
Musk
Elon Musk vale quatro horas do meu tempo? Fui assistir ao filme do premiado documentarista Alex Gibney sem ter muita certeza de que seria uma boa ideia. Afinal, um documentário chato de duas horas pode ser uma roubada, mas um documentário chato de 3h52min (seis minutos a menos do que ? E o Vento Levou) é uma sessão de tortura com ar-condicionado e poltronas reclináveis. Passou voando.
A grande pergunta do filme é aquela que muita gente já se fez algum dia: como o primeiro trilionário do mundo conquistou tanto poder e ganhou tanto dinheiro em tão pouco tempo? O filme não oferece uma única resposta, mas dá várias pistas. Musk nasceu rico, construiu uma reputação de gênio em Silicon Valley, comprou e vendeu empresas - e ganhou uma fortuna prometendo maravilhas tecnológicas que nunca seria capaz de entregar. Colou.
Em 2016, no lançamento do primeiro modelo comercial de um carro elétrico da Tesla, Musk ainda parecia um cara mais ou menos normal, vendendo seu peixe no mercado das ideias sensatas, mesmo que de olho nos próprios interesses: "É muito importante acelerar a transição para o transporte sustentável para o futuro do mundo".
Ao longo da última década, Musk trocou a preocupação com o futuro do mundo pelas promessas de colonização de Marte. Durante a pandemia, abraçou o negacionismo e se radicalizou, tornando-se uma espécie de garoto-propaganda da extrema direita mundial (o apoio a Bolsonaro é mencionado no filme). Dono de empresas que controlam o acesso à internet, coordenam operações militares e desenvolvem projetos de inteligência artificial, Musk adquiriu um grau de influência na economia e na política globais que tem poucos paralelos na história.
O documentário de Alex Gibney abarca diferentes gêneros cinematográficos, o que talvez justifique a metragem excepcional. O avatar de Elon Musk criado por IA para substituir o personagem real, que recusou os pedidos de entrevista, lembra um vilão da Marvel, do tipo que dá gargalhadas malignas e promete conquistar o mundo - apenas para vê-lo explodir enquanto foge para Marte com seus 14 filhos. (Mas a destruição de agências humanitárias durante o período em que o empresário fez parte do governo Trump matou crianças de verdade, como mostra o filme.)
A forma como Musk enriqueceu e tornou-se mais poderoso do que líderes eleitos soa como um conto moral sobre nossa relação disfuncional com as big techs e o capitalismo. Já sua radicalização política, seu esforço para influir na política interna de outros países (inclusive o Brasil) e no desfecho de uma guerra é um filme de terror que continua assombrando os espectadores muito depois de eles saírem do cinema. _
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