segunda-feira, 26 de outubro de 2026

26 de Outubro de 2026
EM FOCO - Humberto Trezzi

Lula é reeleito com virada histórica e recorde de votos

Candidato do PT conquista o quarto mandato como presidente do Brasil ao derrotar Flávio Bolsonaro, do PL, no segundo turno. Petista havia perdido o pleito do dia 4 de outubro por 2,2 milhões de votos. Ontem, venceu com vantagem de 4,4 milhões. Amanhã, vai festejar 81 anos de idade

A gangorra eleitoral pendeu para a esquerda, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil. Será a quarta vez que irá comandar os destinos do país - e esta foi a vitória mais espetacular, porque foi de virada. Nunca antes na história brasileira um candidato à Presidência havia perdido o primeiro turno e ganhado no segundo. E foi também a maior votação já obtida em uma eleição presidencial.

As outras eleições de Lula foram em 2002, 2006 e 2022, quando ele estabeleceu o recorde de 60.345.999. O veredito para o quarto mandato foi dado às 21h10min de ontem, surpreendendo grande parte da nação por ter conseguido reverter a derrota ocorrida no primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) somou 56.104.268 votos (47,03%), contra 53.876.617 (45,16%) do petista. No segundo turno, com 100% da apuração concluída, Lula fez 64.256.232 votos (51,79%) contra 59.826.041 votos (48,21%) do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A história de Lula, que amanhã completa 81 anos, se confunde com a do Partido dos Trabalhadores, do qual foi um dos fundadores, na década de 1980. Nordestino que migrou para São Paulo, metalúrgico de profissão, ele surgiu para a política ao liderar as greves operárias no final dos anos 1970, durante o regime militar, quando chegou a ser preso. Foi deputado federal e acabou derrotado três vezes na disputa para a Presidência da República (em 1989, 1994 e 1998), antes de sua primeira vitória.

Lula permanece no cargo após uma eletrizante campanha contra os maiores adversários que a esquerda já teve em tempos democráticos no Brasil: a família Bolsonaro, herdeira da maioria dos votos da direita e admiradora confessa da ditadura que vigorou no país entre 1964 e 1985.

Exceção no mundo

A vitória de Lula contraria uma tendência global de voto contra o governante, o voto anti-incumbente. Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, analisou 21 eleições recentes mundo afora e observou que 17 delas tiveram vitória da oposição. São como plebiscitos que reprovam o gestor. O candidato do PT foi uma exceção nesse panorama.

O oponente de Lula, Flávio Bolsonaro, é mais elegante e menos controverso do que o pai, Jair Bolsonaro, que foi eleito presidente da República em 2018 e hoje está condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A derrota de Flávio dificulta a concretização de uma das suas principais promessas de campanha: encaminhar projeto de anistia para o pai e mais de 1,4 mil outros condenados pelos episódios do 8 de Janeiro de 2023.

O próprio Lula já esteve preso, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Foi em 2018, no auge da Operação Lava-Jato, que apurava desvios de dinheiro na Petrobras e subornos pagos por empreiteiras a políticos. Ele ficou 580 dias numa cela da Polícia Federal. Em 2021, o STF anulou os processos criminais. Lula teve restabelecidos os direitos políticos e venceu a eleição de 2022.

Razões da vitória

Como Lula venceu a eleição? Como governante, ele soube usar o poder dos decretos e nomeações. Entre as medidas de impacto, incluiu o reajuste do piso do Bolsa Família e a antecipação do pagamento do benefício, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a reformulação do programa de renegociação de dívidas (Desenrola) e o início dos trâmites para a distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS.

Do primeiro para o segundo turno, também ocorreu uma multiplicação dos apoiadores do presidente, que tomaram as redes sociais e as ruas das principais metrópoles brasileiras nas vésperas do pleito. A mobilização, que envolveu inclusive ex-eleitores de Jair Bolsonaro, foi fundamental.

Conforme especialistas consultados por Zero Hora, os indecisos (um percentual que variava de 10% a 20% na reta final da campanha) se direcionaram a Lula. E também foram para ele os votos de parte de um contingente de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e quase 6 milhões que não escolheram nenhum dos candidatos no primeiro turno.

A eleição de Lula veio após uma série de desgastes de Flávio Bolsonaro. Ao longo do ano, o STF abriu contra ele uma investigação por possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção na produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. 

