quarta-feira, 2 de setembro de 2026

02 de Setembro de 2026
MÁRIO CORSO

"A Indústria do Sono"

A insônia, esse mal silencioso que corrói a saúde física e mental, tornou-se um dos grandes negócios do século 21. A "Indústria do Sono" cresce vendendo a promessa de noites tranquilas em forma de colchões tecnológicos, aplicativos de meditação e diversas pílulas. Mas, como aponta o psicanalista Darian Leader em Why Can?t We Sleep?, o problema talvez não esteja no seu travesseiro, mas no mundo que o mantém acordado.

Ao andar por qualquer avenida, é impossível ignorar a profusão de lojas de colchões. Elas se multiplicam como farmácias e, não por acaso, vendem uma ideia semelhante: a de que o seu sofrimento é solucionável por um produto. Você não dorme mal porque está ansioso, sobrecarregado ou vivendo numa sociedade que exige produtividade constante, você dorme mal porque ainda não comprou o colchão certo.

Leader nos lembra que o mau sono é pintado como um assassino silencioso. Está associado a doenças cardíacas, obesidade, depressão e demência. Essa medicalização do sono cumpre uma função precisa: transformar um sintoma social em um problema individual. Se você não dorme, a culpa é sua, da sua falta de disciplina, da sua higiene do sono falha. Nunca da jornada de trabalho extenuante, da luz azul dos dispositivos que nos mantêm conectados ao trabalho 24 horas por dia, ou da ansiedade generalizada de viver numa economia instável.

Antes da revolução industrial, o tempo era algo que passava, um rio no qual se navegava. Hoje, o tempo é algo que se gasta, um recurso que se esgota. Cada minuto acordado à noite é vivido como falha. Não sabemos mais o que fazer com a vigília noturna, exceto temê-la. O silêncio da madrugada antes era um convite à reflexão. Tornou-se um vazio a ser preenchido com telas, rolagens infinitas e a culpa de não estar dormindo.

O sono não é um problema individual, é um sintoma social. Enquanto vivermos numa sociedade que glorifica a produtividade até a exaustão, que apaga as fronteiras entre trabalho e descanso, que monetiza cada hora do dia e que mede o valor humano pela sua utilidade, a insônia continuará sendo a epidemia silenciosa que ninguém pode curar, porque curá-la exigiria questionar as estruturas que nos mantêm acordados. 

MÁRIO CORSO

02 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Investigar Moraes é obrigação

Chegou a hora de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ser pela primeira vez formalmente investigado no exercício do cargo. As novas revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, são de extrema gravidade. Tornam obrigatório que se apurem as suspeitas de interferência do ministro para frear as investigações sobre as fraudes do banco e o cerco a Vorcaro, hoje preso. 

Mensagens extraídas do celular do banqueiro divulgadas ontem dão margem à conclusão de que Moraes informava o dono do Master sobre a preparação da Operação Compliance Zero. A situação do ministro se complica com a descoberta de que ele editou o contrato de R$ 130 milhões do banco com sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.

São indícios alarmantes demais para serem relativizados ou esquecidos com o passar do tempo. Integrantes do Supremo só podem ser investigados com a autorização do plenário. O corporativismo seria desmoralizador. A seriedade do momento exige que a Corte se mostre leal em primeiro lugar ao princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, base da ordem jurídica e da democracia. A Constituição prevê o rito. 

Que se cumpra, sob pena da definitiva perda da confiança da sociedade no STF, instituição que deve ser esteio da República. E investigar, deve-se ressaltar, não significa condenação prévia. Prevê ampla defesa, o que aliás Moraes poderia fazer com maior dignidade afastando-se do cargo.

São estarrecedoras as mensagens em que Vorcaro pede para o magistrado intervir junto ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em outro momento dos diálogos, pergunta a Moraes se ele "acha que segunda já tenho que estar fora?", referindo-se à data em que acabou preso pela primeira vez, a noite de 17 de novembro de 2025, em Guarulhos, quando estava prestes a tomar um voo para Dubai, possivelmente em fuga.

Moraes e Vorcaro trocavam mensagens de visualização única, passadas após capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular. Assim, os investigadores recuperaram apenas o que foi enviado pelo banqueiro. O estratagema é indício de que a conversa continha imoralidades, se não crimes, como advocacia administrativa por parte de Moraes. O ministro deve essa explicação aos brasileiros.

