quinta-feira, 5 de setembro de 2024


05 de Setembro de 2024
CARPINEJAR

A imponência latino-americana de D'Ale

O Inter vivia um impasse, e talvez seja o motivo de insucesso e alternâncias nas últimas temporadas. Havia criado um time sul-americano, mas não tinha pensado em formar uma comissão adequada para atender a tal peculiaridade, tal DNA. Montou uma seleção, e se esqueceu de sustentar a sua delicada e tensa pluralidade.

Acreditava que um treinador estrangeiro seria suficiente para dar conta da Torre de Babel. Mas o próprio treinador, se conseguia influenciar seus conterrâneos do espanhol, em contrapartida, terminava isolado na outra banda, diante dos atletas brasileiros. Isso explica o êxito do retorno de Andrés D?Alessandro ao Beira-Rio, agora na figura de diretor esportivo.

Desde que ele assumiu a função, foram duas vitórias e um empate, sete pontos conquistados dos nove possíveis no Brasileirão. Num elenco que tem Sergio Rochet (URU), Agustín Rogel (URU), Braian Aguirre (ARG), Alexandro Bernabei (ARG), Gabriel Mercado (ARG), Lucas Alario (ARG), Enner Valencia (EQUA) e Rafael Santos Borré (COL), necessitávamos de uma interlocução mais ligada ao temperamento dos nossos países vizinhos.

Não era somente um problema de língua, mas de idioma das chuteiras, de estilo de futebol, de comprometimento com o desempenho. Por mais que fosse bem-intencionado, seu antecessor Magrão não apresentava currículo para mediar dissidências ou inclusive entender de onde vinha a desagregação.

Já D'Ale representa um ídolo em toda a América Latina. É escutado com atenção e seriedade pelos seus colegas de ofício do Brasil - visto que recém se aposentou dos gramados, há dois anos, seus feitos no plantel e seus títulos, como Libertadores e Sul-Americana, ainda reverberam com força entre as promessas mais jovens. A joia meio-campista Gabriel Carvalho o tem, por exemplo, como divindade.

Da mesma forma que é um ícone contemporâneo da Argentina junto de Maradona e Messi, com histórico de respeito e faixas no peito no River, também tem cidadania brasileira - alcançou a glória no manto colorado e o amor incondicional da torcida, sendo o segundo jogador que mais atuou no Inter, com 529 partidas oficiais. Ele e Elías Figueroa são os únicos craques da história do clube a levar o prêmio de Melhor Jogador da América.

É um embaixador entre universos opostos, capaz de traduzir a mentalidade da aldeia, marcada por uma rivalidade sem precedentes, de explicar como funciona o perde-ganha no calendário sobrecarregado de competições e de propor uma melhor adaptação mental para a presença argentina, colombiana, equatoriana e uruguaia. Ninguém melhor do que ele para ensinar como fincar raízes e aclimatar a família em solo gaúcho.

Tanto que, das oito contratações estrangeiras, D?Ale já dividiu o fardamento com três delas: Rochet, no Nacional; Mercado e Alario, no River. Qualquer dificuldade no palco, é só chamar na coxia. Se Charles Aránguiz (CHI) e Fabricio Bustos (ARG) tivessem esperado mais um pouco, estariam novamente inspirados.

Um dos primeiros milagres da nova gestão foi delegar a braçadeira de capitão para o centroavante Borré. Gols vêm refletindo a confiança. O próximo convertido deve ser Enner. Roger Machado recebeu seu anjo da guarda e Alessandro Barcellos, seu melhor cabo eleitoral, tirando-o da oposição.

Quando D'Ale fala, o vestiário se cala, a torcida grita e os resultados aparecem. 

CARPINEJAR


05 de Setembro de 2024
LUCIANO POTTER

Minha opinião não interessa

Se você for negociar com japoneses, a sua atitude deve ser diferente. É uma cultura diferente da nossa. Porque eles aceitam algo que brasileiros não aceitam: o silêncio numa conversa.

São aqueles intermináveis segundos entre uma fala e outra. Os japoneses, claro, têm a sua explicação: eles estão pensando antes de falar. Leia uma professora de Linguística da universidade de Georgetown, Debora Tannen, nos EUA: "A cultura japonesa entende que, se você precisa das palavras, é porque você fracassou em entender o outro. Ou seja: você está usando as palavras como forma de solucionar um problema de comunicação".

Mas voltemos à "nossa opinião". E aí me agarro em dois pilares da sociedade. Primeiro: a ciência. Muitos estudos de diversas áreas de conhecimento se atracaram a entender como o mundo funciona depois das redes sociais.

O problema é que esses estudos dizem que quase nenhuma opinião consegue mudar a opinião de outra pessoa. Preste atenção nesse verbo da pesquisa: mudar. A sua opinião vai chegar em outras pessoas. Ela pode deixar pessoas felizes. Ela pode se espalhar, inclusive, entre milhares ou milhões de pessoas, mas ela dificilmente vai mudar uma opinião diferente.

Você vai apenas alimentar sua bolha. Como aspecto de tribo, tudo certo. Seus amigos entregarão um troféu no próximo encontro, seu público internético dirá que você é genial, mas mudar a cabeça de alguém não vai rolar. Infelizmente... Ou seja: sua opinião não mudou o mundo.

O que fazer? Entender dolorosamente a nossa insignificância. Os algoritmos vão continuar adorando nossas tretas, raivas e pauladas internéticas. Os bilionários do Vale do Silício vibram com cada comentário destrutivo, cada vídeo cheio de certeza lançado em suas redes. Pra eles, grana. Muita. Pra nós, cansaço de dar soco em ponta de faca e depois gastar no divã com psicólogo dizendo que se afastou de amigos e está sozinho por causa de "algumas opiniões que andei soltando nas redes e grupos de WhatsApp".

O segundo pilar é o conhecimento de observação do mundo que só os mais vividos, os mais velhos, experientes e, portanto, mais serenos, podem ter. E aí cito um deles: Millôr Fernandes: "Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos 40 anos de vida, aprender a ficar calado". _

LUCIANO POTTER


05 de Setembro de 2024
EDITORIAL

Pela retomada da confiança

Disposição para recomeçar não falta à população do Vale do Taquari, uma das regiões mais importantes economicamente e mais prósperas do Rio Grande do Sul, com um setor primário altamente produtivo e indústrias e cooperativas tradicionais ligadas ao agronegócio. Mas tamanha destruição exige mais do que bravura dos habitantes dos municípios mais afetados e dos empreendedores locais para a reconstrução lograr êxito. O suporte do poder público, do governo federal em primeiro lugar e em seguida do estadual, é basilar. Os compromissos têm de ser honrados.

Essa é uma preocupação bem ilustrada no tema habitacional. Nenhuma moradia definitiva anunciada pelos governos federal e estadual após a enchente de setembro foi entregue até agora. O Estado finalizou apenas 58 casas provisórias. Não é aceitável a existência de flagelados da cheia de um ano atrás ainda vivendo em abrigos. Sabe-se que erguer residências definitivas não é rápido pela necessidade de as prefeituras encontrarem terrenos em áreas seguras, pelos trâmites de desapropriação e licenciamento, pela construção da infraestrutura e dos imóveis. 

Ainda assim, é absurdo não existir prazo firme para a entrega de domicílios definitivos. Os municípios, com equipes técnicas diminutas, deveriam ter o apoio dos demais entes para avançar de forma mais ágil em todas as fases burocráticas e de elaboração de projetos.

