Futuro do pretérito
Eu era fascinado na infância pelo filme A Máquina do Tempo (1960), adaptação dirigida por George Pal do romance de ficção científica de H. G. Wells. Na aventura que passava direto na TV, um cientista inglês criava em 1899 um dispositivo que lhe permitia viajar no tempo sem sair de sua casa em Londres.
O engenhoso George vai então para o futuro, primeiro maravilhando-se ao testemunhar a história se desenrolando diante dos olhos, depois espantando-se com os avanços tecnológicos e por fim horrorizando-se com a destruição ao seu redor causada pelas duas guerras mundiais e pelo que se assemelhava a um combate nuclear em 1966.
Chocado, o herói acelera para frente, a geringonça emperra e ele avança 800 mil anos, chegando a um mundo de aparência pré-histórica, dividido entre monstruosos humanos mutantes que vivem nos subterrâneos e uma linhagem de jovens ignorantes e ociosos habitando a superfície. Uma metáfora que serve não apenas para a sociedade vitoriana estratificada da época em que o romance foi escrito.
A aceleração crescente do tempo é uma característica da modernidade, contribuindo para a sensação atual de estarmos vendo a história passar voando na nossa frente - ainda ontem a gente escutava música em fita cassete e recebia telegrama, lembra?
No entanto, diferentemente da engenhoca criada pelo personagem vivido no cinema por Rod Taylor, a máquina do tempo da civilização ocidental engatou marcha à ré afu no novo milênio. Direitos sociais, liberdades individuais e valores progressistas, arduamente conquistados ou ao menos almejados desde o Iluminismo, são frontalmente atacados por ideologias políticas e sistemas econômicos que tendem à hegemonia em boa parte do planeta.
Por aqui a máquina do tempo virou montanha-russa: haja coração para aguentar a sucessão frenética de escândalos, imposturas, arbitrariedades e quejandos que a vida pública nacional nos apresenta no noticiário diariamente. No último domingo, a partir da divulgação dos resultados eleitorais, entramos no trem fantasma deste parque chamado Brasil: as redes sociais e o debate público repercutiram as manifestações de candidatos terrivelmente antidemocráticos chancelados pelas urnas.
Gente que vai para as ruas chicotear calçada, reverenciar ex-presidente golpista preso, elogiar torturador do regime militar, chamar indígena de canibal e declarar-se a maior inimiga mulher das feministas. A nação zumbi está crescendo e talvez já não dê mais tempo de embarcar naquele carro que leva de volta para o futuro. _
Nenhum comentário:
Postar um comentário