18
de agosto de 2013 | N° 17526
O
CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA
Qual o melhor bicho para um
menino?
Tive
uma codorna, uma vez. Reconheço que codorna não é um bicho que se possa
classificar de gracioso, mas eu gostava da minha. Ela andava solta pelo
apartamento e fazia cocô em tudo, nos braços das poltronas, nos nossos braços,
no chão, no colchão, em cima da mesa, em tudo. O cocô da codorna é branco e
vaporoso, parece clarada.
A
clarada é a clara do ovo batida. Igual à gemada, só que feita com clara. Acho
que os cozinheiros chamam de ovos em neve, um nome muito mais poético. Posso
pedir ovos em neve como sobremesa para a mulher amada em algum restaurante
caríssimo, três estrelas do Guia Michelin. Clarada, não. Clarada não tem nenhum
requinte, não impressiona mulheres amadas.
O
fato é que a minha irmã Silvia nunca mais comeu clarada desde que tivemos a
codorna. Mas ela também gostava do bichinho. A codorna nos seguia por toda
parte e cantar, não cantava, mas emitia um grito bem alto que incomodava a
vizinhança.
Tenho
pensado muito na minha pequena codorna, agora já falecida, porque meu filho
está completando seis anos neste fim de semana, e acredito que uma criança
precisa ter um bicho de estimação. Perguntei-lhe se ele queria uma codorna. Ele
franziu a testa:
– O
que é uma codorna?
–
Bem – comecei, a sobrancelha esquerda erguida. – A codorna é uma espécie de
minigalinha.
–
Como um pintinho? – Do tamanho de um pintinho, isso, só que não é amarela. É
cinza.
–
Cinza? – É.
Ele
não quis codorna. Ele gosta de amarelo.
Passarinhos
Ainda
no setor de aves, posso me orgulhar de ter uma vasta experiência com
passarinhos. Por causa do meu avô. Ele adorava passarinho. Tive canarinhos
amarelos da cor da gema do ovo, tive caturritas e periquitos verdes e azuis, e
convivi muito com um pintassilgo que o meu avô criou por uns dez anos, se é que
é possível um pintassilgo viver dez anos.
Esse
pintassilgo vinha comer pão com leite e açúcar na minha mão, sem nenhum medo.
Ele amava pão com leite e açúcar. É certo dar isso para passarinho? Açúcar? Sei
que carne não se pode dar: o passarinho fica viciado e, de tão desesperado por
um bife, devora os próprios pés. E alface também não é bom. Alface dá sono e o
passarinho se deprime e morre de tristeza.
Passarinho
é bicho delicado. Uma vez, a minha avó foi fazer lá um tratamento de beleza
caseiro. Prendeu os cabelos numa touca embebida de algum creme e tapou o rosto
com rodelas de pepino. Rodelas de pepino, veja só. Foi com esse aspecto que ela
resolveu trocar a comida do pintassilgo. Quando se agachou e botou o rosto na
frente da gaiola, o pintassilgo olhou para aquilo e desmaiou. Recuperou-se depois,
mas deve ter ficado traumatizado.
Propus
dar um passarinho para o meu filho, mas ele não admite mantê-lo em cárcere numa
gaiola. Outros tempos. E acho até que ele está certo. Então, lembrei-me que
tive um periquito amarelo, o Papillon, que eu o chamava assim porque ele vivia
fugindo da gaiola. Como conseguia, não sei. Sei que volta e meia ele estava
passeando pela casa, todo pimpão.
Papillon,
você sabe, é aquele francês que fugiu da Ilha do Diabo. Meu pequeno Papillon
fugia e fugia, e eu me divertia com aquilo. Mas um dia ele fugiu para sempre, e
fiquei triste e não quero que meu filho fique triste também.
Cães
e gatos
Decerto
alguém estará se perguntando o porquê de eu não dar ao meu filho um bicho de
estimação ortodoxo. Um gato, um cachorro. Eu mesmo tive cães e gatos, mas aí é
que está: havia mais espaço e tempo para cuidar deles. Espaço e tempo. Tudo na
vida é espaço e tempo.
A
respeito de gatos, lembro agora de um que a minha irmã adotou. Botou nele o
nome majestoso de “Tigre”. Tigre, por favor. Foi o gato mais covarde que já
conheci. Tinha pânico da máquina de flit. Obviamente, nenhum leitor com menos
de 40 anos sabe o que é uma máquina de flit. Era uma bomba de espargir
inseticida. Um dia, fui mostrar aos meus amigos o horror que o Tigre tinha
àquela máquina. Borrifei-o e ele sofreu um ataque de nervos. Correu
enlouquecido por toda a casa, botando todos os guris para correr também, e
depois se escondeu debaixo da geladeira, de onde só saía se arrastando para
beber leite. Ficou assim por uns 15 dias. Minha irmã queria me estrangular.
Quem manda ter gato covarde?
O
galo
Bom,
também já tive um galo. O Alfredo. Alguém vai dizer que tenho preferência por
galináceos. Não é verdade. Gosto de bichos em geral, e vou prová-lo logo
adiante. O Alfredo, partilhei de sua companhia na primeira infância, quando
morava em uma casa na Zona Norte profunda. Era um galo branco e imponente.
Ciscava orgulhoso pelo quintal, peito estufado, crista sobranceira.
Respeitava-o como uma nobre criatura da natureza, mas não tinha com ele a mesma
interação que tive depois com a codorninha. Alfredo era mais independente,
entende? Era mais na dele.
Um
domingo, fui procurá-lo no quintal e não o encontrei. Cadê o Alfredo? Alfredo?
Alfredo? Ao chegar à cozinha, deparei com uma grande panela fumegando no fogão.
Assaltou-me um terrível pressentimento. Que foi tristemente confirmado. Sim,
minha mãe havia assassinado o Alfredo para servi-lo no almoço de domingo, com
massa. Não comi, naquele dia, embora meus pais repetissem que o Alfredo rendera
um excelente molho.
Poderia
dar um galo para o meu filho, até em desagravo ao destino trágico de Alfredo,
mas falta-me quintal para instalar um galinheiro, e galo sem galinheiro é um
animal desamparado.
Tartaruga
In
extremis, pensei em dar ao meu filho uma tartaruga. Havia um par delas na casa
do meu avô. Eram do tamanho de uma panela de pressão. Eu brincava com elas,
virava-lhe os cascos, divertia-me quando escondiam a cabeça, mas muito mais não
se pode fazer com uma tartaruga. Répteis não são animais carinhosos,
definitivamente.
E
agora? Coelhos morrem por qualquer coisa, peixes só são bons de se ver. Sapos,
rãs e demais anfíbios nem pensar. Que tipo de bicho se deve dar para um
gurizinho que está fazendo seis anos de idade? Ajude-me, sábio leitor.
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