Deve-se acompanhar e cobrar o cumprimento das promessas de auxílio ao Vale do Taquari. Não apenas no tema habitacional, mas na recomposição de estradas e pontes e no financiamento adequado para as empresas retomarem operações. Nada pode cair no esquecimento. Por trás dos grandes números da tragédia estão pessoas que, além de perdas materiais, carregam feridas em sua dignidade e a saúde mental abalada, como relata na edição de hoje de Zero Hora o repórter Fábio Schaffner, que foi a Muçum para contar como está a cidade um ano depois do início do ciclo destruidor de enchentes.

Das 54 vítimas fatais da cheia de setembro de 2023, 18 eram de Muçum, onde 80% da área urbana foi varrida pela correnteza. Doze meses depois, 20% das empresas fecharam as portas e 21% dos moradores deixaram a cidade. É preciso estancar o êxodo não apenas em Muçum, mas em outras cidades da região, por meio do apoio à recuperação do tecido econômico e de medidas que preparem os municípios para enfrentar novos eventos climáticos extremos. A população local merece ter devolvidas a esperança e a confiança de viver e trabalhar no Vale do Taquari. 


05 de Setembro de 2024
GPS DA ECONOMIA   - Marta Sfredo

Taxa recorde e coerência

Depois do cálculo de que o Brasil teria, sim, a maior taxa do mundo no Imposto sobre Valor Agregado (IVA, que é desdobrado em CBS e IBS), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenta espantar esse fantasma. Ontem, afirmou que a alíquota média ficará entre 21% e 22% e "só alguns produtos" vão ao recorde mundial de 28%, ponderando que isso se deve às isenções ou reduções na cobrança para 12%.

Foi o Congresso que, ao incluir carne bovina na cesta básica e garantir filé mignon mais barato para ricos, levou à taxa mais alta do mundo.

Conforme a Fazenda, deputados e senadores acrescentaram 6,5 pontos à alíquota-padrão do IVA. Exceções para serviços de educação, saúde, medicamentos e cesta básica, entre outros, fizeram com que a taxa fosse a 27,97%. O dado oficial foi apresentado no dia 23 de agosto.

- Vamos fazer cair a alíquota média do imposto (sobre o consumo) no Brasil - recitou o ministro ontem, contrariando o diagnóstico técnico.

Papel de animador e coesão interna

Haddad tem feito bom trabalho, a ponto de ser visto como contraponto à vocação de gastança atribuída ao governo Lula. Ganhou o respeito do mercado financeiro e conseguiu emplacar no Banco Central um profissional que nas últimas semanas foi visto como mais "amigo do juro alto" do que o atual.

Todo ministro de Fazenda é "animador de plateia". Discursos sobre como o PIB vai crescer e a economia vai melhorar são parte da função, seja Haddad, Paulo Guedes ou Henrique Meirelles. Esse papel precisa guardar coerência interna, sob pena de descrédito. Pega muito mal ter a maior taxa do mundo. Mas é preciso explicar como fazer o milagre. _

Afetados por enchente recebem geladeiras

Moradores afetados pela enchente nos condomínios Arlindo Krentz e Ilha das Garças, no bairro Rio Branco, em Canoas, foram os primeiros contemplados com geladeiras e lâmpadas doadas pela RGE em parceria com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

As entregas de ontem substituíram aparelhos danificados pela água por modelos com maior eficiência energética.

A iniciativa de cerca de R$ 15 milhões deve beneficiar até 25 mil famílias no Estado. A distribuição das 1,9 mil geladeiras também vai chegar a São Leopoldo, Novo Hamburgo, Esteio, Lajeado, Estrela, Rio Pardo e Encantado. O plano ainda inclui reforma de padrões de entrada de energia no Vale do Taquari e entrega de chuveiros que consomem menos energia em Lajeado, Rio Pardo, Encantado e Estrela. _

E saíram os híbridos a etanol da General Motors (GM), mas devem ser montados nas unidades de São Paulo, não em Gravataí. As fábricas paulistas vão receber R$ 5,5 bilhões.

1,31%

foi a alta da bolsa ontem, mesmo depois da volta da apreensão com a economia dos EUA. Mesmo com dia negativo em Nova York, as ações subiram aqui, sopradas por palavras do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ele reconheceu o risco de as despesas obrigatórias crescerem a ponto de engolir as de livre escolha e disse que é preciso debater o problema.

Operadora tem serviço que conecta até 128 dispositivos

Com cerca de 12,5 milhões de clientes de telefonia móvel na Região Sul, a TIM vai experimentar um novo serviço de internet banda larga para residências e pequenas empresas em 28 cidades gaúchas.

Segundo a operadora, o plano TIM UltraFibra oferece velocidade maior de navegação. A modalidade permite que o usuário conecte até 128 dispositivos ao mesmo tempo. O serviço está disponível em 184 cidades do país. Já pode ser adquirido nas lojas da operadora.

Entrevista  Luciano S. Chagas
Geólogo com 30 anos de Petrobras

"Se tivesse começado antes, Pelotas seria prioridade 1"

Luciano Seixas Chagas foi um dos primeiros a alertar para o potencial da Bacia de Pelotas, que chama de "gêmea vitelina" geológica da Bacia do Rio Orange, na Namíbia. Logo, seria tão "espetacular" quanto.

O que significa a assinatura de contratos de concessão para explorar petróleo na Bacia de Pelotas?

Agora, a Petrobras ganhou o direito de pesquisar os blocos. Os de Orange, na Namíbia, produzem bem, e a Petrobras vai investir nisso. Vai fazer processamento físico, rodar inteligência artificial e reprocessar linhas com supercomputadores. É um trabalho de reduzir o risco.

 Quanto tempo estima entre a assinatura e o início da pesquisa?

Se já existe sísmica (levantamento anterior à perfuração) de qualidade, começaram os trabalhos. Para escolher o local para perfurar, é preciso identificar, ter licenciamento ambiental e equipamentos disponíveis. Tem de fazer um cronograma para que cada etapa necessária seja cumprida. Primeiro, é preciso descobrir (confirmar o achado), o processo seguinte é produzir, mas ainda não chegamos lá. Estamos no processo de transformar o virtual em real, que termina com registro em poço.

E quanto tempo leva entre o trabalho de descoberta e a produção?

A fase de exploração pode demorar, dependendo da agilidade da companhia, de três a seis meses para saber onde fazer o primeiro poço. E a busca do equipamento vai depender da disponibilidade, pode se prolongar até dois anos. Um projeto ágil, entre descoberta e produção, demora cerca de sete anos. É assunto para 2031, se houver confirmação.

Quando será possível saber se há petróleo ou não?

Há condicionantes. Uma é quanto tempo o Ibama vai demorar para liberar a licença. Pode levar até um ano. A Petrobras já deve estar trabalhando nos algoritmos e nos reprocessamentos. Demora de três a quatro anos para poder perfurar.

Em que ponto a Bacia de Pelotas se situa nas prioridades da Petrobras?

A Margem Equatorial é a prioridade, porque já está em processo há muito tempo. Mas a Margem Equatorial ainda está na fase de descobrir. Todas as expectativas são especulações. Se a exploração na Bacia de Pelotas tivesse começado há mais tempo, seria a prioridade número 1. Mas hoje é a número 2, atrás da Margem Equatorial.

O licenciamento ambiental da Bacia de Pelotas deve ser complexo?

A princípio, tem menos dificuldades do que no Amapá, por exemplo, porque lá foi associado à floresta amazônica.

E como avança a exploração na Namíbia, onde tiveram recentes descobertas que desencadearam o interesse na Bacia de Pelotas?

Já confirmaram, estão ampliando as descobertas, estendendo. Já estão na fase de descoberta de mais volume e de preparar para a produção (extração do petróleo com fim comercial). Estão bem mais adiantados do que a gente. 

GPS DA ECONOMIA

05 de Setembro de 2024
POLÍTICA E PODER

Última a saber

Camozzato almeja ampliar telemedicina em Porto Alegre

Engajado na campanha de Maria do Rosário (PT), o ex- prefeito José Fortunati (PV) subiu o tom contra o prefeito Sebastião Melo (MDB), seu antigo aliado e vice-prefeito.

Durante discurso em evento de entidades comerciais, Melo disse que o PT governou a Capital por 16 anos e "seus puxadinhos governaram mais seis". Fortunati entendeu a indireta e reagiu, em vídeo postado nas redes sociais:

O Melo é o Melo, grosseiro e mal-agradecido. E não foram seis anos, foram sete anos. Desses sete, em quatro estivestes como vice-prefeito. Mas é óbvio, como tu não assumes nada, não vai assumir nem essa postura, de ter sido vice-prefeito da cidade. _

Em depoimento, Nélida relatou que forneceu cópias de documentos ao presidente do MDB local, Jair Mesquita, sem saber para o que se tratava, e que descobriu sobre a própria candidatura quando recebeu ligação do cartório eleitoral.

O MP pedirá a exclusão do registro. Sem Nélida, o MDB não cumpre o mínimo legal de 30% de candidaturas femininas à Câmara de Viamão.

Procurado, Jair Mesquita não retornou os contatos. _

Fabiano byas, divulgação

Candidato do Novo à prefeitura visitou central de atendimento do Telessaúde, da UFRGS, ontem

Uma das propostas de Felipe Camozzato para melhorar o atendimento de saúde de Porto Alegre é ampliar a telemedicina. Ontem, o candidato do Novo à prefeitura visitou a central do TelessaúdeRS, vinculado à UFRGS, e conversou com os médicos Roberto Umpierre e Natan Katz, coordenadores do serviço.

Camozzato afirmou que, caso seja eleito, a Secretaria da Saúde voltará a incentivar o uso do serviço, pelo qual equipes de atenção primária acionam especialistas, que por sua vez ajudam em diagnósticos e na definição do tratamento.

Em paralelo, projeta criar um canal a ser acionado pelos pacientes antes de sair de casa.  É possível criar um canal via 0800 para que a pessoa passe por triagem e seja encaminhada ao lugar certo para ser atendida - afirma. _

Aposta no plano

A mudança de tom é idealizada pelo secretário estadual de Comunicação, Caio Tomazeli, que define o Plano Rio Grande como a própria tradução do governo. As peças publicitárias devem afastar a ideia de que a iniciativa é ação da atual gestão e reiterar que se trata de planejamento a longo prazo, com uma visão de futuro do Estado.

Além disso, Tomazeli e o secretário da Reconstrução, Pedro Capeluppi, compartilham da opinião de que o sucesso do Plano Rio Grande depende do engajamento da sociedade e estão convictos de que, caso prospere, um novo governo a partir de 2027 não deverá mudar o rumo estabelecido. _

Incursão no Interior

Bolsonaro desembarca às 11h de quinta-feira em Pelotas, onde participa de comício e carreata. Dali, segue para Santa Maria. No dia seguinte, estará em Santo Ângelo e em Passo Fundo.

Segundo Zucco, o propósito é prestigiar os concorrentes do PL nessas cidades e atrair aliados de municípios vizinhos, para que consigam uma foto ou vídeo ao lado de Bolsonaro.

- A ideia é ajudar o máximo possível de candidatos e fortalecer a direita - diz o deputado. _

POLÍTICA E PODER


05 de Setembro de 2024
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Vaivém sobre a Venezuela

Mesmo passado mais de um mês das eleições da Venezuela, as ações e falas, tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto do assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência, Celso Amorim, continuam, como classificou o professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan em entrevista à coluna no mês passado, "pisando em ovos".

Para entender o vaivém, é necessária uma lupa para meses atrás. Ainda em outubro de 2023, o governo de Nicolás Maduro e parte da oposição da Venezuela assinaram o acordo de Barbados, definindo que as eleições presidenciais seriam realizadas no segundo semestre de 2024, com a presença de observadores internacionais. Na ocasião, o Lula saudou o ato.

Contudo, a reviravolta venezuelana começou ainda em janeiro deste ano. O regime madurista proibiu a opositora María Corina Machado de concorrer. Neste momento, os olhos internacionais se voltaram para o país latino, preocupados em como se daria o pleito. Em referência ao caso e a Corina Machado, Lula disse:

- Ao invés de ficar chorando, eu indiquei um outro candidato - citando o seu caso em 2018.

Com a candidata impedida, a oposição indicou o diplomata Edmundo González Urrutia. Uma onda de manifestações da oposição surgiu no país, levando a uma campanha acirrada.

No dia 18 de julho, o Maduro disse que poderia haver um "banho de sangue". Lula reagiu:

- Eles que elejam os presidentes que quiserem.

Entretanto, diante da pesada reação de líderes internacionais contra Maduro, Lula voltou a falar e se mostrou assustado. Maduro retrucou:

- Quem se assustou que tome chá de camomila.

Às vésperas das eleições, foi a hora de os observadores internacionais chegarem ao país. O Brasil, que iria enviar representantes, cancelou a ida após acusações sobre as eleições brasileiras.

Neste momento, tanto o Brasil quanto líderes e órgãos internacionais já não sabiam como se daria a eleição e se cumpriria a democracia, diante das manifestações e falas inflamadas do chavista.

Passado o 28 de julho e com o Conselho Nacional Eleitoral ratificando Maduro como vencedor, iniciou-se uma onda de tensão em busca das atas que comprovassem o resultado. Dois dias depois, Lula disse sobre o pleito:

- Não tem nada de grave - disse.

Um dia depois, diversos países pediram a apresentação das atas. Alguns até já reconheceram a vitória de González. Brasil, Colômbia e México também pediram os registros.

Nova eleição

Em seguida, e sem sinais de que o venezuelano apresentaria as atas, Amorim sugeriu uma "segunda eleição". A ideia foi rechaçada, inclusive pelos próprios opositores da Venezuela.

Neste momento, Lula começou a mudar o discurso. Da indiferença ao pleito e certa cautela na amizade com Maduro, começou a mostrar preocupação, cobrando as atas em diversas ocasiões.

Na segunda-feira, a Justiça da Venezuela emitiu mandado de prisão contra González. Dez países da América Latina condenaram o ato. O Brasil expressou "profunda preocupação".

A indecisão eleitoral na nação vizinha continua, e parte da população brasileira e internacional cobra mais firmeza do governo brasileiro. Agora, resta saber quais serão os próximos atos: continuar "pisando em ovos" ou seguir demais líderes com pulso firme diante da situação. _

Expectativa é que módulos da Cadeia Pública fiquem prontos em outubro

O Fórum da Questão Penitenciária, grupo liderado pela Associação dos Juízes do RS (Ajuris) e outras sete entidades, realizou ontem vistoria às obras da Cadeia Pública de Porto Alegre - antigo Presídio Central.

Uma das frentes fica nos pavilhões, que darão lugar a nove módulos e deverão estar prontos em outubro. Cada um conta com celas para quatro ou seis presos, com banheiro, áreas para convívio e banho de sol.

Também haverá área administrativa e de trabalho para os presos. A construção teve início em junho de 2022 e o Fórum foi criado em 2012, para acompanhar a situação do então Presídio Central de Porto Alegre. 

