quarta-feira, 21 de outubro de 2026


As voltas dos ponteiros no relógio

Na infância, comunicávamo-nos com nossos amigos pelas visitas. Aparecíamos. Sem hora marcada.

Ou para jogar futebol, ou para pular corda, ou para arremessar pião e bolitas, ou por tédio mesmo, para emprestar a solidão e empreender uma expedição pelo bairro, achando o que fazer junto.

Assumíamos o risco da viagem perdida. Algumas vezes ninguém nos atendia. E regressávamos com a porta na cara. Pensávamos em tentar mais tarde. Não levávamos para o lado pessoal o fato de caminhar um monte ou pegar uma outra condução para ir de novo. Não sofríamos com a repetição. Não havia preguiça.

Batíamos palmas, assoviávamos na frente do portão, gritávamos o apelido de quem procurávamos, alongando a última sílaba.

A família do amigo provavelmente nos odiava. Nem tanto pela algazarra comum nos anos 70, que servia como campainha informal, mas porque sempre interrompíamos o almoço ou o planejamento espartano do dia.

Quando avistávamos uma alma se mexendo na janela, nossa pergunta não mudava: - Fulano pode sair?

Nada acontecia de imediato. Amargávamos o suspense. - Espere aí! Sequer éramos convidados a entrar. A gurizad a medonha se mantinha de pé na rua. Não desfrutava dos privilégios de gente grande, dos vendedores de enciclopédia, de cosméticos, de frutas.

Aguardávamos no meio-fio da calçada.

O amigo precisava terminar o tema escolar antes. Ou lavar a louça. Ou arrumar sua cama e organizar sua escrivaninha. Ou tomar banho. Ou recolher as necessidades do cachorro no pátio. Ou varrer o quintal. Os pais aproveitavam nossa presença para cobrar tarefas domésticas e pendências. Para recuperar o atraso nas responsabilidades.

Não testemunhávamos o que estava sendo solicitado nos bastidores. Pelo tempo excedido, adivinhávamos que existia uma exigência em vigor: um pedágio para a liberdade inusitada.

Acabávamos como pretextos perfeitos. O filho queria se divertir? Então que cumprisse primeiro o que tinha prometido.

Melhor a série de atividades do que estar de castigo, que consistia numa prisão domiciliar, de prazo indefinido, por causa de notas baixas, ou mau comportamento com o irmão, ou quebra de um objeto de valor.

O castigo alheio nos obrigava a passar lá todo santo dia para descobrir se o colega já estava liberado.

Naquela época, criança brincava com criança. Adultos não nos entretinham. Deveríamos nos virar entre nós. Não se via pai ou mãe dividindo passatempos com o seu rebento. Não nos misturávamos. Não sentávamos com eles para Super Trunfo ou Banco Imobiliário. Eles se mostravam ocupados demais para se interessar pelo nosso ócio.

Quando o amigo vinha em nossa direção, esquecíamos a areia da ampulheta, as voltas dos ponteiros no relógio. A felicidade da parceria apagava o sacrifício. Corríamos, e escutávamos ao fundo o eco materno, pouco a pouco enfraquecido pelo som de nossos Kichutes:

- Fiquem por perto! 

CARPINEJAR 


21 de Outubro de 2026
MÁRIO CORSO

O clima não vota

É de se esperar que pessoas com mais alfabetização científica e numeracia (raciocínio matemático) percebam melhor os riscos das mudanças climáticas. Dan Kahan e colegas (2012) testaram isso na Nature Climate Change, com uma amostra representativa de adultos nos EUA, submetida a testes de aptidão científica e a questionários sobre visões de mundo e risco climático.

A questão dos pesquisadores era: o esclarecimento conseguiria fazer com que as pessoas ultrapassassem sua visão tribal em política? Os resultados contrariaram o esperado. A tribo política prevaleceu: a identidade cultural foi um marcador muito mais forte das crenças sobre o clima do que a habilidade cognitiva. As pessoas usavam seu raciocínio para reforçar os compromissos do seu grupo, e não para buscar uma verdade imparcial.??

Como em tantos outros temas políticos, o voto expressa, antes de tudo, pertencimento. Triste conclusão para uma espécie que autodenominou-se Homo sapiens: a razão vem depois dos afetos, e o nome nos lisonjeia ao ignorar nossa mente passional e tribal.

O aquecimento global, porém, pouco se importa com a nossa opinião. Enchente não pergunta em quem você votou. O Rio Grande do Sul já provou o lado amargo de uma natureza desequilibrada: não me refiro somente às enchentes de 2023 e 2024, mas também às estiagens de 2005, 2020, 2022, 2023 e 2025 que causaram perdas bilionárias na agropecuária e emergência hídrica em várias cidades. Nem a eleição estadual nem a nacional, que se define no próximo fim de semana, trataram do tema com a seriedade necessária.

O que mais o nosso estado precisa sofrer para acordar para a emergência climática que vive? Vale perguntar a quem pede nosso voto o que pretende fazer com a prevenção de cheias, criação de novos reservatórios para ampliar a capacidade de abastecimento e a transição energética. Pouco importa a que tribo o candidato pertence. Importa tratar o clima como problema de governo.

Quando tenho dúvida em quem votar, minha bússola é o que for melhor para o planeta. Muita coisa se contorna, se refaz, se conserta. O estrago ecológico, em boa parte, não. O clima não vota, mas você pode votar contra o negacionismo climático. 

MÁRIO CORSO
21 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Além da disputa por influência

O resultado da eleição para a Câmara e o Senado, com significativo avanço do PL, deflagrou uma mobilização da cúpula do Congresso e dos partidos do centrão para manter o poder de influência a partir da nova legislatura. O ideal seria que o bloco, diante da continuidade da polarização política no país, se articulasse também em nome de objetivos mais nobres.

O PL passou de 97 deputados federais para 121. No Senado, pulou de 15 para 28 representantes. São bancadas que dão suporte à pretensão da legenda de eleger os presidentes das duas Casas. A força do partido será ainda maior caso Flávio Bolsonaro vença a corrida para o Palácio do Planalto, neste domingo.

O centrão, enquanto isso, minguou. Juntas, as agremiações União Brasil, PP, PSD, MDB e Republicanos elegeram 207 deputados, 19 a menos do que têm hoje. A reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) para o comando do Senado e de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara está em xeque. Um dos primeiros movimentos da dupla que dirige o Congresso foi ajudar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em busca da recondução, com a votação de pautas de interesse do petista, como o fim da escala 6x1 e o pacote de ajuda aos microempreendedores individuais (MEIs). Com Lula vitorioso, teriam maiores chances de manter as suas posições.

Na semana passada, 10 partidos de centro e centro-direita anunciaram apoio à reeleição de Motta. Para barrar as ambições do PL, os deputados de esquerda seriam atraídos para a estratégia. Nos bastidores, lideranças do centrão também se articulam para votar, ainda na atual legislatura, uma reforma política que altere o sistema eleitoral atual e reduza a influência dos puxadores de votos no resultado. Com a regra do quociente eleitoral, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, com seus 3,1 milhões de votos, carregou para a Câmara mais de uma dezena de candidatos com desempenho eleitoral bastante inferior.