Gonet e Rodrigues, da mesma forma, precisam se manifestar e esclarecer se receberam algum pedido de Moraes e, em caso de resposta positiva, como procederam. Gonet também teria a prerrogativa e até o dever de pedir a abertura de inquérito, mas as citações a ele no material coletado pela PF na investigação sob relatoria do ministro André Mendonça tornam a sua situação no caso confusa. Ontem à noite, Gonet pediu a nulidade do relatório da PF.

O turbilhão de informações surgido nesta terça-feira forma mais um capítulo revelador da teia de influências e de favorecimentos que Vorcaro teceu para se proteger, enquanto perpetrava a maior fraude financeira da história do país. Soube-se também ontem, por reportagem da revista Piauí, que o banqueiro fez ao menos mais um repasse, até então desconhecido, de US$ 1,6 milhão para o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro é investigado no caso. O escândalo do Master atinge figurões de todos os poderes e matizes ideológicas. É preciso passar a limpo a conduta de todos os envolvidos, sem seletividade, e não admitir que essa abrangência ecumênica contribua para um acordão pela impunidade. 

02 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Fim da linha para Alexandre de Moraes no Supremo

Já não é mais uma questão de pedido de licença. O ministro Alexandre de Moraes perdeu as condições para continuar no Supremo Tribunal Federal. Só a renúncia evitará que seja submetido a um processo de impeachment no Senado, fazendo sangrar a instituição que integra desde 2017, quando foi indicado pelo então presidente Michel Temer para substituir o saudoso Teori Zavascki. Xandão chegou ao fim da linha, e nem a proteção dos senadores amigos pode salvá-lo da desonra.

A avalanche produzida pela derrubada do sigilo do inquérito do Banco Master pôs a nu a natureza das relações do ministro com o banqueiro falido e ampliou as proporções do escândalo que abala a Suprema Corte desde que Dias Toffoli tentou barrar as investigações.

Das mensagens extraídas dos celulares de Vorcaro, fica subentendido que Moraes atuou como consultor de um bandido que lesou o Fundo Garantidor de Crédito e pessoas físicas e jurídicas que puseram suas economias no Master. Se estava sendo pago ou agiu por amizade, a investigação que inevitavelmente o STF terá de autorizar vai dizer.

São consistentes os indícios de que era o ministro o verdadeiro contratado por Vorcaro por R$ 131 milhões e não sua esposa, Viviane Barci de Moraes, que responde pelo escritório da família. Foi do computador dele que saiu a última versão da minuta encaminhada a Vorcaro para ser assinada pelo banqueiro e por Viviane.

A justificativa do escritório, de que foi uma medida corriqueira, para que o ministro avaliasse eventual conflito de interesse, não cola. Como não haver conflito de interesse na contratação da esposa do ministro por um banco privado que se relaciona com entes públicos?

O contrato, desde que revelado pela jornalista Malu Gaspar, sempre despertou suspeitas de que havia boi na linha. Não era preço de serviços advocatícios de uma advogada sem currículo para tantos milhões. Advogados experientes diziam que o valor milionário no contrato só era compatível com serviços de consultoria.

Eis a palavra mágica. As mensagens resgatadas pela Polícia Federal sugerem que Moraes era consultor de Vorcaro. E que foi consultado sobre a conveniência de o banqueiro fugir antes de ser preso. Se isso não é obstrução de Justiça, o que seria? Está claro que Vorcaro tinha informantes infiltrados em diferentes instituições e sabia previamente do que pesava contra ele. Foi preso no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para fugir.

Não se sabe que tipo de conselho o banqueiro recebeu de Moraes, pois suas respostas aos apelos e consultas foram dadas em mensagens de visualização única, que vão pelos ares depois de lidas. Como as câmeras corporais usadas por policiais, as mensagens poderiam livrar Moraes das suspeitas - ou incriminá-lo. Sem elas, fica a dúvida. E mesmo que o Direito consagre a expressão in dubio pro reo, um ministro do Supremo não pode seguir no cargo com uma suspeita tão grave nas costas.

O mesmo Xandão que ganhou admiradores pela firmeza com que conduziu o processo dos acusados pela tentativa de golpe em 2022 produziu uma crise institucional sem precedentes. O Supremo, que está com 10 ministros desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, poderá ficar com nove nos próximos dias - ou menos, se a crise arrastar outro colega para o lodo. 