A campanha de Kamala Harris usando tênis

Logo que Joe Biden, desistiu da corrida eleitoral americana e tudo se encaminhou para que Kamala Harris o substituísse - fato que foi confirmado -, o nome da vice-presidente trouxe um ar de esperança e jovialidade para o Partido Democrata.

Antes, Biden era apontado pelos republicanos como "velho", que já não apresentava mais qualidades para continuar no cargo e que deveria sair da corrida eleitoral. O debate com Donald Trump no final de julho já havia mostrado um presidente que, por vezes, se apresentou perdido em seus discursos.

Agora na disputa, Kamala tem confirmado sua personalidade "jovem" ao público. A democrata tem feito boa parte de suas agendas de tênis, usando modelos e variações de All Star, da marca Converse.

Não é de agora que a democrata utiliza esse estilo.

Nas eleições de 2020, já usou essa combinação, montando o look de terno social e tênis.

Na última semana, Kamala voltou a utilizar seus tênis. Em campanha no Geórgia, ao lado de Tim Walz, a candidata democrata à presidência combinou tênis Converse pretos com seu colar de pérolas e correntes, revivendo a moda criada ainda em 2020 chamada de "chucks and pearls", ou seja, os tênis e as pérolas. 

MPF analisará obra no Litoral

Prefeitos de cinco municípios, representantes de Ministério Público Estadual, Defensoria Pública, Corsan e Fepam participaram ontem de reunião no Ministério Público Federal (MPF) para debater a construção de tubulação que levará efluentes da ETE II, em Xangri-lá, até o ponto de descarte final, na bacia do Rio Tramandaí.

A Corsan e a Fepam puderam apresentar documentos que sustentam a viabilidade da obra e os índices de tratabilidade.

Os prefeitos também puderam se pronunciar, colocando suas posições quanto à construção.

- Foram apresentados os estudos e ouvidas as partes. Hoje, não há fundamentos técnicos ou jurídicos para parar a obra - explicou o procurador da República Cláudio Terre do Amaral.

Agora, o MPF irá encaminhar os documentos apresentados por Corsan e Fepam para análise técnica, que deve ficar pronta em meados de outubro. O MPF também analisará requerimento do Movimento Unificado em Defesa do Litoral Norte Gaúcho, que aponta potencial de impactos ambientais para barrar a obra.

 Esse requerimento tem aproximadamente 400 páginas com argumentos contrários à obra - pontuou o procurador. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 4 de setembro de 2024


04 de Setembro de 2024
CARPINEJAR

Será o último capítulo?

Será o derradeiro capítulo de uma das maiores tragédias gaúchas? Onze anos depois, podemos finalmente ter justiça no caso da Boate Kiss, um incêndio em que 242 jovens, na maior parte universitários, morreram sufocados, sem chance de socorro, e 636 ficaram com sequelas devido à queima de espuma acústica por artefatos pirotécnicos lançados do palco.

Podemos finalmente ter paz. Paz e justiça é o que centenas de famílias, uma cidade inteira e o nosso Estado aguardavam ansiosamente.

Ninguém mais aguentava tanta impunidade. Uma omissão histórica vergonhosa, barulhenta e incômoda, cheia de reviravoltas e frustrações.

O Supremo Tribunal Federal (STF) não concordou com o Tribunal de Justiça (TJRS), que havia anulado o júri realizado em dezembro de 2021 sob a alegação de problemas técnicos - o julgamento mais longo da história do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul resultara na condenação dos quatro réus a penas de 18 a 22 anos de prisão.

O ministro Dias Toffoli reverteu, em despacho dessa segunda-feira, a nulidade do júri do caso da Boate Kiss, atendendo a recursos do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) e do Ministério Público Federal (MPF). Também determinou o retorno à prisão dos quatro réus.

Entre os próximos e hipotéticos passos, pode ocorrer eventual necessidade do posicionamento de Dias Toffoli em plenário, para aval da turma do STF. Em seguida, o processo regressa para as tratativas finais do TJRS.

A notícia coincide com a demolição do prédio onde funcionava a casa noturna em Santa Maria. Será transformado em memorial em homenagem às vítimas, com o objetivo de preservar a memória e conscientizar a população sobre prevenção. O espaço contará com um jardim circular ao centro, rodeado por 242 pilares de madeira, com suportes de flores, eternizando o nome de cada vítima.

Era a última pedra a ser derrubada do ignominioso passado.

- É um alívio, mesmo sabendo que foram dois anos absolutamente desnecessários, que somente apertaram ainda mais a nossa dor. Se a gente não corresse atrás, não gritasse, não cobrasse, nada seria feito. Foi uma pequena grande vitória de uma batalha que vem consumindo nossas sanidades e velhices - diz Flávio Silva, da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).

Aliás, pedras formam a simbologia da perda de Flávio. A filha Andrielle partiu quando ela comemorava 22 anos na Kiss, com as amigas. Foi um aniversário que se converteu em impactante velório.

A despedida de sua filha se desenrolou na véspera da tragédia, durante um almoço familiar no pátio de casa, numa pacata quinta-feira. Enquanto ele preparava e temperava os galetos, Andri cortava a grama e montava a churrasqueira. Ele se lembra da adolescente animada, colocando caprichosamente um tijolo sobre o outro. Parecia que ela construía o seu futuro, tinha recém sido aprovada no vestibular para Design Industrial. Com longos cabelos pretos caindo na testa, um piercing brilhando no lábio, ela ria. Flávio ainda chora com aquele riso. _

CARPINEJAR

04 de Setembro de 2024
MÁRIO CORSO

Reveses da demência

Existe um incremento de pedidos de tratamento psicológico por um motivo específico: como lidar com a demência dos pais. São filhos exaustos e confusos. Geralmente já peregrinaram por médicos, que pouco puderam fazer a respeito de seus pais. Quando há um remédio, é apenas para retardar o inevitável.

Essa condição é consequência de uma boa notícia: estamos vivendo mais. Porém, nem sempre corpo e cérebro andam no mesmo compasso. Enquanto houver equilíbrio é uma felicidade, os avós poderem acompanhar a vida de seus netos. O convívio entre gerações é história viva.

Para a maioria tudo termina bem, mas, para outros, chega uma conta pesada. Exige uma maturidade, que nem sempre temos, para assistir ao declínio físico dos nossos pais. Os gigantes que nos cuidaram, que nos erguiam nos braços, agora se seguram nos nossos. Mas é da vida, e é um prazer estarmos ali. Já, para o declínio cognitivo deles, é ainda mais difícil, não temos defesa.

O inimigo é desleal, impalpável, se esgueira pelos cantos das palavras. Parece que não entendemos bem o idoso, e deixamos por isso mesmo. Custamos a acreditar no lento desligamento deles. Apelamos ser estresse, um sentido vago que diz tudo e nada.

É comum que os declínios comecem por uma queixa repetida de estar sendo roubado. A reclamação é genérica, mas existe forte convicção que algo está lhe sendo subtraído, e que alguém seria o culpado. De certa forma, o idoso tem razão, a vida como ele conhece está indo embora. O tempo é um ladrão impiedoso.

Um dia chegamos em sua casa, para uma combinação, e o idoso está surpreso. Teima que não foi avisado. Tem certeza que ninguém lhe falou nada do assunto. Se nega a ver no telefone suas próprias mensagens sobre o evento.

Importante notar que, primeiro, ele não está mentindo; segundo, é bem provável que ele não esteja em condições de fazer uma reflexão sobre o acontecido. Por favor, não insista. Ele realmente não tem registro das conversas anteriores.

Aqui entra nossa maturidade. Saber lidar com alguém que não conserva memórias recentes. Sem meias palavras, é enlouquecedor, pois foge a tudo que é razoável. Enfrentamos a crueldade de assistir à perda de um ente querido em conta-gotas. _

MÁRIO CORSO

04 de Setembro de 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

Perspectivas positivas

O bom momento da economia nacional é um alento para o Rio Grande do Sul em sua luta para se recuperar dos prejuízos causados pela enchente de quatro meses atrás. Como virou rotina no pós-pandemia, a atividade no país surpreendeu e, no segundo trimestre de 2024, voltou a crescer acima do esperado. Conforme o IBGE, de abril a junho, o PIB do país avançou 1,4% ante o intervalo de janeiro a março. A mediana das expectativas era de 0,9%. No acumulado do ano, a alta chega a 2,9%. A despeito de uma possível desaceleração no segundo semestre, os resultados deflagraram novas rodadas de revisão para cima das projeções do PIB para o fechamento de 2024. Agora, situam-se ao redor de 3%.

Seria bem mais penoso para o Estado se reerguer se a atividade econômica no restante do país cambaleasse. O RS é um dos mais importantes produtores de alimentos, e o desemprego baixo e a renda em elevação impulsionaram o crescimento de 1,3% no consumo das famílias no segundo trimestre. A indústria avançou 1,8% e sabe-se que o Estado é um dos principais polos fabris do Brasil. Outra boa notícia veio da formação bruta de capital fixo, que mostra o ritmo dos investimentos produtivos. Subiu 2,1%. O Estado é um relevante fabricante de bens de capital. Sinaliza demanda aquecida.

Outros indicadores regionais, no mesmo sentido, apontam para uma retomada, embora o Estado siga distante de um reerguimento pleno e o ritmo de recuperação seja diferente entre os setores. O próprio IBGE mostrou que, em junho, a indústria gaúcha cresceu 34,9% ante maio. No mês da enchente, o tombo foi de 26,2%. Conforme a Fiergs, a produção também subiu em julho e as perspectivas são mais positivas para o restante do ano. Também em julho, o RS abriu 6,7 mil empregos com carteira, após perder 30,5 mil entre maio e junho. O desempenho da Expointer, com um novo recorde de comercialização, de R$ 8,1 bilhões, é outra evidência da volta da confiança. Assim como a expectativa de uma safra de grãos de verão de 35 milhões de toneladas.

Ainda assim, há fatores condicionantes que atrasam a reabilitação econômica e limitam a possibilidade de o Estado tirar melhor proveito do cenário nacional. Entre eles, as dificuldades para as empresas afetadas acessarem crédito para retomar operações. A infraestrutura ainda longe de ser completamente recuperada também atrapalha o escoamento e o recebimento de insumos e bens finais. Negócios ligados ao setor de serviços, como o turismo, dependem da reabertura do aeroporto Salgado Filho.

O efeito colateral de uma economia mais aquecida pode ser a volta do aumento do juro básico. O PIB robusto fortalece a aposta de que o Banco Central possa elevar a Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, nos dias 17 e 18 deste mês. A taxa atual, de 10,5% ao ano, já é asfixiante. 

Elevá-la para esfriar a atividade e reverter expectativas de alta de preços pode ser prudente considerando-se a conjuntura nacional, mas não favoreceria o Estado no momento em que os gaúchos reúnem forças para se reerguer. Ajudaria se o governo federal indicasse maior convicção em racionalizar gastos para arrefecer as pressões inflacionárias que levam ao aperto monetário. 



04 de Setembro de 2024
DANO AMBIENTAL - Jhully CostaE 

DANO AMBIENTAL

Como a seca em diferentes regiões do país afeta o Estado. Fenômeno climático dificulta o controle das queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Consequências têm sido observadas em cidades gaúchas e especialistas alertam para degradação da qualidade do ar. Fumaça é observada no RS desde agosto, e sua presença deve se intensificar hoje.

O período de seca que afeta diferentes Estados e dificulta o controle das queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal vem gerando impactos em áreas não atingidas diretamente por esses problemas. Um exemplo é a fumaça que tem sido vista no RS desde agosto. As situações podem ter reflexos futuros, ainda difíceis de prever.

Além do grave dano ambiental que as queimadas causam, o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operação e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), comenta que a situação também gera riscos à saúde, já que a qualidade do ar está "imensamente degradada em algumas regiões" - o que pode agravar condições respiratórias, conforme pneumologistas consultados por Zero Hora.

Assim como o RS, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Amazonas, Rondônia e Acre registraram a fumaça pelo menos uma vez ao longo de agosto. O fenômeno decorrente dos incêndios pelo Brasil e em países vizinhos, como Paraguai, Argentina e Bolívia, retornou ao território gaúcho ontem, e sua presença deve se intensificar hoje.

- A fumaça vai ser mais grave ou mais notável quando tivermos frentes frias sobre o Uruguai, Rio da Prata e Argentina, porque aí o vento de Norte e Noroeste vai carregar a fumaça da Amazônia e da Bolívia para o RS - diz Seluchi.

Conforme o meteorologista, a vantagem do RS é a alternância no tempo, o que não ocorre nos Estados que estão dentro da área mais seca do Brasil. Seluchi destaca que a situação da fumaça está estabilizada, com pouca previsão de mudança, uma vez que setembro deve ser um mês seco, e o que poderia apagar os focos de incêndio, melhorando a qualidade do ar, seria a chuva.

Os especialistas consideram improvável que haja outros impactos a curto prazo no Rio Grande do Sul. Na visão de Pedro Maria de Abreu Ferreira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Biodiversidade da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, a probabilidade de focos de incêndio migrarem do Centro-Oeste para o território gaúcho é praticamente nula, devido a distância.

Outros riscos

Ferreira ressalta que a época de seca no norte do Brasil ocorre agora, durante o inverno - período que costuma ser bastante chuvoso no Sul. Já a estiagem, chega ao território gaúcho no decorrer da primavera e do verão, causando problemas como falta de água e quebra de safra, mas sem relação direta com incêndios.

Professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da UFRGS, Valério Pillar acrescenta que o RS passou por um período chuvoso, então vegetação e solo ainda estão muito úmidos. Isso torna o cenário diferente do restante do país, onde uma seca histórica atinge mais da metade dos Estados.

Nas condições atuais, não há risco dessas queimadas se estenderem para cá - destaca.

Entretanto, não há como saber quais os possíveis efeitos futuros da manutenção dessas queimadas e da entrada de fumaça na atmosfera para o RS, pondera Ferreira. _


04 de Setembro de 2024
ELEIÇÕES MUNICIPAIS  Marcelo Gonzatto

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Aos 90, Eva é a candidata mais velha do RS em 2024

Nascida em 1934, pouco depois da conquista do voto feminino, ela concorre pela primeira vez. Filiada de longa data e ativa socialmente, tentará uma vaga na Câmara de Vereadores de Santiago

Quando Eva do Amaral Facim nasceu, em abril de 1934, as mulheres recém haviam conquistado o direito de votar no Brasil, graças a meio século de mobilização de movimentos sociais.

Passados 90 anos, a idosa é uma das quase 10 mil candidatas do gênero feminino em busca de um cargo público no Rio Grande do Sul nesta eleição - e a mais velha entre todos os concorrentes registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo Estado. Ela disputa, pela primeira vez, uma vaga na política, para vereadora em Santiago, na Região Central, pelo PDT.

