10 de Outubro de 2026
PAULO GERMANO
Maldita mídia
Há uma estupenda vantagem em perder uma eleição por culpa da imprensa: você não precisa aprender nada. Seu candidato continua ótimo. Suas ideias, corretíssimas. Sua leitura de país, impecável. Porque a explicação para o fracasso repousa numa força maior: jornalistas sem escrúpulos manipularam a frágil cabeça dos brasileiros.
É o que ocorre agora, segundo a esquerda, com a ascensão eleitoral de Flávio Bolsonaro. Foi o que ocorreu em 2022, segundo a direita, com a eleição de Lula. Dois campos que divergem até sobre a tabuada encontram aqui um terreno compartilhado: quando as urnas desobedecem, e velha mídia vira ré de novo.
Ou seja, o eleitor é sábio quando concorda comigo. Quando não concorda, alguém o enganou. Defendemos apaixonadamente a soberania popular, mas retiramos do povo a soberania intelectual assim que ela contraria a nossa. Aliás, é curioso que o enganado seja sempre o outro, jamais eu. A sociologia da comunicação chama isso de efeito de terceira pessoa.
Em resumo, o sujeito enxerga em si próprio um bastião da lucidez: "Eu sou crítico, sei ler as entrelinhas, estou vacinado contra a influência do mal". E enxerga no outro - sobre o qual sabe muito pouco - apenas um voto ridículo. Como não reconhece inteligência naquela escolha, seu impulso é procurar algum agente externo para explicá-la. Ou seja: o voto dele tem razões; o do outro tem explicações. Ele votou porque ponderou. O outro votou porque a midialixo induziu.
É uma bela ressurreição, por sinal. Passamos anos enterrando a imprensa - esse dinossauro tantas vezes tachado de obsoleto e decadente. Aí o nosso candidato começa a despencar e o defunto levanta do caixão para hipnotizar milhões de eleitores. Não é difícil de entender: no emaranhado de vozes que hoje disputam nossa atenção, a mídia tradicional é uma das poucas que ainda tem nome, rosto e endereço. Um culpado fácil, portanto.
Também não estou reivindicando inocência plena. A imprensa com frequência derrapa no tom, compra versões oficiais, distorce manchetes atrás de cliques, confunde vigilância com ativismo, enxerga o país pela bolha da redação. É cheia de vícios e vaidades - e tem poder suficiente para produzir estragos. Mas achar que uma conspiração midiática elege um presidente, no ecossistema de hoje, diz muito menos sobre o jornalismo do que sobre o pavor de se olhar no espelho.
Porque a derrota impõe uma pergunta: como é possível milhões de pessoas terem visto o que eu vi e concluído outra coisa? Posso tentar entendê-las. Ou constatar que alguém pensou por elas. A segunda hipótese, claro, me dispensa de considerar um cenário realmente perturbador: talvez ninguém tenha sido enganado.

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