Na Expointer, Augusto Cury fala sobre crescimento nas pesquisas

O candidato do Avante à Presidência da República, Augusto Cury, visitou ontem a Expointer, em Esteio. Afirmou que os produtores enfrentam dificuldades financeiras e criticou a falta de conhecimento de parte da classe política sobre a realidade do campo.

A visita ocorreu um dia após duas pesquisas apontarem seu crescimento na disputa. No BTG/Nexus, ele chegou a 11% das intenções de voto, alta de nove pontos, e ficou em terceiro lugar, atrás de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na AtlasIntel, passou de 1,6% para 7,8%. Cury atribui a alta a um cansaço do eleitorado com a polarização. 

Toffoli libera campanha digital de Renan Santos à Presidência

O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revogou ontem a decisão de suspender a campanha digital de Renan Santos, candidato a presidente da República pelo Missão. Em nova decisão, ele liberou a realização de propaganda eleitoral da chapa em endereços eletrônicos e redes sociais que já estejam registradas na Justiça Eleitoral.

Toffoli também liberou repasses de recursos do fundo eleitoral para a candidatura e a realização de gastos com os eventuais recursos já repassados. Renan também poderá participar de debates. Por fim, Toffoli concedeu prazo adicional de 72 horas para que o candidato informe a data de criação de cada perfil e de início de utilização deles para fins de propaganda eleitoral. _

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) faz hoje a primeira visita ao RS da campanha. Vai à Expointer, em Esteio, almoça com lideranças do agro, faz fotos com candidatos e segue para comício no Parcão, na Capital

POLÍTICA E PODER

02 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Os desempenhos da agropecuária e da indústria extrativa contribuíram para o resultado positivo, informou ontem o IBGE. Os investimentos e o consumo do governo também avançaram. Por outro lado, o consumo das famílias teve recuo, impactado pela taxa básica de juro em patamar elevado e pelo endividamento das empresas e das pessoas físicas

PIB do Brasil desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre

O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, frente ao período imediatamente anterior. O resultado, que corresponde a R$ 3,4 trilhões, foi divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado representa uma desaceleração em relação ao primeiro trimestre, quando havia subido 1,1%. No acumulado de quatro trimestres, o PIB nacional teve expansão de 1,9%.

O crescimento no segundo trimestre foi puxado pelo setor da agropecuária, seguido de serviços e indústria. Ao mesmo tempo, também chamou a atenção o recuo no consumo das famílias. De acordo com a agência de classificação de risco Austin Rating, o Brasil teve o quinto melhor desempenho no segundo trimestre dentro de um ranking de crescimento considerando as informações de 50 países.

- O crescimento da agropecuária foi o principal destaque do trimestre. Os serviços e a indústria também cresceram, mas em ritmo mais moderado - afirmou o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes.

Impacto da Selic

O principal motivo da desaceleração da economia brasileira é o patamar elevado da taxa básica de juros (Selic) - atualmente em 14% ao ano - por um longo período. Os juros altos, além de afetarem o investimento das companhias e encarecerem o consumo das famílias, têm levado a um endividamento das empresas e das pessoas físicas.

O PIB pode ser calculado pela ótica da produção (análise do desempenho das atividades econômicas) ou do consumo (gastos e investimentos). Pela ótica da produção, a agropecuária foi destaque, com variação positiva de 2,8% na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Em 12 meses, a alta chega a 6,2%.

A indústria variou positivamente 0,1% do primeiro para o segundo trimestre e 1,4% em 12 meses. Dentro da indústria, o principal motor foi a indústria extrativa, que saltou 3,4% entre os trimestres seguidos.

Variação nos serviços

O setor de serviços, que mais emprega na economia, cresceu 0,2% entre os trimestres seguidos e 1,7% no acumulado de 12 meses.

Detalhando os dados do setor, os segmentos de serviços que mais cresceram foram informação e comunicação (2,1%), transporte, armazenagem e correio (1,1%) e atividades imobiliárias (0,2%). O comércio ficou estável, ou seja, variação nula (0%).

Houve variação negativa no segmento administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (-0,4%) e em atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (-0,3%).

Pela ótica da demanda, o consumo do governo subiu 0,4%, enquanto o das famílias recuou (-0,4%). No setor externo, as exportações caíram (-0,8%), e as importações subiram 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2026. A formação bruta de capital fixo, indicador que representa os investimentos, cresceu 1,2% no trimestre.

