quarta-feira, 7 de outubro de 2026

06/10/2026 - 18h02min
Gabriel Sant'Ana Wainer

Quase 2 milhões de votos e nenhum programa: o caso Campopiano

O algoritmo não precisa ensinar regimento; basta transformar alcance em cadeira e deixar a legenda administrar o resto. Campopiano foi eleita deputada estadual com 1,95 milhão de votos, impulsionando a bancada do PL em São Paulo.

Eduarda Campopiano se apresenta nas redes como a maior inimiga das feministas de São Paulo. A frase serve a ela de biografia, plataforma e programa de governo, e no domingo 1.956.238 eleitores paulistas acharam que bastava. A vereadora de Praia Grande, 23 anos, menos de dois de mandato, saiu das urnas como a deputada estadual mais votada do país. Haverá quem chame de fenômeno mas é uma excrescência das que deixam recado.

O tamanho do número ajuda a medir o estrago. Em 2022, o campeão de votos para a Assembleia de São Paulo foi Eduardo Suplicy, com 807 mil, depois de mais de quatro décadas de vida pública. Campopiano teve mais que o dobro. 

O recorde continua com Janaina Paschoal, que passou dos 2 milhões em 2018 carregada pelo antipetismo e por uma assinatura no pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Janaina ao menos levava um documento debaixo do braço. Seis anos depois, elegeu-se vereadora em São Paulo com 48.893 votos, o que diz bastante sobre a memória de quem consagra fenômenos.

O que Campopiano levou para a eleição cabe numa planilha de engajamento. O Instituto Democracia em Xeque, que monitorou as candidaturas jovens nas duas últimas semanas de setembro, contou 929,2 mil interações em 11 publicações dela, perto de 85 mil por post. Nenhum projeto apresentado em Praia Grande chegou perto disso, e houve projeto. 

O mandato registra uma proposta de prioridade de matrícula para irmãos na mesma escola, outra que veda a nomeação de condenados por crimes sexuais contra crianças, uma emenda de R$ 550 mil para consultas e cirurgias e uma sessão, a de 3 de fevereiro, dedicada a 21 indicações sobre iluminação de quadra, ponto de ônibus e playground. É o trabalho honesto e miúdo de qualquer vereador de primeiro mandato, do tipo que milhares fazem pelo país sem que ninguém lhes ofereça 2 milhões de votos por isso.

Os votos vieram do outro emprego. Aos 19 anos ela já comentava política na Jovem Pan, e antes da campanha passou pelo Pânico e pelo RedCast, onde o produto aparece sem filtro. No RedCast, em maio, agradeceu pela colonização e pela catequização e associou os povos indígenas ao canibalismo, o que levou a artista indígena Katú Mirim a registrar boletim de ocorrência por racismo. 

Nas redes, apoia o projeto de lei que pune com 6 a 20 anos de prisão o aborto depois de 22 semanas, inclusive quando a gravidez resulta de estupro. O Código Penal pune o estupro com 6 a 10 anos. A inimiga número um das feministas defende, portanto, uma lei pela qual a mulher estuprada pode pegar até o dobro da pena do homem que a estuprou, e quase 2 milhões de pessoas acharam a combinação razoável. Ou sequer chegaram a ela, o que é pior.

Pela conta do quociente eleitoral, a votação de Campopiano equivale a quase oito vagas na Assembleia. Cada voto que sobrou depois da eleição dela foi trabalhar para o PL, que fez 28 deputados e terá a maior bancada da próxima legislatura. Boa parte de quem digitou 22011 pensando num vídeo será representada por gente que nunca apareceu nele. 

É assim que o sistema proporcional brasileiro transforma uma influenciadora em locomotiva e um partido em vagão de carga. Ninguém no PL precisou formar quadro, testar liderança ou ensinar regimento. Bastou achar o perfil certo e pendurar a legenda nele.

A esquerda passou a última década ensinando que indignação rende seguidor, que lacrar é método e que o adversário existe para virar meme. A direita aprendeu a lição e agora cobra com juros. Lucas Pavanato, parceiro de campanha de Campopiano, levou mais de 3 milhões de votos para a Câmara dos Deputados, a maior votação de São Paulo. O feed decidiu as duas pontas da chapa.

A Assembleia Legislativa vota o orçamento do estado mais rico do país, fiscaliza o governo, abre CPIs e julga as contas do governador. É lugar onde se negocia dinheiro de verdade, e onde quem não domina o regimento acaba servindo de voto para quem domina. O recado de domingo é que o eleitor paulista passou a escolher legislador pelo mesmo critério com que escolhe quem seguir, e que os partidos já perceberam que esse eleitor sai mais barato do que qualquer programa.

O eleitor paulista costuma ser generoso com fenômenos e implacável com eles mais tarde. Janaina que o diga. Entre a consagração e o esquecimento, porém, cabem quatro anos de mandato e uma bancada inteira que entrou de carona.

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