quinta-feira, 29 de outubro de 2026

29 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

O melhor dos comentaristas

O jornalista Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, ícone da RBS, morreu na madrugada de ontem, aos 70 anos, em Porto Alegre, na capital em que nasceu. Ele estava internado desde domingo no Instituto de Cardiologia, devido a uma infecção pulmonar.

Partiu antes de os galos cantarem. Antes de seus fãs acordarem. Antes de o mundo conseguir protestar. Como se acostumar com sua ausência? Como suportar seu microfone calado no programa Sala de Redação, sua cadeira vazia, o silêncio no ar?

Que abstinência é essa, para a qual nunca nos preparamos e que nunca acreditamos que aconteceria?

Ficaremos ainda esperando seus comentários durante a transmissão dos jogos, sua coluna no digital, feita no calor da hora, expressando nossa esperança ou nossa raiva com o clube do coração?

Dependíamos de sua opinião para formar a nossa. Seremos agora menos informados. Não virá mais sua risadinha sarcástica depois de uma frase de efeito, não virão suas sentenças que cortavam nossos suspiros.

Parece que foi embora um parente, de intimidade conquistada dia a dia: um hábito dos gaúchos, certo e irreversível como o chimarrão.

Guerrinha se despede sem sósias, sem clones, sem substitutos. É a orfandade da dor. Não haverá mais um exemplar humano como ele: intenso, irresistível, mundano, divertido, apaixonado por turfe e por uma prosa inteligente.

Até seus defeitos se convertiam em virtudes, pois o aproximavam dos ouvintes. Ele não se isolava em redomas. Se estava mal, confessava: "Estou numa fase de beber a água da salsicha".

Colorados o amavam, gremistas o adoravam. Ele pairava acima da rivalidade, mesmo com a torcida declarada para o Inter. Não recebeu nenhum processo. Não precisou se justificar num banco de réus, uma proeza diante da longevidade pública e de sua língua ferina.

Transformou-se em nosso meme favorito no fim das rodadas, nosso coringa para as gargalhadas. GIFs com suas poses circulavam no WhatsApp, nossas figurinhas prediletas nos grupos de futebol para começar um assunto ou terminá-lo.

O adeus é no auge da festa, justamente quando celebrava sete décadas de vida e cinco de carreira com a publicação de seu primeiro livro, por tantas vezes adiado: As Mortas do Guerrinha (BesouroBox), uma seleta com mais de 250 aforismos. O lançamento virou testamento.

Ele não vai realizar seu sonho de dar autógrafos na Feira do Livro - sua sessão estava marcada para a tarde de 7 de novembro. Teria sido a fila mais concorrida de todos os tempos na Praça da Alfândega.

Não sei se ele era um comunicador, um poeta ou um filósofo. Talvez muito dos três. Suas pérolas integram o repertório popular: "Não se pode ir à guerra com escova de dentes", "Restaurante com ventilador no teto não serve farofa", "Se beleza fosse crime, eu seria inocente".

Com ele, entendemos que um time motivado é capaz de perder, que um técnico gosta de mudar a escalação quando está ganhando.

Enquanto a maioria refletia o cotidiano com suas ideias, ele encarava os fatos e olhava com os olhos, não com hipóteses. Enquanto os outros se confundiam na abstração dos próprios devaneios, ele tinha a vantagem de enxergar a realidade nua e crua. Dizia a verdade, doesse a quem mentia. Não encolhia os ombros. Não permanecia no muro.

Filho de peixe, do locutor Adroaldo Guerra, Guerrinha se tornou um oceano de histórias. Deixa a esposa Kathia, as filhas Michelle e Karine, seus três netos e o Rio Grande inteiro de luto.

Jamais descansará em paz. Vamos viver falando dele. 

CARPINEJAR

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