O PIB é o conjunto de todos os bens e serviços produzidos em uma localidade em determinado período. Com o dado, é possível traçar o comportamento da economia do país, Estado ou cidade, assim como fazer comparações internacionais. O PIB ajuda a compreender a realidade de um país, mas não expressa fatores como distribuição de renda e condição de vida. É possível, por exemplo, um país ter PIB alto e padrão de vida relativamente baixo, assim como pode haver nação com PIB baixo e altíssima qualidade de vida. _

Os dados

Principais índices do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2026 em relação ao primeiro trimestre deste ano

Agropecuária +2,8%

Serviços +0,2%

Indústria +0,1%

Consumo do governo +0,4%

Consumo das famílias -0,4%

Investimentos +1,2%

Exportações -0,8%

Importações +1,8%

Evolução do PIB nos últimos trimestres em relação ao período imediatamente anterior

1º trim./2024 0,7%

2º trim. 1,7%

3º trim. 0,9%

4º trim. 0,1%

1º trim./2025 1,3%

2º trim. 0,4%

3º trim. 0,1%

4º trim. 0,2%

1º trim./2026 1,1%

2º trim. 0,5%

Fonte: IBGE

Emater estima safra de verão maior no RS - Caroline Souza

A produção gaúcha de grãos deve chegar a 35,6 milhões de toneladas na safra de verão 2026/2027, conforme estimativa da Emater apresentada ontem, durante a 49ª Expointer, em Esteio. O volume representa alta de 8,6% em relação ao ciclo anterior, quando foram colhidas 32,8 milhões de toneladas.

A soja, principal cultura da agricultura gaúcha, deve responder por 21,15 milhões de toneladas da produção, o que representaria alta de 15,3% em relação à safra passada, quando foram colhidas 18,34 milhões de toneladas. A recuperação ocorre mesmo com redução de 0,9% na área plantada, que deve passar de 6,7 milhões para 6,65 milhões de hectares.

No conjunto das quatro principais culturas consideradas pela Emater (soja, milho, arroz e feijão 1ª safra), a área plantada deve permanecer praticamente estável, com redução de 0,37%, de 8,46 milhões para 8,43 milhões de hectares. A expectativa de aumento da produção, portanto, está relacionada principalmente à perspectiva de melhores resultados por hectare.

O milho aparece como outro destaque positivo. A área plantada deve chegar a 896,4 mil hectares, alta de 7,4% em relação aos 834,4 mil hectares do ciclo anterior. A produção projetada é de 6,91 milhões de toneladas, crescimento de 7,2%.

No arroz, por outro lado, a Emater projeta redução tanto na área quanto na produção. O cultivo deve ocupar 861,8 mil hectares, queda de 3,4%, enquanto a colheita estimada é de 7,53 milhões de toneladas, 5,5% abaixo do ciclo anterior. A primeira safra de feijão também deve ter redução na área plantada, de 6,4%, para 24,6 mil hectares. Mesmo assim, a produção deve crescer 1,2%, para 43,2 mil toneladas.

Segundo Mateus Soares da Rocha, diretor técnico da Emater/RS e superintendente técnico da Ascar, a projeção atual reflete um ciclo positivo.

- Estamos entrando numa terceira safra favorável, o que é muito positivo para o caminho da autossuficiência do Rio Grande do Sul. Na soja, temos diminuição de área, mas aumento de produtividade. O cenário do El Niño nos preocupa, mas traz a vantagem da disponibilidade hídrica. Apesar disso, ele nos traz a necessidade de pensarmos no manejo de solo e de água na propriedade. Ter um solo adequado e preparado é essencial para qualquer cultura - avaliou Rocha. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

01 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Uma trilha sonora diferente.

Quem se forma conta com o direito de escolher uma música de sua preferência, que ocupará o fundo sonoro para a entrega do capelo e do diploma e para os cumprimentos da Reitoria.

A melodia e a letra ocupam o lugar do discurso e dos ideais; produzem o efeito contagiante de transmitir uma mensagem, de realizar um protesto, de marcar a noite com um grito de insubordinação ou de ovação.

Vale tudo: hinos de clubes, gospel, samba, rock, MPB, pagode. É aquilo que faz a cabeça do universitário que dedicou anos ao estudo de uma área, embalando a gravação de seu ponto de partida profissional.

