Lula e Flávio devem clareza no tema fiscal
O mercado financeiro reagiu ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial com recorde de pontuação na bolsa de valores e quedas acentuadas do dólar e dos juros futuros. O movimento revela mais um alívio dos investidores com a possibilidade menor de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que uma certeza de um ajuste fiscal ousado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL).
Com medidas, gestos e discursos, Lula menosprezou a importância de buscar o equilíbrio das contas do país e colheu a sensação de mal-estar econômico crescente entre os eleitores. O alto endividamento da população também passa pelo garrote do juro alto, fruto da insistência em não controlar gastos. No mês passado, Lula chegou a declarar que fazer superávit é "babaquice".
O chamado novo arcabouço fiscal, que deveria ser a âncora para conter a expansão dos desembolsos, foi sucessivamente desmoralizado pelo próprio governo. A aproximação da eleição fez o Planalto afundar ainda mais o pé no acelerador das bondades.
Como consequência, em agosto a dívida bruta do governo atingiu o equivalente a 82,9% do PIB, alta de 4,2 pontos percentuais no acumulado de 2026 e o maior nível em cinco anos. O indicador parece abstrato, mas influi no câmbio, no custo do crédito, na inflação e no crescimento. Afeta a vida real. Lula deve voltar a ser questionado se considera uma mudança de rumos necessária ou não.
Apesar da euforia do mercado financeiro, Flávio até aqui se esquivou de explicar como tentará colocar as contas do país em ordem. Fala genericamente em "tesouraço" e em uma agenda de enxugamento da máquina pública e de privatizações, mas escapa de dar detalhes das medidas. Sua equipe de economistas sinaliza um ajuste equivalente a 1,5 ponto percentual do PIB e uma nova trava de gastos, sem detalhar cálculos ou explicar como funcionaria a regra. Segue uma incógnita, mas bastou um aceno vago em direção à austeridade para injetar otimismo no mercado.
Como referência, cumpre lembrar que, apesar da retórica do então ministro da Economia, Paulo Guedes, o governo Jair Bolsonaro esteve longe de ser exemplar em relação à disciplina fiscal. Na reforma da Previdência, o então presidente atuou para desidratá-la.
Quando a necessidade política apareceu, não hesitou em furar o teto de gastos, principal regra fiscal do país à época destinada a limitar o crescimento das despesas, como foi o caso da PEC dos Precatórios e da PEC Kamikaze. Em busca da reeleição, mandou a responsabilidade às favas.
O tema é árido e impopular e, por certo, Lula e Flávio tentarão fugir dele até o dia do segundo turno. Mas, por dever moral, deveriam ser transparentes com os eleitores e dizer como buscarão o equilíbrio fiscal a partir de 2027. Se proporão uma nova reforma da Previdência, se alterarão a fórmula de reajuste do salário mínimo, se benefícios previdenciários serão desvinculados do mínimo, e se mexerão nos pisos constitucionais da saúde e da educação. Ou, então, que apresentem outros planos, com alternativas críveis.
O certo é que o ajuste, com medidas amargas, terá de ser feito. Caso contrário, a dívida pública seguirá crescendo de forma insustentável e, na ponta, a população e as empresas continuarão a padecer.

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