
As voltas dos ponteiros no relógio
Na infância, comunicávamo-nos com nossos amigos pelas visitas. Aparecíamos. Sem hora marcada.
Ou para jogar futebol, ou para pular corda, ou para arremessar pião e bolitas, ou por tédio mesmo, para emprestar a solidão e empreender uma expedição pelo bairro, achando o que fazer junto.
Assumíamos o risco da viagem perdida. Algumas vezes ninguém nos atendia. E regressávamos com a porta na cara. Pensávamos em tentar mais tarde. Não levávamos para o lado pessoal o fato de caminhar um monte ou pegar uma outra condução para ir de novo. Não sofríamos com a repetição. Não havia preguiça.
Batíamos palmas, assoviávamos na frente do portão, gritávamos o apelido de quem procurávamos, alongando a última sílaba.
A família do amigo provavelmente nos odiava. Nem tanto pela algazarra comum nos anos 70, que servia como campainha informal, mas porque sempre interrompíamos o almoço ou o planejamento espartano do dia.
Quando avistávamos uma alma se mexendo na janela, nossa pergunta não mudava: - Fulano pode sair?
Nada acontecia de imediato. Amargávamos o suspense. - Espere aí! Sequer éramos convidados a entrar. A gurizad a medonha se mantinha de pé na rua. Não desfrutava dos privilégios de gente grande, dos vendedores de enciclopédia, de cosméticos, de frutas.
Aguardávamos no meio-fio da calçada.
O amigo precisava terminar o tema escolar antes. Ou lavar a louça. Ou arrumar sua cama e organizar sua escrivaninha. Ou tomar banho. Ou recolher as necessidades do cachorro no pátio. Ou varrer o quintal. Os pais aproveitavam nossa presença para cobrar tarefas domésticas e pendências. Para recuperar o atraso nas responsabilidades.
Não testemunhávamos o que estava sendo solicitado nos bastidores. Pelo tempo excedido, adivinhávamos que existia uma exigência em vigor: um pedágio para a liberdade inusitada.
Acabávamos como pretextos perfeitos. O filho queria se divertir? Então que cumprisse primeiro o que tinha prometido.
Melhor a série de atividades do que estar de castigo, que consistia numa prisão domiciliar, de prazo indefinido, por causa de notas baixas, ou mau comportamento com o irmão, ou quebra de um objeto de valor.
O castigo alheio nos obrigava a passar lá todo santo dia para descobrir se o colega já estava liberado.
Naquela época, criança brincava com criança. Adultos não nos entretinham. Deveríamos nos virar entre nós. Não se via pai ou mãe dividindo passatempos com o seu rebento. Não nos misturávamos. Não sentávamos com eles para Super Trunfo ou Banco Imobiliário. Eles se mostravam ocupados demais para se interessar pelo nosso ócio.
Quando o amigo vinha em nossa direção, esquecíamos a areia da ampulheta, as voltas dos ponteiros no relógio. A felicidade da parceria apagava o sacrifício. Corríamos, e escutávamos ao fundo o eco materno, pouco a pouco enfraquecido pelo som de nossos Kichutes:
- Fiquem por perto!
CARPINEJAR
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