A careta do poeta
Algumas superstições sobrevivem à infância porque o medo aprende cedo a falar como verdade.
Uma infância sem mistérios não tem graça. Não vai sair um poeta na família. Eu lembro que cresci sob a pressão de enigmas, de fatos extraordinários adotados de modo submisso: leis antigas sem dono. Não consigo nem oferecer razões científicas para a sua aplicação incondicional. A intimidade foge ao meu controle. Como vivi tudo isso, eu me sinto suspeito para opinar.
Havia instrumentos proibidos. Ninguém contava com autorização para pegar a tesoura boa. A mãe percebia imediatamente se o seu utensílio de costura tinha cortado papel. Na pressa, sempre recorríamos ao seu poder de poda para tirar os dentinhos das folhas espirais.
Ela parecia uma telepata, adivinhando as nossas profanações. Conservava uma conexão direta com o fio que não nos permitia mentiras. Igualmente, o pai preservava a sua faca boa para churrasco, não aceitando o seu uso para abrir o pão. Argumentava que ela acabaria cega.
Os mortos estavam pendurados na parede. A fotografia em preto e branco dos bisavós nos observava dos corredores. Você passava sendo encarado pelo olhar fixo de parentes que nunca havia conhecido. Os pais precisavam esclarecer quem eram. Nenhuma informação diminuía nossos calafrios.
Existia a marcação sagrada dos assentos para cada um na mesa. Não nos sentávamos no lugar dos outros, senão recebíamos uma advertência: “Essa é a cadeira do seu irmão”. Até hoje mantenho a minha cadeira na mesma posição.Virávamos ou cobríamos os espelhos com panos durante a tempestade. Prevalecia a crença de que atraíam raios. Guardávamos os ramos benzidos no Domingo de Ramos pelo ano inteiro.
Interrompíamos o soluço com um susto. Alguém acelerava o nosso coração de repente, surgindo sem avisar. Eu preferia o soluço ao pavor.Curava-se verruga com a seiva do caule da figueira.
Não se deixava chinelo do avesso, sequer no futebol na calçada, correndo-se o risco de ameaçar a vida materna. Você pausava a brincadeira para alinhá-lo.Sabíamos que chegaria uma visita quando caía um talher no chão. Garfo sinalizava homem; colher, mulher. Faca anunciava uma briga ou discussão.
Também descobríamos se a visita era invejosa quando uma planta secava após a sua aparição. A orelha esquentava se nos tornávamos motivo de fofoca. Os armários só estalavam de madrugada. Ao longo do dia, permaneciam mudos. Examinávamos o ovo contra a luz, com o espanto de enxergar a saúde do alimento através da casca.
A colher de pau impedia o leite de derramar. Bastava apoiá-la sobre a panela. Despertávamos reparando no nível de água do copo na cômoda. Um anjo poderia ter bebido, na sede do divino em sua vigília de nossos sonhos.
Não dava para fazer careta com vento frio no inverno. Os adultos diziam para nós, crianças, que o rosto ficaria torto ou travado. Minha desobediência talvez explique por que sou assim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário