segunda-feira, 12 de outubro de 2026

12 de Outubro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Fascismo do fim dos tempos

Em 2018, ainda havia muita gente com receio de associar o termo "fascismo" à atual extrema direita. Dá para entender. Durante décadas, a expressão foi usada pela esquerda como uma espécie de ofensa guarda-chuva. Vai aumentar a passagem de ônibus? Fascista. Mandou construir um edifício onde havia uma pracinha? Fascista. Era o menino que gritava lobo. Em 2026, o lobo está na porta da nossa casa, salivando, e nem sequer esconde como pretende se comportar: "Vou soprar, vou bufar e a sua democracia eu vou derrubar".

Um traço que todos os modelos de fascismo têm em comum é a desumanização de um grupo de pessoas. (Judeus, no caso do nazismo. Imigrantes, nos Estados Unidos de Trump.) O fascista é um sujeito convencido de que existem cidadãos de segunda categoria - logo, nem todos merecem o mesmo respeito e desfrutam dos mesmos direitos. Se um determinado grupo parece ameaçar sua existência e/ou identidade, tudo se torna aceitável - e Deus, no fim, abençoa. Milícia? Beleza. Chacina? Legal. Tortura? Maneiro. E quando o impensável começa a soar razoável, o fascismo já está sentado na sala da sua casa, fumando um charuto.

A perplexidade generalizada com o apelo da extrema direita em países tão diferentes quanto Brasil e Estados Unidos, Alemanha e Argentina tem produzido uma vasta bibliografia. Um dos últimos lançamentos nos EUA é o livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World (algo como "O fascismo do fim dos tempos: E a luta por um mundo para se viver"), das jornalistas e ativistas Naomi Klein e Astra Taylor.

A tese central do livro é a de que a extrema direita (com apoio dos bilionários das big techs, dos fanáticos religiosos e dos ultranacionalistas) difere do fascismo do século 20 por ter abandonado completamente a promessa de um futuro melhor. O fascismo do fim dos tempos, argumentam as autoras, aproveita-se do clima de crise permanente e da antecipação de um apocalipse inevitável para adotar uma espécie de "supremacismo da sobrevivência". Farinha pouca, meu pirão primeiro.

"O que une esse movimento emergente, conflituoso e frequentemente contraditório, é a convicção de que nosso mundo comum está fadado a um fim iminente. E apenas os escolhidos - sejam eles selecionados por sua riqueza, fé, biologia ou direitos ancestrais a um determinado pedaço de terra - terão direito de inaugurar a próxima fase da história humana."

Combater o fascismo do fim dos tempos é lutar não apenas pela sobrevivência da democracia e do planeta, mas pela simples ideia de que todos, sem exceção, merecemos sobreviver. De preferência, fora do bunker. _

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CLÁUDIA LAITANO

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