No distante 20 de abril de 1934, quando Eva veio ao mundo, Getúlio Vargas vivia as últimas semanas de seu governo provisório, antes de ser reempossado em eleição indireta e dar seguimento à chamada Era Vargas.

Na Alemanha, Adolf Hitler se preparava para assumir o comando do país ao unir as funções de presidente e chanceler. A população gaúcha mal contava 3 milhões de pessoas, e a expectativa média de vida no país era inferior a 40 anos. Natural de São Francisco de Assis, logo aos 16 anos Eva começaria a trabalhar como professora ensinando não apenas crianças a ler e a escrever, mas também adultos analfabetos.

Lecionava na escola Vista Alegre. Sempre amei trabalhar. Dava carinho e conhecimento aos meus alunos pra que se tornassem pessoas maravilhosas. Hoje, tem professores da Universidade Federal de Santa Maria que fui eu que alfabetizei - vangloria-se a candidata nonagenária.

Eva se aposentou do magistério, mas não da missão de seguir ensinando - embora tenha trocado as letras pelos temperos:

- Agora sou professora de culinária. Fiz vários cursos. Minhas amigas vêm aqui em casa, faço muita compota e ensino a elas. Então, considero que continuo sendo professora.

Pecuária e árvores

A candidata concilia o trabalho como criadora de gado, em uma fazenda que ainda supervisiona pessoalmente, com outras paixões, como plantar árvores e ceder mudas a outras pessoas interessadas em deixar o planeta mais verde. O hábito remonta a uma antiga tradição familiar.

- Meu finado pai tinha um sistema: quando a minha mãe engravidava, ele escolhia uma muda. Quando o filho nascia, ele plantava. Eu fui uma muda de cedro, que é uma madeira dura, forte. Então, amo árvores, tenho um viveiro e faço mudas pra dar para as pessoas. Agora mesmo tenho 60 mudas de pessegueiro para os vizinhos - conta a professora aposentada.

No outro extremo do ranking etário, a Justiça Eleitoral contabiliza 21 candidatos de 18 anos na disputa pelo voto dos gaúchos nestas eleições. Essa é a idade mínima estipulada legalmente para tentar uma vaga como vereador. _

Ambição é apresentar projetos de proteção à população idosa

Eva conta que a decisão de entrar para a vida política na terceira idade, quando muitas pessoas estão mais interessadas em uma rotina sossegada, veio a partir de um convite do diretório municipal da sigla.

Dona Eva é filiada ao partido há muito tempo, participa das discussões municipais, já integrou comissões do Sindicato Rural de Santiago. É uma pessoa que pega no batente - avalia o advogado e companheiro de legenda Paulo Cesar Garcia Rosado.

Segundo ela, a candidatura também é uma forma de homenagear o marido, Ivo, já falecido, simpatizante do trabalhismo.

- Ele amava o partido, mas nunca chegou a se candidatar. Então, resolvi fazer isso também por respeito a ele - revela a produtora rural, que não teve filhos.

A idosa se desloca sem grandes dificuldades, fala de modo acelerado e, até pouco tempo atrás, ainda dirigia pelas estradas do município. Agora, prefere andar na carona.

Diz que vai fazer campanha apenas divulgando seu nome, sem bater de porta em porta, para receber os votos por merecimento e não por pedi-los.

Entre suas ambições, caso consiga se eleger, está elaborar projetos que aumentem a proteção aos idosos. Garante que não faltará disposição.

- Amo a vida, amo as pessoas, amo trabalhar. Não tenho empregada, eu mesma cozinho. Agora mesmo estou com uns 40 vidros de doce de laranja prontos - conta a candidata, que na sequência se despede:

- Agora preciso ir, estou com a caminhonete carregada de sal e de medicamentos para o gado. 


04 de Setembro de 2024
EM FOCO - Anderson Aires

EM FOCO

Desempenho brasileiro foi puxado por indústria e serviços. Pela ótica da demanda, destaques foram os consumos das famílias e do governo, além do aumento dos investimentos. A alta abre espaço para que a economia suba até 3% em 2024

PIB do segundo trimestre cresce 1,4%, acima das expectativas

Com desempenho que superou expectativas, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,4% no segundo trimestre de 2024 ante o acumulado dos três meses anteriores. O dado foi divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço foi puxado por altas nos serviços e na indústria. No lado da demanda, os destaques foram os consumos das famílias e do governo, além da reação dos investimentos.

Em valores correntes, o PIB, que representa a soma dos bens e serviços produzidos no país, totalizou R$ 2,9 trilhões no segundo trimestre. O mercado financeiro projetava alta de 0,9% a 1%. O resultado de 1,4% é o maior desde o quarto trimestre de 2020.

A coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, afirma que, "com o fim do protagonismo da agropecuária, a indústria se destacou nesse trimestre, em especial na eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e na construção". O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o resultado.

Segundo Lula, foi "mais uma notícia boa para a economia". "Crescimento que se soma ao aumento dos empregos, o consumo das famílias e melhor qualidade de vida. Sem bravata e mentiras. É isso que importa", escreveu em rede social.

Fatores

No entendimento do IBGE, condições do mercado de trabalho, juros mais baixos e crédito disponível estão entre os principais fatores que incentivaram a expansão no segundo trimestre.

O professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS Marcelo Portugal avalia que parte da alta acima do esperado pode ser explicada por fatores pontuais, como aumento das transferências do governo e queda do juro. Mas aponta que essa subida não é algo isolado e deve ser analisada de maneira mais alongada. Faz parte de um movimento observado desde meados de 2020 e início de 2021, diz.

Mesmo com variabilidade entre os trimestres, o país apresenta crescimento acelerado desde a saída da pandemia. Esse processo ocorre diante de fatores ligados à oferta, como o aumento de produtividade das empresas após a crise, mas principalmente ligada ao consumo, segundo Portugal:

- Quem puxou o PIB para cima foi o consumo das famílias. E o consumo das famílias foi puxado para cima em parte porque melhorou o mercado de trabalho, em parte porque o governo está se endividando para trazer receita futura para o presente, para gastar mais.

Ele diz que o fato de o avanço da economia estar muito mais ligado ao consumo pode prejudicar um crescimento mais estrutural nos próximos anos. Sobre o efeito da inundação no RS no PIB nacional, o professor avalia que a rápida recuperação em alguns setores e regiões menos afetadas pelo evento climático acaba mitigando esse impacto.

Movimento espalhado

O economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, destaca que o resultado positivo foi espraiado, pegando a maior parte dos setores, com exceção da agropecuária, que sofre com entressafra. Agostini afirma que o movimento espalhado é resultado da consolidação da melhora no acesso ao crédito, do juro mais baixo, de programas de renegociação de dívidas e da ampliação de emprego e renda.

Ele faz uma ressalva em relação à parte do aumento do consumo do governo, que acende alerta no ambiente fiscal. _

Nos próximos meses, avanços e desafios

Com o Produto Interno Bruto (PIB) acima do esperado no segundo trimestre, cresce a aposta do mercado em economia fechando 2024 com crescimento próximo dos 3%. Mesmo com desaceleração projetada para os próximos trimestres, economistas ouvidos por Zero Hora afirmam que os resultados registrados até agora abrem espaço para esse cenário.

O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirma que parte do ritmo da atividade atual é transmitido para o próximo período, permitindo estimativas mais otimistas. A agência de classificação de risco ajustou a projeção de PIB de 2024 de 1,9% para 2,8%.

A professora de Economia do Insper Juliana Inhasz também afirma que o desempenho do segundo trimestre coloca as projeções de PIB mais próximas dos 3% ao ano. No entanto, alerta para perigos que seguem no radar, como estiagem e custo da energia elétrica no país. Isso somado à perda de força em ações de transferência de renda cria ambiente para desaceleração da economia no segundo semestre.

