Especialistas avaliam como o governo pode acalmar o mercado
Entre as opções para diminuir a volatilidade dos ativos estão o anúncio da equipe econômica para o próximo mandato de Lula e a apresentação de um plano de reformas das contas públicas. Mas escolhas não podem ser feitas pensando só em medidas de austeridade, apontam analistas
Após a forte turbulência provocada pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado financeiro apresenta sinais de recuperação, mas ainda longe de reverter as perdas do dia anterior. Na segunda-feira, o dólar subiu 8,21%, para R$ 5,403, enquanto a bolsa caiu 13,88%. Ontem, o dólar fechou com queda de 0,97%, a R$ 5,350. E o Ibovespa, principal indicador da B3, encerrou em queda de 0,51%, a 175.705 pontos.
O desempenho dos ativos ocorre em meio a sinais divergentes de Brasília. Ontem, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo discutirá com representantes do mercado financeiro e do setor privado medidas de ajuste para favorecer o cumprimento da meta fiscal. Já o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse que o ajuste fiscal não é prioridade até o fim do ano.
Especialistas afirmam que maior clareza sobre a composição da equipe econômica e o plano de reequilíbrio fiscal para os próximos anos pode ajudar a acalmar o mercado e reduzir a volatilidade dos ativos.
Uma das principais medidas de curto prazo apontadas é o anúncio da equipe econômica do próximo mandato, especialmente do nome que comandará o Ministério da Fazenda. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, são os principais nomes especulados.
O economista, cientista político e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos afirma que esse anúncio é essencial para conter a volatilidade do mercado, pois a indecisão sobre os nomes para a Fazenda pressiona diretamente o preço dos ativos.
Bastos ressalta que a escolha não deve ser guiada apenas pelo pânico imediato nem se limitar à tentativa de acalmar o mercado com medidas de austeridade. Para o economista, o indicado precisa ter capacidade de articulação política com o Congresso para construir um planejamento fiscal sustentável, que preserve os investimentos públicos e amplie a arrecadação sobre as faixas mais altas de renda, sem abandonar o programa eleito nas urnas.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, entende que o anúncio de um titular da Fazenda com perfil técnico, com boa capacidade de articulação política para aprovar medidas e firmeza para suportar pressões internas passa um bom recado no campo do controle de gastos.
Tiago Sbardelotto, economista da XP, afirma que o anúncio da nova equipe econômica e a apresentação de um plano de reformas das contas públicas podem produzir efeitos positivos no mercado. Segundo ele, medidas que moderem o crescimento das despesas, como a desvinculação dos benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, poderiam contribuir para esse movimento. Esses temas, porém, provocam polêmica. _
Necessidade de clareza no ajuste fiscal e de indicações para o BC
Economistas citam a importância de a equipe econômica dar transparência ao ajuste fiscal. Detalhar o tamanho exato do ajuste previsto para o próximo ano aumenta a previsibilidade e diminui as incertezas, auxiliando na reacomodação dos ativos.
Sobre articulação com o Congresso, o economista da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos entende que seria importante o governo aproveitar a atual composição do Congresso para apresentar o desenho fiscal e aprovar o pacote de receitas ainda neste ano.
Isso porque o Congresso que tomará posse em fevereiro será mais hostil ao governo e tenderá a impor a agenda derrotada nas urnas, focada em cortes drásticos de despesas.
Além disso, a definição de nomes para outras pastas do próximo governo também pode reduzir as incertezas. O economista Gustavo Sung cita ainda as futuras indicações para a diretoria do Banco Central (BC), que podem influenciar a percepção do mercado sobre a condução da política monetária:
- É um ponto que as pessoas não comentam muito, mas são vagas que precisam ser preenchidas. Acho que, a depender também do direcionamento e de qual for o perfil a ser indicado, também pode dar uma sinalização positiva.
Bastos também entende que as indicações para o BC podem ajudar a reduzir o estresse e a volatilidade do mercado, mas avalia que não é o caso de fazer uma antecipação apressada. _
E as promessas de campanha?
Uma possibilidade para ampliar o controle das contas, embora pouco discutida, seria rever ou adiar algumas promessas de campanha que impliquem aumento de gastos, como a ampliação de benefícios sociais. A medida poderia sinalizar disposição para controlar as despesas, mas sua implementação enfrenta obstáculos políticos, segundo parte dos economistas. Gustavo Sung acha difícil o governo seguir por esse caminho.
Tiago Sbardelotto, da XP, afirma que rever algumas propostas, como a expansão do Pé-de-Meia para universitários, poderia ser melhor avaliada em termos de custo e benefício da política pública. Se for positiva, deve ser implementada de forma a compor o gasto mínimo de educação, reduzindo o impacto fiscal, segundo ele.
Outra ala de especialistas avalia que rever promessas de campanha contrariaria os eleitores que votaram confiando nesses compromissos. O economista Zahluth Bastos entende que o pânico momentâneo do mercado não pode definir a política fiscal de quatro anos nem anular o programa aprovado nas urnas.

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