Unicamente os oradores se pronunciam pela turma no microfone. Então, cada um se expressa pelo seu hit favorito. Uma formanda da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 8/8, inovou na escolha da trilha para o instante em que seu nome fosse anunciado na colação de grau.

Não sei como ninguém pensou nisso, mas Manoela, 23 anos, natural de Tupanciretã, alcançou um insight da mais pura sensibilidade e gratidão. Com seu gesto, mudou a tradição para sempre.

Em vez de optar por uma canção famosa, reuniu áudios de WhatsApp de seus familiares. As palavras cotidianas, cheias de sotaque e do calor do cuidado, ditas espontaneamente e enviadas no dia a dia, ilustraram a jornada de Manoela para receber o canudo de Zootecnia.

"Mimosa do vovô" "Coisa mais linda" "O coração não cabe no peito" O timbre não deixa de ser a mais íntima fotografia, porque devolve a presença: contém respiração, humor, carinho.

Transformou a rotina mais banal no acervo de sua conquista. Há quem acelere as conversas em 1,5x ou 2x; a jovem imortalizou-as na lentidão inesquecível da saudade, contemplando a retaguarda do vestibular, das avaliações, do cansaço, do medo de reprovação, do estágio, das contas, das viagens diárias, das madrugadas sem dormir.

Na seleta, reuniu seis vozes de seu repertório de apoio. A montagem começa com sua mãe e, em seguida, traz as falas do pai, das avós, do avô paterno e do irmão.

Um dos trechos mais marcantes e pessoais é da avó Fátima: "vem dormir uma noite aqui para coçar tuas costas". - Desde a minha infância, ela coça as minhas costas. É o nosso código de visita. Tenho um apego a esse ato de proteção - explica Manoela.

As palmas e os assobios da plateia foram substituídos pelo silêncio da comoção. Lágrimas selaram os rostos, pois o que era para ser um momento exclusivo de uma só aluna serviu para todos.

Antes de uma profissão, Manoela já tinha uma torcida. Ela não subiu sozinha ao palco. Levou consigo os apelos que a ajudaram a chegar até ali: os degraus da sua motivação. Incluiu implicitamente, no seu documento afetivo, as caronas, os telefonemas, o dinheirinho para os livros, a comida pronta, o incentivo, as preocupações, o "como foi a prova?", o "vai dar certo".

Nenhum artista seria capaz de traduzir melhor quem ela é do que aqueles que a chamam pelo apelido.

Ela aplaudiu a família sem esperar pelo próprio aplauso. Por fim, encontrou um jeito de diplomar a família inteira junto. Ao atingir seu destino, reverenciou sua origem. Nossas raízes são nossas asas. _

CARPINEJAR

 

01 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Açodamento eleitoreiro

O esforço concentrado do Congresso nesta semana, com uma série de sessões e votações sobre temas relevantes e de interesse do governo, prevê para amanhã a apreciação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Ávido pelos ganhos eleitorais prometidos pela pauta, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pressiona para que o texto seja votado ainda nesta semana pelo plenário da Casa. A matéria foi aprovada em maio pela Câmara. O relator no Senado, Omar Aziz (PSD-AM), manteve o mesmo conteúdo e rejeitou emendas para evitar a possibilidade de a PEC ter de ser reanalisada pelos deputados federais.

Apesar do propósito meritório, a redução da jornada de trabalho, da forma como está indicada na PEC, pode ter um impacto significativo na economia e na saúde de empresas intensivas em mão de obra. Trata-se de um tema que, pelas repercussões na competitividade e na sustentabilidade financeira das companhias, deveria ser discutido com mais cautela, com base em evidências, amplo diálogo com todas as partes interessadas e análise aprofundada das peculiaridades setoriais.

O que está proposto é que, no calor eleitoral, o Senado, a Casa revisora da República, apenas carimbe o texto aprovado na Câmara. O açodamento avilta o processo legislativo e impede uma discussão responsável, imprescindível para uma matéria de tamanha importância. O racional seria retomar o debate após o pleito de outubro, evitando-se a tendência natural do período de aprovar bondades sem medir as consequências.

A PEC propõe reduzir a carga horária máxima de trabalho semanal de 44 para 40 horas, sem redução de salário. Também garante dois dias de repouso remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos. O período de transição previsto é de 14 meses, considerado curto por diversos setores.

