nosso grande cronista, de um “moleque”.

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