É legítimo que o centrão, conhecido pela falta de identidade ideológica, aja para continuar a dar as cartas no Congresso diante da nova correlação de forças. Mudar o sistema eleitoral para preservar apenas seus interesses, no entanto, é reprovável. Mobilizar-se com a motivação apenas de preservar a capacidade de influência, mantendo o poder de barganha no processo de toma lá dá cá, tampouco é elogiável. Melhor seria se, diante da manutenção da polarização entre PT e PL, os partidos de centro e centro-direita evoluíssem de uma atuação meramente fisiológica e corporativa para uma conduta mais programática. Talvez com uma linha de atuação que também se mostrasse capaz de, nos próximos anos, oferecer uma alternativa eleitoral de poder viável aos brasileiros, com uma candidatura competitiva, verdadeiramente de terceira via.

A cláusula de barreira, que será ainda mais exigente quanto ao desempenho eleitoral em 2030, cumpre o objetivo de diminuir o número de partidos e incentivar incorporações, fusões e federações. Um sistema político mais funcional requer a existência de menos siglas, mas que sejam mais coesas e tenham doutrinas claras. Há um espaço que pode ser ocupado pelo centro, desde que exista disposição genuína para oferecer um projeto de país, e não apenas preocupação com trocas de favores, emendas e interesses paroquiais. 


21 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco planeja corte e fusão de secretarias

A reforma que o governador eleito Luciano Zucco fará na estrutura do secretariado segue a lógica da eficiência. Zucco e seus principais conselheiros acreditam que é preciso reduzir o número de secretarias para poder despachar regularmente com todos os secretários. Por isso, a ideia é enxugar o primeiro escalão, reduzindo o número de pastas de 28 para no máximo 20. 

Há pastas que podem perder ou ganhar apêndices e até mudar o nome, mas que são estruturais em qualquer administração: Casa Civil, Casa Militar, Fazenda, Segurança Pública, Educação, Saúde, Agricultura, Obras, Transportes, Meio Ambiente, Defesa Civil, Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento Social. A Procuradoria-Geral do Estado está na conta das 28 secretarias, mas tem vida própria.

Turismo deverá voltar para o Desenvolvimento Econômico. Também deve passar para o Desenvolvimento Econômico o que hoje é tarefa da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia.

Ainda não está definido se a Comunicação terá status de secretaria ou se será uma assessoria ligada ao gabinete do governador. Na transição, chegou-se a discutir a possibilidade de junção do Planejamento com a Fazenda, uma ideia que divide o futuro governo e que não tem sentido em uma gestão que promete colocar em prática "um plano de Estado". O mais provável é manter a atual estrutura.

Novo desenho

A área social será redesenhada e deverá reunir sob este guarda-chuva o trabalho hoje realizado em quatro secretarias - Desenvolvimento Social; Trabalho e Desenvolvimento Profissional; Habitação e Regularização Fundiária; e Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

O Meio Ambiente passará a ter autonomia, e as áreas de energia e saneamento devem ir para a Secretaria de Infraestrutura, à qual caberá cuidar de rodovias, hidrovias, ferrovias e tudo o que envolva logística e mobilidade. Reorganizada no governo de Eduardo Leite, a Secretaria de Obras deve ser mantida como está, com a possibilidade de Zucco convidar a atual secretária, a arquiteta Izabel Matte, para continuar no cargo. Por uma questão simbólica e pela necessidade de mostrar que a prioridade ao combate ao feminicídio é verdadeira, Zucco deve manter a Secretaria da Mulher. _

Governador e sucessor no mesmo helicóptero

Depois de esbanjarem sintonia na abertura da Mercopar, em Caxias do Sul, onde circularam juntos e almoçaram na mesma mesa ontem, o governador Eduardo Leite convidou o sucessor para voltar com ele no helicóptero do Estado. Do alto, Leite mostrou a Luciano Zucco obras e intervenções em andamento no Estado, compartilhando informações sobre projetos e ações do governo.

Na chegada, pelo heliponto do Centro Administrativo Fernando Ferrari, Leite apresentou ao futuro governador a estrutura do 21º andar, incluindo as salas utilizadas no acompanhamento de projetos estratégicos. Leite despacha parte do tempo em uma sala no 21º andar do Caff, com vista para o Guaíba, e parte no Palácio Piratini. O gabinete principal é usado apenas para receber visitas ilustres. O gabinete de trabalho fica na ala residencial.

A visita se soma às reuniões que os dois já vêm realizando no âmbito da transição e, segundo o governador, reforça a disposição de conduzir o processo de forma republicana, com diálogo, transparência e compartilhamento de informações para assegurar uma passagem de governo responsável e organizada. _

Leite anuncia detalhes do acesso ao novo aeroporto da Serra

Mesmo se aproximando do fim do mandato, o governador Eduardo Leite está disposto a honrar com seus compromissos. Um deles é a construção da estrada de acesso ao novo aeroporto de Caxias do Sul, em Vila Oliva, promessa antiga feita à serra gaúcha. Ontem, na abertura da Mercopar, Leite apresentou aos líderes da indústria o estudo de viabilidade técnica da obra, com cronograma e custo de execução.

A RS-466 vai conectar a Rota do Sol à RS-235, perto de Gramado e Canela, no trecho conhecido como Estrada do Juá. Da nova rodovia, haverá uma ligação ao novo aeroporto de 5 km. Serão R$ 288 milhões investidos na obra, que incluirá três pontes.

A próxima etapa é a conclusão do anteprojeto, prevista para até o final do ano. Depois, é preciso fazer o licenciamento ambiental, o projeto executivo e então a licitação. A previsão é de que as obras durem 36 meses.

- Esse é um comprometimento do Estado para o acesso ao aeroporto que será transformador da realidade da região - ressaltou Leite. _

Moro convida Pricilla Santana

A secretária da Fazenda do RS, Pricilla Maria Santana, foi convidada pelo governador eleito do Paraná, Sergio Moro, para ocupar o mesmo cargo no Estado vizinho. Ela é o primeiro nome anunciado por Moro para compor seu governo.

Curiosamente, o primeiro nome conhecido do futuro secretariado do governador eleito Luciano Zucco vem do Paraná. É o atual secretário da Educação, Roni Miranda Vieira. _

Frente do Agro na campanha de Flávio

A Frente Parlamentar da Agropecuária realiza hoje, às 18h30min, no Hotel Deville, Capital, um evento de mobilização para aumentar a votação de Flávio Bolsonaro (PL) no RS. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar, estão à frente da caravana que terá o governador eleito Luciano Zucco no palco. O presidente da Farsul, Domingos Velho, estará presente. _

Advogado sondado para gerir Banrisul

O advogado Sebastian Watenberg, que já integrou a equipe da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e hoje trabalha na iniciativa privada, foi sondado para assumir uma diretoria do Banrisul no governo de Luciano Zucco. Watenberg confirmou o convite à coluna e disse que ainda não deu uma resposta:

- Eu brinco que é maravilhoso e horrível receber um convite desses, porque a gente fica dividido. E o Banrisul é uma joia do Estado. _

A secretária de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul, Danielle Calazans, está no radar da equipe de Flávio Bolsonaro para um cargo na área econômica, se ele for eleito. Funcionária de carreira da Caixa, ela é próxima da coordenadora da área econômica de Flávio, Daniella Marques.

