
OPINIÃO RBS
Além da disputa por influência
O resultado da eleição para a Câmara e o Senado, com significativo avanço do PL, deflagrou uma mobilização da cúpula do Congresso e dos partidos do centrão para manter o poder de influência a partir da nova legislatura. O ideal seria que o bloco, diante da continuidade da polarização política no país, se articulasse também em nome de objetivos mais nobres.
O PL passou de 97 deputados federais para 121. No Senado, pulou de 15 para 28 representantes. São bancadas que dão suporte à pretensão da legenda de eleger os presidentes das duas Casas. A força do partido será ainda maior caso Flávio Bolsonaro vença a corrida para o Palácio do Planalto, neste domingo.
O centrão, enquanto isso, minguou. Juntas, as agremiações União Brasil, PP, PSD, MDB e Republicanos elegeram 207 deputados, 19 a menos do que têm hoje. A reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) para o comando do Senado e de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara está em xeque. Um dos primeiros movimentos da dupla que dirige o Congresso foi ajudar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em busca da recondução, com a votação de pautas de interesse do petista, como o fim da escala 6x1 e o pacote de ajuda aos microempreendedores individuais (MEIs). Com Lula vitorioso, teriam maiores chances de manter as suas posições.
Na semana passada, 10 partidos de centro e centro-direita anunciaram apoio à reeleição de Motta. Para barrar as ambições do PL, os deputados de esquerda seriam atraídos para a estratégia. Nos bastidores, lideranças do centrão também se articulam para votar, ainda na atual legislatura, uma reforma política que altere o sistema eleitoral atual e reduza a influência dos puxadores de votos no resultado. Com a regra do quociente eleitoral, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, com seus 3,1 milhões de votos, carregou para a Câmara mais de uma dezena de candidatos com desempenho eleitoral bastante inferior.
É legítimo que o centrão, conhecido pela falta de identidade ideológica, aja para continuar a dar as cartas no Congresso diante da nova correlação de forças. Mudar o sistema eleitoral para preservar apenas seus interesses, no entanto, é reprovável. Mobilizar-se com a motivação apenas de preservar a capacidade de influência, mantendo o poder de barganha no processo de toma lá dá cá, tampouco é elogiável. Melhor seria se, diante da manutenção da polarização entre PT e PL, os partidos de centro e centro-direita evoluíssem de uma atuação meramente fisiológica e corporativa para uma conduta mais programática. Talvez com uma linha de atuação que também se mostrasse capaz de, nos próximos anos, oferecer uma alternativa eleitoral de poder viável aos brasileiros, com uma candidatura competitiva, verdadeiramente de terceira via.
A cláusula de barreira, que será ainda mais exigente quanto ao desempenho eleitoral em 2030, cumpre o objetivo de diminuir o número de partidos e incentivar incorporações, fusões e federações. Um sistema político mais funcional requer a existência de menos siglas, mas que sejam mais coesas e tenham doutrinas claras. Há um espaço que pode ser ocupado pelo centro, desde que exista disposição genuína para oferecer um projeto de país, e não apenas preocupação com trocas de favores, emendas e interesses paroquiais.
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