
21 de Outubro de 2026
MÁRIO CORSO
O clima não vota
É de se esperar que pessoas com mais alfabetização científica e numeracia (raciocínio matemático) percebam melhor os riscos das mudanças climáticas. Dan Kahan e colegas (2012) testaram isso na Nature Climate Change, com uma amostra representativa de adultos nos EUA, submetida a testes de aptidão científica e a questionários sobre visões de mundo e risco climático.
A questão dos pesquisadores era: o esclarecimento conseguiria fazer com que as pessoas ultrapassassem sua visão tribal em política? Os resultados contrariaram o esperado. A tribo política prevaleceu: a identidade cultural foi um marcador muito mais forte das crenças sobre o clima do que a habilidade cognitiva. As pessoas usavam seu raciocínio para reforçar os compromissos do seu grupo, e não para buscar uma verdade imparcial.??
Como em tantos outros temas políticos, o voto expressa, antes de tudo, pertencimento. Triste conclusão para uma espécie que autodenominou-se Homo sapiens: a razão vem depois dos afetos, e o nome nos lisonjeia ao ignorar nossa mente passional e tribal.
O aquecimento global, porém, pouco se importa com a nossa opinião. Enchente não pergunta em quem você votou. O Rio Grande do Sul já provou o lado amargo de uma natureza desequilibrada: não me refiro somente às enchentes de 2023 e 2024, mas também às estiagens de 2005, 2020, 2022, 2023 e 2025 que causaram perdas bilionárias na agropecuária e emergência hídrica em várias cidades. Nem a eleição estadual nem a nacional, que se define no próximo fim de semana, trataram do tema com a seriedade necessária.
O que mais o nosso estado precisa sofrer para acordar para a emergência climática que vive? Vale perguntar a quem pede nosso voto o que pretende fazer com a prevenção de cheias, criação de novos reservatórios para ampliar a capacidade de abastecimento e a transição energética. Pouco importa a que tribo o candidato pertence. Importa tratar o clima como problema de governo.
Quando tenho dúvida em quem votar, minha bússola é o que for melhor para o planeta. Muita coisa se contorna, se refaz, se conserta. O estrago ecológico, em boa parte, não. O clima não vota, mas você pode votar contra o negacionismo climático.
Nenhum comentário:
Postar um comentário