terça-feira, 27 de outubro de 2026


27 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco terá de recalcular a rota com vitória de Lula

Na campanha de primeiro turno e mesmo depois de eleito, o futuro governador Luciano Zucco sempre apontou o governo federal como fonte de financiamento para suas promessas, baseado na premissa de que Flávio Bolsonaro seria o próximo presidente. Com a vitória de Lula, Zucco terá de rever a rota. Porque nem Lula e nem Flávio, se fosse eleito, conseguiriam renegociar a dívida do Estado fora dos parâmetros do já aprovado Propag, ou criar o sonhado Fundo Constitucional de Desenvolvimento das Regiões Sul e Sudeste.

No caso da renegociação da dívida, a realidade é muito diferente do discurso de campanha de Flávio. Não basta vontade política do presidente. É um longo processo que envolve não apenas um Estado, mas todos os endividados. O Propag é fruto de longa negociação e traz vantagens para os Estados, mas implica retomar o pagamento das dívidas e destinar a parcela equivalente ao juro para projetos estratégicos, especialmente na área de educação.

O fundo constitucional é outra conversa de difícil transformação em realidade. Mesmo que o Rio Grande do Sul preencha os critérios para ter direito a benefícios que Estados do Nordeste têm, outros Estados da região não se enquadram. 

A pergunta crucial é de onde sairia o dinheiro para bancá-lo. O mais factível para Zucco é focar na demanda já encaminhada pelo governador Eduardo Leite, pela prorrogação, por mais um ano, da suspensão do pagamento da dívida, aprovada pelo governo Lula na enchente de 2024. É esse dinheiro que forma o Funrigs e financia obras de infraestrutura afetadas pela enchente e projetos de resiliência.

Leite queria a prorrogação para financiar um projeto de irrigação e recuperação de solos, capaz de impedir os sucessivos prejuízos ao agronegócio decorrentes das estiagens. Mesmo essa não é uma demanda simples em quadro de ajuste fiscal obrigatório. Lula terá de cortar gastos a qualquer custo, sob pena de não conseguir reduzir os juros nos próximos quatro anos de mandato.

Por isso, não pode abrir mão de receita. E o que o Rio Grande do Sul deixa de pagar mensalmente é dinheiro que falta no caixa da União, mesmo que seja incorporado ao total da dívida e seja pago no futuro.

Para além dessas macrodemandas, o governador precisa se relacionar rotineiramente com o governo federal. Mesmo que os interlocutores de Lula digam que ele não discrimina os adversários, não é saudável para o Estado um governador tratar o presidente reeleito como adversário. Zucco já deveria ter telefonado para cumprimentar Lula pela reeleição, mesmo que isso fira os sentimentos de Flávio Bolsonaro. É da liturgia do cargo, para usar uma expressão de José Sarney.

Necessidade de aparar as arestas

Ontem, o governador divulgou uma nota dúbia, que começa torta, colocando em dúvida a lisura do pleito. Não é a melhor forma de iniciar uma relação produtiva com o presidente que venceu a eleição. Horas depois, o líder da bancada do PT na Assembleia, Miguel Rossetto, deu uma resposta que mostra a necessidade de aparar arestas em nome dos interesses do Rio Grande do Sul. _

De volta à "estaca zero"

A virada histórica que reelegeu o presidente Lula (PT) foi inesperada para a equipe econômica do governador eleito Luciano Zucco. Desde o primeiro turno, a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) alimentou as esperanças do grupo de transição na vitória do senador, com quem já tratavam de pautas prioritárias para o Rio Grande do Sul - e agora admitem uma volta à "estaca zero" do planejamento.

Cotado para assumir a Fazenda no Estado, o deputado Claudio Branchieri projeta uma relação de "enormes dificuldades" com o governo federal, de quem os aliados de Zucco têm visões divergentes sobre a gestão econômica do país.

- Lula fez muitas promessas e o governo vai precisar catar moeda, por isso não vão estar tão dispostos a renegociar a dívida - lamenta o deputado. _

Hora de prestar atenção em Danielle Calazans

Depois de levar a secretária da Fazenda de Eduardo Leite, Pricilla Maria Santana, não será surpresa se o governador eleito do Paraná, Sergio Moro, convidar a secretária de Planejamento, Governança e Gestão, Danielle Calazans. Ela é uma técnica reconhecida em Brasília e tem o perfil que Zucco diz buscar para montar a sua equipe.

Funcionária de carreira da Caixa, Danielle domina orçamento, projetos estratégicos, gestão dos servidores públicos, licitações e contratos e o uso da tecnologia da informação na modernização de processos. _

Alckmin terá papel fundamental a partir de 2027

Na primeira manifestação após a confirmação da vitória, o presidente Lula passou a palavra ao vice-presidente Geraldo Alckmin, para que falasse antes dele. Mais do que um gesto de cortesia, foi um sinal de valorização do papel do vice, que o ajudou a ganhar as duas eleições e sempre se manteve leal.

Alckmin é cotado para o Ministério da Fazenda, por ser um fator de estabilidade no governo. No Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, conquistou a confiança dos empresários pela serenidade em momentos de crise. 

Presidente recebe Motta e Alcolumbre no Alvorada em aceno ao centrão

Um dia após a reeleição, o presidente Lula já começa a pensar na governabilidade do quarto mandato. Em um primeiro aceno, o petista recebeu no Palácio do Alvorada, na tarde de ontem, os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Lula sabe que precisará mais do que nunca do centrão para garantir a votação de medidas do governo no Congresso no quarto e último mandato. A tendência é que ofereça espaços generosos a PSD, PP, MDB, Republicanos, Podemos e União Brasil.

Além disso, o presidente quer garantir a votação da PEC da tarifa zero, que prevê gratuidade no transporte público aos finais de semana - medida anunciada após a aprovação do fim da escala 6x1 -, ainda em 2026.

Aliados de Lula na articulação de pautas do governo no Congresso e defensores da reeleição do petista, Motta e Alcolumbre têm a pretensão de renovarem seus mandatos nas presidências das casas legislativas. Para isso, contam com o apoio do presidente - o que está para ser anunciado nos próximos dias. O PT tem interesse em impedir que o comando passe para o PL, que terá maioria na Câmara e no Senado. 

O Ministério Público investiga os prefeitos de Tapejara e Machadinho que contrataram, com licitação dirigida, um lobista de costas quentes para intermediar a liberação de emendas parlamentares. Por pouco, o intermediário não conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa.

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