O filme teve a maior parte do financiamento bancada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso por corrupção e crime organizado. Ele teria enviado R$ 62,9 milhões para a produção. A suspeita da Polícia Federal é de que parte do dinheiro tenha ajudado a sustentar bolsonaristas hoje refugiados no Exterior, como o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e ex-policial federal, cassado por faltar ao serviço.

Lula venceu apesar da intensa campanha que enfrentou pelo fato de seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, responder a três investigações da PF. As apurações miram o suposto tráfico de influência de Lulinha e corrupção em prol de empresas junto ao governo federal. Outro contratempo importante foi a descoberta de que o magistrado responsável pela condenação dos implicados na tentativa de golpe de 2023, Alexandre de Moraes, tem telhado de vidro. 

Ele é suspeito de fazer tráfico de influência, porque sua esposa atuou como contratada no Banco Master, pertencente a Daniel Vorcaro. A advogada teria firmado contrato de R$ 131 milhões para defender causas do banqueiro, e os bolsonaristas acusam Moraes de atuar em prol de Vorcaro no STF. Lula não tem nada a ver diretamente com o caso, mas Moraes é visto como algoz do bolsonarismo e aliado do presidente.

- Insinuações sobre corrupção não parecem comover o eleitor. As acusações pesam apenas para apoiadores. Cada um crê no seu candidato e acha que o outro é culpado. Dificilmente muda voto, pois em geral as acusações não são novas - pondera Rodrigo Gonzalez, professor de pós-graduação do Departamento de Ciência Política da UFRGS.

Desafio no Congresso

O maior desafio de Lula será governar com minoria no Congresso. Contará com apoio garantido de apenas 130 deputados federais (num universo de 513) e 15 senadores (dentre 81). Entre os 27 governadores eleitos, pode ter de cinco a oito aliados. Por outro lado, a vitória abre possibilidade para que o petista mantenha ministros no STF mais simpáticos à sua linha ideológica.

E o perdedor aceitará a derrota? Ontem à noite, Flávio Bolsonaro disse que vai pedir a anulação da eleição devido à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender até as 19h de ontem a votação, em resposta a pedidos do PT e do PL por causa de problemas no transporte público (leia mais na página 14).

O filósofo e cientista político do Insper Fernando Schüler lembra que as alegações de fraudes nas urnas e outros assuntos que mobilizaram o eleitor em 2022 estão fora da pauta agora:

- Pode ajudar o fato de Flávio Bolsonaro parecer mais moderado do que o pai dele. O que se espera é que os candidatos respeitem as liturgias republicanas, voltem a ser educados com os adversários. Que o perdedor aceite e que o ganhador se dirija a todos os brasileiros, não apenas à metade que o elegeu. Que a transição seja tranquila, enfim.

Rodrigo González também não acredita em badernaço:

- Podem ocorrer protestos, mas creio que menores, pois os militares deixaram claro que não vão embarcar em aventura. Com as condenações do 8 de janeiro, haverá um cálculo de risco que atua contra mobilizações massivas.

Gaudêncio Torquato, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e consultor de política, diz que sempre há uma plateia interessada em briga, e parte dos apoiadores cobra agressividade como prova de fidelidade. O dirigente que pondera pode ser acusado de fraco. Aquele que reconhece um acerto do outro lado corre o risco de parecer traidor.

- Forma-se um círculo de exigências recíprocas: o político oferece hostilidade, os seguidores a recompensam, e a próxima cena precisa subir o tom. A conta desse espetáculo de horrores chega depois. A eleição termina, mas permanecem as filas, a insegurança, o orçamento apertado e a escola que não ensina o suficiente. O governante descobre que os problemas não obedecem às palavras de ordem. Administrar exige escolhas, negociação e capacidade de execução. O bordão que inflamou o comício não informa de onde virá o dinheiro nem o prazo da entrega - ressalta.

Torquato diz que recuperar o plano das ideias exige perguntas concretas:

- Quanto custa a proposta? Quem será atendido primeiro? Qual receita a sustentará? Que resultado poderá ser cobrado? O vencedor precisa explicar consequências e limites. A clareza é uma obrigação de quem pede poder, não um favor concedido ao eleitor. 

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