É fundada a reivindicação de trabalhadores por mais tempo para a convivência com a família, para o lazer e para a qualificação, com reflexos na qualidade de vida e na aquisição de conhecimento e competências. O perigo está em apressar esse passo, ignorando-se as condições necessárias para ser uma mudança sustentável. No Brasil, o custo de empregar está entre os mais elevados do mundo e a produtividade do trabalho não cresce de forma aceitável há décadas, ao contrário de outros países onde as jornadas foram reduzidas. A discussão sobre uma menor carga laboral deveria ser acompanhada pela busca por formas de reduzir encargos e de elevar a produtividade.

O risco, portanto, é o de um grande número de empresas não conseguir absorver esses custos. Uma saída será repassar gastos adicionais com mão de obra ao consumidor, provocando inflação. Não se descarta também o aumento da informalidade como reflexo. Outras empresas - e as vagas que geram - poderão ficar inviabilizadas pela pressão extra, em meio a um ambiente de alto endividamento e de sufoco provocado pelo juro extorsivo, cenário que já tem levado a uma onda de recuperações judiciais. O momento exigiria maior responsabilidade e contenção do ímpeto eleitoreiro. 

OPINIÃO RBS


01 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Como se explica a ascensão de Cury

Com a ressalva de que pesquisas precisam ser analisadas com cautela, especialmente neste ano em que novas formas de coleta de dados estão sendo usadas, é preciso reconhecer que há uma novidade no cenário eleitoral. É a ascensão do médico, escritor e palestrante Augusto Cury, do minúsculo Avante, um partido de escassa capilaridade no Brasil. Divulgadas ontem, as pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus mostram que Cury produziu um pequeno furo na bolha da polarização.

Antes de AtlasIntel e BTG/Nexus detectarem o crescimento de Cury nas intenções de voto, seu nome começou a aparecer em diferentes bolhas da internet - de empresários a jovens que se perguntavam "quem é esse cara do qual está todo mundo falando?". Todo mundo é um exagero, naturalmente, mas na semana passada Cury foi quem mais ganhou seguidores no Instagram, atrás apenas do perfil da cantora country Dolly Parton, que morreu no dia 25 de agosto.

O que dizem as pesquisas? A do BTG/Nexus coloca Cury com 11% das intenções de voto, salto de nove pontos em relação ao levantamento anterior. Na mesma sondagem, o presidente Lula caiu de 41% para 39% (dentro da margem de erro) e Flávio Bolsonaro perdeu quatro pontos (de 37% para 33%). Ronaldo Caiado (PSD) se manteve nos 5%, assim como Renan Santos (Missão) em 3%. Romeu Zema caiu de 3% para 1% e o resto ficou abaixo de 1%.

Na AtlasIntel, Lula tem 43,4%, Flávio, 33,7%, e Cury subiu para o terceiro lugar com 7,8%, empatado com Renan (7,6%). Caiado e Zema ficaram para trás.

Como explicar a ascensão de Cury? Não dá para atribuir à entrevista ao Jornal Nacional, feita na noite de sábado, quando a maioria das entrevistas já tinha sido feita. Mais provável que quedas de Lula e Flávio tenham relação com a entrevista.

A audiência do debate da Band (baixa) também é insuficiente para explicar o salto, se ele realmente ocorreu. A hipótese mais provável é subjetiva: parte dos brasileiros incomodados com a polarização entre Lula e Flávio encontrou um outsider para chamar de seu.

Mestre na autoajuda

Cury vive da palavra. É mestre na autoajuda. Natural, portanto, que consiga encantar plateias desencantadas com a política, mesmo que suas propostas sejam superficiais e, em alguns casos, flertem com a fantasia, como se viu no Jornal Nacional.

Falta pouco mais de um mês para a eleição. Lula e Flávio vão continuar se atacando - e o presidente sendo atacado por todos. As duas campanhas terão de encontrar uma estratégia para lidar com Cury, levando em conta a tradição de uma parte significativa do eleitorado brasileiro de votar no improvável, desde que diga o que ele quer ouvir. Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. _

Compromisso firmado com agendas ligadas às mulheres

No último dia de agosto, mês usado para conscientização e combate da violência doméstica, um trio de mulheres firmou 15 compromissos com os candidatos Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD). Valéria Leopoldino, primeira-dama de Porto Alegre e uma das coordenadoras da campanha, Talise Tiecher e Alessandra Polo - esposas de Gabriel e Polo - comandaram o ato ontem, no comitê central da campanha.