POLÍTICA E PODER

21 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Como as redes sociais estão impactando a eleição

Qual é o peso das redes sociais na disputa? Essa foi a pergunta que se tentou responder dentro do Conversas Cruzadas de segunda-feira.

A internet é um componente de extrema importância para o pleito. Além disso, há grande interferência do sistema Judiciário no processo e nas relações digitais e eleitorais.

Para Francieli Campos, advogada especialista em inteligência artificial, a eleição de 2026 é superlativa em diversos aspectos, principalmente relacionados a processos judiciais.

- Fiz um questionamento à assessoria do TRE- RS após o primeiro turno sobre quais foram os principais processos, porque tínhamos o receio de que a inteligência artificial tivesse alguma influência, o que ficou abaixo do que se esperava. O processo número 1 foi impulsionamento negativo nas redes sociais. 

Temos no Brasil uma hipernormatização das regras eleitorais. Nossa resolução de propaganda tem mais de 120 artigos. No Japão, em Portugal, na Argentina, nos Estados Unidos, vamos ver quatro, cinco, 10 artigos para legislar tudo. Com hipernormatização, colocamos a nossa eleição em uma hiperproblematização, porque tudo vira um problema - afirmou.

Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS, Silvana Krause aponta que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. O processo se globalizou.

- A Justiça brasileira não consegue acompanhar as enormes e rápidas mudanças que observamos nas formas de se fazer campanha. Faço uma crítica também em relação à nossa tradição jurídica, que se sustenta na desconfiança e na resolução a partir do mundo jurídico. Há um excesso de incapacidade dos atores políticos resolverem os conflitos no lugar onde têm que ser resolvidos, nas instituições políticas. Concordo que temos uma hipertrofia e uma imaturidade da classe política de conseguir resolver as suas incapacidades dentro da dimensão política - explicou.

Para Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da Data Privacy Brasil, as redes sociais têm um papel importante na forma como as pessoas se informam:

- Elas constroem as percepções de como as pessoas veem os mundos, os candidatos, suas propostas, as formas como lidam também com o eleitorado. Quando nos perguntamos sobre a responsabilização das plataformas digitais, é importante identificarmos que são empresas, e elas sempre têm o dever da conformidade com o TSE, para que todas essas políticas sejam cumpridas. Enquanto sociedade civil, sempre devemos identificar onde há, de fato, esse "escorrego" das plataformas digitais e, principalmente, qual o dano levado para o público maior.

João Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, lembra que, no Brasil, a utilização das redes sociais é muito mais ampliada do que no restante do mundo, o que pode apresentar o país como um "laboratório" da dinâmica envolvendo política e internet:

- Essa é a grande diferença das redes sociais e do nosso atual Estado em relação às campanhas anteriores. A campanha não começou na data que o TSE disse e não vai terminar quando o resultado for anunciado. Vai continuar. Estamos vivendo um momento em que as campanhas são permanentes e constantes, e os candidatos precisam manter essa atividade acontecendo. Não estamos trabalhando simplesmente com os cortes para ganhar agora essa eleição. Isso vai virar material para seis meses, um, dois anos. Porque o Brasil é um lugar muito intenso no seu uso (das redes sociais). Estamos vivendo um laboratório acelerado do que vai acontecer em outros lugares. Alguns apontam para os EUA como o primeiro lugar, mas o Brasil está vivendo um ambiente de um espelho do futuro. _

Para estimular reflexões sobre a democracia

Democracia se ensina desde cedo. Com esse princípio em mente, o Colégio Santa Inês, de Porto Alegre, aproveitou a semana eleitoral para mobilizar estudantes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental em dois processos para escolher os mascotes literários da escola. Com urna e tudo! A votação começou na segunda-feira e vai até a próxima sexta. Os candidatos são personagens retirados de livros que foram trabalhados com as turmas e devem ser escolhidos pelos estudantes com base nas características de cada um apresentadas nas atividades.

Brasileiras relatam tensão na França

A França vive, desde semana passada, uma onda de intensos protestos por melhores condições para o custo de vida e educação. Em Paris, três brasileiras relatam como o movimento tem afetado a rotina nas universidades e fora delas.

Na Sorbonne Nouvelle, a segunda-feira começou com mais uma assembleia no campus. Sofia Tonial, 23 anos, mestranda em Cinema, acompanha as discussões sobre a continuidade dos bloqueios e a retomada das aulas. A mobilização ganhou força na instituição após uma intervenção policial durante uma assembleia em 5 de outubro. Estudantes e professores denunciaram agressões. Sob pressão, o presidente da universidade, Daniel Mouchard-Zay, anunciou que deixará o cargo em dezembro.

Inspirados na Universidade de Vincennes, criada após Maio de 1968, os alunos organizam cursos livres abertos à comunidade.

- Não queremos parar as aulas, não é o objetivo. Queremos continuar tendo aula, mas que esse conhecimento seja democratizado e que a universidade seja nossa de verdade - explica Sofia.

Na Universidade Paris Nanterre, onde nasceu o movimento estudantil que antecedeu Maio de 1968, a doutoranda Laura Coelho, 25 anos, também acompanha assembleias e atividades organizadas pelos alunos. Ela leciona na graduação e relata cortes de recursos e salas superlotadas.

- Estávamos em uma turma de 40 pessoas, em uma sala que poderia ter 20 - conta.

Com as aulas regulares interrompidas, estudantes de Nanterre organizam atividades de forma autônoma. Segundo Laura, embora os prédios estejam bloqueados, o campus continua ativo.

Outra brasileira que vive em Paris há três anos e pediu para não ser identificada por questões de segurança está há duas semanas sem aulas. Ela apoia os protestos, principalmente os pacíficos que são majoritários no país, mas mesmo assim teme que uma eventual detenção prejudique a renovação de seu visto.

- Eu gostaria muito de ter participado, mas, como sou estrangeira, fiquei com um pouco de medo. Nunca vamos ser franceses, nunca vamos ter os mesmos direitos que uma pessoa daqui - afirma.

A situação dos estrangeiros está entre as reivindicações. Neste ano, a França restringiu o acesso ao auxílio-moradia para parte dos estudantes de fora da União Europeia (UE) e reduziu as possibilidades de isenção das taxas universitárias. 

Colaborou João Vitor Debiasi

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 20 de outubro de 2026


20 de Outubro de 2026
INVESTIMENTOS - Anderson Aires

Estudo indica cidades do RS com potencial para novos empreendimentos imobiliários

Levantamento do Secovi-RS considera fatores econômicos e de desenvolvimento social e ajuda a identificar municípios com características favoráveis em várias regiões. Porém, conversão em obras depende de critérios como infraestrutura e renda, apontam especialistas. 

Em um cenário em que o mercado imobiliário enfrenta gargalos como juros altos, crédito restrito e endividamento da classe média, estudar o comportamento das economias locais ganha ainda mais peso na tomada de decisão do setor. Pesquisa do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) aponta que a atratividade imobiliária está espraiada pelo RS, com destaque para Serra, Região Metropolitana, Sul e Região Central.

O estudo mostra que os municípios de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo ocupam o top 5 em atratividade imobiliária. O estudo do Secovi-RS leva em conta 15 variáveis divididas entre dimensões econômicas, demográficas, educacionais e habitacionais, além do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese). O raio X passa por 496 dos 497 municípios do RS - a Capital ficou de fora por ser alvo de investimentos em todos os padrões.

- Quando há uma região que tem uma organização no sentido de ter a iniciativa privada buscando empreender, atraindo investimentos, que tem um PIB mais relevante, onde a infraestrutura e a gestão pública conversam melhor, isso faz com que algumas regiões despontem nessa questão de desenvolvimento econômico. E a construção civil está intrinsecamente ligada nisso. Esse contexto movimenta uma cadeia - explica o vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê.

O professor da Faculdade de Arquitetura e da pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eber Pires Marzulo destaca que a atratividade imobiliária gaúcha é impulsionada por uma rede de infraestrutura, educação e outros serviços públicos essenciais.

Enquanto a Região Metropolitana e os polos regionais concentram a produção para moradia e investimento alavancada, outras regiões sofrem com o déficit de infraestrutura urbana consolidada e a ausência de grandes centros atratores. _

Capacidade por padrão imobiliário

Um segundo indicador exposto na pesquisa do Secovi-RS é a capacidade e potencial dos municípios de receber empreendimentos por padrão construtivo (baixo, médio ou alto). Nessa análise, leva-se em conta o potencial de investimento de cada município, e a dimensão utilizada para essa classificação são as faixas de rendimento. Por exemplo, são classificados com potencial "forte" os municípios que apresentam resultados mais expressivos proporcionalmente nas faixas de rendimento correspondentes a esse padrão.

Nesse recorte, quando olhamos o segmento de alto padrão, o levantamento coloca no mesmo campo grandes cidades e municípios com número menor de habitantes. Por exemplo, estão no grupo de potencial forte para esse segmento cidades como Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria, mas também Nova Ramada e Ipiranga do Sul.

- O investidor que queira focar em um perfil de imóvel de classe A, de alto padrão, também vai ser mais certeiro quando investir nessas regiões, que é uma coisa que já acontece no âmbito nacional. Então, é a mesma coisa que a gente tem que aplicar no âmbito regional - destaca o vice- presidente de Comercialização do Secovi-RS sobre como esse tipo de dado pode ser usado por empresários da construção civil.

Essa classificação não significa que o município necessariamente receberá imóveis de determinado padrão, mas, sim, que a cidade apresenta características de renda que podem favorecer a existência de público consumidor para esse tipo de imóvel.

O professor da UFRGS Eber Pires Marzulo afirma que, para converter a atratividade urbana em construção de novos empreendimentos, os municípios precisam dispor de uma boa base econômica e de infraestrutura: - Quando o mercado imobiliário chega, ele não tende a ser ponta de lança no sentido de puxar os outros setores. Ele vai atrás do que já tem: é atraído para onde já existe uma economia mais pujante.

No ramo de baixo e médio padrão, são fundamentais a demanda demográfica e o potencial de geração de empregos, além de serviços básicos bem estabelecidos. Já no alto padrão, o perfil muda:

- O alto padrão é um imóvel basicamente voltado para o investimento. Por isso, depende da existência de estoque de terra, legislação urbana e conexões viárias consolidadas com os grandes centros.

Na prática, o levantamento pode ajudar a identificar municípios com características favoráveis ao desenvolvimento imobiliário, mas não garante que novos empreendimentos serão viáveis. A conversão desse potencial em obras, segundo especialistas, depende de fatores como demanda, renda, infraestrutura, disponibilidade de terrenos e regras de ocupação urbana. 

Em um cenário de crédito caro e juro básico estacionado em dois dígitos, esses elementos são decisivos para que a atratividade apontada pelos indicadores se converta em investimentos efetivos. 


20 de Outubro de 2026
NÍLSON SOUZA

As cortinas do espetáculo

Sei que o país está explodindo de tensão política e que os clubes gaúchos agonizam na beira do precipício, mas, até para distrair um pouco meus leitores de pressentimentos apocalípticos, convido-os para uma breve incursão ao país da infância a partir deste episódio que testemunhei recentemente.

Cenário: o menino, a bola e a parede: - Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto.

- Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! - acrescenta com igual agilidade verbal.

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. - Prrriiiii! Retorna para o locutor improvisado: - Penalidade máxima! - grita.

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: - Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

- Isolou! Isolou! - grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo.

- Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair:

- Craque! Esse é craque! - diz para si mesmo. Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora:

- No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego.

- Fim de jogo! - exclama, desapontado. Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: - Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

NÍLSON SOUZA

20 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Incentivo a mais divisão social

O confronto entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite de domingo, na Band, desalenta não apenas pela frustração com o baixíssimo nível do encontro entre os dois candidatos à Presidência da República. Tão desanimador quanto a falta de disposição para uma discussão séria sobre os grandes desafios do país é a constatação de que o tom do embate prenuncia a continuidade da profunda fratura na base da sociedade brasileira.

Na prática, não houve debate, no sentido de confronto de ideias e proposições, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas. Flávio e Lula protagonizaram quase dois monólogos. Quando não estavam se engalfinhando em trocas virulentas de acusações, falavam apenas sobre o que lhes interessava. Flávio abusou da fuga aos questionamentos do adversário e Lula mostrou dificuldade de formular suas argumentações. É possível que tenha sido o debate presidencial televisionado mais deprimente e dominado por baixarias já visto no país.

As performances pareceram pensadas mais para gerar cortes para as redes sociais e elevar a rejeição do oponente do que inspirar esperança. Em vez de tentarem convencer os eleitores de que têm os melhores projetos para desenvolver o Brasil, se esforçaram para tirar votos do antagonista e energizar as suas bolhas virtuais.

Não foi à toa que os telespectadores acompanhados em grupos focais de pesquisas qualitativas durante o encontro demonstraram, de forma predominante, desencanto com os candidatos e o resultado do embate. Vergonhoso, triste e decepcionante foram algumas definições desses eleitores para o debate e o comportamento dos candidatos. Não será surpresa se a consequência for o aumento da apatia e uma ausência maior das urnas no próximo domingo, pelo desencanto justificado de quem não é bolsonarista nem lulista convicto ou então antipetista e antibolsonarista empedernido.

A incapacidade de Flávio e de Lula de oferecer aos eleitores um choque de ideias minimamente civilizado e respeitoso é combustível para dar prosseguimento à polarização radicalizada dos cidadãos comuns que convivem nas ruas, no trabalho e nos ambientes familiares. A preferência dos candidatos por fustigar o adversário, em vez de debater de forma racional, vai se refletir no comportamento da população. O acirramento dos ânimos na reta final da campanha realimenta o estímulo à manutenção da divisão social, à desconsideração da opinião de quem pensa diferente e à cristalização de posturas refratárias ao diálogo. A agressividade do debate reforça a conclusão de que o país sairá da eleição sem perspectivas de conciliação e de convivência pacífica de ideias.

Flávio e Lula têm um novo encontro marcado na sexta-feira à noite, no debate da Rede Globo, antevéspera do dia da eleição. São escassas as perspectivas de um encontro em termos mais elevados. Mas, em respeito ao eleitor, as campanhas bem que fariam se reavaliassem suas estratégias e não prestassem um novo desserviço à relevância dos debates como um dos símbolos da saúde e da vitalidade da democracia brasileira. 


20 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Primeiro confronto entre Lula e Flávio foi vazio de ideias

Foi por um debate desses que esperamos tanto? O nível do confronto a que os brasileiros assistiram na noite deste domingo, na Band, foi um dos mais lamentáveis da história do Brasil.

Frente a frente, Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram um debate cansativo, chato e inútil. É improvável que tenham conseguido alguma troca de voto. No máximo, os dois candidatos conseguiram aumentar o contingente de eleitores dispostos a votar branco ou nulo ou ficar em casa no dia 25 de outubro.

Em vez de propostas factíveis, baseadas na realidade do Brasil, o que preponderou foram os ataques de parte a parte, com um candidato acusando o outro de mentir - e ignorando as perguntas do adversário.

A batalha de rejeições, já verificada no primeiro turno, se intensificou com os dois querendo mostrar que o outro é pior. Lula perdeu tempo demais tentando arrancar de Flávio uma resposta comprometedora sobre sua relação com Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 134 milhões. Flávio, da mesma forma, insistiu em arrancar de Lula uma resposta comprometedora sobre Roberta Luchsinger, a amiga lobista de seu filho Lulinha. 

O presidente disse que Roberta é assunto para a Polícia Federal e Flávio seguiu no assunto como se todos os espectadores tivessem assistido à entrevista de Roberta à CNN na noite de sábado. Quem não assistiu, ficou boiando, mas ele conseguiu desestabilizar o adversário.

Faltou educação, respeito e civilidade

Mesmo nas perguntas da produção, as respostas foram vagas e sem fundamento. Teve momento 5ª série, deboche, cara de mau, tentativa de atrapalhar o concorrente. E o eleitor em casa? Foi tratado como um tolo, em generalizações que desconsideraram o Brasil real.

Flávio atingiu o objetivo de atrapalhar o adversário, caminhando atrás de Lula e fazendo caras e bocas enquanto o presidente falava. Passou uma imagem de arrogante e, ao mesmo tempo, infantil. A plateia contribuiu para piorar o que já estava ruim, fazendo manifestações que obrigaram os mediadores a intervir, pedindo silêncio. Faltou educação, faltou civilidade, faltou respeito. _

Presidente faz bravata com quebra de sigilos bancário e telefônico

A autorização para a quebra do sigilo telefônico e bancário dele e dos cinco filhos, anunciada pelo presidente Lula ao chegar ao Largo dos Açorianos, ontem, é bravata. Um ato meramente político, continuação de uma provocação feita ao adversário Flávio Bolsonaro no debate da Band (domingo à noite).

No confronto, Lula desafiou Flávio a abrir mão dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. Flávio não respondeu se abriria, só riu e disse que Lula "nem tem celular".

Se alguém quer expor seus dados pode pedir extratos aos bancos, à Receita Federal e à companhia telefônica e colocar na internet. A Justiça não quebra sigilos a pedido de uma pessoa que deseja provar honestidade.

Lula trouxe impressa uma cópia da autorização e a entregou ao ex-governador Tarso Genro. Sob aplausos de militantes do PT e do PSOL, Lula atacou o adversário e disse que não admitia ser chamado de corrupto por um miliciano que não consegue explicar como comprou uma casa de R$ 10 milhões, ganhando o mesmo salário dele, o presidente. 

Juliana veste camiseta vermelha na manifestação

Derrotada no primeiro turno da eleição, Juliana Brizola (PDT) chamou atenção ao aparecer no Largo dos Açorianos vestindo uma camiseta vermelha com a foto de Lula. É que na campanha ela evitou a cor vermelha e a associação ao PT, com medo de perder votos.

A estratégia não deu certo. Lula fez 2.294.959 votos no Rio Grande do Sul e Juliana, 1.917.374.

Mesmo que ela tivesse acompanhado a votação do presidente, teria ficado mais de 1 milhão de votos atrás de Luciano Zucco (PL), eleito governador no primeiro turno. Zucco fez 3.516.048 votos.

Ontem, Lula se confundiu e chamou a candidata de Júlia. _

Prefeituras temem rombo de R$ 35 bi

Promulgada na semana passada, a emenda à Constituição que acabou com a escala de trabalho 6x1 e reduziu a jornada semanal para 40 horas preocupa prefeitos. O principal temor é com o fechamento das contas, já que, segundo estudo contratado pela Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas (FNP), o impacto negativo poderá alcançar até R$ 34,7 bilhões no orçamento das cidades.

A estimativa é ainda mais pessimista do que o estudo realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que calcula prejuízo de R$ 6,6 bilhões. Realizado pela Finance Consultoria, o levantamento da FNP obteve resposta de 28 municípios, que representam 16,5% da população brasileira e mais de 22% do PIB nacional. 

Uma baixa na hora decisiva

Responsável pela criação do Exército do Lula, que sacudiu as redes sociais até então dominadas pelos influenciadores do PL, o deputado federal André Janones foi parar na UTI depois do debate na Band.

Janones teve uma arritmia cardíaca grave e foi levado às pressas para o Hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Foi dele a ideia de sugerir aos seguidores que inundassem o Google, buscando termos como "Flávio miliciano". 

PGR dá aval a ação de Mendonça

O ministro Alexandre de Moraes sofreu mais uma derrota ontem na queda de braço com o colega André Mendonça, relator do caso Master.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contra a abertura de uma investigação por abuso de autoridade por parte de André Mendonça.

A representação tinha sido apresentada por Moraes, que pedia para ser julgado junto com o colega. 

POLÍTICA E PODER

Resultados das atuais eleições já projetam sinalizações para o pleito de 2028. Em Caxias do Sul, o fim do ciclo de Adiló Didomenico abre espaço para disputa polarizada. Já o prefeito em Canoas, Airton Souza, deverá tentar reeleição, mas o grupo político poderá rachar, diante do distanciamento do vice, Rodrigo Busato

O que as urnas indicam para as principais prefeituras do Interior

O resultado das eleições em 4 de outubro ensaia o cenário para a disputa das prefeituras em alguns dos maiores municípios do RS além de Porto Alegre. Em Caxias do Sul, Canoas, Pelotas e Santa Maria, parlamentares bem votados e até mesmo quem não obteve êxito nas urnas projetam candidaturas em 2028.

Com 342 mil eleitores, Caxias do Sul é o segundo maior colégio eleitoral gaúcho. O fim do ciclo do prefeito Adiló Didomenico (PSD), que exerce o segundo mandato, abre espaço para uma disputa polarizada na principal cidade da Serra. Mais votado na bancada gaúcha, com 379 mil votos, o deputado federal reeleito Maurício Marcon (PL) desponta como um expoente da direita. Com ele também emerge Maurício Scalco (PL), que perdeu o segundo turno para Adiló em 2024 por apenas 6 mil votos e agora se elegeu deputado estadual também com expressiva votação na cidade.

Outros dois nomes cotados no PL são a vereadora Daiane Mello, forte liderança comunitária do bairro Fátima e eleita para a Assembleia Legislativa, e o deputado estadual reeleito Claudio Branchieri, apontado como favorito para assumir a Secretaria da Fazenda do governo Luciano Zucco.

