sábado, 10 de outubro de 2026

10 de Outubro de 2026
COM A PALAVRA

João Bosco - Cantor e compositor

"Vejo um dinamismo na música popular brasileira"

No mesmo ano em que entrou na faculdade de Engenharia, João Bosco conheceu Vinicius de Moraes, responsável por abrir caminhos no mundo da música a um então promissor compositor de Ponte Nova, Minas Gerais. Embora tenha levado os estudos adiante, a carreira de engenheiro não foi longe: dois dias depois de colar grau, em 1973, Bosco entrou em estúdio para gravar o primeiro disco. 

Agora, aos 80 anos, celebra em turnê e álbum batizado de Amigos Novos e Antigos uma trajetória que ajudou a moldar a identidade cultural brasileira. O artista traz o show à Capital no dia 15, no Teatro do Bourbon Country. Os ingressos estão à venda pela plataforma Uhuu.

O seu álbum novo, como diz o título, tem convidados que são parceiros de longa data, como Zeca Pagodinho e César Camargo Mariano, e artistas bem jovens. Como foi a escolha?

A ideia era fazer um álbum que pudesse se chamar Amigos Novos e Antigos, que é o título de uma música minha e de Aldir Blanc e que fala muito sobre amizade. Os primeiros versos dizem: "As frases e as manhãs são espontâneas/ Levantam do escuro e ninguém pode evitar". A escolha desses amigos tem essa espontaneidade também. À medida que a gente ia pensando sobre o álbum, eles iam se perfilando.

Os amigos novos eu não conhecia, quem foi me mostrando foi a produtora, Júlia Bosco, e eu fui me inteirando do trabalho de cada um. E eles mesmos foram escolhendo as canções.

Você é de uma geração que moldou a identidade musical do Brasil. Essa época é muitas vezes vista como inalcançável e há uma impressão de que a música brasileira perdeu potência e qualidade. Como você vê isso?

Vejo um dinamismo na música popular brasileira. Por exemplo, a faixa-título do disco eu gravei com o Mestrinho, que tocou acordeon maravilhosamente e é um músico extremamente criativo. E quem interpretou a canção comigo foi a cantora Bruna Black, que tem uma extensão e um conhecimento vocal surpreendentes. Ela tem um timbre e um alcance de voz quase de cantora lírica. O Jota.Pê também, em Jade tem uma frase que ele altera a melodia original e faz do jeito dele, e o resultado é simplesmente belíssimo.

Para quem conhece sua trajetória, soa curioso saber que você estudou Engenharia. Você vislumbrava nessa época uma vida que não fosse voltada à música?

Não. Fui estudar em Ouro Preto porque nasci em Ponte Nova, que é muito próximo, mas a música já era algo que eu exercitava diariamente. Passei 11 anos em Ouro Preto, que é uma cidade muito artística e me inspirava. Em 1967, ano em que eu entrei na faculdade de Engenharia, conheci o Vinicius de Moraes, que voltava lá todos os anos. E o Vinicius ouvia as minhas canções e me dizia: "Continue aqui, porque faz bem à sua música".

No verão de 1970, conheci o Aldir Blanc, que estudava Medicina no Rio. Nessa época, isso era muito comum. O Vinicius era diplomata, o Chico Buarque estudou Arquitetura. A universidade era um ambiente de muita informação, criatividade e cultura. E eu fui ficando em Ouro Preto porque conheci várias pessoas através do Vinicius.

Colei grau no dia 8 de março, vim para o Rio, eu e a Ângela (Mucci Bosco, esposa do artista) nos casamos no dia 9, e no dia 10 fomos para São Paulo, onde eu fui gravar meu primeiro disco.

Nessa mesma época havia outro grande acontecimento musical se formando em Minas Gerais, mas em Belo Horizonte, que era o Clube da Esquina. Você teve contato com eles?

Tive, sim. Sou muito amigo do Nelson Ângelo, que é um dos compositores do Clube da Esquina, porque ele tinha parentes em Ouro Preto. E foi ele quem me apresentou o Milton Nascimento, por volta de 1968, e fiquei amigo dele também. Às vezes eu ia para Belo Horizonte no final de semana, encontrava o Nelson e íamos visitar pessoas que estavam tocando na noite, como o próprio Milton. No intervalo ficávamos conversando, e assim foi com a maioria dos compositores do Clube da Esquina.

Mas embora eu conhecesse eles e a música que estavam fazendo, o que eu fazia ia por outro caminho, mais de negritude, mais ligado ao Moacir Santos, ao Baden Powell, ao Dave Brubeck Quartet. O Clube da Esquina estava mais ligado à música que se fazia na Inglaterra, e quando eu ouvi o disco deles fiquei deslumbrado.

É muito visível nas canções dessa época que vocês tinham uma preocupação em refletir sobre a formação do Brasil e suas contradições. A canção Nação é um grande exemplo disso. Isso era consciente, ainda mais considerando o momento que o país vivia?

Naturalmente, era uma preocupação nossa e a gente fazia as canções com essas ideias na cabeça. Mas tinha coisas que eram conscientes e coisas que eram naturais. Tanto que, assim como tinha o Nação, tinha o Siri Recheado e o Cacete, que era uma crônica, mas também muito brasileira. Tem uma canção que eu fiz com Aldir chamada Me Dá a Penúltima, em que falamos sobre colocar no mesmo barco realidade e poesia. E acho que isso é a síntese, as canções falavam da realidade, mas poeticamente.

E não te angustia ver que canções que tratam sobre mazelas do Brasil - como Ronco da Cuíca, De Frente pro Crime, Tiro de Misericórdia, Rancho da Goiabada - seguem atuais?

Você tem toda a razão. Essas canções tratam de violência e, na época, algumas pessoas achavam que havia exagero da nossa parte, mas o tempo demonstrou que não. Vivemos em um mundo muito cruel e violento.

Você chegou aos 80 anos muito ativo. A idade pesa? Parar está no seu horizonte?

Ainda não penso em parar, não. Mas a questão física realmente existe. Você deixa de fazer aquela caminhada que gostava no calçadão, do Leblon até o Arpoador, às vezes até duas vezes ao dia. Eu faço aquele mínimo possível, pra poder continuar tocando. Mas acho que o desejo de fazer música é maior do que essas dificuldades. É mais trabalhoso, mas eu continuo com esse empenho de procurar uma música que ainda faça jus a esse desejo. 

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