Junto de representantes das 59 candidatas da coligação, sendo 30 que concorrem a deputada estadual e 29 a federal, as mulheres apresentaram um documento que sintetiza ações voltadas ao eleitorado feminino em diversos setores.

O texto, assinado por todas elas, reforça medidas que integram o plano de governo da chapa, ligadas ao mercado de trabalho, qualificação profissional, independência econômica, saúde, proteção e acolhimento às vítimas de violência doméstica.

O movimento é uma tentativa de aproximar a chapa majoritária emedebista das mulheres, já que não inclui mulheres concorrendo. A ideia é fazer com que as candidatas a deputada divulguem as propostas do plano de governo de Gabriel para combate aos feminicídios e proteção das mulheres, além de incentivar as candidaturas femininas. _

Teste de popularidade

A visita de Augusto Cury à Expointer, em Esteio, hoje, será um teste de popularidade para quem deu um salto nas pesquisas. Cury chegou a anunciar que iria à Expointer ontem, mas acabou mudando a agenda e limitando as atividades do dia a um comício em Cachoeirinha, cidade administrada pelo Avante. Cury chega ao parque Assis Brasil pouco depois das 10h. 

Dono de várias fazendas, o candidato vai disputar a simpatia dos produtores gaúchos com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que tem agenda confirmada para o dia seguinte. _

Prevenção ao feminicídio

Há um Espaço Lilás no Pavilhão da Agricultura Familiar da Expointer. Mais do que uma área física, é um espaço de reflexão sobre violência de gênero e orientação para as mulheres se prevenirem de relacionamentos abusivos. A iniciativa é da Secretaria da Mulher, em trabalho conjunto com a Emater e a Secretaria de Desenvolvimento Rural. Todos os dias, a partir das 10h, começa uma roda de conversa sobre prevenção e enfrentamento da violência de gênero. Com duração de uma hora e meia, os encontros abertos a quem quiser participar têm formato participativo, com dinâmicas de grupo, reflexão coletiva e orientação sobre a rede de proteção. _

Marjorie assume cargo no Sebrae-RS

Com o voto das 14 entidades que participaram da reunião do conselho, ontem, pelo Sistema Fecomércio-RS, a engenheira florestal Marjorie Kauffmann foi eleita por unanimidade nova diretora superintendente do Sebrae-RS, cargo que ocupará até meados de 2027. Ela completará o mandato de Joel Vieira Dadda e, depois, passará por nova eleição para continuar. Marjorie deixou a Secretaria do Meio Ambiente na semana passada. 

POLÍTICA E PODER

01 de Setembro de 2026
EM FOCO

Em foco

Rio Grande do Sul é o quinto com mais reclamações no país no período de 15 dias de campanha oficial. Até agora, foram 640. Nesse ritmo, volume poderá igualar quantidade constatada no pleito de 2022. Tipo de infração mais comum é nas vias públicas, seguida de abuso na internet

De olho na propaganda eleitoral irregular

Humberto Trezzi

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. Ao longo dessas duas semanas, a Justiça Eleitoral já recebeu 640 queixas de propaganda irregular no Rio Grande do Sul. Ao ritmo atual, o volume de suspeitas apontadas pode igualar o de 2022, último pleito de alcance federal, quando foram registradas 3.053 denúncias nos dois meses anteriores à eleição. O levantamento é do aplicativo Pardal.

Trata-se da ferramenta de recebimento de denúncias desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O canal foi criado para ações rápidas que façam cessar a irregularidade, explica o coordenador de assessoramento eleitoral do Ministério Público do Rio Grande do Sul, promotor de Justiça Rodrigo López Zilio.

- A ideia é que a denúncia parta do cidadão comum, para que o juiz tome uma medida de caráter administrativo, fazendo cessar a ilegalidade. Ela não tem contraditório, apenas manda parar o ilícito - explica Zilio.

A punição mais comum é a retirada imediata da propaganda. Existe um outro tipo de denúncia, menos frequente e mais elaborada, que se chama representação. É uma ação (geralmente, impetrada pelo MP), com direito a contraditório e ampla defesa, ajuizada e que pode resultar em multa de R$ 5 mil a R$ 25 mil. Em casos graves e de reiteração, pode levar à cassação do registro do candidato ou do eleito (se já diplomado).