Na esquerda, a deputada federal Denise Pessôa se consolidou como principal nome do PT ao conquistar o segundo mandato na Câmara, agora como a terceira mais votada do partido, quase metade em Caxias. Em 2024, ela havia ficado de fora do segundo turno por uma diferença de 2,8 mil votos.

Mais tradicional partido local, pelo qual três caxienses se elegeram governadores (Pedro Simon, Germano Rigotto e José Sartori), o MDB não tem um candidato natural. A crise vem desde 2024, quando a sigla não conseguiu eleger nenhum vereador.

No governo, Adiló não tem um candidato natural. O atual vice, Edson Néspolo (UB), e a vice no primeiro mandato, Paula Ioris, que concorreu a suplente de senador na chapa derrotada de Frederico Antunes (PSD), são dois nomes cogitados.

Prestígio do pai

Em Canoas, na Região Metropolitana, o prefeito Airton Souza (PL) está em primeiro mandato e deve tentar a reeleição. Seu grupo político, porém, começa a se dividir. Nos últimos meses, houve um distanciamento do vice, Rodrigo Busato (União).

Filho do deputado federal reeleito e ex-prefeito Luiz Carlos Busato, Rodrigo tem pretensão de apresentar seu nome à sucessão municipal, escorado no prestígio do pai, o segundo mais votado no município para a Câmara dos Deputados, com 10 mil votos. O partido também abriga Eric Douglas, vereador que obteve 23 mil votos para deputado estadual, mais do que o dobro de Busato. Todavia, Douglas esbarra no domínio que a família Busato tem sobre o partido na cidade.

Considerado um dos políticos mais populares de Canoas, o ex- prefeito Jairo Jorge anunciou em julho sua saída da vida pública, abrindo caminho para novos nomes ligados à esquerda. No PT, o vereador Gabriel Constantino, de 26 anos, é aposta de renovação, enquanto a ex-vereadora Maria Eunice, vice de Jairo Jorge na última eleição, perdeu força nas urnas após obter só 3 mil votos no município ao concorrer a deputada estadual. Nomes como Jonas Dalagna (PP) e Alexandre Gonçalves (PDT) correm por fora. _

Os concorrentes em Santa Maria

Em Santa Maria, na Região Central, o atual prefeito Rodrigo Décimo (PSD) é postulante natural à reeleição. Eleito com o apoio do ex-prefeito Jorge Pozzobom (PSD), de quem era vice, Décimo enfrenta desgastes locais, com a tentativa de aprovação de uma reforma da previdência dos servidores municipais.

Agora ele vive sob a sombra de Pozzobom, que é cotado para tentar um novo mandato à frente do Executivo após tentativa frustrada de se eleger deputado estadual. Duas vezes prefeito e secretário do governo Leite, Pozzobom ficou apenas na sétima suplência do PSD, com 22 mil votos, mas 17 mil deles em Santa Maria. No governo, outro nome que desponta é Lúcia Madruga, vice de Décimo e que foi secretária de Educação de 2018 a 2024.

Cogitações

Na direita, Roberta Leitão surge como principal nome do PL. Presidente do partido no município e ex-vereadora, ficou em terceiro lugar na eleição passada à prefeitura. Agora ela tentou uma cadeira na Assembleia legislativa, mas obteve somente 18 mil votos, 14 mil em Santa Maria, e ficou de sexta suplente. Giuseppe Riesgo e Ricardo Jobim, ambos do Novo, também podem concorrer. Riesgo não conseguiu se eleger deputado estadual e Jobim é suplente de Marcel van Hattem no Senado.

Na esquerda, a derrota de Paulo Pimenta ao Senado suscita cogitações de que ele possa concorrer a prefeito, sobretudo se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perder a eleição. Deputado federal mais votado da história do PT, Pimenta fez 60 mil votos na cidade e é o maior nome de seu campo político. Outro expoente do partido é Valdeci Oliveira, duas vezes prefeito e agora eleito deputado federal. Por fora, corre o nome do vereador Sidi Cardoso, segundo suplente do PT à Assembleia Legislativa. _

Disputa entre PT e PL em Pelotas

Ao Sul, em Pelotas, as urnas projetam nova disputa entre o prefeito Fernando Marroni (PT) e o deputado federal eleito Marciano Perondi (PL). Eleito em 2024, Marroni é nome certo à reeleição. Ele governou a cidade entre 2000 e 2004 e exerceu mandatos de deputado federal e estadual antes de voltar ao comando do município.

Na última disputa pela prefeitura, ele venceu Perondi no segundo turno numa das mais acirradas disputas do país. Marroni teve 50,36% dos votos, ante 49,64% de Perondi, uma diferença de 1.236 votos. Sem nomes fortes de centro, a tendência é de que eles voltem a se enfrentar, ainda mais agora que Perondi conquistou 73,9 mil votos para a Câmara, 51,7 mil deles em Pelotas.

Alternativas

Uma alternativa a Perondi seria o deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB), que não conseguiu renovar o mandato. Em 2024, Daniel não seguiu a orientação do PSDB de apoiar Marroni no segundo turno e fez campanha para Perondi.

Na época, ele foi alertado de que poderia estar dando suporte a um candidato que poderia lhe tirar o mandato na eleição seguinte. Abertas as urnas, Daniel colheu 29 mil votos na cidade, uma redução significativa perto dos 43 mil obtidos em 2022. Agora ele deve trocar de partido e já falou em postular uma candidatura a prefeito.

No PSD, a ex-prefeita Paula Mascarenhas também é citada como possível candidata. Ela tentou uma vaga na Assembleia Legislativa, mas ficou na segunda suplência, com 35 mil votos - 24 mil em Pelotas.

Nos bastidores, porém, PT e PSD já começaram as primeiras conversas em torno de uma eventual aliança para enfrentar a direita no município em 2028. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O homem para quem todos os dias são sábado

Uma reflexão sobre aposentadoria, voluntariado e a arte de continuar vivendo. Há uma pergunta que costuma acompanhar quem se aposenta: o que você faz com tanto tempo livre?

A pergunta parece simples, mas carrega uma curiosa suposição. A de que, encerrada a vida profissional, o tempo passa a sobrar. Como se os compromissos, os sonhos, as responsabilidades e a vontade de participar da sociedade estivessem vinculados exclusivamente ao contracheque recebido no final do mês.

Nunca consegui enxergar a aposentadoria dessa maneira. Durante mais de três décadas, minha vida esteve organizada em torno de horários, responsabilidades, reuniões, viagens, decisões e compromissos profissionais. Havia segundas-feiras que começavam antes de o sol nascer e sextas-feiras que terminavam quando o expediente já havia ficado para trás.

Os sábados eram aguardados com aquela sensação de liberdade que somente quem cumpre uma rotina profissional conhece. Eram dias de fazer o que não coubera durante a semana, de encontrar pessoas, resolver assuntos particulares ou simplesmente descansar.

Até que chegou o dia da aposentadoria. E, com ele, uma descoberta: todos os dias poderiam ser sábado. Não porque as responsabilidades tivessem desaparecido, mas porque eu havia conquistado a possibilidade de escolher como ocupar minhas horas.

A liberdade, entretanto, trouxe uma surpresa. Em vez de diminuir, meus compromissos se multiplicaram. Vieram as atividades voluntárias, as avaliações de organizações, as oficinas de gestão, os estudos, as pesquisas, os livros e os artigos. Vieram também novas amizades, reencontros inesperados e oportunidades que jamais estiveram previstas em qualquer planejamento de carreira.

O curioso é que, mesmo sem precisar trabalhar, continuei acordando cedo. E muitas vezes, quando percebo, já passei horas diante do computador, investigando algum assunto que começou com uma pergunta aparentemente simples e terminou abrindo uma dezena de outras. Talvez a curiosidade seja uma das poucas coisas que não deveriam se aposentar.

Nesta segunda-feira de outubro, vivi mais um desses episódios que nos fazem refletir sobre o tempo. Participei de uma entrevista para integrar o voluntariado da Copa do Mundo Feminina de Futebol de 2027, que será realizada no Brasil.

Não era minha primeira experiência dessa natureza. Em 2014, também havia participado como voluntário da Copa do Mundo, atuando em atividades relacionadas à recepção e ao deslocamento de pessoas envolvidas na competição.

Doze anos se passaram. Na entrevista, conduzida por duas pessoas do Rio de Janeiro, éramos onze candidatos. Entre eles, apenas dois de Porto Alegre. E aconteceu algo inesperado. 

O outro participante gaúcho lembrou-se de que, em 2014, havia sido ele quem me entregara os uniformes daquela Copa. Uma lembrança aparentemente pequena, perdida entre milhares de pessoas e acontecimentos, atravessou doze anos para reaparecer numa reunião virtual.

Há reencontros que parecem ter sido organizados pela própria memória. Durante a conversa, os entrevistadores procuraram conhecer nossas motivações, experiências e disponibilidade para o trabalho voluntário.

Foi então que mencionei uma condição muito particular da minha vida atual: tenho disponibilidade de tempo, porque, para mim, todos os dias são sábado. A frase saiu naturalmente. Talvez tenha provocado algum sorriso. Mas traduzia exatamente o que eu desejava expressar.

Não preciso solicitar férias, negociar folgas ou reorganizar compromissos profissionais. Posso dedicar meu tempo a uma atividade que considero interessante e socialmente relevante. Isso não significa que meus dias estejam vazios.

Muito pelo contrário. A agenda de quem se aposenta pode ser surpreendentemente movimentada, especialmente quando ainda existem assuntos a pesquisar, histórias a escrever, pessoas a encontrar e conhecimentos a compartilhar.

Durante a entrevista, soubemos que aproximadamente 160 mil pessoas haviam se inscrito para o voluntariado. Dessas, cerca de 20 mil chegaram à etapa atual. Ao final, serão escolhidas aproximadamente seis mil. Os números impressionam.

Cento e quarenta mil candidatos já ficaram pelo caminho. Outros catorze mil ainda não chegarão à seleção definitiva.  Não sei se estarei entre os escolhidos.

A resposta deverá chegar somente em fevereiro de 2027, quando a organização também pretende confirmar nossas preferências de atuação e a disponibilidade para atividades que poderão começar antes dos jogos.

Naturalmente, gostaria de participar.Mas percebi que a experiência já havia me proporcionado alguma coisa importante: a oportunidade de continuar me apresentando ao mundo, sem considerar que a idade ou a aposentadoria tenham encerrado minhas possibilidades.

Há quem imagine a aposentadoria como uma longa temporada de descanso. E não há nada de errado nisso. Depois de décadas de trabalho, cada pessoa merece escolher seu próprio caminho.

Alguns encontram satisfação nas viagens. Outros, na convivência familiar, na jardinagem, na leitura ou no prazer de não precisar olhar para o relógio. Eu continuo encontrando satisfação em aprender, escrever, pesquisar e participar.

Não por obrigação. Por escolha. Talvez essa seja a grande diferença entre os sábados de antigamente e os sábados de agora. Antes, o sábado representava uma pausa nas obrigações.

Hoje, representa a liberdade de assumir novos compromissos. E há algo profundamente reconfortante em descobrir que ainda podemos ser úteis, que nossas experiências continuam tendo valor e que o futuro, mesmo depois de tantas décadas vividas, permanece capaz de oferecer surpresas.

Não ignoro que o tempo passou. O espelho se encarrega de lembrar, e o calendário não costuma cometer enganos. Mas também aprendi que envelhecer não significa necessariamente perder o interesse pelo que acontece ao nosso redor.

Podemos perder a pressa, sem perder a curiosidade. Podemos abandonar a obrigação de competir, sem abandonar a vontade de participar. Podemos encerrar uma carreira, sem encerrar nossa contribuição à sociedade.

Talvez o segredo esteja em compreender que a vida não termina quando deixamos de cumprir horários impostos pelos outros. Ela pode, inclusive, ganhar novos significados quando passamos a escolher os nossos próprios horários.

E assim sigo, entre pesquisas, livros, artigos, lembranças e novos projetos, aguardando fevereiro para saber se haverá mais uma Copa do Mundo em minha história.

Se vier a convocação, será uma alegria. Se não vier, haverá outros caminhos, outras experiências e, certamente, muitas histórias esperando para ser contadas. Afinal, o que realmente importa não é ter todos os dias livres. É continuar encontrando razões para preenchê-los. E amanhã? Amanhã também será sábado.

Mesmo que o calendário insista em dizer que é terça-feira.


19 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Gente estranha é tão legal

Se eu via alguém excluído na escola, já me tornava amigo. O sofrimento é o cupido das amizades.

Vivia me aproximando dos nerds, dos repetentes, dos novatos, dos retraídos, dos baixinhos, dos altos demais, dos de óculos de fundo de garrafa, dos de aparelho, dos de orelhas de abano, dos de língua presa, dos últimos escolhidos no futebol, dos que gaguejavam, dos que não sabiam dançar, dos que levavam lanche de casa, dos que usavam tênis sem marca, dos que herdavam o uniforme do irmão, dos que não contavam com dinheiro para a excursão, dos que não eram convidados para os aniversários, dos que mergulhavam em livros na biblioteca, dos que se escondiam no recreio.

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver. Pessoas intensas, que não se deixam para depois. Que correm enquanto os outros andam, que voam enquanto os outros correm.

Pessoas que não fazem jogo quando apreciam uma companhia. Que confessam o amor de cara. Que não seduzem: são. Que não esperam a aceitação para confirmar o que sentem. Que não se acomodam naquilo que recebem. Pessoas que experimentam, que se aventuram, que ousam. Que tomam a iniciativa, que recalculam a rota. Que não opinam para agradar, que não mentem por educação. Que assumem as suas decisões pelo tempo que precisarem.

Pessoas sinceras como se fosse uma partida. Pessoas afetivas como se fosse uma chegada. Pessoas temperamentais que não se fixam nas aparências. Que não se diminuem para encaixar. Que não se apequenam para corresponder às expectativas.

Pessoas que são consideradas intransigentes e, paradoxalmente, não temem as dúvidas. Pessoas que despertam ódio, à primeira vista, em muitos que gostariam de ser iguais a elas. Pessoas que parecem fora do normal, mas são as mais humanas: mostram seus defeitos.

