quinta-feira, 22 de outubro de 2026


22 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Odeio encomendas

Não gosto de me comprometer com encomendas. Você tem a responsabilidade de acertar o item, de levar exatamente o que a pessoa quer. Porque o que ela pediu de repente não é o que ela quer. Você não recebeu detalhes. Pode falhar com a marca, o tipo, a especificidade do produto.

Entro em pânico se minha esposa me solicita algo da farmácia. Artigos íntimos são cheios de minúcias, bem como cremes, hidratantes, xampus. Até remédios: será que ela desejaria de um laboratório ou aceitaria um genérico?

Quando vem a dúvida, quando você está na frente do funcionário, o vivente nunca atende ao telefonema. Sequer responde às mensagens. Ele só dá sinal de vida depois que você saiu dali, tarde demais, numa Lei de Murphy implacável.

Se erro para mim, não preciso prestar satisfações ou retornar ao estabelecimento. Já para o outro, vejo-me culpado e com a urgência de reparação.

A indisposição descende da lista materna, da época em que eu cumpria o papel de estagiário de compras no armazém. A mãe demandava farinha, escrevia "farinha" numa folha, e eu escolhia farinha de mandioca, enquanto ela ansiava pela tradicional de trigo.

- Mas você não disse qual! - Desde quando se faz bolo com farinha de mandioca? - Você também não disse que era bolo!

Para qualquer um, seria óbvio buscar a farinha de trigo, menos para mim. As informações incompletas aumentavam a minha vergonha de perguntar, e eu apostava na opção equivocada. A mãe jurava que estava na cara, supunha que o ato não dependia de explicação. Assim eu me ferrava.

No fim, ela me criticava, como se eu não servisse para a tarefa: - Seria melhor eu mesma ter ido. Já confundi creme de leite com leite condensado, fermento químico com o biológico, maisena com polvilho doce.

Custava me esclarecer visualmente? - Pegue aquele potinho de fermento em pó Royal, de tampa vermelha. Ficaria mais fácil de identificar. Nas viagens, então, sinto calafrios com incumbências de algum familiar ou amigo. Não nego, tampouco relaxo nas férias.

Em nossa estada na Grécia, minha esposa assumiu uma missão: conseguir um busto de Platão para sua prima Maria Dulce Reis, professora da PUC Minas. Como sua parente traduz o pai da Filosofia diretamente do grego e é apaixonada pela obra dele, Beatriz tomou a expedição como uma questão de honra.

Passamos por várias lojinhas de lembranças e souvenirs locais. Encontramos miniaturas de todos os pensadores gregos. O problema é que eles eram muito parecidos: Tales de Mileto, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Epicuro, Zenão, Sócrates, Demócrito, ainda mais no vulto cavado no gesso branco, ainda mais que ostentavam barba em sua maioria.

Seguimos o instinto. Ao entregarmos o presente, Dulce elucidou: - Obrigada, mas não é Platão. É o seu discípulo, Aristóteles.

Não havia como voltar para Atenas. Cansado de uma existência inteira de gafes, desabafei:

- É da turma! Está valendo. _

CARPINEJAR

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