Inteligência artificial

A legislação proíbe propagandas em bens públicos e de uso comum (inclusive parques e jardins), em outdoors e por meio de amplificadores de som nas proximidades de tribunais, quartéis, hospitais, entre outros locais públicos. O uso de inteligência artificial na internet deve ser mencionado pelo político.

As 640 queixas ocorreram em 80 municípios gaúchos. Mais da metade delas, 387, por propaganda ilegal em vias públicas. A seguir vêm irregularidades na internet (45), em bens públicos (41) e outdoors ilegais, inclusive eletrônicos (39). Os carros de som continuam perturbando e somam 31 relatos até agora.

O desembargador Luciano Losekan, presidente da Comissão de Combate à Desinformação do TRE-RS, saúda a chegada do sistema Pardal.

Ele lembra que todos os cidadãos têm um computador em mãos, que é o celular. Até por isso, foi montado um aplicativo que permite gravação de voz e envio de fotos para as autoridades.

- O que mais nos preocupa nas queixas é a questão das deepfakes (montagens pela internet) e o uso de inteligência artificial sem mencionar essa ferramenta (o que é exigido por lei). Felizmente, ainda não é a irregularidade mais comum, que continua sendo a das propagandas em vias públicas e outdoors - afirma Losekan.

Por cargos

A maioria das denúncias, 260, se refere a propagandas para deputado estadual. Outras 233, para deputado federal. As demais, distribuídas entre senador, governador e partidos, com apenas quatro referentes a candidatos a presidente da República.

Os municípios que registram mais queixas até o momento são Porto Alegre (204), Passo Fundo (30) e Pelotas (30). Tanto o promotor Zilio como o desembargador Losekan acreditam que o uso do aplicativo Pardal pode estar mais popularizado, o que facilita o aumento no número de queixas apresentadas.

No Brasil, foram registradas até a manhã de ontem 8.706 denúncias de irregularidades. O RS é o quinto colocado no ranking dos Estados com mais queixas protocoladas - embora seja o sexto em população. Perde em registros de suspeitas eleitorais para São Paulo (1.650), Bahia (1.067), Pernambuco (698) e Minas Gerais (661). _

Acordo para combater as manipulações digitais

Paulo Rocha

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) e o Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4) firmaram na sexta-feira acordo de cooperação voltado ao combate à manipulação digital nas eleições. A parceria, já editada em pleitos anteriores, possibilita que peritos do TRT4 façam exames especializados em processos eleitorais que envolvam ilícitos digitais.

Entre as apurações que poderão ser feitas, estão a verificação de adulteração de fotos, vídeos, áudios e documentos, a identificação de conteúdo gerado ou alterado por inteligência artificial (IA) e a análise de deepfakes e clonagem de voz.

- Recentemente, 200 servidores da Justiça Eleitoral participaram de um curso com o nosso setor de perícia digital porque, no período de eleições, se utiliza muito as redes sociais e há possibilidade das deepfakes. Esse ensinamento vai permitir que se possa verificar dentro dos processos que correm na Justiça Eleitoral se houve o cometimento de um ilícito ou não - destaca o desembargador Alexandre Corrêa da Cruz, presidente do TRT4.

Pelo acordo, os peritos do TRT4 farão apenas análise técnica, sem poder de decisão sobre questões eleitorais e de fiscalização de redes sociais. Os juízes eleitorais seguirão responsáveis pelos processos e decisões finais.

Recente levantamento do Tribunal Superior do Trabalho revelou que cinco Estados concentram o maior volume de ações de assédio eleitoral no trabalho. O estudo se debruçou sobre 738 processos ajuizados entre maio de 2023 e dezembro de 2025. São Paulo lidera, com cerca de 17,5% das ações. Em seguida vêm Paraná (14,6%) e Rio Grande do Sul (10,5%). Para o TRE-RS, o avanço de casos é motivo de preocupação.

- Até mesmo em função da facilidade da mídia, de meios de comunicação como o WhatsApp, esse tipo de ameaça é cada vez mais comum, mas esperamos que isso ocorra o mínimo possível - afirma a desembargadora Maria de Lourdes Galvão Braccini de Gonzalez, presidente do TRE-RS.