quinta-feira, 29 de outubro de 2026

28 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Fuga de Flávio gera nova crise

A sucessão de sobressaltos na política brasileira ganhou um novo capítulo nesta terça-feira, com a decisão do senador Flávio Bolsonaro (PL) de deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos, junto com a mulher e as duas filhas. Ainda há muito a ser explicado quanto às circunstâncias da viagem e às alegações do candidato derrotado na disputa à Presidência para abandonar o país menos de 48 horas depois de ser batido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O caso cria uma nova crise, no momento em que as energias deveriam estar canalizadas para o enfrentamento dos desafios reais do país.

Um dia antes, o senador havia se dirigido aos seus apoiadores, assegurando que lideraria a oposição. Disse que não desistiria do Brasil e garantiu nunca ter pensado em fugir. A coragem política que afirmava possuir não era verdadeira ou durou poucas horas. Mesmo derrotado, o senador obteve 59,8 milhões de votos. Tinha capital político suficiente para permanecer à frente do campo oposicionista, ainda que, a partir do próximo ano, sem mandato.

O senador já demonstrou não possuir as melhores credenciais democráticas no domingo, ao se negar a aceitar o resultado legítimo das urnas. A fuga empreendida nesta terça-feira, surpreendendo correligionários, permite concluir que, para o senador, o receio justificado ou não de uma eventual condenação ou prisão pelos casos nos quais é investigado se sobrepunha ao papel de líder de um grupo político expressivo. Deveria permanecer no Brasil para se defender de forma altiva.

É preciso dizer, porém, que pareciam frágeis as justificativas da Polícia Federal (PF) para pedir a apreensão do passaporte do senador e a proibição de que deixasse o país. A solicitação foi feita minutos após a definição do pleito. Pelo que se sabe, a PF embasou o pedido na declaração do irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, de que Flávio deveria abandonar o Brasil caso fosse derrotado, pois seria alvo de perseguição. Considerou ainda a existência de uma rede de apoio nos EUA, inclusive financeira, que poderia recebê-lo. Ainda no domingo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes atendeu ao pedido da PF, decisão que caiu como uma luva para a versão de que Flávio seria vítima de caçada judicial.

Seria necessário a PF esclarecer se havia outras informações que dessem base mais sólida à medida, como a descoberta de um plano de fuga pronto para ser executado. E se esse planejamento teria como objetivo fazer com que Flávio escapasse dos inquéritos nos quais é investigado no STF por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Os casos se referem ao filme Dark Horse, que recebeu recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e a uma sociedade mal explicada com o advogado e amigo Willer Tomaz.

As suspeitas que recaem sobre Flávio são sérias, mas a decisão de Moraes parece ter sido precipitada e gerado uma tensão desnecessária. O ministro é o inimigo número 1 do bolsonarismo. Além disso, até agora não explicou as relações obscuras com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o que coloca em xeque as suas condições morais de permanecer na Corte. São elementos que ajudam a sustentar a versão de que Flávio seria alvo de perseguição. O resultado é que a crise política no país ganhou novo fôlego e as desavenças entre os governos do Brasil e dos EUA tendem a se agravar. _

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