quinta-feira, 29 de outubro de 2026

29 de Outubro de 2026
EM FOCO

Carta com teor golpista marca a chegada de Flávio aos EUA

A manifestação divulgada logo após o desembarque no Exterior adiciona um novo elemento à crise envolvendo o candidato derrotado. No texto, ele chegou a se apresentar como "verdadeiro presidente eleito", mas removeu o trecho

Menos de um dia após sair do Brasil em fuga para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL) divulgou uma carta com teor golpista. Depois de desembarcar em solo americano com a esposa e duas filhas por volta das 10h30min de ontem, o candidato derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais no domingo fez à tarde sua primeira manifestação após deixar o país, na qual reivindicou o posto de "verdadeiro presidente eleito do Brasil". O trecho foi posteriormente retirado.

O documento já tem três versões. As duas primeiras circularam por meio de aliados. A primeira trazia um brasão escrito "Estados Unidos do Brazil", com o nome do país escrito com "z". Cerca de 15 minutos depois, uma versão com novo brasão, com o nome do país escrito de forma correta, passou a circular.

Flávio postou o conteúdo em sua conta no X. Pouco tempo depois, no entanto, editou a postagem e republicou o conteúdo, mudando o trecho "verdadeiro presidente eleito do Brasil" para a expressão "líder do Brasil".

O que não mudou em nenhum dos documentos distribuídos foi a alegação de existência de fraude eleitoral, sem apresentar provas, e os agradecimentos aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump. No pronunciamento, Flávio também afirma que não pretendia deixar o país, mas que decidiu viajar para escapar do que descreveu como perseguição política.

Dos rumores à confirmação

Flávio deixou o Brasil após ser intimado a entregar os seus passaportes. Os rumores de que o senador havia fugido do país começaram na manhã de terça-feira, embora não houvesse confirmação de que ele havia cruzado a fronteira.

O governo da Argentina informou na madrugada de ontem que ele entrou no país vizinho na noite de terça-feira e embarcou ao Equador em um avião particular cerca de 40 minutos depois, junto da família, onde fez breve escala rumo a Miami, nos EUA. Segundo informações da Direção Nacional de Migrações da Argentina, a viagem foi em uma aeronave LV-JQW, um jatinho particular Gulfstream G400.

A informação sobre a fuga de Flávio Bolsonaro foi inicialmente publicada pelo site argentino Infobae na terça-feira. Embora o Departamento de Migração argentino tenha informado que Flávio e a família deixaram o país rumo aos Estados Unidos somente na noite de terça-feira, o governo norte-americano já havia confirmado, no mesmo dia, a chegada do senador ao território dos Estados Unidos com a mulher e as duas filhas.

Ainda segundo o Departamento de Migração argentino, a família só teria chegado ao país às 22h50min da terça, quando "ingressaram pelo passo fronteiriço da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones", informação que ainda é apurada pela Polícia Federal. Eles "o fizeram com documentação hábil de viagem sem nenhum impedimento legal para o ingresso no país", alega o departamento.

Para entrar na Argentina, Flávio usou o passaporte italiano, enquanto, para entrar nos EUA, utilizou o passaporte diplomático cancelado. Conforme apurou o jornal O Globo, Flávio recebeu visto humanitário quando chegou ao território americano.

Entrega de passaporte

No domingo, após as eleições, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse o passaporte à Polícia Federal. Na segunda-feira, Flávio foi abordado por agentes da PF ao deixar a residência de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Na ocasião, ele foi intimado a entregar os passaportes em até 24 horas e ficou proibido de deixar o país. O prazo para cumprir a determinação encerrou-se no fim da manhã de terça-feira, mas o senador não compareceu para entregar os documentos.

A ordem judicial faz parte do processo em que Flávio e o advogado Willer Tomaz são investigados no STF. Na semana passada, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Willer, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro relacionado a negócios envolvendo bets.

Conforme a apuração preliminar da Polícia Federal, Flávio seria beneficiário de recursos da Alcazar Holdings, uma empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e que também é investigada pela PF.