Juro básico

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o resultado do segundo trimestre deve fazer com que o governo promova nova estimativa de arrecadação de receitas e projetou PIB acima de 2,8% no ano.

O avanço do PIB acima do esperado também eleva a expectativa de aumento do juro básico, diz Juliana:

- Acho que o mercado já está muito pacificado com duas coisas. A primeira é que o juro não cai mais este ano e a segunda é que ele tem probabilidade muito grande de alta. 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

"Até o final do ano tem de abrir mais três (Stok Center)", avisa presidente da Comercial Zaffari

Comercial Zaffari, de Passo Fundo, abriu a 33ª loja Stok Center, desta vez em Torres

COMERCIAL ZAFFARI/DIVULGAÇÃO/JC

Patrícia Comunello

"Até o final do ano, tem de abrir mais três (Stok Center) ainda", avisa o presidente do grupo que lidera no segmento de atacarejos no Rio Grande do Sul e é o segundo do setor supermercadista. A coluna Minuto Varejo já apelidou o grupo da Comercial Zaffari, de Passo Fundo, de rei dos atacarejos.

LEIA MAIS: "Queremos fechar 2027 com 60 Stok Center", diz presidente

Com a meta de expansão até dezembro, a rede alcançará 36 unidades da bandeira Stok Center. No total, serão 46, com mais 10 operações de supermercado de vizinhança.

Depois de Torres, que ganhou nesta terça-feira (20), a 33ª filial da bandeira, virão duas unidades na Região Metropolitana e outra na Serra.  

A próxima da agenda de estreias do ano será em Novo Hamburgo. "Abre durante setembro", confirma o presidente do grupo varejista, Sergio Zaffari, em meio à Expoagas 2024, no Centro de Eventos da Fiergs, em Porto Alegre, onde deu uma passada nesta terça, primeiro dia do evento, que vai até quinta-feira (22).

"Semana que vem batemos a data." A coluna já noticiou que a loja está quase pronta e projetou que seria inaugurada no mês que vem.

Na cidade referência de calçado, o 34º Stok Center terá mais de 6 mil metros quadrados de loja, com aporte de R$ 55 milhões a R$ 60 milhões. A unidade fica em um complexo, que já tem outras empresas e terá mall de lojas, com farmácia e restaurantes. "Já são 7 mil pessoas trabalhando ali no SX", cita.  

Loja em Torres vem com layout mais arejado e tem estacionamento abaixo da área de venda   | COMERCIAL ZAFFARI/DIVULGAÇÃO/JC

Loja em Torres vem com layout mais arejado e tem estacionamento abaixo da área de venda

COMERCIAL ZAFFARI/DIVULGAÇÃO/JC

Em novembro, será a vez de Caxias do Sul, que terá a terceira unidade do grupo, desta vez na saída para a BR-116, com 6 mil metros quadrados e 200 empregos, mesmo nível de investimento de Novo Hamburgo.

Para fechar o portfólio de 2024, virá São Leopoldo no mesmo porte, valor e vagas de Caxias do Sul e NH, em frente a uma estação da Trensurb, na zona urbana. 

No Litoral Norte, a terceira filial da grife - as outras duas estão em Capão da Canoa e Tramandaí - tem 4,6 mil metros quadrados de área de venda. O investimento foi de R$ 50 milhões, sendo R$ 30 milhões de obra, R$ 10 milhões em equipamentos e R$ 10 milhões em estoque, detalha Zaffari. O terreno foi alugado para erguer a operação. A unidade gerou 180 empregos diretos. 

O montante fica bem acima da média que vinha de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões de anos anteriores. Um dos motivos, explica o presidente da segunda maior supermercadista do Estado.

"As obras em si têm subido mais, de ferro a materiais, isso já vinha ocorrendo antes das cheias. O aumento já vem há dois, três anos", comenta ele. "Fazer com R$ 30 milhões só na obra é difícil". 

No caso de Torres, tem outra razão que contribuiu para elevar o aporte e que é uma novidade nos empreendimentos. "Ela tem estacionamento embaixo da área da loja", explica o presidente. "Às vezes, o terreno bem localizado não permite fazer as vagas no mesmo patamar", detalha ele. A área tem 363 vagas.

O layout também veio diferente. A fachada é mais envidraçada, o que segue estratégia de acordo com a localização do ponto, traduz Zaffari. A unidade fica na via de acesso a Torres, vindo da BR-101, e a Estrada do Mar. Também teve alteração de trânsito. "Ficou show", resume Zaffari.

"Já estamos começando a construir as de 2025", avisa Sergio Zaffari | PATRÍCIA COMUNELLO/ESPECIAL/JC

"Já estamos começando a construir as de 2025", avisa Sergio Zaffari

PATRÍCIA COMUNELLO/ESPECIAL/JC

Rede começa a erguer lojas que abrirá em 2025

Depois de completar o crescimento deste ano, a rede parte para a meta já traçada para o ano que vem. "Já estamos começando a construir as de 2025", avisa.

Uma delas em Canoas, a segunda filial, que ficará em acesso ao bairro Mathias Velho. "Tem todas as lojas (atacarejos) de um lado, vamos fazer do outro", compara.

O grupo esta de olho na grande concentração populacional do Mathias, uma das regiões que mais sofreu com as cheias de maio. Questionado se o risco de novas inundações não preocupava, Zaffari disse que a cheia provocou mudança do perfil do projeto: 

"Deu a enchente, o terreno pegou um pouco de água e vamos levantar a construção. Isso não estava previsto", explica. 

Outra futura loja será em Viamão, onde a bandeira já está em obras. A filial vai ter perto do Cestto, atacarejo do Grupo Zaffari, também em implantação. Vamos começar a de Lajeado. "Todas estas lojas (Canoas, Viamão e Lajeado) são para o primeiro semestre de 2025", projeta o varejista. 

"Depois tem mais três que estão em análise de projeto. Vamos completar o ano que vem com 52 ou 53 lojas para fechar com o que conversamos (entrevista em fim de 2023 para o Minuto Varejo). Em 2027, no máximo, 60 lojas", lembra Zaffari. "Quero ver se, em final de 2026, já fechamos isso".

Pedidos de empréstimo somaram ao menos R$ 4 bilhões na Expointer

Banrisul recebeu pedidos para financiar R$ 1 bilhão em negócios na Expointer 2024

TIAGO PEREIRA/BANRISUL/DIVULGAÇÃO/JC

Claudio Medaglia

Repórter

Dos R$ 8,1 bilhões em negócios encaminhados em propostas ou efetivados na 47ª Expointer, metade passaram por sete agentes financeiros, cujos números foram divulgados neste domingo, ao final da mostra. A parceria com o agronegócio no pós-enchentes deu um fôlego de pelo menos R$ 4 bilhões ao setor para investir em diferentes segmentos e pensar as próximas safras.

Esse foi o tamanho das participações do Banrisul, BRDE, Badesul, Sicredi, Santander, Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF) na feira. O número ainda pode crescer. O BB, maior repassador de recursos da feira, informou ter recebido que até as 10h30min de domingo solicitações de financiamento para R$ 1,2 bilhão. Mas projetava ampliar 50% esse montante, embora sem discriminar os segmentos mais demandados.

