terça-feira, 6 de outubro de 2026

06 DE OUTUBRO DE 2026
NÍLSON SOUZA

Olhar implacável

Multiplicam-se nos cruzamentos da Capital as câmeras de vigilância dotadas de inteligência artificial e olhar de raio X, programadas para flagrar infrações e distrações de trânsito. Para as primeiras, são muito bem-vindas. Motoristas que desrespeitam o sinal vermelho, avançam sobre a faixa de segurança, andam sem cinto, usam o celular ao volante ou trafegam acima da velocidade permitida merecem mesmo ser flagrados e punidos. Para alguns desses, multa é pouco. Infratores contumazes deveriam ter seus veículos apreendidos por longo tempo, pois apenas cassar a licença de dirigir - como a lei determina - não impede que delinquentes do volante continuem usando veículos como arma.

E quanto aos distraídos? Sei, claro, que distração também é infração, até mesmo porque descuidos com o carro em movimento podem ser fatais para terceiros e para o próprio condutor. Mas, pelo que tenho acompanhado do noticiário sobre as novas câmeras, elas também captam condutas irregulares que até pouco tempo atrás eram consideradas normais e rotineiras, como beber água enquanto o veículo está parado num sinal ou num engarrafamento ou soltar momentaneamente o cinto para tirar o casaco no momento da pausa no trânsito.

Desde que ouvi a entrevista de uma autoridade do trânsito sobre esse novo rigor fiscalizatório, evito até coçar a orelha quando paro num semáforo. Vá que as tais câmeras inteligentes interpretem o gesto como uma acomodação do fone de ouvido ou coisa parecida. Sequer ouso olhar diretamente para elas, pois os robozinhos podem pensar que os estou desafiando a encontrar alguma irregularidade. E vão encontrar, na certa: um pacote solto no banco de trás, um palito na boca do condutor, qualquer coisa que possa ser interpretada como distração.

Está bem, estou brincando com coisa séria, mas a verdade é que estamos cada vez mais acuados por sistemas de vigilância do poder público. Quero acreditar que o propósito da nova e poderosa espionagem eletrônica - mais do que multar, como temem alguns motoristas - é contribuir para um trânsito mais civilizado. Submeto-me, portanto, a essas verdadeiras tomografias computadorizadas no semáforo. Só não consigo descontrair. _

NÍLSON SOUZA

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