A ordem de Moraes foi tomada por pedido da PF, em razão de registros de e-mails encontrados em que Flávio é citado como operador de uma conta no Exterior vinculada ao Tomaz, o que, na avaliação da investigação, poderia representar risco de fuga para uso de recursos fora do país. _

Passo a passo

Flávio e a família teriam cruzado a fronteira com a Argentina às 22h50min de terça, por meio da Ponte Internacional Tancredo Neves, em Misiones, informação ainda apurada pela PF.

Às 23h30min, embarcaram em avião privado a partir do Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú, em Misiones.

Segundo o rastreamento de aeronave FlightAware, o avião pousou no Aeroporto Internacional de Guayaquil, no Equador, às 5h25min.

Depois, decolou novamente com destino a Miami às 6h22min

Por volta das 10h30min, a família desembarcou no aeroporto executivo Opa-locka, em Miami.

O voo não cruzou espaço aéreo brasileiro - sobrevoou Paraguai, Bolívia e Peru, segundo o FlightAware.

Após a aterrissagem em Miami, Flávio e a família entraram em um carro que os aguardava na saída do aeroporto. O destino da família era desconhecido.

PF apura se avião usado para ir até a Argentina era de Willer Tomaz

A Polícia Federal ainda tenta compor o quebra-cabeça da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. O que está confirmado é que ele usou o jato Gulfstream G400 de prefixo LV-JQW, com capacidade para 14 passageiros, para se deslocar até Miami partindo desde Puerto Iguazú (cidade argentina situada na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná).

Teria usado essa rota, menos frequentada, para escapar da vigilância nos grandes aeroportos do Brasil, já que seu passaporte brasileiro está cancelado por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Foi nesse Gulfstream que Flávio desceu com a família em Miami (EUA), ontem, após escala no Equador. A rota foi usada para passar longe do território brasileiro. A aeronave tinha se deslocado na segunda-feira de Buenos Aires a Puerto Iguazú e ficou parada nessa cidade argentina, à espera de passageiros. O plano de voo intercontinental dela era até Miami, o que se confirmou.

Pistas seguidas

O que a PF ainda não sabe é como Flávio se deslocou de Brasília (onde visitou o pai, Jair Bolsonaro, segunda-feira) até a Argentina. Uma pista seguida é uma aeronave que decolou da Capital Federal às 5h05min da manhã de terça-feira e aterrissou em San Fernando, nas cercanias de Buenos Aires, na Argentina, às 8h40m do mesmo dia. O jato, o Cessna 560XL Citation Excel de prefixo PR-AAA, estava abrigado no hangar de uma empresa pertencente a Willer Tomaz. A suspeita da PF é de que a aeronave também pertença ao advogado.

Uma coincidência e tanto, já que o advogado é investigado por lavagem de dinheiro no mesmo processo que motivou a fuga de Flávio para os EUA. Os dois, amigos de longa data, são suspeitos de formar sociedade para aplicar milhões de reais em empresas de apostas. A Polícia Federal investiga se o esquema é disfarce de lucros obtidos por Tomaz com desvios da Previdência Social.

Choque de informações

A suspeita da PF é de que Flávio Bolsonaro e seus familiares podem ter trocado de avião em San Fernando, embarcando do Gulfstream para Puerto Iguazú e, dali, para Miami. O avião é maior do que o Citation e capaz de viagens transcontinentais. Não teriam seguido viagem direto aos EUA porque um site argentino de notícias (o Infobae) publicou a informação de que o político brasileiro estava na lista de passageiros do jato, atrapalhando a jornada que deveria ser secreta.

Só que a hipótese se choca com uma informação: a Dirección Nacional de Migraciones argentina informou que Flávio e seus familiares ingressaram em território argentino por Puerto Iguazú, numa ponte que liga essa cidade ao Brasil, às 22h50min de terça-feira. Ou seja, não teriam vindo de Buenos Aires. Ou esse informe oficial é um despiste ou a Polícia Federal precisa investigar um pouco mais para esclarecer o mistério. _ Humberto Trezzi

humberto.trezzi@zerohora.com.br

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