LEIA MAIS: Expointer encerra com faturamento de R$ 8,1 bilhões e supera edição anterior

Um dos ramos, que aliás necessita mesmo de investimentos, é o de estruturas armazenagem e processamento de grãos, que crescem em ritmo muito menor em relação à produtividade das lavouras por todo o País, inclusive no Rio Grande do Sul. Neste ano, foram solicitados R$ 418,9 milhões para ampliar a capacidade de estocagem, somente no BRDE e no Banrisul.

O BRDE deverá emprestar R$ 251,5 milhões para o segmento, volume que corresponde a 39% dos R$ 647,6 milhões em propostas encaminhadas na feira. “Tínhamos uma expectativa por um desempenho próximo ao alcançado em 2023, mas ao longo da semana houve um movimento surpreendente por novas parcerias e segmentos variados”, comentou o diretor-presidente do BRDE, Ranolfo Vieira Júnior, ao lembrar o crescimento de 25% nos negócios em relação à mostra de 2023.

“Além de melhorias nas instalações, muitos dos projetos envolvem a incorporação de novas tecnologias, incluindo fontes alternativas de geração de energia, reforçando a preocupação com a sustentabilidade”, destacou Ranolfo.

Já o Banrisul superou a marca de R$ 1 bilhão em negócios, volume acima da expectativa para este ano, frente aos impactos da enchente e dos desafios enfrentados pelos produtores gaúchos. E os projetos de armazenagem alcançaram R$ 167,4 milhões.

O banco gaúcho também recebeu pedidos para emprestar R$ 376,6 milhões para aquisição de máquinas e implementos agrícolas, outros R$ 179,1 milhões para correção e recuperação de solos degradados pelas chuvas e R$ 145,5 milhões para linhas de desenvolvimento, destinados à inovação por empresas fornecedoras de insumos e equipamentos para a cadeia do agronegócio, com foco na melhoria e automatização de processos.

E, também, os projetos para instalação de pivôs de irrigação tiveram aumento na demanda, estimulada pelos descontos do programa Supera Estiagem do Governo Estadual. O Banrisul opera diferentes linhas para essa modalidade de empréstimo, como a Proirriga e a Renovagro. Nesta segunda-feira, os pedidos e o montante negociado na Expointer ainda estava sendo apurado pelo banco, que destinou R$ 12,2 bilhões para o Plano Safra 2024/2025 – o maior da história.

Badesul recebeu R$ 107 milhões em pedidos de financiamento para armazenagem

Com valores superiores a R$ 702 milhões, o Badesul recebeu 151 projetos buscando recursos para sistemas de armazenagem, correção e fertilização de solos, desenvolvimento de produtos e serviços, irrigação, modernização de maquinário e equipamentos, dentre outros empreendimentos. Os investimentos para armazenagem somaram R$ 107 milhões, um crescimento de 102% em relação a edição anterior da feira.

“Outra demanda expressiva que já esperávamos foi o crédito para a fertilização e correção de solos, extremamente prejudicada pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Recebemos pedidos que somaram R$ 97 milhões destinados a esse fim, enquanto no ano anterior a procura foi de R$ 22,8 milhões”, comparou o presidente do Badesul, Claudio Gastal.

Para inovação e modernização dos maquinários, foram solicitados R$ 149,5 milhões.

Outros R$ 38,1 milhões são direcionados à instalação de sistemas de irrigação para viabilizar o cultivo em locais onde há escassez de água.

Sem detalhar as operações na mostra agropecuária, o Santander anunciou R$ 300 milhões em pedidos de financiamento. O Sicredi, apontou R$ 160 milhões, enquanto a CEF recebeu propostas para R$ 12,9 milhões.

A participação dos bancos nos negócios da 47ª Expointer

Banco do Brasil – R$ 1,2 bilhão

Banrisul – R$ 1 bilhão

Badesul – R$ 702 milhões

BRDE – R$ 647,6 milhões

Santander – R$ 300 milhões

Sicredi – R$ 160 milhões

Caixa Econômica Federal – R$ 12,9 milhões

Total – R$ 4 bilhões

Vinícola gaúcha investe no enoturismo na Serra, Fronteira Oeste e até na Bahia

Projeto Trem do Pampa está entre os aportes da Miolo no enoturismo

TÂNIA MEINERZ/JC

Eduardo Torres - Repórter

A assinatura de um contrato de financiamento durante a Expointer, entre a vinícola Miolo Wine Group e o BRDE, na última semana, confirmou investimento de R$ 15 milhões da empresa de Bento Gonçalves, tendo como prioridade suas ações relacionadas ao enoturismo na região do Vale dos Vinhedos. O recurso faz parte do programa "Mais Turismo é BRDE", do banco de desenvolvimento, e se soma a outros R$ 15 milhões em aportes próprios da vinícola este ano entre as suas operações, também com prioridade ao turismo relacionado à produção de vinhos, porém, na Fronteira Oeste, onde a Miolo produz na Vinícola Almadén.

No Vale dos Vinhedos, a empresa investirá em melhorias na infraestrutura para receber os visitantes em seus vinhedos, ainda sem revelar maiores detalhes do novo projeto. De acordo com o diretor-superintendente do Miolo Wine Group, Adriano Miolo, a empresa aposta na fase de retomada do turismo no Rio Grande do Sul. E os números corroboram com essa prioridade. Segundo ele, o enoturismo responde por 10% da receita da Miolo.

• LEIA TAMBÉM: Manejo da uva garante qualidade para exportação de vinhos

Somente em suas operações em Bento Gonçalves, a Miolo contabiliza 200 mil turistas por ano e gera 40 empregos diretos.

Enoturismo na Fronteira e no Nordeste

O enoturismo já estava entre as prioridades de investimentos da vinícola no seu planejamento de valores desembolsados este ano. A Miolo é uma das principais financiadoras do recentemente lançado Trem do Pampa, que percorre os vinhedos de Santana do Livramento, na Fronteira Oeste. Os dois primeiros meses de operação do novo atrativo turístico tiveram lotação total. Faz parte do passeio a visitação à Almadén, onde são produzidos os vinhos mais exportados pela Miolo.

"Era um desejo nosso já há bastante tempo de criarmos essa atração para desenvolvermos o enoturismo também naquela região, levando a nossa experiência de 20 anos no Vale dos Vinhedos. Lá, já existe, bem consolidado o turismo de compras, então trabalhamos para agregar este atrativo ao enoturismo", conta Adriano Miolo.

Entre as ações implementadas na Almadén, está o seu próprio free shop, onde o turista encontra os vinhos da marca 35% mais baratos.

• LEIA TAMBÉM: Trem do Pampa é lançado em Santana do Livramento

E a expansão do enoturismo desenvolvido a partir da Serra Gaúcha é levada pela Miolo, com os seus investimentos neste ano, até mesmo para a sua área de produção de uvas e vinhos no Vale do São Francisco, na Bahia. O passeio pelos vinhedos naquela região estão em fase de implementação, de barco pelo Lago Sobradinho.

"Acreditamos muito, tanto na retomada do turismo no Rio Grande do Sul, quanto no potencial do turismo associado à produção de vinhos", aponta o diretor.

Entre os aportes da Miolo este ano, ainda estão investimentos na ampliação de vinhedos e aumento da mecanização da colheita na Vinícola Almadén, em Livramento, e em melhorias tecnológicas na lavoura e no maquinário das indústrias nas unidades da Serra e da Vinícola Seival, em Candiota, na Campanha. 

FICHA TÉCNICA

Investimento: R$ 30 milhões

Estágio: Em execução (R$ 15 milhões); Anunciado (R$ 15 milhões)

Empresa: Miolo Wine Group

Cidades: Bento Gonçalves, Santana do Livramento, Candiota

Área: Indústria