Conjuntura econômica influencia escolha de moradia dos gaúchos
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A economia brasileira vem influenciando diretamente na escolha de moradias e na relação das pessoas com a cidade. Fatores socioeconômicos - que atravessam a taxa Selic, a inadimplência e as novas organizações de família - transformaram as dinâmicas urbanas e como o mercado imobiliário opera.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), o número de imóveis alugados cresceu 54,1% no Brasil entre 2016 e 2025. No último ano, o País alcançou os 79,3 milhões de domicílios particulares permanentes, dos quais 18,9 milhões são alugados - quase um quarto de toda a moradia brasileira.
Na capital gaúcha, concomitantemente, os apartamentos cresceram e são maioria, 52,1% dos domicílios de Porto Alegre têm esse formato e concentram 45,9% da população. Em relação ao aluguel, segundo dados do IBGE de 2022, 20,79% dos imóveis são alugados, maior que a média do Estado, em que o percentual chega a 17,93%.
O aumento exponencial do aluguel e o crescimento da verticalização das cidades geram alerta no segmento. José Craidy Simões, integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Estado (CAU-RS) e doutor em planejamento urbano, explica que os resultados observados são construídos por meio de muitas variáveis. “Hoje temos famílias menores, mais pessoas que moram sozinhas, uma tendência de casais sem filhos, o que torna a demanda de apartamentos e de aluguel maior. Outros fatores também são a preferência por locais mais próximos dos centros comerciais, do trabalho, do lazer. É uma combinação do perfil de cada um, o tipo de vida, cultura, família e, claro, renda.”
Simões defende que as pessoas estão mais conscientes de que não basta possuir uma habitação, mas considerar juntamente o custo do transporte, do deslocamento, do acesso a serviços e lazer. Por muitas vezes, morar perto do trabalho, mas de aluguel, por exemplo, vale mais a pena que longe, mas em uma casa própria.
O Sindicato de Habitação gaúcho (Secovi-RS) apurou para o Jornal do Comércio o preço médio por m2 das locações residenciais em Porto Alegre desde setembro de 2021. No acumulado (%) de 12 meses de setembro de 2023 a agosto de 2024, por causa das enchentes, houve uma alta de 21,99% no valor do imóvel. Desde então, o acumulado tem diminuído, mas não retornou aos valores anteriores ao desastre. De setembro de 2022 a agosto de 2023, o crescimento chegou a 8,34%; na última apuração (setembro de 2025 a agosto de 2026) alcançou os 13,98%.
A alta dos juros, em um primeiro momento, reflete diretamente no capital produtivo, e, via de regra, os empreendimentos concretizam-se quando há possibilidade de retorno financeiro maior que o investimento. Para a população, o resultado é pressão sobre o mercado imobiliário com a redução da oferta.
“Os juros elevados afetam também o acesso a financiamentos, o que dificulta o acesso ao imóvel próprio, e o crédito de construção. Estamos em um momento de desaceleração da construção civil e, conforme a lei de mercado de oferta e demanda, uma vez que existe uma demanda maior e uma oferta menor, o preço aumenta", afirma o vice-presidente de locações do Secovi-RS e fundador-diretor da Sperinde Imóveis, Cézar Sperinde Filho.
Após as enchentes, os gaúchos passaram a buscar por áreas mais altas na hora da escolha de moradia. Conforme dados do Secovi-RS, 36% das locações entre janeiro e julho de 2026 se concentraram nos bairros Centro Histórico, Petrópolis, Partenon, Cidade Baixa e Bom Fim. Destes, apenas um foi profundamente afetado pelas águas.
O acesso à escolha é algo para poucos. Populações de baixa renda muitas vezes acabam morando afastadas dos centros, o que torna-se um desgaste e obstáculo na rotina. De acordo com o doutor em planejamento urbano, existe um sacrifício econômico e social enfrentado por esses grupos e a cidade possui o dever de oferecer direito à moradia, à mobilidade, à cultura e à educação, não sendo o bastante estimular apenas a construção de habitações, mas compreender as reais demandas. “Os novos hábitos de moradia não são necessariamente preferências, mas parte de uma estratégia de habitação ao custo”.
Setor imobiliário gaúcho adapta projetos a novas preferências urbanas
A partir das novas experiências sociais com a cidade e as mudanças de preferência sobre onde e como morar, o setor imobiliário gaúcho tem buscado se adaptar a esse novo cenário. Cézar Sperinde Filho, vice-presidente do Secovi-RS, destaca que o produtor tem refeito seus projetos, focando principalmente em localização, e o gaúcho tem procurado por uma combinação de lazer e custo benefício.
A Casin Conquista, incorporadora que investe em projetos focados em moradia acessível - como o Minha Casa Minha Vida -, tem apostado em habitações que atendam a essas novas demandas. O diretor da empresa, Alexandre Medeiros, defende que habitação deve trazer dignidade e participação no cenário urbano, o que não é possível de acessar sem uma boa localização, que integre as pessoas aos centros comerciais e de serviço.
“Estar dentro do cenário urbano aproxima você a tudo que compõe a sociedade, teu trabalho, teu tempo, tua qualidade de vida. Consegue ir ao mercado, levar seus filhos no parque, na escola, ir ao shopping”, aponta o diretor. Ele reforça também que o planejamento da cidade deve ser mais amplamente discutido.
“O que precisamos essencialmente é um planejamento que trata a habitação como uma parte obrigatória do crescimento da cidade, e não como algo que acontece pelas bordas”, destaca. Nesse contexto, José Craidy Simões, parte do CAU-RS e doutor em planejamento urbano, salienta que os instrumentos de planejamento podem igualmente ampliar ou atender necessidades de moradia e que as políticas públicas aplicadas devem ser correntes. “Isso é um trabalho de formiguinha, que envolve tanto o ente municipal, quanto o estadual e federal”.


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