Pessoas estranhas que logo se convertem em nossas favoritas. Que nunca largam nossa mão. Que escutam as aflições alheias como um espelho, que acolhem a alegria de alhures como sua.

Pessoas com a valentia da solidão, com a coragem da saudade, com a bravura de suportar a falta e se despedir quando se fecha um ciclo. Pessoas que demoram para acordar, demoram para dormir, tamanha a adrenalina. O corpo deita, a cabeça continua de pé.

Pessoas de verdade, que gargalham com vontade, que bailam com os braços, que amam loucamente, que entregam a alma na hora de falar. Pessoas que enfrentam a tempestade como se estivessem diante de um dia de sol. Que conseguem passear no caos e se posicionar na paz.

Pessoas que não desaparecem na multidão. Que chamam atenção, com o carisma de uma faísca no breu da noite. Que incentivam quando ninguém mais acredita. Pessoas que transformam os que estão ao redor e se transformam junto. Que ensinam para aprender mais.

Pessoas que surgem como uma palavra nova, uma ideia estapafúrdia, um pressentimento bom. Pessoas que nem sempre são compreendidas. E, talvez por isso, sempre serão lembradas. As pessoas mais difíceis de entender são as mais inesquecíveis. 

Eu cultivo predileção por pessoas esquisitas. Autênticas. Que colecionaram dores e, ainda assim, não têm medo de viver

CARPINEJAR

19 de Outubro de 2026
CLAUDIA LAITANO

Mudança de regime

Com mais de 300 mil cópias vendidas apenas na primeira semana, um livro de quase 500 páginas sobre o governo Trump 2 tornou-se um dos maiores fenômenos editoriais deste ano nos Estados Unidos. Lançado em junho, Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump (Mudança de Regime: Por Dentro da Presidência Imperial de Donald Trump) foi escrito por Maggie Haberman e Jonathan Swan, dois jornalistas do The New York Times que tiveram acesso a fontes do círculo mais íntimo do presidente.

Espantoso até para quem não se espanta com mais nada, o livro narra os bastidores do interminável primeiro ano do segundo mandato. Não, não há nada tão rocambolesco quanto a noitada descrita pela revista Piauí na reportagem "Os Vestígios da Noite", que reconstitui a festinha pré-Carnaval que Daniel Vorcaro ofereceu ao ministro Kassio Nunes Marques em 2025, mas não faltam momentos igualmente pornográficos no sentido da exposição sem filtros da miséria moral alheia.

O título do livro guarda um duplo sentido. A expressão "regime change" é usada tradicionalmente para descrever a derrubada de um governo estrangeiro. Os autores subvertem o termo para sugerir que, desde a volta de Trump à Casa Branca, a verdadeira mudança de regime está acontecendo dentro dos Estados Unidos. 

A nova administração desmantelou de tal forma as amarras institucionais, argumentam os jornalistas, os freios democráticos do Congresso e a autonomia de órgãos como o Departamento de Justiça e as agências de inteligência que o sistema de governo se tornou irreconhecível. A democracia da qual os estadunidenses se orgulhavam tanto teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno dos caprichos de um único homem. Um sujeito narcisista, vingativo, inconsequente e que faz questão de viver cercado de lambe-botas.

Quem assistiu ao episódio Pátria Submissa da indispensável série jornalística Revelando (disponível no YouTube desde 16 de outubro) ou viu alguma bandeira com listras e estrelas tremulando nas passeatas de apoio a Flávio Bolsonaro sabe que existe apenas um candidato se voluntariando para o posto de vassalo de Donald Trump no Brasil. 

Não sou eu quem está dizendo. Nem mesmo o Wagner Moura, que apresenta o episódio. Quem diz é o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro. Segundo o general, o único jeito de os Estados Unidos sequestrarem a soberania do Brasil (e de quebra nossas maiores riquezas) é conquistar "apoio incondicional" dentro do governo.

Mas ainda dá tempo de evitar. A democracia teria dado lugar a uma estrutura que orbita em torno de um único homem

CLAUDIA LAITANO

Mais tempo para o Funrigs

Tem justificativas sólidas a solicitação do Palácio Piratini ao governo federal para que o prazo de execução financeira do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) seja prorrogado. O pedido foi levado na quinta-feira pelo governador Eduardo Leite à ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior. O limite legal hoje previsto é outubro de 2027 e a intenção é prolongá-lo para dezembro de 2028, diante da complexidade de algumas obras, fases que precisam ser respeitadas e atrasos decorrentes de intercorrências burocráticas que infelizmente são naturais em projetos públicos. É preciso crer que haverá sensibilidade política e a demanda será atendida.

Fez bem também Leite ao buscar antecipar essa discussão, ainda que esteja a dois meses e meio de passar o bastão. Se existir uma definição rápida, será uma questão a menos para o governador eleito Luciano Zucco (PL) se preocupar. Não há razão também para cogitar que o desfecho dependeria do resultado da eleição presidencial. Ambos os candidatos já se comprometeram com o auxílio para a continuidade do processo de reconstrução do Rio Grande do Sul após a enchente de 2024 e para a preparação para novos eventos climáticos extremos.

O Funrigs, como se sabe, é irrigado com as parcelas que o Estado deixa de repassar da dívida com a União. São planejados R$ 15,3 bilhões em investimentos. Conforme o governo gaúcho, há 79 projetos que ainda não tiveram a execução iniciada. Estão em andamento 139, e 15 já foram concluídos. Nestas duas fases, os desembolsos somam R$ 11 bilhões.

Mas há iniciativas de grande relevância que dependem dessa prorrogação. Um exemplo são os novos radares meteorológicos, essenciais para alertar a tempo a população sobre condições climáticas adversas. São R$ 150 milhões que já estão empenhados, mas o pagamento é condicionado à instalação e à calibragem dos equipamentos e sistemas, o que não é rápido. Projetos de habitações definitivas também são demorados. Há um conjunto de casas em loteamentos em diversos municípios, ao custo de R$ 423 milhões, que corre risco caso a prorrogação não ocorra. 

Existem ainda repasses fundo a fundo, mecanismo em que o Estado apoia iniciativas de municípios, que da mesma forma precisariam de um prazo mais dilatado. São R$ 257 milhões para obras como casas de bombas em Canoas, dique do Laranjal, em Pelotas, e macrodrenagem em Alvorada. Nessa mesma situação, com um orçamento de R$ 27 milhões, estão ginásios multiúso. São para a prática de esportes, mas com infraestrutura para operar como abrigos.

No total, cerca de R$ 1,28 bilhão em projetos ainda dependem, em alguma medida, da ampliação do prazo. Outras obras estruturais, como o sistema anticheias de Eldorado do Sul, que também será concluído apenas após 2030, não serão afetadas, mesmo recebendo R$ 300 milhões do Funrigs. Esses recursos serão aportados antes no Firece e, assim, tecnicamente consideram-se verbas executadas, segundo o Piratini. O Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece) é formado por recursos federais.

Observa-se que há um acervo importante de projetos que dependem dessa postergação. São iniciativas que beneficiarão gaúchos em diversas regiões e são essenciais para a resiliência climática do Rio Grande do Sul.