segunda-feira, 19 de outubro de 2026


19 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Gente estranha é tão legal

Se eu via alguém excluído na escola, já me tornava amigo. O sofrimento é o cupido das amizades.

Vivia me aproximando dos nerds, dos repetentes, dos novatos, dos retraídos, dos baixinhos, dos altos demais, dos de óculos de fundo de garrafa, dos de aparelho, dos de orelhas de abano, dos de língua presa, dos últimos escolhidos no futebol, dos que gaguejavam, dos que não sabiam dançar, dos que levavam lanche de casa, dos que usavam tênis sem marca, dos que herdavam o uniforme do irmão, dos que não contavam com dinheiro para a excursão, dos que não eram convidados para os aniversários, dos que mergulhavam em livros na biblioteca, dos que se escondiam no recreio.

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver. Pessoas intensas, que não se deixam para depois. Que correm enquanto os outros andam, que voam enquanto os outros correm.

Pessoas que não fazem jogo quando apreciam uma companhia. Que confessam o amor de cara. Que não seduzem: são. Que não esperam a aceitação para confirmar o que sentem. Que não se acomodam naquilo que recebem. Pessoas que experimentam, que se aventuram, que ousam. Que tomam a iniciativa, que recalculam a rota. Que não opinam para agradar, que não mentem por educação. Que assumem as suas decisões pelo tempo que precisarem.

Pessoas sinceras como se fosse uma partida. Pessoas afetivas como se fosse uma chegada. Pessoas temperamentais que não se fixam nas aparências. Que não se diminuem para encaixar. Que não se apequenam para corresponder às expectativas.

Pessoas que são consideradas intransigentes e, paradoxalmente, não temem as dúvidas. Pessoas que despertam ódio, à primeira vista, em muitos que gostariam de ser iguais a elas. Pessoas que parecem fora do normal, mas são as mais humanas: mostram seus defeitos.

Pessoas estranhas que logo se convertem em nossas favoritas. Que nunca largam nossa mão. Que escutam as aflições alheias como um espelho, que acolhem a alegria de alhures como sua.

Pessoas com a valentia da solidão, com a coragem da saudade, com a bravura de suportar a falta e se despedir quando se fecha um ciclo. Pessoas que demoram para acordar, demoram para dormir, tamanha a adrenalina. O corpo deita, a cabeça continua de pé.

Pessoas de verdade, que gargalham com vontade, que bailam com os braços, que amam loucamente, que entregam a alma na hora de falar. Pessoas que enfrentam a tempestade como se estivessem diante de um dia de sol. Que conseguem passear no caos e se posicionar na paz.

Pessoas que não desaparecem na multidão. Que chamam atenção, com o carisma de uma faísca no breu da noite. Que incentivam quando ninguém mais acredita. Pessoas que transformam os que estão ao redor e se transformam junto. Que ensinam para aprender mais.

Pessoas que surgem como uma palavra nova, uma ideia estapafúrdia, um pressentimento bom. Pessoas que nem sempre são compreendidas. E, talvez por isso, sempre serão lembradas. As pessoas mais difíceis de entender são as mais inesquecíveis. 

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver

CARPINEJAR

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