sábado, 10 de outubro de 2026


09/10/2026 - 14h58min
Martha Medeiros

O dia que o Brasil rachou

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável. 

Irmandade era aquilo. Lula disputava com Collor, com Brizola, com Fernando Henrique, com José Serra, perdia, ganhava, e o povo sempre esperando mais, equilibrando-se entre dias melhores e dias piores, a política decepcionando como era praxe. Mas ninguém jurava o outro de morte e todos gostavam de Chico Buarque.

Até que amanheceu o 17 de abril de 2016, e durante a transmissão do julgamento do impeachment da Dilma, um deputado até então desconhecido fez uma homenagem a um torturador, e não a qualquer um, e sim àquele que supliciou a presidente, que foi obrigada a escutar essa afronta presencialmente. Ali foi cruzada uma linha civilizatória.

Fosse um deputado com algum verniz, teria pedido desculpas no dia seguinte, alegado um excesso verbal no calor da hora, afinal, já tinha cumprido seu objetivo, ganhara os holofotes e as manchetes, não era mais um desconhecido. Em vez disso, ele fez de suas blasfêmias o símbolo de uma nova era e recebeu o apoio da metade da população, que logo o elegeria para o cargo máximo do Executivo.

Os analistas políticos acharam por bem divulgar a rachadura como sendo entre a esquerda e a direita, assim ficava mais fácil escrever editoriais e cada eleitor reconheceria o seu lado. Uma leviandade. A questão era – e é – mais profunda e mais incômoda. Tem nada a ver com economia em um canto do ringue, pautas sociais no outro. Tudo isso pode coexistir. 

O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável, a tal linha civilizatória que nos separa da barbárie. Ao rompê-la, destranca-se a porta que conduz ao caos. Deixa de existir acordo de cavalheiros, compostura básica, respeito constitucional. A nação fica fraturada e refém de bandidos.

A tortura é a falência da condição humana. Já lemos livros a respeito, vimos cenas no cinema, escutamos os depoimentos das vítimas, e o horror embrulha o estômago: só o que se quer é fugir do assunto.

No rol dos crimes hediondos, matar fica em segundo lugar. Provocar dor física dilacerante em outro ser humano, sem chance de defesa, é um ato animalesco que difere a besta do homem.

Eu seria louca se achasse que metade dos brasileiros relativiza a tortura. É óbvio que não. Mas somos seres psicológicos, manipuláveis, levados a sublimar. A ver coragem onde há covardia. A ver heroísmo onde há vileza.

Naquele fatídico dia, parte do Brasil fez uma opção funesta – fingir que aquilo não estava acontecendo dentro do Congresso Nacional. E assim chegamos ao hoje, em que fazemos de conta que estamos passando apenas por uma trivial briga de torcidas. Somos todos, essencialmente, pessoas boas. Porém, alguns tão “bons” que preferiram, diante daquele perigoso precedente, ignorar o que viram.

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